Senti aquele breu familiar na minha mente. Aquele que me dava arrepios.

O mar lambia a areia da praia com suas ondas pouco poderosas. Jazia ali, naquela ilha com um apartamento velho, destroços de avião. Passageiros desmaiados ou mortos estavam sentados ou caídos. O rapaz de camisa azul acordou.

"Onde estamos?" Não respondi. Estava com medo. Já estivera naquele lugar antes e sabia o que aconteceria.

Ele iria aparecer.

E apareceu.

Nossos telefones foram levados por uma grande força magnética, assim como brincos e piercings. Uns reclamavam da dor de sentir suas joias serem arrancadas junto da pele, outros sequer reclamavam. O homem de capuz sem rosto se aproximou de mim. Ele iria me matar. Iria levar todos para seu esconderijo ou então fazer joguinhos conosco. O demônio dos meus sonhos parecia ter dois metros de altura e usava um capuz preto. Eu tinha medo dele. Achava que ele era a mistura de tudo ruim que eu tinha e que a única forma de se satisfazer, era me torturando nos sonhos...

Pipipipipipipipipipipi!

A droga do despertador berrava nos meus ouvidos. Um estrondo ainda maior se foi ouvido depois de eu socar o aparelho odioso. Eram sete da manhã de terça. Precisava me arrumar e estava suada por causa desses sonhos irritantes.

Olhei para o lado hesitante, mas ficara surpresa: Max não estava lá. Estaria ele com vergonha de ontem? Não, deve ter passado a noite no quarto de R. Esquecer o beijo era o melhor naquele momento. Deus, eu sentia uma dor de cabeça maldita. Havia um copo de água com um comprimido no criado-mudo ao lado da cama, no qual tomei. Tinha que segurar a cabeça de tanta dor que sentia.

Às pressas, entrei no banheiro pequeno. As paredes imitavam madeira assim como o balcão da pia. Estava tão limpo que a porcelana da privada e banheira reluziam. Me despi de forma rápida, entrando no chuveiro. A água fervendo levou o cheiro de álcool e vômito do meu corpo. Devo ter ficado vinte minutos ali.

Assim que saí do banheiro com a toalha, me vesti às pressas. Gostava disso em mim: não demorava pra me vestir. Peguei meus materiais e fui andando calmamente pelo gramado até o edifício de aulas e etc. quando avistei Nate. Aquele garoto aparecia sempre!

“Hey! Está bem para uma primeira vez de ressaca.” Disse ao se aproximar cada vez mais de mim. “Tomou o comprimido?”

“Tomei sim, obrigada!”

“De nada. Posso lhe acompanhar até a aula? Farei na sala ao lado.” Concordei com a cabeça e o segui em passos curtos.

Achava estranho aquele garoto que mal acabara de conhecer, me ajudar tanto. Ele era tão prestativo e eu não entendia o porquê disso. Certo, eu havia entendido que ele era popular e namorava a Brianne Peitões. Não era homofóbico também, o que era muito legal. Talvez ele e Max estejam me acolhendo apenas por eu ser nova. Ou talvez tenham feito uma aposta e ver quem me levava para a cama primeiro. Talvez seja melhor eu dizer que gosto do meu hímen. Eu só penso besteira, senhor.

Tá bem, entendi. Eles só são boas pessoas e estão me acolhendo por eu ser mais nova que eles. Quer dizer, eles eram mais velhos. Pareciam ser mais velhos. Max aparentava ter seus dezessete anos e Nate uns dezenove. Eu só tinha quinze anos.

“Nate, qual sua idade?” Perguntei hesitante. Sempre hesitei muito.

"Dezoito, pois?”

“Nada...” Ele me olhou desconfiado e deu um sorriso reconfortante. Era impossível não retribuir esses sorrisos.

“Sabe, não precisa ser tão tímida com todos.” Arregalei os olhos quando ele disse aquilo. Não esperava por essa. Não me achava tímida. Fiquei na defensiva.

“Não sou tímida!”

“Está bem! Desculpe!” Ele disse com um sorriso sem graça, colocando as mãos para cima como se estivesse se rendendo. Esse garoto sorria demais para o meu gosto. Pessoas que sorriem muito são alvos de desconfiança.

Estávamos perto da porta da minha sala de aula e ele se despediu com um aceno. Agradeci por me acompanhar e entrei na sala de aula, onde o professor ainda não havia chegado. Me sentei na carteira perto da parede e comecei a ler um livro chamado Louco aos Poucos. Eu amava esse livro e lera umas quatro vezes desde que comprara. Um fato estranho sobre mim é que eu não conseguia ficar virada para frente nessas cadeiras. Virava para o lado e colocava a mochila nas pernas cruzadas. Copiava assim, lia assim.

As viagens cósmicas de Cameron me fizeram ficar tão concentrada no livro que quase não senti quando empurraram minha mochila junto do livro.

“Ops! Eu deveria olhar para onde ando..” Brianne olhou para mim com inocência e espanto. Cínica.

“Isso só faria sentido se você andasse com os braços abertos.”

“Ridícula!” Ela olhou para mim com desprezo e foi se sentar na cadeira do meio. Não entendi. Só havia dito o óbvio. Peguei minhas coisas e me endireitei na cadeira.

Não havia entendido absolutamente nada da matéria assim que acabou. O professor saiu de sala e o Woman entrou. Passara-se meia hora até o professor reparar na minha posição.

“Senhorita Squirrel, vire para frente.” Me virei relutando, copiando tudo com a pior letra da face da terra.

As aulas acabaram e eu saí, indo para o meu dormitório. Havia planejado passar a tarde lendo. Assim que entrei no meu quarto, vi Max na cama assistindo televisão usando uma camisa cinza e bermuda. Acenei para ele e me sentei na cama, receosa.

“Esse programa é mesmo bom. Ei, o professor Woman foi um chato com você?” Ele agia naturalmente. Decidi que também deveria.

“Sim, ele é um pouco... Duro, não?” Olhei confusa para o meu amigo e sorri.

“Pois é. Tenho aula de Física com ele também. Tem outra festa hoje no galpão. Vai querer ir?”

“Pode ser!” Ele ficou em silêncio depois de sorrir. Sua expressão não indicava que ele sabia sobre ontem. Ele não deveria saber. Ele esquecera, estava bêbado demais. Decidi que era melhor falar sobre de qualquer jeito. “Max, sobre ontem...”

“O beijo?” Olhei perplexa para ele. “O que tem?”

“Você se lembra? Entenda que não foi por mal! Não quis fazer aquilo. Quer dizer, foi legal. Foi de boa. Não sei. Eu sei que você é gay! Não vou ficar apaixonadinha por você nem nada ou me il...”

“Eddie, está tudo bem. Nós ficamos bêbados e nos beijamos. É normal.” Ele parecia descontraído demais. O moreno se levantou e eu notei como era alto. Alto mesmo. Devia ter uns 1,82 de altura. Falou enquanto se sentava ao meu lado. “Por que te preocupa tanto?”

“Ah, eu... Nunca tinha beijado antes.” Sorri sem graça para meu amigo meio-gay, cruzando as pernas. Agora tudo iria ficar melhor. Max arregalou os olhos completamente surpreso e deu uma risada.

“Nunca?”

“Já dei um selinho em um garoto espinhento do quarto ano, mas não acho que conte!” Não entendi o motivo de ele ter ficado tão surpreso. Era só um beijo.

“Eddie, desculpa! Desculpe, sério. Eu não queria ter roubado isso de você. Quer dizer, eu sou gay. Dar o primeiro beijo em um garoto gay é cômico demais.”

“Não vejo problema algum!” Cruzei os braços fazendo uma careta. Ele deu risada.

“Okay, okay. Você é quem sabe.”

Decidimos não ir à festa. Max ainda estava de ressaca e acabou dormindo com o braço por cima dos olhos. Me virei para vê-lo dormir. Eu tinha essa mania de fitar os outros e absorver cada detalhe. O motivo é óbvio: iria esquecer rápido demais. Não queria esquecer meu novo amigo mesmo que ele fosse a pessoa com quem eu dei o primeiro beijo. Era estranho, claro, mas nunca ninguém havia me acolhido tão facilmente. Normalmente eu era a tímida e a estranha, motivo de as pessoas me tratarem como se eu fosse apenas passageira. E era.