Três vozes e o Mistério Dos Ocultos
8 Eco na tempestade
Melissa — Luzíada, 17 de março de 2005
A cidade parecia diferente.
Não era só o tempo, nem a sensação de ar pesado. Era algo… elétrico, invisível, como se o mundo inteiro estivesse prestes a suspirar antes de desabar.
Os noticiários falavam de apagões em Florianópolis, aves migrando fora de época, e uma névoa escura que cobria os céus do litoral catarinense.
Mas ninguém sabia dizer o porquê.
Na escola, as luzes piscavam o tempo todo. As pessoas diziam que era só o tempo, ou alguma usina com problema. Mas eu sentia algo diferente — um arrepio constante na nuca, como se alguém me observasse de muito longe.
Naquela noite, as fadas não apareceram. Nem Ellen, nem Larissa.
Era a primeira vez desde o início da guerra que eu sentia… silêncio.
Um silêncio que gritava.
Dentro de mim, algo estava diferente.
Como se algo por dentro estivesse em trânsito, em mutação.
Será que minha inocência sobrevive a tudo isso? Será que eu sobrevivo a tudo isso?
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Larissa — Entre o céu e o inferno
O mundo inteiro queimava.
As asas das fadas tilintavam como vidro quebrado, os feixes de luz cruzavam o céu, e o cheiro de sangue doce — sangue de fada — se misturava ao ar.
Vampiros desciam em sombras líquidas. Nós, as últimas fadas rebeldes, tentávamos proteger o que restava das florestas.
Mas naquele instante… eu só via ele.
Michael.
O garoto que era metade humano, metade vampiro. O que deveria ser meu inimigo.
Mas ele estava ali, diante de mim. Crescido, como um adolescente da minha idade. Eu sabia que não era. Tinha nascido da criança fazia poucos meses. Ele me olhava, ofegante, com o olhar de quem carrega o peso de duas naturezas em guerra.
— Você não devia estar aqui — eu disse, mas minha voz saiu fraca, tremida.
Ele riu, um som rouco, quase quebrado.
— E você devia? — a voz rouca da puberdade precoce era de um estranho bonito.
O chão tremeu quando uma fada caiu próxima, uma explosão de pó prateado e cinzas. Eu olhei, assustada. Ele se aproximou.
— Larissa… — ele sussurrou — nós não somos eles.
- Sou uma fada — respondi — Você não é um vampiro, mas não é humano também.
Ele concordou com a cabeça, um sorriso meio torto, doce como de uma criança, mas não era uma criança. Não no sentido que os humanos conhecem.
- Quer sair um pouco daqui? — perguntou, segurando minha mão, percebendo que eu evitava olhar a fada morta.
Fiz que sim com a cabeça, meus olhos temerosos de ver minha mãe. Ou qualquer outra. Até mesmo Ellen. A chata da Ellen.
Caminhamos juntos por um longo tempo. Ele não parecia com pressa. Parecia em paz. Ele era um garoto diferente do que eu estava acostumada — claro -, era delicado e sensível a guerra. Falava com sentimento, com afeto, com amor. Quase como uma menina falaria — mas não era uma menina.
Paramos em um grande morro, longe da guerra e longe dos humanos. Dava pra ver Meriluz inteira, e uma boa parte de Florianópolis. Nenhum desses mundos me pertencia.
Ficamos ali por horas, conversando, falando do horror da guerra e da dor da perda — se houvessem. Éramos como dois amigos agora, nem parecia que nos conhecíamos a tão pouco tempo.
O beijo veio como um choque de energia, luz e sombra se misturando, nossas auras se fundindo em um instante impossível.
Era errado.
Era lindo.
E naquele instante, o barulho da guerra sumiu.
Márcia — Mariluz, mesma noite
Chovia cinza.
O sangue dos vampiros caía em gotas grossas, misturado à poeira da destruição.
Eu corri pelas ruínas, chamando por Michael.
— Michael! Onde você está?
Mas só o eco me respondeu.
Alguns dos nossos tentavam se reorganizar, outros fugiam. Eu não conseguia pensar em estratégia, em missão, em sobrevivência. Só pensava nele.
Lembro do dia em que apareci na porta da casa — ele ainda garoto, assustado. Eu o acolhi como um filho. Mesmo com tudo o que aconteceu. E agora…
Tudo o que encontrei foi um rastro de luz e um cheiro familiar de fada.
Quando o vento soprou, senti o perfume doce das asas dela.
Larissa.
— O que você fez? — murmurei para o vento.
Mas a resposta veio em forma de silêncio — um silêncio pesado, cheio de amor e tragédia.
E naquele instante, sem saber, compreendi:
algo maior tinha nascido ali.
Algo que nenhuma guerra conseguiria destruir.
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Narrador
Eles não sabiam, mas naquela noite o mundo mudou para sempre.
Enquanto Melissa sentia o silêncio que gritava dentro dela, Larissa tocava pela primeira vez o limite entre o amor e o abismo, e Márcia descobria o vazio que vem depois da perda.
As três não viam o mesmo céu — mas o mesmo destino já se escrevia por cima delas.
Um destino tecido em fios de luz e sombra, em promessas que atravessariam gerações.
Do beijo de uma fada e de um meio-vampiro nasceria o impossível.
Um coração que não pulsaria por magia, mas por humanidade.
Um ser sem asas nem presas, apenas o dom de transformar dor em vida.
E enquanto a guerra consumia o que restava dos reinos, algo — alguém — começava a se formar.
Em silêncio.
Entre cinzas, sangue e orvalho.
O futuro respirava.
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