Traga-me para a luz.
1 Conhecendo minha luz.
Notas iniciais

A vida vai ferir você.
De algum jeito, de alguma maneira. Através de alguém. É impossível passar incólume sobre essa existência. Se machucar faz parte e eu aprendi isso cedo demais. Desde que nasci, na verdade. Eu me perguntava sempre... Por que comigo? Por que, não com o filho da vizinha? Com um parente distante? Por que justo comigo? A paz e a felicidade sempre pareciam tão distantes de mim, quase como uma utopia que eu nunca teria acesso.
Andei, até meu guarda roupa. Tateando entre as camisetas e calças, peguei uma calça de moletom e um suéter. Faria frio lá fora, percebi ao sentir a brisa da janela. Tão cansativo, tentar me levantar mais um dia. Mas, eu precisava. Não desistir até agora, parar não era uma opção.
Eu havia passado por tanta coisa. E elas, não me paravam.
— Ares, meu amor. Venha aqui. O chamei, sentando na cama. Ares era meu cão-guia. Meu amigo fiel e literalmente, minha luz em um mundo escuro e sombrio. Sim, eu sou cega desde nascença. Nunca havia visto o mundo em sua perfeita forma, como ele é. Eu vivia nas trevas, a vida não sorriu para mim. Eu agradecia por estar viva... É claro. Por ter pessoas que me amavam, além de minhas limitações.
Mas, eu desejava tanto ver. Viver, a vida em sua totalidade. Ver as cores das coisas, ver as pessoas que eu sabia que corriam apressadas em minha volta. Bem, eu sentia tudo de forma diferente. Pelo tato, pelo olfato, audição e o mais raro. Mas, o meu favorito... Paladar. Esses eram bem mais apurados do que a maioria das pessoas. Eu aprendi a usá-los, a brincar com eles.
Eu sairia hoje? Me questionei, sem pressão. Decidi passear com Ares. Eu vivia uma vida modesta, recebia uma quantia interessante do governo por minha condição. Meus pais super protetores, sempre se preocupavam comigo. A maior briga de todo o planeta foi quando decidi morar em um simples apartamento em Washington. Ficar longe deles não era uma opção aceitável, então podem imaginar como foi difícil convence-los. E trabalhava em um pequeno mercadinho perto de casa. Que pertencia a uma senhora que era apaixonada por mim e me considerava a neta que ela nunca teve, mas naquele dia... Eu estava de férias. Era cercada de pessoas que me amavam e me protegiam.
A vida tinha que me compensar em algo, não? Tira de um lado, lhe presenteia de outro. Bem, pelo menos... Eu acreditava nisso. Coloquei meus tênis, e a coleira apropriada para mim em Ares e saí porta a fora. Comecei a cantarolar uma música conhecida, enquanto descia a pequena escada do meu prédio. Morava no primeiro andar, exigência e condição dos meus pais.
Eu já mencionei, o quanto eles eram super protetores. Eu os compreendia perfeitamente e não posso culpa-los. Todos os dias, eu exercitava minha empatia. Umas das belezas de ser humano, se imaginar ou se colocar no lugar do outro. E lhe estender a mão ou uma gentileza...
— Bom dia, Amber. Me cumprimentou Alicia, sua voz era facilmente reconhecida por mim. Amber... Esse nome me foi dado, porque meus olhos se assemelham muito ao Âmbar. Assim, meus pais me explicaram. Que acabou se tornando minha pedra preciosa favorita.
— Bom dia, Alicia. Como estão as crianças? Sorri, simpática. Depois, de conversamos alguns minutos. Comecei minha caminhada, até chegar em um dos meus lugares favoritos da vida.
O museu SmithSonian. Eu adorava aquele lugar, eu havia aprendido tanto ali. Caminhei, lentamente até a porta.
— Amber. Como vai, baixinha? Ouvi a voz de Jack, o segurança do local. Não pude deixar de sorrir animada, com seu cumprimento alegre.
— Estou bem, na medida do possível. Quais são as novidades? Perguntei, andando ao seu lado pelo museu.
— A exposição do Capitão América. Disse, segurando minha mão. Era um hábito de gentileza dele, eu tinha Ares. Mas, mesmo assim... Ele sempre o fazia. E eu era grata pelo seu cuidado.
— Oh! Eu adoro o Capitão. Disse, ansiosa. Eu adorava todos os Vingadores, mas o Capitão América e o Homem de ferro eram os meus favoritos. Minha mãe sempre me dizia que eles eram os mais bonitos também. Jack me guiou pela mão, me fazendo andar por algumas portas.
— Pronto. A exposição começa aqui, Amber. Pode ficar sozinha, agora? Perguntou, solicito.
— Não se preocupe. Ares está comigo. Não é, meu amor? Perguntei, o acariciando. Que deu um latido em resposta, meu grande companheiro. – Obrigado, Jack. Sorri, estendendo a minha mão que ele pegou rapidamente.
Caminhei pela exposição, passando a mão pelo começo. Eu sabia que debaixo das placas, eles sempre colocavam as informações em braile. Suspirei, rendida. Dedilhando pela primeira linha, ouvindo as instruções e explicações disponíveis naquela área. Eram nessas horas que eu queria poder ver, meus pais não eram ricos. Nós éramos de fato, pessoas simples e humildes. Quando era pequena, os médicos explicaram aos meus pais que seriam necessários uma serie de tratamentos e cirurgias para que eu tivesse a possibilidade de voltar a ver. Muitos, até em outros países. Uma sentença cruel para alguém que não tem uma conta bancária abastada. Eles ainda tentaram. Me fazer ver, trazer a luz para meus olhos. Eu os ouvia se martirizando por não serem ricos, por não terem condições de me dar o melhor. Por me condenarem a essa vida, então eu decidi que não se falaria mais sobre aqui na nossa casa. Eu havia nascido assim e se um dia, eu visse a luz. Ficaria grata por isso, se não... Eu buscaria minhas formas de ter uma vida extraordinária. O pior de era ver todos os dias, eles se culpando e sofrendo por algo que não podia ser mudado. Que não era culpa deles! Eu só queria que eles fossem felizes e o resto, nós aprenderíamos a vencer.
O locutor da exposição seguia explicando, sobre o Capitão América. Sobre a segunda guerra e os experimentos/eventos que o levaram, a ser o homem que o mundo conhecia hoje. E lá, estava eu ouvindo sobre a equipe do Capitão. Comando selvagem... Nome muito interessante. Ao que parece, apenas um dos seus membros haviam morrido.
— James Buchanan Barnes. Repeti, logo após ao locutor.
— É um nome estranho. Uma voz intensa sentenciou, me arrepiando. Dei um passo para trás, um pouco assustada. O medo era algo sempre presente em mim, principalmente de desconhecidos. Ares rosnou baixo.
— Ares, quieto. Me desculpe, ele é muito protetor. Não gosta de estranhos, apesar de conviver com eles. Justifiquei, meu amado companheiro. – E sobre o nome, eu já vi piores. Sorri, apreensiva.
— Temos algo em comum, então. A voz repetiu, mandando mais arrepios pelo meu corpo. Dessa vez, ela soava mais animada. Simpática! E eu sabia que era um homem. Uma reação muito incomum ao meu ver, eu não era a primeira opção masculina para uma conversa.
— Menina, esse cachorro... É perigoso. Quase mordeu esse moço. Ouvi uma voz feminina reclamar. Estava demorando! Por que sempre implicavam com Ares? Isso era inadmissível.
— Senhora, meu cachorro é mais que um cachorro. Ele é os meus olhos. Limite-se, quando se referir a ele. O defendi, ferozmente. Mexer comigo? Ok! Mexer com Ares? Não.
Uma mão segurou a minha, protetivo. Estranhei, quis retirar. Mas, a mão fria permaneceu me segurando. Dando-me uma sensação de segurança incomum e nova.
— Senhora, a moça já lhe explicou. Então, afasta-se e siga o seu caminho. A mesma voz de antes, a voz intensa que me arrepiou. Mas, agora... Ela parecia agressiva e assustadora. Como, se ele fosse partir quem me ameaçasse em um instante. O que estava acontecendo ali? Por que aquele homem estava tão disposto a me proteger? Ele ainda segurava minha mão com delicadeza. – Me desculpe por isso. Disse, depois de certo tempo.
— Não tem problema. Eu é que peço desculpas, não sei o que deu em Ares... Justifiquei, desesperada. Não chore, Amber. Por favor! Pensei, tentando raciocinar. – Já causamos muitos problemas. Vamos, Ares. Disse, o fazendo caminhar. Eu só queria ir embora.
— Hey, hey! Fique calma. Por favor, eu não queria assusta-la ou machuca-la. Pediu, outra vez.
— Está tudo bem. Caminhei, para longe dele. – Obrigado por me defender. Qual é o seu nome? Sorri, o questionando curiosa. Que homem incomum!
— Bucky. Pode me chamar de Bucky. Disse, ele. Parecendo tímido e apreensivo, pela primeira vez.
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