Transgressões

18 A Curiosidade Matou o Gato Parte 2


Notas iniciais
É HOJE, MINHA GENTE! A história finalmente está chegando ao seu fim. Este é o último capítulo e depois dele, vem apenas o epílogo.

A CURIOSIDADE MATOU O GATO

(Parte 2)

Michel correu na direção do grito se arrependendo no meio do caminho, mas próximo demais do perigo para voltar. Ele podia ver a silhueta do inimigo à sua frente e mais a frente Melissa gritando desesperada. Sem pensar duas vezes o garoto usou a vassoura para acertar a cabeça do assassino repetidamente.

— CORRE!!! – ele gritou para a garota que atendeu ao comando sem pensar duas vezes.

Michel sabia que não poderia lutar contra o adversário. Era bem maior que ele e muito mais perigoso e tudo o que ele tinha era uma vassoura. O assassino se desequilibrou, mas continuou de pé. Michel tinha que pensar rápido no que faria: Correr? Atacar?

Num ato desesperado, o roqueiro pegou a vassoura e acertou as mãos do assassino que deixaram a faca cair. Michel tentou alcançar a arma branca, mas levou um soco do assassino. Ele sabia que alguma coisa estava errada. Tudo estava dando certo demais.

Ele ficou tonto com o poderoso golpe no nariz que começou a sangrar, mas ainda assim conseguiu chutar a faca que deslizou até passar por debaixo da porta de uma das salas. O assassino ficou surpreso com o acontecido e Michel decidiu aproveitar a distração para correr o máximo que podia. A dor atrapalhava, mas a lembrança constante do que havia atrás dele o recordava de que sua vida estava por um fio.

Logo ele estava ao lado de Melissa.

— Como chegou aqui tão rápido? — ela indagou surpresa entre ofegos.

— Eu tenho anos de prática de correr de valentões. – ele disse enquanto os dois viravam num corredor. — A única diferença é que esse tem uma faca de caça. – comentou irônico.

Melissa deu uma risada sarcástica.

— Como vamos fazer para sair dessa maldita escola?

— Eu não sei. Como você entrou aqui? – ele perguntou.

— Pelas portas laterais.

— Podemos tentar sair por lá e procurar ajuda.

— Eu queria poder pedir ajuda daqui de dentro, mas o meu celular endoidou.

— Então são dois. O meu também não está recebendo sinal.

— O assassino deve ter hackeado os dois.

***

Kennedy estava dentro da escola procurando por Jessika. Tinha procurado em vários cantos, mas nenhum sinal da loira. Tinha até olhado o banheiro feminino onde achou uma perturbante mensagem aparentemente direcionada para ele: “A curiosidade matou o gato” escrito com o sangue de Sofia nos cacos restantes do espelho.

Era o segundo corpo que ele encontrava na noite. Ele estava com medo. O assassino não estava para brincadeira. E faria da noite de um simples show um verdadeiro banho de sangue estrelado por ele e Jessika.

Mas se outras pessoas foram mortas ali é porque estavam no colégio. Logo, o assassino de alguma maneira fizera com que eles fossem parar ali, embora isso fosse improvável. Tinha que ter sido uma mentira muito grande ou muito convincente para ter atraído outras pessoas até ali.

Se mais pessoas estavam ali, então mais pessoas estavam em perigo por causa de algum maluco. Kennedy tinha que encontrá-lo e pará-lo o mais rápido possível.

Ele já tinha um bom palpite em que poderia ser culpado. Se ele estivesse na mente do assassino... O que ele faria?

***

— Vocês dois estão se mostrando péssimas estrelas até mesmo para um filme de terror!

Melissa e Michel ouviram o grito do assassino e correram. Não faltava muito para uma das portas laterais que poderia estar aberta, mas ainda assim o perigo era constante. O assassino parecia imbatível.

— Acho que vamos precisar fazer uma troca de elenco! – ele gritou com sua voz assustadora.

Num movimento brusco, Michel invadiu o laboratório de ciências do colégio. Melissa não entendeu porque ele fez aquilo já que era um péssimo lugar para se esconder considerando que tinha um vidro enorme cobrindo quase toda a parede.

Ela o seguiu ainda assim porque sabia que se separassem ia ser ainda pior. Nos filmes, sempre alguém morria quando se separavam e ela pretendia continuar viva.

— O que você está fazendo, seu maluco?

— Procurando um frasco – ele respondeu mexendo nos armários e prateleiras.

— Isso eu já percebi, eu quero saber o que você está fazendo enquanto nós...

A fala da garota foi cortada.

— ACHEI!!! – tanto Michel quanto o assassino gritaram na mesma hora.

O homicida estava na porta do laboratório com uma nova arma: um improvisado, mas pesado troféu de um campeonato de futebol que a escola tinha ganhado. Melissa gritou assustada e pegou o primeiro projeto de ciências que viu e lançou contra o assassino. Era uma pena que um sistema solar feito totalmente de isopor não ia causar dano algum.

— A história de vocês acaba aqui! – O assassino gritou indo na direção de Melissa.

— Não tão rápido! – Michel gritou pulando em cima do bandido.

O assassino desequilibrou com o peso do garoto em cima de si lutando para golpeá-lo ou remover sua máscara, enquanto ele batia no garoto nas costelas com o troféu.

— Pegue o frasco e jogue nele – Michel gritou para Melissa que estava prestes a fugir do local.

Não poderiam julgá-la. Encarou a atitude do garoto como um sacrifício para que ela pudesse escapar, mas a frase dele fez ela pensar... E se ele não segurasse o mascarado por muito tempo? E se mesmo depois de tudo aquilo ele ainda viesse atrás dela?

Michel com fúria e desespero desmedidos estava lutando bravamente contra o adversário com uma força que ele não sabia que era capaz de ter. Ele e o homicida estava rolando no chão com socos e pontapés quase de igual para igual. Melissa avançou para o frasco, o abriu e jogou o líquido em cima do bandido que ainda não havia soltado o pequeno.

Após ouvir o agoniante grito de dor dos dois, Melissa leu a embalagem do rótulo com o pouco de luz que entrava pela janela.

— Ácido sulfúrico concentrado.

Os vapores do ácido exalavam um cheiro estranho e causavam uma irritação terrível. Ela saiu do laboratório correndo e tossindo.

***

Jessika tinha cansado de correr. Mas ela acreditava que estava perto do fim. Provavelmente tinha alguma saída por ali. Suas pernas clamavam por descanso então ela diminuiu da corrida, para uma caminhada rápida.

A caminhada seguia a toda pompa, rumo a uma das possíveis saídas da escola até que algo a fez diminuir o ritmo.

— Pedro? – ela indagou assustada.

***

Melanie estava curtindo bastante o show. A banda estava bastante animada e cantando seus maiores sucessos. Melanie sabia todos de cor e salteado e cantava junto com a multidão. Para aquele momento ficar mais perfeito só faltava encontrar seus amigos. Onde Michel, Melissa, Pedro, Jessika, Kennedy, Prince e Dante tinham se metido?

***

Kennedy estava suando mais que um corpo e duvidava que seu desodorante ia durar muito mais do que aquilo. Enquanto lá fora o clima estava fresco e agradável, dentro do colégio estava quente e abafado. Encontrar duas pessoas mortas no terreno também não ajudava. Que garantia ele tinha de que ele não seria o próximo? Ou Jessika?

Nesse momento, Kennedy odiou o fato da escola ser tão grande. Porque que tinha que ser tão grande assim? Se fosse menor, com certeza já teria encontrado Jessika, saído dali e dado um jeito de ligar para a polícia. O seu celular tinha descarregado e agora ele não tinha como ligar para ninguém nem lanterna alguma para iluminar o seu caminho.

Ele caminhou por um corredor e achou ouvir algo atrás dele e se virou sem deixar de caminhar e tropeçou em algo e caiu de vez no chão. A cabeça dele bateu com força contra o piso. Sua visão ficou turva e tudo ficou escuro. Mas antes de perder a consciência, conseguiu ver intensos olhos o encarando por trás da máscara.

***

Kennedy ouviu gritos abafados e aquilo o fez despertar imediatamente. Abriu os olhos assustado e virou a cabeça para saber onde é que ele estava. As cadeiras largas, velhas e acolchoadas de cor azul escuro. Aquilo só poderia significar um lugar... O auditório.

Ele tentou se soltar para se livrar daquele incômodo que sentia, mas não conseguiu. Ele estava atado com cordas à cadeira. Levantou a cabeça para ver o que estava acontecendo. Seu olhar percorreu toda a sala e viu que estava sozinho. Com exceção de duas pessoas que se encontravam presente no palco.

Uma delas era Jessika. A garota que tinha se mudado há pouco tempo, mas já tinha conquistado o coração de Kennedy de alguma maneira. Os cabelos loiros pareciam opacos e estavam encharcados de suor e grudados à testa. Os olhos estavam com uma expressão de dor e sofrimento terrível que quase partiu o coração do garoto. Ela estava sentada em uma cadeira e firmemente amarrada com os braços para trás e os pés bem presos. Sua bochecha apresentava um pequeno corte de onde escorria seu sangue rubro lentamente pela face e manchando a roupa. Um lenço estava amarrado na mandíbula da garota impedindo-a de falar.

A outra era o assassino. O maldito estava lá com o longo manto que cobria quase o corpo todo e uma máscara que deixava apenas os olhos à mostra. Em suas mãos, uma faca diferente da que Kennedy esperava. Em vez da faca de caça, ele estava usando uma peixeira. Ele se divertia brincando com a arma branca girando na sua mão e jogando para o alto e pegando no momento exato.

— JESSIKA! SOLTA ELA, SEU MALDITO! – Kennedy berrou com toda a força de seus pulmões.

— Acho que essa decisão não é sua, Kennedy. Nunca te contaram que a curiosidade matou o gato. Acho o próximo felino a morrer pode ser você... – ele apontou a peixeira para o garoto que tremeu de seu lugar no banco — ...ou talvez sua amada namoradinha aqui. Ela é bem gatinha – ele comentou com ironia sem deixar o tom assustador de sua voz em nenhum momento.

— O que você quer? Ela não tem nada a ver com isso! – Kennedy bradou furioso enquanto forçava contra as suas amarras.

— Realmente ela não tem nada a ver com a história. – ele riu enquanto passava a faca com o lado oposto ao gume pelo pescoço da garota que chorava sem parar pedindo silenciosamente por ajuda. — Mas o problema é com você. Você que se meteu demais na história com essa sua maldita curiosidade. Tudo seria perfeito se você não tivesse se metido. Se não tivesse feito perguntas demais. Isso é tudo culpa sua! – ele fez um talho no braço da garota que gritou em dor e desespero — Por sua causa, eu tive que matar pessoas que eu não tinha a intenção. Quem garante que você não contou suas suspeitas para a Salomé? Resolvi matá-la para não ter que arcar com nenhuma consequência.

O coração de Kennedy começou a bater mais rápido ao ouvir que uma senhora tinha sido morta por sua causa. Ele sentiu os olhos marejarem. Ele nunca quis aquilo. Só queria justiça para a sua vizinha. Nada mais.

— E Sofia também. Eu sei que ela sabia que fui eu. – sua voz inflamou de raiva — Mais uma morte desnecessária por sua causa. – ele falou apontando a lâmina para o jovem amarrado na quinta fileira.

— E por acaso as outras mortes foram necessárias? Qual a necessidade de matar Carlota, Elvis, Serena, Henrique? .... Qual a necessidade? Por que você fez isso?! Me diga por quê? Por quê, Prince?

O assassino deu uma longa e sonora risada. Ele removeu a máscara e o manto revelando o belo cantor embaixo.

— Finalmente! – ele deu um brado de alívio. Seu rosto estava vermelho e machucado. O suor estava por todo o rosto. Os cabelos castanhos cor de mel estavam oleosos e úmidos. Os olhos arregalados em excitação. — Não aguentava mais essa máscara muito menos fazer essa voz grave. Minhas cordas vocais agradecem. Obrigado, Kennedy.

O sangue de Kennedy ferveu com o cinismo do criminoso e forçou a cadeira mais uma vez. A corda cedeu um pouco e isso o animou. Jessika conseguiu se livrar da mordaça e bufou irritada.

— Seu maldito! Como você pode fazer isso com os nossos amigos? – ela gritou com raiva — Eu confiei em você... Eu... até beijei você. Eca! – ela cuspiu na cara de Prince.

Kennedy tentou usar a pequena distração para tentar folgar as cordas.

— Jessika! – ele fingiu espanto — Não fale assim da gente. Foi tudo tão bom enquanto durou – ele disse rindo enquanto colocava a mordaça improvisada novamente e dessa vez, mais apertada.

— Não a machuque!

— Você não manda em nada aqui, garoto – ele disse pulando do palco e pousando no chão com perfeição.

Caminhou com perfeição em direção a Kennedy e apontou a peixeira para o rapaz.

— Eu estou no controle, entendeu? – ele perguntou passando a lâmina levemente pelo rosto do garoto liberando um pequeno filete de sangue.

Kennedy ficou parado olhando o assassino com raiva. Se um olhar pudesse matar, o de Kennedy seria um genocídio inteiro.

— ENTENDEU?! – Prince perguntou esbofeteando o rapaz justamente onde fez um corte mais cedo.

— Sim – Kennedy disse a contragosto. Odiava estar impotente contra seu adversário. — Mas a única coisa que eu preciso entender é porque você fez tudo isso.

— Ah claro.... Todo mundo tem que ter um motivo, não é? – o homicida passou a andar próximo a cadeira de Kennedy com a faca em mãos enquanto começava o seu discurso.

— Acho que eu tenho bons motivos – Prince iniciou — Eu não mato pessoas porque eu gosto. Pode parecer que sim, mas eu não gosto dessa tarefa, mas se não existe nada ou ninguém que possa punir as pessoas pelas transgressões que elas cometeram, então eu tenho que ser o carrasco. A minha história começou a muito tempo atrás...

“Tudo começou com uma bela jovem chamada Dafne. Uma menina doce com seus quinze, dezesseis anos. Tão bela quanto Jessika. E igualmente inocente. Um dia ela encontrou um homem mais velho e muito charmoso chamado Afonso. Ele era um verdadeiro galante e uma pessoa importante. Um médico muito ligado à política da cidade e que só queria o bem-estar da população... Só que não era bem assim. Embora fosse casado, ele tinha um grande desejo por garotas mais jovens. Sendo um homem tão importante e com tanta lábia, não era difícil ludibriar as jovens moças que caíam nos seus encantos e lhe davam sua pureza. Mas Dafne era especial. Ela não era qualquer garota. Ela tinha algo a mais que deixava Afonso vidrado e o caso que deveria ser de apenas uma noite virou algo corriqueiro. Dafne tinha esperanças que Afonso deixaria a esposa para se casar com ela e juntos terem uma vida feliz numa bela casa cercados de crianças. ”

“Mas Afonso não pensava da mesma maneira, mas concordava com a garota para que ela não se afastasse. O problema foi quando, por um descuido, Dafne ficou grávida. Afonso mandou ela abortar imediatamente. Inclusive indicou um amigo que faria o processo para ela e não cobraria. Mas ela não abriria mão do fruto do seu amor com o homem que ela amava tanto. Ela insistiu que não abortaria e que ele teria que a assumir. Mas Afonso não abriria mão da sua carreira política e profissional por causa de um escândalo daquele. Largar uma mulher de uma família importante por uma garota comum seria loucura. ”

“Dafne escondeu a gravidez o quanto pôde, mas uma hora a família descobriu. O pai dela fez um escândalo que a cidade toda ficou sabendo e ela foi expulsa de casa com nada mais, nada menos do que a roupa do corpo. Ela procurou ajuda em diversos lugares, mas ninguém abrigaria uma garota imoral como ela que engravidou antes do casamento. A única pessoa que a acolheu foi uma senhora muito solícita e simpática chamada Carlota que a acolheu e lhe ofereceu um emprego. ”

“A jovem só não sabia que teria que trabalhar como prostitua e criar seu filho, que recebeu o nome do cantor favorito dela, no meio de um bordel. A vida era difícil. As condições eram difíceis, o trabalho árduo e ainda sofria muito na mão dos funcionários do prostíbulo que a batiam e a humilhavam. ”

“Tudo mudou quando ela conheceu um forasteiro com um nome exótico: Elvis. Ele se encantou por Dafne e jurou que iria tirá-la dali e torna-la sua mulher. Ele a visitava com frequência e odiava o fato de ter que compartilhar Dafne com outros homens. Ele adquiriu dinheiro o suficiente para pagar as dívidas da garota e comprou sua liberdade daquele lugar. ”

“Ela só cometeu o erro de não conhecer direito o homem que a levou para longe dali. Ela imaginava que a vida ia melhorar, mas Elvis tinha sérios problemas com drogas e bebidas. E se mostrou um homem completamente diferente quando os dois estavam dividindo o mesmo teto. ”

“Você já sabe boa parte do que aconteceu depois disso. O outro filho, a briga dos dois, a paralisia dela e todo o sofrimento. Ela queria que seu filho tivesse uma vida melhor, mas ele também não teve muita sorte. Nasceu com uma bela voz, um grande dom. Ele almejava a fama através de sua arte, mas não recebeu valor. Lutou para conseguir algum reconhecimento, contudo não o atingiu. Teve azar em seu primeiro amor assim como sua mãe. Encontrou um rapaz que dizia que o amava e que disse que daria o mundo para ele. Que eles viveriam juntos sem ligar para o que a sociedade pensasse. Seu primeiro amor, Henrique, não abriria mão do seu futuro por um rapaz qualquer. Se assumir perante a sociedade e ter um casamento homoafetivo era demais para o rapaz. Ele preferia ficar apenas na diversão. Não levou muito tempo para que Prince tivesse uma vida tão sofrida quanto a mãe. Sempre sem dinheiro, sofrendo e sem amor algum para lhe acalentar a alma. Até tinha uns casos com Serena, mas era mais um consolo e não um relacionamento. O problema foi quando uma vez contei demais a ela enquanto estava bêbado e ela me enchia de perguntas”

— Então, após a morte da minha mãe e da descoberta de seus diários, eu absorvi tudo aquilo e decidi que alguém deveria pagar por tudo o que fizeram a nós. Eu matei Carlota por ter enganado a minha mãe e peguei seu dinheiro para investir em minha carreira. Matei Elvis por tudo o que fez a minha mãe. Matei Serena e Sofia porque sabiam demais. Matei Henrique por ter me abandonado e matei Michel como uma forma de vingança a minha família materna. Ainda falta Melissa para completar o quebra-cabeça. A maldita que teve a sorte de ter a vida perfeita enquanto eu só me lascava. Matei o Pedro por tentar me impedir. E agora só falta Jessika e por último você. É isso que acontece quando se mete onde não é chamado! – o assassino gritou fazendo outro pequeno no corte do garoto e em seguida seguindo para o palco para matar Jessika.

Uma lágrima desceu pelo rosto de Kennedy ao ouvir aquele relato. E mais outra. Ele não queria mostrar fraqueza, mas não podia continuar impassível diante daquela situação horrível em que se encontrava. Ele também não conseguia deixar de pensar na possibilidade de aquilo ser tudo culpa sua. Será que se ele tivesse agido de outra maneira não poderia ter impedido tantas mortes?

Porém, o rapaz tinha duas opções. Deixar a tristeza abatê-lo e desistir, deixando o inimigo vencer... ou lutar com todas as suas forças para sair vivo daquela escola e trazer justiça aos horrores que estava enfrentando. Reunindo toda a sua tristeza, raiva, dor, frustação, desespero e tudo o que estava sentindo naquele momento, Kennedy investiu contra o adversário. Com uma força surpreendente vinda de seu desespero, ele conseguiu quebrar um dos braços da cadeira velha e livrou seu braço direito rapidamente.

Com a mão livre, ele rapidamente lutou contra os nós e conseguiu se libertar. Mas talvez ainda não fosse o suficiente. O assassino já estava no palco e não faltava muito para que ele atacasse a garota de chorosos olhos azuis. Kennedy correu o máximo que pode e se jogou contra o homicida numa atitude desesperada. Ele não podia mais ver ninguém sofrer por sua causa, principalmente a garota que amava. Tinha que acabar com aquilo de uma vez por todas.

Quando derrubou Prince, a lâmina escorregou de sua mão e saiu deslizando pelo palco. Kennedy e Prince iniciaram um verdadeiro duelo. Kennedy não era forte como Pedro, mas não era fraco como Michel. Ele começou a socar o rosto de Prince enquanto evitava levar golpes. Prince era rápido e conseguia se esquivar bem e lançava socos e chutes poderosos contra Kenny que se defendia o bloqueando com um dos braços. A lutava estava razoavelmente equilibrada, mas o cantor estava em vantagem. Kennedy precisava mudar aquela situação.

Abaixou-se surpreendendo o adversário e deu uma rasteira nele. Montou em cima dele e começou a socá-lo no rosto, principalmente no nariz. Era a forma mais fácil de pará-lo no momento. Num movimento rápido, Prince jogou Kennedy para o lado e deu uma cotovelada nas costelas do garoto que gemeu de dor. Jessika soltou um grito abafado de desespero. O cantor chutou o rapaz várias vezes no estômago que tentava evitar os ataques se arrastando para longe.

— Você é patético, garoto. – Prince riu em deboche — Você apenas acha que pode fazer as coisas. É um péssimo detetive, um péssimo lutador e um péssimo namorado.

— Desgraçado! – o garoto cuspiu no palco. Podia-se ver traços rubros entre a saliva incolor — Eu ainda vou acabar com sua raça. – Kennedy ameaçou enquanto se levantava.

— Você não consegue nem se levantar quanto mais fazer algo contra mim –

Prince em seguida chutou a cabeça do rapaz que caiu no chão gemendo, mas ainda consciente. Ele continuou tentando se levantar apesar da dor ser muito intensa e ele estivesse exausto. Prince pegou a faca e a apontou para Kennedy

— Eu ia deixar você por último, mas mudei de ideia – ele deu um sorriso psicótico. — Jessika pode ter alguma utilidade. Ela é bonita, educada, inteligente... pode fazer muito bem o papel da namorada.

Jessika fez uma série de sons que foram abafados pela mordaça, mas algo era certo: ela estava odiando a ideia. Prince começou a avançar lentamente na direção de Kennedy. Ele estava amando cada momento daquilo. O artista dentro dele exigia um momento digno para a morte de mais um adversário. A máscara tinha caído. Ele não era qualquer assassino. Ele era Prince, um artista em busca de justiça para si e para sua mãe. Kennedy conseguiu se levantar e fez o máximo que pode para parecer forte, indomável e destemido. Não podia garantir nada, mas fez o que pode. Quando Melissa apareceu de um dos lados do palco carregando uma faca de caça que devia ter pertencido ao assassino antes, uma chama se acendeu dentro de Kennedy. A esperança estava ressurgindo para ele e as chances de vitória estavam aumentando. Melissa colocou o dedo indicador sobre os lábios pedindo silêncio. Ela provavelmente iria atacá-lo por trás.

— Eu não tenho medo de você ou dessa faca roubada da cantina da escola. – Kennedy falou demonstrando asco por Prince.

— Ah é? Tem certeza disso? Ela pode fazer um belo estrago. Quer uma amostra?

Enquanto Prince discutia com Kennedy, Melissa tirou os sapatos e caminhou descalça pelo palco tomando cuidado para não fazer barulho. Fez sinal para que Jessika ficasse quieta e lentamente cortou as amarras que machucavam os pulsos e tornozelos da loira. Melissa, sem fazer barulho algum, mandou Jessika tirar os sapatos antes mesmo de se levantar da cadeira. O ruído do salto alto iria estragar tudo.

— Pode vir, Prince. Eu ainda vou acabar com você

Prince avançou e tentou atingir o peito de Kennedy, mas este segurou as mãos do bandido e fizeram uma espécie de queda de braço enquanto lutavam para mostrar quem tinha mais força. Kennedy lutava pela sua vida e pela de Jessika esperando que aguentasse tempo o suficiente. Ele também tomava cuidado para evitar que Prince saísse do lugar. Se eles alteram um pouco o ângulo, o cantor veria o que estava acontecendo e descobriria o que estava acontecendo.

Melissa nem precisou falar nada para que Jessika saísse do palco tomando o máximo de cuidado para não fazer barulho enquanto ela ia ajudar Kennedy que já tinha levado dois talhos nos braços. A garota se aproximou por trás e usou a faca de caça para cortar a panturrilha do rapaz. Prince se assustou e gritou ao sentir a lâmina. Ele se virou rapidamente e atacou Melissa que conseguiu se defender usando a faca de caça. Eles continuaram atacando como se fosse um estranho duelo de esgrima. Kennedy preferiu não deixar que a adrenalina sumisse e ele começasse a sentir a dor dos cortes. Deixar Melissa lutar sozinha não parecia nada cavalheiresco. Kennedy chutou a perna que Melissa tinha cortado recentemente e Prince gemeu de dor. Ele estava mancando e por pouco não se ajoelhou de dor.

Ele avançou contra Melissa que desviou, mas não fugiu da fúria do rapaz e recebeu um corte no ombro. Furiosa, Melissa reuniu suas forças e perfurou a barriga de Prince.

— Isso é pelo Michel! – ela bradou com os olhos brilhando em ódio.

Prince levou as mãos à barriga tentando conter o sangramento. Seus olhos mostravam choque e dor.

— Isso não vai ficar assim! Ainda falta uma pessoa, na lista. – ele virou o rosto para Melissa — Nosso pai.

Melissa passou a chorar, mas não de tristeza. Estava chorando de ódio. Não sabia se detestava mais a Prince pelas loucuras que fez ou seu pai por ter causado tanto mal ao garoto e sua família. Ela tinha ouvido parte da história devido a acústica do auditório enquanto se caminhava para o lugar.

— Chega, Prince! – Kennedy bradou — Sua vingança acaba aqui. Não é assim que as coisas funcionam, não é assim que se faz justiça. Não é matando quem você acha que merece ou não. Você pode brincar de Deus e dizer que está fazendo isso pelo bem!

A face de Prince mostrava muito dor e ódio. Melissa e Kennedy deram alguns passos para trás observando-o. Prince pegou a faca que estava penetrada dentro de si e avançou contra Kennedy. Sua força e velocidade estavam fora do comum. Não faltava muito para que ele penetrasse o peito de Kennedy com a lâmina dando um fim no rapaz para sempre. Kennedy já estava sendo bombardeados por suas memórias imaginando que aquele era o fim quando algo interrompeu o homicida.

Balas de metal, para ser mais exato. Ele tinha sido acertado duas vezes na cabeça e caiu no chão. Morto. As portas do auditório estavam abertas e Pedro estava lá. Todo sujo, mas ainda assim vivo. Ao seu lado, dois policiais seguravam suas pistolas fumegantes.

Jessika que saiu dos fundos dos palcos e abraçou Kenedy e Melissa desesperada. Os dois gemeram de dor, mas não deixaram de sorrir. O trio desceu do palco e caminhou na direção de Pedro que os esperava com alívio no rosto. Os policiais foram até o palco analisar o corpo.

— Achei que você tivesse morrido! – Jessika exclamou abraçando o moreno — Eu vi você sendo atingido na cabeça pelo bandido e caindo no chão morto.

— A pancada doeu pra caramba, mas eu não morri – ele riu — Eu me fingi de morto para escapar dele. Me desculpe por não ter ido ao seu resgate antes.

— Desculpas pelo o quê?! – Kennedy indagou — Você conseguiu sair desse inferno e ainda conseguiu ajuda. Se não fosse você, estaríamos todos mortos.

O grupo se juntou para um abraço coletivo.

— Obrigado.

— Não querendo cortar o barato de vocês, mas vocês precisam ir para o hospital e a polícia precisa fechar o local para as investigações – Dante disse se aproximando com os policiais e enfermeiros das ambulâncias.

— Onde você esteve? — Jessika perguntou assustada.

— Eu acabei ficando preso na droga do banheiro químico e quando eu consegui sair todo mundo estava curtindo a música de maior sucesso da banda. Nesse momento, eu vi que mais viaturas estavam chegando e ambulâncias também.

O grupo assentiu e começou a caminhar para a saída. Todos estavam suados, machucados e exaustos.

— Será que vão nos culpar por alguma coisa? – Melissa indagou enquanto eles já estavam se aproximando das ambulâncias.

— Não será necessário – o policial Medeiros disse aparecendo “do nada”. O grupo tomou um pequeno susto — Não sei exatamente como, mas alguém mexeu no sistema de som e imagem da escola e ativou as câmeras do auditório. Temos provas o suficiente que vocês só se defenderam.

Eles respiraram aliviados e caminharam para as ambulâncias. Toda aquela história maluca teve fim. Kennedy tinha descoberto quem era o assassino de Carlota, porque ele tinha feito aquilo e ainda tinha conseguido pará-lo evitando novos crimes. E a maior parte dos seus amigos ainda estavam vivos. Ele não podia estar mais feliz.

Notas finais
E então? Vocês já desconfiavam dele? Foi uma surpresa? Não foi? Um fim digno para o personagem ou não? Quero agradecer a todo mundo que comentou na história, em especial ao Mike que está comigo há tanto tempo e está sempre me apoiando e usando sua inteligência para me fazer ver minha história por outros ângulos e a Momô que se tornou mais que uma leitora, uma verdadeira amiga confidente. Beijos de luz para aliviar o clima hhahaha Vejo vocês no epílogo!