Traiçoeiro
29 Capítulo 29
Notas iniciais
–Mademoiselle... Swan? – o mordomo indagou assim que abriu a porta, me fitando como se eu fosse uma assombração.
–Olá Watley. – o cumprimentei com animação, colocando um sorriso amigável no rosto. – Será que podemos entrar? – instiguei, apontando para Landon e Bae que estavam atrás de mim, segurando Jones.
Watley piscou atordoado olhando dos homens para mim, seus olhos escuros parando sobre o estado deplorável que nos encontrávamos.
–Mademoiselle... Seu pai está louco procurando à senhorita, assim como seu noivo. – falou em um tom baixo.
–É mesmo? – me fiz de surpresa, levando a mão ao peito. – Por que eles estariam fazendo isso?
–A senhorita esta desaparecida. – informou.
–Como se estou bem aqui? Na sua frente, não? – estalei os dedos, fechando os olhos. – Já sei o que aconteceu, decidi voltar mais cedo para casa do baile do príncipe da Espanha, estava meio entediante, sabe? Eles não sabem dar uma festa. — revirei os olhos. — Devo ter me esquecido de avisar. – soltei uma risada. – Será que meus criados e eu podemos entrar?
Watley olhou para trás de mim novamente, desconfiado, então se aproximou mais de mim.
–Mademoiselle, me desculpe, mas isso já faz mais de seis meses.
–Tudo isso? Sabia que havíamos errado a rota. Não lhe avisei Sr. Baptiste que estava no caminho errado? – questionei me virando para ele com irritação. – E então fomos assaltados! – acrescentei com dramaticidade.
–Minha nossa! – o mordomo exclamou arregalando os olhos, aparentemente optando por acreditar em mim.
–Exatamente. Foi terrível. – continuei, o empurrando para o lado e indicando que Landon e Bae entrassem com Killian. – E fomos feitos de refém. – continuei. – Conseguimos escapar, felizmente.
–Devemos informar seu pa...
–Não! Não há necessidade disso, Watley. Apenas queremos ficar aqui até melhorarmos, então seguiremos para meu condado. – garanti.
–Pelo menos os oficiais sobre esses bandidos? – sugeriu.
–Watley! – chamei autoritária, fazendo com que ele estancasse no lugar. – Não há necessidades de nada disso. Apenas queremos um lugar para descansar por um tempo. Quero que mande preparar um banho para meus criados, assim como quero que arrume unguento e ataduras. Preciso que nos abasteça com comida... Irei escrever uma carta para Belle avisando que estou aqui.
–Claro, senhorita. Irei pedir para arrumarem o quarto dos criados...
–Não. – o interrompi. – Os quero nos quartos do andar de cima. Para mim o quarto de sempre, entendido?
–Sim, mademoiselle. – assentiu, fazendo uma reverência e se retirando.
–Watley! – o mordomo se virou. – Que não saia dessa casa, que estamos aqui. Vocês podem fofocar o quanto quiserem na cozinha, mas não deve sair de lá. E apenas com criados dessa residência. Como está sua mãe? – perguntei para ele, que piscou e engoliu em seco, ajeitando o colarinho.
–Adoentada como sempre, mas aguentando firme.
Respirei fundo, endurecendo minhas feições.
–Mais um motivo para que fique de boca fechada e faça seu trabalho, Watley. Sei que sua mãe precisa de remédios e que o senhor só consegue bancar por conta desse emprego, tenha isso em mente. Faça o que eu lhe pedi e faça direito.
Watley balançou a cabeça uma única vez, mostrando que havia entendido o recado e sumiu pelo corredor.
–Cada dia que passa, fico mais impressionado com seus dotes teatrais, Emma. — Landon zombou.
–Não consegui pensar em nada melhor. Eu não sou das mais rápidas para pensar sobre pressão. Mas não se preocupem ninguém aqui irá abrir a boca.
–Claro, depois dessa ameaça... Eu não gostaria de ser seu criado. – Bae falou em tom provocativo.
–Eu não sou tão ruim assim com meus criados... A situação pediu iss... – fui interrompida por uma crise de tosse, que fez meu peito doer e eu me curvar, para tentar respirar.
–Emma!- Landon veio para o meu lado, me amparando, olhando horrorizado para o sangue que escorria de minha boca. – Ah menina, você está pior.
–Está tudo bem. – limpei meus lábios com o dorso da mão. – Deve ser por causa do cansaço. Pedirei para me prepararem algum chá, acredito que terei melhora nos dias que passar aqui.
–Deveríamos tentar arrumar um médico. Isso não é nada, como tenta se convencer. – Bae aconselhou.
–Senhorita. – uma criada chamou do topo da escada. – Por favor, me sigam.
Sorri, segurando no corrimão e subindo a escada, tentando me manter reta, quando minha vontade era de sentar e nunca mais levantar. Fui acompanhada pelos homens em silêncio. Deixamos primeiro Killian em seu quarto, onde o banho já era preparado, para então Landon, Bae e eu seguirmos para os nossos.
Assim que fechei a porta, me encontrando sozinha, corri para o urinol, o segurando e despejando todo o vomito que estava segurando, me deixando cair no chão, cansada demais, meu rosto pressionado contra o carpete macio e minha respiração pesada.
Fiquei nesse estado por um bom tempo, creio que cheguei a cochilar, até o calafrio que havia me atingido dissipar, deixando apenas minha pele suada e gelada. Me sentei escorada na cama e desamarrei a capa do pescoço, a jogando de lado.
Eu precisava de um banho, mas antes tinha que ver Jones.
Sai para o corredor, me apoiando nos móveis, sentindo minha cabeça zonza, até que me vi parada diante da porta de Killian e com a mão na maçaneta, abrindo sem me preocupar em bater.
Havia algumas criadas no quarto, trabalhando agilmente sem fazer nenhum barulho, auxiliando os rapazes que tentavam dar banho em Jones, da melhor forma possível.
Andei até eles, sem emitir nenhum som, admirando o homem deitado na banheira com a água suja de uma cor enferrujada. Me ajoelhei ao seu lado, o estudando, hipnotizada.
Os cortes novos, contrastando com as cicatrizes antigas. A forma como as gotas de água se formavam em sua pele. A maneira que os pelos de seu corpo estavam desordenados por estarem molhados.
Desci mais o olhar, prendendo a respiração ao ver sua masculinidade, meu coração dando um pulo descompassado, para voltar a bater com rapidez. Observei suas pernas, seus pés e os dedos, com um cuidado que um colecionador de antiguidades examina suas peças raras.
Killian Jones era lindo.
–Mademoiselle. – a mão em meu ombro, me vez desviar os olhos do corpo nu de Killian, assustada com meu comportamento.
Eu não deveria ficar admirando um homem nu, ainda mais nas condições em que ele se encontrava.
–Sim?
–Acredito que não seja adequado para a senhorita permanecer aqui. – a velha criada, falou suavemente.
–Eu quero ajudar.
Ela relanceou os olhos para Killian.
–Claro que quer, mas acredito que ajudará muito mais se ir cuidar da senhorita primeiro. Pode vir visitá-lo mais tarde. Não é bem visto que uma moça de boa família veja um homem nesse estado.
–Mas ele é meu amigo. – insisti me colocando de pé. – Quero ajudar. – peguei um sabonete da mão do criado mais próximo, pegando uma caneca e a enchendo de água.
–Senhorita! Peço que se retire e nos deixe trabalhar. — ela tomou as coisas da minha mão e me indicou a porta.
A olhei irritada, mas por fim acabei concordando. Antes de sair me inclinei sobre Killian, beijando sua têmpora, levando a mão para afagar seu rosto, como sempre fazia quando ele estava pronto para ir dormir.
Meus olhos vaguearam para o resto de seu corpo, como se não cansassem de olhar, como se precisassem memorizar aquela obra de arte, que causaria inveja aos deuses gregos que eram esculpidos para serem atraentes.
Killian era uma escultura que até hoje nenhum escultor conseguira reproduzir com perfeição.
E sinceramente? Esperava que nunca conseguissem.
Ergui os olhos, encontrando todos os criados me observando de soslaio.
–Me deixem saber se ele acordar. — pedi.
–Pode deixar mademoiselle.
Retirei-me rapidamente do quarto, praticamente correndo até o meu e me trancando. Uma banheira já me esperava com água morna, como se o banho estivesse pronto há uns bons minutos.
Me despi, arremessando as roupas encardidas e rasgadas em algum lugar e fui para o guarda roupa. Deveria ter algumas roupas ali, eu sempre as deixava, na tentativa de não levar tantas malas na próxima visita.
Separei um vestido de mangas longas e gola alta. Depois de tudo o que eu passara, estava precisando me sentir um pouco como a antiga Emma Swan.
Entrei na banheira, escorregando lentamente até a água cobrir meus ombros, adorando a sensação de ter a sujeira se desprendendo de minha pele. Lavei meus cabelos, fazendo careta ao sentir o couro cabelo sensível em vários pontos.
Desembaracei os fios com os dedos, sentindo falta de meu mindinho. Nunca imaginei que aquele dedo iria me fazer falta. Eu nunca prestara atenção para saber se de fato ele servia para alguma coisa. Talvez não servisse. Talvez eu sentisse a necessidade de usá-lo, apenas porque não o tinha mais.
Não é isso que sempre fazemos com tudo na vida? Vemos utilidade em algo, quando não mais nos pode ser útil, pois o perdemos?
Fiquei brincando com a água, sem me preocupar. Tocando e desenhando as cicatrizes visíveis em meu corpo. Conhecendo minhas novas marcas, minha história ali, contada de forma permanente.
Eu estava orgulhosa delas, mas talvez não fossem bonitas aos olhos dos outros.
Precisava escondê-las, para que invejosos não apontassem o dedo, dizendo que eram horríveis.
Meu corpo começou a ser atingido por tremores de frio, logo deduzi que já era hora de sair da água. Eu não estava bem, a poção que o duende havia me dado já começava a dar sinais que estava perdendo o efeito.
Bem que ele dissera que só faria duraria para que eu terminasse a jornada e eu tinha que fazer muitas coisas ainda, para me dar ao luxo de ajudar a doença a tomar conta.
Sequei e me enrolei no roupão, entrando debaixo dos cobertores, rindo sozinha com o conforto que eu sentira tanta falta. O colchão era tão macio, que todo meu corpo ficou tenso a princípio, antes de aceitar que podia relaxar. Então cada pedacinho começou a doer, até que fui envolta por uma preguiça sonolenta.
Abracei um dos travesseiros, me lembrando de Killian, com a consciência que agora, eu estava ainda mais fascinada por ele. Não era mais só o fascínio pelos seus modos, seu humor, sua inteligência ou seus segredos. Por suas palavras, seus sorrisos ou seus olhos. Eu estava fascinada pelo homem todo, o conjunto completo.
Sempre quando estava com Killian tentava ignorar o fato que ele era um homem, mesmo com aquela tensão, o comichão e meu ventre afundando, tentava pensar nele apenas como Killian Jones, meu amigo, ou meu capitão, tudo dependia de seu humor.
Mas nunca como Killian Jones, o homem.
Contudo, agora que eu havia me deixado levar por todos aqueles sentimentos, que eu sabia que tinha que manter escondidos, que havia desistido de lutar pelo o que eu achava certo, apenas para poder senti-lo tão perto, para receber seus beijos, eu tinha a percepção que era um homem.
Agora, eu sabia que não podia mais me iludir, me dizendo ao contrário. Eu o havia visto, e vê-lo apenas acendeu em minha mente as lembranças de quantas vezes ele já havia me mostrado que era um homem. Que já havia colado o corpo ao meu, para que eu sentisse que ele me queria...
Como um homem.
Não como Killian Jones, meu amigo ou meu capitão.
Mas Killian Jones um grande candidato a amante... Ou minha completa destruição.
Porque eu o queria.
Queria como uma mulher quer um homem.
E admitir isso, mesmo que para mim, me fazia sentir vergonha. Uma pessoa baixa.
Meus olhos começaram a pesar, e antes de ser tomada pela inconsciência, eu já sabia quais sonhos iriam invadir minha mente.
[...]
–Mademoiselle? – fui cutucada suavemente, percebendo a claridade que invadia o quarto.
Apertei os olhos, puxando a coberta até meu queixo.
–Sim? – murmurei com a voz arrastada.
–Já passa do meio dia. – informou calmamente.
Sentei na cama, bem desperta de repente.
–Como estão todos?
–Senhor Baptiste e o outro saíram para caminhar assim que almoçaram.
–E quanto a Killian?
–Permanece desacordado.
–Preparem uma sopa para ele, tenho que mantê-lo alimentado. – pedi, pegando uma xícara que estava no criado mudo e a levando com tudo na boca, quase cuspindo seu conteúdo. – O que raios é isso?
–A senhorita teve uma febre alta durante a noite, lhe demos chá de gengibre e alho para que abaixasse. Mas não faremos mais se…
Percebi uma bacia de água, com um pano torcido ao lado de onde havia pego a xícara.
–Não. Tudo bem, é que eu não esperava. Me desculpe e obrigada. – agradeci terminando de tomar o chá em um único gole, colocando a língua para fora.
–Gostaria de ajuda para se vestir?
Sorri para ela, jogando as pernas para fora da cama.
–Eu adoraria.
Havia me esquecido o quanto demorava o processo de se vestir e arrumar os cabelos. Uma hora mais tarde eu estava com espartilho, anáguas e o corpete, fora o cabelo preso com vários grampos, no tradicional coque que eu detestava.
Eu tinha a impressão que minha cabeça iria explodir com tanta pressão.
–Poderia, por favor, encaminhar está carta para Belle em Paris? — indaguei, colocando-a em um envelope. Pelo menos naquele tempo em que arrumava os cabelos, pude redigir minha mensagem. — Com ordens estritas de ser entregue apenas nas mãos da senhorita Belle, não da do mordomo, nem de criadas, muito menos para seus pais, apenas para minha amiga. — reforcei com seriedade.
–Claro. Irei passar suas instruções para o mensageiro. — garantiu.
–Obrigada.
Fui para o quarto de Killian, mal podendo me mover e me arrependendo profundamente de ter optado pela vestimenta adequada.
Talvez eu tenha me desacostumado.
As cortinas pesadas estavam fechadas e o quarto cheirava a suor abafado. Me aproximei da cama, meus olhos se adaptando a escuridão e toquei o rosto de Jones, que respirava lenta e profundamente.
–Quando irá acordar para me dar o prazer de sua companhia, ein senhor Jones? — perguntei baixinho, procurando uma vela para que pudesse ver como estavam seus machucados.
Por fim, acabei abrindo uma fresta de cortina para que iluminasse todo o ambiente e me sentei ao seu lado, da forma mais confortável que consegui, começando a olhar atadura, por atadura para me certificar que seus ferimentos estavam bem limpos e sem chances de estarem infeccionados.
Uma criada bateu na porta e entrou, nos estudando atentamente.
–Precisa de auxílio?
–Não é necessário. Eu consigo alimentá-lo. Pode se retirar. — indiquei a porta e a moça fez uma reverência, saindo sem dizer mais nada.
Me sentei na cabeceira, puxando Killian até que estivesse sentado, usando meu corpo de apoio. Seus cabelos batiam de leve em minha bochecha, o cheiro morno de azedo atingindo meu nariz.
–Você sabe que eu gosto desse cheiro? — instiguei, colocando uma colherada em sua boca, erguendo seu queixo para que engolisse, limpando com as pontas dos dedos o pouco que escorreu. — Eu sei que é estranho, principalmente porque todo mundo acha nojento, mas de certa forma, eu acho reconfortante.
Terminei de dar a sopa para Jones em silêncio, ficando mais um tempo com ele naquela posição, o medo que ele engasgasse me dominando.
–Eu lhe salvei de verdade, Killian? O fiz se sentir amado? — murmurei acariciando sua bochecha. – Pode contar comigo sempre que precisar, porque você merece se sentir amado, e além de tudo ser feliz. – não aguentei e beijei sua nuca, sentindo a umidade salgada em meus lábios. – Vou fazer o possível para que se torne um homem feliz antes que eu vá embora, tudo bem? — prometi, sentindo meus olhos esquentarem, quando apoiei o queixo em seu ombro. — Irei deixá-lo descansar, devo estar lhe enfadando com minhas conversas.
O ajeitei na cama, afofando os travesseiros para que ficasse confortável. Fechei a cortina, o quarto voltando a mergulhar no escuro.
–Venho lhe ver mais tarde. Espero que esteja acordado.
Vaguei pelos corredores desertos, me recordando dos tempos que passava ali com Belle, brincando de esconder até que nossas tutoras surgissem bravas, ordenando que nos comportássemos como damas e não animais.
Estudei uma mesinha vazia, lembrando que eu havia quebrado o vaso que a enfeitava, na última vez que estivera ali.
–Oh! Quem será essa bela senhorita? — Bae questionou de forma teatral, se apoiando em Landon que sorriu para mim.
–Parece outra pessoa. — comentou.
–Eu me sinto outra pessoa. — atalhei. — Como foi o passeio?
–Bom, mas nos cansamos rápido. A propriedade é grande. — Bae respondeu me oferecendo o braço. — Já se alimentou?
–Ainda não. Estava cuidando de Killian e não faz tanto tempo que acordei.
–Percebemos que estava exausta. — Landon pegou em meu outro braço, ambos me conduzindo para a sala de jantar. – Por que não nos conta tudo o que aconteceu enquanto come? — sugeriu.
–Claro. Acho que vocês merecem saber.
Watley me serviu e se retirou sem me encarar. Landon e Bae se sentaram de frente para mim, ansiosos.
Respirei fundo e comecei a narrar desde o momento em que havíamos nos separados, sendo interrompida algumas vezes para responder perguntas, mas foram poucas, eles estavam mais interessados em ouvir que questionar.
–E foi isso. — conclui. — Agora estamos aqui.
–Então sua capa foi um presente da deusa?- Landon indagou de novo.
Assenti, brincando com a manga do vestido.
–Ela disse que me pertence. Por isso que estamos aqui, para que eu descubra o que eu sou e ninguém melhor e mais inteligente do que Belle para me ajudar.
–Isso é loucura. — Bae murmurou. -Como vamos fazer para recuperar o navio?- quis saber.
Olhei para Landon, esperando uma resposta também.
–Vou esperar Killian acordar, então nós dois... -ele apontou para Bae. — Iremos cuidar disso. O Jolly Roger estava destruído, os homens serão obrigados a parar em algum porto para consertá-lo e irá demorar, para que isso aconteça. Terão que repor os mastros que quebraram as velas, munições, sem falar da comida. E nos sabemos que eles não têm dinheiro para arcar com tudo isso.
–Nassau?
–Não. O clima de Nassau é muito quente, os produtos não são bons, apodrecem muito fácil. – explicou Landon pegando um pedaço de carne que eu havia abandonado em meu prato.
–Nova Inglaterra… Ou Bristol.. — Bae respondeu rapidamente com amargura.
–Você é de Bristol, não é? Foi onde Killian e sua mãe se conheceram.
Bae revirou os olhos, assentindo e se colocou de pé, começando a andar pela sala.
–Não é muito longe daqui. Eles irão demorar um tempo para conseguirem chegar. Vocês podem descansar e não se preocuparem com nada por um tempo. Apenas em se recuperarem.
–A ideia de comer e dormir bem por um tempo até que não é tão ruim. Acredito que esses homens rústicos conseguem aguentar um tempo assim. — Landon brincou.
–Ótimo. — afastei a cadeira, limpando a boca com guardanapo. — Vou ver se encontro algo na biblioteca de Belle, se precisarem… Ou podem me fazer companhia.
–Não temos nenhum compromisso importante agora. — Bae bateu as mãos, me oferecendo seu braço. — Essas roupas, são ridículas. — acrescentou indicando as vestes que usava.
–São nada. Os dois estão esplêndidos… Se caso inventarem de conhecer a vila, me avisem. Não quero deixar dois partidões andando sozinhos.
–Ciúmes? — Landon arqueou as sobrancelhas.
–Mas é claro! O que não irá faltar são mulheres interessadas em vocês. Tenho que cuidar do que é meu. — enlacei meu outro braço no de Landon, que riu.
–Além de ciumenta, é possessiva. — Bae fingiu indignação.
Enquanto eu os levava até a biblioteca, pensei que não seria nada mal, se pudéssemos morar juntos se caso o Jolly Roger não fosse encontrado. Se eu os tivesse como companhia, nenhum dia seria solitário, ou sem conversas descontraídas.
Balancei a cabeça dispensando o pensamento. Quando Graham e eu nos casássemos duvidava muito que ele iria querer dois homens morando na mesma casa para fazer companhia a sua esposa.
Abri as portas, o cheiro de poeira e livros antigos irritando meu nariz. Comecei a espirrar sem parar e Landon se adiantou para abrir as cortinas e janelas.
–Obrigada. – agradeci, com o nariz entupido. – Esse cômodo não é muito usado quando Belle não está aqui.
–Dá para perceber. As prateleiras estão cheias de pó. – Bae fez careta ao passar o dedo em uma delas.
Os dois rapidamente se distraíram com um tabuleiro de xadrez, me deixando sozinha na busca por livros que tratassem sobre mitologia nórdica.
O problema era que Belle tinha sua própria forma de organizar seus livros, e ela tinha muitos, o que levou mais tempo que o necessário para achar alguns que tratassem sobre o tema. Sem falar que por várias vezes precisei me sentar por ser atacada por uma crise de tosse. Sempre que isso ocorria Landon e Bae desviavam o olhar preocupados para mim.
Em algum momento, uma criada entrou com uma bandeja de comida, depositando-a na mesinha de centro. Ela me lançou um olhar torto ao me encontrar sentada em uma poltrona com as pernas jogadas no apoio de braço, com um pouco da minha pele da canela exposta.
–Chá de mel com limão e alho, senhorita. – ela me avisou, colocando a xícara fumegante em minhas mãos. – Faz bem para a respiração. A chefe das criadas percebeu que seu peito chia sempre que inspira.
–Ah, obrigada. Diga a ela que agradeço muito. – me endireitei, ganhando um olhar de aprovação dela. – Sabe se Killian...
–Ele continua desacordado, senhorita, mas os ferimentos foram limpos novamente e as ataduras trocadas. Demos chá tépido para que ele fique hidratado. Precisa de mais alguma coisa?
Neguei com a cabeça, lhe dando um sorriso.
–Está tudo certo. Pode se retirar. – ela se fez uma reverência e fechou a porta suavemente. – Por que tem que ser colocado alho em tudo? – reclamei levando o chá ao nariz, antes de tomar.
–Por que você cheira as coisas antes? Engole tudo de uma vez e está certo. Xeque mate! De novo, Landon. Eu sou ótimo. – se gabou, alisando o casaco que vestia.
–Que tal tentarem outro jogo? Um que eu possa participar?
–Achei que estivesse pesquisando.
–Não estou conseguindo me concentrar... Na verdade estou um pouco com medo do que vou descobrir. – me levantei, indo até o armário e pegando uma caixinha com dominó. – A propósito, quando Killian acordar não quero que contem como chegamos aqui. Que fique apenas entre nós.
–Por que, Emma? – Landon instigou, abrindo um espaço para que me sentasse com eles.
–Eu apenas não quero que ele saiba. Esse é meu segredo e quero que vocês o guardem, entenderam? – questionei séria, olhando de um para o outro que aquiesceram. – Assim como irei me livrar daquela capa o mais rápido possível. Quero apenas esperar Belle chegar, para ver se ela sabe alguma coisa sobre.
–Não acredito que seja uma boa ideia se livrar de um presente que Hel disse pertencer a você. – Landon falou, pegando as peças do dominó que eu havia embaralhado.
–Não tem importância. – retirei as minhas peças também, apertando nas mãos para que os dois não espiassem. Olhei para Landon. – Eu só quero ser normal. Como eu era meses antes de entrar nisso tudo.
[...]
Depois da... Décima vez que me virava tentando me ajeitar na cama? Decidi que não conseguiria dormir se não fosse dar uma olhada em Jones para ver ele estava bem. Me enrolei no roupão, acendendo a vela e sai silenciosamente para o corredor.
Entrei no quarto de Killian sem cerimônia e fui direto para o lado da sua cama, aproximando a vela de seu rosto e tocando sua testa.
Sem febre... Pele menos um de nós.
–Vim ficar um pouco com você se não se importa. Não estou conseguindo dormir... Fico me lembrando dos lobos, e do rio de sangue. Tenho a impressão que estão me espreitando. – confessei, segurando em sua mão. – Que irão me pegar, mas não se preocupe, apenas porque está tudo muito recente. Logo eu esqueço. – garanti. – Também estou com um pouco de febre. Ela ficou assim o dia inteiro, vai e volta.
Sentei na beirada da cama.
– Passei o dia todo com Bae e Landon hoje, faltou você. Então trate de acordar, Killian, por favor. – implorei, me colocando de joelhos e fechando os olhos. –Oi, peço desculpas pelo tempo que não conversei com o Senhor, acredito que saiba que meus últimos dias não foram fáceis, e apesar de tudo o que aconteceu, ainda sigo seu caminho e acredito que é meu Amigo. Sei também que irá me ajudar com tudo isso, porém antes de pensar no futuro distante, quero me manter no futuro de agora. Faça com que Killian acorde. Sei que ele está vivo, sinto a respiração dele, assim como seu coração batendo, mas já ouvi histórias de pessoas que ficaram nesse estado durante meses, até que nunca mais tiveram a chance de abrir os olhos. Jones não pode morrer. Eu prometi que iria cuidar dele enquanto estivesse por perto. Acredito que possa me ajudar, o Senhor conhece meu coração e... Eu não sei quando isso aconteceu, e nem se conseguiria evitar se caso soubesse, mas eu o amo. Sei que ele esconde coisas, assim como seu passado não deve ser dos mais agradáveis, como sei também do que ele é capaz. Vi com meus próprios olhos. Contudo comigo ele sempre foi bom, temos nossos desentendimentos, é claro, todo mundo tem... Mas sei que por trás de tudo isso existe um homem bom e eu o amo e não posso perdê-lo. Sei que nunca será recíproco e mesmo que fosse eu não poderia escolhê-lo, pois somos de mundos diferentes. – ri, enxugando meu rosto. – Tudo o que eu quero fazer é abraçá-lo o tempo todo, e ficar com ele. Não tentarei lutar contra o que estou sentindo, entretanto irei me proteger da melhor maneira que conseguir. Estou lhe pedindo que salve o homem que amo. E isso será nosso segredo. – abri os olhos, olhando para o teto. – Apenas nós dois iremos saber que assumi estar apaixonada por Killian. Por favor, me de um sinal de que pode me ajudar, sim? Obrigada por me ouvir. Amém. – sussurrei fazendo o sinal da cruz e voltando a ficar de pé.
Ajeitei a coberta de Jones e voltei a me sentar na poltrona, esperando que o sono surgisse para que voltasse até meu quarto.
Fitei o rosto dele por alguns segundos, indecisa, então dei de ombros indo, deitar-me ao seu lado. O descobri um pouco, olhando para o cotoco de seu braço, o qual ele sentia tanta vergonha e incomodado, o trazendo para perto de mim. Toquei a pele enrugada, ainda com as marcas de queimaduras e alguns lugares meio escurecidos.
–Eu de verdade não me importo com isso, Jones. – murmurei, olhando para seu rosto.
Aproximei-me mais, o abraçando e usando seu braço como travesseiro, encostando o nariz em seu peito, depositando um beijo ali. Fechei os olhos, acompanhando sua respiração, minha mão deslizando por sua barriga.
Meu interior começou a se remexer e meu coração a ficar inquieto. Os pulos em meu estômago surgiram e a lembrança de Killian nu voltou a minha mente.
Soltei-me dele, voltando a cobri-lo e sai da cama, indo pegar a vela.
–Boa noite Killian, que seus sonhos sejam melhores que o meu. – dei um beijo em sua testa e me esquivei para fora, passando reto por meu quarto e descendo para a biblioteca.
Procurei os papeis e carvão que eu sabia que Belle deixava ali. Quantas vezes não havíamos ficado jogadas no chão, desenhando coisas sem sentindo após nossas aulas?
Assim que encontrei o que buscava, voltei para meu quarto, apertando as folhas contra meu corpo como se estivesse fazendo alguma coisa errada.
Encontrei uma xícara de chá em meu criado mudo e a bebi antes de me enfiar na cama, começando a rabiscar traços que eu não dominava, querendo arrancar todas as imagens que estavam me tirando o sono da cabeça.
Em algum momento consegui.
Abri os olhos encontrando as criadas arrumando o quarto, em silêncio. Uma bandeja de café da manhã estava esperando na penteadeira.
–Que horas são? — indaguei me sentando e espreguiçando, soltando o gritinho de sempre que fizeram as criadas rirem.
–Passa um pouco das nove, senhorita. Seus criados pediram para avisar que iam até a vila, mas que estarão de volta na hora do almoço. Achávamos que iria preferir tomar café na cama já que está sozinha. — uma dela me trouxe a bandeja cheia de frutas e pães.
–Obrigada. — peguei o copo de suco, bebericando, minha garganta agradecendo por ser molhada.
–Seu amigo continua dormindo. — a mais velha da criada informou enquanto escolhia um vestido e o mostrava para mim aguardando minha aprovação. Assenti para ela, vendo-a colocá-lo de lado para escolher um espartilho e corpete que combinasse com o rosa perolado.
Terminei de comer e fui lavar meu rosto, tirando a camisola, começando a ser arrumada pacientemente pelas mulheres.
–Ontem eu separei alguns livros na mesa da biblioteca, poderiam pegá-los para mim e levá-los ao quarto do senhor Jones? — questionei pegando meus desenhos e o carvão. — Ficarei por lá até o horário do almoço.
–Claro senhorita. Mais alguma coisa?
–Não, apenas isso. Se precisar toco a campainha.
As observei fazendo uma mesura e sai, seguindo distraída até estar dentro do quarto de Jones.
A primeira coisa que fiz foi abrir as cortinas e uma das janelas. Como eu esperava que ele acordasse se seu quarto ficava inundado em escuridão e sem nenhum sopro de vida vindo do lado de fora? Killian estava acostumado com o vento lhe tocando o rosto, adrenalina. Isso o fazia sentir alguma coisa depois que perdeu Milah. Se ele era mesmo uma alma desesperada como Hel falara, era de se esperar que ficasse no mar para se sentir vivo.
Dei um pouco de chá que estava ali, tomando cuidado para não matá-lo engasgado. A criada bateu, e deixou os livros sobre a mesa, junto com uma jarra de água.
Afaguei seu rosto e me sentei à mesa, perto da janela, começando a ler o primeiro livro da pilha, deixando os desenhos perto, parando a leitura por longos minutos para adicionar alguns detalhes, ou começar um novo. Em outra folha eu anotava as partes que eu não podia esquecer. Não que tivessem muitas, o começo do livro era mais sobre a criação do mundo segundo os nórdicos.
Eu queria pular direto para as partes que falava dos deuses e as divindades que descendiam deles, ao mesmo tempo em que não conseguia.
–Olá...- a voz rouca, fraca e falha chegou aos meus ouvidos. Levantei a cabeça surpresa pensando se não seria minha imaginação. Olhei para Killian que sorria mesmo parecendo que esse gesto lhe cansasse. -... Fada. — completou tossindo, franzindo a testa de dor.
Pulei da cadeira indo para a cama, me inclinando sobre ele, sentindo que poderia chorar de emoção e alívio ao ver seus olhos azuis me fitando. Quase o abracei naquele momento, mas tive o bom senso de me conter.
–Killian! Graças a Deus, eu estava tão preocupada com você. — toquei seu rosto vendo-o fechar os olhos. — Como está se sentindo?
Ele fez força para tentar se sentar e eu o auxiliei, passando meus braços ao seu redor, segurando minhas mãos na base de suas costas, me apoiando na cama para erguê-lo. Killian encostou o nariz em meu pescoço, fazendo minha pele arrepiar e o ar sair de meus pulmões com mais lentidão, na tentativa de não deixar transparecer que eu estava sendo afetada por sentir apenas sua respiração quente me tocando.
–Obrigada, fada. — sussurrou quando o ajeitei na cama. — Gostei disso... Fada. Desculpe-me se é a única fala que me lembro de Tristão e Isolda.
–Terá tempo para lê-lo mais vezes para guardar outras falas além de "Olá... Fada". – sorri para ele por ter citado meu livro preferido.
E de qualquer forma, toda a história começou por causa daquele “Olá... Fada”.
–Por que está corando?
–Não estou corando! – toquei minhas bochechas, as sentindo quentes.
“Você quer saber por que estou corando? Eu o vi nu. Isso mesmo. O vi como veio ao mundo e não consigo tirá-lo da cabeça. Agora eu olho para você e... Ideias estranhas me invadem a mente e não consigo controlar meu próprio corpo!” Pensei irritada comigo.
–Emma... Eu não fiz nada para lhe ofender enquanto estava...?
–O que?! Não, não. Você passou o tempo todo desacordado, Jones. – “mas eu talvez tenha feito...” – Não é nada disso. Devo estar corada por estar feliz em vê-lo desperto.
–Se está tão feliz assim, venha se sentar perto de mim. – indicou a beirada da cama.
Fiz o que pediu, observando Jones estudar o quarto com curiosidade.
–Como você está? — perguntou me escrutinando atentamente.
–Melhor do que você, garanto. Não sou eu que estou cheia de ferimentos. Veja. — mostrei o risco da cicatriz em minha bochecha. — E tenho outras espalhadas pelo corpo todo. Isso aconteceu depois que teve aquela explosão quando estávamos no último desafio.
–Chegue mais perto que não estou enxergando.
–Como não? Esse risco é enorme! Aposto que não deve me achar atraente agora. — brinquei.
Killian riu, divertido.
–Venha aqui Emma.
Meio desconfiada aproximei o rosto do dele.
–Realmente. Você está horrorosa com essa mancha branca tomando metade do seu rosto. Repulsivo. — falou sério e com uma pontada de desprezo. Olhei para seu rosto, sem conseguir pronunciar nada. — Estou brincando, Swan. Irá precisar de mais do que um risco em seu rosto para que eu não te ache atraente. -Killian tocou a cicatriz com os lábios. — Lhe garanto que adoraria ver as outras cicatrizes. — murmurou fazendo com que eu prendesse a respiração, me repreendendo mentalmente pelos pensamentos. — Você está agindo de forma estranha, Emma.
Sorri acanhando para ele, voltando a me endireitar.
–O que diabos esta vestindo?
Ri, aliviada por termos mudado de assunto e mal acreditando que de todas as perguntas que ele poderia fazer, minha roupa o estava incomodando.
–Minhas roupas. É assim que me visto quando não estou brincando de pirata.
–Por que seu cabelo está preso dessa forma? Parece que está sentindo dor.
Toquei o penteado do dia.
–Está preso assim porque é como as damas os usam na sociedade e não é bem visto uma mulher ficar de cabelos soltos na frente de senhores que não seja seu marido. – expliquei.
–Eu o prefiro solto... E suas roupas de pirata. Mas também acho que está linda assim.
Fiquei lisonjeada de ouvir seu elogio.
–Onde estamos? – perguntou finalmente.
–Interior da França. Na casa de minha amiga Belle...
–Quanto tempo eu estou desacordado?- indagou indicando a jarra de água na mesa. Apressei-me a encher um copo para ele, ajudando-o a beber.
–Uns dois ou três dias. Não tenho certeza. — meditei. — Acredito que sejam dois, já que acordou agora.
–O que aconteceu?
–Você perdeu.
Jones aquiesceu.
–Como foi à conversa? O que você perguntou? — quis saber.
Peguei em sua mão, sem olhá-lo, percebendo pela primeira vez que ele estava sem seus anéis. Comecei a desenhar as linhas de sua palma com a ponta de meu dedo.
–Não foi. Eu o escolhi. — contei. — Se eu fosse conversar com a cabeça de Mimir eu teria que deixá-lo lá.
–Emma…
–Eu não podia deixá-lo para trás, Jones. — o encarei. — Você queria não eu. Claro, seria ótimo terminar com isso logo e voltar para minha casa. Acabar com pelo uma entre milhares de perguntas que rondam minha mente, mas eu não iria consegui-la a custa de sua vida.
Killian desviou o olhar para fora, sem dizer nada. Cravei meus olhos na barra de meu vestido, sem saber se o deixava sozinho ou continuava ali.
–Eu preferia que não tivesse feito isso. – falou por fim, ainda sem me encarar, sua voz carregada de reprovação.
–Está bravo comigo por tê-lo escolhido ao invés de deixá-lo para morrer? Depois desse tempo todo era de se esperar que me conhecesse! — me levantei da cama indo para a mesa e juntando minhas coisas.
–Não estou bravo, Swan. Apenas não acho que valho tudo isso.
–Fique quieto! — ordenei irritada, me virando para ele. — Se for para dizer coisas desse tipo prefiro seu silêncio. Irei pedir para alguém vir atender suas necessidades.
–Emma… — me chamou. Parei a caminho da porta, sem fitá-lo. O ouvi suspirar. — Por favor, fique aqui mais um pouco. Quero saber mais coisas. Como saímos de lá? Como chegamos tão rápido aqui? Por que estamos aqui e não no Jolly Roger?
Hesitei por um momento, achando que deixá-lo curioso por mais um tempo não seria tão ruim assim, entretanto sabia que não conseguiria.
–Hel. — respondi me sentando na cadeira. — Hel nos tirou lá. Eu a conheci, assim como seu reino. Conversamos um pouco, e por incrível que pareça ela é legal. Pelo menos foi comigo, me contou coisas e meio que explicou outras… Que me deixaram com mais dúvidas.
Jones sorriu.
–Ela tem um cachorro gigante, de pelos brancos que lembram neve e olhos negros brilhantes. Assim como um cavalo de três patas, que ela usa para se locomover entre os reinos e seus domínios. Conheci seus criados Decrepitude e Senilidade, eles são um pouco assustadores… Acho que é isso.
–Por que estamos aqui e não no Jolly Roger? – repetiu.
–Quanto a isso… — caminhei até a janela. — Hel disse que eu deveria procurar respostas sobre quem eu sou onde as melhores éclairs do mundo são preparadas. E todo mundo sabe que a França é esse lugar, logo pensei em Belle, que é a pessoa mais inteligente que eu conheço e apta para me ajudar. Como estávamos todos exaustos e você muito ferido, achei que seria bom ficarmos em um lugar limpo e quente. Essa é a casa de campo, ninguém irá nos achar.
–Swan… Você percebeu que está evitando me responder sobre o Jolly Roger? — instigou impaciente.
Respirei fundo, o olhando.
–Quando Hel nos deixou em Midgard, encontrei Landon e Bae… Eles me falaram que os homens zarparam com o navio e a informação procede. A deusa foi bondosa o suficiente para... Deixar-nos aqui. – menti, torcendo as mãos de nervosismo.
Killian voltou a ficar quieto, o olhar perdido em algum lugar, provavelmente absorvendo o que eu havia acabado de falar.
–Eles não fariam isso.
–Jones, foi o que eles fizeram. — insisti. –O navio não estava lá.
–Eu conheço meus homens, eles não teriam nos abandonado. Algo deve ter acontecido para eles terem a necessidade de zarpar.
–Killian eu sei que deve ser difícil aceitar que eles o traíram…
–Meus homens não me traíram, Swan! — gritou de repente, fazendo com que eu me encolhesse.
Assenti atordoada com sua explosão, indo para a porta.
–Aonde vai, Emma?
–Quando parar de descontar em mim sua frustração, eu volto para conversar com o senhor.
Jones relaxou o corpo, me olhando como quem pede desculpas.
–Fada…
–Até mais tarde. Mandarei criados para lhe ajudar. – avisei. – De qualquer forma, eu tenho coisas a fazer. Seja educado com os criados, eles que estão cuidando de você, dando banho e trocando curativos. Precisa de alguma coisa?
–Companhia? — sugeriu. — Vou me comportar, Swan.
Aquiesci saindo.
–Venho almoçar com você. — prometi. — Tenho a impressão de que sempre quase nos matamos quando passamos tempo demais juntos. — justifiquei antes de fechar a porta.
–Ótima desculpa, Swan, mas pense em uma melhor da próxima vez. — sua voz abafada chegou ao meus ouvidos, e eu sorri satisfeita de tê-lo de volta.
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