Elyssa ainda estava sentindo-se péssima quando foi para a aula no dia seguinte. A imagem de Leandro com a outra garota ainda estava em sua memória.

Parou por um momento de pensar nisso quando encontrou Flávia e Allan que pareciam estar discutindo em frente ao colégio.

— Me desculpa — Elyssa ouviu Allan implorando para Flávia.

— Você foi longe demais Allan. — disse Flávia irritada — agora vai embora, não quero que me procure, pelo menos por hoje.

— Tudo bem — disse Allan desistindo da conversa e saindo em seguida.

Elyssa se aproximou de Flávia que parecia estar muito irritada.

— O que aconteceu? — Peguntou.

— Nada. — Respondeu Flávia nervosa.

— Me conte o que aconteceu — insistiu Elyssa.

— Lembra daquela história que eu te contei sobre os garotos que foram até a casa do Allan? — começou Flávia.

— Sim. — disse Elyssa esperando que a amiga continuasse.

— Então, eu fiquei curiosa em saber o que estava acontecendo e comecei a investigar mais sobre a vida do Allan. Ontem a noite enquanto ele dormia eu peguei o celular dele e comecei a procurar alguma coisa, uma pista, sei lá. Olhei as últimas mensagens recebidas e todas eram de um tal de "De Menor", era esse o nome que assinava as mensagens. Liguei para o número para tentar descobrir alguma coisa.

— E aí o que aconteceu? Descobriu alguma coisa? — Perguntou Elyssa.

— A voz que atendeu disse "E aí Allan, conseguiu a parada que eu te pedi? Espero que sim, porque se não você sabe o que vai acontecer." Aí eu falei que não era o Allan e ele percebeu quem eu era e disse "Avise o seu namoradinho que ele tem até amanhã para me entregar tudo o que eu pedi". Eu tentei insistir no assunto para saber mais, mas ele desligou. Acordei o Allan e perguntei o que estava acontecendo e ele me contou.

— O que era? — Perguntou Elyssa curiosa.

— Ele faz parte de uma gangue de assaltantes. Eles roubam normalmente de pessoas que eles consideram ricas demais. Há alguns dias eles assaltaram a casa de alguém que o Allan conhecia e desde então ele decidiu sair dessa vida. Ele devolveu o que tinha pego da casa da pessoa, o tal líder descobriu que foi ele e por isso foram até a casa dele aquele dia. Agora ele não pode sair da gangue, porque estão ameaçando-o.

— Nossa, não acredito nisso — Disse Elyssa surpresa com o que acabara de ouvir.

-Eu também não acreditei, mas aí o Allan me mostrou todas as coisas que ele já roubou e que estavam escondidas no quarto dele. Haviam celulares, bonés, camisas de marca famosa, tênis e outras coisas de pouco e de muito valor. Eu saí da casa dele sem esperar para ouvir mais nada. Por isso ele veio aqui hoje pedir desculpas. Mas isso é demais para mim. Não sei se posso aceitar.

— Eu entendo. Nossa que complicado. Você gosta dele, não gosta?

— Sim, muito. Não sei o que fazer .Ele disse que está mudando, que não vai mais fazer isso, acho que eu devo acreditar. Vou dar essa chance a ele.

— Não, você não pode. — Protestou Elyssa.

— Por que não? — questionou Flávia.

— Você sabe porque. Você acredita mesmo em tudo o que ele te falou? Talvez ele nunca tenha pensado em sair dessa vida. Você vai estragar a sua vida se continuar com ele. Você tem que esquecê-lo Flávia, ele só vai te complicar.

— Não. — Disse Flávia. — Eu não vou fazer isso, eu gosto dele. Você sabe o que é gostar de alguém assim? Não, é claro que você não sabe. Por isso ainda está sozinha, por isso o Leandro não te quis mais. Você está sempre querendo controlar a vida das pessoas mas a sua vida não importa, não é? Você sempre diz o que todo mundo tem que fazer mas quando é para você fazer alguma coisa você não faz.

— Cale a sua boca. — Falou Elyssa levantando a mão e acertando o rosto da amiga com um tapa que deixou marcas vermelhas de seus dedos.

— Nunca mais fale comigo. — Disse Flávia entre os dentes, saindo em seguida.

Elyssa começou a chorar e não entrou para a primeira aula. Saiu pelas ruas andando sem rumo. Não sabia o que fazer. A amiga tinha razão. Ela fazia isso. Tentava controlar a vida de todos mas não sabia o que fazer com a vida dela. Isso era horrível.

Não viu a amiga durante o decorrer daquele dia. Não a procurou e não esperava que Flávia fizesse isso.

Alguns dias passaram e elas não voltaram a se falar. Elyssa ouviu alguns comentários de que Allan tivesse sido preso, mas ao tentar procurar a amiga para confirmar os boatos, ficou sabendo que ela havia saído da casa da mãe.

Elyssa sentia falta da amiga o tempo todo. Costumava olhar as fotos antigas que tinha em casa e lembrar da infância que passaram juntas. Aquilo era demais para ela, precisava procurar a amiga. Desistiu da ideia quando Leonardo e Rodrigo disseram que não valia a pena.

Com a ausência de Flávia, Elyssa se aproximou ainda mais de Leonardo. Ele estava sempre ao seu lado e nunca a decepcionava. Mesmo quando Elyssa estava nervosa e brigava com ele sem motivos, Leo continuava fiel a amiga.

— Você devia parar de se preocupar tanto com ela. Com certeza ela está bem e não está nem se preocupando com o que você pensa. — disse Leonardo a Elyssa quando estavam a caminho da locadora em uma tarde qualquer.

— É você tem razão. Eu vou parar de pensar nisso.

— Ótimo.

— Mas mudando de assunto Leo, o que você acha de ir a minha casa hoje a noite para ver alguns filmes? Pegamos da locadora, o Miguel não se importa mesmo.

— Ótima ideia, eu levo pipoca.

— Perfeito, então te espero lá. — Elyssa disse quando já estavam em frente a locadora.

Leo foi para casa em seguida e Elyssa entrou. Miguel já a esperava.

— Oi Miguel, tudo bem?

— Oi Elyssa, tudo sim. Precisamos conversar, me acompanhe até o escritório, por favor. — Miguel parecia tenso.

— O que houve Miguel? Eu fiz algo errado? — Perguntou Elyssa preocupada.

— Eu vou vender a locadora. Na verdade eu já vendi, a nova dona está chegando aqui em alguns minutos.

— Como assim vendeu a locadora? Porque?

— Eu tenho outros planos Elyssa e a locadora não está me ajudando em nada. Eu conversei com a nova dona e disse para ela manter você na locadora mas ela disse que já tem alguém para ficar no seu lugar. Sinto muito, mas vou ter que demitir você.

— Não acredito. — Disse Elyssa triste.

— Eu sei que você gostava desse emprego, mas eu não posso te ajudar agora.

— Eu entendo.

— Então, aqui está seu dinheiro. Eu estou te pagando pelo seu mês que ainda não fechou e todo o resto que você tem direito. Pode conferir tudo. — Disse Miguel entregando um envelope para Elyssa.

Elyssa saiu da locadora decepcionada. Seu emprego era seu refúgio, era única coisa que a satisfazia no momento.

Ligou para Leonardo assim que se afastou da rua da locadora. Contou o que havia acontecido e pediu que a encontrasse na praça ali perto. Depois de ouvir a resposta positiva do amigo, Elyssa se dirigiu para a praça e sentou em um banco para esperar Leo, que em alguns minutos já estava ali.

— Eu sinto muito — Disse Leo ao chegar e se sentar perto de Elyssa no banco em que ela estava.

— Eu gostava tanto de trabalhar lá. Era a única coisa que me fazia bem. O que vou fazer agora?

— Você pode procurar outro.

— Não sei se é uma boa ideia agora.

— E por que não?

— Olha só tudo o que tem acontecido. Não estou em um bom momento. O Leandro me trocou por uma garota muito mais bonita. Como acha que ficou minha alto estima com isso? A Flávia não fala mais comigo e tem razão. E agora perdi o emprego. O que você espera? Espera que eu saia por aí gritando e pulando de felicidade?

— Não, mas eu espero que você diga que vai tentar.

— Tentar o que? Eu não tenho muitos amigos. Perdi minha melhor amiga. As meninas do colégio me criticam por não ter um namorado e acham que eu estou sozinha porque sou uma idiota que não sabe o que fazer para ficar com um garoto. Talvez eu seja mesmo.

— Você não é, Elyssa. Você não precisa de um namorado pra se sentir bem. E você sabe que não é tão difícil de você conseguir um. Logo você vai conhecer alguém, ou talvez já conheça mas fica aí se fazendo de cega.

— Como assim já conheço?

— Ah Elyssa, qual é? Todo mundo sabe que o Matheus é completamente apaixonado por você. Mas você sempre o tratou como se ele fosse seu irmão mais novo.

— O Matheus? — Elyssa riu — Você está brincando né?

— Não. Você nunca percebeu? Mesmo?

— Ah, não sei Leo, eu nunca pensei nisso.

— Mas deveria. Aposto que o Matheus jamais te decepcionaria. Eu sou a favor. — Disse Leo rindo.

— Será?

— Tenho certeza. Pense nisso.

— Vou pensar.

— Enquanto você pensa, o que acha de irmos lá para casa ver uns filmes. Mesmo você não estando mais na locadora, ainda podemos locar filmes.

— É, mas eu acho que a locadora está fechada agora. A nova dona só abrirá na semana que vem, segundo Miguel.

— Mas vamos na outra que fica perto da minha casa.

— Tudo bem então. Vamos lá. Tô precisando mesmo me distrair e não quero ir para casa agora e explicar a minha mãe o que aconteceu.

— Entendo.

— Vou ligar para o Matheus — disse Elyssa pegando o celular do bolso de sua blusa quando já estavam a caminho da casa de Leo.

— Porque? Já pensou no que eu falei? — Perguntou Leo rindo outra vez.

— Não, seu bobo. Quero saber se ele já sabe da venda da locadora.

— Alô? — Disse Matheus do outro lado da linha.

— Oi Matheus, sou eu, Elyssa. Eu liguei só para saber se você já sabe...

— Da venda da locadora? — Disse Matheus interrompendo a amiga — Sim eu sei. O Miguel acabou de me ligar. É uma pena, não é? Gostávamos tanto daquele lugar.

— É uma pena mesmo.

— Mas então Elyssa, eu tenho que desligar.

— Espera Matheus, eu estou indo na casa do Leo assistir um filme, por que não vai também? Vai ser legal.

— Não sei, estou um pouco cansado.

— Ah, vamos Matheus — insistiu Elyssa.

— Talvez eu passe lá, mas não prometo. Tudo bem?

— Tudo bem então, mas pensa bem, vai ser legal.

— Ok, então até mais.

— Tchau — disse Elyssa desligando o telefone.

-Por que você chamou o Matheus para ir a minha casa? — Perguntou Leo.

— Porque eu pensei no que você falou e eu quero saber se é verdade. — Disse Elyssa parecendo perdida em pensamentos.

— E se for?

— Aí veremos o que vai acontecer. Espero que ele vá.

— Então tudo bem.

Ás 8 horas da noite Leonardo e Elyssa estavam sentados no sofá da casa de Leo, apenas esperando que Matheus desse algum sinal se iria ou não, para poderem iniciar o filme.

— Eu acho que ele não vem — Disse Leo, pegando o controle do aparelho de DVD e apertando "Play".

— Não, vamos esperar mais um pouco, ele vem sim. — Disse Elyssa tirando o controle da mão do amigo.

— Como tem tanta certeza? — Questionou Leo.

— Eu apenas acho. Vamos esperar mais quinze minutos, se ele não aparecer, iniciamos o filme.

Minutos depois a campainha tocou.

— Eu atendo — disse Elyssa levantando-se rapidamente e correndo em direção á porta.

— Oi Matheus — disse sorrindo, quando abriu a porta e viu que era quem ela esperava. — Achamos que não viesse mais, estávamos quase começando sem você.

— Eu quase não vim. Mas como estava sem nada para fazer em casa resolvi aparecer, fazer uma caridade para vocês. Sei que assistir filme sem mim não tem a menor graça. — Brincou Matheus.

— Convencido como sempre, esse é o Matheus que conheço. — Disse Leo se aproximando dos amigos que ainda estavam parados na porta. — Entre Matheus, não quer ver o filme aí da porta, quer?

— Claro que não — disse Matheus passando pela porta e se dirigindo para a sala de estar logo atrás de Elyssa. — Que filme veremos?

— O Mistério das Duas Irmãs. — Respondeu Elyssa. — É um terror, eu vi o trailler na semana passada e parece muito bom.

— Não é exatamente um terror — disse Leo — tá mais para um suspense dramático. A cara de Elyssa. Espero não me arrepender de tê-la deixado escolher.

— Acho que não vai — falou Matheus, pegando a capa do filme que estava na mesa de centro. — Eu também vi o trailler, parece mesmo um suspense bom.

— Viu só Leo, alguém concorda comigo. — Disse Elyssa jogando a almofada que estava em sua mão na direção do amigo que estava de costas se dirigindo para a cozinha.

— Pipoca com ou sem manteiga? — Gritou Leo da cozinha.

— Com — Disseram Elyssa e Matheus ao mesmo tempo e acabaram rindo depois.

O filme começou, finalmente, e Elyssa percebeu que Matheus não parava de olhar para ela. Retribuiu o olhar algumas vezes, o que fazia Matheus desviar os olhos disfarçadamente.

Elyssa gritou algumas vezes, durante as cenas meio assustadoras do filme, na opinião dela, o que fazia Matheus e Leo rirem.

— Bom, eu tenho que ir, já está tarde — disse Matheus assim que o filme acabou.

— Espera, eu vou com você — Disse Elyssa.

— Fiquem mais um pouco, podemos ver outro filme — Implorou Leo.

— Não posso. — Respondeu Matheus.

— Então vamos Matheus — disse Elyssa levantando-se do sofá e indo em direção a porta.

— Espero que tenham gostado — disse Leo.

— Foi ótimo — disse Matheus seguindo Elyssa até a porta.

— Foi mesmo. — Concordou Elyssa. — Deveríamos marcar mais vezes de fazer isso.

— Sim, podemos marcar. — Disse Leo.

Matheus acompanhou Elyssa até a casa dela.

— Matheus — disse Elyssa quando já estavam em frente á sua casa — eu queria te perguntar uma coisa.

— Pode perguntar. — Disse Matheus despreocupado.

— Eu não sei como te perguntar — começou Elyssa — mas acho que devo ser direta. Então serei. Você gosta de mim?

— Claro que gosto, você sabe. — Disse Matheus, desconfiando da pergunta da amiga.

— Gosta como?

— Ah, não sei Elyssa. Eu gosto, apenas isso. Mas gosto muito.

— Gosta assim? — perguntou Elyssa aproximando-se da boca de Matheus e lhe dando um beijo rápido.

— Por que fez isso? — Perguntou Matheus assim que Elyssa se afastou.

— Achei que você fosse gostar. — Disse Elyssa decepcionada com a reação de Matheus.

— Eu g--gostei. — Gaguejou Matheus. — Eu só não esperava.

— Eu sei. — disse Elyssa.

— Então, porque fez isso? — Insistiu Matheus.

— Porque eu vi como você me olhou hoje durante o filme. E eu senti alguma coisa quando você fez isso.

— Sentiu o que?

— Não sei, foi algo diferente. Pela primeira vez eu não te vi apenas como um amigo que trabalhava comigo. Eu vi mais do que isso. Eu vi um menino que gostava de mim.

— Você tem razão. Eu gosto de você. Mas você nunca pensou em mim desse jeito. Nunca me deu a oportunidade de me aproximar realmente de você.

— Estou te dando essa oportunidade agora.

— Elyssa — disse Matheus pegando sua mão — você sabe o quanto isso significa para mim? Eu sou apaixonado por você desde o dia em que te conheci. Você não tem ideia de como isso é bom. Nem acredito que você está aqui agora comigo e dizendo que não me vê apenas como seu amigo.

— Acredite, porque é real. — disse Elyssa beijando Matheus outra vez.

— Então estamos juntos?

— Se você quiser. Sim, estamos.

— Claro que eu quero.

Ficaram ali por mais alguns minutos até Elyssa perceber que já estava tarde e que tinha aula no dia seguinte.

— Eu tenho que entrar. — Disse ela se afastando de Matheus.

— Nos vemos amanhã?

— Claro. Eu posso ir na sua casa?

— Pode sim — disse Matheus sorrindo — você sempre será bem-vinda lá em casa.

— Então até amanhã. — Elyssa disse e finalmente entrou.

Matheus ficou mais um instante parado em frente a casa de Elyssa depois que ela entrou e fechou a porta.

Ele ainda não acreditava que aquilo era real.

Elyssa também não. Deitou em sua cama e ficou acordada durante horas tentando entender o que havia feito. Mas não era tão ruim assim. Matheus era legal e parecia mesmo gostar dela de verdade.

Estava difícil de acreditar no que estava acontecendo. Mas pela primeira vez, depois de ter perdido Leandro, Elyssa estava se sentindo realmente bem.