Traição
1 Capítulo I — Ruínas
Notas iniciais
A situação havia se tornado insustentável.
Eu me sentia sujo. Sujo por mentir, por entrar em casa dizendo que estivera em uma reunião quando, na verdade, estava com outra mulher. Mas o que mais eu podia fazer? A última coisa que queria era magoá-la. E, acima de tudo, eu não podia abrir mão do meu filho. Tinha certeza de que, no instante em que Bella descobrisse que eu já não a amava — ou que acreditasse nisso —, ela iria embora. E levaria Anthony com ela. Isso eu não permitiria.
Ainda assim, continuar daquela forma era impossível. Mais cedo ou mais tarde, ela desconfiaria. Ou pior: descobriria. E então o estrago seria irreversível.
Estacionei o carro na garagem e notei que as luzes do quarto estavam acesas. Suspirei. Parte de mim ainda nutria a esperança infantil de que ela não estivesse me esperando. Mas Bella sempre esperava. Nem que fosse apenas para me desejar boa noite. Ou para ouvir, com aquela calma que só ela tinha, minhas frustrações do dia.
E era exatamente isso que tornava tudo mais cruel: o modo como ela me escutava, como me acolhia, como me amava.
— Chega, Edward — murmurei para mim mesmo. — Isso é passado.
Repeti mentalmente que o que eu sentia agora era diferente. Que o carinho por Bella não era mais amor. Que eu estava apaixonado por Tânia — estonteante, loira, segura, uma das sócias do escritório. Uma mulher que parecia compreender meu mundo sem exigir tanto. Não planejei nada. Simplesmente aconteceu.
Meu casamento já vinha rachado. Bella queria outro filho. Eu disse que não era o momento — precisava me firmar profissionalmente, e ela também teria de adiar seus próprios sonhos. Brigamos como nunca. Foi nesse terreno frágil que Tânia apareceu.
No início, foi apenas apoio. Depois, desejo. E então… eu cedi.
Mas agora Tânia cobrava uma decisão. E, embora doesse admitir, ela tinha razão.
Quando pensei em Bella com outro homem, sendo feliz sem mim, um calafrio percorreu minha espinha. A ideia me feriu mais do que eu estava disposto a admitir.
Entrei no quarto.
Ela estava sentada na cama, me esperando.
— Bella… o que você está fazendo acordada?
— Eu precisava falar com você — respondeu com um sorriso que quase me fez recuar. — Por isso esperei.
Sentei-me ao lado dela, o peso do mundo nos ombros.
— Bella… eu preciso te dizer uma coisa importante.
— Pode falar. Você sabe que não precisa me esconder nada.
Respirei fundo.
— Eu… estou apaixonado por outra pessoa.
Ela franziu a testa, confusa.
— Desculpa, Edward… você falou rápido demais.
Engoli em seco.
— Eu me apaixonei por outra.
O sorriso morreu no rosto dela.
— O quê?
— Bella, por favor…
— Calma? — a voz dela subiu, ferida. — Você acaba de dizer que ama outra mulher e quer que eu fique calma?
Ela se levantou de um salto.
— Quem é ela? Quem é essa mulher?
— Eu não vou dizer — respondi, derrotado. — Só quero que entenda que não se manda no coração.
Ela riu. Um riso quebrado.
— Então é isso? Você joga oito anos fora e espera que eu aceite? Tudo bem, Edward. Eu vou sair. Só vou pegar o Anthony.
— Não, Bella, espera. Você não precisa ir agora…
— No momento em que você disse que não me ama mais, eu já não tenho lugar aqui.
Ela saiu levando meu chão junto.
Fiquei ali, imóvel, consciente de que acabara de destruir tudo o que um dia foi felicidade.
Dois meses depois…
— Bella, você tem certeza disso? Nova York é longe — Alice disse, apreensiva.
— Tenho, Alice. Ele mal olha para mim quando vem buscar Anthony. Oito anos não significaram nada para ele.
— Você ainda está magoada…
— Como não estaria?
Alice tentou defendê-lo. Eu fui o único homem da vida dela. A novidade confundiu-me. Mas nada disso apagava a traição.
— Vou falar com ele hoje — Bella prometeu, por fim.
Quando cheguei ao apartamento, Anthony dormia em meus braços. Bella abriu a porta envolta em uma toalha, os cabelos presos, o pescoço exposto. Meu corpo reagiu antes da razão.
— Me desculpa… eu não esperava você tão cedo.
— Tudo bem — forcei um sorriso.
Coloquei Anthony na cama e voltei para a sala.
— Eu recebi uma proposta de trabalho — ela começou. — Em Nova York.
O mundo parou.
— Você vai aceitar?
— Vou.
Entrei em pânico.
— Você prometeu que não ia me afastar do meu filho.
— Não vou. Mas também não vou ficar presa aqui.
O desespero falou mais alto. Aproximei-me. Toquei seu rosto. Beijei-a.
E ela correspondeu.
Talvez por saudade. Talvez por dor. Talvez por amor.
Naquela noite, nos perdemos um no outro como se fosse a última vez. E talvez fosse.
Quando acordei, Bella já não estava ali.
Antes de sair, ela murmurara, quase inaudível:
— Eu te amo, Edward. E sempre vou amar.
E foi então que compreendi, tarde demais, que arrependimento não mata — mas ensina a viver com a perda.
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