Três vozes e o Mistério Dos Ocultos
7 Tempestade
📖 Diário de Melissa
Florianópolis, 14 de março de 2005.
Hoje foi estranho.
Não estranho tipo “choveu granizo em pleno verão”, mas estranho de outro jeito.
Acordei com um barulho que parecia trovão, mas não tinha tempestade. O céu estava carregado, sim, só que diferente… mais escuro do que o normal, como se tivesse uma fumaça escondida por trás das nuvens.
Na escola, todo mundo comentava coisas malucas: que ouviram asas batendo de madrugada, que viram clarões vermelhos cortando o céu como se fossem fogos de artifício, que um poste tinha rachado no meio sem explicação. Uma menina jurou que a mãe dela viu uma sombra enorme sobrevoando o centro da cidade. Todo mundo riu, mas o riso foi nervoso.
Os professores continuavam chatos. As fofocas ainda eram mais interessantes que as aulas. O refeitório ainda era um caos. Tudo parecia completamente normal.
Na volta pra casa, senti como se o ar estivesse pesado, denso. Tipo quando você entra numa igreja antiga e sente aquele silêncio que não dá pra explicar. Só que dessa vez, não era silêncio. Era um zumbido estranho, quase como uma música abafada que ninguém parecia perceber.
Papai disse que provavelmente era algum problema elétrico, por causa dos apagões que aconteceram em alguns bairros. Mas não eram só os apagões. As árvores da rua estavam com as folhas queimadas em algumas partes, como se tivesse passado fogo, mas sem cheiro de fumaça.
À noite, fiquei olhando pela janela. O céu piscava, não como relâmpago, mas em cores — azul, vermelho, roxo. Ninguém na televisão explicou. Nenhum jornal falou nada.
Eu não sei o que está acontecendo. Só sei que… o mundo está errado.
E tenho medo de que nunca volte a ser o mesmo.
– Melissa
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Diário de Larissa
O céu se abriu em tons de prata e azul, como se quisesse nos abençoar na hora mais sombria. As asas das nossas guerreiras cintilavam como lâminas de luz, refletindo o brilho que nenhuma escuridão pode apagar. Eu vi a rainha erguer a mão e, num só gesto, todo o ar se encheu de energia — como se a própria essência da magia tivesse respondido ao seu chamado.
Mas, logo além, algo se movia. Não era apenas vento. Eram formas que não carregavam cor, nem luz, nem vida. Sombras que não pertenciam a este mundo. Quando avançavam, o ar parecia murchar, como se roubassem até o sopro da esperança.
O choque foi inevitável. O som do cristal contra a pedra, do brilho contra a sombra. Eu senti cada vibração, cada estalo no coração da terra. As nossas vozes se ergueram em cânticos de proteção, e mesmo de longe eu podia ouvir como o som da magia enfrentava o silêncio gelado do inimigo.
Entre as asas que voavam firmes, vi o medo escondido em olhares rápidos. Vi também coragem que não se deixa abalar, mesmo quando tudo à volta parece querer apagar sua chama. Nós somos as guardiãs da luz, e quem se ergue contra nós jamais contará a história.
Que permaneça registrado: não fomos nós que buscamos a guerra. Mas se a escuridão ousou cruzar os limites do nosso reino, ela aprenderá que há coisas que não podem ser sufocadas.
Eu sigo indo na praça. As vezes na praia também. Sigo as mesmas pessoas, convivo com amizades que não deveria. Humanos que não sabem que eu sou. Que falam em drogas, sexo, música (o rock que eu amo, apenas, e nada mais). Eu não tento entender o comportamento estranho, apenas observo, como se estar ali me mantivesse firme com os pés no mundo real.
Como se fosse possível.
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Diário de Márcia
— Há barulho lá fora. Não de carros, não de gente. Um barulho diferente, como se o próprio ar estivesse se partindo em pedaços. Às vezes parece trovão, às vezes parece o estalo de alguma coisa que eu não consigo ver. Eu não fui até a janela. Eu não quero saber.
O menino dorme. Ele cresce rápido demais. Cada dia que passa, parece que já viveu meses. É como se o tempo corresse dentro dele de um jeito que eu não entendo. Quando abre os olhos, eles brilham como se escondessem algo antigo, maior do que ele. Maior do que eu.
Tento cantar para ele, mesmo quando não sei se ele precisa. Tento inventar histórias, mas sempre me pego mentindo — falando de um mundo pacífico que já não existe. Talvez nunca tenha existido.
Não sei se sou mãe, irmã ou apenas alguém que sobrou para cuidar dele. Mas sei que o que está acontecendo lá fora não é meu lugar. Nem dele, por enquanto. Ele me olha como se soubesse de tudo, como se guardasse os segredos que eu finjo não ver.
A guerra é deles. Eu só tenho este quarto, este silêncio, este menino que cresce como se o tempo não tivesse escolha.
No meio do caos, eu ainda ensino. Consigo ir para as as aulas de mãos dadas com ele, que por algum motivo que ninguém sabe explicar, me protege de morrer no sol. Eu dou minha aula, mas os dias passam para as outras crianças enquanto meses passam pra ele. Ele cresce muito mais do que deveria. Não sei quanto tempo vou conseguir esconder ele dentro da minha sala.
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Narrador
Três vozes. Três cadernos. Três modos de ver o mesmo mundo.
Nas páginas de Melissa, só há espanto. A menina que andava pela cidade, incapaz de compreender o que via, registrava rachaduras na realidade, como se fossem apenas coincidências ou tragédias naturais. O olhar humano dela nunca atravessava o véu, mas ainda assim sentia que havia algo errado.
Larissa escrevia diferente. Sua caligrafia parecia correr junto das asas — cada frase era uma chama, cada palavra, uma batalha. Ela falava de forças que a maioria dos olhos não poderia suportar. Só havia um lado em sua narrativa: o das fadas. Para ela, o mundo era claro — e quem ousasse desafiar as regras da Rainha, merecia perecer.
Já Márcia… Márcia escrevia devagar. Suas linhas eram silenciosas, quase sufocadas. Não havia glória em seu diário. Só o peso de cuidar de uma criança que crescia rápido demais, enquanto a guerra se erguia lá fora. Uma testemunha ausente, mas ainda assim marcada por tudo.
E eu, que junto esses pedaços, não sei dizer quem estava certa. Não sei sequer se houve um “lado certo”. Só sei que nessas páginas começa uma guerra que atravessou mundos — uma guerra em que cada palavra, cada silêncio, cada escolha ecoou para sempre.
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