Trapaças do Coração
30 De volta às origens
Notas iniciais
Ouço passos se aproximando pelo corredor e logo vejo a silhueta do meu irmão através do vidro que isola o laboratório — mais silencioso do que nunca — de Bruce Banner. Foi para cá que vim depois do primeiro contato — desastroso, aliás — com aquele que diz ser o meu pai, J’son de Esparta. Grande coisa...
Encolhida em um canto da moderna ala, enxugo o rosto e observo quando Peter empurra a porta e entra com uma expressão que mistura alívio e culpa. Alívio por finalmente ter me encontrado, e culpa, de certo, por não ter me avisado que a Torre dos Vingadores estava hospedando presença tão ilustre.
Sim, ainda estou com raiva. Com a macaca, melhor dizendo! Porém, de alguma forma, também estou um pouco mais calma e disposta a ouvir o que o meu irmão tem a dizer em sua defesa.
Enquanto se acomoda ao meu lado no chão, ele rompe o silêncio:
— Que bom te encontrar aqui. Por um momento, eu pensei que você tivesse saído feito uma maluca e estivesse zanzando com essa roupa asgardiana em plena Nova York.
Por instinto, olho para os meus trajes por um breve instante. Prova irrefutável da minha urgência em me afastar de Asgard, em virtude daquele papo estranho de Odin sobre casamento.
Afasto essa lembrança e volto a fitar a parede de vidro adiante. Permaneço mais muda do que o Dunga da Branca de Neve, o que leva Peter a tentar quebrar o gelo de novo:
— Eu fiquei preocupado. Ouvi dizer que você foi atropelada por uma bicicleta uma vez.
Fecho os olhos e amaldiçoo a única criatura que poderia ter contado para o meu irmão sobre esse trágico e vergonhoso incidente: Tony Fofoqueiro Stark, é claro, o linguagudo-mor.
Afasto esse pensamento também, pois percebo que nada disso importa no momento. E embora Peter não esteja merecendo muita consideração da minha parte, sinto-me mal por ficar indiferente as suas tentativas de diálogo. De certo, está querendo se explicar. Então respiro fundo, abaixo a guarda e resolvo interagir:
— Eu ia sair sem rumo certo mesmo. Mas aí... eu lembrei dos meus bacuris e hesitei. Não que eu estivesse prevendo ser atropelada por uma bicicleta de novo, mas eu não quis arriscar sair assim, tão nervosa. O laboratório do Bruce me pareceu uma alternativa bem mais segura. Um bom lugar para me acalmar e colocar a cabeça em ordem.
Peter hesita, mas enfim pergunta:
— Funcionou?
Esboço um sorriso torto e deixo a resposta subentendida:
— Bem, eu estou falando com você, não estou?
Um sorriso amarelo surge em seu rosto.
— Foi mal por não ter contado sobre o novo hóspede da Torre. Eu ia te falar dele antes de qualquer coisa, juro, mas então teve o atentado de Ultron, de repente você estava em Asgard e eu não esperava que fosse voltar para cá tão cedo. Eu não tive tempo hábil para te contar ou te preparar, foi isso.
— Tudo bem.
Aceito sua justificativa ao perceber que ela faz todo o sentido. Peter não sabia que eu ia voltar para Midgard assim, de repente, não mais que de repente. Ele estava crente que teria tempo o bastante para conversar comigo e preparar o terreno para o fatídico encontro. E apesar da nossa breve discussão a respeito do meu desejo de adiar isso, está claro para mim que ele também não esperava que J’son fosse surgir na sala daquela forma. Peter não quis forçar uma situação, disso eu tenho certeza.
Sendo assim, não posso ficar com raiva dele. Não fico. Quando dou por mim, já estou segurando sua mão ao lado da minha no chão e sorrindo amigavelmente. Peter retribui da mesma forma.
— E então? — indaga de súbito, e sei exatamente do que está falando.
Solto sua mão e me esquivo:
— Eu não quero falar com ele. Talvez eu nunca queira.
— Liv...
Antes que Peter tente me convencer do contrário, exponho com sinceridade:
— Eu juro que não é só a minha teimosia falando mais alto. É que eu me dei conta que conhecer o meu pai biológico não vai mudar o que aconteceu. Pior, só vai me fazer remoer ainda mais o passado, lembrar que a minha mãe teve uma filha sozinha, que foi iludida por um aventureiro qualquer, que a minha existência foi totalmente ignorada e que eu briguei, inúmeras vezes, com a minha avó por causa dele. Por causa de alguém que não merecia a minha atenção. Que não merece. Me julgue, mas é assim que eu penso, é assim que me sinto.
Termino de falar, e a voz do ET de Varginha ressoa pelo laboratório:
— Eu não te julgo. Na verdade, eu entendo e lamento muito pelo sofrimento que causei.
Interrompidos pela segunda vez e pela mesma criatura, Peter e eu olhamos em sua direção automaticamente. O pai do ano está parado na soleira da porta e não sei há quanto tempo está nos bisbilhotando.
Revoltada, desvio do seu olhar de Madalena arrependida e sussurro para meu irmão:
— Alguém tem que ensinar regras básicas de educação pra esse aí.
— Eu juro que mandei ele esperar e não me seguir — Peter apressa-se em esclarecer, também aos sussurros. — Mas ele é o cara mais poderoso de Spartax, o topo da pirâmide, o Imperador, não costuma ser anunciado.
— Que fofo! Desse jeito eu vou virar fã desse mané — ironizo, incomodada, elevando a voz sem perceber.
O ser prepotente e enxerido tem a cara de pau de pigarrear, chamando nossa atenção de novo. Em resposta, fuzilo-o com um olhar nada bonito.
Apesar disso, o choque inicial passou e já que a criatura insiste tanto em falar comigo, talvez eu deva abrir uma exceção na minha movimentada agenda para atendê-lo por alguns segundos.
Algo me diz que quanto mais eu fugir, mais ele e Peter insistirão no assunto mesmo. Não vai demorar muito e aposto que os Vingadores também me encherão os pacovás a respeito. Sem falar no Dr. Gato Patel, que certamente seria a favor de colocar as cartas na mesa agora mesmo.
Talvez eu deva ouvir logo o que J’son tem a dizer — ou melhor, fingir que estou prestando atenção — e me livrar desta maldita saia justa. Ninguém mais vai pegar no meu pé se, depois de "escutar" a explicação dele, eu dispensá-lo definitivamente, anulando qualquer relação que ele esteja esperando estabelecer comigo. Tolinho!
Com essa ideia maligna na cachola, não me oponho quando Peter me encara hesitante, perguntando silenciosamente se é seguro me deixar a sós com o dito cujo. Antes de se levantar e sair do laboratório, ele me dá um beijo na testa e sussurra:
— Mantenha a calma, maninha.
— Calma? Mas eu já estou calma, chuchu.
E fria como uma pedra de gelo. É incrível como consegui canalizar toda a minha raiva desta forma, fingindo-me de morta e indiferente. Acho que, de certa forma, aprendi o truque com o mestre das trapaças.
Ótima hora para lembrar do gafanhoto, Olivia Mills. Parabéns.
Ainda estou pensando nele quando o ET de Varginha dá alguns passos à frente, entrando de vez no laboratório de Bruce, para diante de mim e pergunta todo meigo:
— Posso me sentar ao seu lado?
Estreito o olhar.
— Se esse simplório chão midgardiano for digno do seu traseiro imperial e espartano, por que não? Fique à vontade.
Sarcasmo. Outra forma de sair por cima da carne seca que eu adoro! Ajuda a disfarçar minha fragilidade diante de uma situação e deixa o interlocutor bem sem graça. Toma, distraído!
Entretanto, para minha surpresa, a estratégia não funciona. J’son não se abala nem um pouco com minha provocação. Tampouco coloca a viola no saco e sai de fininho, como eu gostaria que fizesse. Ao invés disso, senta-se ao meu lado sem cerimônia. As mãos unidas entre os joelhos. Todo trabalhado na humildade.
— Peter me alertou sobre você. Disse que é muito espirituosa.
Afasto-me um pouco e rebato:
— O que mais aquele cabeça de vento te disse? Oh! Já sei! Aposto que contou que eu estou grávida.
Arre-égua! Pela expressão de esquilo dramático que o pegador das galáxias transparece agora chego à conclusão de que me enganei feio. Ele não sabia deste "pequeno detalhe" sobre a minha atual condição. E eu nem sei ao certo por que decidi jogar a informação no ar assim.
Mas como eu ia prever que J'son não tinha conhecimento de nada? Até então, todo mundo soube antes de mim. Pensei que não seria novidade alguma.
— Você está... grávida? — Ele olha da minha barriga para o meu rosto, estupefato.
Enxergando nisso uma oportunidade de alfinetá-lo de novo, confirmo o babado:
— Estou sim, e de gêmeos. Chupa essa manga! O pai é um alienígena, sabe? Soa familiar para você? — Após uma pausa, ressalvo: — Não, não é justo fazer essa comparação. Loki não é como você, não me abandonou quando soube.
Finalmente despertando do choque, o ET de Varginha se defende:
— Eu não abandonei a sua mãe. Não dessa forma que você está imaginando, pelo menos. Eu só não sabia que ela havia ficado grávida.
— Dá na mesma! — esbravejo, deixando a raiva falar mais alto. — Você podia até não saber que ela estava grávida, mas com certeza sabia que minha mãe tinha sentimentos por você. E foi embora mesmo assim, sem olhar para trás, como um bocó.
Como eu imaginei, remoer esse assunto mexe comigo de um jeito incômodo, pessoal e profundo, reabrindo feridas que tentei ignorar por muito tempo, mas que agora se mostram extremamente sensíveis e latentes.
J’son, por sua vez, parece chocado com meu último elogio.
Paro de encará-lo quando minha visão fica muito embaçada. Resisto a vontade de desabar e me ergo do chão. Dou-lhe as costas ao me afastar alguns passos. Pisco algumas vezes e, não sei como, consigo me recompor.
Um longo e sepulcral silêncio se arrasta até que ouço-o se levantar também e recomeçar de um jeito calmo, porém firme:
— Eu sei que você está com raiva, magoada, pensando mil coisas ao meu respeito. Mas eu vim de muito longe para tentar acertar as coisas e não vou embora enquanto você não me deixar ao menos tentar. Diga-me, Olivia, essa é a postura que um bocó costuma assumir?
Sou obrigada a repensar minha postura e meus preconceitos diante deste argumento. Afinal, se J'son não se importasse nem um pouco com a história que teve com minha mãe e, em consequência, com o fato de ter uma filha, ele não teria se dado ao trabalho de cruzar o espaço e anos-luz para chegar a esse pequeno planeta azul e conversar comigo. Além disso, minha avó costumava dizer que todo mundo merece uma chance de se explicar, por mais difícil que seja relevar alguns erros e manter a mente aberta.
Por tudo isso, viro-me em sua direção, cruzo os braços contra o peito e assinto com uma alfinetada:
— Tudo bem. Desembucha, Pegador das Galáxias.
J'son parece não entender o que eu quis dizer com isso. Certamente, pegador não deve ter a mesma conotação, ou seja, o duplo sentido, em seu planeta. Então, após alguns instantes me encarando como alguém que espera um esclarecimento sobre uma gíria desconhecida, ele se dá por vencido e retoma o assunto principal em jogo:
— A primeira pergunta, que eu creio que você sempre se fez, é por que eu me envolvi com Marie Mills. Eu não me orgulho de admitir isso, mas a resposta é... por causa de Meredith Quill.
Algo me diz que eu não vou gostar desta história, mas é a minha história e sei que devo ouvi-la de uma vez. Por isso, permaneço em silêncio e de ouvidos atentos.
— Eu me envolvi com a mãe de Peter primeiro, como você bem sabe. Minha nave havia caído na Terra, ela me encontrou, me acolheu e... uma coisa levou a outra. Porém, por mais que eu gostasse dela, Spartax era o meu lugar. Ainda mais porque era um momento conturbado, de guerra, meu império precisava de mim. Então eu tive que deixá-la. — O ET de Varginha faz uma pausa, fica pensativo, com um olhar distante, e prossegue: — Algum tempo depois, com a situação mais pacífica, eu resolvi visitar a Terra. Eu não sei o que pretendia exatamente; agi por impulso, só queria ver Meredith. Foi então que houve um terrível mal-entendido. Eu pensei que ela estava com outro e que havia tido um filho com o sujeito. Só meses depois, eu descobri que o homem que vi à distância, ao seu lado e do pequeno Peter era, na realidade, um primo que estava de passagem por sua fazenda.
Desta vez, não consigo ficar quieta. Querendo saber qual foi o papel da minha mãe nessa história toda, arrisco:
— Deixe-me adivinhar. Nesse meio tempo, entre o mal-entendido e descobrir que foi um idiota ao tirar uma conclusão precipitada, você conheceu a minha mãe e pimba!
J'son franze o cenho e questiona confuso:
— Como assim "pimba"?
Não explico, apenas aguardo ele desistir de entender certas referências e ir direto ao que interessa: confirmar ou negar minha teoria.
— Bem, de fato, foi nesse meio tempo que eu conheci Marie, sim.
— Ela foi o seu prêmio de consolação? — resmungo, possessa.
Desta vez, parece que J'son entendeu o meu ponto, já que se mostra ofendido e retruca firme:
— Um ombro amigo, alguém que me apoiou num momento confuso, uma mulher especial cujo caminho eu me arrependo de ter cruzado. Não por mim, mas por ela. Sem dúvida, Marie merecia alguém melhor do que eu.
— Nisso nós dois concordamos — afirmo em tom de afronta, erguendo o queixo, embora no fundo minha vontade seja de me encolher em posição fetal. — Você a amava? Ao menos um pouco? — indago com um fio de esperança.
— Sim. Muito, não pouco.
Sua resposta direta e afirmativa me deixa surpresa. Achei que tinha matado a charada, que o que eu imaginava a respeito do meu pai biológico era verdade — que ele nunca amou minha mãe —, mas agora não estou entendendo mais nada. Como assim "sim" e “muito”?
Talvez percebendo minha expressão de cega perdida em tiroteio, J'son se explica melhor:
— Eu amei a sua mãe tanto ou mais do que amei Meredith Quill. As duas eram mulheres fabulosas e especiais. Infelizmente, com um péssimo gosto para homens.
— Nisso eu concordo também.
Ignorando minha milésima provocação, ele prossegue:
— Mas a forma como as coisas aconteceram com sua mãe... foi muito errado da minha parte. Eu me deixei levar, ficando na Terra mais tempo do que deveria, e permiti que ela se envolvesse também. Tudo isso porque eu estava ferido, acreditando que Meredith havia me esquecido e seguido em frente. Desesperado para fazer o mesmo, eu me apaixonei. Por mais que meus sentimentos por Marie tivessem se tornado reais e fortes, quando descobri toda a verdade sobre Meredith e meu filho, eu não sabia mais como encará-la. Então eu parti. Sem olhar para trás, como você disse. Não porque eu não me importava com sua mãe, não porque eu não quisesse levá-la para Spartax comigo, não porque foi fácil abandoná-la, mas porque eu me dei conta de que não a merecia de verdade. Eu era um homem complicado e imaturo. No meu orgulho, também não queria que ela descobrisse a verdade sobre mim e se desapontasse.
Demoro um pouco para assimilar tudo o que ouvi. Embora uma parte de mim se sinta melhor por minha mãe, mesmo de um jeito torto, ter sido amada, isso não muda o fato de que, no fim das contas, ela foi deixada para trás porque J'son percebeu que foi injusto com Meredith e não aguentou o tranco.
Tomada por uma sensação de amargura e inconformismo, rebato:
— Talvez minha mãe tivesse te esquecido, se soubesse a verdade e se desapontasse. Ao invés disso, você tirou essa chance dela. Então ela esperou por você, falou de você para minha avó, descobriu que estava grávida e se viu sozinha. Infelizmente, eu não tive a oportunidade de conhecê-la e minha avó evitava entrar em detalhes, mas eu aposto que ela ficou destruída quando percebeu que você não voltaria nunca mais. Você quis poupá-la, mas só causou mais sofrimento.
— Eu lamento muito por isso, acredite — J'son se defende. — No fundo, eu preferi pensar que Marie me esqueceria logo, que encontraria o amor de novo e seria feliz. Eu errei por subestimar o que ela nutria por mim, mas nunca quis magoá-la de verdade. E juro que não tinha conhecimento da gravidez.
— Se tivesse conhecimento, teria mudado alguma coisa? — desafio-o.
— Teria mudado tudo.
Mais uma vez, a segurança em sua afirmação direta me surpreende. Só que, desta vez, não sei se acredito nele. Essa descrença deve estar estampada na minha cara, já que o ET de Varginha prontamente acrescenta:
— Eu voltei por Peter, por que acha que com você seria diferente? Você é minha filha também, Olivia.
— Você não voltou pelo meu irmão. Você se poupou do trabalho e mandou um sujeito nada confiável levá-lo até Spartax — retruco afiada como uma navalha. — Coisa que nunca aconteceu, diga-se de passagem.
De imediato, J’son rebate minhas alfinetadas:
— Yondu me traiu, mas eu jamais quis colocar a vida do meu filho em risco. Eu tinha boas intenções e estava cumprindo meu acordo com Meredith.
Confusa, uno as sobrancelhas.
— Que acordo?
— A longevidade do povo spartoi é muito maior do que a expectativa mais otimista das pessoas deste planeta. Como meu filho, Peter herdou boa parte desta característica. Você também, é claro. Meu acordo com Meredith, quando a procurei pela última vez, era que quando ela não estivesse mais aqui por ele, eu poderia levá-lo para Spartax e criá-lo em segurança.
Tal explicação não me deixa de todo satisfeita. Embora a questão da longevidade faça sentido e eu entenda que Meredith não queria deixar o filho sozinho no mundo caso algo lhe acontecesse ou a morte chegasse eventualmente, a resposta do sujeito na minha frente também faz novos questionamentos brotarem dentro de mim. De pronto, exponho o que estou pensando:
— Então, se você soubesse que minha mãe estava grávida, teria feito a mesma proposta para ela? Teria me arrastado para Esparta do mesmo jeito que tentou fazer com Peter?
O espartano franze o cenho, como se eu tivesse dito algo absurdo, e contrapõe firme em cada palavra:
— Não. Eu teria levado vocês duas para viver ao meu lado em Spartax. Sua mãe poderia recusar, obviamente, mas algo me diz que aceitaria. Ela tinha um bom coração, estava sempre disposta a perdoar.
Surpresa com o compromisso nobre implícito em suas palavras, porém relutante em levá-lo a sério, rio sem humor e tento abaixar sua bola:
— Minha avó nunca permitiria uma pataquada dessas.
Sem se intimidar, ele rebate de forma prática:
— Então eu a convidaria para viver conosco também.
Hesito, indecisa e quase me dando por vencida. O instinto de preservação me domina e refuto com teimosia:
— Eu não acredito em você. Não acredito em nada disso. Sinto em dizer, mas você perdeu o seu precioso tempo vindo até aqui.
J’son sorri discretamente. Isso mesmo, o mequetrefe espacial tem a pachorra de dar um sorrisinho vitorioso. Para completar, ainda me desafia:
— Acredita, sim. Porque é a verdade. Eu sei que é decepcionante e, acredite, eu não tenho o menor orgulho de admitir isso, mas eu fui embora porque não soube lidar com uma situação. Eu preferi fugir e me arrependo por isso até hoje. Eu pensei que seria melhor assim, especialmente para Marie, mas estava errado. Se alguém tivesse aberto os meus olhos naquela época, talvez eu tivesse enxergado o óbvio e as coisas teriam sido diferentes comigo e sua mãe. Eu sinto muito por não terem sido.
Acho que não preciso nem dizer que sua explicação mexe comigo de um jeito bastante pessoal e íntimo. Pior, me identifico com ele. Já sei de quem herdei a tendência a fugir de situações difíceis.
Por mais que exista uma diferença, já que quando deixei Asgard para trás não estava querendo abandonar o gafanhoto para sempre, mas sim conceder um tempo a nós dois, a verdade é que também estou fugindo de algo que se mostrou complicado demais, algo com o que eu não soube lidar. Que ainda não sei, por mais que J’son, sem saber disso, esteja abrindo meus olhos agora.
Fico em silêncio. Pensando em minhas últimas atitudes e no ET na minha frente. Avaliando tudinho, tim tim por tim tim do que ouvi dele. E a verdade é que uma parte de mim está muito inclinada a ceder um pouco. Ouvindo esse lado, expiro com força e opino:
— Tudo bem, você não é o monstro que eu estava imaginando que fosse. Eu até... te entendo, se quer saber. Mesmo assim, foi muito relapso. Podia, ao menos, ter voltado e conferido se, por acaso, minha mãe tinha engordado um pouco.
J'son dá um passo em minha direção. Surpreendentemente, eu não recuo. O ódio inicial se dissipou à medida que ouvi todo o seu relato e me identifiquei. Além disso, algo em seu olhar esperançoso me prende de um jeito fraterno. Sinto-me acolhida e aceita.
É um alívio saber que, na verdade, meu pai biológico não me rejeita, que nunca rejeitou. Ele errou sim, por ter sido leviano quanto a minha provável existência, porém quando soube, não mediu esforços para vir até mim e explicar tudo, certo?
Isso me faz lembrar de todos os anos em que desejei a sua presença, conhecê-lo, entender o que havia acontecido, preencher o vazio doloroso que a ausência da figura paterna deixou em mim, sanar as feridas e recomeçar de alguma forma.
— Infelizmente, eu não posso mudar o passado, Olivia. — Sua voz me desperta desses pensamentos, mas a emoção ainda está bem latente dentro de mim. — A questão é: é tarde demais para almejar um lugar no seu presente?
Engulo em seco e, claramente, o decepciono ao responder:
— No presente? Sim.
Apesar de não estar mais com a macaca de tanta raiva, preciso assimilar a história da minha concepção primeiro, perdoar J'son de coração e não apenas da boca para fora, e virar a página de uma vez por todas. Só assim poderei começar, de fato, uma relação de afeto com ele. Uma relação de pai e filha. Por enquanto, tudo o que tenho a oferecer é uma trégua e uma promessa.
Pensando assim, ressalvo:
— Mas talvez no futuro, quando eu digerir tudo isso, talvez eu consiga... — Faço uma pausa para controlar o turbilhão de sentimentos dentro de mim e me comprometo: — Eu quero conseguir. Juro juradinho.
Seu toque sútil em meu rosto me pega de surpresa. Novamente, não me esquivo. Tenho que admitir que é uma demonstração de carinho bem fofa e, por um momento, sinto que vou me aconchegar em sua palma como um cachorro em busca de atenção. Claro que me controlo antes que esse desejo se transforme em uma ação constrangedora.
— Então eu vou esperar por esse dia, Olivia Mills da América. Não se preocupe e não tenha pressa. Quando estiver pronta, os portões de Spartax estarão abertos para você. Seja para uma visita, seja para uma mudança definitiva. A escolha é sua. De um jeito ou de outro, eu prometo que serei seu pai.
Pela primeira vez, consigo retribuir o seu sorriso.
— Obrigada, ET de Varginha. — Diante do seu cenho franzido, explico: — Espirituosa, lembra?
J'son rompe o contato devagar e me encara por algum tempo. Assim como eu, também parece aliviado com o resultado positivo da nossa primeira conversa.
— Cuide bem dos meus netos. — aconselha, meio sem jeito. — Espero conhecê-los um dia. Em breve.
— Você vai.
— E o responsável por isso também. Se posso fazer minha primeira exigência como pai, é claro. Eu não o conheço, mas espero, sinceramente, que vocês se entendam. Não fuja da felicidade, filha. Não deixe a chance escapar.
Meu rosto enrubesce com a simples menção ao Deus da Trapaça.
Claro que não posso entrar em detalhes com J'son. Não agora, pelo menos. Não é só uma questão de evitar o assunto. Acabei de conhecê-lo e, para um primeiro contato, acho que está de bom tamanho. Não quero fundir a sua cuca com meus dramas existenciais, mas prometo a mim mesma considerar o seu conselho.
Sendo assim, limito-me a brincar para mudar o foco da conversa:
— Talvez ele tente afanar o seu império, já vou avisando.
Para meu alívio, o ET de Varginha se dá por satisfeito com minha resposta e, sem se intimidar, conclui com bom humor:
— Eu adoraria vê-lo tentar.
Depois disso, J’son sorri e se despede com mais um carinho em meu rosto. Ele hesita, como se pretendesse me abraçar, mas temesse não ter permissão para isso.
Como não lhe dou o aval, permanecendo imóvel feito uma estátua, ele caminha rumo à saída do laboratório de Bruce, deixando-me a sós para confabular com meus botões sobre tudo o que conversamos e vivemos hoje.
E a verdade é que, apesar de ter sido difícil, estou muito feliz por ter enfrentado minha relutância e dado esse primeiro passo. Por ter enfrentado meu medo, ouvindo o sábio e supremo conselho de minha avó.
Sinto que posso superar os anos de ausência paterna e quem sabe criar um laço verdadeiro com J'son. Quem sabe, com o tempo, eu até o chame de papi soberano?
Meu coração se aquece com a possibilidade, enquanto o líder spartoi desaparece do meu alcance de visão.
Em um segundo e movida por um rompante, vou atrás dele. Alcanço-o no corredor.
— Espera!
J’son se vira de pronto ao ouvir meu chamado. Caminho depressa até ele. Sem pensar duas vezes, jogo-me em seus braços, claramente o surpreendendo com minha atitude. Deixando a emoção falar mais alto, aperto-o com força contra meu corpo, enfurnando a cabeça em seu peito acolhedor. E sou abraçada de volta com a mesma intensidade e carinho.
Suando pelos olhos, abaixo minhas defesas de uma vez:
— Talvez o futuro esteja começando agora.
Em meu íntimo, desejo muito que esteja.
Alguns dias depois
Sei que eu e J’son temos uma longa jornada de descobrimento mútuo pela frente. Mas como ele mesmo disse, não existe pressa nessa situação. Sei que, aos poucos, iremos construir algo importante e genuíno. Algo que, também pouco a pouco, nos fará recuperar o tempo perdido ao preencher as lacunas no presente e, principalmente, no longo prazo da nossa história em comum.
Sinto-me surpreendentemente bem desde que conversei com ele e colocamos os pingos nos is. Bem o suficiente para prosseguir com o plano de organizar minha cabeça e, de quebra, retomar minha vida.
Estou prestes a dar mais um passo agora mesmo. E não consigo descrever a emoção que sinto ao entrar em meu antigo prédio. No meu antigo elevador. No meu insubstituível cafofo. E com as ilustres companhias de Amy e Josh.
Isso mesmo, Olivia Mills está de volta às origens.
A Hydra sempre será uma ameaça, é claro. É difícil prever qual será o seu próximo plano maquiavélico e se me envolverá ou não. Todavia, com a baixa de Von Strucker, tudo indica que não será um perigo iminente e que a organização do mal ficará nas sombras por um bom tempo.
Além disso, Stark instalou uma espécie de dispositivo de segurança no meu querido apartamento. Ao menor sinal de perigo, posso acioná-lo por voz ou manualmente, e o Vingador mais próximo virá ao meu auxílio.
Vale lembrar também que, apesar de grávida, eu tenho sangue spartoi — isso mesmo, finalmente parei de chamar de espartano — e, portanto, a Força está comigo. Ela mais o meu treinamento da S.H.I.E.L.D. não permitirão que eu seja vencida tão facilmente, caso uma situação de risco ocorra de novo.
Pensando assim, coloco minha antiga chave na fechadura da porta de entrada. Destranco-a devagar. Fecho os olhos por um instante, giro a maçaneta e a empurro. Com um largo sorriso, entro com o pé direito, caminho a la Jack Sparrow rumo ao interior e, por fim, abro os olhos.
— Uau, gata! Que poder! — Josh se antecipa, enquanto eu observo, embasbacada, o resultado da reforma que o Homem de Ferro fez no meu cafofo.
A essência está aqui, mas Tony substituiu os móveis por modelos mais sofisticados e fez milagre com minha sala minúscula. Apesar do sofá a la Hebe Camargo, não ficou apertado. Muito pelo contrário, o espaço foi bem otimizado. A pintura clara, num tom bem suave de bege, dá a falsa impressão de um ambiente maior. E o novo piso laminado combinou perfeitamente com todo o resto.
De onde estou, consigo ver que os eletrodomésticos da cozinha também foram trocados por produtos top de linha bem chiques, daqueles que até falam, rá! E o engraçado é que ela também parece maior. Por um momento, chego a me questionar se entrei mesmo no apartamento certo. Porque tem alguma coisa muito diferente por aqui...
Embora eu esteja em cólicas para ver o meu quarto novinho em folha, despenco no sofá a fim de olhar mais um pouco para a belezura de sala a minha volta.
Meus amigos me imitam, ficando um de cada lado, em torno de mim. Então Amy solta um longo assovio e pondera:
— Eu diria que tem um toque feminino aqui.
Sim, com certeza a fofa da Pepper entrou com o bom gosto e Tony com a ideia geral e patrocínio. Os dois merecem meus eternos agradecimentos por esse presente.
— O que é aquilo? — Josh pergunta, apontando para algo na outra extremidade da sala.
— Parece uma escada — analiso sem entender de onde ela brotou.
Passo o olhar pelos degraus, subindo até uma abertura acima de nossas cabeças que, ao que tudo indica, leva a um andar superior que não existia antes. E assim compreendo por que meu cafofo parece tão espaçoso. Meu antigo quarto e banheiro se foram, virando uma extensão da cozinha e da sala. O toalete social foi mantido, porém a julgar pela larga porta também foi expandido.
— Desde quando você tem um duplex, Liv? — Amy inclina a cabeça e continua olhando para a escada adiante.
Nós três nos entreolhamos por um breve momento. E no instante seguinte, corremos em disparada rumo ao misterioso e novíssimo andar de cima.
Moral da história: Tony Stark comprou o apartamento acima do meu e o interligou com meu cafofo original. Agora meu novo quarto fica no segundo andar, um toalete tão grande quanto ele e um fofíneo dormitório para os gêmeos também.
Fico passada na manteiga por longos segundos, tentando assimilar cada detalhe da minha nova moradia e pensando em como Tony foi maluco e generoso ao fazer tudo isso por mim e meus babies. Ao refletir mais sobre isso, meu bom senso me obriga a dizer:
— Eu não posso aceitar.
— Não mesmo — minha amiga assente em concordância.
Também colocando a mão na consciência, seu irmão acrescenta:
— É muita coisa. É errado aceitar, vai parecer que você é uma interesseira.
Ficamos no mais absoluto silêncio. Nos entreolhamos mais uma vez. Sorrimos de um jeito cúmplice. Por fim, caio na risada e dou meu veredicto:
— Que se dane, eu aceito!
Josh me parabeniza com um aperto de mão e volta atrás:
— Seria uma baita ingratidão recusar.
Seguindo seu exemplo, Amy emenda:
— Stark e Pepper ficariam super ofendidos. Você não pediu nada disso. É um presente, e recusar um presente é falta de educação.
Devidamente entendidos voltamos a observar o quarto dos bebês até que Josh diz que está com fome e segue rumo à saída com a irmã.
— Eu espero que o Homem de Lata tenha abastecido a geladeira também — torço, exigente e cara de pau, preparando-me para acompanhá-los até a cozinha.
Meus amigos cruzam a porta do quarto no mesmo instante em que reconheço algo dentro de um nicho branco que compõe a decoração. É o Caco, meu querido Muppet, o primeiro presente que ganhei de Loki.
Detenho o passo. Fico estagnada e nostálgica. A culpa por ter ido embora de Asgard daquele jeito repentino, sem lhe explicar nada, se abate sobre mim. Por mais que eu tenha tido os meus motivos para sair correndo, estou cada vez mais convencida de que pisei na bola.
O fato do Deus da Trapaça não ter vindo atrás de mim até hoje é um forte indício de que está com raiva pela minha atitude. Aposto que não quer me ver nem pintada de ouro.
De repente, a genuína felicidade pelo meu repaginado cafofo dá lugar a uma tristeza profunda. Seguro o Caco por um momento enquanto penso no que fiz e também em toda a minha história com o gafanhoto. Cada momento, cada provocação, cada negação, cada beijo sabor algodão-doce e cada sessão de acasalamento mid-spartoi-jotun. Eitcha lelê...
Não sei por quanto tempo fico assim, distante, mergulhada em lembranças e sentimentos profundos, mas quando ouço Amy me chamando da cozinha, obrigo-me a voltar à realidade. Então coloco o Muppet de volta no seu lugar.
Deixo o quarto depois de olhar uma última vez para trás e apagar a luz.
Sei muito bem o que me aguarda na cozinha, e não é apenas uma sessão banquete. Tenho quase certeza que, bem como andam fazendo nos últimos dias, meus amigos tentarão abrir os meus olhos para a situação mal resolvida com Loki. Apesar de entenderem o meu lado, os dois vem tentando me fazer reconsiderar a partida repentina de Asgard. Para Josh, e especialmente para Amy, fugir nunca é a solução.
Mais tarde
Estou sozinha, já que meus amigos, depois de fazerem exatamente o que eu esperava e me encherem de conselhos, foram se aprontar para um evento muito especial de logo mais.
Tomo um banho demorado e também fico nos trinques. Olho-me no enorme espelho do meu quarto e sorrio diante do lindo vestido longo de cetim verde que separei para a ocasião. Faço um penteado requintado e divo, e capricho na maquiagem e perfume.
Não é todo dia que você é convidada para ser uma das madrinhas do casório da Viúva Negra com o Gavião Arqueiro, não é? Isso mesmo, o grande dia chegou!
Claro que sou acometida por uma pontinha — lê-se um iceberg — de saudade ao lembrar daquela fatídica festa para a qual arrastei Loki, há quase um ano, e da nossa dança no terraço. Foi ali que percebi que estava com os quatro pneus arriados pelo bofe, admito. E eu estava com um vestido muito parecido com esse, só que era mais curto.
Respiro fundo e prometo para mim mesma que depois do casório, vou atrás de Loki. É justo e não dá mais para adiar. Tenho que dar o primeiro passo, tenho que enfrentar meu medo mais uma vez.
Pensando assim, me recomponho na medida do possível, abro o meu gaveteiro de bijuterias e meus dedos esbarram em algo realmente valioso no meio de tudo: a pulseira que pertenceu a Frigga.
Observo o presente lindo e significativo que Loki me deu no Natal passado e, sentindo uma saudade dolorosa do danado, coloco-a em meu pulso lentamente.
Minutos depois, dirijo pela movimentada Nova York rumo à Torre dos Vingadores. O ponto de encontro para o casório.
A tarde se propaga pouco a pouco, os últimos resquícios de sol lutam para transpor as densas nuvens que se formaram de repente. Nuvens bem carregadas por sinal e que me causam estranheza. Chequei a previsão do tempo mais cedo e não lembro de nenhuma menção à mudanças climáticas, muito menos à chuvas torrenciais a caminho. Mas ao que tudo indica, vem tempestade das grandes por aí, sim.
Ainda estou matutando sobre isso quando um estrondoso trovão faz as janelas do meu carro vibrarem, bem no momento em que o semáforo a frente fecha, fazendo-me frear de supetão.
O breve sobressalto logo se transforma em um baita susto, quando uma luz forte e extremamente colorida rompe as nuvens em direção ao chão a poucos metros de onde estou.
— Virgem Santa!
Em choque, e sabendo muito bem que o evento é fruto da Bifröst sendo aberta, vejo uma figura se distinguir quando os feixes cessam, em meio a chuva forte que começa a cair. Engulo em seco. Meu coração dispara.
Com uma cara de limão azedo versão plus advantage e seu clássico cosplay de gafanhoto asgardiano, Loki se endireita devagar, de forma imponente, e observa o céu com um olhar duro. Ele pragueja alguma coisa que não consigo ouvir daqui e olha todos os veículos a sua volta.
Buzinas e gritos, além de uma correria desenfreada de pessoas em pânico por reconhecerem o deus que atacou a cidade há alguns anos, ficam distantes, quase inaudíveis, quando por fim o olhar desse mesmo deus encontra o meu.
De repente, é como se o tempo tivesse parado. Ou voltado. A Terra parou de girar e todas as pessoas desapareceram. Só há nós dois aqui, nessa cidade, nesse momento, nessa história maluca.
Morta feat. enterrada, e tomada por uma forte sensação de dèjá vu, tudo o que consigo fazer é murmurar baixinho:
— Mamma Mia... O tiro foi sentido.
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