Notas iniciais
Olá pessoal! Mais um capítulo para vocês. Fiquei feliz com o resultado do último capítulo porque milagres aconteceram. Uma leitora fantasma se revelou com um comentário gigantesco e maravilhoso (Obrigado Momô), a Becca, grande leitora da versão antiga apareceu e a GothDoll reapareceu. E não posso deixar a Cristal de fora por estar sempre comentando e deixando reviews ótimos. Amo vocês.

BRUMA

Um dos bares mais curiosos de Vila dos Ajustados, O Caveirão não estava muito movimentado e Sofia tinha sentimentos dicotômicos sobre isso. As vantagens eram que poderia relaxar e poder fazer o serviço com mais tranquilidade; as desvantagens eram que com menos clientes, menos gorjetas e consequentemente menos dinheiro no final da noite. Essas eram algumas das vantagens e desvantagens de se trabalhar em um bar. Embora o lugar estivesse pouco movimentado para uma quinta-feira, parecia lotado porque um grupo de jovens estava bebendo, gritando e rindo alto, sem se preocupar com a vida.

Às vezes, Sofia queria ser um deles, poder se divertir sem se preocupar com nada. Mas, ela não era mais tão nova assim. Com 24 anos, ela era uma mulher adulta e como tal, possuía suas responsabilidades.

Ser uma garçonete muitas vezes era difícil, mas Sofia Dunn pelo menos gostava da atmosfera do lugar. Seu patrão era um metaleiro convicto e isso era expresso no estilo do local. As paredes foram pintadas de vermelho-sangue e possuíam vários quadros retratando motos old-school[I] e pôsteres de diversos artistas e bandas do rock. Também havia um calendário com modelos no estilo pin-up[II]. Todas as mesas e cadeiras eram negras como ébano fazendo um contraste forte com as paredes e combinando com o chão que intercalava pisos brancos e pretos. Havia um grande palco mais ao fundo com um espaço para as pessoas curtirem o som ou dançarem.

Na maioria das vezes, vinham covers[III] de bandas famosas ou bandas da região. Normalmente os ritmos eram rock, pop e, com menor frequência, eletrônica. Às vezes algum outro ritmo invadia o local. Em um dia como aquele, em que não havia banda, o sucesso era por conta do charmoso jukebox vermelho.

Sofia não gostava tanto de rock antes de trabalhar naquele lugar, mas se viu “obrigada” a gostar daquele tipo de música ou teria que arranjar outro emprego. No final das contas, se identificava bastante com alguns estilos de músicas. Seus tipos favoritos eram as antigas e dançantes e isso se refletia no seu uniforme.

A única peça obrigatória era a camisa branca com o logotipo do bar sobre o peito direito. Ela usava uma saia rosa com bolinhas brancas que dava nos joelhos, sapatilhas pretas e usava lenço amarrado no pescoço com a mesma estampa da saia. Outro tecido semelhante amarrava as melenas negras que iam até o meio das costas em um rabo de cavalo alto. O cabelo preto com mechas californianas de tom rosa combinava com a indumentária.

Sofia destacava os olhos castanho-esverdeados com sombra cor de champanhe e as bochechas foram maquiadas com blush rosado numa tentativa de disfarçar a palidez. Ela gostava bastante de coisas antigas e vintage[IV] e adorava se vestir assim, mas para um dia tão parado, parecia desnecessário estar tão arrumada.

— Você parece uma Ariane Grande que foi parar nos anos 50. – comentou Megumi, uma das garçonetes.

A garota descendente de orientais não era só mais uma garçonete, era também a melhor amiga de Sofia. Ela chegara à cidade há dois anos aproximadamente e as duas se conheceram no bar. Entraram juntas naquele emprego e a conexão foi quase imediata. As duas tinham suas diferenças, mas ainda assim se completavam, como qualquer boa amizade.

Sofia era mais alta, com pernas magras e seios pequenos; Megumi tinha pernas grossas, corpo definido, seios grandes e baixa estatura. O corpo bem definido era resultado da prática diária de artes marciais. A mestiça passava uma impressão amedrontadora. Ela costumava usar roupas de tons escuros, mas com modelos chamativos; normalmente tendendo para o gótico. O rosto estava sempre marcado pela maquiagem forte que fazia questão de destacar os extraordinários olhos castanho-avermelhados. Sua fama ainda era completada pelo seu jeito rude e por às vezes perder a linha. Já a amiga era a perfeita imagem de uma boa moça, com exceção das mechas coloridas no cabelo.

— Obrigada pelo elogio – respondeu a outra garota. — Se não fosse pela internet e a tecnologia da atualidade, eu adoraria ter vivido num tempo passado.

— Para mim, quem vive de passado é museu. O futuro é sempre melhor – ela comentou se virando e reparou num jovem acenando em uma das mesas — Pode atender a mesa cinco, por favor? Da última vez eu acabei discutindo com eles.

— Estou surpresa de eles terem voltado aqui depois de enfrentaram seu pavio curto! – resmungou Sofia.

— Não pode comentar sobre meu pavio curto. Você nunca viu a minha ira total

— Ok, Kratos – ela brincou fazendo referência ao jogo favorito da amiga — Fica na sua aí que eu vou lá atendê-los.

Sofia pegou seu bloquinho com uma caneta já colocada na espiral do mesmo e se encaminhou para a mesa cinco, justamente nela que se encontravam os jovens barulhentos.

— Boa noite! – ela cumprimentou cordialmente — Desejam alguma coisa?

Ela foi anotando os pedidos dos jovens até ouvir uma pergunta constrangedora:

— Você está inclusa no cardápio? – perguntou um garoto assanhado.

Sua mãe sempre lhe ensinara que ela deveria ser cordial, além do mais, era uma senhorita. Mas, trabalhando no Caveirão há algum tempo, Sofia aprendeu que com aquele tipo de gente, gentileza não funciona muito bem. Na verdade, é tomada como interesse. Então, ela teria que ir por outra vertente.

— Não sei se você percebeu, mas estamos num bar e não num prostíbulo. – normalmente ela falaria “puteiro”, mas usar palavras difíceis desconcerta os oponentes.

Os amigos do garoto tiraram sarro da cara dele. Era claro que as garotas na mesa também não gostaram da brincadeira sem graça.

— Mais alguma coisa? – ela perguntou arqueando a sobrancelha.

— Não. Obrigado – ele falou com cara de quem acabara de chupar um limão.

Ela foi ao balcão e colocou o pedido com os outros da lista. Big John, o cozinheiro, a agradeceu. Quando se virou para Megumi, ela estava rindo, algo não muito comum de se ver.

— Foi maravilhoso ver você dando um belo corte naquele garoto sem-noção. Finalmente está aprendendo alguma coisa com a mamãe aqui. – a oriental disse convencida.

— Eu tenho que aprender a me defender, não é?

— Eu deveria te ensinar muay thai.[V] – disse Megumi socando o ar — O que acha de treinarmos depois do expediente?

— Você luta e nunca me disse? – questionou Sofia incrédula.

— Como você acha que eu mantenho esse corpo? – ela deu uma rebolada enquanto girava sobre o próprio eixo e Sofia riu — Além do mais, você nunca perguntou se eu praticava alguma arte marcial.

— Da próxima vez que conhecer uma pessoa nova, farei essa pergunta bem especificamente. – disse a morena e as duas riram.

— Você pode começar por aqueles garotos ali – Megumi apontou para dois jovens que acabavam de adentrar o estabelecimento. Eles eram altos e não deveriam ter mais do que dezessete anos. Um deles era forte, mulato, com lábios provocativos, cabelos castanho-escuros penteados pra cima e belos olhos cor de mel; o outro era mais magro, tez bronzeada, cabelos e olhos castanho-claros, além de um olhar curioso. Eles se sentaram em uma mesa próxima ao balcão.

— Ei! É a sua vez de atender, espertinha.

— Tudo bem.

A roqueira atendeu os rapazes e logo depois foi para o jukebox mudar de música. Megumi trocou a música que tocava para uma do Nirvana. Ao som de Come As You Are os jovens retornaram à conversa que parecia ter começado bem antes de entrarem no bar. Sofia não tinha o costume de ouvir a conversa dos clientes, mas ela não tinha muito que fazer e sendo eles totais estranhos para ela, ouvir a conversa deles era moralmente mais aceitável.

—... Aquele irmão dela pode até ter uma carinha que faça as garotas suspirarem, mas ele assusta pra caramba.

— Kenny, esse foi um dos jantares mais esquisito que eu já ouvi falar. – disse o mulato.

— E foi mesmo – ele suspirou desanimado. Para mudar de assunto, o que era chamado de Kenny perguntou:

— E a sua noite? Como foi?

— Foi estranha, mas não tanto quanto a sua. – respondeu o amigo abrindo a lata de refrigerante que acabara de chegar.

— Estranha? Achei que você só tivesse ido à casa da Melanie.

Jantar esquisito? Irmão bonito, mas assustador? Melanie? A conversa aleatória atraía Sofia. Normalmente, ela ouvia casos dos clientes bêbados que sempre lhe contavam a história, mesmo que não quisesse ouvir. Agora era diferente. Ela estava escutando a caso por livre e espontânea vontade.

— Pois é... No começo foi tudo normal. Estávamos assistindo a um filme... Era uma comédia romântica, se não me engano, e o clima estava bom. Depois que acabou ela começou com uns papos estranhos até confirmar o que você vinha me dizendo há um bom tempo.

— Ela se declarou para você, não foi? – Kenny pediu confirmação enquanto mordiscava uma batata frita.

— Sim. E depois ela me beijou.

Os olhos do garoto arregalaram com a surpresa. Sofia ficou um pouco surpresa também. A história parecia até boa. Talvez o romance dos jovens tivesse mais algum acontecimento interessante.

— Como assim?! Conta essa história direito! – Kenny implorava por informações — Ela te agarrou?

— Melanie se declarou e eu ainda estava processando toda a informação. Ela cansou de esperar e tomou a iniciativa.

— Legal... Melanie é gente boa. É bonita e inteligente também.

— Com certeza... – eles ficaram calados por um tempo enquanto comiam.

— Tá, Pedro, mas por que as coisas ficaram esquisitas? – perguntou o garoto se lembrando do que ele falara no início da história.

— Aí a gente estava se beijando e as coisas estavam melhorando só que a mãe dela chegou.

— Chegou de onde?

— Ela estava viajando e quando nos viu juntos ela começou a fazer um barraco e me expulsou da casa dela.

— Putz, que coisa mais desagradável. – comentou Kenny.

Um silêncio desconfortável se instalou entre ele até Pedro dar continuidade ao diálogo.

— E o pior que agora eu não sei o que eu sinto por ela. Eu sempre vi a Melanie como uma irmã mais nova. Nunca pensei nela como uma possível namorada. Ela é a minha única amiga de verdade – ele disse focando a desinência feminina. ­— E eu não quero perder a nossa amizade caso algo dê errado, entende?

— Na verdade não. Pedro, você mais do que ninguém sabe que eu nunca passei por algo desse tipo. Mas... Vocês já conversaram sobre isso?

— Na verdade, sim. Eu disse pra ela o que eu sentia. Exatamente o que te disse agora, mas acho que ela não gostou muito da resposta.

— Oxe, como você sabe disso? Ela falou alguma coisa? – estranhou Kenny.

— Ela jogou um livro no chão com raiva. – o mulato disse fazendo o amigo arregalar os olhos de surpresa — Melanie tem um amor absurdo pelos livros dela. Vai por mim, ela estava p da vida.

Os dois ficaram um tempo comendo em silêncio com exceção de um sucesso do Oasis que tocava ao fundo. Sofia adorou o fato de Megumi estar com um gosto musical semelhante ao dela naquele momento.

— Mudando de assunto, alguma notícia com o caso da Senhora Galvão?

Sofia virou-se mais para a direção dos jovens. Vira aquele crime em um site de notícias da região. Uma senhora sem família que fora assassinada por alguém desconhecido. A polícia tinha poucas informações. O assassino usava sapatos 40/41 e pela distância entre uma pegada e outra possuía 1,78 m aproximadamente. Um forte homem provavelmente. A senhora morava na cidade há um tempo, mas não parecia ter nenhum inimigo declarado.

— Para ser sincero, não. – disse cabisbaixo — E isso é pouco desanimador. Mas, eu prometi que conseguiria, não é? – deu um sorriso fraco.

— Você já pensou em quem teria motivos para matá-la? – perguntou Pedro coçando o queixo.

— Ela era uma pessoa querida por todos.

— Você fala isso por que era meio que amigo dela, mas isso não significa que seja verdade, Kennedy – o mulato comentou. “Então o nome verdadeiro dele é Kennedy”, pensou a morena.

— Como assim? – indagou o outro.

— Tinha bastante gente que falava dela pelas costas e outras que jogavam na cara. Você deveria conversar com os amigos dela e perguntar sobre isso.

— Caramba! Pedro, você é um gênio – falou Kenny agarrando um amigo num abraço apertado.

— Chega de bromance.[VI] – ele disse afastando o amigo — Qual o nosso próximo passo?

— Colhimento de depoimentos e investigação, é claro. – falou num tom sério.

— Falando em investigação, senhor detetive, você já informou a polícia sobre sua nova descoberta?

Sofia estava realmente curiosa sobre qual o papel dos garotos naquilo. E o que dois jovens de aproximadamente dezesseis anos poderiam fazer para ajudar? Eles iriam descobrir quem era o bandido ou tentariam detê-lo? Eles estavam se metendo num assunto que deveria ser problema da polícia? Ainda mais... O que eles sabiam que a polícia não?

Aquela era uma dupla bem instigante, na visão de Sofia. Era uma das primeiras vezes que bisbilhotava a conversa de um cliente e ficou até contente por tê-lo feito. Sua curiosidade foi instigada.

­­— Sofia! – ela ouviu seu chefe a chamar.

— Já vou – ela respondeu tendo que se desvencilhar da função de ouvinte da conversa dos garotos.

Elvis Calavera era um sujeito excêntrico. Ele era de estatura média com um corpo forte, embora um pouco parrudo. Pele clara suavemente bronzeada, cabelos castanho-claros longos e ondulados e penetrantes olhos verdes. Ele usava os jeans surrados de sempre, coturnos e uma blusa do Metallica.

— O que você pensa que está fazendo? – ele perguntou com um tom de voz baixo.

— Fazendo o quê? – ela indagou de volta

— Eu percebi você ouvindo a conversa daqueles clientes. Se você quiser ficar com algum deles, tudo bem. Vai lá e faz alguma coisa pra eles perceberem isso, mas não fique encarando e prestando atenção no que eles estão falando. Isso é rude. E lembre-se... – sua voz ficou mais séria — Muitas pessoas vêm ao Caveirão para conversar sem serem ouvidas, se é que você me entende.

— Não sei se eu entendi bem. – ela comentou sem graça após o sermão.

— Nessas cadeiras já se sentaram pessoas muito importantes para a sociedade da cidade. Muitos vêm aqui para conversar sobre coisas que eles não podem em lugares normais. Alguns de nossos consumidores têm poderes e vidas a zelar. Muitos deles possuem segredos que não devem vir à tona.

— Isso não vai se repetir novamente, Elvis – ela se desculpou envergonhada.

Sofia se afastou. Ficou pensando em tudo o que seu chefe disse e na intensidade de suas palavras. Quantos segredos estariam ocultos na Vila dos Ajustados? Quais seriam os segredos de Elvis e dos consumidores de seu bar?

— Oi! – uma voz interrompeu os devaneios da morena assim como a possibilidade de ouvir o resto da conversa dos rapazes. Ela se virou para ver quem era e recordou-se que aquela era uma das garotas que estava com o rapaz estúpido que atendera mais cedo.

— Ah, oi! – ela cumprimentou cordialmente, embora um pouco surpresa com a aparição repentina.

— Meus amigos estão indo embora e eu vim pagar a conta. – disse a moça negra. Sofia parou para prestar atenção nela. Ela tinha pele escura e acetinada, tinha um rosto bem bonito, lábios cheios, olhos grandes e escuros, cabelos crespos arrumados em inúmeras trancinhas que iam até o meio das costas. Ela era um pouco mais baixa que Sofia, tinha seios pequenos e pernas musculosas.

— Ah claro. Sem problemas – disse Sofia indo ao caixa. Pegou a comanda do grupo e entregou à bela e jovem garota que se encontrava próxima de si.

— Aqui está. Vocês poderiam passar o resto no cartão para mim, por favor? – perguntou estendendo um cartão de crédito.

— Claro. – Sofia disse cordialmente.

Depois de efetuado ao pagamento, a morena voltou com o comprovante em mãos e entregou à moça negra. Suas mãos se tocaram e levou um tempo até Sofia se afastar um pouco. A desconhecida tinha uma presença forte.

— Eu só queria me desculpar pelo idiota do meu amigo. Ele não é tão idiota assim quanto está sóbrio.

— Dizem que os bêbados são os mais sinceros. – respondeu Sofia.

— Bem, espero que você nos perdoe.

— Não tenho o que perdoar. Já ouvi coisas piores por aqui. Infelizmente faz parte do trabalho de uma garçonete bonita num local como esse. – Sofia riu para aliviar o clima depois daquela declaração narcisista que não cabia a ela. Ela não se achava tão bonita assim.

— Bonita com certeza é algo que você é – a moça disse com sinceridade em tom de voz.

— Obrigada pelo elogio. Você também não fica para trás... Qual o seu nome mesmo?

— Eva. E o seu?

— Sofia.

— Um belo nome — as duas comentaram em uníssono e começaram a rir.

— Que esquisito. – a garota de mechas coloridas comentou.

— Talvez tenhamos alguma conexão.

— Ou talvez tenha sido só coincidência. – comentou Sofia e depois um silêncio razoavelmente incômodo se formou ao notar que Eva a encarava — Eu estou com sede.

— Posso te fazer uma bebida ou você é fechada a novas experiências?

— Não. Eu gosto de sair da zona de conforto, às vezes. – ela disse e a outra garota riu — O que está preparando?

— Invenção minha, mas ainda não foi batizada.

— Adorei o duplo sentido. – as duas riram.

Originalmente, Megumi era responsável por fazer drinques. Mas já que Eva tinha se oferecido e a amiga estava tão bem dançando sozinha ao som do jukebox; Sofia deixou a tradição para lá. A morena ficou analisando a perícia que Eva tinha. Parecia que ela já trabalhara com aquilo ou tinha um dom manual já que fazia quase um show enquanto fazia os drinques. No final da “apresentação”, ela balbuciou algo que Sofia não compreendeu e adicionou algum ingrediente na mistura que fez com que os copos passassem a mudar de cor. Seja lá o que fosse tudo parecia bem interessante.

— Aqui está. – ela estendeu o copo com conteúdo cor-de-rosa e um canudo de guarda-chuva.

— O que você fez com esses coquetéis? Estão maravilhosos. – ela comentou após tomar um gole da bebida. De repente, ela se lembrou de que ainda estava em horário de trabalho; mas ao olhar o local ao seu redor, viu que estava completamente vazio. Até os dois garotos de antes já haviam saído. Sofia procurou pelo chefe pensando se tomaria outra bronca no mesmo dia, mas não tinha nenhum sinal de Elvis.

— Mágica – brincou a garota.

— Um mágico nunca revela seus segredos, não é?

— Depende. Eles revelam as pessoas em quem confiam.

— E eu sou confiável? – ela perguntou tomando outro gole do drinque colorido.

— Ainda não sei... Precisamos nos conhecer melhor para decidir isso. – Eva disse pousando a mão sobre a de Sofia.

***

Sofia odiava vomitar. Não que ela achasse que alguém gostasse disso, provavelmente, nem as pessoas com bulimia gostavam disso. A sensação de mal-estar inundando seu corpo, uma queimação vinda do seu estômago até a garganta, o líquido ácido azedando sua boca. Ela se encontrava no banheiro do bar. Todos já tinham saído e ela prometera a Elvis que fecharia o bar. Quando estava quase indo embora, um mal estar lhe acometeu de repente e ela correu antes de sujar o estabelecimento inteiro. Ela não tinha certeza da origem daquilo. Não sabia se fora algo que comera ou algum outro motivo. Só tinha certeza de que não estava grávida. Ela tentou fazer uma retrospectiva de tudo que comera naquele dia, a única coisa exótica fora a bebida de Eva.

Eva e Sofia conversaram e descobriram alguns interesses em comum. Elas provavelmente teriam conversado mais se o patrão de Sofia não tivesse anunciado que precisasse fechar o bar e simultaneamente os amigos de Eva voltaram para buscá-la. Sofia se perguntou que tipo de amigo esquece o outro com tanta facilidade.

Sofia poderia não ter experiência com o álcool como a maioria de seus clientes, mas não era uma iniciante. Não era possível que uma bebida daquelas tenha lhe feito tanto mal. As sensações ruins pareceram cessar e ela resolveu se levantar. Estava cansada de ficar ajoelhada no chão frio do banheiro. Lentamente, foi erguendo seu corpo com cuidado para que os enjoos não voltassem.

Por mais esforço que Sofia tenha feito, o enjoo veio do mesmo jeito. Um frio repentino dominou o banheiro do bar e ela abraçou os próprios braços. Um arrepio se espalhou pelo seu corpo. Uma tontura surgiu e Sofia se escorou na pia. O espelho do banheiro começou a se embaçar e a garota olhou pra trás. Uma névoa fria pairava sobre o chão do banheiro e o frio se intensificou. Estranhamente a bruma começou a se levantar e tomar uma forma vagamente humanoide. Sofia gritou assustada e a cerração passou a girar em volta de si. Assustada, ela começa a dar passos para trás procurando com as mãos à maçaneta.

— Cuidado – a voz da forma era semelhante a sussurros de várias pessoas

Sofia se assustou ainda mais procurando a maçaneta da porta. Ela finalmente encontrou-a e começou a puxá-la, embora o metal estivesse gelado. A porta parecia emperrada e Sofia começou a puxar com mais força. Ela não sabia se tudo aquilo não passava de uma alucinação, mas já era apavorante o suficiente.

— O tempo está passando... O anjo negro vem se aproximando... – a voz sussurrou e outro arrepio percorreu o corpo de Sofia.

A cerração aos poucos passou a diminuir e a forma humanoide foi se desfazendo. O frio intenso aos poucos abrandando e Sofia respirou fundo. Com um puxão, ela finalmente conseguiu abrir a porta e se apressou. Abaixou a porta de metal com rapidez e correu para casa.

[I]Old-school: Algo à moda antiga.

[II] Pin-up: é uma modelo cujas imagens sensuais produzidas em grande escala exercem um forte atrativo na cultura pop.

[III] Cover: Pessoa (ou grupo de pessoas) que apresenta imitações de um (a) artista, um (a) cantor ou banda famosa.

[IV] Vintage: Diz-se de quaisquer produtos antigos e de excelente qualidade; estilo de vida que retoma os conceitos utilizados entre os anos 20 e 60, aplicando-se, principalmente, no vestuário, objetos decorativos, móveis etc.

[V] Muay Thai: Arte marcial também conhecida como boxe tailandês

[VI] Bromance: Relação íntima, mas não-sexual entre dois homens.

Notas finais
OMG! Trilhões de referências nesse capítulo. Prometo que vou maneira nas próximas vezes. Espero que tenham gostado dessa nova personagem e do capítulo. Dúvidas, sugestões, críticas, elogios ou o que mais você estiver pensando; é só mandar um review. Eu respondo todo com muito carinho e juro que não mordo :3 Recadinho importante: Eu não vou mais colocar sempre banner nos capítulos. A criatividade artística no Photoshop não anda das melhores e é injusto ficar atrasando as postagens por causa de uma imagem. Se a inspiração bater, eu faço alguma coisa e atualizo no capítulo depois e aviso para vocês. Abraços de urso e beijos de mel!