Trapaças do Coração
22 Correr e se esconder
Notas iniciais
Foi um longo dia e, infelizmente, não terminou como eu queria. Ultron venceu mais uma vez e fugiu com a amostra de vibranium. Com a ajuda dos gêmeos Aprimorados passou uma rasteira nos Vingadores, em Loki e em mim. Bruce foi o mais afetado do grupo. Depois que a bruxa gótica das trevas, Wanda, manipulou a sua mente, ele se descontrolou, deixando o caminho livre para que o Hulk emergisse e espalhasse um rastro de destruição e pânico numa cidade populosa perto do Cais de Sucata.
É de cortar o coração ver como ele está agora, encolhido em uma poltrona do Quinjet, enrolado em um cobertor, com uma expressão torturada e cheia de culpa. Em outras palavras, Bruce Banner está arrasado. Ainda mais porque, mesmo Tony tendo usado uma tal de Veronica para detê-lo, o estrago foi grande. Inclusive, houve vítimas. Algumas, civis.
Há pouco, Coulson se comunicou com a gente por meio de uma tela próxima ao painel de navegação da aeronave. A imprensa de uma forma geral detesta o Hulk e culpa os Vingadores pelo ocorrido. Para piorar, uma imagem de Loki entre o grupo vazou e foi divulgada — presentinho de Ultron, com certeza — e a opinião pública não entende por que nem como “o mostro que orquestrou o ataque a Nova York pode agora estar envolvido com os heróis que, teoricamente, deveriam proteger a Terra de criaturas como ele.”
Por mais que negue, sei que Loki se importa com o que andam dizendo ao seu respeito. Com certeza esperava algo bem diferente quando aceitou contribuir com mais uma missão. Esperava ser idolatrado pelo serviço prestado à Midgard, ser colocado num pedestal e que todos se ajoelhassem diante dele. Não que ele esteja certo em querer algo assim, mas é difícil para mim vê-lo tão calado, tentando camuflar a frustração a todo custo.
Por orientação de Coulson, devemos ficar em modo furtivo até uma nova pista sobre Ultron surgir. É a velha estratégia: correr e se esconder. Isso significa que precisamos de um refúgio para que a equipe se recupere do baque que sofreu e se prepare para o próximo embate com o Robocop megalomaníaco.
Ao me lembrar para onde Amy foi, seguindo um pedido meu ao pensar em sua segurança, levanto do meu assento e caminho até Clint, que está pilotando o Quinjet.
— Ei, Robin Hood. Eu sei de um lugar aonde podemos ir.
— Sério? — ele diz interessado, mas não desvia o olhar do painel. — Para onde então, agente Mills?
Expiro levemente e revelo:
— Texas.
Algumas horas depois
Está quase amanhecendo quando o Quinjet plana sobre a fazenda onde fui criada por minha amada avó, Susan Mills. Apesar da saudade que sinto dela, não fico triste ou deprimida quando o jato finalmente aterrissa e tenho uma visão melhor da casa onde cresci. Apenas nostálgica diante das lembranças que o cenário me traz. Ter vindo aqui há poucos meses e superado a tragédia que me separou para sempre de minha avó ajuda, é claro. Em resumo, sinto-me bem. Mais preocupada em deixar a equipe confortável do que comigo mesma.
Um a um, saímos do jato e caminhamos em silêncio pela relva em direção à cerca branca que isola a propriedade. Abro o ferrolho e empurro o portão, causando um rangido. Logo alcanço a varanda. Destranco a porta com a chave extra, que costuma ficar sob um vaso perto do balanço.
— Entrem, chuchus. Mi casa es su casa. — Abro passagem para o grupo e brinco, fazendo um floreio, numa tentativa de arrancar um sorriso dos seus rostinhos lindos. Não funciona muito bem. Entro por último e tento quebrar o clima de novo, convocando Amy: — Querida, cheguei!
Minha amiga, que estava esparramada no sofá dormindo, espalma um rifle que repousa no chão ao seu lado, levanta num sobressalto, o aponta para todos nós e grita ainda meio fora do ar:
— Abandonar o navio, marujos!
Por instinto, erguemos as mãos para o alto com certo assombro — exceto Loki, que se limita a franzir o cenho com incredulidade —, até que Amy percebe que o sonho com piratas acabou, entende que tem visitas e abaixa a arma.
— Ai meu Deus! — diz envergonhada, colocando o antigo rifle de lado. — Desculpem, eu não quis assustá-los.
Tony, ainda abaixando as mãos como os demais, ri sem humor e replica:
— Você não assustou.
— De onde veio essa arma? — Steve pergunta firme e intrigado.
Prontamente, explico:
— Ah, era da minha avó. Ela nunca precisou usar, mas sabe como é? O seguro morreu de velho.
— Susan Mills: grande mulher — Clint opina, brincalhão.
Só então percebo que minha amiga está olhando para um dos membros da equipe em especial. Bruce Banner. E ele está encarando-a de volta de um jeito mais tímido. Por fim, ela sorri e o cumprimenta:
— Olá de novo.
— Oi. — Bruce desvia o olhar e um silêncio esquisito se instala na minha sala.
Todos observam os dois e depois se entreolham. Só então percebo como essa situação é complicada. Amy ainda não sabe quem é o Hulk e, honestamente, eu não sei por quanto tempo a mais esse segredo será mantido. Nem por que Banner insiste em mantê-lo. Seja como for, preciso dizer alguma coisa antes que ela ligue os pontos.
— As coisas se complicaram um pouco — é tudo o que consigo dizer para justificar a presença do gafanhoto e dos demais aqui.
Com pesar e certa inocência, Amy replica:
— Eu sei, vi o noticiário. Sinto muito. Mas e o Hulk? Onde está agora?
Aliviada por ela não ter matado a charada, preparo-me para inventar uma mentira sobre o paradeiro do dito cujo. Contudo, Bruce, igualmente aliviado, toma a minha frente:
— Ele está em um local seguro com a S.H.I.E.L.D. e sob controle.
Ninguém o desmente. Minha amiga esboça um sorriso triste, com certeza preocupada com o seu Vingador favorito, mas não questiona os detalhes. Ao invés disso, torna a olhar para Bruce e conclui solidária:
— Eu espero que ele fique bem.
O alter ego do Verdão assente com um meneio de cabeça e desvia do olhar de Amy mais uma vez. Percebo que mentir para ela o deixa desconfortável. Por que mentiu então? Porque está para nascer criatura mais complicada do que Bruce Banner. Raios!
— Olivia, será que eu posso tomar um banho? — pergunta, voltando-se para mim.
Mantenho a calma e resisto ao ímpeto de estapeá-lo loucamente para que Bruce deixe de bestagem. Então respiro fundo e oriento:
— Claro, o banheiro fica lá em cima. Quando todos estiverem limpinhos e cheirosinhos, nós conversaremos sobre as acomodações, tudo bem?
Sem esperar mais nenhum segundo, Bruce pede licença e caminha até a escada. Logo desaparece no topo dos degraus.
É então que Thor — que andava bem introspectivo desde que Wanda Maximoff o fez ter uma visão pra lá de maluca que fundiu a sua cuca —, anuncia:
— Eu vi alguma coisa e preciso de respostas. Não vou encontrá-las aqui.
— Para onde você vai, irmão? — o Deus da Trapaça pergunta ao vê-lo caminhando na direção da porta.
— Londres. Encontrar um velho amigo que talvez me ajude a entender melhor tudo isso — o top model asgardiano responde, antes de deixar a casa.
Pela porta entreaberta, observo quando ele desce os degraus da varanda, gira o seu martelo mágico e desaparece rumo ao céu.
Logo depois, outra coisa chama minha atenção pela visão periférica e percebo que Amy está em movimento.
— Ei, aonde você vai? — pergunto intrigada, enquanto a criatura segue para a escada.
Já subindo os primeiros degraus, me responde rápido e como se não fosse nada de mais:
— Providenciar uma toalha para o hóspede.
Sigo Amy com o olhar, ainda assimilando o que disse, até que Tony supõe de um jeito sugestivo e malandro:
— Ela não vai espiá-lo pelo buraco da fechadura, vai?
Dou um tapa no ombro do abusado e protesto indignada:
— Claro que não, pervertido. — Porém, depois de pensar melhor a respeito, franzo o cenho e sou obrigada a admitir: — Na verdade... eu não sei.
Sim, Amy poderia fazer isso se quisesse. Por outro lado, faz sentido oferecer uma toalha para alguém prestes a tomar banho. Tenho certeza que ela percebeu que Bruce está abalado, então não acho que teria coragem de tentar uma aproximação neste momento. Talvez só queira ser gentil. Ou talvez queira dar uma espiadinha marota sim. Quem nunca?
É, realmente, eu não sei. Tudo o que sei é que estou varada de fome. Então puxo o gafanhoto pela mão e convoco o restante dos hóspedes:
— Pessoal, vamos para a cozinha bater um rango? Como diria a minha avó, saco vazio não para em pé. Além do mais, o café da manhã é a refeição mais importante do dia. Ela dizia isso também.
— Susan Mills... grande mulher — Clint reforça, mostrando que gostou da ideia por também estar faminto.
***
Foi um dia longo e sem mudanças. Thor não voltou nem deu notícias. Natasha ainda está abalada por algo que reviveu quando Wanda manipulou sua mente. Clint tem ficado mais ao seu lado do que nunca, lhe dando todo o seu apoio. Tenho certeza que ela vai dar a volta por cima eventualmente. Sendo que é, a Viúva Negra, ela vai se reerguer logo.
Não posso dizer o mesmo de Bruce, que parece carregar o peso do mundo nas costas e estar conformado com isso, como se merecesse todo o martírio em que está mergulhado.
Durante o dia, ele evitou ficar próximo de Amy. Praticamente fugia toda vez que a pobrezinha puxava qualquer assunto. Ele dava desculpas para se retirar e saía pela tangente, escorregando feito sabonete.
Surpreendentemente, minha amiga não parece magoada com sua postura evasiva. É quase como se ela soubesse que Bruce precisa de um pouco de espaço. De qualquer forma, também está incomodada por vê-lo mais no fundo do poço do que Samara Morgan e, por isso, continua por perto, na esperança que ele aceite um ombro amigo em algum momento.
Acomodei Clint e Natasha no antigo quarto da minha avó e espalhei alguns colchões pelo chão da sala para Tony, Steve e Bruce, já que Amy está dormindo no sofá maior. Aliás, acho que ela é a única que vai conseguir fazer isso esta noite: dormir.
A lua cheia ilumina parcialmente a sala e pego Bruce olhando para minha amiga de um jeito indecifrável. É como se ele nem tivesse percebido o que está fazendo. Mas quando vê que eu o peguei no flagra, disfarça rapidamente e vira para o outro lado, dando as costas para ela e para mim.
Antes de subir para o meu quarto, vejo que Tony e Steve fitam o teto da sala com olhares distantes.
***
Ao abrir a porta e entrar, vejo Loki esparramado na minha cama, olhando fixamente para um porta-retrato em suas mãos. Ao notar minha presença, ele o mostra para mim, sorri com escárnio e debocha:
— Olha isso. Um pequeno tormento.
Arregalo os olhos ao reconhecer a foto que foi tirada quando eu tinha uns dez anos. Estou vestida como uma pequena fazendeira, com direito a chapéu de palha, camisa xadrez, cinto com uma reluzente fivela e botas de montaria. Na imagem, ainda estou sorrindo de um jeito assustado e com o cabelo preso em duas tranças meio irregulares. Mas o pior é o enorme aparelho ortodôntico que usei por alguns meses para corrigir um probleminha estético.
Minha avó gostava muito desta foto. Dizia que eu estava linda e meiga. Claramente, ela tinha sérios problemas. Sou o próprio cão chupando manga.
— Me dá isso aqui! — Arranco o porta-retrato das mãos de Loki e enterro o passado vergonhoso numa gaveta da cômoda ao seu lado.
Apoio o corpo contra o móvel para que a criatura abusada não se atreva a pegar de volta e espero alguns instantes até meu rosto voltar a cor normal.
— Não é tão ruim assim, midgardiana. Até que você era fofa.
Fuzilo Loki com o olhar quando ele zomba de mim mais uma vez. Cruzo os braços contra o peito e decido que é melhor mudar de assunto:
— Nós precisamos conversar sobre o que aconteceu naquele navio, gafanhoto.
Sua expressão muda da água para o vinho. Seu sorriso displicente se esvai. O deus trapaceiro fica sério e se esquiva:
— Não, não precisamos.
Ignoro sua vontade e prossigo:
— Olha, eu não sei o que aconteceu exatamente, mas você não precisa se sentir o cocô do cavalo do bandido só porque as coisas não saíram como você queria. Mesmo o Deus da Trapaça pode levar uma rasteira de vez em quando. Vide a surra que o Hulk te deu.
Tudo bem, acho que a última parte foi desnecessária, eu não precisava relembrar certas coisas. Por outro lado, só quero que Loki entenda o X da questão.
Visivelmente incomodado com minhas palavras, que ferem mesmo o seu orgulho de macho alfa e ser superior, ele levanta da cama, empertiga-se com as mãos para trás e se defende:
— O único motivo pelo qual eu não saí vitorioso daquele navio foi porque eu tive um patético momento de distração ao livrar Barton daquela feiticeira. Então, ela teve a audácia de se voltar na minha direção e me confundiu um pouco. Apenas isso.
— A bruxa gótica das trevas usou os poderes em você?! — indago surpresa, uma vez que só estou sabendo disso agora.
Pensei que Loki, assim como Clint, tinha conseguido evitar o joguinho mental daquela bruaca. Ele mesmo me disse isso durante o vôo, que estava tudo bem e que não tinha sido afetado. Agora entendo que Loki estava mentindo, tentando preservar o seu orgulho e manter sua imagem inabalável intacta.
— O que aconteceu? O que ela te fez enxergar?
— Nada que valha a pena relatar.
Sem acreditar nele, mas respeitando seu direito de não querer falar disso, tento confortá-lo:
— Gafanhoto, seja lá o que tenha sido, não foi real e não importa de verdade.
— Eu sei — concorda afiado, e então acrescenta com um ódio tangível: — E vou fazer questão de dizer isso para a maldita antes de quebrar o seu pescoço.
Reviro os olhos e protesto:
— Você não pode matá-la, isso vai contra a lógica dos Vingadores.
— Eu não sou um Vingador, sou um aliado valioso, um colaborador momentâneo, uma poderosa arma — argumenta de um jeito superior.
Expiro com força e o lembro:
— Se você está lutando ao lado deles, tem que dançar conforme a música, coração. — Depois dou um passo à frente, diminuindo a nossa distância, olho bem no fundo dos seus olhinhos de noite serena e peço: — Portanto, me prometa que você não vai matar a Bruxa Má do Oeste. Por favor.
Enquanto me dou conta que encontrei um bom apelido para a irmã do Papa-Léguas, Loki me encara de volta. Parece avaliar o meu pedido. A contragosto, finalmente relaxa um pouco e responde:
— Eu posso considerar isso. Desde que ela não entre no meu caminho de novo. Ou no seu.
Abro um largo sorriso, jogo os braços ao redor do seu pescoço e o provoco:
— Ou no caminho do Clint, certo? Quer dizer que vocês dois ficaram amiguinhos durante a missão, é? Como o mundo dá voltas, você não acha?
Incomodado, o deus trapaceiro sorri de um jeito amargo e rebate com uma ameaça velada:
— Não se atreva a dizer isso novamente, tomento, ou eu serei obrigado a mostrar aos seus queridos amigos uma imagem perturbadora.
Por sobre meu ombro, ele olha na direção da cômoda e eu paro de sorrir na hora, arregalando os olhos com a simples possibilidade de que os Vingadores — especialmente Tony Stark — descubram que o meu passado me condena. Então pisco algumas vezes, coloco uma pedra no assunto Wanda Maximoff e amanso a fera diante de mim:
— Eu estou orgulhosa de você, chuchu. Apenas saiba que eu estou. Agora vamos tentar dormir um pouco, sim?
— Dormir? — O trapaceiro irresistível arqueia as sobrancelhas, deixando claro que tem outro plano em mente.
Comprimo os lábios por um instante enquanto o encaro de um jeito sugestivo. Então pisco para ele e mudo de ideia:
— Modo de dizer, tolinho.
No dia seguinte
Acordo sozinha na cama e cubro o rosto com as mãos, acostumando-me aos poucos com a claridade que entra pela janela. Ouço vozes vindo lá de fora e me levanto. Caminho até a janela e observo Tony e Steve cortando lenha no meio do gramado lá embaixo.
Eles parecem tensos enquanto fazem a tarefa e conversam. Em dado momento, o Capitão América perde a paciência com o Homem de Ferro e parte um pedaço de tronco com as próprias mãos, como se fosse uma simples folha de papel.
A cena é chocante. Se o amigo árvore do meu irmão, o pequeno Groot, estivesse aqui e visse isso, com certeza teria entrado em pânico, coitadinho.
É então que Loki se aproxima dos dois e começa a falar algo para Tony. Discretamente, abro um pouco a janela e consigo ouvir alguns trechos, como a palavra bicicleta e consertar para Olivia. Deduzo que o trapaceiro está usando uma desculpa em meu nome para que Stark vá até o celeiro, já que aponta para o lugar onde minha velha bicicleta da Barbie costuma ficar. Logo depois, Tony diz para Steve não mexer na sua pilha de lenha e se afasta.
Curiosa e intrigada, tomo um banho rápido, me arrumo e desço. É então que vejo que temos companhia. Nick Fury está aqui. Tony já voltou do celeiro, o que me leva a concluir que talvez tenha sido atraído até lá para conversar com ele. Sabe como é, Fury gosta de entradas triunfais...
Ainda me lembro muito bem do fatídico dia em que apareceu nessa mesma fazenda, nesse mesmo horário, nesse mesmo canal, na companhia da agente Jessica Wally e me ofereceu um emprego na S.H.I.E.L.D.
É nisso que estou pensando quando ele me convoca:
— Agente Mills, aproxime-se. Eu tenho algumas informações sobre Ultron. Todos devem ouvir.
Bato continência e brinco:
— Sim, senhor.
Ninguém ri e o Tapa-Olho limita-se a arquear uma sobrancelha. Engulo em seco diante da bronca velada, puxo uma cadeira e me acomodo ao lado de Natasha, Amy e Loki na mesa da sala de jantar.
Steve está recostado na soleira que separa a área da cozinha e Clint está do outro lado, perto da pia, mexendo com alguns dardos que, de vez em quando, lança na direção de um alvo na parede próxima de Tony.
Bruce está em pé perto de Steve, de braços cruzados e evitando olhar para a mesa — o que significaria olhar para minha amiga, algo que pelo visto ele continua evitando.
— Ultron tirou vocês do jogo para ganhar tempo — Fury finalmente começa, chamando a atenção de todos. — Meus contatos disseram que ele está construindo algo. A quantidade de vibranium que roubou acho que não é para uma coisa só.
Um momento de silêncio se instala e tenho certeza que todos estão se perguntando o mesmo que eu. Afinal, o que o Robocop megalomaníaco está tramando, minha Nossa Senhora?
— E quanto ao próprio Ultron? — O Capitão América pergunta, já que ninguém chegou a qualquer conclusão.
— Ah, ele é fácil de encontrar — Fury ironiza. — Está em todos os lugares. O cara se multiplica mais rápido do que um coelho católico.
Uma gargalhada me escapa e eu bato na mesa enquanto digo:
— Coelho católico, rá! Eu entendi a referência! Coelhos são reprodutores natos, adoram passar o dia inteiro acasalando. Já os católicos seguem a premissa “cresçam e se multipliquem”, então juntando os dois...
Paro de falar quando percebo que Fury me encara de um jeito impassível. Acredito que ele não ache necessário que eu explique suas piadas, mas é que eu realmente gostei bastante, é engraçado.
Salvando-me de um constrangimento maior, Loki, à cabeceira da mesa, diz com certo tom zombeteiro:
— Em suma, a S.H.I.E.L.D. ainda não sabe quais são os planos dele. Inacreditável toda essa eficiência.
Nick estreita o olhar na direção do gafanhoto e parece não ter gostado nem um pouco da crítica escancarada. É então que Tony retoma a conversa, mantendo o foco no que interessa:
— Ele ainda quer os códigos nucleares?
— Sim, mas não está fazendo nenhum progresso — Fury reporta. — Eu contatei nossos amigos na Nexus a respeito disso.
— Nexus? — Steve indaga sem entender a referência.
Tudo bem, eu também não entendi desta vez. Para nossa sorte, Bruce esclarece de um jeito explicativo e claro:
— É a central mundial da internet, fica em Oslo. Todo byte de dados passa por lá. O acesso mais rápido da Terra.
Ao perceber que Amy está prestando atenção nele, o alter ego do Verdão fita um ponto qualquer do chão. Porém, é atraído novamente quando ela surpreende a todos nós ao se voltar diretamente para Fury:
— E o que eles disseram?
Quando Fury a encara de volta visivelmente intrigado — talvez só agora tenha notado a presença de uma civil por aqui —, ela não se intimida e articula com firmeza:
— Olha, eu sei que não sou uma agente, muito menos uma Vingadora, mas é do meu planeta que nós estamos falando. Eu tenho direito de saber o que está acontecendo.
Noto um sorrisinho fofo no rosto de Bruce. Acho que, assim como eu, ele gostou da postura de Amy, ficou admirado. Claro que ele logo abafa o caso e volta a se fechar como uma ostra. E é neste momento que Nick responde:
— Meus contatos disseram que Ultron está focado nos mísseis. Mas os códigos estão sendo mudados constantemente.
— Por quem? — Tony questiona.
No instante seguinte, se assusta com um dardo que Barton acabou de lançar e que passou bem próximo do seu rosto antes de acertar o centro do alvo na parede. Ele olha feio para o amigo, que apenas sorri e dá de ombros.
— Ninguém sabe.
Diante da resposta desanimadora de Fury, o Deus da Trapaça provoca mais uma vez:
— Surpreendente.
Antes que o clima feche, indago às pressas:
— Isso significa que nós temos um aliado?
— Ultron tem um inimigo, é diferente — o Tapa-Olho faz questão de corrigir, deixando-me pensativa.
Quem será que está impedindo Ultron de acessar os códigos nucleares?
Como se tivesse se perguntado a mesma coisa e doido para descobrir a resposta, Stark insinua:
— Talvez eu precise visitar Oslo.
Após um breve momento de silêncio, a Viúva Negra diz a Fury:
— Está sendo um ótimo encontro, chefe, mas eu esperava que você tivesse mais do que isso.
No mesmo instante, ele olha para cada Vingador e retruca:
— E eu tenho. Eu tenho vocês. — Olhando para Loki, completa meio à contragosto: — Até você, de acordo com Coulson.
O Deus da Trapaça — em mais uma demonstração de abuso — esboça um sorriso cínico e articula:
— Eu estou pronto para contribuir com a causa, desde que vocês tenham informações úteis sobre o inimigo. O que, claramente, não é o caso.
Com raiva, esmago o seu pé embaixo da mesa, fazendo o dito cujo olhar para mim insatisfeito e ultrajado. Então sorrio e aconselho:
— Seje menas, gafanhoto.
Antes que Loki diga qualquer coisa, Nick Fury retoma, despejando um discurso motivacional:
— Antigamente, eu tinha olhos e ouvidos em toda parte. Vocês tinham toda a tecnologia com que pudessem sonhar. Agora, aqui estamos nós, de volta à Terra, com nada além da nossa inteligência e vontade de salvar o mundo. Ultron disse que os Vingadores são a única coisa entre ele e a missão. E mesmo que não admita, a missão dele é a destruição global. Tudo isso destruído. Então levantem-se. Sejam mais espertos que o desgraçado de platina.
— O Steve não gosta desse tipo de linguagem — Natasha alerta, olhando para o amigo de soslaio e com um leve sorriso.
Entretanto, ele a surpreendente ao dizer:
— Quer saber, Romanoff?
Rio um pouco por Steve abrir uma exceção no seu vocabulário sempre tão polido e certinho.
Na sequência, Clint pergunta:
— Então o que Ultron quer?
Todos ficam pensativos por um longo momento, até que Loki parece chegar a uma conclusão:
— Tornar-se melhor.
Seguindo o raciocínio dele, o Capitão América emenda:
— Melhor do que nós. Por isso ele fica construindo corpos.
— Corpos humanoides — Tony corrige, também pensativo. — A forma humana é ineficiente. Biologicamente ultrapassada. Mas Ultron continua insistindo.
Olhando para ele e Bruce, Natasha critica de um jeito sutil:
— Quando vocês o programaram para proteger a raça humana, falharam incrivelmente, rapazes.
Então, de repente, não mais que de repente, Loki lembra de algo que o Robocop do mal discursou durante o primeiro ataque na Torre:
— Eles não precisam de proteção. Eles precisam evoluir.
Algo que leva Bruce a concluir categoricamente:
— Ultron quer evoluir.
Traduzindo o sentimento de todos, Nick Fury inquere:
— Como?
Depois de olhar para cada um de nós, Bruce questiona:
— Alguém contatou a Dra. Hellen Cho? — E após uma breve pausa, esclarece melhor: — Ultron precisa do Berço Regenerador para construir um corpo. Eu acho que ele pretende usar parte do vibranium para isso.
Lembro-me de ter ouvido algo sobre esse berço. É uma espécie de câmara que reconstrói tecidos. A Dra. Hellen Cho o usou em Clint, depois que ele foi almejado por um tiro de raspão em Sokovia. Com certeza, Ultron deve ter ido atrás dela, em busca dessa tecnologia.
Vixe Maria! É agora que a vaca vai pro brejo de vez!
Pisco algumas vezes, tentando afastar esse pensamento negativo. Mas o tom preocupado de Steve Rogers não ajuda:
— Se Ultron estiver mesmo construindo um corpo...
Também preocupado, Stark completa seu raciocínio:
— Ele será mais poderoso do que qualquer um de nós. Um andróide projetado por um robô...
Pensativo, Rogers confessa:
— Sabe, eu sinto falta da época em que a coisa mais estranha que a ciência criava era eu.
Sem se intimidar com a gravidade da situação, Loki se levanta e diz animado:
— Finalmente uma informação útil. Então, o que vamos fazer diante disso, Vingadores?
Antes que alguém responda ou o mande calar a boca por mais uma provocação, o Deus da Trapaça propõe de um jeito ainda mais cínico:
— Oh, certo. Acho que temos que encontrar a Dra. Cho, reaver o Berço e impedir Ultron de evoluir antes que seja tarde demais. É um bom começo, vocês não acham? — Voltando-se para Tony, o alfineta: — E alguém disse que precisa ir a Oslo, certo? Descobrir se temos um aliado ou não? — Tornando a encarar o restante do grupo, finaliza: — Soa como um plano para mim.
— Eu odeio esse cara — Fury resmunga, enquanto os Vingadores olham meio torto para o ser abusado ao meu lado.
Confesso que sorrio com certo orgulho dele, me julguem.
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