Trabalhando com o Inimigo
18 Últimos dias
Brenda
Eu estava um pouco nervosa, mas acho que não deveria... Ah sei lá, nunca havia pedido demissão antes! Então eu estava tentando encontrar as palavras certas. Para a loja não era uma boa hora eu sair, ainda mais porque estávamos no final do ano, época que o povo gasta muito atrás de presentes, mas eu já tinha tomado minha decisão. Aproveitaria a semana de folga, a semana do Natal, e ia para Guarulhos, aonde permaneceria morando por sabe lá Deus quanto tempo. Faltavam alguns dias, mas já estava me sentindo triste por ter de deixar minha tia, meu emprego, meus novos amigos e minha cidade. Mas eu sabia que era a melhor decisão a tomar.
No horário de almoço contei ao Romário minha decisão.
Romário
Tentei não demonstrar minha surpresa, mas acho que não fiz um bom trabalho. A Brenda acabara de me contar que se mudaria para a casa do pai. No fundo eu já imaginava isso. Só não imaginava que minha reação seria engasgar com o refrigerante, e quase morrer de tanto tossir.
Depois de me recuperar, eu não sabia o que dizer.
— Ah é...? Seus parentes devem estar ansiosos.
— Nem me fale! — a Brenda respondeu. Estava na cara que ela estava animada também. — Eles não veem a hora de eu estar lá.
Continuei a comer minha comida que estranhamente tinha perdido o gosto.
— Esse vai ser o primeiro natal sem minha mãe... — Brenda suspirou. Seu ânimo pareceu mudar de repente. Mas então ela sorriu ao se lembrar de uma história com a tia.
Enquanto ela falava eu tentava ouvir mas, só conseguia pensar em como seria os dias no trabalho sem ela. Quer dizer, sem uma companhia tão interessante. Meus dias voltariam a ser entediantes e monótonos. Por mais estranho e surpreso que pareça, eu sentiria falta do sorriso dela. E daquele jeito sarcástico de ela ser e de tentar me zoar.
Tá legal, eu fiquei meio bolado sim! Ela era tão... Ah sei lá! Eu só pensava no quanto sentiria falta dela, e o quanto eu desejava que ela permanecesse abraçada a mim. Será que ela já imaginou ficar comigo? Eu ficaria, de boa. Espera... que que eu estava pensando... Aposto que isso nunca passou pela cabeça dela! Mas às vezes ela me olha com um jeito de quem quer alguma coisa... Será? Ou eu estou interpretando errado?
Brenda
Naquela quinta-feira quando voltávamos no ônibus, alguma coisa estava diferente, estranha. Nós dois estávamos calados. Em pé, como sempre, o Romário tinha um braço na minha cintura para me segurar, e eu já não me importava com isso. Na realidade, eu estava confortável assim. Até desejei que ele estivesse mais próximo. Não sei explicar mas, aquele jeito dele de me abraçar, como se me protegesse das pessoas ao redor, fazia eu me sentir segura. Sem falar que ele era muito cheiroso! E bem limpinho.
Chegou meu ponto e eu desci do ônibus, pensando se o Romário sentia o mesmo que eu quando nos abraçávamos. E se ele sentiria minha falta.
No dia seguinte, sexta-feira, meu último dia de trabalho, até que estava tudo normal como antes. Foi um dia cansativo, cheio, bom pra loja. No horário de almoço nós não paramos de conversar. Aliás, o dia inteiro foi assim. No final, combinamos de ir ver um filme no cinema.
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