Traiçoeiro
39 Capítulo 39
Notas iniciais
Estava sentada em meu bote observando Nova Inglaterra entrar em meu campo de visão, sentindo um aperto em meu peito e uma ansiedade nervosa revirando meu estômago, com a proximidade do que parecia ser o fim da minha estadia no Jolly Roger.
Agora não sabia se essa sensação era devida a confiança que tinha que Bae e eu teríamos sucesso com nosso plano de ir embora ou se porque outras coisas iriam acontecer.
Virei a cabeça para o tombadilho superior quando a viva sensação de, estar sendo observada me atingiu, aquecendo minha pele, e não havia necessidade de me virar para olhar, pois eu sabia, quem era o único naquela navio a me causar essa sensação. Apenas seus olhos possuíam um poder surreal sobre mim.
Aquele par de olhos azuis me observava atentamente, deixando transparecer vários sentimentos, entre eles a expectativa.
Killian ainda esperava que eu aceitasse seu convite.
Ele sorriu para mim, de um jeito que me senti abraçada, mas não um abraço qualquer e sim um abraço cheio de saudade. Um gosto amargo de tristeza pousou sobre minha língua, fazendo-me desviar o olhar para a cidade que se aproximava.
Desde que entregara meu escrito, Jones não tentou mais conversar comigo, entretanto sempre estava por perto, dando-me um sorriso, um olhar, ou por vezes perto o suficiente para me presentear com o som de seu riso raro, que lembrava o som de chuva no fim da tarde quando batia no vidro de minha janela, e que eu adorava ouvir.
Apesar da magoa e da dor que ainda sentia, não consegui mais sentir aquela raiva que me invadiu na noite que descobri a verdade. Eu queria mais que tudo, continuar sentindo aquele ódio dele, a vontade de cravar as unhas em seu rosto e quebra-lo por ter escondido as coisas de mim.
Porém com o passar dos dias, aquela raiva e ódio, foi cedendo, dando lugar a lembranças doces dos momentos que passamos juntos. E tudo havia se intensificado desde que Branca começara a me visitar, lembrando-me sempre antes de ir embora que Jones era meu guerreiro.
E havia também aqueles sonhos que pareciam lembranças, e de tudo que todos me falaram.
Das palavras de Vovó, de minha mãe Branca e da deusa Hel.
E eu percebi que as três tentavam me alertar e me preparar para esse momento.
Vovó me dissera que dependia de Killian me contar a verdade para que eu descobrisse. Ele não me contou de fato, mas quando tomei conhecimento do conteúdo do baú, Branca me visitou e deduzi que ela era minha mãe e descobri que Cora fazia parte de um clã de deuses rebaixados que queriam o poder. Com isso, fazia sentido o que Vovó comentou sobre “como as pessoas se interessam pela luz rara que possui”.
Agora eu sabia que Cora contratara Jones e ela tentaria retirar essa luz de mim de alguma maneira para usar contra os deuses que mantinham a ordem. Eu precisava ir até Gotland porque dependia de mim, conseguir vencer ou entregar o mundo ao caos completo.
Então Branca insinuara que Jones não queria me perder contando-me a verdade. “Talvez por que ele tem medo de perdê-la? Não quer que vá embora do navio dele?”
Depois da visita de Branca, Vovó falou novamente comigo “[...] Killian esconde os segredos dele por medo de contar e você querer ir embora” e depois me lembro dela ter acrescentado “[...] E saiba que ele gosta muito de você, Emma. Seja paciente com ele, não apenas com os segredos que ele guarda, mas com as atitudes dele e os sentimentos. Principalmente com esse último. Cuide dos sentimentos dele, Emma. Afinal, eles são seus.”
Eu ficava repassando cada momento em que Jones se abriu para mim, a forma como ele tentava me proteger ou como ficava nervoso quando eu comentava sobre ir embora.
E aquelas reações, os sentimentos escondidos em seu olhar, os segredos de sua vida que ele me confiou, não podiam ser fingidos.
Sentia que não era.
Meu coração tentava convencer minha mente de que ele havia mudado, mas eu ainda estava temerosa de sua companhia e mesmo ainda o amando não sentia que conseguiria confiar nele mesmo que quisesse.
As palavras de Hel também me assombravam de quando ela nos deixou em Midgard “[...] Olhe tudo como um todo, olhe toda a paisagem não apenas aquilo que é feio. Todos tem o direito ao perdão quando todas as suas atitudes demonstram que eles estão arrependidos de verdade”.
Às vezes quando eu parava e pensava na reação de Killian aquela noite em sua cabine, aos meus olhos parecia que ele estava arrependido, mas poderia ser aquela parte boba e apaixonada minha vendo coisas.
—Eu adoraria que ainda estivesse conversando comigo para que compartilhasse seus pensamentos. – Killian falou atrás de mim, mantendo uma distância segura.
—Senhor. – cumprimentei com um aceno de cabeça, colocando-me em pé.
—Prefiro Killian... Jones... Ou até mesmo Gancho se assim a fizer feliz. Mas te garanto que “senhor” não é uma palavra que me deixa feliz, a não ser que você a esteja usando de brincadeira. – disse com um tom leve, dando um passo cauteloso para mais perto.
Abri um sorriso discreto, evitando olhar em seus olhos.
—Senhor está ótimo para mim. – respondi.
Escutei um suspiro vindo dele e ergui a cabeça.
—Como um homem cortejando-a... – começou parecendo sem jeito. – Gostaria de saber se quer ir assistir uma ópera comigo quando atracarmos? Contratarei uma dama de companhia para você e desse modo podemos fazer as coisas do jeito certo.
Senti meus olhos se arregalarem de espanto ao ouvir suas palavras, para então meu coração parecer parar por não estar preparado, em momento algum para aquilo.
—Cortejando-me? O senhor tem noção do que está dizendo? – instiguei, precisando me sentar, esquecendo que eu deveria manter a postura petulante.
—Sim, tenho plena noção do que estou dizendo. Achei que estivesse óbvio que estou a cortejando.
Pisquei ajeitando o vestido. Podia jurar ser capaz de ouvir o riso de Branca por conta daquela conversa e Belle me dizendo com um sorrisinho “eu avisei que ele iria querer as mesmas coisas que você”.
—Senhor, se está me fazendo à corte, isso quer dizer que...
—Estou pensando em pedir sua mão em casamento. – completou simplesmente, como se não fosse nada demais. – Jesus Emma! Você está bem? – perguntou preocupado quando precisei abaixar a cabeça para conseguir respirar, puxando o ar com certo desespero. – Não era bem assim que eu havia planejado contar, mas você não me deixou escolhas, já que minha primeira opção foi descartada quando descobriu aquela noite sobre o conteúdo do baú. Essa é a proposta que falei. Era para ser surpresa.
“Ah, mas foi uma baita de uma surpresa, Killian.”
Balancei a cabeça de um lado para o outro, achando que o tempo que havia ficado no mar, e o sol devia ter me deixado louca.
—O que o fez mudar de ideia? – consegui questionar.
—Seu escrito... Então imaginei que se fizéssemos tudo certo, como você foi criada, eu ainda poderia ter uma chance de mostrar que eu mudei, ou voltei a ser o Killian que você não conheceu.
—Não. Digo... O que o fez mudar de ideia quanto a....?
—Casar-me com você?
Assenti, achando que já poderia voltar a fita-lo.
Jones sorria para mim divertido.
—Conto-lhe se aceitar jantar comigo e depois ir assistir algum concerto ou uma peça de teatro.
Fiz que não.
Voltar a me apegar a Killian apenas tornaria as coisas mais difíceis. Eu tinha um objetivo a cumprir e se o que ele estava dizendo era realmente verdade, isso queria dizer que, só iria dificultar minha ida até Gotland.
Então por que minha língua formigava para dizer “aceito”?
E não era “aceito” para um encontro. Era um “aceito” para tudo.
Ele respirou fundo pesaroso.
—Continuarei tentando, Swan. –avisou antes de me deixar sozinha.
[...]
—Precisarei ir até a cidade mais próxima. – Bae me confiou, enquanto andava ao seu lado, um pouco atrás de Killian e Landon, que discutiam se seria melhor alugar quartos em estalagens ou um apartamento para o tempo que ficaríamos ali.
—O que? Por quê? – questionei um pouco alto demais fazendo Jones olhar para trás.
Baelfire ficou em silêncio, indicando que Killian prosseguisse com sua conversa.
—Conseguirei mais dinheiro em Boston do que aqui, Emma. E outra, não quero, ele rondando meus passos e assim estragando nossas chances.
—Então eu irei com você. – decidi, apavorada com a ideia de ficar apenas com Landon e Killian por uma ou mais semanas.
Ele balançou a cabeça.
—Emma, você ficará bem. Eles não tentarão nada e outra... Confio em Landon, sei que é difícil, mas nele eu confio.
—E em Jones, não?
—Não. Killian a usou, não acredito no arrependimento dele e nem que tenha mudado. Homens como ele não mudam, entretanto sei que Landon estava me dizendo a verdade. Landon irá cuidar de você enquanto eu estiver fora, Emma.
—Não gosto dessa ideia Bae. Você pode ficar aqui e pensamos em outro jeito. Não vá para longe de mim onde não posso o proteger.
Baelfire abriu um sorriso que criou ruguinhas ao redor de seus olhos e me abraçou.
—Eu vou ficar bem, Emma. Acredite em mim que voltarei para ajuda-la a chegar a Gotland.
Apoiei minha bochecha em seu ombro, abraçando-o de volta e aspirando o cheiro de seu suor. Lembrava-me folhas secas, quando caem no outono. Bae tinha cheiro de outono e eu adorava isso.
Escutamos um pigarro.
—Vocês irão nos acompanhar ou ficarão abraçados em público assim mesmo? – Killian indagou tentando parecer irônico, mas falhou miseravelmente ao deixar a irritação transparecer.
Ele me estudou por um tempo, como se considerasse acrescentar algum comentário, contudo no fim apenas voltou a andar.
—Quando irá? – instiguei baixinho.
—Pretendo sair amanhã. Quanto mais cedo for, mais rápido voltarei, não?
Concordei mesmo sentindo uma sensação ruim me invadir e toquei a pedrinha solitária em meu pulso, onde apenas a de Bae continuava na pulseira.
Caminhamos por mais um tempo, até nos encontrarmos em um bairro mais distante das docas e consequentemente mais calmo, sem a presença de tantos homens do mar e sua grosseria. As pessoas daqui pareciam mais... Com a sociedade em que cresci. A ponto de me lançarem olhares tortos por estar acompanhada de homens e com um vestido sujo.
Killian entrou em uma estalagem e logo já estava pedindo um quarto para cada um de nós. Peguei o saquinho de moedas que haviam sobrado da outra vez e dei um passo à frente, para pagar.
—O que está fazendo, Swan? – Jones ergueu um braço me impedindo.
—Pagando. – respondi. Bae já estava perto, abaixando o braço dele.
—Eu faço isso. – declarou. – E gostaria de saber se tem alguma dama de companhia disponível para a senhorita aqui. A dela acabou por falecer durante o trajeto. – mentiu com naturalidade, e com um, certo tom de pesar na voz.
A mulher da estalagem parecia entediada ao pegar as moedas do balcão e ir para dentro sem proferir uma palavra, voltando com uma garota, mais nova que eu aparentemente.
—Esta é Grace. – falou. – Minha filha, ela é uma boa dama de companhia?
Jones olhou para mim como se perguntasse se eu a aprovava.
—Gostei dela.
—Bom... Senhorita Grace, espero que não se importe de fazer companhia para essa adorável dama. – Killian me indicou. – Garanto-lhe que apesar da aparência selvagem ela não morde e será muito bem recompensada se cuidar de minh... Da senhorita Swan. – corrigiu-se rapidamente.
—Será um prazer servi-la senhorita. – a garota de olhos claros, saiu detrás do balcão.
—Ah não. Eu a chamo quando for sair, não precisa ficar todo segundo comigo.
—Srta. Swan irá precisar fazer compras esta tarde, após descansar. – Jones começou. – Uma tempestade nos atingiu e perdemos as roupas.
—Irei pedir para que, prepare seu banho, neste caso, senhorita. Deve estar exausta. – Grace fez uma reverência e se retirou.
Quando olhei ao redor, Bae estava com Landon, um pouco afastado. Landon fingia admirar um quadro, enquanto meu amigo mantinha os olhos em mim e a expressão presa em uma carranca.
—Sim, eu pedi para Landon afastar Bae. Eu a deixo em seu quarto. – ofereceu-me seu braço.
—Sei chegar sozinha, obrigada.
Fui em direção a escadas, apressando o passo, contudo Jones estava decido a me atormentar.
—Não poderei acompanhá-la as compras Emma, mas, por favor, compre tudo que achar necessário e peça que entreguem a conta em meu quarto. Eu pagarei.
Parei de supetão, virando-me para ele.
—Por que está fazendo isso?
Killian sorriu.
—Estou cuidando de você, fada. É isso que casais de verdade fazem, lembra-se?
Balancei a cabeça, dando-lhe as costas.
—Eu não irei te dar outra chance, senhor. Não posso.
Ele ficou sério e tocou meu braço com cuidado. Quando senti seus dedos apertando-me de leve, todo meu corpo estremeceu com a intensidade de apenas aquele toque.
—Por que não? Por que não pode? Eu sei que você percebe... Que seu coração sabe que estou dizendo a verdade. Que eu a quero da maneira certa para ser minha senhora. Seu coração sabe que estou sendo verdadeiro quanto a não existir mais trabalho. Ele sabia desde aquela noite. Entretanto em momento algum, irei julgar sua atitude de se afastar, pois entendo Emma. Apesar de ter machucado o seu afastamento e suas atitudes que não eram suas, eu entendo, porque era aceitável. Assim como eu sei, que o fato de ter me entregue seu escrito, mostra que não está mais tão irritada. Que talvez aja uma parte sua que pode me perdoar.
Forcei uma risada, olhando-o com desdém.
—E você espera que eu ignore tudo o que descobri sobre seu passado? As mulheres que você já usou, entre outras coisas terríveis? Essa é a parte que mais me enoja. Não o fato de eu ser um trabalho, o fato de terem tido outras que só descobriram tarde demais e acreditaram em você.
—Eu não espero que ignore Emma. Eu fiz essas coisas, não nego, porém não há nada que eu possa fazer para mudar. Arrependo-me delas, sinto vergonha do que fiz. Não estou pedindo que finja que não tenho um passado condenável. Estou pedindo para que considere o que sente por mim.
—E o que o senhor sente por mim? – rebati, soltando-me de seu aperto.
Killian respirou fundo, cravando seus olhos nos meus.
—Acredito que esteja bem claro o que sinto por você, Swan.
Dei um passo para trás, afastando-me de Jones que estava perto demais. Perto o suficiente para que eu sentisse o calor emanando de seu corpo.
—O único motivo pelo qual ainda o amo e dei aquele escrito para o senhor, é porque é o meu guerreiro. – falei. – Contudo não irei deixar minha condição como Donzela- Cisne que deve protegê-lo atrapalhar minha visão do certo e do errado. E o que o senhor fez está muito além do errado. É imperdoável. Eu não consigo entender o que o levou a fazer isso. Juro que tentei ver seu lado, mas nada, não tenho respostas para esse seu comportamento. E nem entendo como alguém como você pode ser meu guerreiro. Com sua licença. – fiz uma breve reverência e segui pelo corredor.
Dessa vez, ele não me seguiu e logo eu estava em segurança em meu quarto com Grace que me esperava ao lado da banheira com água.
Sorri para ela, tentando controlar as emoções que estavam descontroladas, pensando que seria, complicado sem Bae ali para me fazer companhia. Teria que achar uma forma de manter Killian afastado.
Pedi para Grace se retirar quando já estava limpa, entregando-lhe um bilhete para que desse a Baelfire. Nele eu pedi que ele trouxesse uma costureira até o quarto para me ver o mais breve possível. Precisaria tirar minhas medidas e escolher os modelos de vestidos que iria comprar.
Já que Jones insistia em pagar, então ele pagaria.
[...]
No fim da tarde, até mesmo Grace, com muita insistência minha, tinha comprado vestidos novos. Ela havia recusado e seu rosto tingira-se de vermelho vivo, enquanto a costureira tirava suas medidas, mesmo que a garota não colaborasse.
Depois que a mulher de meia idade e que parecia saber da vida de todo mundo foi embora, garantindo que os vestidos estariam prontos até o fim da semana, Grace e eu nos sentamos para tomar chá, onde conversamos sobre várias coisas e rimos, à medida que íamos- nos conhecendo, ficamos mais à vontade uma com a outra.
—Permite-me perguntar uma coisa, senhorita?
Assenti, levando um biscoito amanteigado a boca. Não eram tão bons quanto os de Granny, mas para uma barriga faminta, era a melhor coisa do mundo.
—Senhor Jones é seu noivo?
Ela precisou se levantar e bater em minhas costas quando engasguei.
—Ele mandou que perguntasse isso, não?
Grace apertou os lábios e deu de ombros, voltando a se servir de mais chá. Ela era uma garota atrevida, percebi, só esperava o momento certo e a abertura para que deixasse isso transparecer.
—Mas ele quer ser, não? – indagou.
Suspirei, perdendo a fome.
—Não sei Grace. Senhor Jones é um mistério para mim, às vezes quando acho que o conheço, sempre estou errada.
—Você quer ser a senhora dele? – instigou com a sobrancelha arqueada.
Olhei-a com os olhos apertados.
—Sem chances, não irei responder para que vá contar para ele.
—Senhor Jones apenas me pagou para fazer a pergunta, não para dar as respostas.
Senti o sorriso crescendo em meus lábios. Eu gostava da garota.
—Teve um tempo que eu queria sim, Grace. Mas senhor Jones não quer as mesmas coisas que eu quero. Ele não quer uma família. Apenas agora que começou com essa história de casamento. Porém eu já aceitei que nunca conseguiria nada com ele. E é melhor assim. Pode dizer isso para Killian se perguntar e a pagar.
Grace se colocou de pé, juntando tudo na bandeja.
—Já que insiste. Irá precisar de mim pelo resto do dia?
—Não, pretendo dormir até amanhã. Qualquer coisa eu a chamo.
Ela aquiesceu e se retirou do quarto, lançando-me um sorriso antes de fechar a porta.
—Eu sabia que isso ia acontecer mais cedo ou mais tarde. – Branca falou e eu me virei para ela, que estava esparramada na cama. – Está no destino de vocês sabe? Então talvez seja hora de contar para Killian sobre seus sonhos e porque deve ir até Gotland.
—Jones não precisa saber de nada. Eu irei sozinha. E por que você nunca aparece quando eu a chamo?
—Mas você me chamou. – ela se sentou, abrindo espaço para que eu me deitasse ao seu lado.
—Eu cogitei. É diferente.
Minha mãe maneou a cabeça.
—Você não conseguirá fazer isso sozinha. Se Killian não for, você não conseguirá sair de perto dele. Vocês estão entrelaçados, filha.
—É por que ele escondeu a capa?
Branca fez uma careta horrorizada.
—Isso é só uma lenda. A única coisa é que não podemos voar, mas ela não nos prende. Estou dizendo do juramento que ele fez. – franzi a testa confusa, tentando me lembrar de que juramento ela estava se referindo. – Aquele de que ele não se deitaria com nenhuma mulher enquanto estivesse com você. Killian o fez no dia seguinte ao seu aniversário. Com essas palavras, suas vidas se entrelaçaram, virando uma só. Ele não pode ir embora, assim como você. – explicou. – É como se já estivessem casados.
Sentei na beirada da cama, pesando suas palavras. Agora fazia sentido o fato de ter escolhido Jones aquela noite e não Graham, como eu realmente queria. Como eu não ficava mais tão incomodada ao dividir a cama com ele porque parecia certo.
—Isso tudo é tão confuso. Você diz que Jones é meu guerreiro, mas em momento algum ele disse me amar. Ou fez algo que o faça ser um guerreiro. Tudo o que Killian fez foi enganar as pessoas. Machucá-las
Branca puxou minha cabeça até estar pousada em seu peito, afagando minhas costas.
—Ele estava a esperando para salvá-lo para que se transformasse no guerreiro que nasceu para ser. Você deve perdoá-lo, Emma. Uma parte sua já o perdoou, entretanto sua parte mortal, humana, se recusa a isso. E é ela que você deve ignorar. Está na hora de se aceitar por completo, caso contrário, não terá a menor chance contra Cora. Você deve conversar com Killian sobre tudo isso que venho lhe contando nesses dias.
Fechei os olhos, imaginando o que alguém de fora veria se entrasse no quarto naquele instante. Eu estaria abraçando o nada?
Até que me lembrei de um detalhe e sentei-me de supetão.
—Não. Nem pense nisso, Emma. – Branca me censurou. – Como sua mãe eu a proíbo e ainda contarei para o seu pai... Mesmo que ele não possa fazer nada, mas geralmente os filhos detestam decepcionar o pai.
—Tarde demais.
—Killian não irá fazer isso. Ele não disse, mas eu sei que a ama. Tanto quanto você o ama.
—Te garanto que ele irá. Killian irá quebrar o juramento, Branca. Eu irei garantir que isso aconteça e então serei livre. Poderei ir para Gotland.
Ela se levantou da cama, e ficou andando de um lado para o outro.
—Isso irá mata-la Emma. E mata-lo de tristeza. Seja verdadeira com Killian, não o manipule para que ele a traia. Você ficou brava exatamente porque ele a manipulou e agora quer fazer o mesmo? Pense em como seu guerreiro irá se sentir, filha. Acredite em sua mãe, quando digo que essa não é uma boa ideia. Quebrar um juramento irá acabar com vocês dois.
—Quando há quebra de juramento, as Donzelas- Cisnes vão embora para sempre. – lembrei.
—Sim, porque elas morrem sem seu companheiro quando isso acontece! – Branca gritou comigo. – E quando elas morrem o trabalho não acaba. Elas se tornam Valquírias que ficam levando os guerreiros mortos para Valhalla.
Fiquei em silêncio, pensando em suas palavras.
—Quanto tempo até que isso aconteça?
Ela suspirou contrariada.
—De dois a três meses.
—Alguma coisa acontecerá a Killian?
—Além da profunda tristeza e sensação de que falhou com você? Não. Diferente de você, ele pode escolher viver com outra mulher, por mais que os guerreiros nunca façam isso.
—Então dois ou três meses é todo o tempo que preciso. O solstício de inverno já acontece neste mês.
Branca balançou a cabeça, parecendo decepcionada.
—Teimosa igual ao seu pai. Espero que pense direito em sua escolha filha.
E sem dizer mais nada, ela desapareceu, deixando no ar o leve cheiro de margaridas.
[...]
Baelfire havia partido logo cedo, então quando acordei tudo que encontrei foi um bilhete dele se despedindo e garantindo que voltaria em breve.
Grace aparecera perguntando se gostaria de ajuda para me vestir, mas lhe disse que preferia passar o dia no quarto porque estava indisposta, então ela tratou de me arrumar uns livros, trazendo um baralho e dominó para que eu passasse o tempo.
Landon e Killian me fizeram uma visita antes de voltarem para as docas, para saber se eu gostaria de acompanhá-los. Grace rapidamente os dispensou, garantindo que eu ainda precisava descansar e por conta disso passaria o dia no quarto.
Ao fechar a porta, ela me deu uma piscadela, voltando a se sentar comigo.
A semana passou sem grandes novidades e com isso o solstício se aproximava. Minhas chances eram poucas de conseguir chegar até Gotland sem minha capa e Baelfire não dera noticias. Nem um único bilhete dizendo que estava bem e isso me deixava agoniada.
Eu estava sentada ao lado de Landon naquela manhã para o café, tentando concentrar-me no jornal local, tentando ignorar os olhos de Killian que estavam pousados em mim.
—Fiquei sabendo que tem uma ótima peça em cartaz, Swan...
—Não estou interessada. – respondi virando a página.
—Grace pode ir conosco.
—Ela também não está interessada. – atalhei com a voz distante.
—Já que não quer toda a parte do cortejo... Aceita se casar comigo?
Fixei os olhos em uma palavra, surpresa de ouvir as palavras saírem de sua boca assim, sem hesitação nenhuma, com tanta naturalidade, que ele poderia muito bem estar brincando comigo.
—Não... – ia acrescentar um comentário sarcástico, quando percebi Smee entrando e parecendo nervoso, com o gorro nas mãos, procurando até seus olhos pousarem em nossa mesa. – Smee está aqui. – avisei para Killian, que se virou espantado para ver o homem baixinho se aproximando com afobação.
Ele se inclinou e disse algo para Jones, que fez seu rosto perder a cor. Imaginei que tivesse tido algum problema com o navio, mas então ambos me olharam.
—O que aconteceu?
—Nada, Swan. Não se preocupe.
—Irá continuar a esconder as coisas de mim? – indaguei. – Quero que me diga o que aconteceu. Agora! – exigi, olhando para Smee.
Killian esticou a mão para tocar a minha, apertando-a.
—Eu darei um jeito. Não se preocupe, amor.
—Um jeito em que Jones? – instiguei, começando a sentir uma sensação ruim em meu estômago.
Smee deu um pigarro sem graça.
—Acho que o senhor não entendeu capitão. O julgamento ocorreu já tem dois dias e Baelfire foi julgado como culpado...
Eu parei de ouvir depois dessa palavra. Não porque eu não quisesse, mas porque meus ouvidos tamparam se recusando a aceitar.
A aceitar que Bae, que havia se afastado para poder me ajudar...
Ah céus!
Coloquei-me de pé, indo para a porta, determinada a chegar até meu amigo e salvá-lo. Recusava-me a deixar que meu pesadelo se tornasse realidade. Que ele morresse na tentativa de me ajudar.
Escutava ao longe a voz de Killian, entretanto corri até encontrar-me na rua, sem saber para onde ir. Tinha a leve impressão de que repetia o nome de Bae repetidamente, enquanto o desespero e o pânico tomavam conta de mim.
Eu não sabia como chegar até ele.
Meus joelhos fraquejaram e desabei no meio da rua, sentindo meu coração se corroer pela culpa e a falta de ar atingindo-me em cheio. Eu não queria sair dali. Com sorte uma carruagem passaria em alta velocidade, me acertando e acabaria com aquela dor.
Por aquele momento tudo o que eu queria era ter permanecido quieta em minha casa, onde eu não causaria problemas para ninguém. Bae nunca teria me conhecido e estaria vivo.
Queria ser apenas uma mulher fútil e mimada da sociedade, sem importância para ninguém.
Consegui rir, um riso de tristeza e descrença. Ele já havia sido julgado, sem chance de ser liberto. Provavelmente seria enforcado hoje, onde serviria de espetáculo para as pessoas.
Curvei-me sobre mim mesma, mal acreditando que eu podia sentir tanta dor e berrei. Um grito dilacerante, que me rasgava de todas as formas possíveis, sem qualquer chance de poder juntar os pedaços.
Eu não podia perdê-lo. Não podia.
Senti braços me erguendo do chão e olhei ao redor, encontrando algumas pessoas me observando com cautela. Landon estava conversando com um cocheiro que havia sido parado para que não me atingisse.
—Leve-me até ele. – implorei para Killian, que me carregava. – Por favor, Killian. Leve-me até Bae. Ele fez isso por mim, eu preciso ir até lá.
—Eu irei Emma. Vou ver se consigo reverter a situação.
Segurei na lapela de seu casaco, apertando os dedos.
—Quero ir com você Jones. Não me deixe aqui... Não...
—Shh...
—Por favor.
Killian respirou fundo.
—Maldição Swan! Acha que consegue montar? Chegaremos mais rápido se formos a cavalo do que em uma carruagem.
Sequei os olhos e tentei conter o tremor de medo que atingia meu corpo.
—Eu consigo. Coloque-me no chão.
Killian fez o que eu pedi, contudo manteve sua mão espalmada com firmeza em minhas costas, até encontrarmos alguns cavalos para alugar. Landon estava conosco e ficava cuidando-me, como se tivesse medo que a qualquer momento eu fosse quebrar.
Mal ele sabia que eu já estava quebrada e perdendo meus pedaços pelo caminho.
Em poucos minutos já estávamos saindo da cidade, a caminho de Boston. Como eu não sabia como chegar, reprimi a vontade de estreitar as rédeas e fazer o cavalo galopar a toda velocidade, tentando manter-me atrás de Jones.
Fizemos uma pausa para que os animais descansassem, antes de voltarmos a exigir demais deles. Eu queria chegar a Bae o mais rápido possível, no entanto não iria adiantar de nada exaurir os pobres cavalos.
—Já estaríamos lá, se eu tivesse minha capa. – reclamei remexendo na barra do vestido, para tentar achar algo para ficar ocupada. Não queria voltar a chorar. Eu precisava manter a calma. –Eu poderia coloca-lo debaixo das minhas asas e leva-lo para longe.
Killian se sentou do meu lado, observando meus pés. Um caminho de bolhas havia sido feito por causa dos sapatos novos, que eu havia acabado de tirar e deixado de lado.
—O que quis dizer com “ele fez isso por mim”? – perguntou, erguendo meu pé direito e começando a massageá-lo.
—Baelfire foi até Boston para conseguir dinheiro para comprar um escaler. – Landon respondeu. – Ele e Emma estavam planejando ir até Gotland.
Jones olhou para mim.
—Isso é verdade?
Aquiesci, gostando de sentir os dedos de Jones tentando dar algum alívio ao meu pé.
—Sim. Eu quero ir até Gotland, Jones. É importante.
Ele se levantou e se afastou, voltando-se para mim nervoso.
—Eu quero várias coisas Swan. Contudo nem sempre querer é poder. Então trate de tirar essa ideia de chegar até Gotland da cabeça, que isso não irá acontecer. Eu não deixarei que chegue até lá. Não deixarei que seja morta por algum louco.
—Não irei discutir isso agora com você, Jones. Tenho meus motivos para chegar até lá, mas no momento, eu quero conseguir voltar com Bae para a Nova Inglaterra.
Killian bufou e saiu andando. Landon se aproximou e apertou meu ombro.
—Nós vamos dar um jeito.
E eu queria acreditar nele. Com todas as minhas forças eu rezava para que ele estivesse certo.
Quando chegamos a Boston o sol fraco havia se escondido atrás das nuvens, deixando o dia cinzento. Um vento cortante passeava e uivava ao passar pelas pessoas, fazendo-me encolher e me abraçar, para tentar me proteger do frio que arrepiava meu corpo todo.
Não foi tão difícil assim de encontrar a multidão que estava eufórica e barulhenta na praça principal. O cheiro de alimento podre pesava no ambiente e revirava meu estômago.
Um tomate podre me acertou em cheio na cintura, manchando meu vestido. Aquilo me irritou, não por ter me sujado, mas sim por causa da atitude daquelas pessoas em relação aos condenados. Como se já não fosse humilhante o suficiente sua morte ser usada como espetáculo, eram ridicularizados ainda mais, como se fossem lixos onde as comidas podres eram dispensadas.
Conforme fomos chegando mais perto, vi uma carroça que já estava com alguns corpos sem vida dentro e pude distinguir o cadafalso...
—Ah merda! – Landon exclamou.
Jones colocou a mão sobre a minha boca, mas não foi rápido o bastante para interromper o grito que saiu por meus lábios, virando-me para ele, escondendo meu rosto em seu peito.
Não importava o quanto Killian me apertasse contra si, a imagem nunca sairia de minha mente.
Eu sempre iria conviver com aquela cena. Com o corpo de meu amigo Bae se contorcendo em espasmos, esperando o momento que o ar sumiria de vez de seus pulmões para acabar com o sofrimento. Nunca me esqueceria da cor em seu rosto ou o fato de que seus olhos estarem saltados para fora das orbitas e sua boca aberta em um pedido silencioso de ajuda. Ou como suas roupas estavam sujas com suas fezes e urina, misturado com os alimentos que jogavam nele.
Como aquilo havia sido culpa minha.
—Você vai ficar bem, Swan. Eu prometo, vai ficar mais fácil com o tempo. — Killian murmurou com a voz embargada.
Eu não queria, não conseguia acreditar.
Abracei Killian com força e chorei de desolação, de dor, de culpa. Chorei porque não sabia mais o que fazer.
Chorei mais um pouco porque minhas lagrimas não poderiam trazê-lo de volta.
Chorei porque havia perdido não um amigo, mas um irmão que me protegera em todos os momentos em que esteve comigo. Que me dera seus sorrisos mais preciosos para que eu me sentisse bem.
Escutei uma nova rodada de comemoração e aplausos, ao nome do próximo condenado ser anunciado. Não sei o que fizeram com o corpo de meu amigo. Não sei se estava completamente morto ao ter o laço retirado de seu pescoço.
Não sei se gostaria de saber.
Jones me afastou da multidão, entrando em uma taberna e deixando-me sentada em uma das mesas mais afastada, por mais que o lugar estivesse razoavelmente vazio.
Ele voltou com um caneco e colocou em minha frente.
—Beba, é limonada. – falou indicando o liquido.
Admirei o caneco, quando outra onda de choro me atingiu. Ele se sentou ao meu lado, segurando meu rosto em sua mão.
—Amor escute: o que aconteceu com ele, poderia ter acontecido com qualquer um. Comigo, com Landon. Bae estava no lugar e hora errado. Não foi culpa sua, fada. E tenho certeza que Baelfire detestaria que você ficasse se condenando.
Fitei seu rosto, encontrando seus olhos vermelhos.
—Eu gostava de Bae também, Emma. Apesar das brigas, ele sempre foi importante para mim. Beba um pouco, irá acalmá-la. –ele levou o caneco a minha boca e eu tentei engolir o suco que eu tanto gostava, mas naquele momento, não tinha gosto de nada.
—Quero ir para casa. – balbuciei.
—Você irá amor. Terá a vida que sonhou, irei garantir que isso aconteça.
Chorei um pouco mais, ao pensar que a vida que eu sonhei parecia um luxo, perto da realidade que me espreitava.
[...]
Killian ajeitara-me no cavalo consigo os braços ao meu redor para que eu não caísse. Eu estava sem forças para brigar com ele e exigir que me deixasse montar. Estava sem vontade de manter a fachada que criara naquele mês.
Estava me sentindo vazia.
Oca.
Quando chegamos à estalagem, Jones me deixou no quarto e algum tempo depois, Grace aparecera retirando o vestido que eu estava e limpando a sujeira de meu rosto e braços.
Ela forçou-me a vestir uma camisola e então me cobriu, fechando a janela para que o quarto ficasse escuro. Agradeci-a mentalmente, porque meus olhos estavam ardendo por conta da claridade.
Baelfire iria chegar a qualquer momento, com seu sorriso e seus abraços protetores. Ele iria me fazer rir e garantir que eu não estaria sozinha.
Pela noite Killian ficou o tempo todo ao lado de minha cama quando Grace foi embora, oferecendo-me comida, água ou chá. Quando não o respondi pela décima vez, dando lhe as costas e tentando pegar no sono, ele parou de questionar.
E dessa forma os dias passaram. E mesmo sabendo que eu não o teria de volta, eu o esperei. Rezei para que Baelfire chegasse e que tudo não passasse de um mal entendido.
Eu sabia, minha parte racional sabia que ele não iria voltar, que ele tinha ido para sempre. Entretanto, parte minha se recusava. Nos dias que fiquei deitada, encolhida na cama, gostava de pensar em Bae vivendo sua vida, que ele saíra em uma aventura e que eventualmente, um dia, voltaríamos a nos encontrar. Ele me contaria tudo, riríamos como bons amigos e, tudo continuaria nos eixos.
—Ela não comeu nada a semana toda. – ouvi Killian falando. – Terei que chamar um médico se Swan não reagir. Detesto vê-la definhando dessa forma e não poder fazer nada.
—Emma está em choque, Killian. É normal que as pessoas fiquem assim quando perdem alguém que amam. Baelfire era próximo dela. Eu fiquei em uma situação parecia quando perdi meu filho e minha esposa. Você também teve sua forma de lidar com a perda de Milah. Cada pessoa lida com essa dor de formas diferentes. Dê tempo para ela.
—Prefiro que Emma me ignore, ao vê-la abatida... Tente você, Landon. Veja se ela quer ir dar uma volta. Nem que seja até a taverna. Apenas faça minha Swan voltar a brilhar novamente. Talvez você tenha mais sorte que eu. Emma sempre foi mais apegada a você.
—Tentarei filho... Irá sair?
Jones demorou, para responder.
—Tenho um compromisso agora, Landon. Uma pessoa que pode me ajudar nisso.
Houve um momento de silêncio mais longo.
—É ela?
—Sim. Recebi um bilhete dela, pedindo para que eu a encontrasse.
—Você acha que ela veio atrás de Emma?
Uma respiração mais funda que o necessário.
—Voltará de mãos abanando. Vou colocar um fim nisso, Landon. Emma viverá em paz o resto da vida dela, nem que eu tenha que matar para que isso aconteça. Não quero mais vê-la nesse estado. Quero que seja feliz.
Escutei os passos dele se afastando até sumirem por completo, para então a porta se abrir.
—Olá Emma. – Landon cumprimentou-me. – Trouxe um pouco de leite com biscoitos, acredito que você conseguirá comer isso.
Forcei-me a sentar, meu estômago reclamando de fome ao ver o liquido branco que ele me oferecia. Estiquei a mão, mas desisti no meio do caminho notando que tremia demais.
Landon assentiu e se sentou ao meu lado, levando o caneco a minha boca.
—Killian está preocupado com você. – falou, oferecendo-me um biscoito.
—Eu sei. Ele tem passado todas as noites aqui, sem dormir por um minuto. Sei disso porque eu quase nunca consigo dormir... Aquela imagem fica rondando a minha mente, Landon, e eu tento acreditar que não era Bae, para ver se essa sensação de falha melhora, mas então eu espero-o chegar...
—E é pior, porque ao mesmo, tempo que você espera você sabe que está se iludindo. Não é fácil Emma, e entendo que esteja em luto, no entanto precisa reagir. Já ouviu dizer que a alma de uma pessoa nunca descansa enquanto existe alguém chorando por elas? Enquanto você permanecer aqui neste quarto, sem se alimentar direito, se culpando e chorando, Baelfire não conseguirá descansar, pois ficará aqui, cuidando de você. O melhor que pode fazer por ele, é mostrar que consegue se proteger sozinha... E antes que eu me esqueça. – ele falou, pegando uma espécie de trouxa de roupa. – Isso pertence a você. Foi errado Killian ter escondido, porém acredito que você esteja precisando dela para completar sua jornada.
Landon colocou a capa em meu colo, e eu a acariciei com dedos trêmulos, sentindo a maciez das penas.
Eu teria como chegar a Gotland.
Então por que minha garganta se obstruiu e um gosto amargo surgiu em minha boca? Não era isso que eu queria? Conseguir chegar a Gotland e terminar o que era meu dever? Eu deveria ter me sentindo pelo menos bem ao saber que eu conseguiria chegar até lá.
Agora tudo o que precisava fazer para poder completar minha jornada era me desligar de Jones para sempre.
E eu já sabia com quem eu conseguiria ajuda.
—Ouvi Killian sugerindo um passeio. Eu gostaria se não se importar.
Landon bateu as mãos, animado.
—De modo algum. Chamarei Grace para que a ajude se trocar. Ele ficará feliz em saber que aceitou dar uma volta, Emma.
Abracei minha capa, pensando nas palavras de Branca sobre minha morte.
E em como eu preferia perder Killian por uma “traição” do que pela morte.
Não suportaria que Killian morresse por minha causa também. Eu não deixaria que chegasse até Gotland. Sabia que se tivesse mudado de fato, como dizia, Jones iria conseguir seguir com a vida da forma correta.
Como um homem bom. O homem que eu amava.
Ele fora se encontrar com ela.
Eu precisava encontrá-la.
Precisava encontrar Regina.
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