Trabalhando com o Inimigo
9 Estudo
Brenda
Ah segunda- feira... Se pudesse ficar em casa hoje! Mas tenho que trabalhar, né? Acontece que ontem fui ao cinema e depois a um churrasco e cheguei em casa tarde (ou será cedo?). Bem, o fato é que não dormi direito, e agora tô morrendo de sono. E parece que eu não sou a única a julgar pela cara do Romário. Por coincidência ele estava ontem no mesmo shopping, e assistiu ao mesmo filme na mesma hora que eu. Acho que aquele povo é a família dele. Eu já tinha visto a mãe dele antes no banheiro. Ele herdou os olhos castanhos claríssimos dela.
— Passou a noite na gandaia ontem e aí vem trabalhar com essa cara horrível! — o Romário me olhou e vi que ele estava com os olhos vermelhos. — Ainda por cima vem noiado...
— Ha ha ha muito engraçado! — ele respondeu, e vi que ele tinha um colírio na mão.
— Você está usando colírio para fingir que está com conjuntivite? — eu disse fingindo surpresa.
— Como você está comediosa hoje, não? — Dei risada. Essa palavra existe?! Talvez na cabeça estranha dele sim!
— Oi Brenda, beleza? — disse o Jonah. Ele chegou e me deu um beijo no canto da boca. Sério, eu acho que ele está dando em cima de mim. Mas até parece que eu vou cair nessa!
Começamos a trabalhar e depois chegou o horário do almoço. Primeiro comemos e depois fomos estudar um pouquinho. Estava tudo indo bem, até o Romário começar a perder a paciência comigo. A cada erro que eu cometo ele já me sentencia. Acho que ele é sem dúvida o pior professor que eu já tive! O que eu posso fazer se eu não gosto de matemática? Meu negócio é leitura, é escrever poemas. Não sei se ele gosta de ler. Ele parece nerd mas ainda assim é diferente. Ele tem uma personalidade peculiar, é misterioso mas ao mesmo tempo é amigável. Tá legal, a palavra amigável não cai muito bem aqui, mas quero dizer que, ele sabe ser legal nas horas certas, em raros momentos. Agora não é um desses momentos.
— Romário, vamos parar com matemática — eu disse. — Minha cabeça já está latejando.
— Ah não exagera — ele disse. — Pensamento positivo. Você não é tão burra assim para não conseguir resolver isso. Afinal, como você passou de ano na escola?!
Olhei com cara feia para ele, mas acho que ele nem percebeu que acabou de me ofender. É uma das muitas características negativas dele.
— Agora me diga se as minhas respostas estão corretas — ele disse, me passando uma folha que aparentemente estava as respostas de umas questões de português, mas eu só via garranchos.
Fiquei uns minutos em silêncio analisando as respostas. O Romário foi muito bem na interpretação do poema, ele foi profundo. Eu diria que ele estava bem concentrado quando respondeu. Aliás, concentração é um ponto forte dele. Já eu sou meio distraída.
— Poxa, você foi bem taxativo ao ponto — eu disse. — Você conseguiu pegar a essência e tudo o mais por trás do poema. Isso é impressionante vindo de você!
Ele me olhou com um ar de jactância. Estava na cara que ele estava se sentindo o maioral ali. Elogios o fazem se sentir lá no alto. Quem não gosta de ser elogiado?
— Mas no resto das questões você não conseguiu fazer o mesmo — eu disse, com um sorrisinho no rosto. — É uma pegadinha, e você achou que tinha achado o ponto chave mas não.
Lemos o poema e eu fiz uma análise correta. Daí foi a vez dele ficar impressionado com a minha inteligência.
— Impressionante — ele disse, mas não sei se ele falava sério ou era mais uma zoeira dele. — Meus parabéns.
Acho que realmente ele estava falando sério.
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