Traição

3 Capítulo 3 - Entre o Que Foi e o Que Ainda Pode Ser


Notas iniciais
algum comentário? por favor

Edward percebeu que Nova York não o queria ali.

A cidade era barulhenta, indiferente, apressada demais para um homem carregando arrependimentos no peito. Ainda assim, estava ali — porque fugir nunca o levara de volta ao que importava.

Ele estacionou em frente à escola de Anthony alguns minutos antes do horário combinado. Observou o prédio com atenção, como se cada tijolo pudesse lhe revelar algo que ele ainda não sabia.

Foi então que a viu.

Bella atravessava o pátio com passos firmes, uma pasta sob o braço, o celular encostado no ombro enquanto falava com alguém. O cabelo preso de forma prática, o rosto sereno — não vazio, não cansado.

Pleno.

Edward sentiu o impacto como um soco contido.

Ela estava diferente.

Não havia fragilidade em seus movimentos. Não havia a mulher que esperava ser quebrada pela ausência dele. Bella parecia… inteira. Ocupando o próprio espaço como alguém que aprendera a se sustentar sozinha.

Quando desligou o telefone e o viu, Bella parou por um segundo — apenas um. O suficiente para que Edward percebesse que ainda causava algo nela. Mas, em seguida, ela respirou fundo e caminhou até ele com educação controlada.

— Edward.

— Bella.

O nome dela ainda tinha peso demais em sua boca.

Conversaram sobre Anthony. Sempre sobre Anthony. Ele percebeu que ela conduzia a conversa com habilidade, sem brechas, sem espaço para o passado escorrer para o presente.

E então aconteceu.

— Doutor Alec!

A voz veio acompanhada de um sorriso — e Edward soube, antes mesmo de virar o rosto, que aquilo importaria mais do que deveria.

Alec se aproximou com a tranquilidade de quem pertencia àquele lugar. Jaleco aberto, mangas arregaçadas, expressão fácil.

— Bella, você esqueceu sua agenda na sala de reuniões. — Entregou o objeto, os dedos tocando os dela por um instante a mais do que o necessário. — Achei que você ia sentir falta… como eu sentiria.

Bella sorriu. Um sorriso verdadeiro. Sem defesas.

— Obrigada, sol ambulante — respondeu, em tom brincalhão.

Edward sentiu algo se fechar dentro dele.

— Oh — disse Alec, finalmente voltando-se para Edward. — Desculpe. Não me apresentei. Alec. Médico pediatra.

O aperto de mão foi firme. Medido. Dois homens se avaliando em silêncio.

— Edward. Pai do Anthony.

Alec inclinou a cabeça, compreensivo.

— Um garoto incrível. Puxou à mãe.

Bella pigarreou levemente, desconfortável.

— Alec, você precisava de algo mais?

— Só confirmar se você vai mesmo aceitar o café depois do expediente. — Ele sorriu de novo. — Prometi não desistir hoje.

Edward percebeu o instante exato em que Bella hesitou.

O passado puxando de um lado.

O presente oferecendo algo novo do outro.

— Hoje não — ela respondeu, gentil, mas firme. — Fica para outro dia.

Alec não insistiu. Apenas assentiu, lançando a Edward um olhar rápido — não de desafio, mas de compreensão.

— Outro dia, então. — E se afastou.

O silêncio que ficou entre Bella e Edward era espesso demais.

— Ele parece… próximo — Edward comentou, tentando soar neutro. Falhou.

Bella cruzou os braços, instintivamente.

— Ele é um amigo.

— Só isso?

Ela o encarou. Não com raiva. Com cansaço.

— O suficiente.

Edward sentiu o golpe. Não porque Alec existia — mas porque Bella não lhe devia mais explicações.

— Você mudou — ele disse, antes de conseguir se conter.

— Eu precisei — respondeu ela. — Porque ficar como eu estava… não era uma opção.

Houve um instante em que Edward quase falou tudo. O arrependimento, o medo, a saudade que o devorara em silêncio. Mas Bella já havia erguido muros que ele não sabia como atravessar.

— Anthony está esperando — ela disse, encerrando o assunto.

Enquanto caminhavam, Bella sentia o coração dividido.

Edward ainda doía. Ainda era uma ferida aberta que jamais cicatrizara por completo. Mas Alec… Alec era leve. Não exigia, não fería, não fazia promessas que poderiam se quebrar.

E Bella se perguntava, pela primeira vez sem culpa:

Talvez amar não precisasse doer tanto.

E Edward, observando-a rir ao longe com o filho, entendeu algo que o aterrorizou:

Ele não estava mais competindo com outro homem.

Estava competindo com a paz que Bella aprendera a construir sem ele.