O dia seguinte fora o mesmo do anterior. Acordar, banho, aula. O internato não era tão diferente dos colégios normais, tirando a parte de que eu era obrigada a ficar no internato.

A verdade é que nesses dois dias no local, já estava começando a me sentir em casa. Já pensou? Estava me sentindo em casa na escola! Certo, até que não era tão ruim. Tirando a parte em que eu havia dado o primeiro beijo no meu novo amigo, fizera inimizade com uma garota que tinha mais peitos do que cérebro e um garoto super gostoso queria ser meu amigo. Até que não era tão ruim, realmente.

O professor Woman não pegara no meu pé naquele dia, o que era bom. Muito bom. Eu estava de bem com Max, apesar de ter o beijado no meu estado alucinógeno. Não, alucinógeno não é a melhor palavra a ser usada. Que tal... imbecil? Sim, perfeito. Eu não estava alucinando que ele queria me beijar. Ele queria me beijar, mas eu deixei. Foi só um momento mesmo, que seja.

Era estranho tanta coisa ter acontecido em tão pouco tempo.

Logo após as aulas, eu estava andando no corredor quando Brianne deu um esbarrão de ombro em mim. Olhei para ela com um sorriso irônico e voltei a andar.

Acha mesmo que vai conseguir me insultar assim?

Incrível como uma garota como ela achava que ia conseguir me colocar para baixo com humilhações tão fracas. Eu entendia que ela fazia isso para se sentir melhor, mesmo que fosse de uma maneira errada. Pretendia mostrar para ela que isso não iria mudar nada na minha vida ou na dela. Talvez a garota sofresse falta de atenção, não sei. As pessoas são assim. Mesmo por motivos imbecis, elas eram más com as outras pessoas para se sentirem melhor. Porque elas ou aprendem a ser assim, ou tentam aparentar isso.

Já sofri por ofensas, mas nada que me deixasse tão abalada. Afinal, não é porque são jovens. Não é porque “crianças são más”. É porque a pessoa acha que é certo ser assim. Pior seria se ela se alimentasse do sofrimento das pessoas. Prefiro ser ingênua e pensar que são assim por problemas.

O corredor era como em qualquer escola, apesar do edifício ser altamente profissional por fora. Tinha armários, alunos se pegando, papel no chão e etc. Tinha meu próprio armário, mas preferia não usá-lo. Gostava de carregar minha mochila. Não me sentia tão vazia. Mas naquele dia, eu estava pensando em enfeitar meu armário só para ter algo para fazer. Quase chegando no local, ouvi aquelas vozes de novo.

“Madaleine, nós não aguentamos mais. Somos um povo de fé e isso é contra a nossa religião. Isso é mentir, é enganar! É tudo o que não deveríamos fazer.”

“Eu entendo como se sente, Alexandria. Mas isto é o devemos fazer. Não é porque somos boas, que devemos nos deixar ser jogadas para o lado assim. Nem toda freira deve se chamar Mary. Nem toda freira deve fazer o que mandam só porque são boazinhas. Nem toda freira faz voto de silêncio. Não vou deixar que aquele homem repugnante nos diminua colocando-nos no mesmo saco!”

“Como quiser, sorella.”

As vozes foram se afastando mais e mais. A porta estava entreaberta e eu abri ela mais um pouco para ver a sala. Parecia uma daquelas salas de reunião. Normalmente, haviam placas em cima das portas indicando que tipo de sala era. Nessa, não. O lugar não era tão grande, mas havia um corredor pequeno. Uma grande mesa de pelo menos doze lugares estava localizada no centro da sala com sua madeira antiga de carvalho. Estava empoeirada assim como todo o lugar. As cadeiras eram de um carvalho mais claro e tinham panos vermelhos no assento. Nas paredes, figuras de anjos foram desenhados. Um anjo de asas abertas fora pintado lindamente. Fiquei alguns minutos absorvendo a pintura. Senti uma imensa vontade de contornar os detalhes com o dedo, mas não podia entrar na sala. Haviam usado vários tons de amarelo, marrom e bege para fazer a cor da luz emitida pelo anjo. Era uma mulher vestida de branco com longos cabelos negros. Seu rosto estava borrado e ela flutuava por cima de uma nuvem amarelada pela sua própria luz. O anjo estava de braços abertos, olhando diretamente para um garoto deitado em um cama. Embaixo da cama, havia escuridão. Ele olhava hipnotizado para o anjo como se suplicasse algo, mas ao mesmo tempo parasse para admirá-lo. O garoto era a esperança e o anjo, o perdão.

Estava tão absorta naquela pintura que esquecera de me encontrar com Max na fonte dos pênis angelicais. Puxei a porta até onde estava mais ou menos antes de eu empurrar mais um pouco e fui em disparada até a fonte. Max estava sentado com fones de ouvido e lendo um livro com capa estranha. Sorri para ele com as mãos nos joelhos depois de correr.

“Aonde estava? Demorou muito!” Seu olhar era preocupado.

“Ah, eu só me distraí um pouco.” Meu amigo concordou, dando um sorriso e me dando um selinho. Olhei para ele com uma cara que defino como “Cara de Cu Universal”.

“Mas que merda, Max?!”

“É crime? Nossa, só foi um selinho!” Ele sorria como um retardado para mim. Lhe dei um tapa no peito como resposta. Estava frustrada. Max me abraçou e eu resmunguei alto em um som de irritação. “Calma, calma.”

Acho que eu e ele tínhamos uma ideia diferente de afeto.

“Sabe, não pode simplesmente me beijar e abraçar assim do nada. Que eu me lembre... VOCÊ GOSTA DE PÊNIS!”

“Não posso ser bissexual?”

“Não! Somos amigos!” Ele me olhou chateado e eu franzi as sobrancelhas. Estava confusa e irritada demais para aquela merda. Me afastei da tábua de passar, observando sua expressão. Ele parecia... magoado? Sim, era um brilho de mágoa em seus olhos. Me senti culpada quase que automaticamente e voltei a abraça-lo.

O que eu estava fazendo era o contrário do que uma pessoa sã faria. Nunca fui sã, de qualquer modo, então não teria de me importar com isso naquele momento. Estava confortando um amigo que acabara de fazer, mas que queria me beijar. Isso era bizarro de mais para a minha cabeça.

“Eddie, desculpe te confundir assim.” Ouvi aquela voz masculina novamente sussurrar no meu ouvido. Me arrepiei em seguida.

“Tudo bem.” Sorri mesmo que ele não pudesse ver e nos afastamos novamente. Max deu o braço para mim como se fosse um cavalheiro das antigas e caminhamos até o dormitório.

Assim que entramos no lugar desejado, soltamos suspiros de surpresa. O quarto estava completamente bagunçado. Roupas espalhadas pelo chão, objetos, papeis de anotação de Max, minhas sutiãs e calcinhas, as cuecas de Max (umas com ursinhos estampados), lápis, livros, enfeites.

“Mas que merda aconteceu aqui?!”

“Acho que sei.” Afirmei ao olhar com pena para meu amigo que era totalmente organizado. Uma folha de papel em cima da minha cama chamou nossa atenção. Aproxime-me da folha com cuidado e a peguei. Estava escrito em uma letra bem caprichada. “Belas calcinhas. espero que goste da nova decorasão, Dálmata Com amor Brianne.”

“Que ortografia péssima” Max falou por trás do meu ombro, olhando a carta.

“Pelo menos temos o que fazer no resto do dia.” Tentei animar meu amigo com um sorrisinho, fazendo-o revirar os olhos.

Começamos a arrumar tudo com o menor saco. Max ria das minhas calcinhas coloridas e eu ria das estampas de ursinho das cuecas dele. Assim que terminamos de arrumar os objetos de decoração, ele olhou para mim com um sorriso maldoso nos lábios. Pegou uma calcinha minha, colocou na cabeça e prendeu um sutiã nos olhos.

“Sou uma mosca!”

“Seu ridículo! Me dê isso aqui!” Ri alto com a idiotice dele, mas completamente envergonhada. Eu nem sabia se estavam limpos.

“Minha nossa, Eddie! Lave isso! Estou ficando intoxicadooooo!”

“Imbecil, imbecil, imbecil!” Gargalhamos sem parar, terminando de guardar as coisas.

Por mais “incrível” que pareça, os dormitórios eram realmente legais. Parecia um mini apartamento. Havia uma geladeira que estava sempre cheia, uma área que era quase uma sala de estar, o banheiro e o quarto. Era quase tudo junto. Sentamo-nos no carpete em vez do pequeno sofá para assistir televisão e Max apoiou a cabeça no meu colo. Sorri para ele, voltando a assistir o filme. Assistíamos Batman — O Cavaleiro das Trevas Ressurge. Ambos concordávamos que Bruce tinha uma bunda bem empinada.

Até aí estava tudo muito bem. No meio do filme, eu estava de olhos arregalados a olhar para as cenas. Sempre ficava super concentrada em filme daquele tipo. Max olhava para mim e para o filme ao mesmo tempo. Até que ele teve a ideia brilhante de passar os dedos no meu pescoço e eu soltar uma risada alta.

“Max, não!”

“O que?” Seu sorriso era divertido e ele levantou a cabeça do meu colo, dando um beijo com estalo no meu pescoço. Estremeci na hora. Voltou a se sentar ao meu lado e ficou com a mão apoiada no queixo, olhando para o filme.

“Não gostou do filme?”

“Prefiro romances.” Revirei os olhos para ele, ainda com o rosto ardendo de vergonha. Estava de pernas cruzadas e olhava atentamente para o filme.

“Eddie, você faria a justiça usando apenas seu intelecto?”

“Acho impossível fazer a justiça usando o intelecto. A justiça nunca é bem feita de verdade.”

“Hum... Você acha que, assim como o Batman, usar algo ao seu favor que a assusta irá te trazer benefícios mesmo se não for algo justo?”

“Você deve lembrar que o Batman nem sempre é justo.” Sorri para ele, me levantando do chão e indo para a cama. Joguei-me com os braços juntos ao corpo e deixei que Max desligasse a televisão. Ele veio até a mim, beijou a minha cabeça depois de fazer uma leve carícia e foi para sua cama.

“Suas respostas são sempre imprevisíveis, Eddie. Boa noite.”

“Boa noite, Max...” Balbuciei baixo, adormecendo logo em seguida.