Transtornato - Transtornos Em Um Internato
6 Capintolo 6
O resto da semana fora igual a qualquer semana de aulas. Era sexta feira à tarde e eu estava sentada na minha cama (que máximo! Minha cama) refletindo sobre os dias com Max. Era óbvio que ele não era apenas gay. Ele ficava com o Rodolfo e me tratava com muito afeto. Sim, claro que podia ser apenas o jeito dele. Porém...
“Tem algo sujo aqui. Acho que é sua cara.” Max disse ao olhar para mim com as sobrancelhas franzidas.
“Haha. Retardado.”
Nate estava sentado conosco em uma mesa na praça de alimentação da escola. Ele me encarava com um sorriso nos lábios e me cutucava. Dei um tapa em sua mão com um revirar de olhos, mantendo o foco em Max.
“Então... O professor Woman perguntou a você se gostava de vaginas? Isso não é proibido?”
“Sim! Mas acho que ele faz o que quer. É filho da dona.”
“Por isso ele é tão arrogante com todos! Que mimado.”
“Sinto muito estragar a fofoca de professores, mas já é hora de irmos.” Nate referiu-se a Max.
De manhã, meu companheiro de quarto me acordou todo contente uma hora antes da que eu deveria acordar pois iria a uma ilha com alguns colegas da escola. A criatura parecia um furacão fazendo as malas mesmo tendo aula no mesmo dia. Eu ria observando meu quase-melhor amigo entusiasmado com a viagem. “Surupiga! Surupiga!” ele repetia sem parar e não me deixava em paz. Surupiga era o nome da ilha que por sinal, era maravilhosa. Na foto que o garoto sorrindente me mostrou, a areia branca da praia era lambida pelas águas claras do mar. Havia uma cabana com telhado de palha e gravetos com pessoas bebendo diversas bebidas coloridas e preso ao copo, aquele guarda-chuva que era colocado de enfeite para parecer algo exótico e tropical. Se bem que a ilha era realmente tropical. Eu queria tanto ir, mas não podia pois Rosimera me obrigara a ir para casa no final de semana.
Max pirou na hora assim que Nate disse “É hora de irmos”.
“Ai, Eddieeeeeeeeeeeee! Vai ser tãããão divertido!” Seu lado feminino extrapolou ao prolongar as palavras, me fazendo rir que nem uma condenada.
Meu colega de quarto e seu amigo me deram abraços apertados e beijos na bochecha. Nate dissera que ia guardar as malas para que Max não levasse peso. Era um verdadeiro cavaleiro até com gays.
Assim que ficamos a sós, meu amigo me olhou com um sorriso demorado. Ele parecia constrangido e eu acabei quebrando aquilo ao abraça-lo com força. Max era alto. Parecia uma tábua de passar roupa, mas conseguia sentir seus músculos por baixo da camisa. Ele beijou o topo da minha cabeça e segurou meu rosto com as mãos.
“Vou sentir sua falta.” Ele dizia com lágrimas nos olhos.
“Não fale como se fosse passar uma eternidade lá.” Dei uma risada de sua reação, o fazendo rir junto. Era tão sensível. “Tudo bem! Sentirei saudades.”
“Eu sei disso.” Dei-lhe um tapa com força no braço assim que Nate apareceu chamando a tábua de passar com um assobio.
”Ai! Sua caminhoneira! Tenho que ir, tchauzinhooooo!” Me abraçou forte e saiu correndo todo animado e acenando para mim. Eu sorria para ele, já sentindo sua falta.
Hora de me preparar para o Inferno pessoal.
Caminhei lentamente pelo gramado até o prédio de dormitórios. No meio do caminho, tropecei em uma pequena pedra que fora chutada por mim durante o tropeço. Me recompus desajeitadamente e fui andando como se nada tivesse acontecido.
No dormitório, comecei a dobrar minhas roupas de forma calma. Não precisava ter pressa. O lugar era silencioso sem a presença de Max e eu sentia um vazio. Gostava de tê-lo por perto e mais importante, gostava de ter uma alma por perto. Durante toda a minha vida fiquei sozinha. Não especificamente sozinha, mas mesmo assim só. Estranho era saber que meus pais tinham sempre um ao outro. Iam em festas, eram sociáveis, saíam para ir à praia e etc.
No fundo, alguns jovens estão mais sós do que os mais velhos.
Assim que acabei de fazer a mala, a examinei para ver se estava tudo ok. Minhas roupas dobradas de forma atrapalhada estavam ali. Sapatos, roupas íntimas e objetos pessoais. Puxei a alça da mala de rodinhas e a fui levando até o carro que me esperava do lado de fora do prédio. Entrei no carro em silêncio, meio receosa com o que ser que tinha um objeto cancerígeno entre os dedos polegar e anelar poderia dizer. Sempre que começava a falar, ela era previsível. Mas quando ficava em silêncio, nunca sabia o que esperar. A mulher que me colocou ao mundo abriu a boca para falar e olhou para mim com a expressão séria.
“Seu pai voltou.” Ela disse com um tom gélido na voz. Sua voz era grossa devido ao cigarro, mas alta mesmo assim.
“Eu sei disso.”
“Sabe, você deveria ser grata. Soube que não anda prestando atenção nas aulas e que anda rabiscando nos cadernos. Edwin, foi a primeira semana de aula. Eu pedi para os professores ficarem de olho em você e gostaria que se esforçasse mais. Te coloquei neste internato não porque queria tirar férias e sim porque quero o melhor para você. É inaceitável que você fique em casa e não faça amigos. É INACEITÁVEL que você não fale com seus irmãos. Eu sei que você está em fase de crescimento, mas isso não explica seu comportamento imaturo.”
Seu blá, blá habitual me fez revirar os olhos. A verdade era que eu fazia o que todo aluno faz. Eu e minha mãe sempre brigamos muito. Sempre. O motivo era óbvio: duas teimosas no mesmo lugar não dá certo. Seu falatório me fez confirmar que sempre ficava previsível quando abria a boca. Era o que ela fazia melhor: criticar e se fazer de boa pessoa. Ela engatou a marcha e dirigiu até seu destino. Durante o caminho, nós ficamos em um silêncio profundo enquanto eu ouvia música em meus fones de ouvido. Ouvia Back Down South dos Kings Of Leon. Sempre gostei muito dessa banda. Logo mudei para Photograph, do Ed Sheeran. Incrível como a voz do meu xará sempre me acalma. Sua voz transmitia tudo que uma vez ele sentiu e sente. Ele expressa o amor e a saudade na voz. Ouvir Ed cantar é como uma viagem cósmica. É como entrar em um mundo paralelo onde tudo são letras musicais. São partituras. São símbolos que podem significar uma fase da vida.
Minha verdadeira paixão sempre foi Arte. Arte é expressão. O modo de Ed a falar sobre a fotografia é fascinante e me faz prender em suas palavras. Uma vida pode estar em uma única foto. Um momento em que nos faz querer entrar naquela imagem que pode, além de nos alegrar, também nos entristecer. Uma única foto faz coisas impressionantes e sua voz dizia tudo aquilo de uma maneira que eu nunca conseguiria explicar.
Tirei a música ao lembrar que minha mãe estava ao lado e suspirei ao ver que chegamos ao nosso “lar”. A casa verde manzana me era estranha mesmo depois de apenas uma semana longe. Rosimera abriu o portão branco do muro e entrou. Peguei minhas coisas no porta-malas aberto do carro e fui andando até dentro da casa ouvindo o som das rodinhas arrastarem no chão áspero. Puxei minha mala ao subir os três degraus e finalmente entrar pela porta de vidro tão limpa quanto no dia em que uma amiga minha saiu correndo e não viu que a porta estava fechada, batendo a testa na porta.
A sala de estar parecia aquelas de revista, com uma mesa de vidro no canto direito e quadros sem sentido algum pendurados na parede. As paredes salmão eram banais comparadas à que tinha uma textura de tinta escorrendo. Realmente haviam jogado a tinta e colocado algo para endurecer e ficar em gotas aparentando escorrer. Era laranja e os tons de marrom que sombreavam as gotas davam a impressão de endurecimento. Eu amava aquela parede justamente por ser única.
“OLHA QUEM CHEGOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOU!” Rosimera começou sua agitação, me fazendo revirar os olhos. Ela era mais adolescente do que eu e principalmente, mais infantil.
“Olha a anta aí!” Meu pai disse, me fazendo sorrir. Ele era a pessoa a quem eu mais gostava simplesmente por ser simples. Não tinha as babaquices que minha mãe tinha. Eram totalmente diferentes e eu não fazia ideia de como eles se apaixonaram. Seu tom era quase sempre irônico ou sério. Era reclamão como eu, mas bufava sempre que lhe pediam algo. O homem que me gerou tinha a pele morena. Poderia ser pardo, mas não era. Tinha descendência portuguesa e africana. Seu cabelo era raspado e arrepiado, o fazendo parecer mais jovem do que realmente era. Na casa dos trinta, meu pai estava bem para a idade dele (tirando a barriguinha de chope que aparecia nas piores horas). Suas tatuagens eram espalhadas pelo corpo e seu nariz comprido que um dia eu brinquei no meu aniversário de nove anos continuava a crescer. Havia dito que meu desejo fora seu nariz diminuir. Estava com vergonha e como sempre, fiz piada mesmo não tendo graça ALGUMA.
Meus irmãos estavam em seus quartos usando o computador. Fui para o meu, começando a arrumar minhas coisas. Não levara muita roupa pois deixara algumas no meu armário sem uma porta. Era daqueles que a porta arrastava e tinha uma onda lilás no meio.
Assim que terminei de arrumar minhas coisas (tudo jogado), Rosimera me chamou para jantar em família. Em ocasiões raras nós jantávamos em famílias justamente por sempre ter discussão entre eu e minha mãe.
“EDWIN, DEIXE DE SER BAGUNCEIRA! VOCÊ É SAPATÃO POR ACASO?” Minha mãe berrou da maneira mais lógica impossível.
“Mãe, o que ser lésbica tem a ver...”
“Arruma essa merda agora!” Ela disse ao começar a arrumar minhas coisas. Revirei meus olhos com um suspiro prolongado.
Andei até a cozinha grande e me sentei na cadeira de aço da mesa redonda de vidro que sempre tivemos. Mudamo-nos para essa casa faziam quatro anos e ainda assim não me sentia em casa de verdade. Odiava meu quarto. Mesmo não gostando, me acostumei com o local. Macarrão estava à mesa e eu suspirei ao vê-lo. Alface era espalhado pela massa com molho. Coloquei no meu prato e comecei a comer, observando minha família. Gasper e Josie, os gêmeos, estavam lado a lado. Eram gêmeos idênticos e tinham lá para seus treze anos de idade. Josie estava mais avançada que Gasper, que ainda tinha a fisionomia de um garoto de dez anos. Os peitos da minha irmã já começavam a crescer, devido sua menarca nas férias. Meu irmão, Pietro (ou Sífilis, como gosto de chamar) era moreno e de cabelo preto. Tinha seus dezessete anos e iria prestar vestibular esse ano. Meus pais estavam na mesa também. Rosimera devia ter terminado de arrumar minha bagunça que tanto trabalhei para fazer.
“Fez amigos?” Rosimera começou.
“Fiz.” Resmunguei.
“Imaginários?” Meu pai falou depois de beber um gole de refrigerante.
“Ainda não. Esses são difíceis de achar.”
“Seus amigos sabem que você é uma vergonha?” Minha mãe sibilou indiferente.
“Que tal me deixar em paz um pouco?”
“Edwin, faço isso para o seu bem. Que mãe eu seria se deixasse você para lá? Você é bagunceira e burra! Precisei te colocar naquele internato para ter uma educação adequada para o tipo de pessoa que é” Ela respirou fundo e eu fiquei batendo o garfo na mesa, fingindo que ouvia. “Acha que sou seu pai?” Ela disse, me fazendo lembrar do Darth Vader. “Que vou dizer ‘ah, deixa essa merda aí em colégio público que ela aprende’? Não, não vou! Eu vou te colocar em uma escola de boa qualidade, vou puxar seu pé em tudo e obrigar você a estudar. Você precisa se interessar mais nas coisas. Pare de sonhar com essa merda de fotografia e procure uma carreira de verdade!”
Ela berrava alto, me fazendo olha-la chocada. Era incrível como ela tentava dar exemplo determinação e seguir seus “sonhos” quando nem ao menos me apoiava. Houvera uma fase da vida da minha mãe em que sua família vivia na pobreza. Tudo era caro na época e meu avô construiu uma casa para todos. Minha mãe ansiava por mais. Ela não queria viver na pobreza. Ela queria ter dinheiro. Queria ter tudo. Estudou odontologia e medicina. Fez faculdade de letras (se arrependeu e colocou até acabar) e depois de odontologia. Montou seu consultório de dentista odontólogo cinco vezes. Até que, no ano anterior, desistiu e foi ajudar meu pai na loja. Ela gostava do que fazia, mas parou porque não dava tanto dinheiro. Se ela era um exemplo? Não, ela não era. Tudo o que ela fez foi para ter luxo e não felicidade.
Se luxo dá felicidade? Sim, felicidade artificial.
“É incrível como você fala tanta besteira.” Mesmo não gostando dela, eu me recusava a falar palavrão com adultos e família.
Joguei os talheres no prato, fazendo um barulho metálico e fui para meu quarto. Me deitei na cama depois de trancar a porta, colocando meus fones de ouvido azuis. Max me fizera adicionar ele nos contatos depois de muita insistência e também tinha o número de Nate.
Max Pussy Power 18:43
Oieeeeeeeeee! Ed, Ed. Aqui é pfto demaisssssssssssssssss
Eu 20:07
Sorry! Acabei de jantar com meus pais. Mt tenso!
Meu sorriso foi se aumentando aos poucos. Era bom saber que tinha um amigo. Dois amigos! Não havia pensado em contar sobre minha família para Max, mas poderia deixar isso para quando voltássemos para o internato. Recebi a mensagem alguns minutos depois. O envelope dizia “4 mensagens”
Max Pussy Power 20:16
Awwwwww! Me desculpa por vc ficar aí enquanto me divirto! Droga, não to ajudando em nada
Max Pussy Power 20:16
O Na tá com saudade! Ele mandou uma beijoca e disse que vai falar contigo por msg tb
Nate Gostoso ☞ ◯ 20:18
Oi, Eddie! É o Nate. O Max disse que meu nome está “implacável” no seu celular. Qual é?
Nate Gostoso ☞ ◯ 20:18
Enfim, espero que esteja tudo bem aí.
Dei risada ao perceber os nomes dos contatos. Na quinta-feira, Max pegou meu celular e disse que era um absurdo eu não ter os números dele e de Nate. Não parei para ver os nomes dos contatos. Tirei um printscreen do contato de Nate, mandando para ele a imagem.
Nate Gostoso ☞ ◯ 20:20
Haha! Esse Max...
Eu 20:21
Sou inocente nessa história, mas não vou mudar nada! Vai que ele se estressa comigo.
Nate Gostoso ☞ ◯ 20:21
Tem razão. Precisamos ir embora. Haverá um luau e Max está doidinho para colocar cocos e saia havaiana de algas.
Eu 20:22
Certo. Irei me despedir dele.
Max Pussy Power 20:21
Preciso ir, bjssssssssssssssssss
Eu 20:23
Não bebam muito! Boa noite
Apaguei a tela do meu celular e o coloquei no criado-mudo. Estava bem cedo, então comecei a ler meu livro favorito novamente.
Cameron devia tomar a iniciativa! Droga, eu sei que ela é um anjo, mas mesmo assim! Ele vai morrer!
Fechei meu livro ao ver as horas. 02:37. Coloquei meu livro no criado-mudo e me levantei da cama para apagar a luz. Voltei para a minha doce caminha que era mais dura que meu ombro e me endireitei meu travesseiro, indo dormir.
No meu sonho, eu tinha uma mãe que comprara na OLX e irmãos maravilhosos que se preocupavam comigo. Max sorria para mim, me incentivando a fazer tudo e eu olhava a mim mesma, surpresa. No sonho, eu era tudo o que sempre quis ser: notada.
Fale com o autor