Touch
13 The Traitor
Notas iniciais
– Diga a todos que estamos deixando a Fortaleza – Reyna declarou se levantando calmamente da mesa do conselho, com os olhos arregalados de seus poucos conselheiros restantes postos sobre si a lhe encararem repletos de confusão. – O mais rápido possível.
– Espere um momento – Octavian se levantou bruscamente, as palmas apoiadas sobre a superfície da mesa redonda. – Está sugerindo que deixamos a segurança da Fortaleza para termos um futuro incerto lá fora? Isso é suicídio, capitã!
– Sei bem os riscos que isso pode trazer a todos nós – ela concordou, o olhar baixo sobre as próprias mãos. – Mas se ficarmos aqui é muito pior.
– Ela tem razão – Annabeth juntou sua voz ao coro do bom-senso. – A estrutura da Fortaleza está grandemente comprometida, e temos sobre nós a chance de a qualquer momento sermos atacados novamente. Não podemos arriscar mais vidas ficando aqui.
– Mas nós vamos arriscar nossas vidas lá fora de qualquer jeito – Thalia murmurou, com o olhar no teto. As olheiras fundas e escuras abaixo de seus olhos lhe davam uma aparência preocupante. – Aqui, pelo menos, nós temos abrigos e mantimentos o suficiente para suportar o frio.
O frio ao que ela se referia não era o vento frio e impiedoso do inverno, mas sim os flocos pálidos que caíam pela abertura no teto da Fortaleza — buracos abertos com a explosão das bombas do Exército Branco — e o vento gélido que soprava impiedosamente pelo acampamento. Piper sabia que aquela estranha neve fria acompanhando da névoa branca e gélida não era algo natural. As folhas ainda estavam verdes quando foram cobertas pela neve e pelos flocos brancos de gelo. Mas tudo ainda era um mistério, afinal.
– Mas também estaremos mais propensos a qualquer outra investida do inimigo se continuarmos aqui. – Annabeth declarou, lançando um olhar de esgueira para Thalia. – Mas, se sairmos por aí sem um local especifico para que possamos ficar e criar um novo refúgio, nós também corremos a chance de sermos atacados por... outros como ele.
Ela está se referindo à Percy? Piper sentia que sim. Segundo Annabeth, Percy estava vivo, só que um pouco diferente do normal, e também que provavelmente estava do lado do inimigo, trabalhando com e para ele. Isso foi recebido pela comandante Reyna como uma pancada impiedosa na boca de seu estômago, deixando-a sem ar e reação. Thalia ficara do mesmo jeito quando Annie contara sobre como Percy havia matado Bianca de forma impiedosa e fria, se divertindo com seu desespero e sofrimento.
– Não podemos arriscar perder mais pessoas numa jornada tola em direção ao nada, Reyna! – Octavian exclamou, com suas mãos cerradas num punho apertado, rangendo os dentes de raiva e indignação. – É isso que o inimigo quer! Você não consegue ver isso? – ele olhou ao redor com olhos azuis desesperados, procurando nos rostos que se desviavam do seu olhar por ajuda. – Vocês todos estão cegos, não é? Foram todos cegados pela aparência inocente e gentil do maldito Herdeiro de Hades!
Octavian deu as costas para todos, e caminhou com passos pesados e cheios de raiva na direção da porta, abrindo-a com fúria, seus passos ecoando no piso. Annabeth se levantou, e olhou para Reyna com as sobrancelhas franzidas, ao que a capitã assentiu levemente de olhos fechados e a loira de olhos acinzentados como o céu que eles viam pela cratera no teto da Fortaleza, seguiu rapidamente atrás de Octavian, provavelmente para acalmá-lo e fazê-lo ver que essa é, por mais que pareça suicídio, a melhor coisa a se fazer agora.
– Reyna – Piper chamou num sussurro, encarando os olhos transbordantes de preocupação da frágil capitã. Estava tão nítido o estado deplorável que a garota estava, sobrecarregada sem alguém para ajudá-la, depois que Jason e Leo fugiram. – Tenho que conversar com você.
– Muito obrigado a todos pelos conselhos e opiniões – a capitã declarou, andando na direção da porta aberta, cruzando os braços na frente do peito, parada como uma estátua imponente com seu peitoral de aço riscado por lâminas e por projeteis incandescentes reluzindo em tênues poças de luz. – o Conselho está terminado por hoje, e a decisão final é de evacuarmos a Fortaleza o mais rápido possível e rumar todos organizadamente na direção oeste, para a cidade mais próxima. Thalia envie três de seus olhos para verificar a situação da cidade; o mais rápido possível. – a garota apenas assentiu fracamente, os olhos no chão a sua frente, os passos automáticos como os de um robô.
– Temos um espião infiltrado entre os nossos. – Piper declarou, quando todos os outros integrantes saíram, com a porta fechada e a capitã a sua frente, os olhos inquirindo explicação.
– Você tem certeza?
– Inicialmente, não, porém, quanto mais eu pensava nisso, mais fazia sentido.
– E quem...?
– Ainda não sei. Quem quer que seja essa pessoa, está se escondendo muito bem entre nós.
– Essa pessoa ainda estaria entre nós? Isso exclui o Herdeiro de Hades, Nico de qualquer suspeita?
– Creio que quem fez isso estaria tentando incriminar Nico, para que nós mesmos o tirássemos do jogo. Ele me parece uma peça muito importante, Reyna.
– Realmente é, Piper. – ela murmurou, com o olhar distante fitando a parede cinza e rachada pelos tremores do ataque. – Assim como Octavian, por mais que eu odeie admitir isso.
– Reyna... Se o que você me disse sobre a Organização Atlas e a Corporação Tártaro forem realmente verdades, e eu sei que é, nos não podemos deixar que Nico caia nas mãos deles. Seria o mesmo que entregar a arma mais potente nas mãos do inimigo.
– Eu sei disso, Piper. Mas eu não posso voltar atrás da minha ordem agora. Se eu o fizer, todos podem pensar que sou fraca e influenciável, e minhas palavras são mais moles do que geléia, quando eu quero que sejam duras como aço.
– Eu entendo, capitã – Piper se levantou da cadeira, notando como Annabeth estava demorando em voltar com noticias sobre Octavian ou com os movimentos de todos. – e por isso não vou pressioná-la. Vou encontrar esse espião, que é o verdadeiro traidor, e fazer todos verem que estavam errados em condenar Nico, Jason e Leo.
Com passos rápidos e apressados, Piper andou até a porta, seus olhos brilhando com sua decisão e seu desejo. Abrindo a porta e atravessando a soleira alta, Piper se viu numa profusão de campistas que desmontavam suas barracas multicoloridas as pressas, enfiando seus amontoados de roupas e vestimentas juntamente de seus pertences pessoais dentro de mochilas surradas e manchadas com finas crostas de sujeira, enquanto andava pelas ruas empoeiradas e frias. Seus olhos perscrutavam todos os lados, em busca das cabeleiras douradas de Annabeth ou de Octavian.
– Minha palavra ainda é que tudo isso é suicídio! – a voz estridente do descendente de Apolo reclamou alguns metros a frente. Piper apertou os passos ao identificar o inconfundível rabo de cavalo de Annabeth.
– Sua palavra é o mesmo que nada, Octavian – ela sibilou entre dentes cerrados com força, agarrando a gola da camiseta roxa do loiro entre os dedos, quase o erguendo do chão. Mesmo que Octavian fosse mais velho que Annabeth, ela não recuava perto dele. – A decisão já foi tomada pela maioria, e você não pode mudar isso. Não se esqueça que, afinal, você não é e nunca será como nós apenas porque o sangue de seus pais, que eram Herdeiros, corre em suas veias. Você é tão humano quanto eles.
Piper chamou o nome da Herdeira de Atena da forma mais calma que pôde, fazendo-a soltar o Meio-Herdeiro de seu forte aperto cheio de fúria. Octavian lançou um olhar assustado para Piper num agradecimento inexistente.
– De que lado você está, afinal? – Annabeth perguntou, seu olhar duro posto sobre o garoto de cabelo loiro como fios de palha. Octavian olhou de Piper para Annabeth antes de virar as costas e quase correr na direção da saída situada do lado oposto da entrada.
– Está tudo bem, Annie? – Piper perguntou, tocando levemente os ombros de Annabeth e a olhando no fundo de seus olhos acinzentados, que estavam cheios de apreensão e medo.
– S-Sim – ela gaguejou, limpando algumas gotículas de suor que se formaram sobre a sua testa com as costas das mãos, passando a língua sobre os lábios, visivelmente nervosa. – Temos que nos preparar também, Piper. Vamos.
Será que ela teme Octavian? Piper refletiu nisso, sem encontrar algum motivo.
***
Percy sentia como se todas as veias do seu corpo queimassem dentro de si, como que, ao invés de sangue, o que corria por elas fosse ácido. A dor agonizante fazia seu corpo inteiro se contorcer, enquanto suas unhas arranhavam a pele do rosto com força, criando vários arranhões e vergões em seu rosto, onde o sangue ardia enquanto deslizava. O moreno se debatia no chão, os olhos verde-mar arregalados para o teto acinzentado, seus lábios crispados para não gritar, mordendo a própria língua com força, fazendo o gosto do sangue inundar o interior de sua boca, doce e viciante.
O sangue de Ethan corria em maior quantidade nas veias de Percy agora, misturando-se ao seu, fazendo os resquícios de sua personalidade natural ser afogada em um mar imensamente fundo e escuro de ódio e vingança, queimando indescritivelmente. O corpo de Percy suava enquanto seus membros se debatiam contra o piso branco e frio.
E de repente tudo cessou. Tão rápido quanto a sensação o tomou por completo, ela desapareceu instantaneamente enquanto o Herdeiro de Poseidon respirava pesadamente, o som rouco de sua respiração que era emitido por sua garganta soando alto.
As paredes brancas ao seu redor lhe davam uma serenidade forçada, e o céu enevoado atrás da fina e estreita janela, onde flocos brancos e finos começavam a cair do seu lentamente, transportava-o para outro lugar — um passado recente e excitante.
Quando a mão fria e pálida de Nico lhe tocou o rosto e lhe tirou a vida.
Fechando os olhos com uma funda respiração, Percy se levantou. Os cortes no rosto pareciam arder como se tivessem sido banhados em álcool puro, e os músculos das pernas latejavam com uma dor lancinante e aguda. Tropegamente, Percy rumou até o banheiro localizado no canto esquerdo do quarto em que dormia, atrás de uma porta azul como o céu do verão. Exclamou de dor quando a água quente deslizou sobre os cortes em seu rosto, penetrando-os e forçando a carne a se restituir, esticando e preenchendo-se de forma levemente dolorosa. Parecia a Percy que sua habilidade de cura estava mais lenta agora. E muito mais dolorosa.
Isso que dá ficar morrendo toda hora. A voz estranha de seu outro eu sussurrou em sua mente, elevando-se momentaneamente acima de seus próprios pensamentos conflitantes e insanos. Ficar se matando por motivos fúteis.
Após terminar seu banho de regeneração forçada, Percy se vestiu de forma simples para acompanhar Ethan até o local de treinamento e preparação dos Profanos, e desceu o elevador até o térreo da Corporação Tártaro.
Encontrou seu chefe parado ao lado de um conversível preto e reflexivo, que brilhavam em poças de luz fracas. Não havia sol, afinal. Ele parecia se esconder atrás de uma manta grossa de nuvens cinza.
Algo ruim está prestes a acontecer. Ele refletiu, com seus olhos verdes e pesados erguidos para o céu. Até o sol se esconde, parecendo não querer ver o que pode acontecer. Mas o que poderia acontecer?, ele se perguntava, encarando o olho indecifrável de Nakamura e seu sorriso fraco e sarcástico, seus cabelos escuros balançando com a brisa fria que soprava. Percy envergava uma jaqueta branca com rebites e detalhes em preto que cobria parte de seu pescoço e se estendia quente e pesada, até acima dos joelhos. Já Ethan usava um sobretudo completamente negro que esvoaçava como uma capa quando ele se movia.
– Qual será o nosso próximo movimento? – Percy questionou quando se sentou ao lado de Ethan nos bancos traseiro do automóvel, feitos de couro preto macio e quente. O Herdeiro de Nêmesis não respondeu. Limitou-se a olhar para Percy e alongar seu sorriso fino e frio.
Dez minutos depois, ambos desciam o curto lance de escadas que levava à grande extensão de pedra cinzenta abaixo de armazém. Manhattan parecia muito silenciosa para um dia ainda claro. Talvez o medo de serem encobertos por camadas altas de neve branca e fria aterrorizassem os humanos e os mantivessem em suas casas, tremendo de frio e medo, com grossas cobertas envolvendo seus corpos, com copos cheios de bebida quente e doce em suas mãos. Ou talvez qualquer outra coisa. Percy não os entendia, por mais que se forçasse a tentar decifrá-los.
O grande salão subterrâneo que Percy chamava de Local de Treinamento Secreto não estava silencioso como da primeira vez que o moreno estivera ali. Dessa vez os silvos rápidos e mortais da lâmina prateada com finas linhas negras de Luke cortando o ar, seguido do som do metal batendo contra o pescoço de um fantoche estofado, e também as exclamações altas a cada movimento que exigia uma força e velocidade maiores que as normais, enchiam o ar pesado.
Os sons abafados dos socos que a enorme e amedrontadora Clarisse desferia nas barrigas dos fantoches de aparência humana – contando que os pobres coitados não tinham olhos e nem boca; apenas um nariz fino e achatado no meio da face. –, ameaçando a qualquer momento atravessar os corpos dos fantoches com seu punho forte e duro ecoavam nas paredes também. Ao redor da garota, outros cinco ou seis fantoches jaziam caídos, com enormes buracos em seus peitos, uns sem cabeças, e outros destroçados ao meio.
Ethan e Percy se aproximaram dos dois lutadores, o moreno aplaudindo lentamente enquanto se aproximava, com os olhos verdes opacos cravados na expressão cansada de Luke, onde ali também ele via resquícios leves de raiva e nojo que eram claramente direcionados à Percy.
– Um trabalho muito bom para um reles humano, Luke. – Percy observou, num tom de surpresa, tentando mascarar o deboche da frase; porém sem efeito. A ponta da lâmina tocou a garganta de Percy, o metal frio e reluzente lhe pressionando o osso proeminente da garganta.
– Percy – Ethan sussurrou, pousando uma mão enluvada sobre seu ombro de forma apaziguadora. – não o provoque. Ele é um humano que pode te destruir mais rápido do que você pensa.
Duvido muito. Percy pensou, afastando-se um passo para trás; para longe do alcance do fio da espada de Luke. Seus olhos estreitos e frios o encaravam com uma fúria gritante, o que era engraçado. Suor escorria por seu rosto em linhas transparentes, e sua camiseta se colava ao corpo devido ao suor, contornado seus músculos.
– Vocês devem estar se perguntando por que eu os chamei aqui – Ethan disse, passando por entre Clarisse e Luke, andando com passos calmos em direção a um fantoche intacto. – E o motivo é simples. Preciso que vocês cumpram uma tarefa simples, porém de extrema importância. – ele pousou a mão direita sobre o ombro branco do fantoche, seu olhar fitando os olhos inexistentes como que se pudesse ver seu passado antes de se tornar algo moldado a partir da forma humana. – Preciso que vocês se espalhem por Nova Iorque e causem confusão. Provoquem caos e desordem. Derramem sangue, deixando claro que são os Herdeiros que estão fazendo isso. Quero que vocês façam os humanos nos temerem, nos odiarem; quero que eles desejem nossa morte, para que então eu possa dizimá-los. – o boneco, subitamente, se contorceu, o ferro de sua estrutura rangendo e se torcendo enquanto o corpo em forma de um homem se espremia contra o chão, amassando-se e achatando-se contra o solo de concreto, até que se transformou numa profusão de metal e borracha ao redor de uma superfície cinza, rachada e quebrada em toda a parte em um circulo perfeito ao redor do boneco. – Voltem ao pôr-do-sol – ele completou, colocando as mãos no bolso do sobretudo e passando por seus três lacaios sem olhar para trás.
Percy viu o asiático se afastar, com suas sobrancelhas ainda arqueadas, e quando retornou o olhar para seus companheiros, viu que eles tinham o mesmo olhar confuso e surpreso estampado em seus rostos de expressões duras.
Que tipo de habilidade é essa?, Percy se perguntou, admirado.
Notando, alguns segundos depois, que Clarisse pressionava o punho contra a palma aberta da mão, estralando os dedos ruidosamente, e Luke deslizava um fino tecido branco e quadrado sobre a lâmina, polindo-a cuidadosamente, Percy sorriu; aquela seu sorriso insano e longo de lábios finos e avermelhados; aquele sorriso frio que antecede uma matança.
– Então – ele fez sinal para seus dois companheiros o seguirem. – Vamos?
Percy virou as costas, e andou na direção da única porta ali, e podia ouvir os passos fortes e pesados de Clarisse atrás de si; e o leve pousar delicado e quase sem som dos pés de Luke, que se movia com a agilidade e a graciosidade de um mestre espadachim – o que, afinal, ele era.
Ao longe, no interior de sua mente, como se fosse um som muito real e muito próximo, tão nítido que parecia ser emitido de várias gargantas acima dele, Percy podia ouvir os gritos desesperados das mulheres, homens e crianças que iria matar dentre alguns minutos, implorando desesperadamente por suas vidas.
Já até podia sentir o cheiro viciante e adocicado do sangue em suas narinas.
***
Reyna andava entre as poucas fileiras de tendas que ainda restavam – ou foram abandonadas, ou pertenciam a campistas mortos – com o olhar distante. Ela lutou tanto para conseguir erguer esse lugar. Batalhara diversos tipos de batalhas para conseguir firmar essa Fortaleza, para tudo desabar sobre ela: escombros cobertos de sangue e com as partes decepadas dos corpos dos campistas mortos durante o ataque surpresa.
Ouvia os gritos lamuriosos deles em sua mente, inquirindo-lhe respostas por perguntas que ela não entendia; culpando-a por suas mortes devido a sua ingenuidade e suas emoções.
Talvez por Nico parecer tanto com ele, Reyna havia hesitado em seu julgamento. Deveria o ter prendido e o interrogado como era de costume, mas foi fraca e se levou pela visão de Jason, vivo e saudável, e do garoto que lhe trazia lembranças ainda frescas em sua memória e ouvidos.
O som daquela melodiosa voz, que apaziguava seus mais tormentosos sonhos e pensamentos, lhe mergulhando numa calma e serenidade tamanha que ela chegava a dormir, mesmo com tudo o que acontecia ao redor.
O passado lhe voltava à mente, triste e cheio de sangue e morte, assim como o presente que se estendia a sua frente, e muito provavelmente ao futuro que lhe aguardava.
Uma tenda maior que as outras se destacou a sua direita, e sua cor – como a terra sobre seus pés antes de tudo – indicava ser a de Leo, antes de o garoto deserdar, sabe-se lá o por que.
Um fraco som era emitido, e se repetia duas vezes seguidas em intervalos de dois segundos. Era um som agudo que vinha de dentro da tenda, e se intensificava a cada passo hesitante e silencioso que a Comandante dava na direção da tenda que exalava um odor forte de óleo.
Um bip bip fraco e eletrônico que ressoava por detrás dos panos.
Talvez fosse uma das invenções de Leo, descartada por mau funcionamento?
Reyna, curiosa pela possibilidade de enfim conseguir entrar na tenda de Leo – conhecida por ser bem lacrada, com porta de aço e senha de seis dígitos – intensificou a velocidade de seus passos sobre a rua empoeirada e fria na direção das portas de ferro que, surpreendentemente, se encontravam abertas.
Lá dentro, as lâmpadas de brilho tênue iluminavam o único cômodo da tenda. Os objetos de metal estavam espalhados por todo o canto: sobre as paredes, sobre o chão, sobre os poucos moveis que o próprio Leo criara, e até mesmo sobre sua cama – um monte enorme de mecanismos e objetos de aço empilhados um sobre o outro que ameaçava cair a qualquer momento.
O som ali era mais alto e estridente, e parecia ressoar com urgência. Reyna se sentia preocupada, mesmo sabendo que provavelmente o que quer que fosse que estivesse emitindo tal som, estava danificado. O som vinha na direção da cama, em algum lugar entre aquele monte de metal...
– Não. Está em baixo. – ela disse para si mesma, se abaixando no chão e olhando para baixo da cama quando seus olhos foram atraídos por um rápido e momentâneo relance de uma superfície reluzente. Um pequeno objeto brilhava ali em baixo, e o som vinha diretamente para ela – preocupantemente insistente.
Encostando o corpo no chão, Reyna estendeu a mão para o objeto, envolvendo os dedos frios ao redor do metal também frio.
O objeto eletrônico que zunia seu aviso estridente era um pouco maior que a palma aberta da capitã, e se encaixava quase que perfeitamente ao redor de seus dedos. A superfície quadriculada da tela redonda, Reyna soube de imediato, contornada por um imenso quadrado, era o perímetro da Fortaleza, e tudo fora desse quadrado era a floresta que cercava seu esconderijo. Um ponto vermelho piscava ainda dentro do perímetro.
O que é esse objeto, exatamente? Reyna virou o objeto de metal redondo nas mãos, analisando as costas prateadas do mecanismo de funcionalidade desconhecida. Lembrou, subitamente, que Leo fazia rascunhos de qualquer coisa que pensava em construir, e praticamente se jogou sobre a mesa ao seu lado, espalhando papeis e lendo rapidamente as letras – garranchos escuros.
Conforme seus olhos liam avidamente as linhas, uma risada fria e temerosa se formava em sua garganta. As descrições nas folhas indicavam que o instrumento que tinha em mãos era uma espécie de sonar que servia para mostrar qualquer objeto de comunicação num raio de cinco quilômetros. Mostrava em pontos vermelhos qualquer instrumento que emitia qualquer sinal de ondas eletromagnéticas de comunicação que eram captadas pelo mecanismo.
Ele criou um rastreador para localizar algum espião. Ela concluiu, olhando novamente para o ponto em vermelho que piscava a cada bip. Então isso significa que ele possa não ser um verdadeiro traidor, assim como Jason ou Nico. Uma esperança por enfim ter um motivo para voltar atrás em sua ordem, se estilhaçou dentro dela quando percebeu que não podia fazer nada contra o fato de eles continuarem a ser desertores.
Na verdade, ela podia sim fazer algo quanto a isso. Era algo incerto e errado, que muito provavelmente seria logo desmascarado. Mas ela estava desesperada com a possibilidade de continuar sozinha. Não conseguiu enxergar outra solução a não ser mentir. Mas... Mentir sobre o quê, exatamente?
Os bipes insistentes a despertaram de seus devaneios, e sua mente trabalhou rapidamente quando as frases de Piper voltaram a sua mente, distantes e ecoantes: temos um espião infiltrado entre os nossos; quem quer que seja essa pessoa, está se escondendo muito bem entre nós.
Com um clarão de entendimentos, Reyna arregalou os olhos e começou a correr para fora da tenda, seguindo as indicações no pequeno radar.
O verdadeiro traidor ainda está aqui, entre nós.
A Comandante quase caiu de cara na lama gelada por três vezes, ansiosa por desmascarar quem quer que fosse que, afinal, era o verdadeiro culpado por tudo isso.
Ela subia a rampa de terra batida – a saída situada do lado oposto da entrada – com os olhos ora na tela brilhante do mecanismo, ora no caminho à frente. A luz do ambiente naturalmente iluminado que se abriu a sua frente e que Reyna há muito tempo não via quase a cegou, e a visão das árvores, a sensação gostosa da neve macia sobre os pés, e as nuvens pálidas do céu quase a fizeram parar e admirar tudo, porém se concentrou na missão que tinha em mãos.
Alguns campistas ainda percorriam o caminho ao oeste, organizados em filas, carregando seus pertences mais importantes em sacos e trapos sobre as costas ou braços, com as solas de seus sapatos afundando na neve que começava a se acumular sobre o chão. O ponto vermelho estava próximo, cerca de alguns poucos metros, distanciando-se um pouco da fila de campistas que seguiam o caminho ao oeste. Com passos lentos, Reyna girou quinze graus para a direita, na direção de troncos escuros e lascados dos pinheiros, e andou, com os olhos na tela fluorescente e no caminho inexistente e reto a sua frente.
O bipe alto ressoava pela floresta, e abafava o burburinho de vozes dos campistas, que resmungavam, conversavam e coisas de todo o tipo, suas vozes soando nitidamente cansadas e frias.
O bip estava mais insistente agora, e o ponto vermelho quase do lado de Reyna. Olhando ao redor com seus olhos castanho-escuros, Reyna procurava alguma figura estranha à vista...
Mas viu Octavian, saindo de detrás de um tronco, abotoando as calças sem notar a presença de Reyna cerca de seis metros a sua frente.
– Octavian? – ela exclamou, surpresa, logo notando a imensa gravidade da situação inusitada em que se encontrava. Ele era importante a ela, e era o traidor. – Entre todos, logo você? – ela perguntou, aproximando-se dele, o mecanismo erguido diante do rosto até que ficaram frente a frente e a comandante teve certeza. É ele.
– Do que você está falando? – ele parecia confuso. Seus olhos azuis opacos e sem brilho através da fenda que eram seus olhos pareciam tremeluzir, e suas mãos estavam inquietas, batendo contra a perna ou alisando o tecido de sua camiseta branca constantemente.
– Estou falando disso! – ela gritou, quase enfiando o objeto que emitia seu estridente bipe na cara branco-leitosa do garoto.
– E o que seria isso? – ele rebateu, afastando a mão de Reyna com um empurrão irritado.
– Por quanto tempo pretende continuar com esse seu joguinho, seu merda? – ela exclamou, lhe agarrando o colarinho da camiseta de tecido quente. – Quem você acha que está enganando? Você é o traidor, que se comunica com nossos inimigos em troca de... de que? Dinheiro? Fama? O reconhecimento que você nunca teve? – sua voz era um sussurro frio e cheio de raiva, e o rosto do loiro estava a centímetros do seu, salpicado com a saliva que esguichavam pelos lábios da comandante a cada palavra sibilada.
– Eu... Do que você...
– Chega, Octavian. – ela disse por fim, enfiando uma mão por de baixo da sua camiseta quente, apalpando seu corpo magricela em busca de algo. Nada. – eu estimei você. Eu precisava de você agora como nunca precisei antes. – os bolsos de sua calça também estavam vazios. – e você me trai... Nos trai dessa forma, e ainda tem a cara de pau de se fingir de inocente quando... – apalpando o casaco aberto ao redor de seu corpo, sentiu algo pequeno no bolso do peito do casaco contra a sua mão. Enfiou a mão ali, e retirou um pequeno objeto da cor de sua pele, que parecia se encaixar perfeitamente no ouvido. – Encontrei.
– O que é isso? – ele perguntou, os olhos arregalados de pavor. Seu coração pulsava rápido e forte contra seu peito, Reyna podia sentir. – O que é isso?
– Isso, seu grande pedaço de merda, é um micro comunicador. Mas tenho certeza que você sabe muito bem disso, afinal, foi o que usou para dar nossa localização para os inimigos! Os mesmos que mataram tantos dos meus por sua causa! – a raiva queimava dentro de si como se seu sangue corresse em forma de rios de fogo, o calor dessas chamas exalando por seus olhos, nariz e boca. Empurrou o garoto com violência para trás, fazendo-o cambalear e cair de bunda no chão, o olhar desesperado no seu rosto branco.
– Eu não... Não... – ele gaguejava roucamente, olhando ao redor com seus olhos azuis opacos. Talvez estivesse procurando uma rota de fuga. – Não é verdade. Eu nunca faria isso.
– Não é o que isso parece dizer – ela disse, jogando o minúsculo comunicador sobre Octavian, lançando um olhar cheio de desprezo para o garoto de cabelos amarelos como palha. – Você é o pior tipo. Nem vale a pena matá-lo, por mais que eu queira. Talvez alguns anos preso possa fazer o trabalho, antes...
– Reyna, por favor, acredite em mim... Não fui eu. Alguém... Alguém armou pra mim – lágrimas escorriam por seu rosto.
Deplorável.
– Levante-se e encare sua sentença como o homem que não é – ela ordenou, fazendo um sinal com a mão para que ele se levantasse, pousando a mão direita sobre o metal do cabo de sua espada, presa as suas costas por uma tira de couro vermelho. – Ou eu o arrastarei até...
Ela estava tão cheia de fúria que não notou a mão de Octavian descer lentamente até a sua adaga, presa a cintura dentro de uma bainha marrom, e se jogar contra ela, o borrão prateado de sua lâmina criando uma linha ascendente em direção a sua mão esquerda, que ardeu quando a lâmina deslizou sobre as costas das mãos, criando um fino talho vermelho – um ferimento leve que ela conseguiu evitar que fosse pior.
Dando um passo para trás na tentativa de se afastar do alcance da arma dele, Reyna enroscou o pé em um galho grosso e congelado, despencando de costas sobre o chão, fazendo a lâmina de sua espada ficar presa entre suas costas e o solo encoberto por neve úmida. Octavian se jogou sobre ela sem hesitação, os olhos brilhando de raiva e instinto assassino, as duas mãos empunhando a adaga, querendo proteger ninguém a não ser ele mesmo. Sentando-se sobre o corpo caído de Reyna, o garoto ergueu a adaga acima da cabeça, mirando o peito da comandante. Mesmo com a placa de aço que cobria seu peito, ela sabia que um golpe a essa distância e com a força que seria exercida, seria o suficiente para atravessar aço, couro, carne, músculos e se enterrar em seu coração.
– Não se esqueça que você também é humana, Reyna – o garoto sibilou, lambendo os lábios. – É uma guerra, lembra? Viver ou morrer. Eles vão entender. Você cometeu um erro.
E com uma exclamação, ele começou o movimento para descer a lâmina sobre o peito de Reyna, mas se engasgou no meio do grito triunfante quando a ponta prateada e brilhante de um metal fino e pontiagudo trespassou sua garganta, espirrando gotículas de sangue no rosto de Reyna. Octavian tinha um olhar confuso e desacreditado em seu rosto, enquanto o sangue escorria pelo canto de seus lábios, vermelho vivo, e sua respiração era rasgada, e o fazia engasgar-se no próprio sangue. A adaga caiu de sua mão diretamente na neve, as mãos na garganta, tentando retirar o ferro em sua carne que rompera sua artéria.
Olhando acima da cabeça de Octavian, Reyna viu os olhos de Annabeth, que se assemelhavam a duas pequenas poças de prata derretida que tinham um fulgor assassino abaixo de um par de sobrancelhas arqueadas. Ela retirou a lâmina da garganta do descendente de Apolo — o ferro deslizando com um som úmido e nauseante para fora de sua carne, fazendo o sangue fluir pela abertura como um riacho, rubro e constante, enquanto ele tentava desesperadamente tampar o buraco negro envolto em sangue que o mataria, seus dedos finos e trêmulos arranhando o pescoço. Ele tossiu, fazendo um chafariz de gotículas rubras caírem sobre o rosto de Reyna, seus olhos azuis frios revirando-se enquanto o corpo despencava para frente, mole como um boneco de pano, caindo por cima de Reyna.
Annabeth ainda tinha a adaga ensanguentada na mão coberta de sangue e a roupa manchada com gotículas avermelhadas quando afastou o corpo de Octavian de cima de Reyna com o pé. O sangue dele havia manchando-lhe quase completamente o lado esquerdo do ombro e peito em uma grande mancha escura de sangue na comandante, ainda sem reação. A comandante se levantou, trôpega e desorientada, olhando com olhos arregalados de surpresa na direção da Herdeira de Atena, num agradecimento sem som, onde apenas os olhos o faziam, ao mesmo tempo que sentia um medo frio em sua espinha.
O sangue escuro do descendente de Apolo manchava o chão branco. Os flocos de nevem sugavam o sangue como uma esponja suga a água, cercando o corpo morto do meio-herdeiro com um círculo irregular de sangue quente.
– Você o matou. – Reyna disse, sem olhar na direção de Annabeth.
– Ele era o traidor.
Reyna poderia ter gritado com a garota, exclamando em seus ouvidos palavras frias e duras, dizendo que ela estava errada em fazer isso; que isso não era o procedimento correto quando se encontrava um traidor... Mas se ela não o tivesse feito, provavelmente Reyna poderia estar morta agora, com uma adaga de lâmina afiadíssima enterrada em seu coração, e as palavras ficaram presas em sua garganta.
Reyna se deixou cair sentada, os braços apoiados sobre o joelho, a respiração quente criando névoas finas diante de seus lábios, o olhar congelado no corpo de Octavian. O sangue fluía ainda por sua garganta, em finos filetes escuros do que ainda restava. Annabeth se ajoelhou a sua frente, sacando de um bolso na calça um rolo de gaze amarelada, e desprendendo do outro lado da cintura um cantil de aço.
– O que você vai fazer? – Reyna inquiriu, com sua voz fraca mal se fazendo ouvir.
– Um curativo. – ela respondeu, simplesmente.
Abrindo o odre, derramou a água sobre o corte nas costas da mão esquerda de Reyna, usando uma tira de roupa para secar e limpar o ferimento antes de envolvê-lo numa camada de gaze. Os dedos de Annie eram hábeis e delicados, estranhamente quentes e confusos em seus movimentos. Reyna levantou o olhar para os olhos acinzentados de Annabeth, ao que ficou fitando-os em silêncio, observando os anéis de brilho que cintilavam neles, extremamente belos.
– Obrigado. – Reyna agradeceu num sussurro, ainda encarando os olhos de Annabeth. Ela assentiu em retribuição, levantando-se e dando longos três passos para longe do corpo, colocando as mãos na cintura e pousando o olhar nos picos esbranquiçados das árvores à frente.
– E agora? O que vamos fazer? – ela perguntou, sem se virar na direção de Reyna. Sua voz estava trêmula e nitidamente embargada.
– Continuamos.
– Para a cidade?
– Sim.
Após um momento de silêncio constrangedor onde nenhuma das duas ergueu as vozes para dizer alguma coisa ou sequer movimentaram-se para andar para algum lugar, uma voz soou, acima de suas cabeças, suave e ao mesmo tempo forte.
– Vocês não podem ir para aquela direção. – Reyna se levantou num pulo, retirando a espada longa das costas e a empunhando com as duas mãos, os olhos voltados para cima, indo de galho e galho em busca de alguém. Ou algo. Annabeth fazia o mesmo, seus olhos como pratas perscrutando os galhos esbranquiçados acima. – A Feiticeira Branca os mataria abaixo de espessas camadas de neve; congelando seus corpos com os ventos gélidos que penetram a carne e congelam os ossos de seus corpos.
Reyna encontrou, enfim.
Olhos vermelhos como o mais puro sangue a observavam entre galhos escuros e grossos como dedos; seu rosto branco quase não foi visto entre o branco que cobria parcialmente os galhos; seus cabelos se derramavam como se fossem feitos de neve – eram tão alvos quanto a própria neve que caíam em linhas do céu. O Filho de Thanatos usava um manto esfarrapado da cor dos troncos sobre o corpo, e, se não tivesse falado, estaria tão bem disfarçado que ninguém nunca o teria notado.
– Eu pensei que você tivesse sido esmagado por aquela rocha. – Reyna observou, abaixando a lâmina para o chão.
– Não. A grande rocha apenas destruiu metade de minha prisão de vidro – ele explicou, saltando do galho e pousando com maestria e suavidade sobre o tapete branco de neve, sem parecer sentir o impacto do próprio peso. – E como ela foi quebrada, saí sem ser percebido.
– E o que pretendia com isso? – Annabeth perguntou, colocando a lâmina de sua adaga dentro da bainha ao lado da cintura num raspar de aço contra couro.
– Isso agora não é importante – ele descartou a pergunta com um aceno de mão. – Você tem de parar seus vassalos, Reyna.
– Eles não são meus...
– Isso não importa – ele a interrompeu, com as esferas vermelhas como rubis brilhantes cheios de preocupação. Seu rosto estava sério, sem sequer uma sombra de divertimento, mentira, ironia ou deboche. Havia urgência em seu tom de voz. – Se você não os fizer rumar para outra direção, eles vão todos morrer.
– E para onde mais iríamos?
– Para a direção oposta – e ele apontou para a direção com seus dedos finos e pálidos, sem tirar os olhos vermelhos do rosto de Reyna. – para o verdadeiro lugar seguro.
– O que exatamente tem naquela direção, albino? – Reyna perguntou, se aproximando um passo lento na direção do Filho de Thanatos.
– Um lugar seguro. Quente. Desconhecido a todos. – ele respondeu com seu habitual tom de voz cansado, mas cheio de sabedoria anciã. – O lugar onde os pais de todos os Herdeiros viveram antes do mal agir.
***
Nico havia devorado de forma ávida todo o tipo de comida que fora colocada a sua frente, e agora entornava o terceiro copo de refrigerante gelado e nostalgicamente borbulhante. Durante os intervalos nas mastigadas longas, Nico relatava tudo que se lembrava, com a ajuda de Jason e Leo. O Herdeiro de Hades contou, novamente, sobre sua longa estadia forçada na Sala Branca da Corporação Tártaro; a fuga, a recepção na Fortaleza. Não mencionou as vozes insanas que gritavam em sua mente, pois achava que estava liberto delas, por não mais as ter ouvido desde que despertara da inconsciência por falta de sangue.
– Percy – Will finalmente começou a dizer, seu olhar baixo fitando as pratarias e xícaras de porcelana branca cheias de café, chá e leite. – tentou te matar? Tentou matá-lo, assim como quis matar Annabeth?
– Ele estava completamente insano, como eu disse – Nico repetiu para o Herdeiro de Apolo. – Não parecia ele. Estava totalmente diferente, se isso é possível.
– Tudo é possível no mundo onde vivemos, Di Ângelo – Lee Fletcher disse suavemente, inclinando-se na direção de Nico e lhe estendendo uma barra fechada de chocolate. – Você não ficaria surpreso com o que já vimos por aí.
– E você acha que ele está aliado aos seus inimigos? – o loiro perguntou, erguendo seus olhos azuis claros para Nico, olhando logo em seguida para Jason.
– Ele pode estar sendo controlado de alguma forma...
– Também é provável – Will concordou, assentindo levemente com a cabeça, seus olhos voltando-se para Leo. – E você evaporou a água porque ele se cura quando entra em contato com ela? – Leo assentiu, enfiando um grande pedaço de pão na boca. – E ele pode controlar a água da forma que quiser? – Nico assentiu, tocando o meio do peito, onde seu instinto o salvara de ter morrido há muito. – Um inimigo formidável, tenho que admitir.
– Perigoso também – Leo murmurou com a boca cheia de pão, as migalhas voando de seus lábios. – Mortal e insensível. Eu quase morri, e olha que nem estava lutando.
– E você disse, Nico, que ele queria você? – Michael Yew perguntou, inclinando-se para frente na cadeira, seus olhos brilhando de ansiedade e curiosidade. Nico assentiu lentamente, ao que Will murmurou algo indecifrável que se assemelhava a um grasnido de incompreensão, e se levantou, as mãos sobre a cabeça, os olhos arregalados com um misto de pavor e confusão.
– Eles não o podem ter, Nico – Will exclamou, olhando diretamente nos olhos escuros de Nico com uma urgência gritante em sua voz. Uma sombra de preocupação e pavor estava estagnada em seu rosto pontilhado por pequenas sardas. – Se eles conseguirem botar as mãos em você, mesmo que você esteja vivo ou morto, o rumo da guerra poderá ser drasticamente mudado.
– Do que você está falando, Solace? – Jason perguntou com voz aflita e sobrancelhas fortemente arqueadas. Sua mão esquerda pousou sobre a de Nico de forma protetora. – Por que eles iriam querer o Nico? Eu não entendo...
– Eu também não – Leo ecoou, limpando os lábios cobertos de farelo com as costas das mãos. – É melhor você se explicar antes que eu bugue aqui.
Will suspirou pesadamente, sentando-se novamente no sofá, entre Lee e Yew. Após alguns segundos de extremo silêncio, com os olhos azuis do Herdeiro de Apolo fitando os próprios dedos que se moviam, agitados, ele disse, num tom de voz baixo:
– A Corporação Tártaro e a Organização Atlas são ambas governadas pela mesma pessoa, porém não temos nenhuma informação a mais do que isso. A Tártaro Corp. percorre quase todo o mundo em busca de Herdeiros, e também humanos descendentes, ou simples humanos...
– Como Reyna. – exemplificou Jason, assentindo levemente com a cabeça.
–... e os usam em diversos experimentos e testes. – Will prosseguiu, ignorando a interrupção de Jason. – Resumindo: essas organizações não mais secretas como antigamente, usam o sangue de Herdeiros e os injetam em humanos, para criarem, assim, seu próprio exército para essa guerra. Por isso você é tão importante, Nico: você é o único Herdeiro de Hades vivo. Imagine um exército de centenas de Hospedeiros Artificiais com o Toque da Morte numa guerra!
Nico sentiu a saliva se entalar em sua garganta e seu estômago se revirar dentro de si quando a onda de náusea o atingiu. Um gosto azedo inundou o interior de sua boca quando a imagem de uma longa rua de asfalto negro coberta de corpos mortos e com rostos cobertos por veias negras e bocas escancaradas se formou em sua mente.
A morte vem para todos. A voz lamurienta e esganiçada voltou, enfim, a murmurar na mente de Nico. O garoto, por um breve momento, olhou para o lado direito, sentindo como se a frase tivesse sido sussurrada em seu ouvido. E todos morrerão por suas mãos. Ela voltou a sussurrar, tão próxima que Nico imaginava poder sentir sua respiração fria contra seu pescoço. Fechando os olhos e cerrando os punhos com força contra a cabeça, Nico berrou para que a voz se afastasse dele; para que o deixasse em paz...
E quando voltou a abrir os olhos, todos o encaravam com olhos esbugalhados e expressões aterrorizadas em seus rostos.
– Desculpem. – Nico murmurou, abaixando os olhos para as próprias mãos enluvadas.
Will praguejou em voz baixa, colocando a mão fechada em punho diante da boca e tossindo, voltando a atrair a atenção de todos para si. Todos ainda pareciam assustados.
Será que eu realmente gritei?, Nico se perguntava, olhando pelo canto dos olhos para a expressão de Jason. Surpreendeu-se quando viu os olhos azuis elétricos do loiro examinando-o cuidadosamente.
– Continuando – Will murmurou, tomando um gole de leite frio antes de prosseguir: — Temos que fazer algo quanto a isso. Um exército está sendo criado, e alguém tem de fazer algo antes que a guerra comece.
– Quer dizer que... – Jason começou, afundando-se no estofado macio do sofá.
– Sim – Leo completou para Jason, e pela primeira vez Nico viu uma expressão séria e dura no rosto de Leo, e isso o surpreendeu. – Nós estamos em menor número nessa guerra. É isso o que ele quer dizer. E a outra mensagem também ficou clara, Will. Nós, especificamente um de nós, temos que invadir a sede de uma das organizações, encontrar esses Herdeiros Artificiais e destruir tudo e todos.
– Eu vou. – Jason se prontificou na hora, pondo-se de pé num pulo automático. – Sou o mais rápido dentro todos aqui...
– E o mais fraco – Nisso disse sem pensar, e se arrependeu na hora. Lutou contra a língua que parecia ter se tornado aço dentro de sua boca e emendou rapidamente: — por causa do Efeito Colateral. Se você usar muito suas habilidades, vai acabar morrendo.
– Sim, mas...
– E também porque todos lá já conhecem seu rosto, Jason – Will explicou, descartando a possibilidade. Jason se jogou contra o sofá, o rosto sério. – Assim como conhecem o meu, por eu ter vindo de lá, afinal, e o de meus dois pupilos. Antes que pergunte, seu rosto é o mais procurando dentre todos, Nico.
O garoto pálido envolto em camadas quentes assentiu levemente com a cabeça, se sentindo momentaneamente aliviado por não precisar voltar para aquela cidade obscura e para aquele prédio branco, onde sofrera psicológica e fisicamente.
– Só resta, então – Leo começou a anunciar, levantando-se lentamente, o olhar abatido em seu rosto. Forçou um sorriso, colocando as mãos na cintura e estufando o peito, e disse com a voz mais confiante que pôde encontrar: — eu. Eu sou o único aqui que eles não conhecem o rosto. Essa missão é minha.
Jason não disse nada. Apenas se levantou sem dizer nada e sem nem cravar o olhar frio em ninguém, e rumou em direção as escadas, com os passos pesados e cheios de raiva ecoando no piso e nos degraus, enfim desaparecendo. Todos continuaram em silêncio por alguns minutos, Leo com o sorriso congelado no rosto, desnecessariamente forçado e falso.
Nico não o conhecia muito, mas podia ter certeza que Leo estava se sentindo desesperado com a possibilidade de entrar no covil inimigo e ter de destruir tudo – por mais que parecesse gostar de destruir e queimar coisas. Seus olhos castanhos escuros o denunciavam: estavam inquietos e tremeluziam com o medo que o garoto tentava mascarar.
– Leo, venha comigo – Will o chamou, indo na direção da cozinha, iluminada pela luz natural que entrava pela enorme janela quadrada. – Temos que conversar.
Leo assentiu, olhando para Nico e novamente forçando um sorriso antes de seguir na direção do Herdeiro de Apolo. Michael Yew e Lee Fletcher continuavam sentados na frente de Nico, encarando o garoto com seus olhos curiosos e temerosos.
O que tanto olham, afinal?, Nico se perguntou, olhando para as próprias roupas sem ver nada. Estava prestes a perguntar para os garotos, quando o maior deles, Fletcher, se levantou e, agarrando o menor pelo pulso, puxou-o atrás de si enquanto corria na direção das escadas. Quando o menor passou ao lado de Nico, o moreno viu, com seus olhos negros e cansados, que uma mancha avermelhada tomava o rosto do pequeno Yew.
Sozinho e confuso, Nico queria correr para o quarto de Jason e ajudá-lo de alguma forma, por mais que não soubesse como; queria correr para a cozinha e ajudar Will a formar alguma tática ou um plano para ajudar Leo em sua perigosa missão. Queria poder fazer alguma coisa, mas se sentia completamente impotente.
O que posso fazer, além de matar as pessoas com um toque?, o garoto se perguntou, se sentindo abatido. Levantando-se do sofá macio lentamente, Nico deu um passo no intuito de ir na direção dos quartos, quando tropeçou em algo. Olhando para baixo, viu uma imensa rachadura no chão, que começava exatamente onde ele estava sentado e serpentava, grossa e negra, até a base da parede.
Eu fiz isso?
Agora fazia sentido o porquê dos olhares confusos e cheios de medo que eram enviados a Nico.
Não é todo dia que se vê um garoto abrir uma pequena fenda no chão de sua casa com um grito de pavor.
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