Traiçoeiro
30 Capítulo 30
Notas iniciais
–Olá. Veja só quem eu trouxe comigo. – cumprimentei Killian que estava sentado na cama, parecendo aborrecido enquanto observava as criadas preparando a mesa perto dele.
–Emma!- falou animado. Sua aparência já parecia melhor desde que o deixara mais cedo. — Landon e Baelfire. – constatou sem parecer contente em vê-los.
–Ah, que recepção calorosa! – Bae colocou as mãos sobre o coração. – Também estou emocionado em vê-lo bem. E obrigado por perguntar como estamos. Por conta disso passarei a tarde toda lhe fazendo companhia. Dá para acreditar como ele é um cavalheiro? – sussurrou alto para mim, em um falso tom maravilhado, puxando a cadeira para se sentar.
–Apenas não esperava vê-los agora. – Jones atalhou. – Mas é bom encontrá-lo vivo Landon. Até mesmo você Baelfire.
–Não há necessidade disso. Todo mundo sabe que você me ama... Papai. – provocou, recebendo um olhar mortífero de Killian.
Não resisti a segurar a risada que saiu de mim, enquanto dispensava as criadas e fechava a porta.
–Nós estávamos preocupados com você, filho. – Landon se sentou perto dele. – Como está se sentindo?
–Péssimo. Sinto muita dor e preciso de ajuda inclusive para pegar o urinol. – reclamou.
–Para mirar também? – Bae indagou começando a se servir. – Sabe que isso não é problema dos ferimentos, mas sim de algo chamado velhice.
Killian o encarou sério, como se pensasse em matá-lo.
–Jones não é velho, Bae. – intervi, servindo vinho para eles. – E pare de fazer insinuações grosseiras.
–Claro, mamãe. – respondeu com cinismo.
–Tem algo que possamos fazer para deixá-lo mais a vontade? – Landon quis saber, começando a comer.
–Eu quase os matei. Não deveriam estar preocupados comigo.
–Não diga bobagens, Killian. – o repreendi. – Nós podíamos ter ficado no navio e deixá-lo ir sozinho, mas nos importamos com você. – me sentei ao seu lado. – Nada de comida pesada para você. – bati em sua mão quando ia pegar a carne. – Seu corpo tem que se acostumar a voltar a se alimentar direito.
–Swan! Eu não sou uma maldita criança.
–Não discuta comigo... O que está fazendo? – retirei minha taça de vinho que ele havia pego.
–Sem vinho também? Você só pode estar brincando! Rum pelo menos?
O fitei com rosto impassível, com uma sobrancelha arqueada.
–Seus pais hoje estão meio difíceis, Bae. – Landon brincou.
Vi o sorriso surgindo no rosto de Killian e desviei o olhar, sem graça com aquilo, finalmente me servindo, achando que era melhor comer que dar ouvidos a eles.
–Problemas no paraíso. Eles têm sempre. – Baelfire entrou na brincadeira.
–Garanto que a senhora Jones sabe como se redimir. – Jones cutucou minha costela, sua voz carregada de malicia.
Derrubei a espumadeira que pegava o arroz na mesa, espalhando os grãos cozidos para todos os lados ao ouvir suas palavras e ser atacada por imagens que estava lutando para manter afastadas.
“Senhora Jones”.
–Vocês querem parar? – guinchei, erguendo as mãos. – Ou irei almoçar sozinha na sala de jantar... Não gosto desse tipo de brincadeira, já lhes disse.
–Está certa. Nem de brincadeira quero imaginar você com ele. – Bae comentou sem levantar a cabeça.
–O que quer dizer com isso, Baelfire? Acha que não sou homem para Swan?
–Eu tenho certeza disso. Apenas de olhar para vocês as diferenças são gritantes. Emma não é mulher para você, Killian. Aceite.
–Acredito que caiba a Swan decidir isso. – Jones rebateu, com um sorriso controlado no rosto.
–Eu conheço você, Killian. Diz que cabe a ela decidir, mas atua conforme o personagem, para fazê-la crer que é você que ela quer. “Ah, vou usar palavras doces e agir como se tivesse vários traumas, e então me portar como se ela estivesse me mudando”, “Oh, com essa eu deveria ser um pouco mais rígido, mas ainda assim preocupado”...
–Parem! – Landon falou com autoridade. Levantei o olhar da mesa o encarando. – Era apenas uma brincadeira, estávamos todos descontraídos. Emma foi educada ao pedir que parássemos e vocês a estão deixando mais desconfortável.
–Se você está tão incomodado comigo. – Jones ignorou Landon. – É por que tem interesse na Swan.
–Ah meu Deus. – sussurrei, segurando a cabeça com as mãos.
–Claro que não, Killian! Emma é minha amiga e é a única forma que a vejo. Nunca tentei nada, pode perguntar para ela.
–Assim como também é minha! – Killian atalhou.
Baelfire se reencostou na cadeira, cruzando os braços e sorriu largamente.
–Você não tem amigas, capitão. Você tem mulheres que seduz, usa e joga fora.
–Já chega! – gritei me colocando de pé. – Mas que droga vocês dois, será que não poderíamos ter a porcaria de um almoço, em paz como amigos? –os dois me olharam em silêncio. – Passamos por tantas coisas e estão discutindo sobre mim, como se eu fosse um maldito brinquedo que duas crianças querem ao mesmo tempo! Como se eu nem estivesse aqui. – minha voz subiu alguns decibéis. Precisei fechar os olhos por alguns segundos quando minha cabeça girou. – Ambos amaram a mesma mulher de forma diferente e se odeiam. Não deveria ser assim.
Killian e Bae abaixaram a cabeça, parecendo envergonhados.
–Peçam desculpas! — ordenei cruzando os braços.
–Me desculpe Emma. — os dois murmuraram.
Olhei estupefata para os dois “homens”.
–Não para mim. Um para o outro. Andem, peçam desculpas. — repeti, adquirindo uma carranca enquanto esperava pacientemente que eles fossem maduros para tanto.
Para minha surpresa, os três trocaram olhares e então explodiram em risadas, com os rostos ficando vermelhos. Jones ria e soltava gemidos de dor, olhando para mim.
Tentei me manter séria diante daquela cena, mas foi inefável não relaxar o corpo e deixar o sorriso vir à tona.
Voltei a me sentar, terminando de fazer o meu prato, no aguardo que eles conseguissem parar de rir, secando as lágrimas do canto dos olhos e respirando fundo para controlar a respiração.
–Esse foi um pedido de desculpas satisfatório, mãe? — Bae indagou, me fitando de forma brincalhona.
–Melhor impossível. — respondi tampando a boca que estava cheia de comida. — Não que iremos continuar com a brincadeira, mas se eu tivesse que escolher entre vocês três para me casar, com toda certeza seria o Landon.
[...]
Depois que terminamos de comer, toquei a sineta chamando a criada para tirar a mesa, quando a moça surgiu na porta, Bae se colocou de pé, começando a juntar os pratos e talheres, ajudando-a levar tudo até a cozinha, mesmo ela garantindo, com o tom de pele bem rosado, que não era necessário.
Landon desceu até a biblioteca para pegar o tabuleiro de xadrez e o baralho para distrair Killian, que devido insistência nossa, concordara em ficar pelo menos o resto do dia na cama em repouso.
“-Eu não estou inválido, Swan” atalhou irritado comigo, quando discordei sobre sua ideia não ficar mais em descanso.
Retirei-me do quarto quando Landon voltou, decidindo que os dois deveriam ter assuntos que gostariam de colocar em dia, como o Jolly Roger. O contramestre lidaria com o capitão melhor do que eu.
Sendo assim, optei por ir dar uma caminhada até o laguinho que havia não muito distante da casa, pegando um livro para me fazer companhia, porém assim que me aproximei ouvi risos baixos, intercalados com som de beijos.
Curiosa, dei mais alguns passos, comprimindo os lábios para não rir ao encontrar Bae e a criada, sentados no chão a beira do lago, conversando com palavras sussurradas.
Andei lentamente para trás, os deixando sozinhos, erguendo o vestido para poder correr, rindo sozinha.
A sombra de uma árvore teria que servir.
Estando sozinha, não demorou, para que eu avançasse na leitura e consequentemente encontrasse algo que poderia servir.
“Freyja: A senhora.
Freyja é a regente do amor e da guerra, da fertilidade, da magia e da morte. Freyja é considerada “A Senhora” e é invocada para atrair a fertilidade da terra e a prosperidade das pessoas. Filha da deusa da Terra (Nerthus) e do deus do mar (Njord), Freyja faz parte do clã mais antigo dos deuses, os Vanirs, e foi dada junto com seu irmão para os Esirs, como parte do acordo de paz entre os clãs.
Freyja possuí um colar mágico, o Brisingamen, forjado por quatro anões ferreiros com quem passou uma noite com cada uma para consegui-lo.”
Parei a leitura tocando o colar em meu pescoço, me lembrando das palavras dos anões, ao ler a mesma história que eles haviam me contado. Fiquei um tempo brincando com a pedra vermelha e fria, me lembrando da forma que ele esquentara e brilhara enquanto estávamos nos domínios de Hel.
“Freyja possuí traços guerreiros, licenciosidade amorosa, as habilidades mágicas, a morte e o renascimento (ou retorno) de seus amados [...] Diariamente cavalgava como condutora das Valquírias e recolhia metade dos guerreiros mortos.
Outras de suas manifestações são Horn “a fiandeira”, Syr “a porca” protetora dos animais domésticos e Gefn “a generosa”, mas sempre costuma aparecer como “A Senhora”, o real significado de seu nome.
Animais simbólicos: gato, falcão, porca, lince, felinos,cisnes, cuco, aves de rapina, doninha, javali e joaninha.”
E ali estava. Palavras que me saltaram a mente: Fiandeira, colar de Brisingamen, guerreiros e cisne.
Palavras que eu já ouvira antes.
Mas eu ainda sentia que não era isso. Freyja não era minha resposta, talvez uma pequena parte dela, mas não tudo.
Logo abaixo da descrição sobre Freyja, meus olhos se fixaram na palavra “cisne”.
“Sif: A deusa dourada.
Conhecida como “A deusa dourada”, Sif era uma linda mulher, famosa por sua longa cabeleira loura. Usava roupas simples, mas seu cinto de ouro e pedras preciosas, juntamente com seus cabelos dourados, indicam sua posição como ser divino. Regia a beleza, amor, a fertilidade, a vegetação e principalmente os campos de trigo.
Sif é casada com Thor, e por ser considerada a deusa da colheita, se acredita que nas noites quentes de verão , quando Sif e Thor fazem amor, raios caiem nos campos acelerando o crescimento dos grãos.
Animais simbólicos: cisne (a forma como a deusa se manifesta), lontra, corça e lebre.”
Com o coração apertado ao perceber que eu estava entrando na zona onde teria minhas respostas, li mais algumas páginas, sem avançar muito, abrindo e fechando meu colar e observando os retratos dentro dele.
–Você está com uma cara péssima. – Landon se sentou ao meu lado. – Encontrou alguma coisa?
–Talvez, mas não creio que seja a resposta que procuro. – murmurei, passando o livro aberto para ele na página sobre as deusas Freyja e Sif.
Landon leu e assobiou.
–Você acha que pode ter alguma ligação com você?... Digo, vovó lhe disse “As fiandeiras do destino”. – assenti sem olhá-lo. – E então temos o colar, que os anões juraram que é a pedra do Brisingamen...
–E a pedra é vermelha- escuro. Uma das cores de Freyja. – acrescentei. – E então temos...
–O cisne. – ele completou. – E quanto a Sif... Tirando aos cabelos louros e o cisne, não acredito que tenha ligação com ela. Mas se tiver algo que a ligue a elas, nada mal ter relação com as deusas que regem o amor.
Balancei a cabeça, tirando o livro de suas mãos.
–Como está Killian?
–Dormindo. Ele está se cansando fácil e se você dorme, não sente dor.
–Quer dar uma caminhada comigo? – o convidei, me colocando de pé. – Não quero ficar sozinha.
–Claro, Emma. –Landon ofereceu-me seu braço.
Andamos em silêncio por um tempo, até nos encontrarmos na estradinha que eu sabia que se fossemos reto, e não estivéssemos a pé, é claro, nos levaria até a vila.
–Posso lhe perguntar uma coisa?
–Sabe que pode Emma. – Landon respondeu, parando para me olhar.
–Quando estávamos lá... O duende disse algo sobre Killian, sobre um trabalho que o pagamento era tão bom que não precisaria pilhar pelo resto da vida. Questionei Jones sobre isso, porém ele foi vago comigo.
A postura de Landon se tornou tensa.
–O que ele lhe disse?
–Que foi algo que aconteceu no passado, que ele fez coisas que podem fazê-lo perder pessoas importantes.
–É exatamente isso que ele lhe disse. Não importa mais. É passado, Emma, viva o presente. – respondeu me dando as costas.
–Será que vocês não percebem que não existe presente? O presente é o passado, assim que terminamos de falar e o ponteiro muda os segundos.
–Então viva o futuro, Emma. – falou aborrecido, apertando o passo.
Soltei um som de frustração e corri para alcançá-lo.
–Tem algo a ver comigo, não tem? – indaguei me colocando em sua frente, respirando pesadamente, me mantendo firme quando minha visão escureceu brevemente.
–Não, Emma, não tem.
–Você está mentindo para mim! – gritei quando ele desviou, recomeçando a andar.
–Não, não estou. – rebateu, sem parar para me olhar.
Respirei fundo, detestando ter que colocar as palavras para fora.
–Por acaso vocês não tem nada a ver com o naufrágio do navio de meus pais, têm? Com a possível morte de minha mãe?
Landon parou bruscamente. Esperei que ele se virasse e me olhasse nos olhos, mas por fim ele recomeçou a andar, me deixando sozinha e sem uma resposta.
Assim que entrei em casa, joguei os sapatos sujos de lama em um canto, subindo as escadas me sentindo exausta e suja.
–Watley, preciso de um banho. – pedi, assim que passei pelo mordomo, indo para o meu quarto.
Me sentei na cama, sentindo dificuldade em respirar e tentei alcançar todos os botões com dedos trêmulos, tão logo desisti, me deixando cair no carpete, o corpo pesado demais para que fosse sustentado pelos meus ossos frágeis.
–Senhorita! – a voz da criada mais velha chegou aos meus ouvidos. Ela me virou com cuidado, desabotoando e soltando o espartilho, fazendo com que eu me sentisse menos sufocada. – Não deveria ficar andando ao ar livre quando sabe que está doente. Vá até a vila chamar um médico. – ordenou para alguém.
–Não... Não é necessário. – minha língua se enrolou.
–Sim. É necessário... Me ajudem a colocá-la na banheira.
Não fiz objeções, sendo erguida do chão e enfiada na água.
Eu me sentia alheia a tudo.
Poderiam eles, serem os culpados?
Pela falta de resposta da parte de Landon eu poderia levar como um “sim”.
Então por que eles não me contaram antes?
–Aconselho repouso... – ouvi a voz grave de alguém e me dei conta que já estava na cama, usando minha camisola. – Se houver uma recaída me chame o mais rápido possível. Nada de caminhadas ao ar livre. Nada de friagem. Fique dentro de casa. – o homem olhou para os meus olhos, como que para ver se eu estava entendendo. – De preferência na cama, assim que chegar na vila passarei no boticário pedindo para que ele prepare os elixires e mandarei entregar aqui. Sua criada tem as dosagens e horários em que deve tomar. Estamos entendidos?
–Oui.
–Passar bem, mademoiselle.
Assim que fiquei sozinha, peguei meus desenhos e fui para o quarto de Killian. Entrei sem bater o encontrando de pé, olhando pela janela.
–Vocês têm alguma coisa a ver com o naufrágio do navio de meus pais?
Jones se voltou para mim, o olhar preocupado, me estudando.
–Me falaram que você teve uma passou mal... Um médico veio lhe ver... – falou se apoiando na cadeira.
–Me responda!
–O que? Do que você está falando, Emma? – instigou confuso. – Não, não temos nada a ver com o naufrágio do navio de seus pais, fada. Como você está Swan?
Fitei seus olhos, por mais tempo que seria necessário. Ele parecia estar dizendo a verdade.
–Bem. – respondi indo me sentar à mesa. – Vá se deitar. – indiquei a cama.
Killian soltou um som de desagrado, mas fez o que eu pedi, se escorando nos móveis até se ajeitar no colchão.
–O que está fazendo?
–Alguns rabiscos, nada de mais.
–Posso vê-los?
Olhei para Jones.
–Não porque eles estão uma droga. Só os trouxe aqui porque achei que estaria dormindo. Sou péssima desenhista e você sabe. Já me disse um milhão de vezes.
Killian sorriu.
–Você não é tão ruim assim. Venha cá. – ele abriu espaço na cama. – Deixe-me ver o que está desenhando. – permaneci sentada, voltando a rabiscar o papel. – Emma eu não matei sua mãe. Tenho como provar que nem na mesma rota estava quando ocorreu o naufrágio pela época que você me contou. Estávamos na América do Sul, Swan. Tenho registros no Jolly Roger, você sabe que anoto tudo. Da onde você tirou essa ideia, afinal?
–Não importa.
–Importa para mim. – retrucou. – Importa para mim, pois estou vendo como esse pensamento a perturbou.
Levantei-me, juntando meus desenhos e me sentei ao seu lado.
–Não estão bons.
Killian começou a folheá-los com atenção.
–Você está tentando tirar essas imagens da sua cabeça? – perguntou com dificuldade. – Está tendo pesadelos?
–Se eu estou muito exausta, eles não me invadem, mas se o sono é leve, sim.
Jones soltou os papeis, olhando para a janela.
–Falei que não estavam bons. – estiquei a mão para recolhê-los.
Killian segurou-a, engolindo a bile.
–Se você aprofundar mais os traços. – ele pegou o pedaço de carvão, me mostrando. – E sombrear...
Olhei para seu rosto, encontrando seus olhos tristes, cravados em mim.
–Me desculpe por tê-la sujeitado a isso. – sua voz estava carregada de sinceridade.
Levei meus lábios até os seus, segurando seu rosto com cuidado e fui recebida com avidez por sua boca, sentido sua língua fazer cócegas em meu lábio inferior, antes de tocar a minha. Sua mão foi parar em meu pescoço, seu polegar acariciando meu maxilar, como se tentasse me segurar por mais tempo ali.
Meu coração parecia dançar de tão leve que se tornou, como se não aguentasse mais de saudade de sentir Killian dessa forma.
O beijo foi terminando aos poucos, ambos hesitando em acabar. Ficamos tocando os lábios um do outro, com pequenos beijos castos para o que estávamos acostumados nos últimos tempos, até que por fim, consegui quebrar o encanto.
–Eu não terminei de beijá-la. — reclamou.
–Mas eu sim. — toquei seu nariz com o meu, saindo da cama. — O médico me indicou repouso e alguns elixires para que eu beba... Nada de friagem. — contei.
–Vou me certificar que descanse.
–Como vai fazer isso se está pior do que eu?
Jones pensou por uns instantes.
–Você poderia tornar isso mais fácil vindo fazer repouso em minha cama... Comigo. Prometo ficar vestido.
Tentei não expressar nada, enquanto encarava a cama e pensava que de alguma maneira ele havia descoberto que o vira nu.
Ou devia ser coisa da minha cabeça culpada, já que Killian sempre soltava coisas do gênero.
Por fim ri.
–Boa tentativa, Jones.
–Estou falando sério... Eu não mordo Swan... – sua expressão se tornou maliciosa.
–Ah não ser é claro, que eu peça. — concluí. — Engraçado que eu me lembro de que não havia pedido e mesmo assim você me mordeu uma vez.
Jones deu de ombros.
–Se eu estava lhe beijando, isso quer dizer que pediu para que eu lhe mordesse... E então? O que vai ser?
–Vai ser você aí e eu lá na minha cama.
–Qual é Swan! Vai negar isso a um inválido?
–Você não está inválido, Killian. Não foi isso que me disse mais cedo?
–Tudo bem... Só fique mais um pouco comigo. Você entra e sai desse quarto muito rápido. E eu te juro se acordar ou passar mais tempo aqui sozinho, vou enlouquecer.
Concordei indo me sentar na beirada da cama. Era bom ouvir que ele não queria ficar sozinho, se fosse antes, não demoraria dois segundos para que me mandasse deixá-lo em paz.
–Sobre a brincadeira do almoço...
–Está tudo bem Killian.
–Quero saber por que lhe incomoda tanto quando a chamam de minha senhora? É tão repulsiva assim a ideia?
–Não, Killian. É só que... Acho uma brincadeira que pode ser interpretada de forma errada se alguém de fora escutar.
"E porque machuca, ser chamada de sua senhora, quando eu sei que nunca serei, sendo que eu descobri que gostaria de ser".
–Fora que eu acredito que seja melhor explicar para os de fora que pensam que somos um casal, que não somos. Você é um homem incrível, mas...
–Já entendi Swan. Mas se não somos um casal, o que somos?
–O que?- guinchei, me virando para ele. -Somos amigos, Killian.
–Amigos que se beijam... Interessante. – fez uma cara meditativa.
–Se é por isso não lhe beijo mais. Nós não somos um casal.
–Talvez... Amantes. — continuou.
–Argh. — levantei, caindo sentada logo em seguida pelo puxão na camisola.
–Eu gosto de amantes. — sussurrou em meu ouvido, mordiscando minha orelha.
–Eu não sou sua amante. — grunhi, tentando sair da cama quando Killian de algum modo conseguiu fazer com que eu deitasse.
–Então eu sou seu. — seu rosto surgiu bem rente ao meu. — Eu não me importo com o título de amante de qualquer forma. – declarou me beijando de leve. — Viu? Não foi tão difícil se deitar comigo. — passou o braço direito por baixo da minha cabeça, me puxando para mais perto dele. — E estamos vestidos.
–Killian...
–Apenas relaxe, fada. Não é como se fôssemos fazer algo "pecaminoso". E outra essa não é minha cama, então não tem problema nenhum você se deitar nela.
–Sim, mas estou em seus braços. Esse é o problema.
–Não vejo motivos porque seria. — ele apoiou o queixo em minha cabeça.
Fiquei por um momento, parada apreciando o calor cálido de seu corpo passando para o meu. Em como eu estava começando a me sentir menos tensa, ao me ajeitar minimamente para ficar mais confortável.
Devia ser bom dormir assim.
–É bom, não é? Sentir o calor de outro corpo tão perto? — murmurou.
Sim, era. Principalmente por ser o dele.
–Eu não posso. — rolei saindo de seus braços e caindo no chão. — Desculpe-me, mas não consigo. Não estou dizendo que não é bom, porque é… — comecei, evitando olhar o rosto divertido de Jones. — Eu apenas… Aaaaah.
–Eu espero Swan. Como tudo com você, é só uma questão de tempo e conseguir ganhar mais sua confiança.
–Você é horrível, Capitão Gancho. Tentando desvirtuar uma dama. Onde estão seus bons modos?
–Capitão Gancho, é? — indagou segurando o riso.
–Sim… Causa medo, não acha?
–Não sei… — pensou por uns instantes. — Causa medo em você?
Neguei com a cabeça.
–Eu sei que você é inofensivo… Ah não. — lamentei vendo o lençol manchado de sangue. — Qual dos curativos abriu?
Killian olhou para o próprio corpo.
–Não faço ideia.
–Fique quieto. — ordenei indo verificar os ferimentos. — Você também não fica sossegado, como espera melhorar desse jeito? Não é para fazer esforços, Jones.
–Emma vai começar a me repreender agora? Não teria que fazer esforço se você de boa vontade viesse se deitar comigo.
–Killian, não torne as coisas mais complicadas do que já são. Eu adoraria deitar com você, mesmo, mas se eu fizer isso...
–Pare de ficar arranjando desculpas, Swan. – Jones riu frustrado. – Se você quer se deitar comigo, venha. Não hesite, não pense demais.
–Irei chamar uma criada para vir trocar a atadura.
–Mais criados não, Emma. — resmungou.
Toquei a sineta e dei um beijo em sua testa.
–Assim que a criada entrar, eu irei sair e só venho o ver amanhã, tudo bem? Tenho ordens médicas para manter repouso e a chefe das criadas me conhece desde criança, então ela ainda se acha no direito de me dar broncas e é isso que vai acontecer quando…
Ouvimos a batida e a porta sendo aberta.
–Mademoiselle Swan! Acho que o médico foi bem claro quanto o repouso… Ande, vá para seu quarto para que eu possa cuidar do rapaz.
–Não falei? Ela se acha no direito de me dar ordens! – exclamei horrorizada para Killian. — Bonsoir monsieur Jones.
–Boa noite, senhora Jones… Desculpe- me, erro meu. Quis dizer Swan. — ouvi se corrigindo para a criada. — Ela não gosta que os outros descubram que nos casamos escondidos. — sussurrou alto, como se fosse um segredo. – Por sinal, a senhora não acha que minha esposa teria que permanecer comigo?
Peguei uma almofada que estava sobre a cadeira e taquei em sua direção.
–Fora! — a velha gritou apontando para a porta.
Não resisti não mostrar a língua para Jones que ria, enquanto fechava a porta.
[...]
Eu sentia o corpo todo doendo de tanto ficar deitada, embora tenha permanecido parada na mesma posição sem coragem de abrir os olhos.
O que raios eram aqueles elixires que me derrubaram daquele modo?
Dedos suaves acariciavam meus cabelos e eu sabia que se eu acordasse eles parariam o afago.
–Belle? – murmurei. – Belle! – olhei para minha amiga que estava deitada ao meu lado. Ela sorriu para mim, me puxando para um abraço.
–Emma, mademoiselle, Emma! Como é bom lhe ver minha amiga, eu achei que nunca mais iria encontrá-la. O que está fazendo aqui? Quem são esses homens com você? Por acaso está doente?
Sentei-me na cama, reencostando contra a cabeceira.
–Faz tempo que chegou?
–Durante a noite, agora já deve estar quase amanhecendo. Assim que li sua carta, parti imediatamente de Paris, dizendo aos meus pais que estava me sentindo adoentada por causa do ar poluído. Eles nem questionaram. – ela riu, e seu riso me confortou de uma forma inexplicável. – Agora sua vez.
E eu desandei a falar. Contei desde a carta, como entrei disfarçada no navio e então fui descoberta. Os treinamentos, minha amizade com Jones, a Ilha dos Mouros e sobre Vovó Libélula, até por fim chegar em, tudo que aconteceu na Ilha de Hel.
–Piratas? Você se enfiou em um navio pirata? E o melhor os trouxe para minha casa? – indagou incrédula.
–De tudo que lhe contei você se prendeu a isso?
–Não, mas estou indo por partes. Essa carta tem certeza que era de sua mãe?
–A letra era dela. – dei de ombros.
–Assim como alguém pode ter falsificado, mon Ami. – falou suavemente. – Eu mesma sou ótima em imitar letras.
–Eu sei, mas pensei nisso tarde demais. Acontece que quando eu recebi estava tudo tão recente e eu...
–Se agarrou a esperança. – completou. – Eu entendo. Agora me explique sobre os piratas... Eles a machucaram?
–Não. Não de jeito nenhum, por incrível que pareça eles são ótimos. Gosto muito de todos, principalmente de Bae, Landon e Killian... Esse último mais do que seria saudável. – murmurei, apertando o lençol com as mãos. – Irei apresentá-los e lhe garanto que verá que são pessoas maravilhosas, apesar dos modos e palavras meio grosseiras.
–Sobre essa parte de Hel... Ela disse que eu poderia lhe ajudar?
–Sim. Preciso que me ajude a achar todos os deuses e divindades nórdicas relacionadas a cisnes. Todos dizem que eu sou um cisne, então ela me deu isso. – pulei da cama indo para o guarda roupa e pegando a capa. – São penas. De verdade.
Belle também se levantou e foi até mim, apertando-a nas mãos, parecendo descrente.
–Emma Swan, como você se atreveu a entrar em uma aventura digna das que inventávamos quando crianças, sem mim? – me fitou com seus olhos que sempre pareciam estar com ar de sonhadores.
–Não foi intencional... Mas pode ir comigo quando for à hora de ir embora. Falando nisso, precisaremos ficar provavelmente um mês ou mais aqui. Killian está se recuperando e meio que perdemos o navio. – fiz uma pequena careta, que fez Belle rir.
–Bem tudo isso é loucura e nossa... Você, um ser místico e vivendo como uma pirata... Nunca imaginaria. – riu descrente. – Estou com você, ami, sempre que precisar. Irei lhe ajudar com o maior prazer.
–Merci. – a puxei para abraçá-la mais uma vez.
–De rien, mademoiselle. Agora me diz quem é todos que dizem que você é um cisne?
–Bem... Até agora apenas Hel e Branca.
–Quem é Branca?
–A mulher dos meus sonhos?- contei envergonhada.
Ela me lançou um olhar como se eu estivesse louca, mas por fim deu de ombros, guardando a capa.
–Bem... Irei ajudá-la a se vestir e então desceremos para a biblioteca.
Assim que pisamos na biblioteca, fui atingida pelo calor da lareira já acesa e janelas fechadas.
Claro, nada de friagem.
Não demorou muito para Belle ir procurar mais livros sobre mitologia em suas estantes, e conseguir montar uma pilha enorme na mesa.
–Me conte sobre esse monsieur Jones. – pediu ao começar folhear o livro.
–Não há nada para contar... Ele é o capitão do navio, tem seus problemas e provavelmente muitos fantasmas, mas estou o ajudando com isso. Killian já melhorou muito desde que nos tornamos amigos.
Belle parou a leitura.
–E como exatamente você o está ajudando? – indagou desconfiada.
–Ele tem pesadelos sobre a noite em que perdeu sua senhora, costumo cuidar seu sono, converso com ele até que se sinta pronto para dormir...
–O que mais?
–Trocamos alguns beijos, de vez em quando. – murmurei, fazendo uma careta ao sentir meu rosto esquentando.
Belle começou a estapear meu braço.
–Emma Swan! Você está noiva, não pode ficar aos beijos com um pirata! – me repreendeu realmente irritada.
Olhei-a como se estivesse perdendo a cabeça, retirando meu braço de seus ataques.
–Que ótimo que tocou nesse assunto. Que história é essa de que estou noiva? Não me lembro de ter dito “sim” para ninguém.
Ela arqueou uma sobrancelha.
–Não?
Balancei a cabeça em uma negativa, começando a sentir calor, considerando a possibilidade de abrir a janela.
–Bem... Então acredito que Graham tenha se equivocado. Ele tem se apresentando como seu noivo, parece que sua criada Ella a viu com uma muda de roupas dele e ela contou, muito desolada por sinal, que você havia admitido estar apaixonada pelo senhor Humbert. E assim você se tornou noiva.
–Que ótimo.
–Mas me fale mais sobre esse capitão.
Sorri, voltando a me concentrar no livro.
–Emma Swan está apaixonada por um pirata!
Revirei os olhos.
–Vou levar isso como um “sim”. Não é por nada, contudo isso esta parecendo um romance bem ruim.– falou em um tom de voz de quem sabe das coisas. – Oh, olhe isso! – exclamou limpando a garganta. – “Swan Maidens: Donzelas- cisnes
O cisne é um símbolo universal que aparece em vários mitos e simbolizam o casamento entre mortais e divindades. As lendas nórdicas as descrevem como seres aéreos, metade sobrenaturais, metade humanos, que tem a capacidade de se manifestar hora como lindas mulheres, ora como cisnes. A metamorfose depende da posse de uma roupagem de penas de cisne, de um par de asas, de uma coroa, uma corrente ou anel de ouro. Esses seres sofrem os efeitos de encantamentos, quando tiram o manto de penas ou os outros itens mágicos, se transformam em lindas donzelas. Se algum homem lhes roubam o manto...” Belle ergueu os olhos para mim, comprimindo os lábios para esconder o sorriso. “... elas concordam em se casar com eles, desde que façam um juramento. Se a promessa não é cumprida, elas recuperam o manto e vão embora para sempre.
Em outras lendas, contam que as mulheres tinham seus mantos roubados por homens quando iam se banhar nos lagos, e assim os seguiam docilmente até suas residências para que morassem juntos, sem nunca deixar de procurar por suas penas, mesmo que fossem felizes e tivessem filhos, quando encontrava o manto, elas imediatamente os jogavam sobre os ombros e voavam para longe, sem nunca mais voltar.”
Tomei o livro das mãos de Belle, relendo tudo que ela acabara de falar e admirando a gravura no canto da pagina.
–Parece familiar? Um manto de penas? Mas claro que essa é apenas uma possibilidade, Emma. Existem vários seres divinos que tem relação com cisne na mitologia nórdica. Iremos continuar procurando até encontrarmos algo que você ache que se encaixa.
Assenti para Belle, largando o livro sobre a mesa.
–Eu estou com fome. Será que o café da manhã já está pronto?
Ela saltou da cadeira, me dando um abraço apertado como que para me confortar.
–Vamos ver. E assim já me apresenta seus amigos. Mal posso acreditar que irei conhecer piratas de verdade! – Belle saltitou em direção a porta.
“Já lhe contaram a história da princesa donzela- cisne?” a voz de Branca surgiu em minha mente.
Mas a história que ela me contara não batia com a descrição no livro, segundo Branca a princesa havia sido um presente das donzelas- cisnes por todas as dificuldades que o rei e a rainha passaram. Pelo o que entendi, era passado de mãe para filha...
Balancei a cabeça me colocando de pé e indo para sala de jantar.
Certamente aquela história que Branca contou não teria nada a ver comigo, apesar de citar as donzelas- cisnes.
De qualquer forma, era melhor mesmo deixar minha capa longe dos olhos de Killian...
Apenas por precaução.
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