Tout!

3 Bebida, raiva. Luta!


A noite cai, e com ela, vêm as luzes da cidadela.

Eu ainda não havia dado nem uma mordida na maçã ainda... E nem ele havia voltado. Fico imaginando onde ele estaria... Mordi a maçã, e deixei-a na boca. Ela ficou lá por muito tempo até que...

–Ai!–Eu mordi minha língua!

–O que foi?–Perguntou “ele”, enquanto me encarava... Ele havia tirado a maçã da minha boca, eu nem havia reparado que ele tinha chegado.

–Nada.–disse eu, calmamente.

–Melhor que não seja nada mesmo...

E ele saiu do meu lado tão rápido e furtivamente como chegou, e dando uma mordida na maçã, entrou no banheiro. Eu me levantei, e saí do quarto. Fui para o bar, e fiquei lá sentada por um tempo... Eu vi que várias mulheres ficavam por lá, e várias delas com trajes indecentes, que não pareciam ser mulheres, que como os homens dizem, pra casar. Fiquei pensando se “ele” passava noites e noites acordado pela companhia delas... Ou apenas “dela”? Depois de mais algum tempo debruçada no balcão, eu pedi algo para beber.

–O que vai querer?–Perguntou o Kaien.

–Qualquer coisa...

Ele me trouxe um copo alto, com uma bebida vermelha. Tinha um gosto ácido, mas era boa. Eu repeti várias vezes, e não me importei pelo fato de eu estar ficando mais tonta a cada gole. Eu bebi bastante daquilo naquela noite, não sabia o que era, mas eu sabia que já estava perdendo a noção da hora. Depois de algumas horas, alguém me levou até o quarto, depois disso eu não me lembro de nada. De manhã eu acordei com uma dor de cabeça terrível! O sol parecia estar mais claro, só porque eu estava com dor de cabeça, tudo parecia muito pior naquele dia, e eu não me lembrava quem tinha me levado pra cima. Que horas seriam agora? Quanto eu dormi naquela noite? “Ele” apareceu na porta e me viu escondendo o rosto do sol, que passava pela janela. Ele ficou por alguns instantes observando com uma expressão de raiva. Eu notei que ele parecia cansado... Talvez não tivesse dormido essa noite.

–O que você estava fazendo bebendo ontem à noite?

–Bebendo?

–Sim, você estava bebendo... Se não me engano, uma batida de frutas vermelhas... Uma não! Várias!–A expressão de raiva em seu rosto só fazia aumentar.

–Ah... E-eu não sabia... O que... O que é uma batida?–Depois que eu disse isso, eu acho que ele se descontrolou.

Ele saiu rápido do quarto, e bateu a porta com tanta força que ela não fechou... Isso aconteceu mais algumas vezes, e eu achei que a porta ia quebrar. Eu me levantei, mesmo com aquela dor de cabeça terrível, e fui tomar um banho frio. Fiquei pensando no que eu teria feito... Eu desci para tomar café. Não tinha muita gente esta manhã na estalagem, fiquei aliviada, porque não importava a hora, com certeza ia ter algo pra comer... O que eu mais precisava era comer alguma coisa, meu estômago estava vazio, e minha cabeça latejava. “Ele” não estava na estalagem... Eu não ia procurá-lo tampouco. Tomei o desjejum e saí da estalagem. Me sentei em cima de umas caixas de madeira que ficavam do lado da porta, vendo as pessoas passarem, até que o Kaien voltou das compras semanais da estalagem.

–KAIEN SEU FILHO DE UMA TROGLODITA BÊBADA! O QUE FOI QUE VOCÊ ME DEU PRA BEBER ONTEM?!

–B-bem... Você só pediu algo pra beber...–Disse ele assustado com os meus gritos–Eu preparei a coisa mais simples que eu tinha na hora.

–O QUE ERA?–Ele já estava me irritando... O que ele teria posto naquilo?

–Era só uma batida de frutas com tequila... Não é muito for...

–Ah, seu filho da mãe, por sua causa, “ele” vai me matar!

–Não foi minha intenção, sabe, Alleegra...–O Kaien realmente parecia não ter tido intenção...

Ele era jovem, tinha herdado a estalagem depois que seu pai morreu... Nós já estávamos hospedados lá quando isso aconteceu. Eu às vezes conversava com ele, mas ele era muito ocupado, tendo que cuidar da estalagem, e eu tinha sempre que treinar, então, não dava pra cada um contar a história da sua vida.

–Desculpa, Kai... É que eu estou com uma dor de cabeça aqui... Tá me matando.– E então eu sorri para aliviá-lo da culpa.

–Sério, não foi minha intenção...

–Ah, vai trabalhar, vagabundo! Haha!

–Heh... Tá certo sua maluca... Mas, desculpa mesmo assim. – Ele deu um sorriso sem graça. E entrou na estalagem.

Eu fiquei por lá por mais algum tempo... Começou a chover. As gotas de chuva passavam geladas pelo meu rosto, mas eu fiquei ali, pensando em tudo o que havia acontecido... Tentando me lembrar do que havia acontecido à noite. Os relâmpagos começaram, seguidos pelos trovões... Era uma tempestade. Depois daqueles dias quentes, talvez a tempestade estivesse vindo dos arredores de Malpetrim, trazendo com ela a tormenta dos mares... Eu nunca vi o mar... Será que era bonito? Será que é por isso que tantas pessoas se arriscam nessas tempestades? Só para ver o mar... Devia ser mesmo muito bonito.

–Alleegra, tira essa cara de burra... Quer dizer... Se você tirar, você fica sem... Mas de qualquer forma, volte à realidade!

–Hã?– “Ele” havia voltado! Onde ele tinha passado todo aquele tempo?–Ah... Mestre...

–Entra logo, pirralha... – Ele não parecia mais tão bravo... Acho que eu já podia perguntar...

–Quem era aquela mulher que estava com você ontem?

–Não te interessa.–A expressão dele de raiva não parecia tão ameaçadora na chuva.

–Por que você estava conversando com ela tão “feliz”?–Eu começava a me levantar das caixas.

–Você tá ficando muito atrevida comigo...–A expressão de raiva dele só aumentava, mas eu não tinha mais medo.

–Eu quero saber!–Eu me aproximava dele... Se ele não falasse, eu ia atacá-lo, e ele sabia disso.

–Cale a boca! – Ele se descontrolou e me deu uma tapa no rosto... Fiquei uns instantes passando a mão no meu rosto. Ele me bateu forte mesmo.

–Ora seu...! – Dei um soco nele com toda a minha força, e ele cambaleou pra trás.

Começamos uma luta de verdade agora, e não tinha volta. Ele me chutava, eu defendia, e o mesmo acontecia ao contrário. Formou-se uma barreira humana à nossa volta. Curiosos não deviam ficar nos observando! Ele usou um tipo de bomba de ar, que afastou todas as pessoas, menos nós de lá.

Continuamos nossa batalha, levando cada vez mais pra longe da cidade. E chegamos em um bosque. Ele continuava a investir contra mim, dando chutes e socos, e eu revidando sempre. Eu já tinha me cansado disso, agora eu tinha que pôr um fim nisso, dei um chute alto nele, e como eu pensei, ele segurou meu pé e puxou pra trás, mas ele não contava com o meu trunfo. Ele me puxando pra trás, abri a minha perna esquerda e me agarrei no braço dele, e ele instantaneamente soltou minha perna direita. Me joguei para baixo, e ele desequilibrou, passei minha perna direita pelo seu pescoço, e quando dei outro impulso pra baixo, ele caiu por cima de mim. Virei o meu corpo, e lá estava eu, sentada sobre seu peito, ele caído no chão com uma expressão de imensa surpresa.

Além de surpresa, havia outro sentimento que eu nunca tinha visto em seu rosto. Ele estava com medo! Agora eu tinha o derrotado, isso significava que eu era mais forte que ele agora. Seu rosto assustado, sendo lavado pela água da chuva, e os relâmpagos iluminavam aquela cena. Ele estava tão... Frágil! Ficamos por muito tempo parados daquele jeito. Já não sabia o que ia me acontecer.

Depois de um longo tempo parados, eu me levantei de cima de seu peito, agora eu ia ter que me afastar dele... Ele fez uma reverência a mim, me honrando pela vitória. Ele demorou pra dizer qualquer coisa.

–Agora, você já pode sair daqui. Aqui já não é mais seu lugar. – Ele disse isso em um tom estranho.

–Eu quero te fazer algumas perguntas.

–Faça... –Ele não parecia muito feliz com isso.

–Qual é o seu nome?–Era a primeira vez que eu perguntava isso. Se eu ia ter que ir embora, eu queria ao menos saber seu nome.

–Ódio é o meu nome.

–Ódio? Não pode ser.–Impossível o seu nome ser esse.

–Hate. Em um lugar muito distante que eu fui, há muito tempo atrás, isso significa ódio.–Hate... Ódio... Isso era bem a cara dele.

–Ah... E quem é aquela mulher?

–Mulher? Qual delas?–Ele falou isso com um tom irônico... Mas eu sabia que ele não saía com outras mulheres... Ou será que à noite ele fazia isso?

–A que você estava conversando ontem...

–Não te intere... Ah...–Ele lembrou então que havia permitido as perguntas.–Elizabeth Luthien... Minha aprendiz antes de você.

Aprendiz? Ela também era uma aprendiz dele? Mas como isso era possível, se ele mata todos os que não conseguem matá-lo? Isso não entrava na minha cabeça.

–Só tenho mais uma pergunta...–Eu estava com medo de perguntar... Mas eu não tinha mais que ter medo! Agora eu conseguia enfrentá-lo. – O que aconteceu ontem à noite?

–Fora você ter tentado agarrar o Kaien três vezes?–Disse ele ironicamente.– Nada...

–O QUÊ? – Como isso seria possível?– COMO ASSIM EU AGARREI O KAI? E ALÉM DO MAIS, TRÊS VEZES?–Eu estava fora de mim agora, isso tinha sido um choque.

–Hah... Agora que você disse que tinha terminado, vem com mais três?–E com isso, ele foi andando até a estalagem, sem me dar mais nenhuma palavra.

Fui até a porta da estalagem, e parei na porta. Eu já não precisava mais entrar, pois agora eu estava livre. Fiquei parada por muito tempo na porta, esperando não sei o quê, então me sentei nas caixas novamente... As coisas tinham acontecido muito rápido nesse dia, eu precisava de tempo pra pensar.

–Alleegra...–Era o Kaien. – Está frio, e vai chover outra vez... É melhor entrar.

–Não.–Eu pretendia ficar ali, até saber o que fazer.

-Alleegra... Eu sei que vai ser difícil fazer o que você tem que fazer agora...-Como ele sabia? Eu mal podia olhar pra cara dele de tanta vergonha, mas eu precisava perguntar como ele sabia o que quer que seja que eu tinha que fazer.

-Como assim “o que eu tenho que fazer agora”?

-Você nunca vira a noite acordada, “ele” passa... Ele me falou o que queria com você.

-O nome dele é Hate... Como assim o que ele queria comigo?-O que ele realmente queria comigo que o Kaien sabia?

-Bom... Ele... Digo, o Hate, disse pra mim, que quando você derrotasse ele, ia ter que treinar mais e mais pra matá-lo.-Ele sabia disso também... Eu não sabia que era pra tornar isso público. Aquele idiota do Hate...-Você derrotou ele hoje, não foi?

-Sim, eu o derrotei. Mas Kai, eu tenho uma coisa pra te perguntar...- E então eu juntei toda a coragem que eu tinha, pra perguntar... – O que aconteceu ontem à noite?

Depois disso o Kaien ficou calado por alguns instantes. Agora ele tinha que me falar, o que afinal tinha acontecido naquela noite. Ele me olhou com receio do que eu podia fazer se ele não falasse, e começou.

-V-você tentou me agarrar... – Ele gaguejava, estava muito nervoso.- Mas n-não aconteceu nada...

-Tem certeza?

-T-tenho – Ele estava muito nervoso mesmo.

-Ah, ainda bem... Mas eu disse alguma besteira?-Ele já estava ficando mais calmo depois que eu me descontraí.

-Bom... Acho que a única besteira que você disse foi que nunca beijou nin... AAAAIIII!! – Eu dei um chute nele... E não foi fraco!

-NÃO FOI BESTEIRA!! É VERDADE!!-Me levantei e entrei na estalagem.

Eu estava com muita raiva, as pessoas passavam por mim, e eu esbarrava com toda força, até chegar na escada. Subi os degraus, um por um, pisando forte, até chegar ao topo. Até chegar à porta do quarto.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.