Tout!
2 Brigas, medo... Inveja?
Quando eu acordei depois de tudo, ainda estava escuro, não dava pra ver nada, porque as cortinas cobriam a janela e a porta da varanda.
Me levantei pra ir ao banheiro, tateando as coisas ao meu redor, quando vi, por um raio de luz que passou pela cortina graças ao vento, me mostrou que “ele” não se encontrava em sua cama. Eu havia dormido antes que ele voltasse, se é que ele voltou. Abri devagar a porta do quarto. Àquela hora da madrugada e a estalagem ainda estava aberta?! Eu então me dirigi aos degraus da escada, e fiquei por alguns minutos, esperando pra ver se “ele” não vinha impedir que eu fugisse... Mas ele não veio, então, eu, devagar fui descendo degrau por degrau.
–Um...–Disse uma voz atrás de mim, e quando me virei... Era ele!– Dois...
Então eu corri escada a baixo, e no antepenúltimo degrau, algo que parecia um fio invisível me fez tropeçar e cair de cara no chão. Meu braço esquerdo parecia pegar fogo!!
–Meu... Braço... Ugh...
Ele veio até mim, e me suspendeu, passando o braço pela minha cintura, então me carregou como uma pilha de roupas até o quarto. Eu chorava muito enquanto ele colocava meu braço no lugar. Ele havia quebrado.
–Fica calma pirralha!!–Dizia ele.– Ah, sabe de uma coisa? Que se foda...– e saiu da mão dele uma luz verde. A dor do meu braço passou tão rápido quanto começou.
–I-isso foi...
–Magia.–Disse ele completando a minha frase.
Ele então se jogou na cama, virou-se de lado e adormeceu. Eu me sentei em minha cama... Quando amanheceu, eu saí do quarto, desci as escadas e saí da estalagem. Quando atravessei a porta que seria a minha “liberdade”, eu percebi, que dali eu não mais sairia.
–Eu não tenho mais lugar pra ir...–Disse eu comigo mesma.– Mamãe...
O meu bracelete era a única coisa que restava da minha antiga vida... Da minha mãe. Fiquei várias horas do lado de fora, em baixo da janela, mas eu não mais fugiria, agora eu tinha medo. Quando ele acordou, já era de tarde, ele foi para o refeitório da estalagem, e me viu do lado de fora da janela, olhando me com um olhar severo, que me fez entrar. Eu não havia comido nada desde ontem, ele acenou com a cabeça para eu me servir. Eu peguei algumas frutas, e saí de lá, deixando-o sozinho no refeitório.
Me sentei no último degrau da escadaria que leva ao andar de cima e comi. Fiquei observando o ambiente da estalagem... Havia umas seis mesas perto do balcão de bebidas, no refeitório, que era um pouco à esquerda do balcão, tinha uma mesa com as comidas, e algumas mesas espalhadas para as pessoas comerem... A essa hora não havia ninguém exceto “ele” lá. Depois de algum tempo, ele veio junto de mim, e me puxou pra fora da estalagem.
–Vamos treinar agora.
–T-treinar?– eu perguntei... Pra quê treinar, por acaso ele ia me jogar pra um bando de quimeras?!
–É, treinar... O que você achou que ia fazer pra conseguir me matar quando crescer? – disse ele, como se fosse a coisa mais simples do mundo.
Ele me treinava a cada dia, sempre falava que quando eu crescesse ia matá-lo com minhas próprias mãos. Cada treinamento era mais duro que o outro, mas com o passar do tempo eu me acostumei com as dificuldades que ele me impunha. Todo dia, sem folga, nós treinávamos até a minha exaustão, já que eu nunca conseguia derrubá-lo. Derrubá-lo seria a prova de que eu já estaria tão forte quanto o meu mestre, e então, eu teria que procurar outra pessoa que eu não conseguisse derrotar para ser meu novo mestre, e treinar para ficar ainda mais forte, e finalmente poder matá-lo... Era isso que ele dizia... Era isso que ele queria...
Dez anos se passaram.
Eu acabei de treinar, hoje em dia, eu não chego mais à exaustão com os treinos. É hora do jantar, e eu e “ele” continuamos na mesma estalagem. Conosco lá, o dono da estalagem fez algumas reformas no nosso quarto, agora ele é maior, mas “ele” não está ligando por pagar um pouco mais pela nossa estadia. A gente como sempre, estava jantando sentado no batente da janela, todo dia era assim. Ele continuava dizendo pra mim que um dia eu ia matá-lo com as minhas próprias mãos, mas com menos freqüência agora, já havia se tornado chato pra ele falar isso todo dia.
–Alleegra...–disse ele olhando pra mim... Pela primeira vez em muito tempo ele falou o meu nome... Não era exatamente pra mim que ele olhava.– Seus peitos cresceram... Não acredito que vou ter que comprar mais uma peça de roupa pra você...–disse ele, com um ar de quem não gostou do que disse.
–Não precisa.–eu rebati.–Me viro com as faixas, você não precisa gastar mais dinheiro ainda comigo...–disse eu. Como se ele gastasse muito comigo!
–Era brincadeira, sua pirralha burra!–disse ele, com ar de brincadeira, me chutando do batente da janela, me fazendo derrubar o meu jantar inteiro.
–ORA SEU...! SE QUISER, EU TE MATO AGORA MESMO!
–Tenta.
Os olhos dele brilhavam agora, depois que fiz a ameaça... Mas eu estava só brincando! Eu não estava pronta pra matá-lo! Mesmo que ele tivesse me treinado por mil anos, eu não estaria pronta para matá-lo... Ele era muito mais poderoso que eu, eu nunca conseguiria...
–Tá esperando o que?–disse ele, repousando o prato no batente da janela e indo pro chão do lado de fora.
–Humm... Eu...
–Tá com medo, pirralha?
–Não me chame de pirralha... Eu já tenho dezessete anos...
–E eu tenho tantos anos que já nem me lembro! Então você vai sempre ser pirralha! AGORA ME ATACA!
Eu, assustada, fui tentar fazer o que ele mandou. Atacá-lo agora parecia suicídio, ele estava com muita vontade de matar. Dava pra ver isso nos seus olhos. Eu comecei então... Tentei chutá-lo do lado esquerdo da cabeça, ele esquivou. Eu corri pra primeira árvore que eu vi, subi num galho, e peguei impulso pra pular em cima dele. Incrível! Eu consegui segurá-lo pelo pescoço! Mas isso não foi uma boa idéia... Ele foi de costas em direção a uma árvore, e bateu comigo no tronco. Eu caí das costas dele.
–Ai, ai, ai... Por que fez isso?
–Ué... Pra você soltar do meu pescoço, né, pirralha...–Disse ele com desdém.
Ele continua grosso... Se ao menos ele mudasse um pouco o jeito de ser dele...
–Vai continuar?
–Não. Eu vou entrar... – E então, entrei e subi pro quarto.
Não demorou muito pra ele subir também. Eu fui tomar banho enquanto ele revirava as coisas na mala dele. Acho que ele foi pegar aquele objeto... Eu nunca perguntei o que era, pois eu sabia que devia ser muito perigoso. Quando saí do banho, ele já não estava mais lá. Desci pro bar da estalagem, e perguntei ao Kaien, o dono da estalagem, se ele havia saído.
–Sim, sim... Ele saiu não faz muito tempo.
–Pra onde ele foi, você sabe?
–Olha... Você sabe mais que ninguém que da vida dele ele não fala... Então não seria pra mim que ele ia falar.
–Ah, tá, valeu... Que grande ajuda, Kai...
Eu saí descalça mesmo, com uma toalha no ombro enxugando o meu cabelo pra procurar por “ele”...
Ele estava conversando com uma moça... Bem bonita ela, e bem vestida. Ela se vestia como mulher, e não como eu... Eu me visto como um menino, aprendiz de um lutador meio psicopata... Mas foi assim que eu fui criada por ele, como um menino... Eu fiquei observando de longe... Eles riam. Ele sempre naquelas roupas pretas, suado por causa do treino... Conversando com uma mulher de verdade? E rindo? Isso só podia ser um sonho... Ele nunca falava com mulheres, e as mulheres que se aproximaram dele, ele bruscamente empurrava. Mas essa... Ele estava conversando amigavelmente com ela... Isso me fez sentir estranha...
–Ei mestre! Você vai me pagar o jantar!!–Que idiota! Foi a única coisa que eu consegui pensar em dizer!
–Como se eu já não pagasse todo dia!–Replicou ele.
Ele ia continuar a falar com ela, então. Eu voltei pra estalagem, peguei uma maçã na fruteira do balcão de bebidas, e subi pro quarto. Fiquei na varanda olhando o crepúsculo. A noite já ia cair.
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