Três vidas inteiras
9 Nove
Notas iniciais
'Maura!' A voz de Jane veio impaciente lá do andar de baixo. Ela tinha um horário com a médica obstetra na parte da manhã. Na verdade, ela seria a primeira a ser atendida naquele dia. A escolha do horário não tinha sido uma coincidência: ela não queria ter de explicar no trabalho porque estava saindo durante o expediente. Sair mais cedo de casa parecia a opção mais plausível para a consulta, porém implicava em três respectivos pontos: ela enfrentaria o enjoo matinal, enfrentaria o mau-humor de Jane por levantar tão mais cedo do que o costume e, por último, escutaria reclamações sobre o trânsito da cidade — o que tecnicamente estava ligado ao humor da morena.
'Eu estou indo!' Ela respondeu enquanto colocava o sapato de salto alto. O cheiro de café preto havia embrulhado seu estômago e ela passara mais tempo no banheiro do que pretendia. O enjoo matinal já havia entrado em sua rotina: acontecia logo no amanhecer do dia, e durava pouco mais que meia hora. Durante esse tempo ela tentava comer os biscoitos que Jane deixava todas as noites na mesa de cabeceira — elas logo descobriram que o alimento por ter sabor neutro, diminuía o estímulo sensorial do reflexo do vômito. Como em todos os outros dias, acabou funcionando dessa vez também. Ela agora estava pronta para sair de casa, e o enjoo havia ficado para trás.
Quando desceu as escadas, a primeira coisa que reparou foi no modo como Jane segurava a caneca de café com as duas mãos e a encarava emburrada. Maura não conseguiu evitar de imaginar que, quando pequena, Jane era a criança que odiava acordar cedo e passava o resto do dia irritada quando era obrigada a deixar a cama quente e confortável.
'Onde está a chave do carro?' A loira passou os olhos pela mesa mas nada encontrou.
Jane bateu a mão na coxa. 'No meu bolso. Eu dirijo.'
'O que? Não.' Ela esticou a mão para frente, mas Jane se colocou a andar e disparou.
'Eu desci primeiro. Eu dirijo.'
Maura revirou os olhos. Jane sempre jogava sujo quando o assunto era direção. Não querendo irritá-la ainda mais, Maura apenas abandonou a questão e a seguiu para o carro.
A viagem até o consultório tinha sido mais rápida do que Maura previra. Por ser tão cedo as pessoas ainda não tinham saído de casa para trabalhar, o que significava que as ruas estavam mais livres de carros. Elas entraram na clínica e cumprimentaram Rita, a secretária. Nos minutos de espera, Jane começou a folhear uma revista, não prestando muito atenção no que estava escrito ali, apenas nas figuras em si. Maura respirou fundo e soltou o ar lentamente. Dessa vez não era nada como da primeira que ela estivera ali, tão confusa, tão assustada. Agora era diferente. Ela estava calma, e até mesmo ansiosa para saber do bebê. Ela podia senti-lo crescendo dentro de si, minúsculo como era, mas ela sabia que ele estava ali. Num movimento involuntário, ela levou uma mão a barriga e a descansou ali em cima. A sensação agradável que pinicava sua pele desde o dia de Ação de Graças ainda perdurava. Ela tentava imaginar como seria no próximo ano, ela e Jane com um pequeno bebê, compartilhando e comemorando as celebrações de finais de ano juntas. Jane parecia tão esperançosa em relação ao futuro, Maura se lembrava de cada palavra dela durante a ceia. Aquilo era certamente contagiante, e embora ela soubesse que teria diversas situações para enfrentar ainda — algumas um tanto quanto desagradáveis, como a conversa com Jack — ela não podia deixar de se concentrar no momento presente. Era promissor. Aquele pequeno bebê vinha carregado de boas promessas.
'Maura Isles?' Rita a chamou e ela um olhar para a mulher. 'Vamos entrar?'
A loira concordou com a cabeça e olhou para Jane. 'Você vem comigo?'
'É claro. Não é como se essas revistas fossem interessantes.' Ela disse cheia de sarcasmo, mas depois sorriso para a loira. Ela sentiu a mão da detetive correr livremente pelas suas costas enquanto as duas andavam em direção à sala da médica. Com uma batida suave, Rita anunciou a presença delas, abriu a porta e indicou que as duas entrassem.
'Bom dia, Dra. Isles!' A médica loira e sorridente se levantou e apertou a mão de Maura.
'Bom dia.' Ela ofereceu um sorriso.
'E você é...?' A médica tinha se virado para Jane.
'Jane Rizzoli.' E ela não ofereceu nada mais do que isso.
'Doutora Rachel Campbell. Prazer em te conhecer. Sentem-se, por favor.' Ela indicou as cadeiras e as duas sentaram.
O consultório era claro, relativamente grande. Os móveis eram de cor clara, e traziam certa tranquilidade. Maura mal tinha reparado no ambiente da outra vez que estivera aqui. Agora com Jane ao seu lado, ela estava confiante, e ela sentiu um leve tremor percorrer as mãos. Ela não sabia o que realmente esperar da consulta, considerando que ela já sabia em qual estágio o feto estava e que não havia necessidade de discutir qualquer ponto desconhecido ou mudanças de seu corpo. Ela era médica, ela conhecia tudo aquilo. Haveria então algo além de termos médicos? Ela sabia que sim, e era algo que fugiria do seu próprio controle.
'Então... Como você tem passado?' A médica sorriu-lhe amigavelmente.
Maura piscou os olhos e apertou os lábios. 'Os enjoos começaram, me sinto cansada e indisposta e meus seios estão doloridos. As maiores mudanças são essas.' Ela disse clinicamente.
'Bem, é o esperado. Nada fora do comum? Sangramentos? Manchas?'
Maura se encostou na cadeira e cruzou as mãos em cima da barriga, se sentindo incomodada com a pergunta. 'Não. Nada.' Ela disse firmemente. Era um grande avanço, ela pensou. Semanas antes ela queria abortar o bebê, e agora se sentira quase ofendida com a sugestão de um simples sangramento.
'Isso é ótimo.' A médica piscou os olhos azuis para ela. 'Bem, vamos fazer um ultrassom? Quero ver como esse bebê anda.' Ela se levantou, pegou a camisola hospitalar e entregou à Maura. 'O banheiro é logo ali.' Ela indicou com a mão e Maura se retirou de lá.
Nos minutos em que a médica se trocava, a sala permaneceu em silêncio. Jane também havia se levantado e esperava ao lado da maca. Quando Maura saiu de lá, agora vestida apropriadamente para a ultrassom, ela se sentou e deitou-se em seguida e se sentiu segura pelo simples fato de Jane estar ali, segurando sua mão. Sim, a morena havia guardado uma de suas mãos entre as delas, e a olhava carinhosamente, mas Maura podia ver a ansiedade vibrando nos olhos da outra. A médica expôs a barriga de Maura, mas Jane olhava apenas para seus olhos, em expectativa.
Quando o gel frio tocou sua pele, Maura se encolheu ligeiramente, pega de surpresa. Seu olhar recaiu sobre o monitor — dessa vez ela queria ver o bebê, conhecer suas novas formas. Ela prendeu a respiração quando a imagem brilhou na tela. Parecia um borrão, um negligentemente pintando por uma criança. Mas era um que ela sabia identificar. Lá estava o pequeno feto, seu feto.
'Oh.' Jane disse impressionada enquanto observava. Os olhos negros estudavam atentamente a imagem enquanto a médica traçava marcações que ela não entendia.
'Oito semanas. Certo, Dra. Isles?' A loira murmurou, atenta nas imagens do ultrassom.
'Certo.' Maura respondeu e olhou para Jane. 'Ele é bem pequeno ainda, apenas alguns centímetros.'
Jane sorriu para ela, concordou com a cabeça e continuou a encarar o monitor. Algo dizia à Maura que a morena poderia passar o resto da gravidez acompanhando o bebê por ali. Ela não estava falando, mas seu olhar a entregava: ela estava admirando cada pequeno traço dele, cada movimento capturado pela máquina. Maura sorriu com a reação de Jane. Era no mínimo fofa.
'Bem, de acordo com o que capturei o feto tem dois centímetros e... dois milímetros! É um feto saudável. E aqui está...' E de repente um som ritmado preencheu a quietitude da sala. 'As batidas do coração.'
Jane e Maura arfaram com o som. A morena olhou espantada para a loira enquanto as batidas ecoavam e dançavam entre elas. Aquele pequeno barulho acelerado tornava tudo tão real. Era um bebê. Era um bebê novo e pequeno que estava crescendo dentro de Maura — ele realmente estava lá, amadurecendo a cada dia, protegido pelo corpo da loira, agora mandando um sinal de sua existência para o mundo de fora. Era como se estivesse dizendo um olá que vibrava no mais puro e inocente som. Vibrava pelo corpo de Maura, e Jane podia senti-lo pulsar através das duas mãos que seguravam a mão da loira. Em sua essência, as conectavam em níveis abstratos. E mesmo que as mãos se soltassem, elas agora estariam unidas por uma substância invisível, porém tão forte a ponto de se fazer presente.
Era o som que as embalariam pelo resto de suas vidas.
Jane tinha os olhos marejados quando se inclinou e beijou a testa da mulher. 'Oh, Maura, escuta isso! É a música mais linda de todas.' Ela riu e beijou a bochecha da médica. Ela estava tão feliz e emocionada que nem se importou em demostrar tamanho afeto em frente a uma pessoa desconhecida. Ela acariciou o cabelo da médica e continuou curvada, o rosto perto do dela. 'Você viu? Esse é o bebê. Não é maravilhoso?'
E se Jane estava feliz, Maura não tinha palavras para descrever o que estava sentindo. Ela fechou os olhos por um minuto e se sentiu terrivelmente culpada por ter pensado em descartar o bebê um dia. Rapidamente a culpa foi substituída por uma alegria genuína, duradoura, que ia aumentando conforme o som das batidas continuavam a encher o ar. Ela riu de volta para Jane e não se incomodou em limpar as duas lágrimas que escorreram do rosto. Aquele era o som da vida, uma vida que ela estava carregando, tão pequena e já tão forte. Expressando-se primitivamente do único jeito que poderia: com o pequeno pulsar de sua existência. Agora sua presença era tão concreta como os dedos de Jane que pressionavam carinhosamente seu rosto, num gesto de afeição que desconcertava Maura. 'É maravilhoso.' Ela concordou com a morena e as palavras saíram tremidas. 'É fascinante.' E era. E também hipnotizante. Maura fechou os olhos e escutou as batidas enquanto elas duraram. Talvez ela conseguisse memorizar os compassos.
'Nós podemos ter uma cópia disso? Por favor, diz que podemos.' Jane se virou empolgada para a outra médica.
'É claro que sim. Melhor qualidade de imagem e som.' A médica riu com a própria piada — e com entusiamos da morena.
'Perfeito.' Ela se virou para Maura. 'Talvez nós devêssemos compor uma música com isso. Que tal um rap?' Ela provocou Maura.
A loira riu e balançou a cabeça enquanto sentia a médica limpar o gel de sua barriga. 'Não me faça pensar que te envolver nisso é uma terrível idéia.'
Jane fez um barulho com a boca para deixar claro seu desdém. 'Eu posso compor um sozinha, então.'
'Bem, eu toco gaita, caso pense em montar uma banda.' A doutora entrou na brincadeira e Jane já tinha que dizer que gostava dela.
'Vê, Maura? Esse é o espírito.' Jane apontou o dedo para mulher e levantou as sobrancelhas.
'Por favor, não a encoraje. Já me basta ter que ouvir Led Zeppelin quando ela está dirigindo.'
A médica e Jane trocaram um olhar furtivo. A morena ficou séria, apontou um dedo para si mesma e depois para a outra. 'Você acabou de insultar uma legião de fãs aqui, Maura.'
Maura se sentiu um tanto desconfortável sob o olhar da Dra. Campbell. É claro, ela não tinha intenção de provocar ninguém. 'Bem, eu... Acho melhor eu me trocar.' Ela se levantou da cama e as duas mulheres riram baixinho.
'Fique a vontade, Dra. Isles.' A médica disse enquanto se voltava para sua mesa. Ela apontou a cadeira para Jane para que a morena se sentasse também.
Depois de se acomodar, Jane cruzou as mãos sobre as pernas. 'Bem... Tá tudo certo com o bebê, não é mesmo?'
'Absolutamente correto.' Ela piscou os olhos claros e se fez uma pausa antes de continuar. 'Bem, eu tenho algumas recomendações para fazer — não, não precisa fazer essa cara. São só conselhos de rotina.' Ela adicionou quando Jane arregalou os olhos.
'Oh. Certo.' Ela virou a cabeça e analisou a sala. Algumas fotos de crianças sorridentes estavam em porta-retratos espalhados pela mesa e estante. 'Você tem filhos? Desculpa eu não quero me intrometer.' Ela acrescentou em seguida, se sentindo mal por fazer perguntar tão íntimas para uma pessoa que mal conhecera.
'Eu? Tenho duas meninas. Dois e quatro anos. São essas aqui.' Ela apontou o dedo para para uma foto perto de Jane, ignorando o desconforto da outra.
A morena sorriu com a imagem das crianças sentadas em cima de uma coberta macia e rosa, abraçadas e sorrindo para a câmera. As duas tinham cabelos castanho claro, os olhos azuis. Elas eram tão parecidas que se não fosse a diferença de tamanho, poderiam se passar por gêmeas.
'Uau, elas são lindas.'
'Obrigada. E elas são sapecas também, mas elas são minha felicidade.'
Jane sorriu em simpatia e balançou a cabeça em compreensão. Ela pensou em TJ e o quanto ela gostava de ficar com ele. Um momento depois Maura estava se sentando de volta na cadeira.
'Bem... Eu creio já saber a resposta, mas devo perguntar assim mesmo. Da última vez mencionou um aborto.' A médica prosseguiu com a consulta. 'Essa ainda é uma alternativa a ser considerada?'
'Não, definitivamente não. Eu vou ter o bebê.' Maura disse sem pensar duas vezes.
'Como imaginei. Então devo aconselhar alguns cuidados — que você provavelmente já sabe. Em todo caso: hidrate-se com suco, água a todo momento. Lembre-se de comer fibras, vegetais e frutas. Isso é muito importante para o desenvolvimento do bebê.' Ela sorriu para Maura. 'Você já encontrou a solução para os enjoos, certo?'
'Certo.' Jane e Maura responderam em uníssono.
A médica levantou as sobrancelhas e dessa vez sorriu sugestivamente. 'Entendo. Perfeito. Há algo mais que queiram me perguntar?'
Jane respirou e ergueu um dedo como para indicar que ela quem iria falar, mas tão logo começou, a médica a cortou.
'Sim, não me esqueci da cópia do ultrassom, Rizzoli.'
'Na mosca.' Jane disse e Maura revirou os olhos, rindo.
'Me liguem se precisarem de alguma coisa, a qualquer hora do dia.' E depois ela se dirigiu à Maura. 'Fico feliz que tenha decidido ter o bebê. Como disse para Jane, eles são motivo de felicidade.
'Obrigada.' Maura sorriu e lançou um olhar para Jane. Ela poderia muito bem dizer, agora, como ele era o motivo de sua felicidade e da de Jane também.
'Bem, espero vocês daqui algumas semanas?' Ela perguntou porque honestamente não saberia se Jane estaria lá na próxima vez, considerando que não estivera na primeira.
'Sim, nós nos vemos.' A própria morena respondeu e se levantou. 'Vamos Maura, eu não vejo a hora de começar a trabalhar naquele projeto. Já tenho um verso pronto na minha cabeça.' Ela sorriu malignamente e Maura esfregou a testa antes de se levantar.
'Espero poder ver uma prévia.' Campbell adicionou.
'Vocês estão me castigando por causa do Led Zeppelin, não é mesmo?' Ela suspirou.
'Oh, Maura. Nós nunca faríamos isso.' Elas trocaram um sorriso em cumplicidade e Maura soube que ela pagaria pelo comentário durante um tempo.
'Vejo vocês logo.' A médica acompanhou as duas até a saída e depois voltou para sua sala.
Como da outra vez, Rita entregou um envelope para Maura. Ela sentiu uma onda de calor percorrer o corpo ao se lembrar do que havia ali dentro: um vídeo de seu ultrassom, e as batidas do coração de seu bebê. As duas caminharam para fora da clínica, cada uma com um sorriso de contentamento no rosto. Estava frio do lado de fora, e as pessoas andavam acanhadas na rua, mãos nos bolsos e cabeça baixa. A calçada estava molhada por causa de uma breve chuva que caíra enquanto estiveram lá dentro e refletia o cinza do céu e algumas luzes amarelas da rua.
'Maura.' Jane a chamou e a médica se virou para ela.
'Sim?'
Jane esboçou um sorriso. 'Nós vamos ter um bebê.'
Nós vamos ter um bebê. As palavras pareciam ter ecoado na rua, vibrado em cada poste, placa, passageiro. Era como se gritassem para o mundo a mais nova condição das duas. Nós vamos ter um bebê. Nós. Sim, Jane acabara de dizer que aquele bebê também era dela. Maura sorriu, deu dois passos como impulso para frente e abraçou o pescoço de Jane.
A morena a agarrou pela cintura, levantou-a do chão e a girou numa volta completa. Jane sempre a pegaria, ela sempre estava pronta e disposta. Maura ergueu os pés para trás e riu com o movimento. O ar que saiu de sua boca se condensou por conta do frio. 'Sim, nós vamos ter um bebê!' Ela devolveu os pés no chão mas não se afastou da mulher. Os fios negro de cabelo roçavam seu rosto, e as duas permaneciam abraçadas firmemente. Barriga encostada com barriga, peito com peito.
Um vento soprou o rosto de Maura e rodopiou algumas folhas secas no chão. Ela encostou seu rosto na bochecha de Jane e se perguntou, naquele exato momento, se o coração da outra batia em sincronia com o dela e com o coração do bebê.
...
'Você está pronta?' Susie perguntou para Maura e ela balançou a cabeça entusiasticamente em sim.
'Pronta.' O que tinha de errado afinal, em fazer uma experiência inofensiva? Ela esta feliz, radiante, e queria que o dia se prolongasse com aquela sensação. Quando Susie sugeriu o pequeno experimento, ela não via por qual razão não fazê-lo. Era material pessoal da morena, nada retirado dos impostos dos contribuintes. Elas concordaram que se encontrariam no laboratório quinze minutos antes do almoço terminar. E agora lá estavam elas, Susie com um tubo de ensaio na mão com algumas gramas de tiocianato de potássio dentro. Quando Maura acenou com a cabeça, Susie jogou o conteúdo dentro de um frasco que continha um líquido branco.
O líquido branco se tornou vermelho com o pó adicionado e começou a borbulhar. Maura estava achando engraçado, até que o frasco se trincou e quebrou em seguida, esguichando líquido vermelho nos jalecos delas.
'Oh meu Deus!' Maura quase gritou e se certificou de que a substância não havia entrado em contato com sua pele.
'Oh, não!' Susie pulou para trás e levantou as mãos.
Elas trocaram um olhar assustado, mas depois dispararam a rir.
'Você está bem?' A mais nova perguntou.
Maura levantou a aba do capacete de proteção. 'Sim! Mas me deu um grande susto! Você?'
'Tudo bem.' Susie respondeu e olhou para a bagunça. 'Bem, não foi totalmente um desperdício.'
'Ora, vejam só. As nerds estão se divertindo.' A voz de Jane a antecedeu. Maura se virou rapidamente e lançou aquele sorriso cujo qual a única receptora era Jane.
'Bem, é sempre bom testar novos experimentos, você sabe, pode até mesmo ajudar em algum caso.' Ela trocou um olhar de cumplicidade com Susie.
'Certo.' Jane olhou em volta reparando na bagunça e franziu o cenho. 'Eu nem vou perguntar.' Ela apontou com o dedo para a mesa que estava coberta de líquido e as roupas sujas das duas. 'Apenas vim dizer que temos um compromisso hoje a noite. Eu e você. Frankie e a namorada dele. Depois que sairmos daqui.'
'Oh. Um duplo encontro?' Maura inclinou a cabeça para o lado, a curiosidade estampada no rosto.
'Bem, chame como quiser.' Jane disse e deu de ombros. 'Mas nós temos que estar lá.'
'Certo.' Ela respirou e apontou o dedo para Susie. 'Nós vamos testar uma outra solução. Quer participar?'
Jane torceu os lábios e nem respondeu. Apenas meneu a cabeça uma única vez e saiu de vista.
Maura encolheu os ombros e se voltou para Susie. 'Ela não sabe como é divertido.'
E Susie pareceu tão empolgada quanto Maura quando a loira separou um outro tubo de ensaio.
...
Maura não tinha certeza se um encontro duplo era a melhor opção para o fim daquele dia. Ela não queria que aquela bolha em que ela e Jane estavam vivendo desde que saíram do consultório estourasse, mas mesmo assim, ela não poderia dizer não à morena — ou a Frankie, nesse caso, já que era ele quem tinha reservado uma mesa num restaurante e insistido para que as duas fossem. Se ela decidisse não ir, pareceria mal educada, e Maura Isles tivera a mais fina educação que alguém poderia ter.
Quando saíram do carro, Jane a alcançou e a mão da morena pousou em suas costas. A morena estava vestida com uma calça jeans escura, uma blusa branca e justa ao corpo que descia até a altura do quadril e uma jaqueta preta de couro que caía até a cintura. Já Maura vestia uma bota preta de salto fino, um Trench Coat preto que seria dispensado, uma vez dentro do restaurante, para relevar o vestido verde-queimado com decote em V. Elas trocaram um sorriso e analisaram o restaurante de porte médio e convidativo. Era um restaurante italiano bastante conhecido, e Maura suspirou ao se lembrar de que massa só adicionaria algumas gramas a mais aos dois quilos que ela já tinha ganhado. Ela se sentiu insegura de repente, auto-crítica como era, e olhou para Jane a ponto de querer lhe perguntar se ela estava apresentável, entretanto a figura de Frankie mais adiante chamou sua atenção, e ela ergueu a mão e acenou para o homem. No mesmo momento em que a mão de Jane abandonava sua cintura. Maura olhou para o lado, intrigada, e descobriu que a morena tinha ficado alguns passos para trás.
'Perdoe-me, não foi minha intenção...' Um homem alto e bonito, moreno e de olhos claros, balançava as mãos para Jane. Maura parou e observou a troca.
'Não foi nada, não se preocupa.' Jane disse dispensando a visível preocupação do homem.
Então era isso, ele tinha esbarrado nela.
'Espera... Você não é aquela detetive? Não me diga o nome, eu me lembro. Rizzoli, certo?' Maura tinha quase certeza que ele reconhecera Jane antes mesmo de esbarrar nela, a julgar pela voz dele.
'Sou eu.' A morena disse e sorriu. Maura franziu o cenho e cruzou as mãos na frente do corpo.
'É claro, eu não me esqueceria. Você tem um rosto memorável. Eu sou o Harry.' Ele estendeu a mão e abriu o melhor sorriso que um homem cheio de dinheiro poderia comprar.
'Jane Rizzoli, mas você já sabe.' Ela riu levemente e apertou a mão do estranho.
'Então, ahn...' Ele começou.
Maura estava inquieta. Ela não gostava do jeito que o homem olhava para Jane, estudava seu rosto... seu corpo. Ela andou alguns passos até a morena e invadiu — ainda que educadamente — a conversa. 'Perdão por interromper.' Ela disse para o homem e olhou para a detetive. 'Jane, você está pronta? Estão nos esperando.' Ela fixou o olhar e passou um braço em torno da cintura da outra, possessivamente. O que ela estava fazendo, afinal? Jane não era dela, e ela só estava tendo uma conversa amigável com um estranho. Era isso, aquele homem era um completo estranho e era por isso que Maura não queria Jane compartilhando o que quer que fosse da vida pessoal com ele.
'Eu, ahn... Essa é a Dra. Maura Isles.' Ela correu a mão pelo cabelo e depois apontou para a loira.
'Prazer em te conhecer.' Maura disse antes que o homem pudesse esticar a mão. Ela apenas sorriu e piscou os olhos.
'O prazer é meu.' Ele disse com o mesmo sorriso e escondeu as mãos no bolso.
'Nós precisamos ir.' Jane anunciou.
'Limoncello, hum? Tenho uma reserva aqui também.' O homem adicionou e Maura apertou os dentes para não revirar os olhos. Ele havia passado do ponto da inconveniência.
'Ótima escolha. Um lugar perfeito para ter um jantar aconchegante e caloroso junto a amigos ou familiares.' Maura ofereceu. 'E por falar em familiares... Jane, nós realmente deveríamos ir.' Ela apertou a mão na cintura da morena e lançou um olhar de desculpas — embora não verdadeiras — ao homem.
'Tudo bem. Foi um prazer encontrá-las.' Ele disse e meneu a cabeça e se retirou logo em seguida.
Jane olhou horrorizada para Maura. 'O que há com você? Ele só estava sendo legal.'
'Depois de quase te arremessar ao chão? Interessante sua nova definição de legal.' Ela rebateu, agora irritada porque a detetive tinha defendido o outro.
'Ele não...' Elas começaram a andar novamente. 'Você está com ciúmes.' A brincadeira da morena pegou em flagrante seu mais latente sentimento.
'Não seja ridícula.' Ela soltou da cintura da outra que curiosamente ainda estava segurando, e lançou um olhar em reprovação à morena. 'Qualquer um veria que ele esbarrou em você de propósito, Jane. Achei que você não se enganaria tão fácil. Além disso, não seria nada educado deixar o seu irmão esperando por nós, considerando, principalmente, o fato de que nós já tínhamos nos avistado.'
Jane respirou fundo ao seu lado e não disse nada. É claro, ela não iria comprar a briga. Em outras situações — aquelas em que as provocações eram nada mais do que brincadeiras inofensivas — ela rebateria, mas ela sabia melhor do que ninguém do que irritar Maura Isles.
'Ei, Frankie.' Jane parou a alguns passos do irmão. Ela observou a mulher que tinha se juntado a ele. Jane quase abriu a boca em espanto. Ela era bonita, alta, a pele branca e o cabelo liso, escuro. Os olhos eram castanhos claro, e um belo sorriso dançava em seu rosto. Onde Frankie tinha conhecido aquela mulher?
'Oi Jane, Maura.' Ele indicou a mulher e depois as duas. 'Essa é Amy. Amy, essa é minha irmã Jane, e essa é...'
'Dra. Maura Isles!' A mulher disse numa empolgação contida.
Maura arqueou as sobrancelhas e sorriu. 'Você já me conhece?' Ela apertou a mão da outra.
'Claro! Minha irmã mais nova estuda com a sua irmã Cailin. É claro que já tinha te visto em jornais e até mesmo na TV, mas foi por acaso que um dia, enquanto Cailin estava em casa estudando com Kristen, acabei descobrindo a conexão.'
'Oh. Isso é interessante. O mundo é pequeno, não é mesmo?' Maura sorriu delicadamente.
'Sim, incrivelmente pequeno.' Ela se voltou para Jane. 'E também já li muito sobre você.'
Jane abriu os olhos, surpresa. 'Sobre mim? Bem, eu não sabia que eu era famosa.' Ela riu e levou uma mão na cintura de Maura. De alguma forma ela se sentia mais calma com o toque.
'Eu sou psiquiatra, estudo patologias. Na minha residência um dos assuntos mais comentados na época era Hoyt.'
Jane nem se incomodou com a menção do nome. Ele não a assombrava mais. 'Bem, talvez você queira trabalhar com criminologia?' Ela sugeriu.
'Não. Não mesmo, isso não é para mim. Eu prefiro trabalhar com os esquizofrênicos, jamais me atreveria a me meter com os perversos.'
Jane torceu os lábios, impressionada. De novo: aonde Frankie tinha conhecido aquela mulher? Ela parecia... areia demais para o caminhãozinho dele.
'Devemos entrar?' O homem perguntou e elas concordaram com a cabeça.
Eles foram guiados até uma mesa e se sentaram. Maura ao lado de Jane, Frankie ao lado de Amy. O garçom eficientemente anotou os pedidos de entrada.
'Bem', disse Jane, 'como foi que vocês se conheceram?' Por que aquela era a pergunta que não queria calar.
'No mês passado seu irmão prestou um serviço para um dos pacientes da clínica em que trabalho.' Amy ofereceu.
'Mas Frankie trabalha na divisão de homicídios.' Maura se inclinou para frente, curiosa.
'Exatamente.' Amy disse com pesar. 'Esse paciente cometeu suicídio, mas vocês sabem como é. Alguém encontra o corpo, liga para a polícia. Um exame médico meticuloso é requisitado.'
'Oh, sinto muito.' Maura disse, sabendo que provavelmente ela tinha sido a médica a fazer a autópsia. Em sua mente cartesiana, ela conseguia até se lembrar do homem deitado em sua mesa, no mês anterior. Era o único que tinha sido concluído como caso de suicídio.
'Obrigada.' Ela respondeu. 'Enfim, foi assim que conheci Frankie. Nós tivemos um mal começo se você quer saber. Seu irmão é meio cabeça dura.'
'Ei! Isso... É verdade.' Frankie confessou e fez Maura rir.
'Bem-vinda a família Rizzoli.' A loira riu divertida com a expressão de Jane.
'Eu não sou teimosa, Maura!' Ela se defendeu e só depois percebeu que tinha acabado de entregar o jogo.
Amy riu e se direcionou a Maura. 'Bem, vejo que você já está familiarizada.'
'São seis anos.' Ela levantou um ombro e abaixou rapidamente, como se dissesse já estou conformada.
Elas compartilharam uma risada e Jane lançou um olhar horrorizado para Frankie. Maura e Amy tinham acabado de se unirem contra eles?
'Ok, isso não é nada legal.' A morena franziu os lábios. Embora parecesse emburrada, ela estava gostando de Amy. Ela era agradável, inteligente, e de uma forma estranha combinava com seu irmão.
A conversa fluía naturalmente, e Maura considerou convidá-los futuramente para outro encontro como esse. Em questão de escolha de mulher, Frankie era totalmente diferente de Tommy, ela observou. Ela prestava atenção na troca de informações, nas pequenas provocações de Jane e Frankie — coisas de irmãos — e ria eventualmente com situações descritas que soavam engraçadas. A essa altura, eles já estavam terminando o prato principal, e Maura jurava que a hora tinha passado como um piscar de olhos. Ela bebericou seu suco e levantou os olhos quando sentiu a presença de alguém ao seu lado.
'Com licença.' Disse o garçom interrompendo a conversa deles. 'Isso é para a senhorita.' Ele disse formalmente e entregou um pequeno pedaço de papel para Jane.
'Obrigada.' Ela respondeu e abriu. Leu a seguinte mensagem em voz baixa, grave: Imagino se posso ter teu telefone.
'Haha, quem é esse, Jane?' Frankie perguntou, se divertindo com a situação.
'Alguém que encontrei ali fora.' Ela respondeu e riu. Embora não pudesse ver nesse momento o homem, ela sabia que ele estava ali, já o tinha visto quando entrara.
'Bem,' Maura disse, parecendo mais uma vez irritada, 'vamos ver o quanto ele está interessado em você.' Ela tomou o papel da mão da morena, tirou uma caneta da bolsa e rabiscou uma equação matemática e depois alguns dizeres. Todos franziram o cenho. 'Se ele resolver corretamente, o resultado será os primeiros número do seu celular. Adiciono o resto assim que obter a resposta.' Ela explicou enquanto entregava ao mesmo garçom que estava de passagem o papel.
'Você não pode decidir isso por mim. É o meu telefone!' Jane rebateu.
A loira deu de ombros e bebericou o suco de uva. 'Veremos.'
Jane revirou os olhos e cutucou a comida com o garfo. Frankie e Amy trocaram um olhar significativo. Um silêncio se instalou entre eles, mas Maura parecia confortável o suficiente, convencida de que o homem jamais conseguiria resolver tal equação. Para sua surpresa, entretanto, o garçom parou alguns minutos mais tarde ao lado de Jane, mais uma vez com um bilhete na mão.
Jane abriu a boca depois de ler o bilhete e o mostrou para todos, discretamente. 'Ele conseguiu.' Ela sussurrou, surpresa.
Maura pareceu perturbada. Ela agarrou o papel da mão de Jane e estudou os números. Sim, estavam corretos. Irritada, ela pegou a caneta e acrescentou os últimos.
'Pronto.' Ela disse e devolveu o papel para a detetive.
'Ei... Esse não é o número do meu celular.' Ela resmungou, conferindo o papel.
'Ele vai descobrir isso quando tentar te ligar.' Maura sorriu pacificamente.
Frankie riu e olhou para Amy. 'Bem, essa foi boa.'
'Quer saber? Deixa pra lá.' Jane disse e acenou para o garçom que apareceu rapidamente à beira da mesa. Ela entregou o papel de volta e deixou o assunto morrer. 'Frankie, boa escolha ter vindo aqui. A comida é ótima.'
'Foi Amy que sugeriu, na verdade.' Ele cutucou gentilmente com o cotovelo a mulher.
'Bem eu já vim aqui algumas vezes, e seu irmão me disse que vocês gostam de comida italiana, imaginei que fossem gostar.' Ela sorriu gentilmente.
'Oh, o que? Nosso sobrenome nos entrega?' Jane provocou, mas a mulher balançou a cabeça em negativa.
'Oh, bem, ele carrega uma leve sugestão, mas Frankie me contou que sua mãe sempre cozinha para vocês aos domingos, pratos italianos.' Ela bebericou o vinho.
Ok, ou aquela mulher estava tentando se passar por legal, ou ela realmente era legal. Tinha sido muito atencioso de sua parte considerar o gosto de todos eles antes de sugerir um local. Jane sorriu e ofereceu: 'Bem, talvez você queira se juntar a gente, em um desses jantares?'
'Eu ficaria muito feliz.'
'Você será bem-vinda.' Maura acrescentou e franziu o cenho quando sentiu a vibração do celular. Ela o alcançou dentro de bolsa e olhou para o visor. 'Me desculpem, é uma mensagem de minha mãe. Preciso ler.'
Todos concordaram com a cabeça. Ela desbloqueou o celular e se concentrou no conteúdo. Droga, há quanto tempo ela não falava com a mãe? Fazia um mês? Talvez fosse isso. Algo de errado tinha acontecido? Sua mãe não costumava mandar mensagens de texto. Essa era curta e objetiva.
'Tudo bem, querida?' Jane colocou a mão em seu ombro e ela quase se sobressaltou.
'Sim, é só minha mãe.' Ela guardou o celular de volta na bolsa. 'Pediu para que eu ligasse assim que pudesse. Bem, isso é incomum.'
'Tenho certeza que não é nada grave, Maura. Não se preocupada.' A morena acariciou seu ombro mais uma vez antes de afastar a mão. 'E aí? Quem tá pronto para a sobremesa?'
...
Tinha sido agradável, no mínimo. Maura e Jane tinham concordado que Amy era, sem exageros, perfeita para Frankie. Ela era bonita e inteligente, e tinha um toque de delicadeza. A noite tinha se encerrado da melhor forma possível e Maura suspirou contentemente quando se sentou no sofá de sua casa. Ainda com a mensagem da mãe na cabeça, a loira pegou o telefone e calculou as horas. Bem, seriam 5:30 da manhã em Paris, mas a mãe pediu para que ligasse assim que pudesse. Discando os números, ela quase temeu o motivo. O telefone chamou algumas vezes antes da voz sonolenta de Constance atendê-lo.
'Olá, mãe.' Maura disse, um tanto quanto nervosa. 'Eu te acordei.' E não tinha sido uma pergunta. Ela lançou um olhar para Jane enquanto a mãe dizia algo no telefone. 'Eu também, mãe. Sinto muito por tê-la acordado, mas você disse que era urgente.' Ela tamborilou os dedos na coxa e soltou um suspiro de alívio quando a mulher lhe explicou a razão. 'Bem, isso é inesperado.' Mais algumas palavras. 'Certo, eu farei tudo ao meu alcance. Obrigada, mãe.' Ela se surpreendeu com as últimas palavras e murmurou: 'Eu te amo também.' E desligou.
Jane se sentou do seu lado e se encostou no sofá. 'E então?'
Maura se remexeu, passou a língua entre os lábios e a encarou. 'Quais são seus planos para o Natal?'
A morena riu e deu de ombros. 'Quaisquer que sejam os seus.'
'Bem... Então devo lhe informar de que nós iremos para Paris.'
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