Trabalhos De Semideuses
8 A Profecia
Notas iniciais
E no final, ficou tudo bem entre eu e Henrie. Tão bem quanto eu queria que estivesse, eu acho. Ele me abraçou e não disse mais nada. Ele tinha me perdoado, eu sabia, até porque, como não poderia? Eu era sua melhor amiga, não era? Naquela época pelo menos, sim. As coisas tinham mudado, talvez já não fossemos tão próximos. Não dissemos absolutamente nada depois disso, apenas voltamos para a margem. Enquanto ele ia treinar, Annabeth se propôs a me ajudar no desenvolvimento de estratégias e estudo dos mapas.
Fomos para o chalé 6 e nos sentamos em uma mesa no segundo andar. A loira se distanciou um pouco para pegar os mapas enquanto eu esperava e logo ela voltou com pilhas de papeis, e pequenos instrumentos de metal. A coisa toda ia se desenrolando de maneira inacreditável e eu me surpreendia com a genialidade de Annabeth. Nesse momento, eu entendi porque ela era a líder do chalé e me orgulhei de ser sua meia-irmã.
Por vezes, ela me elogiava e reconhecia grandes movimentos e idéias minhas, mas eu me derretia em vergonha. No meio das explicações sobre uma batalha e sobre os soldados, ela começou a falar sobre a guerra que poderíamos enfrentar, o quanto ela não queria que eu me prejudicasse e que ela sabia o quanto seria difícil para eu me adaptar a esse clima caótico e enfrentá-lo. Nenhuma garota ou garoto de treze anos deveria ser obrigado a isso e, no fundo, não era, mas a participação de todos os semideuses era muito importante. Ela estava certa. Mas uma guerra é muito complicada para alguém que acabou de descobrir que tem mãe e que essa mãe é uma deusa do Olimpo. Isso, sem falar no meu tamanho, eu vi alguns semideuses do chalé 5 e fiquei realmente espantada, se eles fossem inimigos, certamente eu estava derrotada. Bem, talvez não devido às estratégias e vantagens de um tamanho inferior ao inimigo. De qualquer forma, eu era pequena demais e quase insignificante na guerra, os filhos de Ares assumiriam tudo. Novamente, Annabeth me repreendia dizendo que os filhos de Athena também eram muito importantes, porque nós não lutávamos apenas por lutar, nós tínhamos objetivos, estratégias, planos e métodos. Eu não estava completamente convencida, afinal, é uma guerra, mas enfim.
Próximo do fim do dia, fomos jantar e Henrie nos contou de maneira muito animada como tinha sido sua tarde com as espadas. Conversávamos sobre isso quando Percy e Annabeth sumiram no meio da multidão. O jantar se seguiu mais ou menos silencioso, um silêncio constrangedor que predominava Henrie e eu. Alguma coisa o incomodava e a mim também, uma sensação esquisita, algum tipo de nervosismo. Assim que terminamos de comer, o silêncio ficou ainda pior e aquela sensação se alastrava por todo meu corpo. Um dos campistas anunciou algum tipo de jogo típico daqueles dias e eu e Henrie ficamos sentados enquanto o pessoal se levantava apressado. Percebi alguns semideuses a nossa volta nos observando de maneira estranha, quase nos decifrando e cochichavam entre si sobre algo muito interessante: nós. Eu não entendia o porquê de tanto interesse em dois semideuses meio-irmãos e estava ficando difícil ignorá-los quando Quíron chegou.
Ele tentava sorrir e parecer amigável, mas meu estômago se embrulhou e eu sabia que ele tinha algo muito importante pra dizer.
– Temos uma profecia para os dois. Vão até o Oráculo de Delfos.
Ele optou por ser mais direto.
Chegando a Casa Grande, ele nos fez sentar num sofá e se posicionou em nossa frente. Henrie tentava conter a aflição e batia os dedos nos joelhos de maneira cronometrada.
– Como vocês sabem, uma guerra se aproxima e temos de estar todos muito bem preparados e utilizando de todos os nossos recursos para vencer. Os dois são Filhos de Athena, mas cada um tem uma bênção diferente. Essas bênçãos não são comuns, muito poucos semideuses recebem bênçãos. O fato de vocês serem diferentes é uma vantagem, as proezas que vocês dispõem podem ser muito úteis na guerra. A partir disso, gostaríamos que vocês dois subissem no andar de cima, lá no sótão, e ouvissem o que o Oráculo de Delfos tem a dizer à vocês.
Eu estava sem palavras, mas não Henrie.
– Como assim? Quem é Delfos?
Mas Quíron já se afastava para nos mostrar o caminho para o sótão.
– Como é uma profecia? Como assim as bênçãos não são comuns? Mais semideuses tem isso? Por que somos diferentes? – Henrie fazia várias perguntas desse gênero enquanto eu, chocada, ia em direção a uma pequena escada que subia íngreme demais até o sótão. Depois da septuagésima pergunta, Henrie desistiu de ser respondido e foi atrás de mim.
A cada degrau, eu sentia meu estômago querendo colocar meu jantar para fora.
No fim da escadaria, encontrei um lugar razoavelmente iluminado pela luz de duas ou mais janelas, vários troféus de pessoas que eu não conhecia, algumas fotos coladas nas paredes, armas e escudos empilhados e... Ah, não, o que era aquilo? Virei num susto e quase empurrei Henrie, que estava terminando de subir. Ele se assustou e me lançou um olhar assustado. Não tanto quanto o meu, mas um olhar assustado. Porém, assim que ele viu o motivo do meu espanto, quase caiu para trás e me deu um leve empurrão para que eu continuasse.
Em frente a uma janela colorida, estava um banquinho de três pernas e uma mulher sentada. Como seria possível que a mulher vivesse ali? Era muito empoeirado, escuro e cheio de objetos perdidos. Sua posição no banquinho era esquisita, ela estava um pouco torta com a cabeça pendendo para um lado. Continuei andando com passos pequenos e silenciosos. No fundo, não havia o que temer, era apenas uma mulher nos esperando. De qualquer maneira, eu estava com medo. Aquele amontoado de coisas e fotos nas paredes de pessoas que eu não conhecia estavam me deixando mais tranqüila do que a visão daquela mulher estranhamente sentada no banquinho da janela.
Assim que eu tinha entrado no sótão, ele me parecia gigantesco, mas agora andando em direção a mulher, ele tinha encurtado, como uma maldição para que eu me aproximasse dela mais rapidamente.
Henrie ficou um pouco irritado com a minha demora para andar e passou na minha frente, no entanto, assim que ele chegou perto dela, se virou para mim com os olhos arregalados e abriu a boca para dizer alguma coisa. Não saia som algum, apenas os olhos gritavam pra mim. Ele me segurou pelos ombros e se colocou de volta atrás de mim e me empurrou de leve e, somente quando cheguei perto dela, pude sentir meu coração explodindo em batidas aceleradas e descompassadas e minha janta ameaçando sair do estômago.
De imediato, segurei a mão de Henrie e a apertei. Engoli em seco. Procurei algum tipo de saída do sótão, mas minhas únicas opções eram: a escada ou a janela atrás da mulher, que não era exatamente uma mulher, mas um cadáver. Vestida em trapos velhos e coloridos, estava um cadáver sentado no banquinho de três pernas. O vestido qual ela estava a deixava ainda mais assustadora. Certamente a pessoa que tentou deixá-la menos aterrorizante não obteve sucesso.
Respirei fundo e soltei a mão de Henrie.
“Está tudo bem, está tudo bem” eu repetia para mim mesma, tentando me tranqüilizar, mas não dava certo.
Quando achei que nada poderia piorar e que eu já tinha sentido medo o bastante para uma vida toda, tudo piorou. Os olhos do Oráculo começaram a brilhar numa luz verde e uma espécie de fumaça tomou, pouco a pouco, conta do ambiente. Minha mão tremia e eu estava prestes a desmaiar. Uma voz esquisita podia ser ouvida, como um sussurro, que aos poucos foi ficando mais alta e clara.
"De tantos erros cometidos
Um problema da escuridão surgiu
Como as sombras da noite gélida
O tempo em abismos se fundiu
Dois Filhos de Athena
A tempos separados
No reencontro sonhado
Responderão ao chamado
Antes da guerra enfim estourar
Os Estados Unidos terás de percorrer
E uma chance terás de salvar
Os Trabalhos de Hércules refazer"
Acordei de um pesadelo e me concentrei nas palavras, tentando decorá-las.
A luz verde dos olhos foi sumindo aos poucos e a fumaça já tinha virado poeira. Então é isso. Dei meia volta e andei com pressa, desci as escadas e me joguei no sofá da sala. Henrie vinha logo atrás de mim e parecia atônito, ele se sentou ao meu lado. Sua pele sem cor me lembrava o Oráculo, então fechei os olhos e levei as mãos à cabeça.
– Vamos sair daqui – ele disse depois de algum tempo.
Andamos feito robôs até a porta e encontramos um acampamento vazio. Onde estariam os semideuses? O campo dos morangos estava vazio, o refeitório, tudo parecia silencioso. Olhei para Henrie esperando alguma explicação, como se ele pudesse dar.
Desci os degraus e esperei que alguém saísse de algum lugar para nos assustar, como uma grande piada sem graça. Mas ninguém saiu. Ah, não. Ah, não. Sai correndo procurar alguém, Henrie fez o mesmo para o lado contrário. Algum tempo depois de passar pelos chalés, arena e refeitório, voltei para a Casa Grande e Henrie chegou logo depois.
– E então? – Ele perguntou um pouco sem ar.
– Nada.
Suas sobrancelhas se arquearam em desespero, mostrando que ele também não encontrara nada.
Nos sentamos no segundo degrau e ficamos algum tempo em silêncio, pensando no que fazer, em quem procurar, se é que havia alguém, em como encontrar os semideuses, porque eles tinham sumido etc.
De repente, encontramos alguém correndo. As pernas de bode, camiseta laranja e um típico cabelo loiro espetado. Dillan Woodstone. Um sorriso largo se abriu no meu rosto e eu me preparei para correr até ele, mas ele me repreendeu com um gesto simples abanando a mão no ar nos chamando para ir até onde ele queria nos levar.
Ele corria incrivelmente rápido com as pernas de bode, os cascos batendo e jogando pelos ares algumas folhas no chão, por pouco não fiquei para trás. Entramos na floresta e seguimos. Encontramos um monte de pedras, grandes, altas e, para nossa surpresa, todos os campistas.
– O... Punho... De Ze... Punho de Zeus. – Woodstone disse tentando respirar.
Ah, então nem ia nos perguntar sobre a profecia...
Estavam todos ansiosos pela chegada de alguém que, presumi, “sairia” do meio daquele monte de pedras. Todos estavam ansiosos e os murmúrios se tornaram gritos, de tantas pessoas falando ao mesmo tempo. Quíron esperava também e parecia muito agoniado, mas eu não entendia.
Como eu estava atrás de muita gente, não consegui me aproximar ou ao menos ver o que estava acontecendo lá na frente, mas os murmúrios/gritos se transformaram em comemorações e suspiros aliviados.
– Percy Jackson e Annabeth Chase estão de volta!
Ahn?
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