Touch

14 City Of Blood


Notas iniciais
Estou me erguendo novamente das cinzas, e soprando todo o pó que habitava sobre a Touch... Obrigado a todos que comentaram, que me cobraram o cap e talz... Kissus

Será que uma confusão como essa é o suficiente?, Percy se perguntou, avaliando o cenário que o cercava com um sorriso fino em seus lábios avermelhados. Seu peito subia e descia rapidamente com a rápida e áspera respiração que lhe escalava a garganta, o som como o de uma lixa raspando em unha quebrada.

Corpos se espalhavam sobre o chão, despedaçados, dilacerados e ainda quentes, cobertos em sangue escuro, suas roupas transformadas em fiapos onde as frias e rápidas lâminas de água de Percy lhe cortaram, rasgando com uma precisão cirúrgica pele, carne, nervos e ossos.

Era tudo uma cena tão admirável para seus olhos, que lhe enchia de orgulho frio.

O coração do moreno estava cheio de satisfação com seu trabalho bem feito. Seus olhos verde-mar reluziam à forte luz que pendia do teto em enormes lustres de cristais cintilantes, onde uma luz branca se derramava sobre as paredes acinzentadas, fazendo o sangue que se estendia sobre o chão brilhar como um tapete incrustado em jóias.

Era hilário pensar no quão fácil fora eliminar todas as pessoas que estavam nesse grande salão. Percy tinha apenas algumas balas alojadas em seu corpo, que explodiam numa dor incômoda, mas nada muito grave quando se era imortal.

Um som abafado à suas costas o fez virar-se bruscamente, seus olhos rapidamente procurando a origem de tal som peculiar e familiar; e logo o achou.

Um pequeno garoto de corpo mirrado jazia ajoelhado ao lado do corpo dilacerado de uma mulher – um enorme corte que lhe subia desde a virilha até o ombro brilhava, as vísceras da mulher, gordurosas e brilhantes de sangue se derramando sobre o chão como pedaços de carne indesejados em um açougue -, balançando seus ombros desesperadamente, na vã esperança de que a mulher — que aparentemente era sua mãe – se levantasse milagrosamente e levasse seu pequeno filho para um lugar mais seguro. Mesmo de longe, Percy viu as grossas listras que brilhavam no rosto do garoto, onde o choro o marcava. As lágrimas se misturavam com o sangue que pontilhava seu rosto confuso e assustado.

Percy se aproximou lentamente e, quando o garoto ouviu os passos do moreno atrás de si, virou-se assustado, erguendo um olhar esbugalhado de olhos azuis diretamente para os olhos de Percy.

Aqueles olhos pareciam sondar o âmago da alma do moreno, e uma luz tênue de esperança brilhava ali, quase ofuscada completamente pelo total e doce desespero que inundava seus olhos claros.

Antes que o garoto pudesse abrir os lábios para murmurar qualquer coisa, Percy agarrou seu rosto com as mãos, fechando os dedos ao redor do crânio pequeno do garoto, que gemia de dor contra a palma de Percy. Mais lágrimas quentes escorreram de seus olhos num apelo silencioso.

– Você sabe que sua mãe está morta, não é? – Percy perguntou num sussurro, cravando os olhos friamente nos do garoto. – Sabe que ela não vai mais acordar, certo? Sabe que você nunca mais vai sentir o abraço dela, ou ouvir sua voz. – Os olhos do garoto tremeluziam, e sua respiração era quente e descontrolada. — Sabe que ela nunca mais vai voltar para você... não é? – Lentamente, o garoto assentiu, soluçando de dor e algo mais que Percy não conseguiu identificar. – Você quer se juntar a ela? Ou quer viver por ela?

Percy o arremessou contra o chão, fazendo-o deslizar sobre o piso liso por causa do sangue, parando apenas quando suas costas se chocaram contra um enorme e maciço pilar com força; o garoto arquejou de dor, contraindo os membros contra o peito em busca de ar.

– Levante-se e fuja – Percy disse, movendo a mão na direção das enormes portas duplas de vidro por onde entrara. Lá fora o som irritante das sirenes, do burburinho de vozes assustadas e do chefe da polícia gritando para que o culpado saísse com as mãos para cima se elevava cada vez mais. – Antes que eu mude de ideia – Percy sentenciou, abaixando o rosto cheio de pesar para o chão, as mãos finas escondendo o rosto retorcido pela dor interior.

Lentamente o garoto levantou e, lançando um último olhar na direção dor corpo da mãe, iniciou uma corrida desenfreada e trôpega em direção as portas, e as atravessou com um choro lhe subindo pela garganta, como o urro de um animal ferido.

Um enorme e insano sorriu se abriu no rosto de Percy.

Com um movimento rápido de mão, Percy fez um filete de sangue saltar do chão na direção das portas, tomando a forma afunilada de uma lança rubra enquanto voava num borrão em direção as portas, atravessando as costas do garoto num chafariz de sangue. Com o sangue escorrendo como um riacho das costas e do peito do garoto, ele caiu como um tronco cortado sobre o chão, as lágrimas misturadas com sangue pintando seu rosto puro.

Um silêncio sepulcral se abateu no lado de exterior da enorme construção, onde milhares de pessoas assistiam à cena, boquiabertas, com aquelas clássicas expressões de horror em seus rostos desprezíveis. Mas logo os gritos e as exclamações se ergueram novamente, dessa vez mais altos enquanto o pequeno garoto morria lentamente sobre os degraus de pedra.

Ao longe, Percy ouviu o ruído alto de explosões, e o chão sobre seus pés tremeu novamente.

– Está se divertindo mesmo, hein, Clarisse – Percy divagou, andando em direção às portas de vidro abertas, deixando atrás de si um mar de corpos e sangue.

***

Nico hesitou em abrir a porta, por mais que sua mão enluvada estivesse pousada sobre a maçaneta. O metal talvez fosse frio ao toque, ele refletiu por um instante, mas, afinal, tudo era frio ao toque de suas mãos; talvez suas mãos fossem até mais frias, espalhando escuridão e morte com apenas um leve toque.

Tudo em que você toca, consquentemente morre – a voz sussurrou em sua cabeça, e Nico cerrou o punho com força para espantar o pensamento, os dentes rangendo de raiva. Raiva de si mesmo.

Respirando fundo, Nico empurrou a porta, que se abriu com um rangido baixo.

Viu Jason parado em frente à janela, fitando a neve que caía sobre os telhados curvados do conjunto de casas lá fora com um olhar duro; Nico percebeu que seu corpo estava rígido e tensionado como uma pedra mesmo a distância. Aproximou-se lenta e silenciosamente e parou ao lado do loiro, também fitando a camada de neve que cobria as ruas com um lençol alvo.

– Não me diga que vai dar tudo certo – Jason sibilou entre dentes cerrados, quebrando o constrangedor silêncio que pairava sobre eles. – porque sei que é apenas mentira.

Nico olhou para ele, analisando seu rosto.

Seu maxilar tremia, assim como seus lábios; seus olhos semicerrados e encobertos por uma espécie de sombra impediam Nico de identificar o que talvez se passasse por sua mente. Fios dourados caíam-lhe sobre a testa, escondendo parte de suas sobrancelhas arqueadas.

– Eu não ia dizer isso – Nico sussurrou, voltando a olhar para os flocos gordos de neve que caíam em linhas tortas do céu pálido. – Só ia dizer que você está horrível.

Surpreendentemente, Jason riu. Um som fraco e curto que por um instante fez Nico se sentir vitorioso.

– Você também não está nada bem – Jason disse, olhando enfim na direção de Nico, e o olhar que estava estampado em seu rosto fez o coração de Nico se apertar em seu peito. – se me permite dizer.

As palavras se embolaram como fios na garganta do garoto quando seus olhos escuros se cravaram naquele par de anéis azuis elétricos, cuja cor estava esmaecida por um tênue véu de intensa tristeza, fúria e dor. O peito de Nico retumbava com os batimentos fortes de seu coração, enquanto pensamentos acerca de Jason giravam em sua mente.

– Não podemos salvar todos ao nosso redor, Jason – Nico disse suavemente, sem conseguir encarar os olhos do loiro, que ele sabia estarem voltados para si. – Nem mesmos àqueles que nos são mais preciosos estão livres do perigo. E, aliás, estamos numa guerra, sendo assim, nenhum lugar é seguro.

– Como é lá? – Jason perguntou, como se nem ao menos tivesse ouvido o que Nico havia dito. O moreno soltou o ar de seus pulmões, exasperado.

– É um inferno – sua voz tremula respondeu, com as memórias do tempo trancafiado nas entranhas daquela construção branca passando por trás de suas pálpebras fechadas. – encoberto por panos brancos. – Nico abraçou o próprio corpo, subitamente sentindo um frio incômodo e um medo gélido em sua espinha. Seus batimentos aceleraram consideravelmente enquanto os dedos enluvados apertavam as peles dos braços. – Eu nunca mais quero voltar para aquele lugar... As coisas que fazem lá... As torturas... Os experimentos – lembrou-se da estranha sensação da ponta metálica das seringas lhe furando a carne, e do líquido que era injetado em sua pele, correndo como ácido em suas veias. – Não... É um inferno... Destrua aquilo. Matem...

O aperto das mãos de Jason em seus pulsos o impediu de continuar a arranhar o próprio corpo, e o brilho de seus olhos preocupados e levemente assustados o tirou das más lembranças de imediato.

Realmente, esse garoto é a sua âncora– aquela voz sussurrante murmurou, distante, sua voz sendo soprada para longe pelo vento que era a respiração quente de Jason próxima a seu rosto, seu narizes quase se tocando com a proximidade.

– Não pense mais nisso – o loiro o acalmou, deslizando seus dedos gentilmente pelo pulso de Nico, acariciando as cicatrizes até entrelaçar seus dedos nos do moreno num aperto suave. – Eu estou aqui com você agora, Nico, e não vou mais deixar ninguém te machucar, não importa o que me aconteça. – o garoto menor e paralisado não conseguiu dizer o que se passou pela sua mente. Queria repreender Jason por se preocupar tanto consigo ao ponto de tratar a própria vida como se fosse algo insignificante. Sentiu o toque dos dedos quentes do loiro em seu rosto, afagando suas maçãs pálidas com os nós dos dedos. – E vou sempre estar.

Nico, sentindo-se confuso com essas palavras – palavras que deveriam lhe encher de coragem, e que deveriam o fazer se sentir protegido e amado -, que lhe trouxeram uma súbita e incontrolável onda de frustração e indignação, avançou pra cima de Jason, agarrando-lhe a gola da camiseta de tecido grosso, e a apertando com força entre os dedos enluvados.

– Não faça promessas vazias – Nico sibilou, mordendo os lábios para conter a torrente que lhe subia a garganta incontrolavelmente. – Não diga coisas sem sentido ou apenas por dizer – o moreno abaixou os olhos, sentindo-os se encherem de lágrimas. Pensou em Bianca, e em tudo que ela lhe dissera; pensou em sua mãe, e o que lhe acontecera; pensou em Percy – o antigo Percy -, tentando livrá-lo de sua cela branca, não ligando para a própria vida. Todos tinham em comum o forte sentimento e a convicção de quererem proteger Nico, não ligando para si mesmos. – Eu não quero apenas ser protegido por quem quer que seja apenas pra assistir essa pessoa sofrer por minha causa – engolindo um soluço, Nico encontrou as forças que lhe faltavam para erguer os olhos marejados de lágrimas, cravá-los nos de Jason e exclamar: — eu não quero mais assistir todos que amo morrerem na minha frente!

Jason tinha o rosto tomado por uma expressão confusa e estranhamente pálida, como se tudo que Nico expeliu de dentro de si – todos esses sentimentos que apertavam e o fustigavam como agulhas – houvesse de alguma forma ferido o loiro; sua expressão era ilegível aos olhos marejados de lágrimas de Nico. E isso o assustou.

Praguejando mentalmente, Nico deu um passo pra trás, levantando o braço para esconder as lágrimas quentes que vertiam por seus olhos, e os dedos de Jason envolveram seu pulso, e assustado, o garoto ergueu os olhos para encarar um Jason furioso, mas suas íris azuis como pura eletricidade refletiam apenas outro sentimento, algo próximo da solidariedade e compreensão, um forte brilho de afeto e carinho. Seu toque quente e gentil apenas serviu para apavorar ainda mais Nico. Por que você está sendo gentil depois de tudo que eu falei?

Jason o puxou contra si, e Nico foi jogado contra o peito robusto e quente do loiro, enterrando o rosto em seu tórax torneado. Podia sentir seus batimentos acelerados contra sua orelha, a respiração arranhando a garganta, e o afago gentil em seus cabelos negros e emaranhados. Nenhuma palavra fora proferida por seus lábios – não que precisasse de alguma.

Agarrando-se ao tecido quente da camisa de Jason como se fosse sua âncora para a realidade, Nico deixou as lágrimas fluírem livremente enquanto seus joelhos cediam e ele deslizava ao chão, amparado pelos braços firmes de Jason. Novamente, toda a dor que sentia em seu peito estava fluindo em forma de lágrimas.

– Desculpe, Nico – o loiro sussurrou, beijando o topo da cabeça do garoto diversas vezes, até a respiração descontrolada e áspera dele se transformar num inspirar e exalar forçado e pesado. – Eu realmente não vi as coisas pelo seu lado, não? Desculpe mesmo – Nico fungou, afastando-se do corpo de Jason e erguendo os olhos para ele. – Que tal se nós protegermos um ao outro, hein?

Jason então sorriu, e todo o medo pareceu ser sugado da mente de Nico temporariamente. Como que em transe, o moreno trêmulo assentiu, usando as costas das mãos para enxugar as lágrimas que marcavam seu rosto, e pousou a face contra o peito reconfortante de Jason, sentindo o palpitar ritmado de seu coração frágil, o calor de seu corpo o envolvendo como mantas, e sua respiração contra seus cabelos desgrenhados.

Nico nem sequer percebeu, tamanho era o cuidado que Jason tomava, quando o loiro o ergueu em seus braços firmes, e com passos leves caminhou até a cama e, pousando Nico delicadamente sobre os lençóis alvos, deitou-se ao seu lado, encarando os olhos escuros de Nico, que a tudo observavam, com a mente distante, sentindo o torpor do cansaço se abater novamente sobre ele. Fechou os olhos lentamente, com o azul elétrico dos olhos de Jason sendo a última imagem que vira antes de ser puxado, e logo após tudo se tornou negro; mas a sensação de conforto e segurança permaneceu. E também a sensação elétrica do suave pousar dos lábios quentes de Jason sobre os seus, num sutil e afetuoso beijo de boa noite.

***

Ethan consumiu o que restava de seu fino cigarro com uma profunda tragada, sentindo a nuvem tóxica revolver como uma serpente densa e sem forma dentro de si. Seu único olho estava fixado na porta de vidro fino que dava para seu escritório imenso, esperando ansiosamente o retorno de seus agentes. Seus dedos tamborilavam sobre a mesa de vidro a sua frente, e, no exterior, o som irritante e forte do fluxo diário de Nova Iorque ressoava.

Buzinas. Gritos. Ruídos. Passos. Respirações. O irritante e desprezível bater de corações saudáveis – e outros nem tanto.

A porta de vidro deslizou para dentro de sua fortaleza de Cristal, e Ethan soprou por seus lábios a nuvem de fumaça que outrora revolvia dentro de seus pulmões. A névoa cinza e de cheiro fétido rodopiou no ar, subindo para o teto antes de desaparecer.

– E aí está o meu Trio favorito! – Ethan exclamou, apagando a ponta incandescente do cigarro em seu cinzeiro de vidro negro.

– Somos seu único trio – Percy rebateu, sem demora, fazendo Ethan rir euforicamente. – Qual o motivo de tanta felicidade, Ethan? – o moreno perguntou, seus olhos verdes como o mar do verão o encarando, curiosos. – Ver a desgraça dos humanos lhe agrada tanto assim?

– Para ser sincero, Percy, nada poderia me agradar mais – ele respondeu, encaminhando-se com passos leves de felicidade. Ethan sentia como se uma asa espectral despontasse de suas costas, leve e pura, e o içasse para o ar, livre como nunca antes esteve. O asiático andou até a adega que mantinha num canto arejado e livre dos raios solares que entravam pela janela como fios dourados, e escolheu aleatoriamente uma garrafa de vinho tinto envelhecido. – Esses humanos com suas histórias de vida entediantes, ideais pequenos e frágeis como galhos secos, e vidas insignificantes como as de um inseto, ou até piores – despejou o liquido escuro sobre a taça de cristal fino como uma unha, e levou o liquido ao encontro de seus lábios, e, de olhos fechados, saboreou demoradamente o sabor que explodia em sua língua e descia como dedos suaves por sua garganta abaixo. – Mas ainda não é o suficiente. Servidos? – Ethan ofereceu, erguendo a taça na direção dos companheiros, que lhe observavam com olhos frios e expressões vazias como cascas de árvores. Aquilo, provavelmente, era um não.

Quem não gosta de uma taça vinho seco safra de 78?

Ethan encolheu os ombros e sentou-se em seu imenso sofá felpudo e branco como neve acumulada sobre um prédio cinza e frio. A sua frente, sua TV modestamente enorme, que ocupava quase toda a parte superior da parede onde estava colocada, desligada, devolvia a Ethan seu próprio reflexo.

Seu olho determinado e fulgente. Seu rosto firme e risonho. Seus lábios finos e avermelhados. Suas mãos pequenas e frias, com uma pele tão fina e pálida quanto pergaminho as cobrindo. As formas dos ossos pontudos do rosto tão visíveis como se um pano as cobrisse.

– Quero lhes mostrar algo – Ethan disse, indicando os assentos vazios ao seu lado. Ninguém se sentou, exceto Percy, olhando pra ele com um fino sorriso esticado em seus lábios quase sem cor. Havia sangue espalhado em sua camiseta. – Troque de roupa depois, Percy. Enfim, espero que gostem. – Ethan fez um movimento horizontal na direção da enorme TV de plasma, e ela se acendeu com um leve som de estática, irradiando seu brilho.

“... reunida em frente ao grande edifício do Empire State Building, uma imensa multidão furiosa se reúne, todos para expressar o mesmo sentimento que borbulha nos corações de cada um aqui. Hoje pela manhã, três ataques ocorreram em pontos separados da cidade, todos eles com um alto fluxo de pessoas, deixando para trás um rastro de destruição e morte...”

– Olha, acho que estão falando principalmente de mim! – Percy exclamou subitamente, seus olhos verdes brilhando como anéis de neon. O clássico e tão amado sorriso insano em seus lábios, e a inquietação dos dedos, tamborilando rapidamente sobre a própria perna. – Eu realmente fiz uma bela bagunça. Você iria gostar, Ethan – ele disse, inclinando a cabeça na direção do outro, engomado em suas roupas caras e seus tecidos finos. – você chamaria aquilo de “Obra de Arte”.

– Por enquanto, Percy – o asiático disse sem olhar para o garoto ao seu lado que emanava uma fria aura de pura e simples insanidade. – eu estou mais interessado naquela obra de arte.

Com um muxoxo, Percy voltou sua atenção à tela brilhante da TV, que ainda exibia a cena das pessoas se reunindo numa multidão realmente furiosa em frente ao Empire State Building. Seguravam em mãos enluvadas placas que diziam coisas como “HOSPEDEIROS = ABERRAÇÕES”, “NÃO HUMANO, NÃO CONFIÁVEL”, “UM HERDEIRO MORTO, É IGUAL A DOIS HUMANOS VIVOS”, entre outros tipos, todos com o mesmo tema; todas voltadas para os Herdeiros e o aparente perigo que eles pareciam trazer à humanidade.

Finalmente, Ethan pensou, se deliciando com a cena. Quase podia imaginar aquela mão estranha se erguendo para o céu, e o clarão. Finalmente os humanos começam a erguer suas armas e mirarem-nas para nós.

A voz da repórter continuava a falar, exclamando numa tentativa de soar mais alta do que os gritos da multidão.

“... Não sabíamos de sua existência até muito pouco tempo atrás. Será que eles são realmente uma verdadeira ameaça para nós humanos? Os manifestantes reunidos aqui imploram para que o Presidente lhes olhe com piedade, e dê um completo fim às “aberrações” antes que elas se tornem mais nocivas e ataquem. Antes que um genocídio aconteça...”

Ethan desligou a TV com outro movimento, e permitiu-se fechar os olhos por um curto instante. Conseguia sentir os olhos de seus três agentes sobre ele, fitando-o curiosamente em seu momento de puro êxtase.

– Isso deveria significar algo? – Luke disse, com sua voz estranhamente normal fazendo Ethan ser chacoalhado de volta para o atual momento.

– Isso significa algo, Luke. O que você vê ali?

– Vejo apenas pessoas desesperadas e com medo após uma série de ataques violentos e inúmeras mortes – o espadachim rebateu rapidamente, com seus olhos frios lhe encarando. Sua cicatriz tinha uma estranha coloração durante o dia. – Nada de anormal.

– Sim, é isso que seus olhos de humano enxergam. – Ethan afirmou, levantando-se novamente do sofá branco e rumando com passos excitados para a janela de vidro grosso que dava para uma bela vista da cidade em toda a sua coloração e movimentação. – Mas, sabe o que eu vejo?

Apenas o silêncio o respondeu.

E sua mente divagou para o momento do passado, quando ainda possuía os dois olhos em perfeito estado. Para o momento em que ainda possuía algo mais próximo do que poderia ser chamado de família – e para o momento em que tudo fora tirado de si; ceifado diante de seus olhos por humanos que, por medo daquilo que não entendiam, pisaram no resto de humanidade que Ethan mantinha dentro de si como uma preciosa e frágil relíquia, assistindo-a ser quebrada e estilhaçada diante de seus olhos, incapaz de fazer coisa alguma a não ser ver através de uma cortina de sangue seu mundo ruir.

– Eu vejo o início de uma Nova Era. Eu vejo o fim de uma raça. – entoaram seus lábios, felizes em enfim poderem pronunciar tão esperada frase.

Ethan lançou o liquido que restava em sua taça na direção do vidro transparente a sua frente, assistindo-o enquanto o vinho escorria pela superfície lisa, tingindo a cidade atrás em profundos tons de roxo avermelhado; mas tudo que Ethan via que seu único olho sedento por vingança, era uma cidade sendo envolvida e engolida por um imenso mar de sangue.

– Eu só vejo guerra – Percy disse, pescando um biscoito em um pote de vidro sobre uma mesa posta no extremo direito do escritório. – E quando menciono guerra, fico até excitado com as batalhas que enfrentarei. Com quem iremos guerrear, Chefe?

– Além de toda a raça humana? – Ethan pousou a taça sobre a mesa, e olhou por sobre os ombros na direção de seus três agentes, sorrindo. – Já ouviram falar na Olimpo?

***

Jason fechou a porta pelo lado de fora da forma mais silenciosa e cuidadosa que pôde, mas as dobradiças ainda teimaram em ranger antes de a porta se fechar por completo com um clique abafado.

Os raios dourados que emanavam do sol nascente banhavam o corredor amigavelmente, e o loiro quase pôde sentir uma estranha alegria irradiando daquelas luzes, mas pra onde quer que ele olhasse – até mesmo para o chão de madeira, alinhado perfeitamente, com um brilho polido alegre e perfeito; para as paredes branco-amareladas que brilhavam com a iluminação de uma forma tão inacreditavelmente bela e harmoniosa -, ele via apenas sombras e cenas que lhe assomavam os mais afastados sonhos; as mais afastadas lembranças que sua mente tentara deixar por tanto tempo longe do alcance dos insistentes dedos travessos das lembranças.

Sentia uma raiva subindo por sua garganta, correndo em suas veias juntamente com o sangue que pulsava rápido dentro delas. Aquele forte sentimento que cobria até mesmo os olhos mais meticulosos com uma penumbra de irracionalidade e puro instinto.

A ideia de ver Leo rumando por sua própria vontade para aquele lugar o qual Nico chamara tantas vezes de um inferno, com um sorriso idiota no rosto diretamente para os braços do inimigo – e talvez para a morte – não lhe agradava nem um pouco. Além de tudo, ele ainda estaria sozinho, largado por sua própria conta e risco num mundo praticamente desconhecido a ele.

– Você tem que dizer isso a ele, se não tudo só piora – a inconfundível voz doce e calorosa de Will Solace soou logo a frente de Jason, e erguendo os olhos que fitavam o chão, encontrou o rosto pontilhado por minúsculos pontos cor de ferrugem do outro.

– Ele já está dormindo, e eu não...

– Não, Jason. Não – Will o cortou, movendo a mão impacientemente diante do rosto. O garoto estava sentado sobre a escada, com um copo cheio de liquido branco e fino. Seus olhos, como os de todo sobre o teto desse lugar, estavam recheados de cansaço e uma profunda dor. – Não era a ele a quem eu estava me referindo. Sua preocupação não se restringe a só uma pessoa. Nunca foi assim. Você não mudou nada, cara.

– Não achei que você alguma vez sequer tivesse prestado alguma atenção em mim – Jason rebateu, encostando-se na parede ao lado da porta que dava para o quarto onde Nico dormia como um pequeno e frágil anjo machucado. – E a quem você estava se referindo, afinal?

– É claro que eu me refiro ao Leo – Will respondeu sem hesitar, levando o copo de vidro aos lábios e tomando um pouco do liquido que, Jason notou, estava quente. – O garoto pode não aparentar tanto, mas está tremendo tanto que parece um liquidificador. Você bem que poderia estar ao lado dele agora, não?

Jason fechou as mãos em punhos apertados, sentindo as palavras de Will como um tapa forte em seu rosto. Deslizou as costas de encontro à parede até encontrar o chão. Abraçou as pernas contra o peito, sentindo as unhas começarem a ferir as palmas da mão devido à pressão que seus dedos exerciam por vontade própria. Mas a dor não apagava todo o medo que ele sentia.

– É difícil... – ele sussurrou entre os joelhos, tão baixo que ele mesmo mal ouvira.

– Eu... meio que te entendo, sabe? – Will enunciou, lentamente, como se as palavras pesassem como chumbo em sua língua. – Entendo o quão difícil é ver alguém que amamos ir de cara para sua própria morte por um bem maior, e nos sentirmos impotentes.

Era exatamente assim que Jason se sentia, mas não apenas em relação à Leo. Também se sentia um tremendo inútil por Nico quase ter morrido numa luta contra Percy, enquanto ele rastejava pela lama, e subia tropegamente o longo lance de degraus que levavam à superfície apenas para o encontrar caído no chão, ferido e ensanguentado – se sentia um fraco por precisar que Annabeth lhe dissesse para proteger aquele garoto que, em seu coração frágil, ele tanto amava.

– Você o ama, não? – Will murmurou, fitando a porta entreaberta ao final das escadas, um filete fino de luz fria varrendo o piso coberto por neve. – E não me refiro ao Nico.

Jason ergueu os olhos cheios de confusão. A quem será que o loiro se referia, então? Após um curto e rápido instante de reflexão, ele percebeu, sobre o olhar azulado que se voltava pra si, com um estranho calor no rosto, que na verdade se tratava de Leo.

– N-não é exatamente assim... – Jason tentou corrigir o pensamento errado que se formara na cabeça do garoto, erguendo o rosto firmemente, mesmo seu coração batendo forte no peito. – Ele é como um irmão pra mim. Eu me importo com ele tanto quanto me importo comigo mesmo.

– Você não tem que dizer isso pra mim, sabe? – ele murmurou, levantando-se e espreguiçando as costas como um gato sonolento. – Ele está lá em baixo – Will comentou, indicando com o copo vazio a sala logo após o lance de escadas. – comendo. Ele come muito quando está nervoso, não é mesmo?

– Quando não tem algo para construir ou consertar... Sim, ele come muito – Jason respondeu, não conseguindo evitar imaginar Leo desmontando um pequeno aparelho de microondas que certa vez encontraram, apenas para retirar algumas peças, analisá-las, e encontrar uma forma de concertar – e depois as descartava novamente. Jason olhou para a camiseta cinza que Will usava, e viu ali algumas manchas minúsculas do sangue rubro de Nico, e isso lhe trouxe estranhas náuseas. – Acho melhor, Will, você dar uma rápida trocada de roupa, sabe? – ele indicou com a cabeça a mancha. – Leite quente é revigorador para uma nova manhã, mas um banho é melhor ainda.

– Certo, certo; eu entendi – ele disse rapidamente, erguendo os braços para cima com um ar de derrotado. – Você venceu. Admito que não dormi ainda, mas pretendo, logo após de uma boa ducha quente.

Logo após, passando por Jason, exalando em seus ombros o cansaço e fatiga de horas sem o devido sono, Will Solace rumou com passos preguiçosos e arrastados até o final do corredor ligeiramente longo e estreito, diretamente para uma porta que ali se encontrava. Jason virou-se em direção às escadas, e hesitou em descê-las – era como se, no final daquela temível escadaria de madeira, um monstro enorme e feroz o aguardasse, com sua enorme bocarra aberta, expelindo veneno, fios pegajosos e brilhantes de saliva e três fileiras de dentes assustadoramente afiados; mas era só Leo que o aguardava ali.

Meu amigo, que eu considero quase como um irmão. Ele pensou, levantando o rosto, respirando fundo, aprumando o corpo como um lutador antes de uma batalha, e dando um passo determinado que soou alto sobre a madeira.

***

Leo observava atentamente Jason parado a sua frente, com os braços cruzados diante do peito, com um olhar que transbordava preocupação e medo – expressões tão fortes no rosto do amigo, mas que ele fingia não ver.

Mastigava entre os dentes fervorosamente um pedaço de pão doce, e em sua outra mão um cupcake de chocolate recheado com morango – sabores que não lhe agradavam muito, mas que a ansiedade o fazia comer do mesmo jeito, sem nem se dar conta. Tudo tinha um gosto tão bom; tão doce; tão... feliz. Lembrava-lhe de seu lar, quando sua mãe passava horas na cozinha, preparando todo tipo de comida nova, e dando tudo para seu filho experimentar – Leo nunca fora tão feliz em ser uma cobaia, o que, refletindo, era uma triste ironia com Nico.

– Gostaria de se juntar a mim, Jason, e saborear essas delícias açucaradas?

– Oferta tentadora, mas acho que não estou com apetite para nada ultimamente – ele respondeu, sentando-se na poltrona elegante em frente a Leo, e suspirando, exausto.

– Nem para certo prato italiano? – Leo perguntou, enviando ao loiro a sua frente um olhar semicerrado e um longo e travesso sorriso.

– Eu nunca fui muito apreciador de comida ita... – quando o loiro finalmente entendeu o que Leo realmente queria dizer, seu rosto foi tomado por um vermelho tão intenso que chegou a ser febril, e ele se moveu desconfortavelmente na cadeira, desviando o olhar. E Leo não conseguiu evitar soltar seu tão famoso riso alto e escandaloso, deixando algumas migalhas do cupcake caírem de seus lábios. – Isso não foi nada engraçado, Leo. Nem um pouco. – ele censurou, cruzando os braços diante do corpo, com uma carranca no rosto que o deixava muito parecido com um idoso ranzinza. – De qualquer forma, não é isso que eu vim falar com você.

– Eu não quero saber sobre suas pretensões pervertidas para o pobre Nico agora – Leo nem ao menos sabia por que diabos estava dizendo tudo aquilo. Estava provavelmente brincando com algo que deixava seu amigo um tanto desconfortável e envergonhado, mas não conseguia controlar as palavras que saiam de sua boca. – Caso não tenha visto, eu estou comendo.

– Eu estou preocupado com você, Leo – Jason disse como se nem ao menos tivesse ouvido o que ele dissera, e isso o calou por completo. – Indo sozinho para esse lugar perigoso – diretamente para a boca do inimigo! Isso é tão insano, e você aceitou essa missão louca tão rápido que eu fiquei meio sem chão.

– Você realmente não confia nas minhas habilidades, não é mesmo? Cara, eu criei uma cortina de fogo, e evaporei um lago. EVAPOREI. UM. LAGO – Leo estava exclamando, se sentindo eufórico, ansioso e, lá no fundo, agitando-se em seu interior como uma serpente, um nó de medo. – Tudo bem que era raso, mas ele era meio longo, sabe? Eu posso fazer isso.

– Isso não diminui nem um pouco minha preocupação – Jason rebateu, curvando-se para frente na poltrona e colocando os cotovelos sobre a perna. Seu olhar estava cravado em Leo. – Eu te amo, sabe?

Leo sentiu-se instantaneamente enjaulado juntamente com um leão. Um arrepio percorreu sua espinha, e um pedaço do macio cupcake entalou em sua garganta.

– Jason, sabe, ahn... – ele gaguejou após tossir e desobstruir a garganta. – Você é bonito e fofo, mas não faz meu tipo, sabe? Minha área é outra, tá ligado?

– Não, não. Não é isso que eu quis dizer, idiota – Jason suspirou frustrado, afundando o rosto entre as mãos. – Isso parecia mais fácil na minha cabeça – ele murmurou consigo mesmo, e levantou o rosto novamente para Leo. – Tá, vamos tentar outra vez. Você é meu irmão. E, como sou o mais velho, é normal eu me preocupar com o irmãozinho idiota que vive fazendo idiotice, mas ao mesmo tempo querer encher ele de porrada. Entendeu? – Leo acenou positivamente com a cabeça, sentindo a língua colada dentro da boca. – Não quero que você se machuque, porque isso meio que também machucaria a mim...

Então ele se calou, e percebendo – um pouco mais atrasado do que Leo esperava – tudo que disse e como soava, afundou na cadeira, os dedos inquietos sobre os braços do móvel, os olhos inquietos que hora se pousavam esperançosamente em Leo, e hora viajavam ligeiramente para um ponto aleatório na parede atrás do garoto que não conseguia mais comer.

Leo sentia como se seu coração tivesse sido abraçado – um calor estranho se espalhou por seu corpo, e seus olhos pareciam estar meio desfocados e embaçados. Por favor, não chore agora.

– Bem, não precisa ter o mesmo sangue, não é? – foi tudo que Leo conseguiu dizer, e sua voz soou meio trêmula e estranha aos seus ouvidos.

Pela primeira vez em muito tempo, Leo se sentia feliz.

Ao menos, no final de tudo, sabia que sempre teria Jason por perto, amparando-o nos raros momentos em que ele mesmo não estivesse amparando o amigo – que agora era seu irmão.

Notas finais
Bem, um capítulo curto pra matar a saudade, um pouco de fluffy e drama, aparição psycho do Percy e a sede de sangue de Ethan, que logo, logo vai ser narrada como um flashback. Espero que tenham gostado desse capítulo (demorou, mas eu finalmente consegui escrever e postar isso, droga!), e peço minhas sinceras desculpas por isso - podem me bater, eu deixo; sei que mereço ... Por isso é hoje pessoal. Nos vemos nos próximos capítulos, e não esqueçam de comentar o que quiserem e talz, dizendo talvez o quanto vocês me amam