Transgressões
16 Resgate Inesperado
RESGATE INESPERADO
Melissa estava conversando ao telefone despreocupada enquanto caminhava de volta para a casa. Ela tinha saído com o curioso loiro que a abordara na festa em sua casa. O garoto, Franklin, era mais divertido do que ela imaginava e agora estava contando os detalhes à Jessika que também havia saído com um cara que ela havia conhecido na festa. As duas estavam animadas com os novos romances.
— Você tem que conhecê-lo qualquer dia desses! – Melissa disse animada — Ele é muito gente boa, divertido e consegue me fazer rir com tanta facilidade. Não imaginei que ele era assim.
— O Prince, apesar do ego inflado e do jeito de garoto-problema, é bem legal também. Ainda não tenho certeza de como me sinto a respeito dele, mas estou gostando. – Jessika falou do outro lado da linha.
— E o Kennedy? Seu vizinho gatinho? Soube que ele estava afim de você
— Não sei de nada disso... – ela desviou do assunto — Não sei o que falar do Kennedy. Ele é diferente dos outros rapazes, mas sei lá... Ele é meio esquisito de vez em quando.
— Mas nos filmes, os melhores casais são feitos pelas mocinhas com o esquisitinho com bom gosto musical depois de ela ser largada pelo jogador de futebol idiota.
— Não estamos em um filme. Estamos na vida real. São coisas bem diferentes.
Melissa apenas riu do comentário da amiga e quando ia fazer outra pergunta, escutou um barulho estranho. Ela afastou o telefone da orelha e focou sua audição nos sons ao redor. Virou a cabeça para trás, mas não viu ninguém. Ficou se perguntando se não teria sido melhor ter pedido para o pai buscá-la.
— Mel? Você está aí? – Jessika perguntou.
— Desculpa... Eu achei que tinha ouvido alguma coisa.
— Ah tá... Tem certeza que aí é seguro?
— Relaxa. Não vai acontecer nada. – ela tranquilizou a amiga enquanto virava uma rua. — O que eu estava dizendo é que...
Outro ruído. Ela estranhou e olhou para trás novamente, mas havia apenas um gato mexendo em umas caixas velhas. Decidiu apressar o passo assim mesmo.
—... Ele também é lindo. Os olhos deles são verdes e ele tem um sorriso muito fofo.
— Vocês já se beijaram?
— Não – ela comentou decepcionada. — Ele recebeu uma ligação no meio da conversa e disse que era urgente. Aí ele foi embora sem dar muitas explicações.
— Será que foi uma desculpa para ir embora porque você é muito chata?
— Palhaça! – ela disse fingindo raiva e indignação — É claro que não. Eu não sou chata.
— Só estou brincando com você. Não precisa de estressar.
— Eu também só estou brincando com você. Não com raiva de verdade. – Melissa se explicou e deu uma risada.
O barulho apareceu novamente e ela começou a se irritar com aquilo. Já era a terceira vez. Mas o barulho aconteceu outra vez, só que mais suave dessa vez. Ela passou a andar mais rápido e tirou o telefone do ouvido para escutar o ambiente ao seu redor.
— Espero que isso também não seja uma brincadeira, Mel. Eu ouvi alguma coisa estranha aí. Está tudo bem com você?
Melissa olhou para trás antes de responder, mas não gostou nada do que viu. Alguém estava a seguindo. Não dava para identificar o seu rosto, porque estava coberto com um tecido com furos para os olhos. Em suas mãos, uma longa faca.
Ela gritou com força e começou a correr o mais rápido de que pode. Sua voz pedia socorro na esperança de que alguém aparecia para resgatá-la. O ladrão era rápido, mas ela também era. Resolveu tirar os saltos altos que a estavam atrasando e jogou para trás. Ouviu um gemido abafado e supôs que fosse do louco que a perseguia. Um golpe de sorte.
Melissa ignorou a dor de seus pés delicados sentiam a correr com tanta velocidade raspando contra o concreto ou sendo ferido pelas pequenas pedrinhas que às vezes apareciam em seu caminho. Ela guardou um pouco do fôlego para que não se cansasse tão rápido. Começou a virar nas ruas a esmo tentando despistar o bandido que estava cada vez mais próximo dela. Ela chegou a uma rua mais iluminada e com algumas poucas luzes acessas nas casas. Resolveu que era hora de gritar novamente.
— SOCORRO!
— Aqui! – uma voz disse e ela resolveu seguir sem pensar duas vezes.
***
Melanie não sabia o que estava acontecendo exatamente, mas correu para a janela do seu quarto já que o som vinha lá de fora. Tomou um susto quando viu uma garota descalça correndo desesperada gritando por ajuda. Normalmente ela pensaria antes de agir, já que sua mãe lhe ensinou desde cedo a não confiar em estranhos. Porém aquele caso foi diferente. Ela acreditou ver entre as sombras da rua mal iluminada pelos postes com defeito um vulto de um criminoso que perseguia a moça.
Antes que percebesse o que estava fazendo, a ruiva já tinha acendido todas as luzes da casa e abriu o portão para que a garota entrasse. Uma atitude maluca, se ela tivesse parado para pensar antes, mas seus instintos só mandaram e ela obedeceu.
Melanie só não esperava que a garota em apuros era Melissa. As duas tinham uma longa história com idas e vindas. Elas eram amigas desde pequenas. Tudo começou quando a ruiva emprestara uma borracha para Melissa quando estavam na alfabetização e assim uma amizade foi se formando e fortalecendo. Mas no começo da adolescência as coisas começaram a ruir. As duas se interessaram pelo mesmo rapaz e tudo começou a desandar quando Pedro escolheu Melissa e Melanie foi jogada para o escanteio. A beleza de Melissa que passou a aflorar foi mais um motivo para ela se tornar bastante popular enquanto Melanie abraçou a máscara de nerd rejeitada. Desde então, elas nunca mais tinham se encontrado e sempre se evitavam. Até aquele momento.
— Você... – Melanie comentou atônita.
— Muito obrigada! Não sei o que seria de mim sem você – Melissa disse abraçando a garota desesperada.
A ruiva não sabia bem como agir, mas abraçou a garota de volta. Nem se lembrava quando fora a última vez que se abraçaram. Talvez o tenham feito depois do fim da amizade, mas com certeza não fora com sinceridade.
— Melanie! Quem chegou aí? – elas ouviram a mãe da dona da casa perguntar.
— A Melissa. – Melanie gritou de volta.
— A filha do vice-prefeito?! Vocês não tinham brigado há um milênio atrás?!
As duas ficaram vermelhas com a situação embaraçosa.
“Obrigada, mãe. Você conseguiu deixar a situação pior do que já estava. ”, Melanie pensou.
Melissa resolveu entrar na casa mesmo sem ter sido convidada.
— Oi, tia! – a garota disse enquanto cumprimentava a senhora que estava folheando uma revista sentada na poltrona da sala. — Sua filha acabou de me salvar de um assalto.
— Salvou? Assalto? Conta essa história direito, menina. – e se virou para a filha — Vá buscar um copo d’água com açúcar para a coitadinha!
Melissa se sentou no sofá de dois lugares próximo a senhora Valentini e passou a contar os detalhes do acontecimento. Melanie foi à cozinha e ficou pensando na reação de Melissa. Ela não esperaria que depois de tanto tempo ainda chamaria sua mãe de “tia” e nem que agiria tão educadamente. Era a educação dada pela sua mãe que a obrigava a ser cordial ou era algo natural dela? A ruiva levou o copo de água antes que sua mãe lhe desse uma bronca.
Depois que a garota terminou o relato, a senhora Valentini danou a conversar e reclamar da violência da cidade e de como os tempos antigos eram melhores. A nerd só observou como Melissa começou a ficar entediada com aquilo. Quando a mulher parou para tomar um ar, Melissa se levantou e fez um pedido.
— Será que eu posso usar o telefone de vocês? Preciso ligar para o meu pai.
— Claro! – Melanie aproveitou a deixa — Pode usar o meu celular. Acho que ele está lá no quarto – ela disse indicando com sua expressão que era para elas conversarem a sós.
***
— Obrigado por me salvar... Mais uma vez – Melissa disse se sentando na cama.
— Não foi nada. Foi a coisa certa se fazer. Eu faria isso por qualquer um – ela disse com a voz meio trêmula. Melanie se sentou na cadeira na escrivaninha antes que mostrasse mais nervosismo.
— Tem alguma coisa que você queira me dizer? – ela perguntou com o sorriso de sempre no rosto.
— Eu... – Melanie tentou falar o que a estava preso dentro dela há muito tempo, mas era tanta coisa que havia entalado. Acabou fazendo uma pergunta que ela não esperava — Por que você não está nervosa? Suas mãos não estão tremendo nem a sua voz. Você parece bem para alguém que quase foi assaltada.
— Não é a primeira vez que isso acontece. Quase fui roubada outras vezes e assim como essa eu corri bastante e me safei. E não acho que ele tentaria invadir a sua casa. A rua toda acordou com a barulheira e provavelmente os vizinhos já vão bater na sua porta – ela explicou e três segundos depois tocaram a campainha da casa da ruiva. — Eu te avisei – falou com um sorriso vitorioso.
Melanie apenas assentiu sem muita animação. Ela se levantou e se sentou do lado de Melissa na cama. As duas ficaram assim. Sentadas, lado a lado, envoltas por um clima estranho, embaladas pela voz estridente da voz da mãe de Melanie conversando na sala com algum vizinho.
— Por que a gente se afastou, hein? – Melissa perguntou.
— Foi por causa do Pedro, não foi?
— Mas a gente jurou que não deixaria nenhum garoto ficar entre nós. E só foram uns beijinhos. Não foi nada demais
— Mas você sabia que eu gostava dele – Melanie apenas afirmou. A frase não saiu no tom furioso que ela imaginava.
— Ele que veio atrás de mim e nem durou tanto tempo. Depois disso, nós ficávamos quando a carência batia. E só... Mas Pedro não foi o motivo. Apenas o estopim.
— O estopim?
— A gente mudou bastante na pré-adolescência e aos poucos passamos a andar com pessoas diferentes e gostar de coisas diferentes. Pedro foi apenas a gota d’água. A gente nem era tão unida assim quando tudo foi por água abaixo.
Melanie tinha deixado aquele fato de lado. Ela tinha ficado com tanta raiva por causa da sua paixão de longa data que nem tinha se atentado aos outros acontecimentos. De repente, ela se sentiu uma péssima pessoa. Sempre tinha tirado a culpa de seus ombros e jogado em cima da ex-amiga e agora ela percebeu que ela era tão culpada (talvez ainda mais) pela situação.
— É verdade... Eu não percebi. – a ruiva disse surpresa — Desculpa
Dessa vez, quem estava surpresa era Melissa. Por um momento, o sorriso deixou seu rosto e ela mostrou que achou a atitude inesperada. Numa ação incomum para as duas, elas se uniram em um abraço apertado.
— Acho que deveríamos voltar a ser amigas. – Melissa disse com um leve sorriso no rosto.
— Ou pelo menos, conversarmos mais vezes.
As duas se separaram e olharam para o rosto da outra por um momento e riram.
— Uma tentativa de assalto nunca trouxe tantos benefícios.
— Ei! – Melissa fingiu reclamar e empurrou a outra de leve.
As duas começaram a rir e aquilo pareceu muito bom para as duas. Fazia anos que não compartilhavam algo parecido.
— Acho melhor você ligar logo antes que minha mãe resolva aparecer por aqui...
— Mas ela não está conversando com os vizinhos?
— Acho que você esqueceu como a minha mãe é
Melanie ia pegar o celular para entregar a Melissa, quando percebeu que ela começou a discar no próprio celular. Aquela tinha sido uma desculpa esfarrapada para que elas pudessem conversar. Melanie se perguntou se elas poderiam estar juntas há mais tempo...
Melissa colocou o telefone no ouvido e esperou. No sétimo toque, a chamada finalmente foi atendida.
— Alô?
— Com quem você gostaria de falar?- uma mulher perguntou do outro lado da linha. Não era a mãe dela nem ninguém que ela conhecesse.
A garota dos olhos cor de mel achou estranho. Será que tinha sido um engano?
— Eu quero falar com Afonso Ribeiro, por favor
— Afonso está um pouco ocupado, mas eu posso anotar o recado – a estranha disse. Ela tinha uma voz melosa e irritante.
— E quem é você, por acaso? – Melissa estava ficando irritada.
Melanie não estava entendendo nada e a garota castanha ligou o viva voz do telefone.
— A secretária dele, é claro.
— Que voz de atriz pornô! – Melanie sussurrou.
— Eu conheço muito bem quem é a secretária dele e sua voz não é nada parecida com a da Beth. – Melissa argumentou.
A mulher do outro da linha apenas riu descaradamente da cara dela.
— Quem é você? Eu quero falar com ele agora mesmo!
Uns ruídos puderam ser ouvidos do outro lado da linha. Um ruído que estava presente desde o começo da ligação se cessou e elas imaginaram que foi um chuveiro sendo desligado. Sons de passos apressados e algo sendo derrubado também participou da atmosfera.
— O que você está fazendo, sua louca? Com quem está falando? – a voz grave de Afonso se fez presente.
Melissa expressou susto assim como a garota ao seu lado. A voz da mulher se tornou menos nítida e com um volume menor como se ela estivesse afastando o telefone.
— Uma mulher ligando. Você está saindo com mais alguém?
— Sua maluca! Desliga isso agora. Não podem saber sobre nós.
Barulhos fortes e bruscos foram escutados e a ligação caiu ou foi desligada abruptamente.
— O que foi isso?
— Eu acho que seu pai tem uma amante ciumenta...
As duas se sentaram atônitas com as novas informações.
— Isso deve ser péssimo para a imagem de político dele – Melanie comentou para evitar que o clima ficasse ainda mais esquisito.
O celular tocou novamente, mas quem estava ligando dessa vez era Jessika. Ela atendeu antes que chegasse ao terceiro toque. Colocou no viva voz novamente.
— Melissa! Tá tudo bem? Onde você está?
— Estou na casa da Melanie.
— Graças a Deus! Estou procurando você por todo canto com o Dante – o coração de Melanie pulou ao ouvir o nome do rapaz.
— Manda ele ir para a Avenida Principal e virar na Rua dos Almirantes.
— Certo. Já estou indo para aí. Ainda bem que nada de mal te aconteceu
Depois disso, Jessika se despediu rapidamente e não levou muito tempo para que ouvissem uma buzina. Melanie se apressou até a janela e viu o rapaz usando o carro da família.
— Eles estão aqui
As duas desceram as escadas e avistaram os irmãos. Jessika correu e abraçou as duas ao mesmo tempo. Uma amizade mais forte estava se formando.
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