Traição
2 Capítulo 2 Tempo
Notas iniciais
Quatro meses, dez dias e doze horas.
Esse é exatamente o tempo que estou longe da minha razão de viver.
Eu sei que fui um imbecil por deixá-la partir. Sei disso todos os dias, a cada respiração. Pensei — ingenuamente — que, depois daquela noite maravilhosa que tivemos, ainda teria uma chance de pedir perdão, de consertar o que quebrei com minhas próprias mãos.
Vocês devem estar se perguntando por que diabos eu não fui atrás dela.
A resposta é simples e covarde: medo.
Medo de ver a mágoa nos olhos dela.
Medo do desprezo que eu sabia que encontraria.
Medo de confirmar que eu havia perdido tudo.
E foi por esse medo que fiquei aqui, apodrecendo lentamente.
Como se não bastasse, Tânia decidiu que seria “bom para mim” vir me fazer companhia. Não pensem, por favor, que ainda existe alguma coisa entre nós — não existe. Não mais.
Quando Bella foi embora levando meu filho, eu entrei em um estado deplorável. Passei dias vagando de bar em bar, bebendo até apagar, porque essa era a única forma que encontrei de não sentir a dor de ter deixado minha Bella partir.
Foi em um desses dias que Tânia me encontrou, tentando entrar em casa sem conseguir sequer colocar a chave na fechadura. Confesso: eu estava tão bêbado que não a reconheci. Tudo o que eu via… era Bella.
E sim, vocês podem imaginar o que aconteceu.
Mas na manhã seguinte, com a lucidez cruel da ressaca, deixei claro que aquilo não se repetiria. Tânia chorou um pouco, mas eu sabia — no fundo — que não havia sofrimento verdadeiro ali. Nós dois confundimos sentimentos. Eu, pela carência. Ela… até hoje não sei exatamente por quê. E, sinceramente, isso não importa.
O que importava — e sempre importou — era cada dia longe da minha família.
Por isso me surpreendeu quando, depois de tudo o que eu disse, ela voltou a me procurar. Mas a sorte não anda ao meu lado há muito tempo. Aqui estou, suportando Tânia no papel de “melhor amiga”, insistindo que eu deveria sair naquela noite.
— Você precisa encontrar outras pessoas, Edward. Se distrair. Tentar esquecer.
Esquecer?
Quem disse que eu quero esquecer?
Eu não quero esquecer.
Eu quero a minha Bella de volta.
Eu preciso dela de volta.
E foi nesse instante — no meio daquela fala vazia — que algo finalmente se encaixou dentro de mim. Uma epifania tardia, mas necessária.
Se eu queria o perdão e o amor da minha esposa, não seria ficando em Chicago, cercado por Tânia e por amizades falsas, que eu conseguiria. Eu precisava ir atrás de Bella. Precisava olhar nos olhos dela, implorar seu perdão e provar — com atitudes, não palavras — que eu nunca deixei de amá-la.
Era isso que eu faria.
Deixei Tânia falando sozinha e fui para o quarto. Peguei o telefone e disquei para a única pessoa que poderia me ajudar naquele momento.
Sim.
Eu lutaria pelo meu amor.
E traria Bella de volta.
Nem que, para isso, eu tivesse que rastejar aos pés dela.
Edward passou a noite em claro depois daquela decisão.
Não por coragem repentina — coragem nunca fora seu forte quando se tratava de sentimentos —, mas porque o peso do que havia feito finalmente se organizava em sua mente como um inventário cruel.
Ele não perdera Bella de um dia para o outro.
Ele a perdera aos poucos.
Perdera quando começou a chegar tarde demais em casa e cedo demais para sair.
Quando passou a tratar o silêncio dela como conforto, e não como alerta.
Quando transformou os sonhos dela em “depois”, “agora não”, “quando tudo estiver mais estável”.
Bella sempre fora paciente. Talvez até demais.
Ela adiara a própria vida para acompanhar a dele. Aceitara reduzir jornadas, engavetar projetos, ajustar horários, tudo para que Anthony tivesse um lar estável e Edward pudesse crescer profissionalmente. E ele… ele confundira esse amor com garantia.
Achou que ela estaria ali sempre.
O segundo erro foi ainda mais imperdoável: ele parou de escutar.
Bella não queria apenas outro filho — queria sentir que ainda fazia parte de um plano. Que não era apenas a mulher que segurava a casa enquanto ele conquistava o mundo. Mas Edward só ouvia cobranças onde havia pedidos de socorro.
E então veio Tânia.
Não como tentação imediata, mas como fuga.
Ela não exigia. Não esperava. Não lembrava quem ele era fora do escritório. Não tinha história com ele. E isso, na época, pareceu leve. Fácil. Inofensivo.
Edward agora sabia: não existe traição inofensiva.
Ele traiu antes de tocar.
Traiu quando comparou.
Traiu quando começou a se calar em casa e a falar demais fora dela.
Quando finalmente disse a verdade, já era tarde demais para que doesse pouco. Bella não gritou porque era fraca — gritou porque ainda sentia. O silêncio dela, depois, foi o verdadeiro castigo.
E então ela partiu.
Levou o filho, as rotinas, o riso que preenchia os espaços vazios da casa. O apartamento que antes parecia grande tornou-se opressor. Cada canto lembrava algo que ele perdera por escolha própria.
Edward não era um homem que não amava mais a esposa.
Era um homem que não soube amar do jeito certo.
Agora, com o telefone nas mãos, ele entendia algo que antes se recusara a admitir: não bastava pedir perdão. Não bastava prometer mudança. Bella não precisava de palavras — precisava de segurança, de coerência, de provas.
Ela precisava acreditar que ele não fugiria de novo quando amar exigisse esforço.
E ele precisava aceitar uma verdade dura: talvez já fosse tarde. Talvez Bella tivesse seguido em frente. Talvez ela não quisesse mais ouvir explicações, nem ver arrependimento algum.
Mesmo assim, ele iria.
Não como o homem orgulhoso que partira.
Mas como o homem quebrado que ficara para trás.
Se Bella lhe fechasse a porta, ele aceitaria.
Se o odiasse, suportaria.
Se o desprezasse, mereceria.
Mas não viveria mais com a covardia de não tentar.
Na manhã seguinte, Edward comprou a passagem para Nova York.
E, pela primeira vez desde que Bella partira, ele não buscava controle.
Buscava redenção.
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