Notas iniciais
Paris, aí vamos nós!

Oito horas. Oito intermináveis horas dentro de um avião. Os dias que se sucederam à ligação de Constance tinham passado mais rápido do que o tempo dentro jato. Jane não gostava de voar. Não é como se ela tivesse medo, ela simplesmente não gostava da sensação de estar suspensa a sabe-se-lá-quantos metros de altura; não gostava do zumbido no ouvido e não gostava, principalmente, de não poder se mexer livremente. Desde quando, afinal de contas, Jane Rizzoli conseguia ficar quieta por mais do que trinta minutos? Aquilo deveria ser seu recorde pessoal: oito horas.

Entretanto, o que surpreendeu Jane não foi o longo período que ela permaneceu quieta. Aquela atitude vinha de uma razão maior: Maura. Ela não esperava que os eventos acontecessem daquela forma. Maura sempre gostara de viagens longas de avião, ela nunca se sentia incomodada e geralmente permanecia calma o tempo todo. Mas depois de uma hora de ter decolado, os papéis começaram a se inverter: Maura se remexia a todo momento no assento e frequentemente reclamava de uma ligeira sensação de incômodo nos ouvidos. A detetive sentia também, e por isso não deu muita importância no início. A todo momento Jane checava se o cinto da loira estava sobre a pelves, e não sobre a barriga — aquilo evitaria os choques que o útero consequentemente receberia. Voar era estressante, e mesmo estando na primeira classe — Maura insistira em pagar as passagens — o desconforto ainda existia. Por alguma razão, quando as duas decidiram deitar no assento e tentar dormir por pelo menos metade da viagem, Jane começou a desconfiar de que algo estava errado com a médica.

Ela parecia pálida. Ou era só a luz vinda de cima e iluminando as duas? Maura se virou para o lado e colocou a mão em baixo da cabeça. Se encolheu.

Jane se debateu entre deixá-la dormir ou checá-la. Decidindo-se, ela esticou a mão e tocou as costas da médica e Maura virou o rosto para ela.

'Você não parece bem.' A morena disse.

'Bem...' Ela suspirou. 'Talvez seja a gravidez? Acho que minha pressão subiu um pouco.' Ela disse e se virou para a morena.

Jane arregalou os olhos. 'Você tá sentindo dor? Eu vou chamar a comissária de bordo e -' Ela disse se sentando, mas Maura segurou sua mão, impedindo-a de se mover.

'Não, Jane. Tá tudo bem.' Maura apertou delicadamente a mão dela antes de soltar.

'Não, não tá, Maura.' Ela avistou a comissária e ergueu a mão. Maura revirou os olhos.

'Francamente, Jane, você não precisava...' Maura começou, mas logo foi cortada pelo chegar da outra mulher. Ela era morena e tinha olhos escuros como os de Jane.

'Posso ajudá-las?' Ela sorriu em simpatia para as duas.

'Você pode checar a pressão dela? Ela não tá bem.' Jane pediu com urgência.

Maura se sentou e balançou a cabeça. 'Não há necessidade, é apenas um ligeiro desconforto.'

'Ela tá grávida.' Jane disse de uma vez, ganhando um olhar afiado da loira. Ela ergueu as mãos e se defendeu. 'O quê? Eu me informei, ok, Maura? Eu sei que a pressão pode subir quando você tá grávida. A pressão aqui em cima é menor e você ainda precisa respirar por dois.'

Maura estava de queixo caído. Desde quando Jane tinha começado a ler coisas sobre aviões e gravidez? Ela piscou os olhos e se voltou para a comissária, que assistia a troca das duas, sem saber ao certo o que fazer. 'Isso é verdade, mas...' Ela olhou para Jane de novo e mais uma vez para a comissária.

'Nesse caso eu sugiro que você fique um pouco no oxigênio. O que você acha?' A mulher aguardou pacientemente enquanto Maura se decidia. 'Eu vou checar sua pressão de qualquer jeito.'

'Por favor, faça isso.' Jane pediu na mesma urgência do que antes.

'Estarei de volta em um minuto.' A mulher respondeu e logo se afastou.

Maura se virou para Jane em completo choque. 'Você perdeu a cabeça? Jane, o aumento da pressão é normal. Não tinha necessidade de nada disso! Oxigênio? Sério?' Ela resmungou e franziu as sobrancelhas.

'Eu quero que vocês respirem bem!' A morena sussurrou de volta para ela, parecendo determinada e irritada pela teimosia de Maura.

A loira respirou fundo e se deitou de novo. 'Isso é ridículo.' Ela cruzou as mãos em cima da barriga.

'Você é ridícula.' Jane retrucou e riu com a careta da outra.

'Nós vamos voltar em vôos diferentes.' Maura devolveu e tentou segurar o riso.

'Ha-ha.' Ela disse com sarcasmo, depois apertou os olhos em pensamento e deu de ombros. 'Bem, nesse caso, quem sabe eu não encontro um passageiro mais legal que você?'

Maura abriu a boca em um O e depois deu um soco no braço do morena. A troca das duas foi interrompida pela comissária, mais uma vez. Bastou apenas um minuto para medir a pressão da médica, e outro para colocá-la no oxigênio. Ela não pareceu nada feliz com a situação.

'Eu odeio você.' Ela murmurou para Jane enquanto arrumava o tubo no nariz.

'De nada.' Jane disse enquanto cobria Maura com a coberta fornecida pela companhia aérea.

'Você sabe, eu não estou doente.' A médica disse enquanto colocava as duas mãos sob a bochecha, depois de se deitar de lado.

'Não está. E eu odiaria se ficasse. Agora tenta dormir um pouco, ok?' Jane observou enquanto a outra balançava a cabeça. 'E Maura, se você não se sentir bem, só me avisa, tá?'

'Jane, eu estou bem.' Ela disse firmemente, mas quando Jane lhe lançou um olhar cético, ela apenas concordou. 'Tudo bem.'

E então Jane se curvou e beijou sua testa, da forma mais natural de todas. Depois disso a médica finalmente conseguiu dormir, e Jane sentiu cada segundo levar uma eternidade para passar.

...

Avenue de Suffren, Jane leu em uma pequena placa na rua que indicava seu nome. Era naquela rua que os pais de Maura moravam, e a morena estava curiosa para conhecer o lar dos pais da loira. Constance avisara Maura de que não poderia buscá-las no aeroporto porque estava atendendo a uma exposição em um dos museus de Paris, mas prometera à filha que reservara o resto do dia, e todos os outros que Jane e ela passariam ali, para aproveitar da companhia delas. As duas então foram recebidas por René no aeroporto, um homem baixo, moreno, um tanto quanto velho e extremamente educado, que Jane descobrira ser o motorista particular da família Isles. Ele pareceu emocionado ao ver Maura, como se guardasse um tipo de carinho especial por ela. Jane se sentiu enciumada a princípio, especialmente porque ela sabia como homens franceses mais velhos gostavam de namorar mulheres mais novas, mas ela se sentiu ridícula quando Maura contou que René estava trabalhando em sua família desde que ela própria tinha chegado ao lar deles.

Agora, o homem estacionava o carro em frente a um prédio imenso, não necessariamente alto, mas com uma arquitetura que tirava o fôlego da morena. Parecia ser construído em séculos passados, à luz da arte renascentista, e o estilo da construção combinado com os ornamentos empilhados para elaborar as janelas e sacadas, era algo que merecia decididamente atenção.

Jane se voltou para Maura em completo choque. 'Você mora aqui?!' Ela exclamou.

A loira balançou a cabeça, e depois olhou para o próprio colo. 'Não... Meus pais moram.' Ela passou a língua entre os lábios. 'Mas essa não foi a casa em que cresci, se é isso que você quer saber.' Ela se remexeu no banco, desconfortável com a situação. A riqueza da família era algo que sempre a constrangia. Na França, quando seu sobrenome era dito, tudo o que as pessoas associavam à ele era o dinheiro. Primeiro o quão rica ela era, depois só então pareciam notar o quão bonita ela era e, apenas em seguida, o quão inteligente. Geralmente funcionava nessa ordem, e apesar de ter suas vantagens, Maura não se sentia bem nessa posição. Tudo o que as pessoas tendiam a ver era o seu externo, e poucas haviam se incomodado ao conhecê-la de verdade. Jane era uma exceção: ela nunca soubera, até o momento, o quão próspera a família Isles era. É claro que ela sabia que Maura poderia viver o resto de sua vida sem trabalhar, se assim decidisse, mas ter uma residência no bairro mais caro de Paris? Ao lado da Torre Eiffel? Aquilo era quase surreal.

Jane riu com o desconforto da outra e deu de ombros. 'Bem, parece aceitável, se você quer saber.'

E Maura riu. Era por isso que ela gostava de Jane: ela era leve, engraçada. Ela fazia Maura rir nos momentos mais inesperados.

'A Senhora Isles disse que vocês fiquem a vontade.' O homem disse com um forte sotaque francês enquanto abria a porta do carro. Maura foi a primeira a sair, e em seguida Jane.

'Obrigada, René.' Maura sorriu para ele.

'Não se preocupem com a bagagem, eu mesmo levo para o aposento de vocês.' Ele meneu com a cabeça antes de pedir licença ao se retirar.

Ok, por que tanta formalidade, afinal de contas? Jane se remexeu sobre os pés e checou o horário. Eram quase quatro horas da tarde, mas o céu já parecia se preparar para receber o pôr-do-sol — que estava escondido atrás das nuvens grossas de gelo. Estava frio, assim como em Boston, e a neve do chão combinava com o cinza do céu. Jane sentiu Maura deslizando a mão na sua e apertando gentilmente, como para tirá-la do transe.

'Venha, vou te mostrar a casa e depois vamos dar uma volta. Isso é, se você não estiver afim de descansar...?' Ela pareceu incerta pela primeira vez, e a morena se deu um tapa mentalmente. Ela tinha se perdido em pensamentos e talvez Maura tivesse imaginado que aquilo tudo a tivesse deixado inconfortável, de algum modo.

Ela sorriu e apertou a mão da loira. 'Claro, vamos entrar. E concordo em ir aonde quer que você queira.' Maura sorriu para ela e a puxou pela mão, e Jane fez questão de acrescentar: 'desde que não seja em um museu.'

A médica fez um barulho de desdém com a boca e revirou os olhos. Elas estavam em Paris e Jane certamente, em alguma altura, visitaria o Louvre com ela.

A entrada para o hall era uma simples — tão simples quanto a arquitetura francesa pode ser, de qualquer forma — porta entre duas lojas. Afinal, aquele era um bairro famoso por sua proximidade da Torre Eiffel, o que fazia dele um ponto turístico, cheio de pessoas vindas de toda parte do mundo. As duas tomaram um elevador e Jane soube que seu destino era o último piso antes mesmo de chegar lá.

O apartamento ocupava o último andar inteiro. Era espaçoso e, como a morena já desconfiava, cheio de esculturas e pinturas. Claro, aquele era o lar de Constance, e como a pessoa que era, ela vivia em meio a arte mesmo dentro de casa. Jane se sentiu entrando em um filme antigo. A mobília era de uma madeira escura que Jane não sabia identificar, mas ela tinha a sensação de que apenas a mesa custava mais do que seu apartamento. O ambiente era claro, as janelas altas e grandes. Era como um mini castelo no meio da cidade grande, foi o que a morena pensou.

'Uau.' Ela suspirou, admirando tudo ao seu redor. 'É lindo aqui, Maura. O que me admira mais é que seus pais passam mais tempo viajando do que morando aqui.'

A loira riu baixinho e balançou a cabeça. 'Bem, imagino que daqui uns anos eles vão aproveitar melhor isso aqui.' Ela se virou para Jane e novamente pegou sua mão e a puxou para uma janela da sala de estar. Com a outra mão, afastou a cortina e apontou a cabeça para a imagem lá fora. A Torre se erguia graciosamente perto delas.

Jane pareceu ainda mais impressionada. Ela segurou a respiração e encarou-a por um momento, depois voltou seu olhar para Maura.

'Eu sinto muito que esteja nevando e frio. É muito mais bonito aqui no verão.' A loira piscou os olhos, cruzou as próprias mãos e depois olhou para fora.

Jane sabia que ela realmente sentia muito, como se ela não tivesse oferecido o melhor que podia. A morena quase riu. 'Bem... É bonito de qualquer forma, Maura. E bem, vamos ser honestas, fica melhor ainda porque tem você.' Ela sorriu gentilmente e apertou o ombro da outra. Os olhos de Maura se iluminaram e ela retribuiu o sorriso. 'Bem, sobre aquele lugar que você quer me levar?'

'Oh.' A loira disse, quase se esquecendo. 'Apenas quero que você veja a Torre de perto. Não é o mesmo do que vê-la daqui.'

Certo, não deveria ser. Jane comemorou internamente por não ser uma visita ao museu e se apressou em segui-la. Ela se certificou de apertar o casaco antes de deixar o lugar aquecido mais uma vez. O frio lá fora era intenso, mas a neve deixava a cidade com uma vista bonita, quase romântica. Era Paris, afinal de contas, e não importava o ar gelado. A cidade parecia tão convidativa quanto em qualquer época do ano.

As duas recusaram a oferta de René para levá-la de carro até o local, eram apenas dois quarteirões e elas poderiam andar sem problemas. A caminhada acabou sendo agradável, mesmo com lufadas de ar gelado atingindo-lhes o rosto. As bochechas de Maura estavam rosadas, mas ela andava sorrindo, e diferente das outras pessoas que pareciam se arrastar na caminhada sobre a neve, ela parecia flutuar. Quando atingiram o ponto desejado — o gramado verde que agora estava coberto de neve — as duas pararam e olharam a Torre, de baixo para cima.

Era magnífica, uma obra virtuosa que ao mesmo tempo que intimidava, encantava. Jane precisou inclinar a cabeça para cima para poder ver o topo da Torre. Era alta. Tão alta quanto o céu. Tão alta quanto a coragem dos homens que subiram tantos metros afim de construí-la. Os olhos ardiam porque ela já não piscava, e mesmo assim ela não conseguia desviar o olhar. Maravilhada, ela finalmente olhou para Maura e sorriu, emocionada.

'Quer saber? É uma das coisas mais lindas que já vi.' Ela riu divertida e voltou a erguer a cabeça. Até que ela percebeu que Maura lançou um olhar travesso em sua direção. Ela se voltou para a loira e desconfiada, juntou as sobrancelhas. 'O que?' Ela perguntou.

Maura riu e mordeu os lábios. 'Bem... Eu estava pensando se agora seria um momento apropriado para te entregar seu presente de Natal.' Ela ofereceu inocentemente, sabendo no fundo de que Jane ficaria insuportável se ela não dissesse em segundos o que era.

'É claro!' A morena sorriu como criança. 'Claro! Por favor, me diz o que é.' Ela estudou Maura. A loira não carregava nada nas mãos, o que seria seu presente? Aonde estaria?

'Mas eu não cheguei a uma conclusão ainda.' Ela disse brincando e começou a andar, Jane a seguiu colada em seus pés.

'Maura! Isso não é justo. Você sabe o quanto eu sou curiosa!' Ela disse irritada.

A loira riu e gesticulou com a mão. 'Apenas me siga e você verá.'

Contente, Jane a seguiu quase que pulando de alegria. Se não fosse pelo seu tamanho, Maura a julgaria por ter sete anos. Elas caminharam até uma parte movimentada, ainda cheia de turistas mesmo com o frio da época do ano. Jane franziu as sobrancelhas e segurou a mão da loira. Ela não queria se separar dela no meio da multidão. Maura pedia licença enquanto passava pelas pessoas.

Não. Enquanto passava por uma fila. Jane quase congelou ao se dar conta do que a mulher estava fazendo. Ela se aproximou de um homem e se apresentou em francês para ele. Eles trocaram algumas palavras, ele sorriu entusiasticamente para as duas e apertou a mão de Maura com a mesma reverência de que René tinha saudado ela. Maura a puxou pela mão e Jane a seguiu apenas por causa da força.

Elas não iriam fazer aquilo. Iriam?

Ela olhou incrédula para Maura. Elas tinham acabado de cortar uma fila, as pessoas não ficariam muito felizes. Aquilo nem parecia fazer parte do caráter da loira, mas mesmo assim, ela caminhava firmemente em direção ao elevador.

Há alguns passos, Jane congelou e não se mexeu.

'Você... Nós... Vamos subir?' Ela perguntou amedrontada.

Maura tentou reprimir o riso. 'Jane, todos querem subir na Torre. Todos precisam subir quando veem a Paris! E eu acabei de abusar da certa influência que possuo aqui... Então, me acompanha?' Maura apertou a mão dela e Jane concordou com a cabeça.

Dentro do elevador, ela parecia tão inconfortável quanto fora. Ela esfregou as mãos uma na outra e sorriu para um turista loiro que estava à sua esquerda. Maura estava ao seu lado, mas um passo atrás. O restante do grupo acabava de entrar, e só depois as portas se fecharam. Quando o elevador começou a subir, a morena trincou os dentes.

Aquilo deveria ser seguro, é claro. Milhões de turistas visitavam a Torre, e os franceses não iriam querer arruinar sua reputação se, por acaso, um daqueles elevadores despencassem. Ela olhou para Maura, tentou sorrir e encontrar a afirmação de que precisava. A loira, diferente dela, parecia extremamente tranquila. Pacífica, até. Ela sorriu para Jane, segurou sua mão e aproximou a boca do seu ouvido.

'Técnicos trabalham quase todo dia nela, Jane. É totalmente seguro.' Ela disse sobre as exclamações impressionadas do restante do grupo.

'Bem, que alívio.' A morena disse, tentando não soar sarcástica demais.

Quando o elevador parou no primeiro piso, as duas saíram de lá juntas. Jane relutou ao chegar perto da grade de proteção, mas Maura a incentivou a ir até o limite. De lá de cima, ela conseguia ver o jardim coberto de neve que se estendia em frente da Torre. Conseguia definir os bairros tão bem planejados da cidade. O céu parecia abraçar a paisagem, e a vista parecia um presente dele entregue aos seus olhos. Ela respirou lentamente, tentando capturar quantos detalhes ela conseguisse, mas no fundo ela sabia que era o todo que importava. A Torre, a vista, Maura. Ela sorriu e estudou a loira, que parecia tão impactada pelo cenário quanto ela, como se fosse a primeira vez dela ali também. Ela segurou a mão da médica e voltou a encarar a paisagem. Era quase inacreditável que as duas tivessem acabado ali, em cima da Torre mais famosa do mundo, desfrutando juntas de uma vista que Jane sabia, não eram todas as pessoas a poder admirá-la.

Depois de decidirem ser o suficiente, as duas voltaram para o elevador. A última parada seria o último piso, e embora Jane estivesse empolgada com a visita, ela ainda não conseguia esquecer o medo. Quando o elevador parou no lobby, Maura mais uma vez precisou motivar Jane a deixar o cubículo. Elas andaram até a extremidade do piso e pararam próximas a uma janela. Se Jane tinha ficado impressionada com a paisagem do andar anterior, nessa ela definitivamente estava sem ar. A admiração e o medo não deixavam espaço para a respiração. Ela olhou aterrorizada para Maura e apoiou as mãos na parede da janela, embora parecesse mais como se tivesse tentando empurrá-la para fora do campo de visão. O horizonte se estendia tão distante dela, que em certo ponto a cidade sumia entre uma neblina branca.

A loira riu e, atrás dela, passou os braços por sua cintura e a abraçou. 'Jane, está tudo bem.' Ela disse em voz baixa, sentindo a morena tremer sob seu toque. 'Eu não sabia que seu medo de altura era algo tão... real.' Ela segurou o riso e apertou os braços quando a morena tentou se mexer.

'Não é medo. Eu só estou impressionada.' Ela se defendeu e voltou a segurar na parede.

'Espero que de uma forma boa.' Maura disse com incerteza. Agora ela se perguntava se tinha sido uma boa idéia trazê-la ali, considerando o quanto estava assustada.

'É claro que sim, Maur.' A morena virou a cabeça e sorriu para ela. 'É algo que eu jamais vou esquecer. É absolutamente lindo. Você é a melhor, sabia?'

'Você está feliz com seu presente, então?' Ela perguntou ingenua e inocentemente.

Jane riu. 'Sem dúvidas!'

Maura sorriu e beijou sua bochecha. 'Nesse caso, feliz natal adiantado.'

Jane sorriu e não desgrudou os olhos dos dela por infinitos segundos. Ela apertou seus braços sobre os da loira e só depois disse obrigada.

Antes que o encanto sobre Jane terminasse, Maura sacou o celular do bolso e ligou a câmera. 'Vamos tirar uma foto.' Ela disse e Jane nem protestou. Claro, talvez fosse a atual circunstância. Ela abraçou a cintura da loira e seus corpos se colaram — assim como seus rostos. Sorrindo e com o fundo de Paris como segundo plano, Maura tirou seguidas fotos.

Elas admiraram a paisagem por vários minutos, e quando contornaram toda a extensão da Torre, vendo a cidade pelos quatro pontos cardiais, ambas decidiram descer. A volta foi relativamente menos aterrorizante para Jane do que a subida — primeiro porque Maura ainda tinha seus braços em torno de sua cintura, e segundo que ela se sentia mais segura conforme se aproximava do chão.

Uma vez fora da Torre, uma vez longe da multidão e de volta ao gramado coberto de neve, Jane conseguia finalmente respirar. Tinha sido uma experiência fantástica, definitivamente inesquecível — mas ela estava aliviada por estar de volta com os pés na terra — ou neve, nesse caso. Ela se virou para Maura e sorriu verdadeiramente; era como se a loira tivesse lhe dado o melhor presente de todos: a vista mais linda, a superação — ok, de certo modo — de seu medo. Ela se sentia orgulhosa por ter tido coragem suficiente para subir até lá e encarar a paisagem, e ter Maura ao seu lado tornava tudo mais especial.

'Maura isso foi... o máximo!' Ela riu divertida.

'Ainda não acabou.' A loira ofereceu.

'Não?' Ok, agora Jane estava surpresa. O que viria a seguir?

'Não. Aguarde mais uns minutos.' Ela ergueu as mãos e disse quando Jane parecia prestes a protestar. 'O que vem a seguir foge totalmente do meu controle. Não posso entregar antes.'

'Oh, tudo bem, então.' Ela pareceu ligeiramente conformada.

'Bem, talvez você queira ir de novo enquanto esperamos?' A loira brincou.

'Seria demais para um dia só, ok? Além disso, nós já furamos a fila uma vez hoje. As pessoas vão começar a reclamar.' Ela franziu o nariz, fazendo Maura rir.

'Oh certo. Seu medo nada tem a ver com isso?'

'Você tá sendo ridícula.' Jane retrucou e Maura abriu a boca, fingindo estar ofendida.

Jane observou enquanto ela se abaixava, séria, e tarde demais percebeu o que ela estava fazendo. Uma bola de neve atingiu seu ombro direito, se espatifando e espalhando flocos de gelo sobre seu corpo, rosto. Ela apertou os olhos e estudou a médica. Ela parecia estar se divertindo e riu quando Jane apontou um dedo para ela.

'Você não tem ideia de onde acabou de se meter.' Ela ameaçou e se abaixou para agarrar a própria bola. Os passos que Maura se afastou dela não foram suficientes para tirá-la da mira de Jane. Com um forte impulso, a bola acertou o seu peito em cheio. Ela passou as mãos enluvadas para limpar o estrago e mordendo os lábios e franzindo o nariz em desafio, pegou tanta neve quanto podia e arremessou outra bola contra Jane. Dessa vez a morena levou os braços juntos em frente ao rosto para evitar o choque da bola contra sua bochecha.

Maura riu ainda mais e Jane demorou enquanto moldava a bola seguinte. Ela observava Maura se afastando de costas, tranquilamente. Ela parecia diferente sob a luz daquela cidade. Ela parecia mais livre, mais leve, espontânea. Feliz. Poderia ser só o dia que tinha fugido da rotina das duas; poderia ser o fato de a médica estar feliz por rever a família que não via por tanto tempo. Poderia ser tantos motivos, e Jane nunca iria adivinhá-los, mas apenas o fato de estar ali presenciando o momento com ela a deixava realizada.

Ela arremessou a bola contra a loira, e dessa vez Maura apenas ergueu uma mão para evitá-la, pega desprevenida. A neve voou por toda parte, e Jane se apressou para checá-la.

'Oh, meu Deus! Eu te acertei no rosto?' Ela segurou o rosto da loira para examiná-la. Maura balançou a cabeça em não e riu. Flocos de neve se espalhavam inadvertidamente sobre sua face, seu cabelo. Jane riu com o alívio e a soltou. Elas estavam tão próximas agora. Seus olhos negros se demoraram na médica. Ela estava ofegante, as bochechas agora vermelhinhas e os olhos apertados enquanto ela ria.

Jane só percebeu que já estava noite quando, de repente, uma forte luz amarela iluminou o rosto da médica. A loira estendeu o dedo para trás de Jane, mas ela nem se deu o trabalho de se virar.

'Aí está, a última parte.' Maura disse ofegante.

Jane sabia que as luzes da Torre tinham sido acesas, mas tudo o que ela conseguia e queria ver agora era Maura. A maneira como o clarão abraçava suas feições, seu sorriso; o jeito como a luz iluminava seus olhos verdes, deixando-os cintilantes. Os flocos de neve se derretiam em seu rosto, e as gotículas de água brilhavam sob o comando das luzes. A própria Maura parecia brilhar, e embora Jane soubesse que ela estava cansada, o que prevalecia em suas expressões era apenas felicidade, contentamento.

Ela finalmente meneu a cabeça e se colocou ao lado da mulher. A Torre iluminada trazia uma nova onda de admiração e comoção. Entretanto, quando Jane olhou para Maura de novo e a loira virou seu rosto iluminado para encará-la, ela soube que por mais bela que a Torre fosse ela não causaria o efeito que Maura causava em si. A morena passou um braço em sua cintura e juntou seus corpos. Plantou delicadamente um beijo em sua bochecha e permaneceu abraçada com ela durante um tempo.

A Torre Eiffel era formidável, é verdade. Mas era Maura, em seus braços, que despertava a sensação de que ela poderia experimentar algo muito próximo do sublime.

Notas finais
E vocês? O que acharam desse capítulo?