Transgressões
2 Mistérios Vizinhos
Notas iniciais

MISTÉRIOS VIZINHOS
Kennedy Aguilar não era um garoto comum. Com certeza não. Ele tinha uma curiosidade acima do normal e um péssimo hábito de se meter onde não era chamado. Isso fazia com que ele se metesse na vida dos outros e descobrisse coisas que não lhe cabiam respeito. Essa curiosidade era notável pelo seu hábito de prestar atenção no que estava acontecendo a seu redor e não ter paciência para mistério querendo descobrir logo qual o final da história.
Ele também tinha problemas com segredos. Gostava de saber o que outros escondiam, mas não revelava a ninguém seu próprio segredo. Também tomava cuidado para não revelar o que lhe contavam, pois não queria ser um fofoqueiro, mas a qualquer momento uma confissão podia escapar por seus lábios.
Com dezesseis anos, Kennedy era alto para a idade já que possuía um metro e oitenta e oito, era magro com músculos definidos por causa da boa genética e da prática de atividades físicas. Seus cabelos eram castanhos e os fios eram lisos e não muito longos, penteados para cima num topete desajeitado. A pele era uma herança de sua descendência espanhola, possuía um tom entre claro e oliva e o fazia parecer sempre bronzeado. Possuía o nariz grego, sem curvatura ou depressão com a ponta afinada e olhos de um belo tom castanho claro. Ele era considerado por algumas pessoas como bonito, mas o próprio Kennedy não acreditava muito nisso. Seus pais eram muito suspeitos para falar sobre esse assunto e embora não se considerasse um galã, estava feliz com sua aparência.
Ele vivia em um sobrado de um bairro de classe média na Vila dos Ajustados, uma cidade pequena onde quase todo mundo se conhecia, possuía manias estranhas e guardava algum segredo. A Vila era um lugar bom para se viver, mas seus moradores eram um tanto exóticos. Alguns até chamavam o local de Vila dos Desajustados por causa das estranhezas que ocorrem na cidade.
A Vila começou quando um grupo de fazendeiros de café e cacau da cidade vizinha estavam tendo problemas por causa da abolição da escravatura e sua mão de obra estava escassa, necessitando de homens para o trabalho. A solução encontrada foi incentivar a vinda de estrangeiros italianos, portugueses, espanhóis e outros povos europeus para a região que eram abrigados num local um pouco mais afastado protegido entre os morros e ao fundo um grande monte conhecido como Dedo de Deus pelo formato que a rocha apresentava muito semelhante a uma mão com um dedo apontando para o céu. Era ali que eles se ajustavam. Aos poucos foi criada uma vila, a imigração aumentou e o conjunto populacional também e não demorou muito para que a vila conseguisse sua independência e se tornasse um munícipio próprio, mas que não perdeu o nome incomum que já estava gravado na memória dos habitantes.
A última novidade da cidade foi a chegada de uma família de alemães que tem um ótimo relacionamento com a família do prefeito. Estranhamente, eles passaram a morar no antigo casarão onde Dona Carlota Galvão vivia e também onde ela foi encontrada morta. Pelo modo em que se encontrava o corpo, só poderia ser um assassinato, mas não se sabe quem a matou ou porque faria isso. A polícia procurou pelo o assassino por um tempo, mas a falta de provas e interesse fizeram com que o caso fosse deixado de lado. Ninguém questionou a conduta da polícia pois a notícia que ela havia desafiado um dos mais poderosos e influentes coronéis da região explicou a morte e também deixou claro que não deveriam tocar no assunto. Os alemães passaram a morar na casa pagando uma pechincha de aluguel, já que nem o dono do imóvel esperava que alguém mostrasse interesse na casa depois dos boatos que o espírito da falecida estava assombrando a residência.
Kennedy estava convicto que ela fora assassinada e ele não aceitaria que o crime hediondo cometido contra aquela senhora ficasse esquecido e sem resolução. Uma questão vinha intrigando o rapaz, enchendo sua cabeça de caraminholas. Por que alguém ia querer a Dona Carlota morta? Ele gostava de sua vizinha por que ela era muito simpática com ele e lhe dava uns trocados toda vez que fazia algum favor para ela, isso desde que ele era um garotinho. Isso acabou criando um laço afetivo entre os dois, mas ele sabia que ela não era flor que se cheire. Ouvira um trecho de uma conversa entre sua mãe e outra vizinha e aparentemente a falecida teve um passado sujo. Mas quão sujo seria o passado dela? Ele almejava descobrir como tudo acontecera, mas isso lhe parecia muito distante. Ainda assim, Kennedy não pensava em desistir. Normalmente quando ele enfia alguma coisa na cabeça, dificilmente alguém o faz mudar de ideia. Essas características eram um defeito e uma qualidade dele: teimosia e perseverança.
Passou a acreditar que o primeiro passo seria investigar os pertences da desaparecida que seriam jogados no lixo pelos investigadores se ele não tivesse intervindo e ficado com as caixas. Ele acreditava que muita coisa poderia ter sido ignorada. Ela não tinha nenhum parente, então não teriam para quem mandar as coisas dela de qualquer maneira. O garoto esperava encontrar algum detalhe que o ajudasse em sua busca ilógica.
Sua mãe disse que não queria nenhuma das “tralhas” da velha espalhadas pela casa, então foi tudo alojado no quarto do rapaz que se via entretido no meio das caixas cheias de recordações. Infelizmente, ele não encontrou nada que parecesse útil até então. Kennedy buscava por algum diário ou algum bilhete que colaborasse com a busca, mas na maioria das caixas possuíam roupas, joias e álbuns de fotografia onde apareciam Dona Carlota e seus amigos que também não sabiam de seu paradeiro.
— Kenny? Você ainda está aí? – pergunta uma voz que saía do celular depositado em cima da cama de solteiro com lençóis bagunçados.
— Estou sim, Pedro.
Já era fim de tarde e Kennedy Aguilar conversava com Pedro Fortunato, seu melhor amigo, com o viva-voz ligado. O rapaz possuía uma expressão aérea pois estava tentando achar alguma dica ou pista do meio das coisas da sua falecida vizinha, mas seu amigo não notara a distração dele pelo telefone.
— Você ouviu o que eu disse? – Pedro perguntou depois de Kennedy não ter dito nada por um tempo.
— Claro – Kennedy mentiu descaradamente. A verdade era que não prestara atenção em praticamente nada do que o amigo falara.
— E o que você acha?
— Sobre o quê? – Kennedy não fazia ideia sobre qual assunto eles “conversavam”.
— Sobre a Melanie. Tem certeza que ouviu o que eu disse? – Pedro ficou desconfiado.
— Desculpe-me, acho que eu me distraí um pouco – falou Kennedy mexendo em alguns livros antigos da senhora.
— Eu estava falando que acho que a Melanie gosta de mim. Ela vem dando umas indiretas ultimamente... Eu acho. – ele disse sem convicção da informação.
— Do jeito que você é tapado, ela deve estar com uma placa pendurada no pescoço dizendo que está afim de você. – caçoou Kennedy.
— Bullying é crime! – protestou o jovem do outro lado da linha — E eu não sou tapado.
— É tapado sim! – rebateu Kenny — Mas, não custa nada tentar. Talvez ela não queira ser só sua amiga – ele aconselhou logo e voltou a se concentrar nos papéis à sua frente.
Kennedy terminou de olhar a caixa e separou alguns papéis para olhar com mais atenção outra hora. Ele pegou o estilete presente em cima da escrivaninha do seu quarto e abriu mais uma caixa.
— ... Aí, ela disse que tudo dependia de mim e que...
Pedro continuava falando sem parar e novamente não havia estranhado o silêncio de Kennedy. Para o jovem, a voz do amigo já tinha se tornado música de fundo, mas um barulho estranho o tirou do transe:
— Scheiße*! – uma voz feminina praguejou, ou pelo menos, era o que parecia para Kennedy pelo tom raivoso da voz. O grito havia sido acompanhando de um barulho de vidro se quebrando e ele levantou-se do chão correndo e foi para a janela.
Uma garrafa de vinho estava partida no chão e o líquido rubro se espalhava pela calçada, caía na rua e escorria até o bueiro. Uma garota loira segurava uma quantidade absurda de sacolas plásticas e sacos de papel nos braços finos e um deles estava caído no chão.
Pelo idioma esquisito falado e pelo fato de estar em frente à casa da Dona Carlota, aquela garota só poderia ser a filha dos Wilbert, os alemães que chegaram recentemente a cidade. Ele não tinha visto nenhum dos novos vizinhos até aquele dia. A rua estava vazia e a loira notoriamente necessitava de ajuda, então Kennedy calçou seus chinelos rapidamente e foi para a rua. Não que ele fosse uma alma totalmente solícita, mas aquela garota o intrigara. Sendo uma Wilbert, talvez conhecê-la ajudasse em sua pesquisa acerca do desaparecimento da vizinha. Talvez ele estivesse equivocado, mas ela parecera bem bonita e esse fator também foi bem estimulante para ajudá-la.
O garoto desceu as escadas de dois em dois degraus para chegar mais rápido ao solo, velozmente abriu o portão e correu para aproximar-se da moça loira.
— Precisa de ajuda? – ele perguntou tocando levemente o ombro da garota. Ele tinha receio de que ela se assustasse e deixasse cair tudo no chão, mas ela lhe parecia muito centrada na garrafa quebrada.
Ela virou-se e Kennedy percebeu que seu palpite estava mais do que certo. Ela não era só bonita, era linda. Parecia ser mais nova que o rapaz, ainda assim bem alta; a vizinha nova era bem esbelta. Ela possuía uma tez bem clara e acetinada, o rosto tinha traços finos e graciosos, o nariz pequeno e arrebitado, os olhos azuis-acinzentados como o Mar do Norte e longas madeixas louras que balançavam com o vento em ondas douradas. Ela deu um leve sorriso com o canto da boca que o rapaz retribuiu.
— Eu normalmente não aceito ajuda de estranhos, mas neste caso eu tenho que aceitar. – ela disse com a sua voz suave e doce. Estendeu algumas sacolas para o garoto que as pegou com prontidão e apoiou outras no chão.
Ele tentou não fazer cara de idiota enquanto admirava a silhueta da moça, mas foi em vão. Pelo menos, conseguiu responder em seguida e não ficou estático ou gaguejando. Ele estava nervoso por falar com uma garota tão bonita.
— Se não conversássemos com estranhos, só conheceríamos nossa família.
Ela fez um trejeito pensativo e deu um risada suave.
— Tem razão.
Kennedy agora podia ver que ela tinha um busto avantajado e usava uma blusa folgada florida e um short jeans. Ele até duvidou se ela era realmente a filha dos Wilbert, considerando o sotaque pouco presente e as roupas, mas ele descartou o argumento das roupas considerando que o clima estava bem quente pois ainda era verão. Ele mesmo usava uma bermuda leve e uma regata branca.
Ele deu um sorriso de volta e observou ela retirar um molho de chaves do bolso e destrancar um grande cadeado. Kennedy estava acostumado a visão daquela casa que pertencia a sua antiga vizinha, mas a ideia de outras pessoas morando ali ainda parecia um pouco estranha, ainda quando ele se lembrava que a casa fora o cenário de um assassinato.
— Poderia levar essas coisas lá para dentro? – a loira perguntou apontando para as sacolas cheias de compras do supermercado.
Kennedy pegou boa parte dos sacos e foi entrando. Ele observou o modesto jardim que Dona Carlota cuidava periodicamente enquanto a moça encostava o portão. Embora soubesse o caminho de cor até a cozinha daquela casa pois fizera o trajeto muitas vezes ajudando a senhora, achou que não seria muito educado ir entrando como se a casa fosse sua. A loira passou e ele a seguiu até o interior da casa que estava bagunçado, sujo, com lençóis brancos cobrindo alguns móveis, latas de tinta, escada, ferramentas e caixas por todos os cantos.
— Por favor, não repare na bagunça – ela pediu um pouco envergonhada pelo estado caótico do lugar. Ela parecia ainda mais graciosa com as maçãs do rosto coradas — Estamos em reforma.
— Acabaram de se mudar, não é? – ele indagou e ela aquiesceu — Então, é de se esperar que isso aconteça.
Eles entraram na cozinha que estava um pouco mais organizada e Kennedy depositou as compras em cima do balcão de granito como indicado. Um pequeno silêncio ficou no ar e o rapaz já estava se virando para ir embora, quando voltou-se para a garota.
— Posso te fazer uma pergunta? – na verdade, ele tinha várias perguntas para fazer, mas não poderia encher a moça com muitos questionamentos ou ela ficaria assustada.
— Pode – ela disse depois de pensar um pouco no que possivelmente teria que responder.
— O que aconteceu com o seu sotaque? – Kennedy decidiu fazer uma pergunta bem simples. Não queria assustar a menina com a sua curiosidade latente.
— Na verdade, minha mãe e minha tia são brasileiras, mas meu pai é alemão. Aprendi alemão no colégio e português em casa. Por isso, estou acostumada com o idioma e eu converso com uns amigos brasileiros pela internet.
— Isso explica muita coisa – Kennedy deu um sorriso meio sem-graça e um silêncio incômodo se instalou.
— Você sabe onde fica o Colégio Madre Teresa de Calcutá? – a garota perguntou quebrando o silêncio e impedindo que um momento estranho se iniciasse.
— Claro! Eu estudo lá.
— Que maravilha! – a loira exclamou com felicidade — Você se incomodaria em passar aqui manhã antes da aula? Meu pai disse que é perto e que eu posso ir andando, mas não me explicou o caminho – ela disse enquanto mexia em uma de suas madeixas.
— Tudo bem. Eu passo aqui quinze para às setes.
— Certo. Não vou me atrasar.
O silêncio voltou, mas Kennedy ainda não sabia o que fazer. Ele desejava fazer várias perguntas à garota, mas preferiu ficar calado. Poderia sanar sua curiosidade mais tarde.
— Então eu já vou indo... Se precisar de qualquer coisa, pode me chamar. Moro ali logo na frente.
— Muito obrigado. – ela agradeceu novamente com um sorriso.
Kennedy andou até o portão e o abriu. Já estava saindo quando ouviu a loira gritar um “ei!” da varanda da casa.
— O que foi? – ele perguntou não entendendo o motivo do chamado.
— Eu não sei o seu nome– ela disse levemente envergonhada.
— Eu sou o Kennedy. – ele acenou sem jeito.
— Me chamo Jessika.
Sem mais despedidas, Kennedy voltou para a sua casa e quando chegou ao seu quarto notou que Pedro tinha desligado a ligação e mandando algumas mensagens bem desaforadas por ter sido completamente ignorado. Kenny decidiu que resolveria com Pedro depois por que tinha que examinar mais papéis. A pesquisa foi inútil por que ele não conseguia se concentrar em nenhuma das letras que estavam diante de seus olhos. Naquele momento, ele só conseguia pensar em duas coisas... Na nova vizinha alemã e na morte da antiga vizinha. Ouvira tanto a respeito do jeito estranho dos alemães que não sabia mais no que acreditar. As más línguas diziam coisas absurdas sobre os estrangeiros e muitos comentaram o fato deles decidirem morar numa casa mal-assombrada sem hesitar. Embora, sua curiosidade sobre os novos vizinhos ainda estivesse a todo vapor, Kennedy ainda pensava sobre a morte da Dona Carlota. O que havia acontecido naquela casa?
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Scheiße* = Merda, em alemão.
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