Transgressões
5 Mordendo a Isca
Notas iniciais

MORDENDO A ISCA
— Caramba! Como ela conseguiu tanto dinheiro?! – perguntou Pedro.
— Eu não faço a mínima ideia, mas não faz sentido.
Kennedy continuava olhando os papéis sem acreditar no que via. Embora ele tivesse uma nova pista, parecia que ele estava mais perdido do que antes.
— O que não faz sentido?
— Com tanto dinheiro, Dona Carlota não precisaria morar de aluguel aqui. – ele disse apontando para a casa de Jessika pela janela — Ela poderia ter uma das melhores casas da cidade!
— Tem caroço nesse angu – disse Pedro coçando o queixo pensativamente.
— Sem contar que o estilo dela era tão simples... Era algo que ultrapassava a humildade. – Kennedy Aguilar começou a andar de um lado para o outro.
— Talvez seja como naqueles filmes em que duas pessoas muita parecidas, mas sendo uma rica e a outra pobre, trocam de lugares pra ver como é a vida da outra.
— Pode ser... Ou Dona Carlota era apenas uma laranja para alguma pessoa muito rica.
— Eu ouvi dizer que ela discutiu com um fazendeiro muito rico algumas semanas antes de sua morte. Talvez tenha sido por causa disso.
Kennedy sentou em sua cama e suspirou desanimado.
— É tudo muito vago. Tudo isso parece tão longe de ser verdadeiro.
Pedro arregalou os olhos e se aproximou de seu amigo o chacoalhando pelos ombros.
— Quem é você e o que você fez com o meu amigo? Onde está o cara teimoso e perseverante que eu conheço?
Um sorriso surgiu nos cantos da boca de Kennedy e ele parecia um pouco mais encorajado.
— Tem razão. Não posso desistir agora que consegui mais uma pista.
— Esse é o Kennedy que eu conheço. – ele estendeu o punho e o amigo o socou de volta. — Eu já vou indo. A gente se vê amanhã.
— Claro. Eu te acompanho até a porta.
Depois que Pedro foi embora, Kennedy continuou observando as novas pistas que encontrara. Ele estava agradecido por ter recebido uma nova informação que poderia levar à resolução do mistério, mas tudo parecia tão vago que era difícil não deixar o desânimo o dominar. Como Dona Carlota conseguiu tanto dinheiro? E o que ela fazia com ele? Essas eram algumas das muitas questões que ocupavam o pensamento de Kennedy. Tomado por tantas dúvidas, o garoto não conseguiu dormir direito apenas pensando no assassinato.
***
Fora um grande sacrifício para que Kennedy conseguisse levantar da cama, caminhar até o colégio estava sendo outro. Ele não dormira direto, pois ficara insone com os mistérios povoando seus pensamentos, como consequência acordou tarde perdendo o primeiro horário do colégio. O garoto estava com olheiras escuras no rosto, os olhos semicerrados e sem brilho, a cara de sono era indisfarçável. Ele caminhava lentamente arrastando os pés e ele teria continuado dessa maneira até chegar a sua sala se não tivesse esbarrado em alguém e ambos tivessem caídos no chão.
Kennedy abriu os olhos e finalmente viu em quem tinha esbarrado. Era Jessika que estava por cima dele. Seus rostos estavam tão próximos que ele podia sentir claramente o hálito de menta dela. Os olhos azuis dela nunca estiveram tão perto, uma imensidão azul como o Mar do Norte, seus lábios nunca pareceram tão provocativos. Será que ele ainda estava dormindo e tudo aquilo era um sonho? Automaticamente, Kenny foi se aproximando lentamente do rosto da menina. Esta percebeu que alguns alunos que esperavam a troca de professores do lado de fora da porta os encaravam e se levantou rapidamente batendo a poeira da calça jeans. Em seguida, ela estendeu a mão para o garoto que a agarrou e se levantou com dificuldade. O puxão que a menina deu ajudou a despertá-lo.
— Eu estou com tanto sono que poderia dormir aí no chão mesmo – ele falou tentando quebrar o clima esquisito que tinha se formado.
— Ich¹... Eu estou indo pra minha sala. Não quero me atrasar – Jessika disse nervosa e saiu apressada para disfarçar as maçãs do rosto coradas.
— Tudo bem... – Kennedy falou mais para si mesmo, pois a loira já se afastava.
Ele continuou no seu ritmo lento até a sala de aula. Seriam dois horários de química e não possuía interesse algum em assistir aquela aula. Por sorte, o professor não chegara ainda; o que Kennedy estranhou, mas ele não questionaria isso. Ele se dirigiu diretamente a cadeira que ficava no canto da sala, não olhando ou conversando com ninguém. Ele se sentou e depositou a mochila na mesa e deitou a cabeça no tecido macio cochilando o restante da aula.
Kennedy sentiu alguma coisa sacudindo o seu ombro e ele, sonolento, levantou a cabeça. Seu professor de química o encarava com desapontamento estampado no rosto.
— Poxa, Kennedy. Achei que depois do que aconteceu ano passado, você aprenderia uma lição.
O professor fazia a referência ao fato de Kennedy ter ido para a recuperação na matéria e ter sofrido bastante para ser aprovado. Kennedy era um bom aluno, mas as ciências exatas não eram o forte dele.
— Desculpa, professor. Não vai se repetir. Eu tive alguns problemas para dormir ontem.
— Preste atenção, rapaz. Físico-química não é simples.
Kennedy assentiu com a cabeça mostrando que entendeu o recado.
— Agora vá para o seu intervalo – o professor disse amigavelmente batendo suavemente no ombro do garoto que saiu rapidamente da sala.
Kennedy esfregava os olhos tentando afastar o sono enquanto caminhava rumo à cantina. Ele descia as escadas sem olhar muito bem o caminho e o destino parecia querer derrubá-lo a qualquer custo. Novamente, ele havia esbarrado em alguém e por pouco não caíram os dois da escada. O “alguém” em quem ele tinha esbarrado era Jessika outra vez.
— De novo – ele comentou rindo.
— É. Que coincidência... Bem, eu tenho que ir à biblioteca. – e pela segunda vez Jessika saía apressada.
Kennedy deu com ombros e continuou andando. Ele sentou-se ao lado de Pedro, que estava distraído ouvindo música no último volume. Após ter um dos fones de ouvido puxado abruptamente da orelha, Pedro olhou assustado para o lado e viu Kennedy.
— Então quer dizer que agora você e a Wilbert vivem se esbarrando? Acho que tá pintando um clima.
— Ah, não... Ei! Como você soube disso? – perguntou desconfiado.
— As paredes deste colégio têm olhos e ouvidos. As notícias correm, ou melhor, voam. – Pedro estalou os dedos. — Rolou um clima ou não?
— Eu acho que não. Ela sempre sai apressada e envergonhada.
— Ela é uma novata que veio de outro país e agora anda se esbarrando com um veterano. Faz sentido ela se sentir assim – disse Pedro com uma empatia surpreendente e Kennedy aquiesceu.
— Mudando de assunto... Como andam as coisas entre você e Melanie?
— Não sei. Não encontrei com ela hoje.
***
Jessika achava toda aquela situação com Kennedy muito desconfortável. Ela acabara de se mudar para a cidade e a última coisa que ela queria era ficar esbarrando com um garoto o tempo todo. De acordo com os filmes, se eles continuassem daquele jeito, não levaria muito tempo para que eles se beijassem... Mas, ela não acreditava muito em filmes porque raramente as coisas aconteciam daquele jeito.
Enquanto se dirigia à biblioteca da escola, Jessika ficou pensando nos encontrões com Kennedy e se indagou se o irmão dela tinha visto aquilo. Ter um irmão excessivamente ciumento o tempo todo em seu pé também não era o que Jessika desejava. Ela só queria viver tranquilamente, lendo seus livros, ouvindo suas músicas e estudando como uma garota colegial comum. Sem grandes aventuras, dramas ou romances. Será que era pedir demais?
Ela conferiu o papelzinho amarrotado em suas mãos com o nome de um livro escrito lá. A professora de literatura já havia informado aos seus alunos da leitura dos livros paradidáticos. Embora a atividade sobre o primeiro livro da lista estivesse razoavelmente distante, Jessika preferiu começar a leitura o quanto antes. Ela não tinha certeza da sua proficiência em ler em português e não queria ter problemas no futuro.
Andando distraída por entre as prateleiras, Jessika não se deu conta de que havia alguém a sua frente e esbarrou outra vez. Terceira vez em um dia só. Se fosse o Kennedy de novo, Jessika iria se perguntar se o universo estava conspirando contra si. Mas a loira estava errada. Dessa vez, ela esbarrou em uma menina ruiva.
— Desculpa! Eu te machuquei? – Jessika perguntou.
— Não. Está tudo bem. – ela disse cabisbaixa.
— Tem certeza disso? Você parece meio triste.
— Problemas com garotos. Nada muito importante – ela acenou com a mão.
— Perdoe-me o incômodo, mas você poderia me ajudar a encontrar este livro? – perguntou Jessika estendendo o papelzinho amarrotado
A garota ruiva de olhos verdes passou o dedo pela estante observando os livros. Jessika lembrou-se por que viera até aquele lugar e perguntou sobre o livro que procurava. Um exemplar de Tristão e Isolda chegou às mãos da alemã.
— Espero que goste. É uma história meio...
— Ei! Sem spoilers – interrompeu Jessika — Obrigado pela ajuda. Eu sou Jessika Wilbert e sou do primeiro ano – ela estendeu a mão.
— Eu sei quem você é. Seu irmão é da minha sala.
— Você está no terceiro ano então...
— Sim. A propósito, me chamo Melanie. – ela disse apertando a mão que lhe foi estendida.
Elas foram se afastando até sentarem numa mesa afastada da biblioteca. O cômodo estava vazio, então elas não se preocuparam em diminuir o tom de voz.
— Você falou alguma coisa sobre garotos antes, não foi?
— Sim. Nada demais. O clássico amor não correspondido. – Melanie comentou com um olhar triste.
— Você está apaixonada por um garoto que não gosta de você... Ele te disse isso ou você está deduzindo? – questionou Jessika.
— Bem, eu não me declarei pra ele, mas eu já dei tantos sinais que ele já deveria ter percebido.
— Às vezes, não importa a quantidade de dicas que você dá, eles ainda não vão perceber.
— Caramba... Falando desse jeito, você parece bem experiente. Quantos anos você tem?
— 15. E você?
— 17. Isso vai parecer um pouco irônico ou estranho, mas você tem algum conselho para me dar?
— Acho que você tem que garantir que ele saiba de seus sentimentos.
— Farei isso amanhã. Ele irá a minha casa e será a oportunidade perfeita – ela disse mais confiante.
— Você me parece bem apaixonada. Quem é o sortudo?
— Pedro Fortunato. Sabe quem é?
— O amigo do Kennedy?
— Sim. – ela falou e olhou para os próprios pés — E eu já sofrendo por antecipação.
— Não se estresse com isso. Mas, como tudo começou?
— Tem que ter um começo? – Melanie indagou assustada
— A não ser que tenha sido um amor à primeira vista, coisa que eu não acredito, acho que sim.
A ruiva parou com o dedo indicador na bochecha e fez um trejeito pensativo.
— Eu sempre fui muito romântica, iludida pelos contos de fadas, então eu sempre esperei por um príncipe chegando num cavalo branco. Eu tinha uns doze anos mais ou menos e estava voltando da casa de uma amiga e já estava escuro. Eu, sonsa, estava mexendo no celular e acabei pegando um atalho por um caminho escuro que eu não conhecia. Não deu outra... Eu sofri uma tentativa de assalto. Assustada, eu gritei e o bandido ameaçou atirar na minha cabeça e o desespero aumentou. Eu já ia gritar novamente, quando o Pedro chegou num cavalo branco para me salvar – Jessika riu — É sério! Ele realmente chegou num galante cavalo branco, o bandido se assustou e saiu correndo. Acho que ele era novo no ramo. Pedro estava voltando de uma cavalgada ou algo do tipo. Depois eu montei na garupa do Rocinante e ele me deixou em casa. Era a história de amor perfeita, se ele não tivesse me deixado na friendzone e pegado a minha melhor amiga que sabia dos meus sentimentos por ele. Aí, eu fiquei sem amiga e sem namorado.
— Uau! A história é melhor do que eu imaginava. Talvez você devesse escrever um livro sobre isso. – Jessika riu.
— Quem sabe um dia – Melanie encolheu os ombros e riu.
O sinal tocou e elas se levantaram para sair da biblioteca.
— O nome do cavalo era Rocinante mesmo?
— Acredite se quiser
As garotas acabaram trocando números de telefone e foram para as suas respectivas salas.
— Onde você esteve? – perguntou Melissa quando Jessika se sentou ao seu lado.
— Na biblioteca. Fiz até amizade.
— Só espero que você não se esqueça de mim. – Melissa disse arqueando a sobrancelha.
— Não seja tão dramática. – Jessika sorriu.
***
Kennedy estava sentado à mesa da sala de jantar, finalizando um desenho. Ele poderia desenhar na escrivaninha de seu quarto, mas como era muito espaçoso quando estava desenhando, preferia uma mesa maior. Estava rodeado por folhas brancas de papel ofício, tintas, lápis, lápis de cor, giz de cera, borrachas e outros materiais para desenho e pintura.
Desde que soube da possível reforma na antiga casa de Dona Carlota, o garoto estava apavorado só de pensar em perder suas preciosas lembranças. Lembranças estas que poderiam ajudá-lo a resolver o caso. Ele sempre considerou que tinha uma boa memória. Ele também dizia que sempre dormia bem e essa realidade estava mudando. Por que outras realidades não haveriam de mudar também?
Por causa disso, Kennedy decidiu fazer desenhos de suas memórias para juntar com as fotografias que ele possuía do assassinato. As fotos foram tiradas de um site de notícias da região que divulgou sobre o caso quando este aconteceu e Kennedy as salvou em seu computador. A tarde tinha sido exaustiva, já que ele levara um bom tempo para finalizar as gravuras. A cor predominante em todos os desenhos era o vermelho-sangue.
Ele estava concentrado analisando os desenhos e as fotografias, quando ouviu a campainha tocar. Não levantou de primeira, continuou imerso em seus pensamentos até ouvir sua mãe pedindo para que ele fosse atender a porta.
O rapaz abriu o portão e deu de cara com Jessika Wilbert que carregava uma xícara em suas mãos. Suas bochechas estavam coradas e ela parecia um pouco envergonhada por um motivo desconhecido a ele.
— Estou morrendo de vergonha de fazer isso, mas você poderia me dar um pouco de açúcar? – ela falou rápido para acabar com o seu sofrimento.
— Tá bom. O que aconteceu? – ele perguntou enquanto a convidava para entrar.
— Eu estava fazendo um bolo e não tinha ingredientes o suficiente.
Kennedy recolheu a xícara das mãos da garota e foi caminhando para a cozinha de sua casa. A alemã foi seguindo os seus passos enquanto observava os detalhes da casa do vizinho. Eles encontraram com Cristina, a mãe de Kennedy, na cozinha. Ela era muito bonita e “conservada” ao analisar-se a idade que ela aparentava e sua real idade. A mãe do rapaz era uma bela cabocla. Mesmo possuindo sangue branco, dava para se notar marcas indígenas em seu fenótipo: os cabelos lisos, grossos e escuros; o tom amorenado de sua pele e os olhos escuros amendoados.
— Oi, Jessika!
— Oi, Dona Cristina – a garota respondeu muito educada e o Kennedy riu.
— Pode me chamar só de Cristina. Fazendo uma visita?
— Ela veio pedir um pouco de açúcar – Kennedy disse voltando com a xícara cheia
— Isso. Eu estava fazendo um bolo e faltou açúcar – ela disse envergonhada. Normalmente, Jessika iria num mercado; mas ela não fazia ideia de onde seu dinheiro estava e não havia mais ninguém em casa para ajudá-la.
— Precisando é só chamar, querida – disse Cristina. Jessika achou estranho ser chamada de querida por alguém que mal conhecia, mas tentou relevar. — E o nosso jantar, está de pé?
— Ja, sicher². Quero dizer: Sim, claro.
— Jantar? – indagou Kennedy.
— Eu e a mãe da Jessika fomos grandes amigas durante adolescência, depois que ela foi para a Alemanha, perdemos o contato, mas reatamos a amizade. Eu não te contei?
O garoto balançou a cabeça.
— Bem, então fique sabendo que temos compromisso hoje à noite.
— Se você tá falando – ele encolheu os ombros.
Uma música engraçada começa a tocar e Jessika move a cabeça procurando a origem do som.
— Mãe, seu celular tá tocando. – disse Kennedy e sua mãe foi atrás do aparelho. Logo depois, ela passou pelos dois com a bolsa em mãos dizendo que precisava resolver uns problemas.
— Se comportem! – ela disse antes de sair da casa.
Os jovens ficaram em silêncio por um tempo, até Jessika respirar fundo e começar a falar.
— Ainda bem que sua mãe saiu. Eu quero esclarecer algumas coisas
— Hum? – Kennedy estava confuso.
— Eu sei que pode parecer que eu sou uma maluca, mas eu andei percebendo os olhares e os esbarrões que ocorreram hoje mais cedo e aquelas coisas dignas de comédia romântica. – ela estava nervosa — O ponto é que eu quero deixar claro que não estou interessada em nenhum relacionamento amoroso.
Kennedy parou e ficou olhando Jessika por um tempo captando a mensagem.
— Ah tá... Tudo bem. Eu acho...
— Obrigada. E obrigada pelo açúcar. – ela começou a caminhar em direção à saída. Kennedy a acompanhou até a porta.
Ele achou a atitude de Jessika muito estranha, mas não queria pensar sobre isso naquele momento. Ele tinha um homicídio a resolver.
***
Estar na casa de Dona Carlota, porém com a decoração de outros habitantes, era uma experiência nova e esquisita para Kennedy. As coisas estavam muito diferentes e pareciam mais arrumadas e modernas. As duas famílias estavam reunidas na sala de jantar em volta da mesa e o garoto até estranhou como todos pareciam entrosados. Sua mãe e Deise, a mãe de Jessika, não paravam de conversar um só momento. Jessika se parecia bastante com a sua mãe, contudo Deise possuía uma pele oliva e os cabelos eram castanho-claros diferenciando dos tons mais claros de Jessika. Seu pai e Dante tinham entrado numa discussão sobre motos e carros e outros termos automobilísticos que Kennedy nunca ouvira antes. Os únicos que se sentiam estranhos a tudo aquilo eram Kennedy e Oskar.
Oskar Wilbert era o patriarca e ele parecia tão bizarro quanto os rumores. A pele clara, os cabelos loiros curtos, os pequenos olhos azuis, o rosto anguloso e as feições sérias. Ele falava pouco, mas quando o fazia era de dar medo. A voz muito grave e rouca dava arrepios no rapaz. O alemão não parecia confortável com aquele jantar.
Kenny não prestava muita atenção na conversa e nem na comida. Ele só estava cutucando o resto da carne com o garfo. O rapaz se levantou e perguntou onde era o banheiro. A pergunta era mais por educação, por que ele sabia quase a planta inteira daquela casa de cor.
Andando pelo corredor da casa, ele reparou nas poucas fotografias da família. Talvez ainda estivessem se organizando. Ele estava entediado e começou a passear pela residência abrindo as portas que não estavam trancadas. Eles tinham uma excelente coleção de livros na biblioteca. A cada cômodo que ele entrava, tentava notar o máximo de detalhes possíveis. Os Wilbert possuíam uma aura misteriosa ao redor deles e isso atraía o rapaz.
Ele desceu as escadas e já estava chegando à porta do banheiro, quando algo lhe chamou a atenção. A porta que levava para o porão estava aberta e ele viu marcas estranhas no chão e uma delas era vermelha. Ele se aproximou e se abaixou para observar melhor. O chão parecia estar arranhado por algo bem forte. Passou o dedo sobre a mancha rubra e sentiu o cheiro metálico invadir suas narinas. Era sangue.
A curiosidade pulsava em suas veias o convocando para que descesse os degraus e vasculhasse o porão daquela casa. O local estava escuro, mas havia uma penumbra causada pelo luar que entrava por uma pequena janela no canto de uma das paredes. Ele andava com as mãos a sua frente para evitar que ele esbarrasse em alguma coisa. Não adiantou nada. O garoto bateu em um móvel que ele não tinha visto ou sentido antes. Olhou para cima e notou uma lâmpada antiga com um fio descendo que terminava em um tipo de interruptor. Ele apertou o botão fazendo um clique.
A visão a sua frente quase o fez gritar. Dante estava a sua frente escorado em um velho balcão de madeira com um canivete em mãos. Havia um fino fio de sangue escorrendo do polegar do loiro que girava o canivete com a outra mão. A cabeça baixa e o sorriso medonho apavoraram a Kennedy.
— O peixe mordeu a isca. O que procura aqui, garoto?
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