Notas iniciais
Hey, you! Cheguei com mais um capítulo! Boa leitura e inté as notas finais, chuchus!

Parece que se passou uma eternidade, mas foram apenas duas semanas. Misteriosamente, o tempo na Torre dos Vingadores simplesmente não transcorre como nos demais lugares do mundo. Ele se arrasta. Dia após dia, hora após hora, minuto após minuto.

Tenho procurado me manter sempre ocupada e socializar com o time de heróis o máximo possível, porém confesso que às vezes nem sei direito sobre o que eles estão falando.

Quando Tony conta uma piada, por exemplo, eu sou a última a rir. E faço isso sem ter entendido a referência. Sinto que estou quase desbancando o Capitão América neste ponto, o que é um feito e tanto, convenhamos.

Nos últimos dias, perdi as contas de quantas vezes agradeci a Pepper Fofa Potts por ter providenciado um quarto tão lindo para mim e cuidado de cada detalhe pessoalmente, a fim de me deixar o mais confortável possível.

Eu lhe disse que simplesmente amei tudo e fiz questão de sorrir largamente para convencê-la de que me sinto acolhida aqui. Todavia a verdade é que nada disso é como o meu lar doce lar.

Sinto falta do meu minúsculo cafofo e de ouvir o barulho frenético de Nova York da minha varanda — coisa que não acontece na Torre com toda sua proteção acústica.

Sinto falta das manchas de infiltração no teto do meu banheiro também, da minha adorada caminha e de acordar de madrugada com Loki aos pés dela, observando-me como o stalker tarado que é.

Por falar no dito cujo, a nossa estranha despedida ainda está vívida em minha mente, como se tivesse acontecido há apenas alguns minutos. Penso em tal cena o tempo todo. E me pego pensando também se aquilo foi mesmo uma despedida ou se estou exagerando.

Gostaria que fosse apenas um drama desnecessário, mas desde aquele fatídico dia, não estive mais com o gafanhoto. Ele não voltou a Midgard — nem mesmo na calada da noite preta para vigiar meu sono —, nem eu me arrisquei a dar um pulo em Asgard. Vontade não me falta, mas o orgulho me impede.

Isso mesmo, orgulho. Afinal, quem aquele trapaceiro irresistível pensa que é para me dar as costas e ir embora bancando o ofendidinho daquele jeito?

Ah, francamente! O que ele esperava que eu fizesse? Que o agarrasse como uma piriguete ensandecida, fosse voando para Asgard ao seu lado e passasse uma boa temporada por lá só na base do acasalamento híbrido mid-jotun, como se não houvesse amanhã?!

Oops... Até que não seria má ideia, hum? É uma ideia bem tentadora aliás. Por que patavinas eu recusei a oferta então?

Ao me fazer tal pergunta, meu rosto queima e meu corpo se aquece de um jeito engraçado. Minha respiração falha e meu coração dá um salto ao pensar melhor sobre o assunto. Paro de me mover e apenas este segundo de distração é suficiente para que algo me atinja em cheio, fazendo com que eu despenque como uma fruta madura.

Por sorte, o chão é acolchoado, perfeito para o treinamento que decidi retomar há alguns dias. Em parte para não pensar naquele ser de olhos verdes e sorriso displicente, em parte pela minha decisão de continuar na S.H.I.E.L.D. e de dar o meu melhor pela causa. Claramente, não estou me saindo muito bem nem em uma coisa nem em outra, mas pelo menos eu tento.

Zonza e sentindo a lateral do meu corpo formigar devido ao recente chute, inspiro dolorosamente e observo a figura ruiva e diva que surge no meu campo de visão.

— Você se distraiu, agente Mills. — Natasha Romanoff me estende sua mão, oferecendo ajuda para que eu levante. — De novo — ressalta com um leve tom de crítica.

Reviro os olhos e murmuro:

— Conte uma novidade, Dona Aranha.

Seguro sua mão e me ponho de pé num instante. Enquanto me recomponho e ignoro certas dores musculares, ela continua:

— Olivia, se quer mesmo que eu te treine, você precisa colaborar. Ajudaria muito se a sua cabeça pelo menos estivesse aqui. No que você estava pensando afinal?

Rio sem humor e disparo afiada como uma navalha:

— A pergunta correta seria em quem, mas algo me diz que você não quer saber realmente.

Natasha desvia o olhar e fica em silêncio. Ela parece pensativa, talvez esteja assimilando minha alfinetada — que aliás saiu sem querer, juro juradinho.

Nesse meio tempo, me dou conta do que expus e de como isso me afeta imediatamente. Admitir que ando pensando muito no Deus da Trapaça não me ajuda nem um pouco, convenhamos. Ao contrário, só me faz pensar ainda mais naquele traste nada lindo.

Ai, Jesus! Desfaz essa macumba poderosa! Nunca te pedi nada.

Desesperada para silenciar a saudade dentro de mim e me preservar a qualquer custo, decido mentir para a Viúva Negra e para mim mesma, articulando do jeito mais convincente que posso:

— Tudo bem, eu confesso! Eu estava pensando no Capitão.

Pense no Capitão, pense!

Um sorriso torto surge no rosto de Natasha, que cruza os braços contra o peito e rebate com um tom de incredulidade:

— É mesmo?

— É, sem sombra de dúvida! — confirmo sem conseguir fitá-la nos olhos. — Eu estava relembrando o nosso treinamento de ontem. Steve tentou me ensinar uns golpes, sabe? Mas tudo o que eu fiz foi abraçar o saco de areia entre nós e suspirar. Imaginando que fosse ele, é claro. Você já reparou naqueles músculos? São super músculos! Dignos de um super soldado mesmo!

Romanoff relaxa o corpo e replica ainda sem acreditar em mim:

— Você não vai me convencer de que está a fim do Steve.

— Por que não?

Rio como se isso fosse a mais pura verdade, porém claro que não fiquei secando meu amigo durante o treinamento, muito menos abraçando o saco de areia. Não fiquem chocados, mas sim, eu estou inventando alguns detalhes. Praticamente todos.

— Talvez eu esteja a fim dele... — Minha voz falha. Limpo a garganta e acrescento: — Lembra quando eu o agarrei?

— Sim. — A ruiva claramente controla a vontade de rir ao recordar o meu papelão. — E lembro também da sua motivação para agir daquela forma.

Eita... Agora Romanoff me pegou. Embora eu não tivesse consciência disso na época, a verdade é que só dei aquelas bitoquinhas marotas em Steve Rogers porque não queria admitir que já estava a fim de outra pessoa. De um deus nórdico aí, nada de mais...

Droga! Pensei em Loki de novo! Não, não e não!

— Precisa de motivação para agarrar o Capitão América? Bitch, please! — prossigo com meu teatro, e que Jessica Wally nunca saiba que eu disse isso sobre o seu velhote magia.

Natasha então arqueia uma sobrancelha, dando a entender que não está mesmo me levando a sério. Assim, decido mudar o meu discurso. Vou continuar mentindo, é claro, mas altero o objeto do meu desejo:

— Tudo bem, você me pegou. Não era com o Capitão que eu estava sonhando acordada, mas sim com... com o Bruce!

É isso! Estou pensando em Bruce! Bruce, Bruce, Bruce!

— Ele é tão fofo, não é? — Finjo um suspiro profundo. — Mas é meu amigo ao mesmo tempo, então eu não posso bancar a piriguete com ele — recrimino-me para então voltar atrás: — Posso?

Romanoff abre a boca e sinto que ela vai dizer, mais uma vez, que eu não estou sendo convincente. Sou mais rápida e disparo:

— Oh, certo! Você venceu! Não conte para ele que eu confessei isso, mas na verdade, eu estava pensando no Homem de Ferro.

Franzo o cenho e acho que faço uma careta sútil ao me dar conta do que falei. Acho que desta vez, fui longe demais.

Nada contra Tony Stark, que é bem gato, engraçado e indiscutivelmente inteligente, mas meus sentimentos por ele são apenas de amizade e admiração mesmo. De resto, pra mim ele é praticamente uma menina numa armadura. Rá! Uma menina!

— Em Stark? — Natasha busca confirmar, sorrindo de um jeito discreto e claramente se divertindo com minhas mentiras deslavadas.

Paciência... Agora é uma questão de honra. Vou até o fim. Preciso ser mais incisiva. E é o que tento fazer ao articular:

— Não me entenda mal, ele é meu amigo, apesar de me irritar muito às vezes, mas quer saber? Se eu tivesse o conhecido há alguns anos, antes de tudo isso, antes da Pepper, quando ele passava o rodo em qualquer coisa que se movimentasse, eu acho que teria caído nas suas garras também. Tony é charmoso, não dá para negar, e eu não sou nenhuma santa.

— Olivia...

— Clint! Eu estava pensando no Clint! Pronto, falei! — grito afoita, sem me importar em mudar de crush a cada dez segundos. — Quando ele dispara suas flechas, eu só consigo imaginar aqueles braços fortes e definidos em volta de mim e... — Paro de falar e encontro o olhar semicerrado da Viúva Negra cravado no meu. — Eu não devia falar sobre Clint com você, certo?

Sorrio amarelo, dando-me conta da gafe. E também do perigo de vida que corro.

Natasha, por sua vez, me encara de um jeito mais firme e diz com um leve tom ameaçador:

— Não mesmo. Pelo menos não desta forma.

Receosa e querendo deixar claro que eu não estou interessada no Gavião Arqueiro de verdade — ou seja, que tenho amor a minha vida e não sou louca de paquerar o bofe da Viúva Negra —, dou uns tapinhas em seu ombro e esclareço com cautela:

— Eu só estava brincando, okay? Ele é todo seu, chuchu. — Expiro com desânimo e retomo: — Deixe-me adivinhar. Se eu disser que tenho uma queda pelo Thor, você também não vai acreditar em mim, não é?

Romanoff não responde de imediato. Ao invés disso, me analisa por algum tempo e fica pensativa, como se estivesse escolhendo as melhores palavras. Na sequência, ela finalmente se manifesta:

— Olivia, nós duas sabemos muito bem em quem você anda pensando. E eu posso não ser uma grande fã dele, e sei que não fiz questão de esconder isso nos últimos tempos, mas eu acho... eu acho que você precisa resolver essa situação.

— Oi?!

Não consigo disfarçar a surpresa que me atinge quando absorvo o significado de suas palavras. Natasha Romanoff está mesmo sugerindo que eu vá atrás do gafanhoto? Desde quando ela me shippa com aquele mequetrefe?

Talvez percebendo como eu a interpretei, ela rapidamente faz pouco caso e se justifica:

— Eu só estou dizendo isso porque essa situação mal resolvida está afetando o seu treinamento. E... você pessoalmente. Além disso...

A Vingadora diva não consegue prosseguir. Parece engasgada com as próprias palavras, insegura se deve concluir o raciocínio ou não. Resumindo: tenho certeza que ela quer confessar alguma coisa, porém o seu orgulho a impede.

Decido incentivá-la, praticamente sussurrando:

— Além disso...?

Natasha respira fundo e ainda hesita por um momento, até que finalmente expõe o que está matutando em sua cabecinha ruiva:

— Eu andei pensando no que você disse. E... talvez você esteja certa. Os Vingadores não estão agindo com muita lógica no que diz respeito a Loki. Eu quero dizer... Nós te demos uma missão e tanto há pouco tempo, e você topou sem pestanejar. No fim, você conseguiu libertar Loki daquele bracelete e isso deve significar alguma coisa. Muita coisa. O que nós temos feito desde então, nossa implicância e desconfiança... — Natasha cruza os braços, reluta um pouco mais, porém finalmente engole o orgulho e conclui: — Nada disso tem sido justo. Eu lamento. Nós lamentamos, na verdade.

Cri Cri Cri...

Quase ouço o som de grilos se propagando no ar à medida que assimilo tudo o que ouvi. A princípio, pergunto-me se entendi direito, depois se Romanoff está falando sério e, por fim, resolvo acreditar em suas palavras.

Mesmo assim, fico sem reação por mais algum tempo. E quando finalmente desperto do estado catatônico, o que digo é:

— Eu preciso treinar.

Afasto um pouco as pernas, flexiono os braços na frente do corpo e cerro os punhos, colocando-me em posição de combate. Entretanto, a Viúva Negra não acata o meu chamado para mais uma rodada de luta corporal. Ao invés disso, verbaliza confusa:

— Eu admito que você tem razão e tudo o que você diz é que precisa treinar?

— Eu preciso treinar justamente porque você disse que eu tenho razão. É demais pra minha cabeça — explico, meio desnorteada. — Desculpe, mas eu não esperava por isso. E acho até que... preferia tudo como era antes. É! Isso aí! É mais fácil me afastar do gafanhoto, se os Vingadores estiverem do meu lado.

Prontamente, a ruiva reitera:

— Nós estamos do seu lado. É por isso que eu estou lhe dizendo essas coisas. — Após um momento me observando intrigada, ela questiona: — Olivia, por que você está agindo assim?

É uma ótima pergunta. Por que raios eu estou agindo desta forma? Natasha Romanoff admite que Loki pode ter mudado e dá a entender que os demais membros da equipe concordam com ela, e eu não estou soltando fogos de artifício com tal progresso?

A explicação para minha postura vem assim que penso melhor no assunto. Então relaxo o corpo e exponho:

— Acontece que não foi por causa dos Vingadores ou do que vocês pensam sobre o gafanhoto que eu me afastei dele. Claro que saber que vocês finalmente estão dispostos a ver o que eu vejo é um alívio e tanto, mas eu deixei Loki ir embora porque... ele não aceita a minha decisão de continuar na S.H.I.E.L.D., de fazer a diferença de alguma forma, ele não me apoia. — Expiro com força e completo entredentes: — Para um deus que se acha tão superior, aquele trapaceiro de uma figa tem sido muito machista ultimamente, um verdadeiro homem das cavernas. E isso me irrita profundamente.

Um silêncio sepulcral se instala na sequência e noto algo atípico no semblante de Natasha. Tomada pela surpresa e certa incredulidade, arrisco:

— Por acaso você vai defendê-lo?

Imediatamente, a Vingadora arregala os olhos e nega no susto:

— Não! — Ela ri brevemente e emenda: — Eu estou disposta a dar um voto de confiança a Loki, mas também não é para tanto. Eu... entendo o seu ponto de vista, Olivia.

Mais um silêncio significativo no ar. Mais uma vez, percebo algo diferente no olhar de Natasha. Algo que me leva a indagar:

— Mas você entende o lado dele também, não é?

Após pensar um pouco, ela responde pausadamente:

— Eu entendo que Loki se preocupe com você. Ele pode não demonstrar isso do jeito certo, mas está claro que se importa com a sua segurança.

Papagaio... O que está acontecendo aqui? Não acredito que estou tendo essa conversa com a Viúva Negra. Não acredito que ela saiu da defensiva e está me dizendo essas coisas.

Mesmo surpresa, resolvo entrar na onda de uma vez e pergunto:

— Eu nunca pensei que fosse lhe pedir conselhos amorosos sobre Loki, mas o que você acha que eu devo fazer então?

— Não é um conselho amoroso — Natasha faz questão de esclarecer com um dedo em riste, e em seguida insinua: —, mas... você conseguiu convencê-lo a ajudar uma senhora a atravessar a rua, Olivia. E a lavar louça. Algo me diz que é totalmente capaz de convencê-lo de qualquer coisa. Inclusive a aceitar que não pode interferir nas suas decisões, mesmo que não concorde com elas.

Pisco algumas vezes, assimilando seu argumento. No fundo, sei que Natasha está certa. Pelo menos em parte. Eu poderia ter tentado um pouco mais e amansado a fera. Eu poderia tentar novamente, até Loki parar com essa palhaçada e mimimi desnecessários. Algo me diz que desisti dele rápido demais e me sinto péssima por isso.

Por outro lado, preciso pensar antes de tomar qualquer atitude. De uma forma que eu mesma não compreendo muito bem, Loki me magoou. Feriu o meu orgulho e fez com que eu me sentisse mal apenas por querer fazer a coisa certa da minha vida. No caso, ser uma agente exemplar e ajudar o mundo de alguma forma. Da melhor forma que eu puder.

Ir atrás do dito cujo agora irá trazer esse sentimento à tona de novo e pode piorar as coisas.

— Eu preciso pensar — manifesto-me, rompendo mais um longo silêncio. — Vamos treinar enquanto isso, okay? — proponho, dando um toque em seu ombro.

É então que algo estranho e inesperado acontece, deixando-me atônita e passada na manteiga. Esse mísero e sútil empurrãozinho é suficiente para desequilibrar Natasha Romanoff. Mais do que isso, faz com que ela dê uma de Olivia Mills e caia sentada no chão.

— Ai, meu Deus! — Levo as mãos à boca por um instante, atônita com o que fiz e por se tratar da Viúva Negra. — Eu sou uma mulher morta? Desculpe, desculpe, desculpe! Foi sem querer! Você está bem? Machucou?

Para sorte do meu pescocinho, ela não parece zangada nem machucada — ufa! —, mas sim perplexa, atordoada e mais perdida do que cego em tiroteio.

— Como... — Erguendo-se do chão e sem desviar o olhar do meu, Natasha questiona séria: — Como você fez isso?

— Isso o quê? — faço-me de desentendida, pois não sei o que lhe dizer.

Tudo bem, eu desconfio que tem algo de diferente em mim desde o dia em que empurrei Grant Ward para o outro lado de minha sala com uma força descomunal. Também desconfio que isso está diretamente ligado ao meu DNA alienígena. Apesar disso, não consigo falar abertamente sobre o assunto. Não sei o que isso significa, aonde vai dar ou como irão me enxergar se esse... poder evoluir de alguma forma. Estou receosa — lê-se: com medo — e fingir que o problema não existe pode até não ser o ideal, mas é a única coisa que consigo fazer agora.

— Você me derrubou — Natasha destaca, despertando-me desse pensamento.

Tentando disfarçar meu nervosismo, replico:

— Sinto muito, você... se distraiu, agente Romanoff! Só isso. — Solto a respiração presa em minha garganta e acrescento: — Não se preocupe, eu não vou contar para ninguém. Se você também não mencionar o assunto, é claro...

Bom trabalho, Olivia Mills... Não soou nem um pouco suspeita.

— Foi um empurrão e tanto — a Viúva Negra insiste no assunto, deixando-me ainda mais tensa. — Eu não sabia que você era tão forte.

— Eu não sou! — respondo rápido. — Nem estou ficando, se é o que você está imaginando. — Franzo o cenho, sentindo que falei demais, e pergunto retoricamente: — Você não estava imaginando isso, estava?

Minha Nossa Senhora Padroeira das Midgardianas Híbridas! Como eu saio dessa saia justa? Não quero mentir para Natasha, tampouco subestimar sua inteligência, porém também não quero ter essa conversa. Pelo menos, não hoje, não agora, não nessa encarnação. Como lidar?

— Olivia... — ela recomeça, deixando claro que não vai facilitar o meu lado até ter suas perguntas devidamente respondidas.

É então que ouvimos uma sequência de batidas na porta, que logo é aberta. A figura de Clint surge na soleira e eu respiro aliviada — discretamente, para não levantar mais suspeitas.

— Ei, Sweetheart. Ocupada? — Ele sorri para a Viúva Negra.

Na ausência de resposta, ele olha para mim e depois para ela novamente, estranhando o silêncio entre nós, talvez se perguntando se interrompeu algo importante.

Epa! Fui salva pelo gongo!

Percebendo isso, apresso-me em dizer:

— Não! Ela está totalmente disponível agora. — Caminho até a porta, acrescentando: — Ela sempre está disponível para o seu noivinho querido, não é, Nat?

Mal olho para trás e a Dona Aranha diz:

— Eu pensei que você quisesse treinar, Olivia.

Claro que ela não quis dizer treinar, mas sim conversar sobre o empurrãozinho de nada que eu lhe dei.

Decido me fazer de desentendida mais uma vez. Enquanto passo por Barton, falo rapidamente, sem dar espaço para qualquer interrupção:

— Eu também pensei, mas quer saber? Acho que já apanhei demais por hoje. Podemos continuar amanhã? Ótimo! Tchauzinho, pombinhos!

Saio da sala de treinamento em disparada e caminho apressada pelo corredor. Posso sentir o olhar desconfiado do Gavião Arqueiro cravado em minhas costas e, apesar da distância, ouço perfeitamente quando ele pergunta para a sua girl magia:

— O que deu nela? Aconteceu alguma coisa?

Infelizmente, Clint fecha a porta na sequência e eu viro no próximo corredor. Não consigo ouvir a resposta de Natasha. Mas espero, pelo amor dos unicórnios, que ela seja discreta e não comente nada sobre o meu possível poder com ele. Nem com ninguém.

***

Depois de tomar um longo banho, passo o resto da manhã e parte da tarde enfurnada no quarto de hóspedes, fingindo que o incidente na sala de treinamento não aconteceu.

Para me lembrar que aquilo ocorreu sim, Natasha bateu à porta do quarto três vezes e anunciou que ia entrar. Quando fez isso, me encontrou "desmaiada de sono".

Não "acordei" por nada nesse mundo. Mesmo com sua insistência em me chamar a cada dez segundos, mantive-me firme. Em dado momento, respirei mais alto, praticamente ronquei, dando a entender que estava mesmo em um sono profundo.

Sabe de nada, inocente... Rá!

Sem alternativa, Natasha desistiu de me importunar com o meu novo assunto proibido. Ao menos por ora. Mas em algum momento, eu terei que sair deste quarto e correrei o risco de esbarrar com ela por aí.

Irritada, respiro fundo e afasto o edredom que me aquecia até então. A verdade é que estou exausta de ficar presa nesse quarto e varada de fome.

Espero não encontrar Natasha na porta, pelos corredores, só esperando por uma oportunidade para pular na minha frente e conversar comigo, mas vou sair daqui. É agora ou nunca. Seja o que Deus quiser.

Pulo da cama e me surpreendo ao perceber que meu corpo não está mais dolorido em virtude do último treinamento. Acho que estou começando a me habituar ao ritmo. Ou talvez... desenvolvendo algum tipo de resistência muscular.

Afasto esse pensamento e alcanço a porta. Hesito antes de abrí-la, mas finalmente o faço. Apenas uma fresta, é claro, afinal o seguro morreu de velho e eu não sou idiota.

Então, a la Pinguins de Madagascar, espio o corredor e aos poucos abro mais a porta, bem devagar, centímetro por centímetro, esgueirando-me.

Por fim, saio totalmente e caminho devagar, atenta a qualquer ruído ou movimentação que possa surgir pelo trajeto. Fazendo o menor barulho possível e contando os passos, viro no próximo corredor. E mais um. E novamente. O próximo é mais extenso. Desço alguns lances de escada depois. Evito o elevador, pois acredito que seria mais fácil esbarrar com Romanoff assim, coisa que eu não quero que aconteça tão cedo.

Apresso o passo ao perceber que estou perto da cozinha. Quase chegando. Meu estômago ronca com urgência.

Olho para trás para me certificar de que não estou sendo seguida. Não estou. Quando torno a olhar para a frente no entanto, alguém surge. Nossos corpos se esbarram num choque doloroso.

— Ai! Mas que marmota é essa?! — reclamo, massageando meu ombro recém-atingido.

— Gata...?

Reconheço a voz amigável e doce. Ergo o olhar em sua direção. Que saudade!

Esboçando uma careta, meu querido amigo também se recupera como pode do nosso esbarrão desengonçado e abrupto.

Tomada por uma felicidade genuína, pulo em seus braços e exclamo:

— Josh!

— Em carne, osso e purpurina — ele brinca, retribuindo meu abraço e rindo da minha reação. — Como você está, Liv? — pergunta com um tangível tom de preocupação.

— Bem, bem, bem! — respondo no piloto automático.

Só então me dou conta de que não o vejo há mais de uma semana. Ele e Amy vieram me visitar uma única vez, quando me recuperei por completo. E parece que isso foi há um século — afinal, o tempo se arrasta por aqui.

Por falar nos dois, quando Grant Ward tentou me sequestrar e foi detido por... Loki, a S.H.I.E.L.D. passou a se preocupar não só com a minha segurança, mas também com a dos meus amigos.

Amy e Josh estão sob constante vigilância desde então. Agentes especializados da S.H.I.E.L.D. têm sido suas sombras vinte e quatro horas por dia. Afinal, se a HYDRA estava me stalkeando, com certeza sabe como os dois são importantes pra mim e podem usá-los para me atingir.

Cruzes! Não quero nem pensar numa coisa dessas!

— A que devo a honra desta visita? — pergunto, soltando-o e sorrindo com o olhar. — E que roupa é essa, meu filho?

Meço meu amigo da cabeça aos pés. Ele está vestindo um conjunto claro de bermuda e camiseta, além de tênis esportivos. O figurino não me é estranho, porém só entendo por que Josh está vestido assim quando ele explica:

— Ideia de Christian... — Ele fica corado ao pronunciar tal nome, pigarreia e continua: — Nós íamos jogar tênis aqui perto. Era para ser um encontro a quatro, mas infelizmente o pretendente da Amy furou com ela.

— Oh não... Ela deve estar arrasada — lamento, lembrando-me da última mensagem que troquei com minha amiga.

Na ocasião, Amy me contou que tinha tomado coragem e convidado um colega da faculdade para sair. Empolgada, disse-me ainda que não tinha nada a perder e que o dito cujo era bem gato. Imagino como ela deve estar se sentindo para baixo agora.

— Sim, ela está mesmo — Josh confirma com um olhar distante e triste. Em seguida, volta a si e retoma: — Então eu sugeri fazer essa visitinha, ver como você estava, mas...

— Na verdade, você quer ajuda para distrair Amy e tirá-la da bad, certo? — deduzo.

Meu amigo assente com um breve meneio de cabeça e, na sequência, faz questão de esclarecer:

— Não significa que eu não vim por você também, gata. Eu estava com saudade. Desculpe por não ter aparecido mais, eu imaginei que você estava ocupada com o treinamento.

— Tudo bem, o importante é que está aqui agora — tranquilizo-o, pois estou realmente feliz com sua presença. Sinto-me em casa de novo. — E o seu boy magia? Veio junto?

Josh disfarça um sorriso e balança a cabeça afirmativamente algumas vezes.

Não resisto e o provoco:

— Tente não ficar muito bobo perto dele, okay?

Depois de suspirar — provavelmente sem notar que fez isso — Josh confessa:

— É meio difícil, mas eu vou tentar. Às vezes eu me pergunto o que fiz para merecer um bofe desses. Christian é tão... maravilhoso...

Um riso escapa da minha garganta diante do semblante apaixonado dele e da forma como se refere ao namorado.

— Eu estou com cara de bobo, não estou? — Josh franze o cenho, constrangido e conformado ao mesmo tempo.

— Bobo ao cubo — confirmo, rindo. — Relaxa — tento tranquilizá-lo e então recomeço: — O que você tem em mente?

Enquanto se posiciona ao meu lado e entrelaça meu braço, ele sugere:

— Cozinha, guloseimas, muitas calorias e talvez assistir a um filme ou uma série? O que você acha?

Arregalo os olhos, praticamente arrasto meu amigo pelo corredor e respondo esfomeada:

— Você me ganhou quando disse cozinha. Simbora, my friend!

Assim que empurramos a porta dupla metálica e adentramos a enorme e equipadíssima cozinha da Torre, meu coração para. Não pela alegria de rever Amy — muito fofa com sua roupa a la Serena Williams —, ou por constatar como meu terapeuta fica ainda mais gato com os trajes de tenista que lhe caem perfeitamente bem. Meu coração para, congela, porque os dois não estão sozinhos aqui.

Eu já havia a reconhecido bem antes, por conta da sua inconfundível cabeleira ruiva. Mas quando ela gira a cadeira, rompendo o contato visual com Amy e Christian atrás do balcão, encontrando o meu olhar estagnado e cravando-se nele de um jeito significativo, eu tenho a confirmação: Romanoff.

— Vejam, só. A dorminhoca finalmente acordou — ela insinua, transmitindo perfeitamente o recado.

Vixe, gente... Deu ruim.

Notas finais
Antes que alguém pergunte "Mas e o Lokito? Quando Lokivia vai se reencontrar? Quando vão se entender?" kkkkkk Eu digo, take it easy, okay? A fic está numa fase chamada "mudança de marcha", e nessa fase eu irei trabalhar mais o treinamento da Olivia, sua relação com os demais personagens, o seu possível poder, além de preparar a trama para outra fase... na qual teremos uma big reviravolta. Isso significa que não teremos Lokivia tão cedo? Calminha lá que não é para tanto. Ainda nessa fase vai rolar reencontro sim, provocações sim, muita confusão siiiiiiiiiiiim!!! Aliás, eu estava ouvindo uma musiqueta essa semana e fiquei pensando no casalzinho teimoso: I won't give up, do Jason Mraz. Jesus amadinho... Ouçam e sonhem com Lokivia enquanto eles estão com essa birra aí. No mais aguardem e confiem nessa maluca, okay? Gostaria muito de atualizar a fic com mais frequência, porém tenho outra longfic em andamento e estou aprontando uma Priscillice aí eheheheheh Se der certo, eu conto o que é. Beijos de luz e inté os reviews! Próxima atualização: em duas semanas.