Touch

15 The Reaper


Notas iniciais
Desculpe a demora, pessoal, acho que já sabem como é o bloqueio de escritor ...

A Arte de escrever não causa dor; nasce da dor.

( Montaigne )

Nico despertou com uma luz lhe incomodando os olhos, e ao abri-los, viu que finos e tênues feixes de luz entravam preguiçosamente através da grande janela retangular, onde o tecido fino da cortina se abrira.

Lutando contra o corpo em frangalhos, repleto de músculos doloridos e articulações que pareciam mecanismos enferrujados, Nico se levantou da cama e varreu o recinto ao redor com olhos ainda pesados e cansados de sono, em busca de algum indício de Jason... ou até mesmo de Bianca, sua irmã.

Ainda era algo muito difícil para Nico conseguir acreditar – que sua irmã houvesse morrido pelas mãos do garoto que o salvara, deixando-o sozinho no mundo imenso e desconhecido que ele tanto temia.

Lá fora, através da janela, o sol tentava brilhar sobre aquele céu frio e azulado, pontilhado de enormes nuvens branco-acinzentadas, mas seu calor era fraco e só servia quase que unicamente para iluminar. Nico também percebeu assustado que já deveria ser início de tarde – nada conclusivo ou concreto, apenas sua intuição.

O garoto sentia-se imensamente sujo e maculado como nunca antes se sentiu – até mesmo mais do que quando estava confinado nas entranhas daquela corporação, rodeado por aquelas ameaçadoras e angustiantes paredes brancas.

Caminhando na direção da escrivaninha no lado esquerdo da janela – ao lado de uma modesta estante com um número considerável de livros, todos eles com uma aparência bem cuidada, com nem sequer uma única partícula de pó -, Nico viu ali, sobre aquele móvel de madeira escura como a areia molhada, algumas peças de roupas amontoadas umas sobre as outras: uma calça cinza e grossa, uma camisa de manga longa, tecido fino mas aparentemente quente e, para o desgosto de Nico por cores, uma chamativa estampa havaiana – flores vermelhas em um fundo alaranjado como o pôr-do-sol. Havia também um par de meias grossas e longas, uma touca preta, um par de luvas de tecido grosso, que, diferentemente das suas atuais que eram de um couro elástico e desconfortável, àquelas pareciam ser mais confortáveis e pareciam se encaixar perfeitamente na forma das mãos finas e pálidas de Nico.

Ele não se conteve como quisera, e logo deslizou ambas as mãos para o interior das luvas completamente negras – como o céu da madrugada ou o mais profundo e frio ponto do vasto oceano.

Nico se sentiu um pouco envergonhado ao ver que ali também havia uma ceuca que, só de relancear os olhos por cima da peça, o garoto sabia que se encaixaria perfeitamente em seu quadril. Quem conhece meu corpo assim tão bem?, ele se perguntava mentalmente, lá no fundo já sabendo a resposta. E por último e não menos importante, um par de sapatos simples de sola grossa – provavelmente para caminhar sobre a camada de neve que cobria o solo em toda parte.

– Ótimo – o italiano disse, , olhando ao redor em busca do último item para a sua importantíssima missão. – Agora só me falta uma toalha.

Se Nico esperava ver a tolha se materializando magicamente em sua frente, acabou por se enganar. Nada acontecera e, bufando, ele rumou até a porta que dava para o corredor, e abriu-a. Reservou um momento para espiar discretamente a extensão silenciosa do corredor em toda a sua luminosidade, hesitante, e logo continuou a caminhar até o final deste, onde uma porta solitária lhe aguardava.

Por sorte, aquela era o lugar certo – e mais sorte ainda foi o garoto olhar para onde ficavam os porta-toalhas de ferro brilhoso e ali encontrar não só um, mas ao todo seis toalhas – todas extremamente brancas.

– Alguém tem sérios problemas com TOC – Nico murmurou, trancando a porta atrás de si e se despindo apressadamente, com uma ansiedade fútil.

Correu para baixo do chuveiro e se extasiou quando a torrente de água quente atingiu suas costas e cabeça.

Podia jurar que tinha deixado um gemido de prazer escapar.

***

– Lee! – o garoto exclamou, apressando o passo atrás do outro, que caminhava quase que correndo com seus passos pesados contra o piso de madeira. – Qual é... Vamos conversar um pouco!

O outro continuou caminhando na mesma velocidade, como se nem ao menos tivesse ouvido as palavras do garoto que seguia insistentemente em seu encalço. Recebendo tanta atenção quanto uma mosca, ele pensou, continuando a seguir com a paciência que lhe restava o loiro a sua frente. Ambos agora cruzavam a grande sala de visitas da imensa casa onde morava – a chamada Morada do Sol, nome dado devido aos três ocupantes serem unicamente Herdeiros de Apolo.

– Você sabe que está sendo um bobo, não é mesmo? – Michael gritou para o garoto que subia agora as escadas, com a raiva pesando visivelmente em seus ombros. – O que eu fiz foi aceitável, ok? Eles são visitas aqui; isso é o mínimo que posso fazer por eles.

A porta do quarto que os dois compartilhavam agora estava a poucos metros de Lee, que, parecendo que fora cutucado com uma faca afiada e fria na espinha, se virou para Yew, fitando-lhe os olhos cheios de um sentimento borbulhante.

– Eu vi, Mike – ele sibilou, com o rosto rígido. – Eu vi como você olhou para o Jason quando ele tirou a camiseta na sua frente, droga!

Michael suspirou.

– Você deveria é se preocupar se eu parecesse “normal” com aquela visão bem diante de mim, sabe? – o garoto menor rebateu, sorrindo, sarcástico. Lee, por sua vez, fez um barulho que soou muito parecido a um rugido, e virou as costas novamente para Michael. – Eu derrubei chá nele – o menor tentava argumentar, seguindo atrás do outro com largas passadas. -, e sujei a roupa dele. Eu provavelmente o queimei também. O mínimo que eu poderia fazer era pedir desculpas, e me oferecer pra limpar a sujeira que eu mesmo fiz na roupa dele.

– Só a roupa, é? – o outro questionou ironicamente, sem desacelerar os passos. – Aposto que você fez aquilo de propósito, só para aproveitar.

– Eu nem sequer pensei nisso, Lee! – o moreno tentava com todas as suas forças acalmar o outro, sem sucesso. – Quando me ofereci para limpar a camiseta dele, eu pensei que seria, tipo, mais tarde, quando eu recolhesse as roupas sujas nos quartos como sempre faço – ele gesticulava avidamente enquanto tentava se explicar com extrema sinceridade.

Mas o outro não via essa sinceridade, ou fingia não a sentir explícita em seu tom de voz.

Os passos pesado de Lee Fletcher se alongaram, e agora ele estava de frente para a porta do quarto deles.

– Lee – Michael chamou, fitando os ombros tensionados a sua frente com olhos suplicantes. – Não seja um babaca, por favor...

Foi quando o maior virou-se na direção de Michael, com os olhos azuis rasos d’água – era nítido que ele lutava contra as lágrimas de raiva -, os finos lábios vermelhos e levemente inchados de tanto que ele próprio os mordia. Até mesmo a veia salta em sua testa. Tudo aquilo apenas servia para deixá-lo ainda mais bonito aos olhos de Michael Yew.

A vontade que o menor suprimia em seu peito só se intensificava. Michael nunca quis beijar tanto os lábios de Lee quanto o desejava agora – cada pequena célula de seu corpo parecia clamar por isso.

– EU estou sendo um babaca? Eu? Tem certeza disso, Lee? – ele vociferou, cheio de um doce ciúme. Tornou a se virar na direção da porta, estendendo os dedos para a maçaneta.

Mas Michael o impediu. Suas mãos se moveram num borrão, mais rápido do que ele achava ser, envolvendo os pulsos de Lee com seus dedos firmes. Os olhos do menor estavam focados nos olhos azuis-aquarela do outro.

– Pare logo com isso, Lee – ele disse, empurrando o corpo de Fletcher contra a porta, provocando um baque surdo e curto. Ignorando os protestos do maior, ele continuou a dizer, sem afrouxar o aperto: — Eu realmente odeio quando você fica assim comigo... – ele disse, notando a hesitação e o medo nos olhos do garoto a sua frente. Fios escuros caíam diante dos olhos de Michael, impedindo que ele tivesse o vislumbre dos cabelos amarelados como as folhas que caem no outono, mas ele não se importava muito com isso agora. – Até parece que não confia em mim. Parece até que não confia no que eu sinto por você, não só aqui – Michael bateu no próprio peito com uma das mãos, o som ressoando como um tambor. – mas em mim todo! Eu sou seu namorado, idiota... Eu te amo e não conseguiria te trocar por ninguém, nem se tal pessoa fosse tão gostosa quanto o Jason...

Yew riu baixo e sufocado quando o olhar de Lee voltou a se tornar duro e resignado, e ele logo voltou a bater os braços e se debater para se livrar do aperto dos dedos de Michael. O menor suspirou quando sentiu a unha curta de Lee raspar em seu rosto, ardendo como álcool sobre ferida e provavelmente deixando uma fina linha avermelhada sobre sua pele.

– Tudo bem, então – o menor murmurou, olhando de soslaio para Lee com seus olhos azuis como tinta seca ao sol. Abriu a porta que os impedia de entrarem no quarto sem sequer um aviso prévio, e ambos despencaram juntos no vazio em direção ao chão atapetado do quarto numa confusão de membros e reclamações vociferadas. – Vamos fazer isso do meu jeito – Yew prosseguiu, sentando sobre a virilha de Lee e lançando a ele um olhar lascivo enquanto retirava a camiseta por cima da cabeça.

– O que você... – Lee murmurou, mas logo se interrompeu. Michael pôde sentir a respiração do garoto abaixo de si sendo presa, e também sentiu o olhar arregalado que era pousado sobre ele.

Michael Yew jogou sua camiseta num canto aleatória do espaçoso quarto em que dormiam juntos todas as noites, e se inclinou na direção de Lee sedento por um beijo.

Quando seus lábios se tocaram, houve primeiramente uma hesitação da parte do maior, mas logo a persistência e a teimosia de Michael venceram, e os lábios de Lee se abriram para os dele.

O calor, o sabor – tudo era tão familiar e ao mesmo tempo tão novo, extasiante e explosivo -, intensos de tal forma que ambos se beijaram profundamente como se quisessem fazer parte um do outro, se tornarem apenas um corpo.

Michael se afastou, sugando o ar para dentro da garganta e para os pulmões de forma desesperada, como se estivesse se afogando aos poucos. Estou sendo tragado para o turbilhão que ele é, me afogando cada vez mais, dia após dia, pensou ele, e não quero ser salvo.

– Mike... – gemeu Lee, deitado com os braços abertos ao lado da cabeça, os olhos cheios de desejo e sede, com o rosto tomado por uma bela mancha de rubor que acentuava o vermelho de seus lábios – os mesmos lábios entreabertos que pareciam implorar por mais daquilo.

Michael, não conseguindo mais controlar a si mesmo, deitou os lábios sobre a pele convidativamente exposta do pescoço de Lee, beijando-lhe ali, mordiscando a pele clara dele – enquanto suas mãos invadiam o corpo do maior por baixo do tecido das roupas que ele vestia, passeando por sobre os relevos dos músculos de sua barriga, a cicatriz no abdômen que ele tanto amava em Lee, encontrando logo o seu tórax que se inflava num subir e descer excitante, e também onde o coração pulsava com rapidez e força, fazendo o sangue que o preenchia correr em suas veias com extrema pressão e calor, abaixo das camadas de pele, carne e nervos -, arrancando gemidos entrecortados e úmidos de seus lábios, saindo do fundo de sua garganta. Sentia a excitação de Lee contra o corpo, e a sua própria ereção pressionando os tecidos.

O calor estava em toda parte, os envolvendo como uma manta que os fazia apenas querer mais e mais.

Foi quando sentiu todos os músculos do corpo de Lee se enrijecerem e se contraírem ao seu toque subitamente, e, erguendo os olhos para o rosto de seu namorado, encontrou-o com a tez branca como leite e os olhos arregalados de pavor, como se estivesse sendo encarado por um fantasma.

– Mike, pare. Pare, agora! – ele murmurava num sussurro desesperado, como se o que estivesse os envolvendo há pouco fosse algo errado. Os olhos claros dele pousavam, ora sobre o rosto do menor sobre si, e ora para algum ponto atrás de seus ombros.

Michael queria perguntar o que havia acontecido, quando — como uma revelação do iminente e imparável Apocalipse — lembrou-se que havia deixado a porta escancarada atrás deles. Uma platéia poderia os estar assistindo agora – uma multidão suspirante de fujoshis taradas.

Vociferando palavrões irritados, Michael girou o corpo por cima do de Yew, encarando o garoto que os fitava do outro lado da porta aberta.

Seus cabelos desgrenhados estavam molhados e a antiga aparência cansada e suja havia abandonado seus ombros, fazendo-o parecer mais leve – um pouco traumatizado, mas de alguma forma, mais leve.

– O-olá, Nico – Michael gaguejou, levantando-se do chão, tentando fazer a cena parecer algo totalmente normal. A visível ereção não ajudava em nada. – D-Desculpe por... isso.

O rosto pálido e ossudo de Nico estava profundamente corado, e seus olhos negros não sabiam onde se deter por mais de um mísero segundo sequer.

– N-Não! – ele quase gritou, agitando as mãos na frente do rosto, forçando um sorriso torto e extremamente nervoso. – Está t-tu-tudo b-bem! A culpa foi... minha...

Ele tinha uma toalha branca ao redor da cintura, e assim todo o seu corpo era visível – toda aquela tela de tortura e dor sobre um fundo pálido – aos olhos de Michael e Lee — que havia se levantado e se encolhido sobre a cama, um pouco longe do alcance dos olhos que o flagraram.

– E-Eu vou... indo... – Nico disse, e virou-se para a porta em frente ao quarto de Lee e Yew, abriu-a e correu para dentro atabalhoadamente.

Michael fechou a porta logo em seguida, trancando-a dessa vez, apenas por precaução.

– Ele viu... – Lee murmurava sobre a cama, xingando e amaldiçoando ninguém em particular. – Que droga...

– Eu não sei se isso foi ruim ou bom – Yew disse, ainda com o rosto corado de Nico na mente. – O que você acha?

– Algo ruim, é claro! – ele respondeu automaticamente, com impaciência. – Muito ruim! – ele emitiu um suspiro pesado e cansado, colocando ambas as mãos na cabeça. – Está na cara que ele é inocente pra todas essas coisas.

Michael tirou a calça que usava, e isso calou Lee rapidamente.

Caminhou em direção a cama para se juntar ao outro, ansioso.

– Mas nós não somos inocentes, então vamos prosseguir – ele entoou com sua voz propositalmente baixa e grave, engatinhando na direção de Lee com um olhar de gato faminto no rosto, lentamente, e novamente se sentando sobre o colo dele, e movendo o quadril de um lado para o outro, provocando-o. Surtiu efeito rapidamente. – Onde estávamos mesmo?

– Você estava tentando levantar a bandeira da reconciliação – Lee disse, colocando as mãos ao redor da cintura do pequeno Michael.

– E eu consegui? – o menor perguntou num sussurro, inclinando-se sobre o corpo quente do namorado, aproximando seu rosto do dele.

– Com certeza. – ele respondeu, puxando-o para outro beijo, este tão ávido e saboroso quanto o primeiro.

***

Com a nova e limpa peça de roupa colocada sobre o corpo também limpo, Nico enfim conseguiu se sentir confortável. O ronco alto de seu estômago lembrou a si mesmo que ainda estava faminto por ter dormido horas.

Saiu do quarto, tentando tirar da cabeça a cena que vira acidentalmente alguns poucos minutos atrás.

Isso é normal, idiota, Nico dizia a si mesmo enquanto descia as escadas rapidamente, sendo puxado pelo aroma que flutuava no ar. As pessoas geralmente fazem... aquilo... quando se amam... Mas mesmo com essa ideia, ainda era difícil para Nico não sentir um pouco de vergonha, já que a cena insistia em permanecer em sua cabeça.

Encontrou Will na cozinha espaçosa, escrevendo algo num pedaço de papel enquanto as panelas – várias delas, de tamanhos e formatos variados – chiavam ao fogo.

– Olá, Nico – ele disse, levantando os olhos azuis quando Nico adentrou no recinto com o queixo levantando, sorvendo mais do saboroso cheiro. Will dobrou o papel e pousou a caneta transversalmente sobre ele. – Você parece mais descansado. Dormiu bem?

Nico assentiu, sem saber exatamente o que dizer ou fazer. Tinha inúmeras perguntar fervilhando em sua cabeça, e outras tantas entaladas em sua garganta, contorcendo-se como vermes num corpo em decomposição.

– Aposto que depois de dormir tanto você deve estar muito faminto, acertei? – o Herdeiro de Apolo perguntou, com o rosto radiante ora olhando para Nico, e ora examinando cada panela e seu conteúdo borbulhante. Nico murmurou um “sim” à pergunta feita, distante e tímido. O pequeno nunca fora bom em comunicação de todo tipo. O aroma que girava no ar que circulava pela cozinha fazia sua barriga reclamar como um enorme monstro que não se alimenta há longos anos. – Está quase pronto aqui – Will o acalmou, experimentando um líquido avermelhado de uma das panelas. – Só mais alguns minutos e... Voilà!

Observando o olhar atento de Will sobre o conteúdo fumegante que preenchia o interior das panelas de aço, Nico percebeu com assombro e uma pontada no peito que eles estavam vermelhos e úmidos. Era improvável que cebolas fossem as responsáveis por tal.

O que o perturbava ao ponto de fazê-lo chorar sem querer ser visto e ainda mais o forçar a ter que esboçar um sorriso que parecesse tão real e vívido. Mais urgente ainda: como ele conseguiu sorrir com tal peso em seus olhos?

O italiano repreendeu a si mesmo por estar agindo assim. Não tinha esse direito, não é? Tentou pensar em algo para dizer e quebrar o silêncio desagradável que se instalara ali por sua parte.

– Essas roupas são meio que... – ele pensou numa palavra que se encaixaria bem ali sem parecer ranzinza e ingrato. – vivas demais. – Ele conseguiu murmurar, analisando pela quarta vez a coloração gritante do tecido.

Will emitiu uma risada fraca e distante.

– Eu queria poder dizer que ficou bem em você, mas... – e ele começou a dizer, quando uma risada, por mais que sufocada por lábios comprimidos, escapou de sua boca.

Nico suspirou, sorrindo fracamente.

– Eu sei bem – suas mãos moveram-se até os cabelos, onde ele os bagunçou sem motivo, desajeitado, enquanto seus olhos passeavam pelo recinto e se detinham na janela, sua visão sendo atraída para o branco que se estendia sobre tudo como tinta.

Os olhos do moreno procuravam de forma inconsciente por Jason. Sentia uma imensa necessidade de se afogar no azul-elétrico de seus olhos, de vislumbrar seus cabelos dourados e radiantes.

– Onde está Jason? – Nico acabou por perguntar, sentindo-se nervoso logo em seguida. Uma voz voltava a sussurrar no ponto mais escuro e frio de sua mente – e ele lutava pra mantê-la afastada, após tanto tempo de um silêncio confortável.

– Ah, ele está lá fora – Will respondeu, indicando com um movimento de cabeça um ponto nos fundos da cozinha – um corredor curto com uma porta no final -, no “quintal” dos fundos, com o Leo.

(morto)

Aquela voz fria e inumana anunciou mais alto que seus próprios pensamentos, fazendo o coração do garoto palpitar desesperado com a possibilidade. Havia um estranho e quase irreconhecível tom de divertimento naquela voz – e aquilo deixou Nico assustado. Quando Nico se deu conta do que fazia, já caminhava com passadas apressadas e ansiosas na direção apontada pelo curandeiro.

Jason morto? Impossível!, pensava ele, tentando compensar o nervosismo. A maçaneta girou-se com um pouco de esforço, e com um clique abafado se abriu quando Nico a empurrou.

O branco ofuscante da fraca luz do sol incidindo sobre a neve

(manchada de nódoas escuras de sangue)

o atingiu em cheio, e Nico levou cerca de dois segundos para se acostumar e conseguir identificar as duas figuras em pé na neve

(rubra e viscosa)

que pareciam estar disputando algum tipo de luta corporal.

À esquerda de Nico, metros à sua frente, estava Jason, com os cabelos loiros esvoaçando ao vento, sem camiseta, com pequenas gotículas cintilantes de suor quente brilhando em seu tórax e testa

(e um fundo e longo talho em seu pescoço, estendendo-se de orelha a orelha, de onde o sangue vertia numa constante cascata — um fluxo aparentemente interminável que lhe manchava o corpo como uma triste e ao mesmo tempo bela armadura rubra)

como cristais incrustados sobre sua pele...

Nico se apoiou na pequena amurada da varanda, com a respiração rápida e seca na garganta. Por um momento sentiu as pernas fraquejarem, e cambaleou. Fechou os olhos com força na tentativa de afastar as imagens que piscavam diante de seus olhos como flashes macabros e assustadores. Seu coração retumbava no peito como os tambores de uma banda marcial.

E a voz. A voz – aquela voz que Nico nutria um estranho sentimento cada vez mais crescente – ria com divertimento dentro de sua cabeça.

Erguendo os olhos para os amigos que treinavam na nave, viu Jason. O loiro tinha o olhar compenetrado e focado em Leo, à sua frente, ambos os punhos cerrados, olhares firmes e posturas imponentes. Suas respirações flutuavam em nuvens pálidas e disformes de ar condensado diante de seus lábios entreabertos.

E novamente aqueles flashes piscavam, mudando o cenário drasticamente: mostrando sangue escuro e viscoso cobrindo a neve, perturbando não só os pensamentos do italiano, que tremia da cabeça aos pés, mas todo o seu ser. Sentia o calor nos olhos onde as lágrimas gritavam para se deixarem fluir, e Nico se continha, engolindo o choro como se fosse uma pedra entalada em sua garganta apertada.

– Desesperador, não é mesmo? – sua voz perguntou, com divertimento. Sua própria voz.

Nico então levantou os olhos rasos d’água, e ficou estarrecido por, diante de si, vestido completamente nas mesmas roupas que ele vestia, estar... ninguém menos do que ele próprio.

Se não fosse pela presença do sorriso sínico naqueles lábios quase sem cor, dos olhos negros e sem brilho, como uma jóia empoeirada com várias camadas de sujeira e pó, Nico até poderia realmente achar que aquela figura a sua frente fosse realmente uma versão estranha do seu próprio “eu”. Ele se detinha em sua frente, analisando-o demoradamente com aqueles olhos transbordantes de loucura. Mas ele era diferente de si mesmo em vários aspectos, como ele notou.

– Você é... – Nico engoliu em seco, com medo de dar forma à pergunta em sua mente. – Eu?

– Eu? Você? – ele riu estrondosamente outra vez. – Não. Não. Não me compare a um fracote, covarde e sentimentalzinho como você.

Por detrás dos cabelos negros e bagunçados do outro Nico, ele pôde ver a neve caindo, porém numa velocidade absurdamente lenta, como se o tempo houvesse congelado ao redor deles numa redoma invisível.

As perguntas se acumulavam numa fila desordenada na mente de Nico, mas ele não conseguia pronunciá-las. Sua boca estava seca, e sua mente ainda mais confusa.

– Já que você não notou ainda com seu raciocínio lento e fraco, permita-me explicar-lhe. – aquela... coisa que possuía sua forma, suas feições pálidas e frágeis e sua voz disse, abaixando-se em frente ao garoto com um pai atencioso prestes a explicar para seu pequeno e ingênuo filho o motivo do céu ser azul. – Eu sou a parte sombria que habita a sua mente – sua voz se tornara um sussurro fraco e frio, afiada como lâminas deixadas sobre a torrente de neve por horas. – Sou aquela voz louca que sussurra e grita em sua cabeça, Nico. Que diz para você fazer coisas que abomina em prol de sua segurança, mas que você sempre ignora, colocando nós dois em perigo! – Ele gritou contra o rosto de Nico. Seus olhos estavam ainda mais negros e arregalados, e seus lábios comprimidos num estranho sorriso cheio de fúria explícita. – Eu sou o seu lado mais forte – o seu verdadeiro “eu”.

A sua personificação estranha aparentemente maligna levantou-se, passando a língua nos lábios como uma serpente. Deu alguns passos para trás, ainda com os olhos fitando o rosto de Nico com nada além de desprezo.

Seus passos não afundaram na nave que cobria o chão como um tapete alvo e frio, e nem marca alguma se fazia aparecer. Ele continuou andando, sem tirar os olhos do rosto de Nico, contorcido numa máscara de confusão intensa, mas logo, com um fino esticar de lábios, girou nos calcanhares para a direção em que caminhava outrora de costas, e Nico sentiu um frio na barriga – um pressentimento de perigo.

Ele caminhava na direção de Jason e Leo, que estavam parados um em frente ao outro, congelados como uma estátua de cera, prontos para uma investida cômica.

– Você realmente o ama, não? – a voz dele perguntou, como se ainda estivesse parada ao seu lado, sussurrando tais palavras contra o ouvido de Nico. – Mas acho que você também deve saber que ele vai ser a sua ruína. – os dedos finos e nus se esticavam como galhos de uma árvore morta na direção do rosto de Jason, corado pelo frio. – A não ser, claro!, que o destruamos o quanto antes...

– PARE! – Nico gritou com toda a força de seus pulmões, e piscou, sentindo as lágrimas quentes molharem o rosto.

Quando tornou a olhar para a sua frente, a imagem difusa e confusa em sua frente lhe irradiava irrealidade, mesmo através daquele véu embaçado que as lágrimas produziam.

Limpando de forma quase desesperada os olhos marejados de lágrimas com as costas da mão enluvada, Nico voltou, trêmulo, a olhar, e dessa vez o impacto da cena foi mais que real – fora sólido como um punho de aço congelado ao vento.

Amontoados à sua frente havia uma torre de corpos empilhados uns sobre os outros, sangue espalhado em toda a parte, escuro e congelado em poças sobre o gelo. As mocas zumbiam incansavelmente, mesmo naquele frio sobrenatural de congelar os ossos.

Nico estava ajoelhado impotentemente sobre a sombra que aquele amontoado de carne humana lançava ao chão, e quando o garoto olhou para os lados, teve de suprimir um grito que lhe escalou a garganta e insistir repetidamente para si mesmo que tudo aquilo não passava de nada mais do que apenas uma ilusão insana do seu maligno ser interior.

Vira Jason e Leo ali, estirados sobre o solo branco, frios e congelados, com aquelas malditas veias negras tomando grande parte do rosto de ambos. Nico os havia tocado. Nico os havia matado, e pensar nisso, de alguma estranha forma, não parecia uma grande surpresa para o garoto, que tinha pesadelos acordados desde sempre.

Ele quer me derrubar. Quer me derrubar, Nico pensava, apertando as mãos contra a cabeça, os fios entre os dedos nus, pegajosos com algo que ele nem precisou olhar para saber que era sangue.

– Sabe, eu ainda me sinto aprisionado dentro de você – sua voz, mais fria, mais cruel, insana e crua soou extremamente próxima aos ouvidos de Nico, e ele teve um pequeno sobressalto, olhando ao redor, procurando a figura que era exatamente parecida consigo mesmo em vários aspectos, mas não encontrou nada a não ser uma densa névoa pálida que o circundava, apertando-se cada vez mais. – Nessa prisão escura e silenciosa, onde minha voz é o único som quando eu tento me comunicar com você. Mas você sempre me expulsou, temendo um poder maior que não entende. Eu respiro uma fumaça pálida que voa ao meu redor, e ela é sua fraca esperança, e quando eu a expulso de dentro de mim, tudo que saí é desprezo. Mas, agora sei que isso logo, logo vai mudar de uma forma que eu nunca antes pude imaginar. – Sua voz tornara-se estranhamente animada, e isso apenas serviu para deixar Nico ainda mais assustado. Então aquela forma se materializou a sua frente numa nuvem de penas negras como azeviche, e avançou com o rosto pálido de lábios finos arregalados num sorriso vitorioso na direção de Nico, e tomou o queixo ossudo do garoto em sua mão cadavérica. E gritou diante da face do garoto encolhido, com um brilho psicótico nos olhos que eram como buracos negros: — Mas você é a chave! A sua mente conturbada e esses sentimentos que você nutre e luta para suprimir vão te consumir por dentro, e vão corroer as portas que me prendem e me libertar enfim!

Nico debateu-se com o desespero irradiando de seus gemidos e gritos sufocados, e sentiu, subitamente, seus membros se tornarem moles como geléia, despencando contra a neve alva.

Agora estava à mercê da fera, e ela parecia estar deixando sua presa mergulhada em imenso e total pavor antes de dar o bote final e finalmente devorá-la.

Mas Nico não queria olhar mais para aquela realidade distorcida. Não queria mais pensar no que poderia acontecer se aquele ser que habitava seu interior – que morava em sua mente, como um câncer que consome sua sanidade – deixar-se libertar e espalhar a discórdia e a morte por onde seus pés se plantassem. Cerrou os olhos com toda a força, sentindo o vento frio congelando as lágrimas que lhe manchavam o rosto.

– Não feche os olhos para mim, Nico! – ele gritou, assomando-se acima do garoto. Aqueles olhos frios emanavam uma sensação horrível que fazia Nico querer vomitar, correr, chorar, arranhar o próprio rosto, arrancar os olhos e morrer. E ele nem precisava fitá-los para sentir tudo isso.

Sentiu dedos apertarem sua garganta com força, e Nico engasgou-se, e não pode mais manter os olhos fechados, arregalando-os de pavor.

Aquele ser estava sobre ele como uma sombra com asas, olhando-o com olhos arregalados de um ser tomado pela insanidade, e um fio de luz vermelho se escondia atrás de seu globo. Nico não conseguia se debater, pois seus membros estavam quebrados.

– Olhe nos meus olhos! Diga-me o que vê... – Ele disse num sussurro, com o rosto próximo ao de Nico ao ponto da respiração do garoto balançar o longo cabelo negro que caíam sobre a testa da figura que lhe enforcava. – Olhe também no meu rosto e tente sentir a minha dor... Tente me entender. Tente me sentir. Você sempre me conheceu. Eu sempre fui seu único e verdadeiro amigo. Eu sou aquela voz que te caça à noite. Sou o seu pecado em cada toque. Sou a sua fé em derrotar aqueles que atormentam quem você ama. Eu sou a sua vida, e sem mim você nada seria – Nico sentia que não conseguiria mais ficar sem o ar, e começava a ver pontos amarelados diante da vista, que começavam a ficar cada vez mais escuros. – Eu sou a sua respiração descontrolada e sua ferocidade monstruosa, Nico.

A figura soltou a garganta de Nico, e o garoto pôde enfim respirar, sugando o ar frio dali com toda a sua força para preencher os pulmões, tossindo violentamente, com a cabeça girando e os sons distantes. A saliva da tosse seca e violenta lhe molhava os lábios, e Nico arranhava a neve com as mãos nuas e rubras, manchadas de pontos brancos onde a neve cobrira o liquido.

Percebeu — um pouco mais atrasado do que deveria — que conseguia mexer os membros, e não se demorou a se ajoelhar, ainda trêmulo e confuso, sentindo medo e pavor, e não mais contendo as lágrimas, e iniciar a engatinhar numa direção incerta, o mais longe possível de tudo dali.

Mas nem chegou a sair do lugar quando ele voltou a aparecer a sua frente, a figura envolta em negro. Aquela coisa insana e louca que o tentara matar.

– Por tanto tempo você sempre foi uma espécie de veículo que eu fora obrigado a ficar confinado, mas isso mudou há um tempo, Nico – ele dizia, andando em círculos no mesmo lugar, sem tirar os olhos de Nico por um segundo, sem nem ao menos piscar. – Mas agora quero te levar comigo, e não mais o contrário. Quero te aprisionar. Prender-te dentro de mim e ser livre. – ele levantou o rosto para o céu cinzento de onde a neve não parava de cair, e seus braços se levantaram numa forma de contemplação. – Quase consigo me ver ali no céu, refletido no alto, como uma divindade. – então aqueles olhos pousaram em Nico, e ele gritou. – Eu sou o Anjo da Morte! O SEU Anjo da Morte! E muito em breve você será meu! E vou agir como o único e verdadeiro Ceifeiro! O Único Deus!

Então ele explodiu em uma chuva de estilhaços que voaram em todas as direções como vidro negro, e juntamente dele, toda aquela realidade em volta de Nico começou a rachar, e explodiu como um espelho sendo jogado contra uma parede...

e o garoto se viu novamente na varanda, nos fundos da casa de Will Solace, com o sol fraco brilhando atrás das nuvens densas na linha do horizonte, a floresta verde coberta de branco próximo dali, e a respiração ainda descontrolada em sua garganta; as lágrimas manchando todo o seu rosto, e as gotas que pingaram sobre a madeira da varanda.

– Nico! Nico! – uma voz preocupada exclamava repetidamente, enquanto um toque gentil e quente em seu rosto o colocava a fitar os olhos azuis à sua frente. Era Jason, com o cabelo molhado devido à neve derretida, o rosto avermelhado, talvez pelo vento frio e cortante. – Você está bem?

Nico pensou que nunca mais fosse poder deslumbrar o brilho honesto naqueles olhos, sentir aquele toque macio e gentil de suas mãos ou sequer ouvir a forma melodiosa que sua voz grave e entonação de suas frases quando estava preocupado. Aquilo o alegrou, e logo lutava para não chorar de alegria dessa vez, por enfim estar livre de um pesadelo que pensara ser interminável. Agarrou-se ao pescoço de Jason, enterrando o rosto sobre a pele fria e úmida do loiro, e automaticamente se sentindo mais seguro, e então deixando as lágrimas fluírem às escondidas, evitando que algum som escapasse de sua garganta, engolindo os soluços, escondendo o rosto lacrimoso em seu porto-seguro – Jason.

Por quanto tempo ficara fora, provavelmente ajoelhado na varando de madeira, gritando, chorando e surtando como o garoto louco que parecia ser? Ele não sabia dizer com exatidão, mas lhe pareceram horas.

– Tudo bem, tudo bem – Jason disse em voz baixa, apertando Nico contra si e o envolvendo num abraço apertado. – Eu estou aqui, está tudo bem.

Você está sim, e esse é o problema. Enquanto estiver perto de mim, ele pode te alcançar, Nico pensou, mas nada disse. A ideia de dizer parecia a Nico que de alguma forma acaba a transformando em realidade.

– Você não acha que é melhor levar ele lá pra cima, Jason? – a voz de Leo, inconfundível, perguntou ao amigo, visivelmente preocupado. Nico quis abraçá-lo com força e pedir honestamente para ele nunca deixar Jason de lado, porque sabia de alguma forma, que o loiro era e ainda é frágil, por mais que aparentasse o contrário. – Se não vamos acabar virando blocos de gelo aqui fora, e eu estou com fome.

Jason levantou-se com Nico nos braços, e caminhou para dentro da casa com passos leves. O italiano não mais chorava.

Enquanto a porta que dava para a modesta varando nos fundos da casa se fechava, Nico encarou aquela abertura com as lembranças do ocorrido ainda revirando em sua mente, e antes de ela se fechar e encerrar aquela visão de branco infinito, o garoto encolhido nos braços de Jason ouviu aquela voz que tanto o atormentara sussurrar em sua mente como um espírito vingativo:

Tema-me, pois eu sou o Anjo da Morte. Logo nos reencontraremos, Nico.

Notas finais
Capítulo um pouco grande, porque pensei que se fosse um mais longo, ficaria até um pouco massivo; então foi assim. Queria ter escrito muito mais, é claro, mas tenho de me conter também. Espero que tenham gostado, de verdade, e espero que comentem o que acharem do capítulo, da demora e talz