Transtornato - Transtornos Em Um Internato
1 Capintolo 1
Notas iniciais
Gosto de contornar o formato das coisas com meu dedo. Me faz lembrar que as coisas são reais. No meu caso, é fácil confundir realismo com sonhos. Mesmo assim, pareço uma drogada a contornar o formato dos desenhos do cobertor.
Minha mãe me berrou de um jeito adorável pelo que pareceu ser a décima vez naquele meio segundo e eu resmunguei em resposta. Não somos tão chegadas. Na verdade, eu sempre a vi como uma irmã mais nova que se fazia superior.
"Sai dessa merda de quarto imundo, Edwin!" Tá, ela me chamou pelo nome. Ela está puta.
Meu pensamento me fez dar risada e bufar frustrada logo depois pela impaciência dela. Eu sou igual, fazer o que? Olhei minha figura no espelho antes de sair do quarto, aprovando com um balanço de cabeça para cima e para baixo. Usava botas pretas gastas, uma meia calça mais velha que Rosimera e shorts desfiados com uma camisa do meu pai. Assim que abri a porta, deparei-me com a figura pequena e robusta da minha mãe. Gosto de pensar que ela parece aquelas bolinhas de ping-pong laranja.
"Estou diva."
"Está atrasada." Ela fez uma expressão irritada que automaticamente, me irritou junto.
"Continuo diva."
Era meu primeiro dia no Internato Institucional PK depois das longas férias. Não sei ao certo o nome da escola, mas sei que me lembrava a palavra pepeca.
No caminho, que pareceu uma eternidade, Rosimera colocou para tocar um de seus sucessos favoritos: Roberto Carlos. Ela batia no volante e berrava enquanto sugava seu canudo do câncer. Ela sabe que eu sou alérgica a fumaça.
"Filha, canta comigo! Esse cara sou euuuuuuu!"
"Parece uma gralha grasnando quando canta."
"Sou jovem!"
"Diga isso para suas pelancas de velha."
"Minha mente é mais jovem que a sua, resmungona chata!"
"Ora, quer que eu encha a cara e te ligue bêbada dizendo que peguei AIDS e herpes de algum cara?"
"Só se for loiro de olhos azuis. Daí pode usar minha filha à vontade."
"Que meiga." E assim permanecemos até o final da viagem de três horas ouvindo Robertão até chegarmos em um lugar desconhecido. Eu estava bem ansiosa e claro, alarmada.
O ambiente agradável no qual chamo de Presídio Escolar Para Crianças Não Suportadas Pelos Pais me assustava um pouco. Não tinha amigos aqui. Tentaria não ser esquisita ou babaca. Não tinha notícias das amigas que fizera na antiga escola. E eu, sempre fiel a amizades, não tinha contatos com elas por meio de internet simplesmente porque eu não queria.
Já havíamos descido do carro e eu carregava minhas malas. Me despedi de minha mãe, a qual se chama Rosimeri. Ela cheira a cigarro e carniça. Gosto de chamá-la de Rosimera. Não sei porquê, apenas gosto e é engraçado. Meu pai havia viajado a negócios e minha mãe pensou que era uma boa me colocar em um internato para ter tempo livre. Sua despedida foi dois beijos na bochecha e um adeus. Nem para me acompanhar até o dormitório.
O lugar em si era realmente agradável. O campus, onde alunos se reencontravam e se despediam de seus pais, era totalmente verde (sério! Nenhuma graminha morta!) e bem aparado. Gosto desse cheiro de planta recém regada. Me tranquiliza. Não haviam muros, mas o lugar parecia bem legal. As paredes do lugar que era suposto ser as aulas, tinha um ar profissional, mas também intimidante com os vidros extremamente limpos e paredes brancas com azul cintilante. Palmeiras se encontravam em frente ao edifício cheio de vidros com formas geométricas bastante intrigantes. A arquitetura até que não era nada mal, apesar das formas. O chafariz redondo no meio do campus me atraiu o olhar e eu observei a água espirrar pelo que pareciam dois anjos virados um de costas para o outros, fazendo xixi na água. O mármore reluzia na parte que mais chamava atenção naquela fonte peculiar. Os pênis dos anjinhos me fizeram piscar três vezes para ver se era isso mesmo que eu via. Sim, era. Alguns estudantes já adiantavam a matéria sentados no mármore fonte com fones de ouvido e tomando energéticos. O edifício de aulas brilhava tanto que era impossível olhar por tanto tempo. Percebi o principal motivo de ser tão intimidante.
É grande. Bem grande. Enorme! Deus, parece que estou falando de outra coisa.
As portas do local se encontravam abertas, também de vidro e avistei mais alunos correndo desesperados para dentro e para fora (hm). Os prédios escuros se destacavam em lados opostos àquela montanha de vidros. Eram prédios comuns, mas também chiques e de cores escuras. A placa dizia "Dormitórios" no prédio vinho e "Professores" no prédio verde escuro com letras prateadas. Haviam janelas também, mas não tantas.
Rosimera havia ido embora e eu andava sem pressa até o prédio vinho enquanto olhava para o mesmo distraída e descobrindo que, na verdade, era roxo. Estúpida. Estava quase no hall de entrada quando trombei em algo que mais parecia um ferro de passar.
"Ops! Desculpe, desculpe, desculpe!"
Olhei para cima, encarando um sorrisinho imbecil de um garoto um pouco mais alto que eu, com cabelos escuros, olhos castanho claro e corpo esguio.
Bonitinho.
Sorri para ele como quem pede desculpas também e reparei que havia derrubado as minhas malas. O moreno pegara as mesmas e se desculpou mais.
"Desculpeeeee! Me desculpa? Ok, desculpa. Me chamo Max. Vou levar isto para você, certo? Certo. Olhe, você deve ser nova aqui! Gosto de conhecer pessoas novas. Você é bonita. Oi!"
"Desculpo, claro. Eu que estava distraída. Obrigada. Oi. Você é rosa." Quis me dar um tapa por falar sem pensar ao reparar seu rosto vermelho.
Seu falatório me fez perceber o jeito afeminado de falar e eu sorri, gostando imediatamente do rapaz que usava um cardigã marrom e botas de salto baixo. Que bom que não precisava encontrar o quarto sozinha. Iria parar no banheiro masculino.
"Sou Edwin, mas me chame de Eddie ou Ed!" Reparei que havia me atropelado nas palavras devido a rapidez que andávamos, sem fôlego. Com isso, saiu: Me... Mo Ed Tapada.
"Me chamo Edwin Squirrel! Ou Eddie." Disse-lhe quando paramos dentro do quarto, finalmente.
"Oh, claro! Você deve ser nova. Sou Max Monroe. Você é um esquilo?" Dei risada com o que disse, devido ao meu nome ser "esquilo" em inglês. Piada ruim, mas mal sabia ele que eu era pior.
"Não, mas pareço um roedor."
"Tem razão. Sou gay."
"Significa que não vai querer ver minha preciosa enquanto me troco?"
"Isso aí. E você pode me fazer de experimento científico."
"Isso vai ser interessante." Afirmei com um sorriso maldoso nos lábios, esfregando as mãos. Eu havia informado o quarto para Max, descobrindo que somos colegas de quarto. Sim, é um internato misto. O moreno afeminadíssimo só dividia com garotas por ser opção dele, visto que não queria sofrer homofobia nem se sentir deslocado. Que internato liberal.
O quarto, era realmente bonito. As paredes eram brancas e havia uma única com cor de pêssego. As camas box estavam bem-feitas com travesseiros sem ruga na fronha. Um lado do quarto, o de Max, estava decorado; e o meu, vazio e impessoal. Armários brancos e bem polidos ficavam em cada canto do quarto apenas para não deixar o quarto tão vazio. Havia um closet com a porta aberta que fez parecer ainda mais que os armários eram apenas de enfeite. Sorri para o garoto levemente afeminado ao meu lado e agradeci por pegar minhas malas.
"Então, Eddie! Vamos?"
"Mas já está a dar em cima de sua nova amiga masculinizada?"
"Querida, eu gosto de giromba."
"Sim, senhor!" Fiz posição de sentido, como no exército e ele apenas riu-se. "Aonde vamos?"
"Irei te apresentar o lugar, conhecidos meus e os gostosos do local. Você é minha mais nova companheira e amiga."
"Você falou em gostosos tipo... Barriga de saco de pão?"
"Esses mesmos. Com volumes exuberantes nas calças."
"Aimeudeus, vamos."
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