Transgressões
6 Conversinha
Notas iniciais
CONVERSINHA
Kennedy estava quase morto de susto. Ele estava em uma casa que conhecia há muito tempo, mas com novos moradores. Basicamente, ele sabia que era uma família vinda da Alemanha composta por mãe, pai e dois filhos e que tinham um bom gosto para livros. Saíra no meio do jantar com a desculpa de ir ao banheiro, quando realmente queria bisbilhotar os cômodos e encontrar qualquer informação sobre os Wilbert. Tirando os diferentes estilos de decoração entre os moradores, Kennedy só tinha percebido que eles possuíam poucos retratos de família.
Ele era um garoto muito curioso e nunca negou isso, mas também nunca fora do tipo invasor da privacidade alheia. Agora, guiado por marcas estranhas no assoalho e uma mancha de sangue; ele se encontrava no porão da casa. Um lugar escuro, abafado, cheio de teias de aranha, com guinchos de animais soando em seu ouvido o tempo todo. Talvez fossem morcegos ou ratos. Mas, os animais não eram a sua principal preocupação. Era o humano a sua frente. Pelo menos, ele acreditava que era humano. Do jeito que ele era bonito, forte, estranho e pálido; poderia até ser um vampiro.
Dante Wilbert podia ser assustador quando queria. Os cabelos claros como a areia de uma praia caribenha, os olhos azuis acinzentados de expressão gélida, porte grave e a altura surpreendente que fazia com que olhasse de cima para todo mundo fazendo-os se sentirem inferiores. Kennedy se sentia inferior diante da situação.
Ele tentava fazer as pernas pararem de tremer, mas o sorriso sinistro no rosto do alemão não ajudava. Seus braços musculosos girando uma lâmina com facilidade também não. Dante tinha um sotaque muito mais forte que Jessika, mas ainda assim mais suave que o de seu pai. Antigamente, talvez ele risse do loiro falando português. Mas, graça era a última coisa que Kennedy achava naquele instante.
— O peixe mordeu a isca – ele riu e seu semblante alterou-se para um mais sério — O que procura aqui, garoto?
Kennedy sentiu o sangue regelar-se em suas veias, espalhando um calafrio esquisito por todo o seu corpo. Por mais que não quisesse admitir, ele tinha medo. Ele esperava que isso não estivesse tão visível quanto ele imaginava. Seu olhar não conseguia se desviar do reflexo da luz da lâmpada no metal frio rodopiando lentamente e das gotas de sangue rubro deslizando pelo polegar branco e sujando o cabo de madeira do belo canivete.
— O que foi? O gato comeu sua língua? – Dante perguntou apontando a faca diretamente para o peito do rapaz a sua frente que instintivamente deu três passos desajeitados para trás.
Nem o próprio Kennedy se reconhecia. Logo ele que sempre fora tão bom com as palavras, não conseguia pronunciar uma se quer. Sua mente estava tomada por um imenso branco.
— Eu percebi como você estava interessado em minha schwester[I] e comecei a prestar atenção em você. E consegui muitas informações sobre você naquele colégio sem graça. Eles são muito... Muito... – ele tentava se lembrar de uma palavra — Fofoqueiros – Dante começou a se mover encarando fixamente Kennedy. — O típico schürzenjäger[II] barato e ainda um grande... Como se chama a palavra? Ah, sim! Bisbilhoteiro. Não pense que vai conseguir o que quer com tanta facilidade, schürzenjäger.
Kennedy engoliu em seco à medida que Dante se aproximava. Ele não fazia ideia do que ele tinha falado em alemão, mas podia deduzir que a palavra dirigida a ele não era nada boa. Enquanto a primeira ele falou tomado por uma incrível ternura, a segunda parecia um veneno borbulhando na boca do loiro. Num movimento rápido, uma lâmina estava perigosamente próxima da garganta do rapaz que agora via os olhos gélidos de perto.
— O recado é o seguinte. Você não vai mais entrar nessa casa. Seja lá o que aconteceu aqui antes, não irá se repetir. E você vai ficar longe da minha família, principalmente de Jessika... Entendeu? – perguntou pressionando ainda mais a lâmina do canivete.
Kennedy expeliu todo o ar dos pulmões para afastar sua pele do metal frio e cortante. Ao perceber que Dante ainda esperava por uma resposta, ele balançou a cabeça afirmativamente. Logo depois, Dante deu um sorriso sem mostrar os dentes e tocou gentilmente no braço do rapaz.
— Eu realmente espero que você não sofra o mesmo que Louis. Ele era um bom menino... Curioso como você. Uma lástima que ele tenha morrido de forma tão trágica. – a ironia estava presente em suas palavras — Quem poderia imaginar que ele sofreria um acidente tão inesperado?
Kennedy engoliu em seco outra vez.
— Vamos subir. Devem estar se perguntando onde fomos parar.
Kenny subiu primeiro rapidamente com Dante ao seu encalço. Eles voltaram à sala de jantar para o seus devidos lugares à mesa.
— Por que demorou tanto? – o pai de Kennedy perguntou.
Ele abriu a boca para contar alguma mentira mal feita, mas Dante foi mais rápido.
— Ele se perdeu e eu o ajudei. Depois tivemos uma conversinha.
— Hum... – Renato não parecia muito convencido com aquela história, mas permaneceu quieto. Ele sabia que Kennedy conhecia bem a casa, logo ele não ficaria perdido... A não ser que tivessem alterado os cômodos, o que a seu ver não parecia ter ocorrido.
— Já está arranjando amigos. Que ótimo, filho! – disse a matriarca dos Wilbert que beijou o rosto do filho e depois passou a mão na cabeça dele como se Dante fosse um cachorrinho. Ele fez a melhor revirada de olhos do planeta.
O jantar não teve muita coisa nova. Todo mundo conversava, com exceção de Oskar e Kennedy que no máximo falavam alguma frase pra mostrar que estavam acordados. Dante cochichou alguma coisa no ouvido do pai e agora ambos encaravam Kennedy. Tudo que ele conseguia fazer era olhar para o seu prato enquanto cutucava o chucrute com o garfo.
Ele achou que não estava atraindo a atenção de ninguém daquele jeito, mas era justamente o contrário. Jessika resolveu intervir.
— Está tudo bem com você? – ela perguntou pousando a mão gentilmente no ombro do rapaz.
— Acho... Acho que não estou me sentindo muito bem – ele disse. Em seguida, levantou-se velozmente e foi embora. As pessoas na sala olharam estranhando a atitude dele.
***
As mãos de Melanie suavam só de pensar nos acontecimentos que estavam por vir. E ela não estava pensando no clímax do filme.
Melanie e Pedro estavam juntos no quarto dela. O local não era muito grande, mas era bem aconchegante. Os dois estavam bem próximos sentados na larga cama de Melanie assistindo a uma comédia romântica. A garota acreditava que esse tipo de filme seria ótimo para entrar no clima de sua revelação. Suas mãos estavam sobre as pernas umedecendo o short jeans. A última vez que ela se sentiu tão nervosa foi quando recitou um poema num sarau da escola na frente de uma multidão.
Embora o filme fosse repleto de cenas engraçadas, a ruiva quase não ria. Estava tensa demais para isso, mas forçava algumas risadas. Não queria que Pedro pensasse que não estava apreciando aquele momento. Ela estava... Estava apreciando bastante na verdade. Pedro tinha passado o braço esquerdo por cima dos ombros de Melanie e agora eles estavam muito mais próximos. Ela adorava poder sentir o calor dele irradiando em seu corpo e o refrescante perfume oceânico invadindo suas narinas. Era tão bom estar perto dele. Ela precisava mostrar isso e não ficar paralisada como uma estátua.
Suavemente, ela abaixou sua cabeça até encostar-se ao peitoral definido de Pedro. Daquela maneira, ela podia ouvir as batidas do coração dele ressoando como um forte tambor. Os corações dos dois batendo em ritmos parecidos, embora o dela estivesse um pouco mais agitado. Melanie pensou que aquela poderia ser a melodia de amor deles. De uma maneira bem natural, o moreno começou a mover sua mão para cima e para baixo num movimento ondulatório no braço da garota. Ela encarou aquilo como um ato de carinho e adorou. Melanie se sentia muito tentada a envolver a mão de Pedro na sua, mas ela tinha medo da reação dele. O coração dela agora batia tão forte que parecia que ia explodir. Ela podia sentir um leve calor nas maçãs do rosto, só esperava que sua face não ficasse vermelha como uma pimenta.
O filme chegara ao fim com o tão esperado final feliz. Melanie se perguntava se a história dela também teria um final como aquele. Por mais que o “viveram felizes para sempre” soasse muito fantasioso e utópico, Melanie não parava de acreditar. Ela era uma romântica convicta.
A grande hora estava chegando. Ela esperava que ele seguisse o roteiro que ela tinha em mente. Aquele que dizia que após a declaração apaixonada da garota, ele dizia: “Eu também te amo” e não “Eu só gosto de você como um amigo”.
— Filme legal – Pedro comentou.
— Sim. Eu gostei bastante.
— Ainda acho que ela deveria ter ficado com o outro cara.
— O quê? Eles foram feitos um para outro. O caso do passado dela era sem graça. – Melanie disse levemente exaltada.
— Eu acho que eles formavam um belo casal até.
— Falou certo. Formavam. Tempo passado. – a ruiva retrucou.
Pedro começou a rir e mudou de posição levantando as mãos em sinal de rendição.
— Tudo bem, tudo bem... Seu shipp[III] ganhou no final das contas.
Eles ficaram calados por um tempo e Pedro voltou à posição de antes. Melanie se aconchegou mais próxima dele.
— Você acredita em um final como dos filmes?
— Como? – Pedro perguntou não entendendo o que a ruiva acabara de dizer.
— Você acredita em felizes para sempre? Sabe... Um casal se encontra e descobrem o amor verdadeiro e eles ficam juntos e felizes até o fim de suas vidas.
— Eu não sei... Acho que sim. Digo, eu quero encontrar alguém especial e viver boas experiências... Acho que todo mundo deseja isso também.
Melanie se ajeitou melhor na cama e passou a olhar Pedro diretamente nos belos olhos castanho-claros dele.
— E se você já tiver encontrado essa pessoa e só não percebeu ainda?
— Será? – ele franziu o cenho.
Parecia que o coração de Melanie iria sair pela boca a qualquer instante. As borboletas voavam como um furacão dentro de seu estômago. A boca estava seca como um deserto. As mãos pareciam a nascente de um rio. As pernas tremiam que nem vara verde.
— Eu acho que você já encontrou essa pessoa, Pedro, assim como eu já encontrei a minha.
— Hum?
Aquela era a grande oportunidade. Era agora ou nunca. Tudo ou nada. Tudo o que ela precisava fazer era falar. Abrir a boca e fazer sua grande declaração. Por que parecia tão difícil se era tão simples? Era só dizer. Melanie puxou o ar para dentro de seus pulmões, tomou coragem e começou a falar.
— Pedro, eu sou apaixonada por você há muito tempo e eu acho que chegou o nosso momento. – ela falou rápido devido ao nervosismo. Melanie parou, respirou e disse a sentença final — Eu te amo.
Ela não podia mais esperar. Cinco anos e meio de sentimentos tinham sido resumidos em algumas palavras. Um redemoinho de emoções tomava conta de seu corpo e ela não sabia o que fazer com tudo aquilo. Não estava acontecendo como ela esperava, mas dane-se! Ela iria improvisar. Segundo os seus anseios, ela seria superdotada, rica, feliz, já teria um doutorado e teria Pedro como namorado, mas a vida não é bem assim.
Ela avançou em direção ao mulato e pressionou os seus lábios nos deles com força. Ela estava esperando alguma reação dele, mas o garoto provavelmente estava muito surpreso com o ocorrido. Aquele era o primeiro beijo de Melanie... Ela era totalmente inexperiente e não sabia o que fazer em seguida, por isso o beijo tinha se tornado um selinho só que longo. Então, Melanie tentou fazer como vira antes nas novelas. Não podia dizer se estava dando um espetáculo ou sendo uma completa tragédia, mas ela não podia desistir. Aos poucos, Pedro parecia corresponder ao beijo e Melanie se sentia nas nuvens. Ela esperou por aquele beijo por tanto tempo que apreciaria de qualquer jeito. Melanie enlaçou seus braços atrás do pescoço de Pedro que movia as mãos em direção à cintura da ruiva.
Tudo corria perfeitamente até...
— MELANIE VALENTINI, QUE POUCA VERGONHA É ESSA?! – uma voz gritou e os dois jovens caíram da cama com o susto.
Eles se levantaram rapidamente e Melanie descobriu quem gritava com eles... Sua mãe. A mulher estava com a cara vermelha de raiva o que de certa forma combinava com os cabelos castanho-avermelhados que caíam em cachos até os ombros. Ela usava calça jeans e uma blusa folgada para disfarçar o excesso de peso. Aos seus pés, duas grandes malas de viagem e grudada nas suas pernas estava a irmãzinha de Melanie, Carine.
— Querida – a mãe de Melanie falou para a filha mais nova — Vá para o seu quarto. Não quero que se macule com tal luxúria.
— Achei que você só ia voltar depois de amanhã. – Melanie se defendeu.
— Pois é... Achou errado! Eu confiei em você, acreditei na sua seriedade, responsabilidade e pureza... – a mãe dela parecia que ia chorar a qualquer segundo — E o que você dá em troca? Vergonha! Poluindo essa casa com tal imoralidade!
— Ela só me beijou – esclareceu Pedro.
— Saia já daqui, garoto, antes que eu te dê uma porrada!
Pedro resolveu sair do quarto rumo à porta da casa e olhou uma última vez para Melanie. Tempo suficiente de vê-la balbuciar: “Desculpa”.
—A gente precisa ter uma conversinha, senhorita. – a mãe ironizou — Sente-se já aí – ordenou.
E assim o primeiro beijo que deveria ser um dos momentos mais mágicos da vida de Melanie foi por água abaixo.
[I] Schwester: Irmã, em alemão
[II] Schürzenjäger: Galanteador, mulherengo; em alemão.
[III] Shipp: Um determinado casal entre personagens.
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