Notas iniciais
Alguém aí querendo me matar? Por favor, não me odeiem por ter demorado quase um mês para atualizar a fic, eu explico tudo nas notas finais. Quero dedicar esse capítulo para a minha mishamiga Miss Queen pela recomendação linda e por todo o carinho com TC. Obrigada, amore! Pela recomendação e por me acompanhar há tanto tempo por aqui, né? E também dedico a todo mundo que esperou pacientemente, afinal vocês merecem. Sorry pela demora mais uma vez. Bem, é um capítulo longo para compensar, com algumas informações e notícias de outros personagens (inclusive Bruce & Amy), Lokivia e ao mesmo tempo é um capítulo transitório que vai preparar a fic para uma virada... Boa leitura!

Depois de uma noite de muitas estripulias, caminho pelo palácio de Asgard ao lado do gafanhoto. De soslaio, noto um displicente sorriso em seu rosto. Muito parecido com aquele que eu venho tentando disfarçar desde que acordei esta manhã e me deparei com o dito cujo me observando — como o stalker tarado que é, diga-se.

Enquanto o trapaceiro irresistível me acompanha com as mãos para trás e uma postura irritantemente altiva, eu o provoco:

— Cuidado, gafanhoto. Se alguém te ver assim, vai pensar que você está feliz.

— Do que você está falando, midgardiana?

Claro que Loki se faz de desentendido. Tão típico desta criatura complicada.

— Você está sorrindo, cara pálida. — Giro nos calcanhares e cruzo os braços, fazendo com que ele pare bem diante de mim. — Em Midgard, sorrir é um claro sinal de felicidade — disparo, cheia de mim.

Mais uma vez, o Deus da Trapaça escorrega como sabonete:

— Eu não estou sorrindo, apenas tentando não rir. Em Asgard, são coisas diferentes.

Estreito o olhar e inquiro:

— Como assim? Rir de quê?

— Oh, o de sempre — ele insinua antes de explicar: — Você babando enquanto dorme é uma imagem difícil de tirar da minha mente. Quando te conheci, achei deprimente, como fiz questão de expor para te perturbar na época. Mas agora, eu tenho que admitir que é hilário.

Reviro os olhos ao me lembrar que quando despertei esta manhã, Loki estava aos pés da cama. Com certeza havia acordado há um certo tempo, já que estava devidamente vestidinho com sua roupa de cosplay de gafanhoto, perfeitamente alinhado, penteado e cheiroso. E com certeza eu estava mesmo babando em um dos seus sublimes travesseiros. Que vergonha!

Apesar disso, me chamem de convencida, mas eu não acredito que Loki esteja sendo totalmente sincero sobre a diferença entre rir e sorrir neste caso. Por isso rebato:

— Então você não está feliz?

Desta vez é ele quem estreita o olhar, antes de articular de um jeito mais sério:

— Eu não disse isso.

— Então você está? Por minha causa, certo? — insisto, divertindo-me internamente com certo embaraço tangível em seu semblante sempre tão petulante e seguro. — Vamos lá, chuchu, admitir em voz alta não vai te matar, acredite. Juro juradinho que eu não conto para ninguém.

Como era de se esperar, o gafanhoto sorri desafiador e tenta virar o jogo para seu benefício:

— Damas primeiro.

Encaro o dito cujo por um momento e sorrio de volta. Na sequência, aproximo-me, como se eu fosse mesmo lhe entregar a confissão que ele quer, quando na verdade só estou tentando mexer com o trapaceiro por meio da nossa proximidade cada vez maior.

Minha tática funciona muito bem, obrigada. Loki fica visivelmente interessado e absorto quando eu olho para sua boca e mordo meu lábio inferior. Não demonstra a menor resistência quando toco em seu rosto e mergulho em seu olhar. Inclina-se na minha direção quase imperceptivelmente quando eu me aproximo ainda mais.

Todavia, como minha performance não passa de uma pegadinha da malandra — rá! —, afasto-me no último instante e desconverso tranquilamente:

— Obrigada por refazer o meu vestido com os seus poderes mágicos, chuchu, mas agora eu preciso de um bom banho e de uma roupa de verdade. Te vejo mais tarde, sim? Ah! Não morra de saudade até lá.

Arremato com um beijinho no ombro e lhe dou as costas prontamente. Como nem tudo é perfeito, tropeço na barra do vestido asgardiano enquanto caminho, mas tudo bem, é a vida. À medida que me afasto em direção aos meus aposentos, um sorriso teimoso me vence. Um sorriso de felicidade. Não preciso olhar para trás para ter certeza que algo parecido também estampa o semblante de Loki, por mais que ele tente disfarçar.

Sim, eu e o traste estamos mais felizes do que pinto no lixo. Mas isso não muda o fato de que devemos ter uma conversa muito séria para acertar os ponteiros de uma vez, para que não reste mais nenhum mal-entendido entre nós.

Quando adentro meu quarto, a ilusão que o Deus da Trapaça aplicou em meu vestido, para que eu pudesse circular sem constrangimentos pelo palácio, se desfaz e a peça volta ao seu estado verdadeiro. Ou seja, rasgado.

Por ele. Na noite anterior. Eitcha lelê! Lembrar das circunstâncias que levaram a isso me dá um calor imediato e impróprio. Meu rosto ruboriza instintivamente.

Foco, Olivia Mills da Silva Sauro. Foco!

Com um esforço, afasto os pensamentos salientes e me dirijo ao toalete anexo ao recinto. Não sei quanto tempo demoro, mas quando deixo a banheira, deparo-me com uma roupa asgardiana meio engraçada sobre a cama. Um par de botas está aos pés dela. Só posso concluir que Loki as colocou aqui ou então pediu que alguma criada o fizesse enquanto eu pensava na morte da bezerra durante o banho.

Seja como for, estou diante de um figurino ideal para montaria. E isso só pode significar uma coisa: é um convite.

Parece que alguém sentiu saudade mais cedo do que eu poderia imaginar. Rá! Ponto para mim!

***

Já vestida a caráter, passo pelo grande salão do palácio e sou automaticamente atraída por algo sobre a mesa. Varada de fome, não faço cerimônia e pego em uma cesta uma fruta que parece com maçã. Aproveito e afano algumas amêndoas em outra, um mini pão muito saboroso com um creme que derrete na boca e me sirvo de um suco simplesmente dos deuses! Em outras palavras, estou tirando a barriga da miséria, com licença e obrigada.

— Olivia! Bom dia!

Reconheço a voz de Thor e viro-me alarmada em sua direção, soltando a maçã asgardiana e me engasgando brevemente com o suco.

— Jesus, Maria e José! Que susto, criatura! — Levo a mão ao peito sobressaltado, enquanto a coisa fofa observa a fruta correr pelo chão. — Cinco segundos! — Lembro de repente, erguendo as mãos para o alto.

Em disparada, corro até ela e a recolho bem a tempo. Feliz, lambo os lábios enquanto me certifico de que a maçã ainda está limpinha e própria para consumo. Estou prestes a levá-la à boca e dar uma generosa mordida em sua casca vermelha e suculenta, quando percebo que o deus trovejante analisa a cena com um olhar um tanto repulsivo.

Resolvo explicar:

— Minha avó dizia que quando um alimento cai no chão, nós temos até cinco segundos para pegá-lo de volta, antes que ele seja contaminado por bactérias, germes e micróbios malévolos.

Thor assente brevemente, mas noto que desaprova a teoria, já que vira o rosto com certo nojinho.

— Ela também dizia que aquilo que não nos mata, nos fortalece — acrescento ligeiramente impaciente, tentando convencê-lo de que não é grande coisa comer um alimento que caiu no chão, ainda mais por mim que sou geneticamente resistente.

Mas como o dito cujo sorri amarelo e desvia o olhar mais uma vez, num claro sinal de que não concorda com minha atitude, dou-me por vencida, abandono a fruta sobre a mesa atrás de mim e xingo baixinho:

— Fresco.

Acho que Thor não ouve ou não se importa com meu comentário, já que não retruca. Então cruzo os braços e espero que ele diga a que veio. Depois de um perturbador momento de silêncio entre nós, o Deus do Trovão coça a nuca e finalmente recomeça, indagando meio sem jeito:

— Então, você e meu irmão se entenderam, hum?

Surpreendida diante da sua dedução, gaguejo atrapalhada:

— Oi? Como... como assim? Quem disse? Por que você... acha isso?

Thor franze o cenho, visivelmente confuso com meu súbito nervosismo, enquanto sinto meu rosto ruborizar.

— Eu fui ao seu quarto ontem à noite, para me desculpar pela postura de Loki durante o jantar, e você não estava. Nem hoje, mais cedo.

Avalio seu relato por alguns instantes e, por mais que eu não queira negar o óbvio, sinto-me insegura para confirmar sua insinuação. Talvez porque, apesar da noite que passamos juntos, minha situação com Loki ainda é incerta. Enquanto não colocarmos todos os pingos em todos os is, não posso afirmar que voltamos às boas novas definitivamente. Com certeza a sessão de acasalamento mid-jotun significou alguma coisa, mas será que foi o suficiente para acabar com os nossos problemas? Eis a questão.

Além disso, o teor íntimo do assunto levantado por Thor me deixa um pouco desconfortável e constrangida, levando-me a desviar o olhar e mentir na maior cara de pau:

— Não é nada disso que você está pensando, nós só... conversamos, sabe?

— Conversaram? — O tom de ceticismo em sua voz é quase tangível.

— Exatamente.

Mentirosa.

— A noite inteira? — Thor vai mais além e juro que vejo um discreto sorriso em seus lábios.

Obviamente não acredita em mim e parece se divertir com a situação embaraçosa em que me colocou.

— Sim, a noite inteira! — Rio sem humor e desvio o olhar mais uma vez. — Era muito assunto para colocar em dia e muita relação para discutir, então eu acabei pegando no sono depois. Um verdadeiro tédio, acredite.

Claro que não o convenço. Na verdade, tenho certeza que estou sendo ridícula. Me julguem, mas imaginar que o top model asgardiano tenha ouvido alguma saliência durante a madrugada de pegação nervosa entre mim e aquele coelho jotun me deixa envergonhada.

Finalmente percebendo como suas perguntas me deixam sem graça, Thor muda de estratégia:

— Mas será que vocês vão se entender em algum momento? Porque eu torço muito por isso, Olivia. Você sabe.

Torno a fitá-lo nos olhos, sorrio diante do seu apoio e relaxo imediatamente. Então deixo a vergonha de lado e me dou ao luxo de ser convencida:

— Pode apostar que sim, afinal você sabe muito bem que aquele gafanhoto trapaceiro é louco por mim.

Arremato com uma piscadela e o deus trovejante me lança um dos seus sorrisos mais fofos, fofos, fofos, concordando comigo.

— Muito bem — ele encerra este assunto e então anuncia: — Eu também te procurei porque queria avisar que estou indo para Midgard e precisava ter certeza que você ficaria bem sozinha com Loki.

Sem pensar direito, e já à vontade com meu cunhado, deixo escapar aos risos:

— Se eu vou ficar bem sozinha com Loki? Rá! Sabe de nada inocente!

Ao perceber que falei demais para alguém que “só conversou” com o Deus da Trapaça a noite inteira, me recomponho como posso e tento consertar o efeito constrangedor que paira no ar:

— Nós vamos ficar bem, não se preocupe. Mas o que você vai fazer em Midgard? Algum problema?

Subitamente, lembro-me da Hydra e imagino que talvez o Deus do Trovão tenha sido convocado para alguma missão e não queira me contar. Entretanto, essa suspeita se esvai quando ele esclarece:

— Nenhum, eu só... acordei pensando em Jane e acho que é uma boa hora para lhe fazer uma visita surpresa. — Thor sorri, me lança um olhar significativo e arremata: — Digamos que nós também precisamos conversar, entende?

Meu rosto queima mais uma vez e eu engulo em seco ao deduzir que o top model asgardiano está usando o verbo conversar com outro sentido. Isso porque ele com certeza matou mesmo a charada sobre a minha conversa noturna com o trapaceiro irresistível. Thor só parece lento, mas na verdade é bem perspicaz. Eu que fui tolinha ao pensar que estava o enrolando com meu papo furado de antes.

Sendo assim, limito-me dizer:

— Entendo sim, perfeitamente. Lembranças para a fofa da Jane, okay?

Sorrio em despedida e o acompanho com o olhar à medida que Thor se afasta. Mas, de repente, lembro-me de algo elementar — meu caro, Watson — e pergunto às pressas:

— Ei! Por acaso você sabe onde o gafanhoto está?

Thor, já prestes a sair do salão, olha para trás, pensa um pouco e responde:

— Não, mas Heimdall com certeza deve saber. A menos que Loki não queira ser encontrado, o que eu duvido que seja o caso.

O deus trovejante então some do meu alcance de visão, deixando-me livre para pegar a maçã de volta. Depois de devorá-la sem culpa e tomar mais um gole do suco dos deuses, deixo o palácio e sigo rumo à Bifröst.

***

Assim que chego no território do guardião de Asgard e o vejo com o olhar fixo no exuberante céu estrelado a nossa volta, o cumprimento em tom divertido:

— E aí, Rádio Patroa? Muitos babados para compartilhar?

Com sua característica postura firme e imponente, Heimdall replica:

— Olá, Olivia. Algo específico que você queira saber?

— Você já me conhece, não é?

Aproximo-me mais um pouco e paro ao lado dele. Embora eu tenha vindo à procura de Loki, lembro de outra pessoa e pergunto:

— Como está o desnaturado do meu irmão?

Observo as pupilas douradas do sentinela se dilatarem quando ele se concentra em um ponto do universo. Segundos depois, reporta:

— Peter Quill está bem. Ele sente a sua falta e fala muito de você para alguém chamada Gamora.

Ouvir notícias do meu irmão gato é muito bom, mas diante do nome que Heimdall menciona, meu sangue ferve imediatamente e me ouço retrucando irritada:

— Certo, a piriguete verde que seduziu o meu irmãozinho inocente. Eu não sei por que, mas algo me diz que meu santo não vai bater com o dessa falsiane das galáxias. Eu tenho que me preparar, psicologicamente, para não voar no pescoço dela quando finalmente conhecê-la. Se bem que... talvez eu faça exatamente isso. Bruaca!

Cruzo os braços e fecho a cara por um momento. Mas então olho para o Rádio Patroa de soslaio e percebo um discreto riso em seu rosto tipicamente sério.

Reviro os olhos diante da minha postura infantil, que claramente está divertindo o sentinela, e confesso:

— Tudo bem, eu admito, estou com ciúme, me julgue.

Heimdall não diz nada e logo eu me acalmo de vez. No fundo, não tenho nada contra Gamora. Eu não posso julgá-la sem conhecê-la, certo? Acontece que Peter é o mais próximo que eu tenho de uma família e não quero que ninguém magoe o coraçãozinho lindo dele.

Ainda em silêncio, sigo o olhar do guardião ao meu lado e me concentro no mesmo ponto que ele. Minhas pupilas se perdem na beleza de uma nebulosa com um misto lindo de cores. E logo percebo que não é apenas do Star Lord que eu quero saber.

Pego-me pensando no motivo da sua partida, no seu desejo por respostas sobre nossa origem paterna, em nossa despedida na Torre dos Vingadores e nas coisas que ele me disse antes de ir embora.

Então, tomada por uma curiosidade crescente, deixo que a pergunta presa em minha garganta ganhe vida:

— Peter já encontrou o que... foi procurar?

Como Heimdall hesita — provavelmente porque em nossa última conversa sobre o assunto, eu deixei claro que preferia manter o suspense no ar —, acho prudente tranquilizá-lo:

— Eu quero saber. Dane-se se é spoiler ou se eu não estou pronta para conhecê-lo. Meu terapeuta gato me aconselhou a falar sobre minha origem paterna para trabalhar o trauma do abandono, algo assim. Então... — Respiro fundo e refaço a fatídica pergunta: — Peter encontrou o nosso pai? Sim ou não?

Longos e torturantes segundos se passam até que o sentinela finalmente se pronuncia:

— Ainda não. Mas ele acredita que está perto. Muito perto.

Não sei direito o que sinto, mas é uma mistura de alívio e decepção. Tentando enterrar esse sentimento confuso dentro de mim, mudo de estratégia:

— E no que você acredita, Rádio Patroa? Você sabe quem ele é? Sabe onde o pai do ano está enfurnado? De onde ele é pelo menos?

— Meu dom não funciona assim, Olivia. — Heimdall é taxativo e, na sequência, explica melhor: — Eu posso ver 10 trilhões de almas nos Nove Reinos, mas não posso afirmar quem dentre elas é o seu pai. Além disso, eu devo guardar Asgard dos nossos inimigos, priorizar a integridade da Bifröst e evitar interferências no destino dos outros Reinos. Mesmo assim, eu tenho olhado para Peter Quill sempre que possível, assim como vigiei Loki quando ele foi banido para Midgard e te conheceu.

— Okay, então a resposta é não — assinto, enquanto a explicação de Heimdall afasta o pai misterioso da minha mente e acaba me lembrando como minha história com Loki começou.

Antes que eu suspire profundamente e fique com cara de retardada de novo, limpo a garganta e recomeço:

— Por falar no gafanhoto asgardiano, você poderia dar uma espiadinha e me contar onde ele se meteu, por obséquio?

Assim que o sentinela responde o que eu preciso saber, agradeço e lhe dou as costas. Mas giro nos calcanhares ao me lembrar de algo importante e disparo:

— Ah! Só mais uma coisa. Bruce Banner e minha amiga Amy. Me julgue, eu sei que este não é o seu trabalho e prometo não te amolar de novo com assuntos dos outros Reinos, mas eu não estou me aguentando de curiosidade sobre esses dois. O que eles estão fazendo neste exato momento?

Heimdall observa outro ponto do universo, analisa o meu planeta e então revela:

— Conversando um com o outro.

— Yes! — comemoro animada e surpresa por descobrir que o Hulk seguiu o meu conselho. Enquanto deixo a Bifröst para trás, falo com os meus botões: — Bruce Banner, seu danadinho, você ligou. Molto bene!

***

Não é difícil encontrar o local que o Rádio Patroa mencionou. O estábulo real fica nas proximidades do palácio. Há uma série de asgardianos circulando por aqui, uns saindo com cavalos imponentes, outros voltando depois de um bom passeio matinal, alguns criados cuidando dos animais, fazendo a limpeza das baias e mantendo a organização do lugar. Ao fundo, vejo ainda asgardianos lutando com espadas e adagas num momento que mistura lazer e treinamento.

Mas tudo isso perde a importância quando os meus olhinhos de noite serena encontram uma imagem bem mais interessante para admirar. Sim, eu estou falando do meu gafanhoto magia. De quem mais seria?

A princípio distraído com o cavalo no qual acabou de montar, Loki demora algum tempo para perceber minha presença. Para meu azar, ele me nota justamente quando eu solto um longo e inevitável suspiro. É algo difícil de disfarçar, mesmo à certa distância.

Macacos me mordam! Que vontade de me estapear loucamente! Preciso me recompor já!

Enquanto ele segura firme nas rédeas do animal e se movimenta lentamente em minha direção, procuro parecer indiferente fazendo a egípcia.

Mas assim que para a uma curta distância de mim, o trapaceiro abusado faz questão de me provocar:

— Admirando a vista, midgardiana?

Como não tenho como negar que estava olhando para ele antes, tento desviar o foco lhe devolvendo a provocação:

— Bem, não é todo dia que se vê um gafanhoto montado em um equino. Eu só fiquei intrigada com o paradoxo.

— Certo.

Um sorriso displicente, cínico e com certeza cético surge no semblante do Deus da Trapaça, levando-me a limpar a garganta e mudar drasticamente de assunto:

— Obrigada pelo convite. Cadê o meu cavalo?

Loki abre a boca e eu tenho a impressão que vai negar que me chamou para um passeio, mas deve se convencer que algo assim seria inútil e muito infantil de sua parte, já que se limita a fazer um sinal para um dos criados na sequência.

Logo um cavalo de pelagem marrom e corpo robusto é entregue aos meus cuidados. Faço um carinho em sua crina, antes de segurar firme na sela, tomar impulso e montar em seu dorso.

O gafanhoto tenta se mostrar indiferente, mas posso notar uma nuance de inquietação em seu olhar quando ele indaga:

— Tem certeza que você sabe o que está fazendo?

— Bitch, please! Eu cresci em uma fazenda, lembra? Andar a cavalo era um dos meus passatempos favoritos. — Sorrio cheia de mim e, antes de me afastar aos galopes, o provoco para não perder o costume: — Tente me acompanhar, chuchu.

Em disparada, deixo o estábulo para trás e consigo uma grande vantagem sobre Loki. Entretanto, logo me dou conta de algo essencial: eu não tenho ideia para onde estou indo. Diminuo o ritmo e sou obrigada a deixar que o traste me alcance, esperando que ele passe a cavalgar ao meu lado e me oriente pelo percurso.

Para minha surpresa — ou nem tanto assim —, o dito cujo faz jus ao codinome Deus da Trapaça, me lança um sorriso cínico e dispara na minha frente sem qualquer cerimônia.

Fico boquiaberta por alguns instantes, mas logo o fuzilo com o olhar e acelero aos gritos:

— Aiô, Silver!

Algum tempo depois...

Após vencer a corrida — e ficar com a ligeira impressão de que o gafanhoto me deixou ganhá-la por algum motivo — desço do cavalo e amarro seu laço em uma árvore. Deslumbrada com a paisagem, caminho pelo gramado e observo a vibrante e dourada Asgard contornada pelas montanhas e rochedos.

Não importa se eu já estive aqui inúmeras vezes, nunca vou me acostumar com tamanha beleza. É um lugar dos deuses mesmo. E deste ângulo é quase inacreditável que possa existir.

De repente, sou despertada por um relincho e viro-me prontamente na direção do som. Para minha surpresa, meu cavalo parece ter se soltado quando eu estava distraída. Enquanto ele corre alegremente sem rumo certo e se afasta cada vez mais, analiso Loki intrigada. Isso porque ele chegou segundos depois de mim, também desceu do seu cavalo e está perto demais da árvore onde amarrei o meu. Muito estranho.

— Não me olhe assim — ele diz, parecendo captar minha suspeita. — Eu não tenho culpa se você não o prendeu direito, midgardiana — critica enquanto amarra o seu animal onde o meu estava antes. — Para sua sorte, nós ainda temos este. Espero que você não se importe em dividi-lo para voltarmos.

Loki acaricia a crina do cavalo, mas seu olhar está cravado em mim. Quando finalmente entendo o que ele quer dizer e imagino a cena, um calor impróprio me invade e eu engulo em seco. Viro-me novamente, cruzo os braços e torno a olhar para a paisagem asgardiana, embora desta vez sem muita concentração.

— Eu e você montados em um único cavalo? Nossos corpos bem pertinho um do outro? Encostando o tempo todo um no outro? Coladinhos feito chiclete? Embalados pelo movimento constante, ritmado e sugestivo do animal galopante? Calor crescente? — Sinto que falei demais e me detenho por um momento. — Problema nenhum, chuchu.

Xingo-me em pensamento e rezo para que o meu cavalo volte de livre e espontânea vontade. Ou para que, pelo menos, Loki não faça nenhum comentário sobre o que eu acabei de fantasiar.

Quando ouço uma breve risada carregada de escárnio, fecho os olhos resignada. Na sequência, sou surpreendida pelo seu toque firme em minha cintura. Mais do que isso. O trapaceiro irresistível me enlaça e me vira em sua direção, fazendo exatamente o que eu temia — ou ansiava —, aproximando nossos corpos consideravelmente.

Tento ignorar o arrepio que sinto, mas não consigo disfarçar um teimoso estremecimento que me desconcerta. Entretanto, quando o gafanhoto alcança meu rosto com a outra mão e eu percebo uma chama inegável em seu olhar, relaxo a ponto de soltar uma risada igualmente sarcástica e viro o jogo:

— Oh, veja só! Parece que não foi apenas eu que tive pensamentos impróprios por aqui.

— Eu não tenho ideia do que você está falando, Olivia — Loki, obviamente, nega.

Ele recua um pouco, porém não me solta por completo. E eu me pergunto se está ciente disso ou apenas não percebeu que ainda está me agarrando.

— Para cima de mim, coração? — prossigo com as provocações. — Me atrair para o meio do nada com a promessa de um passeio inocente a cavalo foi golpe baixo, mas eu tenho que admitir que estou tentada a descobrir aonde exatamente isso vai dar.

Um discreto e travesso sorriso surge em seu rosto. Loki afasta o cabelo do meu pescoço, aproxima-se do pé do meu ouvido e diz de um jeito firme e provocativo:

— Já que você está tentada, talvez eu possa te mostrar.

Tenho que fechar os olhos e contar até dez — ou será que foi até mil? — para retomar o foco e resistir. Então recuo o suficiente para não cair em tentação e proponho:

— Primeiro, nós precisamos conversar. — Pisco rapidamente e esclareço: — E quando digo conversar, eu quero dizer com palavras e... diálogos.

Confuso, Loki franze o cenho e diz:

— Grato pela definição. — Parecendo meio frustrado, inquere: — Sobre o que você quer conversar, Olivia?

É agora. A hora chegou. O fatídico momento de descobrir se acertamos os ponteiros de vez ou não. Pensando assim, respiro fundo e vou direto ao ponto:

— Sobre os seus motivos para ter bancado a mulherzinha da relação e ido embora de Midgard. Para começar, esses motivos só existem na sua cabeça de jerico.

O Deus da Trapaça trinca o maxilar visivelmente insatisfeito e ofendido com minhas palavras. Percebo que fui muito rude, coloco-me em seu lugar e tento ser mais maleável:

— Eu sei que você acha que os Vingadores vão mudar a forma como eu te vejo, mas acredite, eles não vão. Eles não conseguiram, apesar de todos os alertas que fizeram no começo de tudo, e não têm o menor interesse em pintar a sua caveira agora. A verdade é que está acontecendo quase o contrário disso. Em parte por minha causa e em parte pelas suas últimas atitudes, os Vingadores estão começando a te ver com outros olhos. Ou pelo menos, estão tentando superar o passado.

Com um sorriso amargo e sarcástico, Loki retruca:

— Obrigado, é sempre bom saber a opinião dos ilustríssimos Vingadores sobre mim. Certamente, eu irei dormir mais tranquilo esta noite por saber que eles não guardam mais rancor.

Meu sangue ferve diante de sua brincadeirinha sem graça. Estreito o olhar e lhe dou uma bronca:

— Não faça pouco caso disso, gafanhoto. É uma trégua, pode ser um recomeço e é importante. E lembre-se, a única pessoa que pode me fazer mudar de opinião sobre você é você mesmo. Então não abuse.

Minhas palavras surtem um efeito imediato. Mesmo contrariado, o deus trapaceiro parece se convencer de que eu tenho razão. Por outro lado, parece incomodado com a conversa e louco para que essa tortura termine logo. Visivelmente ansioso por uma resposta negativa, ele indaga:

— Algo mais?

— Na verdade, sim — anuncio para sua infelicidade. — Eu sei que você não gosta da ideia de me ver trabalhando para a S.H.I.E.L.D., para não dizer que detesta, e que se preocupa com a minha segurança, por favor não negue, mas eu posso te assegurar que sei e vou me cuidar muito bem de agora em diante. Eu não estou subestimando a Hydra, mas eu tenho aprendido muito com a Dona Aranha. E além disso...

De repente, sou tomada por certa hesitação e me calo. Curioso, Loki crava o olhar em mim e me incentiva a prosseguir:

— Além disso?

Encaro-o por alguns instantes. Não para buscar coragem dentro de mim, mas apenas para formular bem as palavras. Então, sem rodeios, me abro com o dito cujo:

— Naquela noite, quando Grant Traíra Ward invadiu o meu cafofo, eu o empurrei com toda a força. Ele foi parar do outro lado da sala. Não por muito tempo, mas o fato é que foi um empurrão e tanto. Eu acho que devo isso ao meu DNA alienígena. Talvez seja uma nova habilidade surgindo, sei lá. Seja como for, além da capacidade regenerativa avançada, eu descobri que sou forte, gafanhoto. Com o treinamento certo, eu tenho certeza que posso me defender melhor. — Surpresa por ter desembuchado tão rápido, sorrio aliviada e reflito: — Sabe, a Dona Aranha descobriu sobre minha superforça por acaso, mas você é a primeira pessoa, ou deus, para quem eu falo abertamente sobre isso porque...

— Porque...?

Apesar de ligeiramente surpreso, o trapaceiro irresistível não me olha com estranheza diante do que lhe revelei. Essa postura acolhedora faz com que eu me sinta incrivelmente bem e mais leve. Assim como me senti quando contei a ele sobre meu pai desconhecido e o acidente que me separou da minha saudosa avó.

Em paz comigo mesma, dou um passo em sua direção, jogo meus braços em volta do seu pescoço e confesso:

— Porque eu me sinto à vontade com você. Até mesmo para compartilhar minhas esquisitices. Talvez porque você seja bem mais esquisito do que eu, convenhamos. Com aquele lance de ficar azul e congelar o que vê pela frente, sabe?

Rio um pouco, porém antes que Loki se ofenda com minha última observação e banque o complexado, apresso-me em esclarecer:

— Eu gosto do seu lado azul! Azul é legal!

Posso estar imaginando coisas, mas sinto que ele gostou de ouvir isso. Ou pelo menos ficou aliviado. Sua origem jotun é um assunto delicado e acho que saber que eu o aceito do jeito que ele é, significa muito para Loki.

— Pronto, terminei — comunico. — Agora é a sua vez.

A satisfação desaparece do seu semblante e ele une as sobrancelhas. Não sei se está se fazendo de desentendido, mas o fato é que questiona:

— Minha vez de quê?

Quando inclino a cabeça e lhe lanço um sorriso amarelo, Loki capta o que quero dizer e resmunga contrariado:

— Muito bem, minha vez.

Sei que o Deus da Trapaça odeia se abrir e que encara isso como um sinal de fraqueza. Contudo, espero que ele entenda a importância disso para que possamos esclarecer as coisas entre nós definitivamente.

Tentando deixá-lo mais à vontade, afasto-me um pouco. Alguns instantes se passam e imagino que o trapaceiro irresistível esteja travando uma luta interna com seu orgulho e instinto de autopreservação. Mas, por fim, ele o vence e se manifesta:

— Embora eu deteste o seu emprego, estou ciente que não posso fazer nada em relação a sua teimosia e atração pelo perigo.

— Em outras palavras, você está dizendo que vai respeitar a minha decisão, certo? — tento ajudá-lo, mas quando Loki me fuzila com o olhar, ergo as mãos em sinal de rendição. — Desculpe, prossiga.

Mais relaxado, ele faz exatamente isso:

— Sobre os Vingadores, se eles estão dispostos a uma trégua, que assim seja. Alegro-me em saber que os idiotas cederam primeiro, é claro.

Reviro os olhos e inquiro:

— Algo mais?

Visivelmente incomodado, o trapaceiro responde:

— Você pode ser forte, Olivia, mas não é imortal. Enquanto os inimigos dos Vingadores e da S.H.I.E.L.D. forem seus inimigos também, enquanto eles estiverem à solta e forem um perigo iminente...

Loki hesita, talvez sentindo que está se expondo demais. Depois se recompõe, crava o olhar no meu e conclui com um pedido em tom de ordem:

— Apenas não faça nada estúpido ou arriscado demais. Talvez eu não esteja lá para salvar o seu lindo pescoço da próxima vez.

— Não fazer nada estúpido ou arriscado, copy that!

Apesar de assentir sem pestanejar, pego-me refletindo sobre tudo que o dito cujo disse. E Loki tem razão em um ponto. Enquanto a Hydra estiver à espreita, enquanto não entendermos o que ela planeja exatamente, nem eu nem ninguém está em segurança.

O ideal seria descobrir onde fica a base de Von Spaghetti — digo, Von Strucker — e surpreendê-lo em um momento de distração. Mas como faremos isso? A S.H.I.E.L.D. não conseguiu nenhum avanço, Grant Ward continua fora do ar e os Vingadores estão mais perdidos do que cego em tiroteio. Apesar de toda a tecnologia a nosso favor, a Hydra parece sempre estar um passo a nossa frente. Mais traiçoeira do que Paola Bracho, diga-se.

Não me entendam mal, eu fiquei profundamente aliviada quando o gafanhoto apareceu no último minuto do segundo tempo e impediu o meu rapto, há algumas semanas. Porém, se o final fosse diferente, talvez a S.H.I.E.L.D. e os Vingadores tivessem me rastreado de alguma forma, pensado em um bom plano e surpreendido a arqui-inimiga.

Epa! Epa! Epa! Ao cogitar isso, algo surge em minha mente. Se eu fizesse parte de um desenho animado, uma lâmpada teria aparecido ao lado da minha cabeça agora.

— Olivia? — Loki me desperta e eu posso sentir certa apreensão em seu tom de voz.

Engulo em seco e anuncio:

— Desculpe, gafanhoto, mas eu acabei de ter uma ideia. Se serve de consolo, não é estúpida, só arriscada mesmo.

Apesar da curiosidade tangível, sua expressão se fecha imediatamente.

Não, com certeza Loki não vai gostar nem um pouco do que eu tenho a propor.

Notas finais
Sobre a demora em atualizar: tudo se resume a minha incapacidade de escrever pelo celular novo (não adianta, já tentei, mas é horrível digitar textos longos nele, colocar travessão etc). Com isso, fiquei muito dependente do notebook, só que não é sempre que eu posso usá-lo, já que divido com minha irmã. Além disso, com o celular eu podia escrever nas horas vagas e em qualquer lugar, nas filas da vida, no ônibus etc.Já com o note, tenho que estar em casa. E sentar na frente do bicho e escrever depois de uma longa jornada de trabalho feat. trajeto é muito complicado. Fico muito indisposta no fim do dia e é horrível escrever quando tudo o que você quer é encostar em um cantinho e dormir. Me julguem. Mas mesmo num ritmo mais lento, Trapaças vai caminhar. Só um pouquinho de paciência com a lerdinha aqui. Sobre o capítulo, quero saber o que acharam e o que acham que passou pela cabeça da Olivia nesse final. Beijos! PS: Visitem o meu tumblr: http://devaneiosdeumahunter.tumblr.com/ Eu tenho postado montagens dos personagens por lá, capas de fics futuras e afins. Inclusive postei uma capa provisória para: A Bela, o Outro Cara & Eu (o spin-off futuro sobre Bruce e dona Amy kkkkkkkkk). As postagens também podem ser vistas no meu blog: http://devaneiosdeumahunter.blogspot.com.br/ PS2: Quem quiser me seguir no Twitter e me cobrar capítulos novos (oi?), eu sigo de volta: @HunterPriRosen