Trapaças do Coração
23 Decisões
Notas iniciais

Enquanto Fury acerta alguns detalhes sobre a ida de Stark para a sede da Nexus, em Oslo, e Steve se prepara para partir com Clint, Natasha e Loki rumo à Seul, onde fica o Centro de Pesquisa da Dra. Cho, saio da antiga casa de Olivia e venho para a varanda. Observo o cenário pacato e bucólico a minha volta enquanto me aproximo de um balanço que fica aqui fora.
Apesar do ataque do Outro Cara ainda estar muito vívido na minha cabeça, como um pesadelo constante do qual não consigo me livrar por mais que eu tente esquecer, chego a experimentar um sentimento de paz olhando para a imensidão verde a perder de vista.
O céu limpo e ensolarado faz eu me perguntar se existe algum lugar para mim no mundo, um lugar onde as pessoas estejam a salvo do Hulk e onde eu possa recomeçar de alguma forma. Ou, simplesmente, um lugar para onde eu possa fugir e desaparecer.
O ranger da porta da casa sendo aberta me desperta desses pensamentos e sigo o ruído. É então que eu a vejo. Amelia.
Ao encontrar o meu olhar, ela hesita por um momento. Apenas por um segundo. Logo depois, sem se intimidar com minhas últimas demonstrações de afastamento, caminha pela varanda, passa na minha frente e simplesmente senta ao meu lado no balanço.
Fico tenso. E surpreso quando a amiga de Olivia começa a mover um dos pés no chão, nos impulsionando lentamente para a frente e para trás num ritmo tranquilo.
Não quero soar grosseiro, mas não posso ficar perto dela. Então sorrio amarelo e faço menção de me levantar. Detenho-me quando ela indaga com o olhar na paisagem adiante:
— Por acaso você tem medo de mim, Bruce?
— O quê? — rebato, surpreso. — Não...
— Então por que está me evitando? — questiona, sem me olhar diretamente.
Ainda me recuperando da primeira pergunta e tentando me esquivar da segunda, finjo que não entendi:
— Por que você acha isso?
— Porque além de desviar do meu olhar desde que chegou aqui e desaparecer toda vez que ficamos no mesmo ambiente por mais de um minuto... — Amelia finalmente volta o rosto na minha direção, para de movimentar o balanço e conclui com o olhar cravado no meu: — Bem, você não me ligou mais.
Desta vez não fujo dos seus olhos. Estou atônito demais com a revelação implícita que ela fez para me afastar. Também fico preso neles por outro motivo que desconheço. Seus olhos são acolhedores e lindos. São da cor do Hulk dentro de mim. E refletem o homem perturbado diante dela.
Pisco algumas vezes e faço um esforço para voltar a mim. Ainda meio atordoado, tudo o que consigo balbuciar é uma óbvia conclusão:
— Você sabe quem eu sou.
Ela confirma arqueando as sobrancelhas e esboçando um meio sorriso.
— Como? Como... descobriu? — gaguejo com uma mistura de nervosismo e curiosidade. — Não foi pela minha voz, foi?
Amelia volta a olhar para a paisagem a nossa frente e esclarece com certa tristeza:
— Não, mesmo porque você fazia questão de manipulá-la com algum tipo de tecnologia quando me ligava, lembra?
Sim, eu usava mesmo esse artifício. Uma forma de evitar que ela me reconhecesse, caso esbarrasse comigo na Torre como, de fato, acabou acontecendo pouco antes do primeiro ataque de Ultron.
— Então como? — recomeço, querendo entender como ela descobriu a verdade.
— Digamos que eu sou uma mulher esperta, não foi tão difícil assim ligar os pontos. — ela sorri cheia de si e explica melhor: — Eu comecei a desconfiar quando a Liv nos apresentou oficialmente naquela noite. A forma como frisou que você era apenas um cientista e amigo dos Vingadores, somado ao fato que ela sempre fugia do assunto quando eu perguntava quem era o homem por atrás do Hulk, acendeu um alerta dentro de mim. Então você me chamou de Amelia. E só três pessoas no mundo me chamam assim: meus pais e o alter ego do Hulk quando me liga ou deixa um autógrafo na minha bolsa.
Sinto-me um idiota. Eu devia ter sido mais cauteloso. Por outro lado, também estou aliviado. Mentir para Amelia fazia eu me sentir péssimo. É bom que ela tenha descoberto a verdade. E ótimo que não pareça magoada com a minha mentira. É como se me entendesse ou tivesse uma facilidade enorme em relevar os meus deslizes. Talvez as duas coisas.
— Claro que eu precisava ter certeza. Então, depois do ataque de Ultron, quando a Liv me mandou para esse fim de mundo, eu tive bastante tempo livre para fazer minha própria pesquisa — retoma a explicação. — Eu descobri sobre o incidente com a radiação gama há alguns anos e que, depois disso, o Dr. Bruce Banner sumiu do mapa por um bom tempo. Quando reapareceu, parecia muito próximo de Tony Stark. Bem nessa época, os Vingadores ganharam um reforço e tanto: o Hulk. Tudo isso soou como a história de um super-herói para mim. Fez sentido.
— Super-herói? — repito em tom discordante. Lembrando-me do caos que o Hulk causou ontem, indago: — Você teve tempo livre para dar uma olhada no noticiário também?
Como se eu tivesse mencionado apenas a previsão do tempo, Amelia responde com muita tranquilidade:
— Claro que sim. Aliás, as imagens divulgadas pela imprensa provaram que não era só um palpite sem fundamento, eu estava mesmo certa sobre você. — Ela volta a olhar para mim e completa em tom divertido: — Sem ofensa, mas apesar de verde e gigante, o Hulk ainda tem os seus traços. Não existe essa de Outro Cara, vocês são a mesma pessoa, afinal. E ter chegado aqui na companhia dos outros Vingadores acabou com qualquer resquício de dúvida que eu ainda podia ter. Você mente muito mal, por falar nisso.
Incomodado com a forma simples que Amelia enxerga as coisas e como tenta amenizar o que aconteceu, tento manter o foco no que importa e abrir seus olhos:
— O Hulk não é uma pessoa, é um monstro. Uma fera que pode se descontrolar a qualquer momento. — Envergonhado, olho para o chão, aperto as mãos uma na outra e respiro de um jeito pesado. — Bem, você viu o rastro de destruição e morte que deixou naquela cidade, eu não preciso explicar mais nada.
Sem pestanejar, ela intervém ao meu favor:
— Pelo que eu entendi, não foi sua culpa. Um tipo de bruxa mexeu com a sua cabeça, certo?
— Pare de me defender — peço, apoiando as mãos no balanço com certa força.
— Eu não consigo — Amelia confessa com uma sinceridade tangível.
Sou atraído como um ímã. Olho para ela.
— Apesar do que aconteceu, eu não consigo enxergar o Hulk como um monstro. Ele continua sendo o meu super-herói favorito. Ainda mais agora que eu sei sobre o homem incrível que se esconde atrás dele.
Sinto algo em minha mão e olho para baixo, na direção do balanço. Vejo que os dedos de Amelia roçam os meus sutilmente. Aos poucos, se aventuram mais, determinados.
— O que você está fazendo? — Ergo o olhar para o seu rosto.
— Chama-se flerte, Dr. Banner. Você precisa sair mais. — Ela ri do meu embaraço. — Pode parecer precipitado, mas o que eu posso fazer se te achei uma gracinha desde o começo?
Penso no que lhe dizer, mas não consigo raciocinar no momento. Especialmente quando Amelia por fim entrelaça minha mão com uma força gentil, aquecendo meus dedos de um jeito agradável e reconfortante.
Ela se arrasta um pouco até mim, ficando muito próxima. Perigosamente perto demais. Nossos ombros encostam um no outro. Sua respiração entrecortada em meu rosto. Então ela engole em seco e diz com uma mistura de timidez e sedução:
— Eu nunca fui muito boa nisso, mas... — Sua outra mão alcança minha nuca. — Melhorou?
Um alerta se acende dentro de mim quando Amelia se aproxima mais um pouco e acaricia meu rosto. Não sei como, mas consigo despertar do torpor que ela causou em mim com esse simples toque e recuo. Tentando não ser rude, me desvencilho de suas mãos com cuidado e questiono:
— Você ficou maluca? — Levanto e caminho até o beiral da varanda. Viro-me em sua direção. — Olha para mim, o que eu posso te oferecer além de caos e destruição? Eu nem posso ficar aqui por muito tempo. Preciso... desaparecer assim que tudo isso acabar.
— O quê?! — Surpresa, Amelia se coloca de pé num pulo. — Não se atreva — ordena meio brava, com as mãos na cintura.
Ela caminha e se apoia no beiral, mas de uma forma que fica de frente para mim, meio de lado para a fazenda que se estende adiante. Então parece pensar a respeito da minha situação e argumenta mais calma e compreensiva:
— Olha, eu entendo que você esteja confuso agora, mas o mundo ainda precisa do Gigante Esmeralda. Então, supere.
— Gigante Esmeralda? — Um riso me escapa e esqueço o que estava dizendo ou tentando dizer. — Eu me perguntava de onde a Olivia havia tirado esse apelido. Agora eu já sei.
Amelia sorri. Parece não guardar qualquer mágoa por eu ter me afastado dela há apenas alguns instantes. Mais uma vez, parece que me compreende, que me aceita apesar das esquisitices e inseguranças.
— Admita, é um bom apelido. Aposto que o Verdão aí dentro gostou.
Intrigado, analiso-a por algum tempo e confesso:
— Eu só queria entender esse seu fascínio pelo Hulk.
Amelia dá de ombros e diz simplesmente:
— Sei lá, acho que eu me identifico com ele.
— O quê?!
Um riso descrente e breve escapa da minha garganta, mas percebo que ela está falando sério. Confuso e querendo entender o que alguém como a mulher delicada na minha frente pode ter em comum com a fera dentro de mim, enumero:
— Mas o Hulk é... pavio curto, selvagem, brutal, perigoso, um verdadeiro monstro.
— Viu? — ela arqueia as sobrancelhas como se a semelhança fosse óbvia. — Igualzinho a mim de TPM — explica em tom divertido, arrancando-me mais uma leve risada.
Fico surpreso com isso. Com a capacidade genuína que Amelia parece ter de me fazer relaxar sem que eu perceba. Foi assim em nossas conversas ao telefone, no home bar da Torre e agora nessa varanda. Estar com ela, conversar com ela é... muito bom. É natural. Parece certo.
Apoio-me no beiral e observo o cenário subitamente sem graça. Volto a olhar para o que realmente está me atraindo e ouço-me dizendo:
— Você é mesmo maluca, Amelia Prescott.
Ela dá de ombros novamente e esboça um sorriso orgulhoso enquanto se apoia mais ao meu lado. Com o olhar fixo no meu, se defende:
— Pelo menos eu te faço rir um pouco, Bruce Banner.
Há um intenso momento de silêncio enquanto a encaro de volta. Porém não é incômodo. É bom, na verdade. Não sei o que estou sentindo, mas definitivamente estou sentindo algo. E isso também é bom.
Antes que esse sentimento ganhe força dentro de mim, lembro de todos os agravantes envolvidos e meu sorriso se esvai aos poucos. Não posso. Seja lá o que for que está acontecendo aqui, não posso deixar que evolua.
É difícil, mas finalmente começo a me afastar, pedindo licença com um meneio de cabeça.
— Sério? — Amelia protesta sorrindo, mas sinto a frustração em sua voz. — Vai fugir de mim de novo? Por quê?
Penso por um momento. Respondo do jeito mais honesto que consigo:
— Porque você está certa. Talvez eu tenha medo de você.
Olho uma última vez para ela e depois desço os degraus da varanda. Decido que é melhor esperar a equipe no Quinjet. Caminho rumo a ele, sentindo que a melhor amiga de Olivia me segue com o olhar. Resisto e não me volto para trás, embora uma parte de mim deseje muito fazer isso.
Horas depois...
Estou de volta à Torre dos Vingadores. Tony chegou há pouco de Oslo, mas ainda não me contou o que descobriu sobre o inimigo de Ultron.
Sei que eu deveria ter ido com Steve e o restante do grupo para Seul. Com certeza, o Hulk teria sido útil num embate com Ultron, mas agora eles têm o Loki. A opinião pública confia nele tanto quanto confia no Gigante Esmeralda, mas o deus fracote se mostrou útil afinal.
Ardiloso, esperto e manipulador, Loki conseguiu entrar no caminhão que levava o Berço Regenerador sem ser visto por Ultron, usando magia para ocultar a si mesmo e depois o equipamento. Parece que sua natureza Jotun impediu que Ultron o detectasse de alguma forma. Então Clint, que sobrevoava a área com o Quinjet, recebeu o pacote com certa tranquilidade e o trouxe para a Torre em segurança.
O corpo contido no Berço deve ser destruído o quanto antes, embora eu ainda não saiba como vou fazer isso exatamente. Como imaginávamos, Ultron havia mesmo controlado a Dra. Cho com o Cetro para que ela usasse o vibranium como base da construção tecidual e transferisse a consciência dele para o andróide. Mas, desta vez, frustramos o plano do desgraçado.
Nunca pensei que fosse dizer isso, mas conseguimos vencer esta batalha graças ao Loki. Gostaria de dizer que ele entrou na linha depois da surra que lhe dei há alguns anos, mas sei que o motivo para a sua mudança tem uma cabeleira loira e fala pelos cotovelos.
Nem tudo foi fácil na missão. Clint contou que quando Ultron percebeu que alguém havia o enganado, deixando uma ilusão holográfica do Berço para trás, ficou enfurecido e atacou a equipe, transformando Seul num campo de batalha.
Houve um incidente com um trem com civis. Loki, Steve e Natasha ainda não voltaram. Pelas últimas notícias, a situação já está sob controle, então talvez eles estejam a caminho de Nova York agora mesmo.
Ultron, mais uma vez, fugiu. Vencemos a batalha, mas ainda não vencemos a guerra.
Olivia, a contragosto, ficou na Torre o tempo todo desde que voltamos de sua fazenda. Coulson achou melhor que, desta vez, ela não se envolvesse e orientou que treinasse um pouco sozinha para melhorar o seu desempenho.
Tentei conversar, mas ela não pareceu muito aberta ao diálogo, o que é estranho. Eu diria que está frustrada por ter ficado de fora desta missão ou preocupada com Loki, mas tenho quase certeza que ela também está magoada comigo. De certo, por eu ter me afastado de sua amiga.
O que eu deveria fazer? Deixá-la se aproximar cada vez mais de mim, quando tudo o que eu preciso é desaparecer?
Não parece justo com Amelia. Não é. Eu tomei a decisão certa. Sei que será difícil cumpri-la, principalmente porque no fundo acho que a quero por perto, mas é melhor assim.
De qualquer forma, tenho pensado no que ela me disse mais cedo. Sobre o mundo precisar do Hulk.
Sei que toda ajuda será mesmo necessária quando o duelo final com Ultron se revelar diante dos meus olhos. Realmente não posso ignorar isso. Não vou dar as costas para os meus amigos, para o mundo e para o que a fã número 1 do Hulk acredita. Mas depois, quando essa história terminar, desaparecer ainda parece a melhor alternativa para mim.
Ainda estou pensando nisso quando analiso o exterior do Berço Regenerador pela milésima vez desde que Clint o trouxe para o meu laboratório. Preciso do auxílio de Stark para decidir o que fazer. É então que o vejo entrando e logo digo:
— Vamos precisar acessar o programa e abrir por dentro. Posso trabalhar com degeneração tecidual, se conseguir destruir o sistema operacional que a Dra. Cho implantou.
— É, por falar nisso...
Endireito o corpo e olho para Tony. Ele me encara de volta com uma expressão no mínimo estranha, como se quisesse me dizer alguma coisa ou como se eu devesse adivinhar o que tem em mente. O que seria?
Se não fosse loucura, eu diria que ele quer aproveitar o corpo criado pela Dr. Cho para prosseguir com o Projeto Ultron... Droga, Tony!
— Não — recuso tal insanidade de imediato, na esperança de colocar algum juízo na sua cabeça.
Provando que não tem nenhum, Stark insiste:
— Você precisa confiar em mim.
— Mas eu não confio — disparo, pois nessa situação não confio mesmo.
Sem se abalar, ele pega um controle portátil no bolso e anuncia:
— Nosso aliado, o cara protegendo os códigos nucleares, eu o encontrei.
Assim que aciona uma das teclas, a interface holográfica de JARVIS surge ao seu lado e me cumprimenta:
— Olá, Dr. Banner.
Fico confuso e surpreso, sem entender como isso é possível. Pouco depois do primeiro ataque de Ultron, quando este mencionou que havia matado um cara legal, Stark descobriu que a vítima tinha sido o próprio JARVIS. Ultron havia o destruído.
Ainda estou tentando entender o que está acontecendo aqui, quando Tony explica melhor:
— Ultron não atacou JARVIS porque estava com raiva, mas porque estava com medo do que ele pode fazer. Então JARVIS se escondeu. Isolado e sem memória. Mas não sem os protocolos. Ele nem sabia que estava lá, até que eu o montei outra vez.
Sei que vou me arrepender de fazer essa pergunta, mas tenho que confirmar que meu amigo está mesmo falando sério e não aprendeu absolutamente nada com a última e desastrosa experiência envolvendo Inteligência Artificial.
— Então, você quer a minha ajuda para colocar o JARVIS aqui dentro? — Aponto para o Berço diante de mim.
— Não, é claro que não. — Stark se aproxima e para do outro lado do equipamento.
Por um momento, penso que ele recobrou o juízo ou eu havia interpretado suas intenções equivocadamente. Para meu desespero, ele articula:
— Eu quero ajudar você a colocar o JARVIS nisso. Estamos fora da minha área. Você sabe mais bio-orgânica do que qualquer um.
Não sei o que pensar. E não estou considerando a ideia, mas preciso entender o que leva Tony a acreditar que algo assim seria promissor e não um risco. Então questiono:
— E você acha que a matriz operacional do JARVIS pode vencer a de Ultron?
Prontamente, ele explica:
— JARVIS já vem o vencendo por dentro sem perceber. É a nossa chance. Podemos criar o Ultron perfeito. Sem o lado homicida que ele pensa ser o melhor da sua personalidade. Nós temos que fazer isso, Banner.
Para me confundir ainda mais, o próprio JARVIS resolve opinar sobre o assunto:
— Acho que vale a pena tentar.
Lembrando-me de poucos dias atrás, quando Tony fez um discurso parecido nesse mesmo laboratório e me convenceu a ajudá-lo com o Programa Ultron sem consultar o restante da equipe ou a S.H.I.E.L.D., perco a calma:
— Eu voltei no tempo! Estou preso num loop temporal! Foi bem aqui que tudo deu errado.
Determinado a me convencer mais uma vez, Tony dá a volta no Berço e se aproxima de mim, argumentando calmamente:
— Eu sei o que todos vão dizer. Mas nós somos cientistas loucos. Somos monstros, Banner. Temos que usar isso. Bata no peito. — Ele toca meu ombro e arremata seu discurso: — Isso não é um loop. É o fim da linha.
Balanço a cabeça negativamente, embora eu já não saiba mais se estou mesmo tão resistente assim. A verdade é que meus companheiros de equipe condenaram Tony pelo desastre Ultron, mas ele não agiu sozinho. Sem a minha ajuda, sem que eu tivesse concordado, nada disso teria acontecido.
Eu aceitei ajudar Tony porque, no fundo, pensamos igual. Ou ao menos, de forma bem parecida. E ele sabe que somos mesmo cientistas loucos. Por isso usa esse discurso. Tony sabe que também quero proteger o mundo de ameaças como os Chitauris, Ultron ou mesmo do Hulk, caso eu perca o controle novamente algum dia. Foi por isso que o ajudei a construir Veronica, aliás. E é por tudo isso que não posso bancar o hipócrita agora.
Tony pode estar certo. Tudo o que disse faz sentido e, pouco a pouco, minhas dúvidas e relutância se dissipam.
Observo o Berço Regenerador diante de nós e o corpo sintozóide que ele armazena. Os erros que cometemos com Ultron podem ser corrigidos agora. Pode dar certo.
Que Deus me ajude, mas acabo concordando com Tony Stark. Mais uma vez. Porque, para mim, isso não é o fim da linha. Está mais para uma luz no fim do túnel. Preciso me redimir de alguma forma.
Fale com o autor