Transgressões

17 A Curiosidade Matou o Gato Parte 1


A CURIOSIDADE MATOU O GATO

(Parte 1)

A quadra poliesportiva do Colégio Madre Teresa de Calcutá estava bastante cheia. Aquela noite fria fora escolhida para ser um grande evento no local. Uma famosa banda de rock nacional iria se apresentar no local e todos estavam ansiosos por aquele momento. A quadra era coberta, o local era espaçoso, com grandes arquibancadas e até mesmo um palco fora construído ali para sediar os eventos do colégio, mas vários eventos da Vila dos Ajustados também aconteciam ali.

Kennedy caminhou no meio da multidão para tentar se aproximar mais do palco. Pedro tinha chegado mais cedo para pegar os melhores lugares, o que Kennedy achou besteira já que ia levar um tempo até a banda principal tocar. Sempre tem alguns cantores e bandas para abrir os shows.

Ele finalmente localizou os amigos. Até mesmo Michel estava ali. Ele tinha prometido que ficaria em casa em vez de se juntar a um bando de gente sem graça e falsa, mas de alguma maneira Pedro conseguiu convencer o baixinho.

O rapaz cumprimentou a todos com abraços e se virou para frente, mas Dante parecia uma montanha perto dele e estava atrapalhando a visão. O fato do loiro usar uma rara touca na cabeça não ajudava muito. Na verdade, era raro o Dante estar ali. Ele sempre parecia se achar superior aos outros ou não suportar os modos dos interioranos. Kennedy chegou para o lado e esbarrou em alguém.

— Desculpa! – ele disse tocando de leve no ombro da garota.

Ela se virou e revelou que na verdade era Jessika. Ele não tinha visto os Wilbert deixarem a casa então se surpreendeu com a presença dela ali.

— Você por aqui! Achei que não gostasse de rock

— Eu realmente prefiro pop a rock, mas temos que admitir que não temos muitas opções por aqui. E o Prince está tocando.

Kennedy esboçou surpresa. Ficou tão concentrado em encontrar os amigos e arranjar um bom lugar que nem se preocupou em saber quem estava abrindo o show.

— Ah... O namorado.

— Ele não é namorado – ela franziu o cenho — Somos só amigos.

— Bem que eu queria esse tipo de amizade – ele falou baixo mais para si mesmo

— O que você disse? – Jessika perguntou se aproximando para ouvi-lo melhor.

— Nada – Kennedy respondeu dissimulado e ela estreitou os olhos para ele tentando captar o que o rapaz dissera

Um homem mal-educado passou do lado de Jessika sem pedir licença e acabou empurrando a garota. Kennedy segurou as mãos da moça para que ela não caísse

— Sua mãe não te deu educação, não? – Kennedy gritou para o cara que apenas o ignorou.

— Deixa ele para lá – Jessika disse.

A música mais agitada foi substituída por uma mais lenta. Era uma canção romântica e envolvente. Logo, os casais passaram a dançar na pista. Kennedy e Jessika olharam para o lado e viram como todos estavam dançando e decidiram seguir o mesmo. Eles também não tinham muita opção. Todo mundo já tinha escolhido um par e os que não queria dançar daquele jeito já tinham se afastado. Kennedy viu de relance Pedro dançando com Melanie enquanto Dante dançava com Melissa.

Kennedy estava nervoso, mas tentou não deixar o nervosismo tomar conta de si. Estar tão próximo de Jessika e com suas mãos sobre o corpo dela era ótimo. Não podia estragar aquele momento. Os braços da garota estavam entrelaçados atrás do seu pescoço. Ela sorriu e ele não entendeu o motivo. Retribui da mesma maneira.

— Até que você não dança mal. – ela disse.

— Digo o mesmo de você – ele respondeu a fazendo rir.

— Eu sou uma ótima dançarina! – ela defendeu.

— Você é ótima em tudo

Jessika ficou desconcertada com o elogio, mas achou fofo ao mesmo tempo. Kennedy podia até ser esquisito alguma vezes, mas ele era um rapaz bonito e possuía certo charme. Eles se aproximaram ainda mais e ela levantou a cabeça novamente para olhá-lo. Ele estava olhando-a com intensidade mergulhado no azul de seus olhos. Envoltos pelo som lindo e pelos versos românticos, eles se beijaram.

***

As músicas voltaram a ficar agitadas e eles tiveram que se separar. Não havia mais desculpa para dar. Não podiam culpar a melodia, a letra ou as pessoas dançando ao seu redor. Os dois estavam um pouco constrangidos com o que aconteceram, então tentaram passar por aquilo como se nada tivesse acontecido.

Prince acabou sua apresentação e outra banda subiu ao palco. Depois deles, a atração principal subiria. Não demorou para que ele aparecesse com o violão em mãos e beijasse Jessika que não deixou que passasse de um selinho.

Kennedy se sentiu um intruso diante daquela cena e saiu para o local onde havia várias barracas vendendo comes, bebes e outras coisas. O Caveirão possuía a maior barraquinha e a mais movimentada. Sofia, a nova proprietária, olhava tudo com aprovação. Ela sorriu assim que viu Kennedy e saiu de trás do balcão.

— Sofia! ‘Tá tudo bem? – Kennedy perguntou se aproximando dela

— Sim. Os negócios estão indo bem.

— Gentil da parte do Elvis deixar os negócios para você

Eles passaram a se afastar do som alto do show. Eles se sentaram na calçada para conversar com mais conforto.

— Sim. Éramos bons amigos. Sabia que ele já teve uma esposa?

— Na verdade, não.

— Parece que a relação entre eles não era muito boa. Na verdade, descobri mais coisas do que eu imaginava.

— Como descobriu isso?

— Junto com o testamento, tinha o contato dela, mas era antigo e por sorte o novo dono tinha notícia dela. Depois de conversar com um pessoal, eu finalmente a descobri. Mas, foi tarde demais.

— Tarde demais? Como assim? – Kennedy já estava esperando pelo pior

— Ela morreu há algum tempo. Mas ela odiava Elvis.

— Odiava? Mas eles não eram casados.

— Sim, mas parece que antes de ir para a reabilitação, Elvis era outra pessoa. Ela também tinha uma vida bem diferente antes de casar com ele. Sofria vivendo e trabalhando num prostíbulo horrível. Ele era agressivo, rude e violento. Ele batia nela e nos filhos. Ela chegou a denunciar para a polícia, mas ele a obrigou a remover a queixa. Depois dela, quem mais sofria era o filho que ela teve antes do casamento. Elvis o odiava e a mulher sempre defendia o filho, como qualquer mãe faria. Em uma das brigas, ele estava bêbado e muito furioso. Os vizinhos ouviram tudo. Eles lutaram e ele a empurrou da escada. A queda foi violenta e ela acabou atingindo a coluna na quina de um dos degraus e perdeu os movimentos da cintura para baixo.

Kennedy estava chocado com toda aquela informação, mas sua curiosidade ansiava por mais e mais.

— Os vizinhos finalmente interferiram mesmo com medo de Elvis pegar sua arma. Eles a tiraram de lá junto com o filho mais velho. O mais novo, filho do casamento, ficou com Elvis, porque ele não permitiu que levassem o sangue do seu sangue para longe dele. Depois que a criança parou de ir à escola, o Conselho Tutelar foi investigar e descobriu que as condições dele eram péssimas. Ele foi levado para longe do pai e acabou sendo adotado por um casal de europeus.

— E como estão os meninos?

— O filho do Elvis morreu num acidente de carro e o outro está seguindo com a sua vida. É bem talentoso.

— Qual era o nome da mulher mesmo? – Kennedy indagou

— Dafne.

De repente, tudo passou a fazer sentido. Todas as informações que ele tinha adquirido até ali voltaram de uma vez só e ele passou a organizá-las livrando-se da bagunça que estava a sua cabeça. O quebra-cabeça finalmente estava ganhando forma e perto de se finalizar. Kennedy não podia estar mais animado. A solução que ele procurava há tanto tempo podia finalmente estar diante dele.

— Você está muito animado para quem acabou de ouvir uma história dessas – ela disse franzindo o cenho — Você descobriu, não é?

— Eu... eu sei. Agora eu sei.

Ele se aproximou de Sofia e sussurrou um nome no ouvido dela. Eles só não perceberam que alguém estava prestando atenção em tudo o que eles estavam falando. Alguém muito... muito perigoso.

***

Henrique tinha se afastado da festa. Ele odiava ter que ir em banheiros químicos e percebeu que a grade que separava a quadra do resto da escola não estava trancada. Parecia que estava, mas na verdade estava aberto. O pardo abriu o cadeado com cuidado e caminhou pelo colégio que ele já conhecia. Estudara ali sua vida toda. Ele caminhou pelo pátio externo e entrou na escola. Só tinha que seguir até o final do pátio interno, descer as escadas, virar à direita, andar mais um pouco e poderia aliviar sua bexiga.

Ele não se incomodou com a escuridão do local e seguiu em frente. Caminhou pelo banheiro e escolheu a última cabine. Enquanto abria o cinto, ouviu alguém o chamar.

— Como vai, grande Henrique Fortunato? – a voz era grave, mas Henrique não conseguiu identificar. Parecia um pouco forçada, não muito natural.

No começo, ele ficou assustado, mas depois relaxou. Provavelmente só alguém que também não gostava de ir em banheiros químicos e que teve a mesma ideia que ele.

— Ainda destruindo corações de meninos e meninas? – ele perguntou e Henrique ficou mais alerta.

Ele sempre tinha sido muito discreto e cuidadoso em seus encontros. Como um estranho poderia saber do seu segredo.

— O de sempre – Henrique disse para descontrair seguido de uma risadinha.

— Você nunca pensou o que acontece depois que você quebra o coração e a pureza deles? – o estranho perguntou.

— Não. Não me interessa. Sabem que não deviam confiar em mim. Eu não sou um bom moço. – disse dando descarga no vaso sanitário.

Ele saiu da cabine para ir lavar as mãos, mas não viu o estranho em lugar algum. Provavelmente ele ainda estava na cabine.

— Talvez você devesse se importar. Além do mais, depois de quebrar tanto corações já era hora de alguém retribuir. – a porta começou a se abrir lentamente — De preferência, atingir o seu com uma grande e afiada faca.

Henrique viu o suficiente pelo reflexo do espelho para que ele corresse. O rosto estava coberto com uma máscara e o assassino usava uma capa preta ocultado a maior parte dos seus traços físicos. Mas o mais importante era a longa faca de caça na mão do inimigo. O pardo correu o mais rápido que pode porque sabia que o inimigo estava bem atrás dele. Começou a subir as escadas, mas o inimigo já estava próximo e puxou o seu pé fazendo com que ele caísse nos degraus. Henrique virou o corpo e com o pé livre chutou o adversário no rosto e saiu dali.

Ele correu e subiu as escadas apressados até chegar ao quarto andar. Seu objetivo era chegar até a diretoria onde ele poderia se comunicar através da sirene do colégio e pedir socorro.

Assim que entrou na sala, ele trancou a porta por dentro. Era uma sala de dezesseis metros quadrados, bem arrumada com uma larga mesa, uma estante com vários livros de pedagogia, psicologia e administração e duas grandes janelas. Uma dava para o salão onde os alunos costumavam no intervalo e a outra dava para a área do jardim lateral do colégio. O vidro escuro delas fez com que passasse despercebida aos olhos de Henrique.

Antes que chegasse na sirene, Henrique ouviu estrondos na porta. O assassino estava tentando arrombar a porta e ele precisava correr. Ele começou a mexer nos botões aleatoriamente tentando descobrir como se comunicar e gritar por socorro. As batidas pararam e ele imaginou que o cara sinistro tinha desistido. Com a mente mais calma, ele entendeu como funcionava o sistema e pediu por ajuda e o som saindo na caixa de som presente em alguns pontos da escola. Enquanto clamava por socorro pela terceira vez, Henrique fora atingido por uma cadeira de estudante.

O golpe tinha sido forte e ele cambaleou, mas se segurou na mesa com força fazendo um esforço hercúleo para não cair. Ele tentou chegar a porta e correr, mas o assassino já estava lá.

— Seria uma ótima ideia clamar por socorro... – o assassino disse cortando Henrique no braço com a faca. Ele caiu no chão e começou a se arrastar para longe — Seria uma pena que um show estivesse logo ao lado com o volume no máximo.

— Quem é você? Porque está fazendo isso?

— Apenas vingando daqueles que quebraram meu coração – ele disse levantando o homem pela gola da camisa. — Adeus, pombinho

Henrique foi jogado contra a janela velha que se espatifou com a força do corpo dele. Ele gritou enquanto balançava os membros enquanto caía. Podia sentir os olhos do assassino mirando suas costas. Ele caiu com força no roseiral. E no meio do jardim ficou um corpo morto e arranhado.

***

Jessika nem tinha visto quando Kennedy tinha saído de perto dela e sumira. Na verdade, o grupo já estava separado. Com gente querendo ir para frente, outros indo para o fundo, pessoas saindo para comprar alguma comida ou bebida ou indo para os banheiros; a transição de pessoas no lugar até que era grande. E quando as músicas agitadas tocando e o pessoal dançando, pulando e cantando era meio difícil continuar no mesmo lugar.

Ela olhou ao redor para ver se reencontrava algum dos seus amigos, mas não viu ninguém. Quando ela pegou o celular, viu que havia uma nova mensagem.

“Preciso conversar c/ vc. Pode me encontrar no colégio? ”

“Tem q ser agr? Não estou afim de deixar o show”, ela respondeu

“Por favor, é URGENTE!!!”

Por mais que ela não quisesse sair, parte de si mandava ir atrás dele. Estava curiosa para saber o que ele poderia dizer para ela.

***

— Onde foi parar o meu celular? – Kennedy perguntou desesperado.

Ele tinha voltado para o show e não encontrou seus amigos no lugar em que ele os tinha deixado. Olhou em volta e mesmo com sua altura privilegiada não os encontrou. Decidiu que mandaria uma mensagem para eles, mas quando passou a mão no bolso de trás da calça não encontrou o aparelho que deveria estar ali. Será que ele havia perdido seu telefone? Isso era ruim.

O rapaz começou a olhar pelos lugares em que ele passou, mesmo sabendo que as probabilidades de ele encontrar alguma coisa seriam mínimas, mas ele não poderia desistir tão fácil. Tinha que procurar um pouco pelo menos.

Depois de bons minutos de busca, ele decidiu ir pegar um ar lá fora e pensar como contar adequadamente para os seus pais que havia perdido o celular e não despertar a fúria deles. Ao chegar lá fora encontrou Prince e foi falar com ele. Não que ele gostasse muito do rapaz, mas era o único que ele conhecia ali.

— Kennedy! Eu estava procurando por você – disse Prince que o puxou para um abraço — Eu vi quando você perdeu o celular e o peguei para você – ele disse mostrando o celular. — Ia te entregar na hora, mas você mergulhou na multidão.

— Obrigado... – Kennedy agradeceu pegando seu telefone.

Apertou o botão lateral e deslizou o dedo pela tela e viu se tinha alguma notificação. Tinha uma nova mensagem. Ele abriu e era de Jessika. Dizia o seguinte:

“Preciso conversar contigo o mais rápido possível. É URGENTE!!!! Encontre-me no jardim lateral do colégio. Bjos”

Será que ela queria falar do beijo que tinha acontecido mais cedo? Ou era algum outro assunto? Provavelmente era bem importante para ela o fazer sair no meio do show. Ele seguiu em direção a escola.

***

Sofia não entendia o motivo de Kennedy ter pedido para encontrá-la no colégio. Mas decidiu atender o pedido do amigo. Provavelmente queria discutir com ela como eles iriam juntar as provas para então revelar o assassino.

— Kennedy? – ela chamou por seu nome, mas não ouviu resposta alguma. — Você quer falar sobre o assassino? – ela indagou inocentemente.

— Eu adoraria falar sobre o assassino – uma voz grave e assustadora disse atrás dela e ela se virou assombrada.

Ela sabia bem o que tinha que fazer: Correr o mais rápido que podia.

Suas pernas responderam ao comando imediatamente e ela corria como o vento, mas sabia que o perigo não estava muito atrás dela. Virou no corredor mais próximo sem saber ao certo aonde daria, mas tudo o que precisava era fugir do perigo que estava tão próximo dela. Ela não tinha coragem de olhar para trás. Os olhos dele eram sombrios e assustadores. Não suportaria ver tanta escuridão novamente. Ela virou em outro corredor e parou para ouvir o que acontecia ao seu redor.

Não ouviu os passos pesados da corrida do assassino. Sofia respondeu um pouco mais calma e tirou o suor do rosto que estava ameaçando escorrer para os olhos dela. Depois de todo aquele medo, ela sentiu que sua bexiga parecia que ia explodir. Maldita hora para aquilo, mas não resistiria muito tempo. Por sorte, ela estava próxima do banheiro feminino. Se dirigiu a última cabine e finalmente se aliviou. Enquanto terminava de se limpar, pensou ter ouvido alguma coisa e parou repentinamente. Subiu as calças com pressa e ficou atenta ao som ao redor. Quando estava prestes a considerar aquilo fruto de sua mente, ela ouviu outro barulho. Rapidamente ela se levantou, baixou a tampa do vaso, se sentou em cima e encolheu as pernas e as abraçou. Começou a rezar baixinho pedindo por proteção e livramento.

Os passos foram ficando mais alto e ela imaginou que fosse o assassino. Ele começou a abrir as portas com força.

— Onde está você, sabichona? Preciso te ensinar uma lição.

Ela continuou tremendo enquanto mais portas eram abertas. Ela pensou em fugir pela janela do banheiro, mas era muito alto e estreito. Como ela poderia se salvar daquela situação. A porta do lado da sua finalmente foi aberta com um estrondo. A próxima seria sua. Ela soltou o abraço das pernas e se preparou. Olhou para baixo e viu as botas do assassino. Antes que ele abrisse, ela chutou a porta com toda a sua força acertando bem na cara do criminoso. Ela passou por ele almejando a porta e fugir daquele lugar.

— Sua putinha! Acha mesmo que só isso vai me derrubar – ele disse puxando os cabelos dela com força.

A ilusão de vitória tinha sido boa enquanto durara. O monstro bateu a cabeça dela com força no espelho da pia, fazendo ele rachar e cacos caírem em cima dela. Sofia ainda tentava lutar pela sua vida batendo e chutando o assassino, mas ele tinha as mãos pressionadas com muita força contra o pescoço dela. Ela estava ficando sem ar. O aperto aumentava e a visão começou a ficar turva. Ela não tinha muito tempo. Com o restante de força que tinha, puxou a máscara dele e viu o rosto por trás dela. Kennedy estava correto. Ela sorriu satisfeita. Pelo menos ela tinha sido útil em alguma coisa.

— Ninguém gosta dos sabe-tudo – ele disse antes de quebrar o pescoço da moça.

***

Kennedy andou pelo pátio externo escuro apenas iluminado pela lua cheia no céu. O clima estava ficando mais frio e ele abraçou o próprio corpo enquanto seguia para o jardim lateral do colégio.

— Jessika? – ele chamou, pois não viu a menina por ali. — Você está por aqui?

O rapaz continuou caminhando até percebeu que havia alguma coisa errada naquele jardim. Passou os olhos pelas plantas e viu que as rosas brancas estavam manchadas de alguma coisa. Logo elas que eram o xodó do jardineiro... Ele caminhou pelo gramado e se aproximou do roseiral. Quando viu o que estava entre os espinhos, ele gritou.

Ali jazia o corpo do irmão do seu melhor amigo todo machucado e ensanguentado. O primeiro impulso dele foi correr e procurar a autoridade mais próxima, mas ele se lembrou de uma informação.

Jessika ainda estava lá dentro.

Ele não poderia deixá-la sozinha. Kennedy correu para dentro da instituição.

***

Jessika estava caminhando pela escola procurando por Kennedy e já estava se cansando daquela busca. Se Kennedy estava achando que ia conquistá-la com uma brincadeira besta como essa, ele estava muito enganado.

Decidiu que não procuraria mais por ele e voltaria para a festa. Começou a fazer o caminho de volta quando teve uma sensação estranha sobre si. Era como se alguém estivesse encarando suas costas. Uma vez ouviu uma senhora dizer que os olhos possuem energia pois são a janela da alma. Será que ela estava correta? Estaria Jessika sendo seguida?

Só por segurança, ela olhou para trás e não viu ninguém. A loira apenas encolheu os ombros e continuou andando querendo sair o mais rápido possível daquele colégio. Não havia porque se preocupar, certo? Ela já havia checado e não havia nenhum psicopata maluco ou uma encarnação do capeta atrás dela.... Então porque ela ainda tinha a impressão de alguma coisa estava errada?

Jessika olhou para trás novamente e seus olhos azuis viram algo que não queria. Usando uma máscara assustadora e manto negro, o assassino caminhava rumo a garota loira. Um grito agudo escapou de sua garganta e ela passou a correr como podia naqueles malditos saltos altos.

O assassino estava cada vez mais próximo e Jessika precisava pará-lo ou ao menos, atrasá-lo enquanto ela fugia do colégio. Ela correu pelos corredores do colégio que mais pareciam um labirinto de tão confusos e não se importou de jogar estátuas e imagens de santos para proteger a própria vida.

O medo era intenso e o perigo iminente. Ela estava literalmente lutando por sua vida e qualquer erro seria crucial. Ela viu um pedestal de base redonda. Parecia pesado, mas também uma boa distração. Ela pegou o frágil anjo de cima do pedestal e lançou contra a escuridão. Quando conseguiu ver o assassino se aproximando, ela usou toda a sua força para derrubar o pedestal e ele começou a girar pelo chão de mármore e derrubou o criminoso com força no chão.

Aquela era a chance de Jessika. Ela continuou correndo mesmo que os seus pés estivessem latejando, seus saltos pareciam que iam ceder e suas panturrilhas estavam queimando. Mesmo que seu coração parecia que ia explodir e os cabelos e a roupa estavam empapados de suor. Lembrou-se de um atalho que a faria chegar mais perto da entrada do colégio. Ela correu mais um bocado até chegar lá.

Quando já conseguia ver as largas portas de esquadria de alumínio e vidro, ela sentiu algo segurar em seu braço. Ela gritou e deu um tapa em quem a segurava.

— AI!!! Vai com calma, sua doida – Pedro reclamou.

— Pedro?! O que você está fazendo aqui? – ela perguntou assustada se afastando dele.

— Kennedy me mandou uma mensagem e pediu para eu vir falar com ele.

Aquela tinha sido a mesma história que ela. Não poderia ser coincidência. Ele deveria estar mentindo. Talvez ele fosse o assassino. Ele também parecia um tanto cansado.

Jessika começou a andar para trás e Pedro não entendeu aquilo.

— Jessika? O que foi? Porque você está se afastando? – ele questionou se aproximando da loira.

— Ai meu Deus! É você! Só pode ser você – ela disse enquanto corria desesperada novamente para dentro do colégio

— O que essa menina tem na cabeça? — Pedro perguntou coçando a cabeça.

***

Melissa tinha acabado de receber uma mensagem de Jessika pedindo para que ela viesse ali. Ela tinha brigado com o Kennedy e estava precisando de um consolo. Era isso que a mensagem dizia pelo menos.

“Não se preocupe. Eu já estou chegando” , Melissa respondeu.

Ela ia chamar a Melanie para ir junto também, mas não encontrou a ruiva. Nem Dante. Talvez ele tivesse saído juntos. A jovem de cabelos castanhos se aproximou do colégio A garota nunca tinha reparado, mas o colégio parecia bem assustador à noite. Todas aquelas esculturas e pinturas abusando de claro e escuro deixava as coisas bem bizarras à noite. Os anjos poderiam se tornar figuras medonhas dependendo da iluminação. Ela tentou entrar pela porta da frente, mas estava trancada. Como Jessika tinha entrado?

“Amiga, como você entrou? ”, ela mandou uma mensagem para a loira, mas não recebeu nenhuma resposta.

Só então Melissa percebeu que estava sem sinal. O celular piscou e parou de responder a qualquer tentativa de ação que ela fazia.

— Mas que diabos...

O celular do nada tinha ficado inútil. Melissa apenas deu de ombros e o colocou no bolso traseiro da calça. Ela rodeou o terreno e entrou por uma das portas laterais. Não tinha certeza se Jessika realmente estava no prédio, mas ela não ligou de estar ali. Não era muito fã da banda que estava tocando então não fazia muita diferença para ela.

— Por que tem que estar tudo tão escuro e sombrio? Não podia ter umas luzes acesas ou umas velas? – Melissa começou a pensar em voz alta enquanto caminhava em busca da amiga.

— Se bem que as velas só iriam piorar a situação. Ia ficar parecendo cenário de um filme de terror.

— Você tem razão. O que acha de estrelarmos um agora mesmo? – uma voz sinistra surgiu atrás dela.

Ela se virou rapidamente e viu a enorme faca reluzindo com o luar que batia no metal. Melissa gritou e se pôs a correr.

***

Michel não tinha entendido porque Pedro tinha saído correndo para o colégio atrás de Kennedy, mas ele não gostou daquilo. Quando finalmente se viu em um momento sem Kennedy atrapalhando os dois, o amigo de Pedro deu um jeito de interferir.

O pequeno garoto decidiu que não deixaria Kennedy acabar com a alegria do amigo e que colocaria algum juízo na cabeça de Pedro. Mesmo que isso envolvesse entrar num colégio deserto e completamente escuro. Talvez devido ao seu estilo e as suas roupas, Michel deveria estar mais familiarizado com a escuridão, mas Kennedy sempre falando do assassinato de uma velhinha não ajudava muito. Agora ele estava sempre se lembrando que poderia haver um criminoso solto por aí.

Michel tinha entrado a pouco tempo na escola quando ouviu um grito feminino agudo e ele correu naquela direção. O mais sábio seria correr na direção contrária, mas ele não ficaria com a consciência limpa em saber que alguma coisa havia acontecido àquela pessoa e ele não fizera nada para ajudar.

No caminho ele pegou uma vassoura que ele achou no armário das zeladoras e a empunhou como um verdadeiro bastão de combate. Não que a vassoura fosse feita de um material muito resistente, mas era melhor do que andar desarmado.

Michel reuniu toda a coragem que tinha e correu pronto para enfrentar a morte.

Notas finais
Olá, pessoal! Quero agradecer a Momô e ao MikeCavaleiro por sempre comentarem e me apoiarem. Se não fosse por vocês, eu já teria desistido provavelmente. A história está chegando na reta final e creio que só nos restam dois capítulos. Eu acabei adiantando um pouco da história, mas eu gostei do resultado. Espero que vocês tenham gostado também. No próximo capítulo finalmente saberemos quem matou a Carlota. Até a próxima!