Touch
16 Especial - Thread of Light
Notas iniciais
Will fora arremessado dentro de uma espécie de cela escura e fria com uma desnecessária violência. Seu corpo pequeno se chocou contra aquele solo áspero com brusquidão, arrancando-lhe o ar dos pulmões e ralando a pele clara do joelho numa dor quente.
Forçou-se a limpar a mente numa explosão de vontade férrea de se ver livre daquele lugar assustadoramente mórbido, e girou o corpo na direção de onde aquela figura altiva provavelmente estaria prestes a fechar qualquer que fosse a forma com que desejassem o prender ali. Mas aquele homem fora mais rápido, e a porta de aço grosso fechou-se em sua cara num estrondo ecoante e ensurdecedor.
Will caiu com os joelhos em concreto frio, usando as poucas forças que lhe restavam em seu corpo para socar a superfície de ferro daquela porta trancada, que provavelmente, agora sempre que fosse aberta, seria apenas para indicar um momento cada vez mais próximo de sua ruína mental e corporal. Já podia sentir os indícios daquela tortura psicológica direta sobre sua mente ainda em choque.
Com o corpo começando a tremer com a brisa fantasmagoricamente gélida que soprava naquele cubículo fracamente iluminado, Will tentou varrer toda a extensão acinzentada com um toque fraco e doentio de amarelo.
Não estava sozinho ali, como notou com um pouco de terror. Havia figuras de estatura pequena, como a sua própria, recostadas contra a parede. Seus olhos não estavam visíveis por sempre focar no chão ou nos próprios pés, e uma sombra densa lhe recaía por suas frontes pálidas.
Will engoliu em seco – quase gemendo de dor quando a saliva, que mais parecia uma bolota de cola, desceu dolorosamente por sua garganta lesionada -, com um pensamento frio como os dedos dos mortos que ele não pudera ajudar: será que estão vivos?
O garoto, que tinha olhos azuis injetados de vermelho devido a tentativa de fuga mal sucedida, pontos minúsculos da cor de ferrugem entre o nariz e seu tão anteriormente cabelo loiro como mechas de ouro em fios agora raspado numa superfície que mais parecia o topo da cabeça de um idoso às portas da morte, endireitou o corpo, mantendo os olhos estreitos para um melhor vislumbres das figuras naquele espaço claustrofóbico. Caminhou na direção de um canto que ainda estava livre – um espaço vazio onde as paredes se juntavam numa aresta escura.
Enquanto caminhava com os pés descalços, os olhos das figuras por um momento sequer se ergueram para focar no novo hóspede daquele lugar desolado de vida. Will Solace sentou-se no chão frio, e o peso imaginário de toda a sua vida sendo sugada de suas entranhas se abateu sobre seu corpo de apenas dez verdes anos. Abraçou as próprias pernas e enterrou o rosto entre elas, sentindo a traição ferindo lhe o peito como chamas banhadas em veneno.
– Dói, não é? – uma voz soou próximo de Will, à sua esquerda. O garoto ergueu os olhos assustado com o pensamento de uma voz morta se dirigir a ele mesmo numa conversa.
O garoto não respondeu. Não se atrevia. Parecia que, se abrisse a boca para dizer qualquer coisa, sua sentença seria ainda mais acelerada; e ele temia isso.
O dono da voz se arrastou lentamente na direção de Will, encolhido naquele canto distante de todos os outros – será que estavam realmente vivos? – e quando os olhos do loiro se acostumaram à escuridão, duas esferas brilhavam como jóias sobre a escuridão total – uma púrpura semelhante à de uma ametista perfeitamente polida, e o outro de um profundo castanho-âmbar arrebatador.
O garoto, que também tivera, como era visível, seu cabelo raspado, aproximou-se de Will parecendo não sentir nenhuma hesitação ou medo. Ele usava roupas puídas com partes rasgadas em fiapos, e sua pele clara como papiro era visível por essas listras aleatórias.
– Tem certeza que não está doendo? – ele tornou a perguntar, indicando com um dedo o joelho de Will. O garoto seguiu o olhar do outro, e percebeu que o sangue deslizava numa linha escura e lenta onde seu joelho ralara contra o solo.
– Não muito, na verdade — nada vai doer mais que aquilo.
– Aqui, deixe-me dar uma limpada – o garoto disse, rasgando uma tira de sua camisa puída, deixando-a ainda mais inexistente em seu corpo. – Qualquer coisa nesse lugar parece querer te matar. E você é só um novato com muito tempo pela frente ainda.
Will não ousou afastar as mãos do garoto, que com um cuidado compenetrado usava aquele tecido áspero pelo uso e fazia o possível para limpar o ferimento do recém-chegado.
– Por que você está fazendo isso por mim? – Will perguntou, olhando para o rosto inclinado do garoto. Seu cabelo estava minimamente maior que o do garoto novato, o que poderia indicar que ele provavelmente estava por mais tempo nessa prisão. Era de um tom cinza-claro, como prateado.
– Porque se eu não o fizer, quem fará?
Se eu não o fizer, quem fará? Will já havia feito essa pergunta a si mesmo diversas vezes antes de fazer a idiotice de ajudar alguém. Como poderia adivinhar que a simples vontade de ajudar alguém poderia acarretar em seu recolhimento, como se ele fosse uma espécie de animal descontrolado? Ou pior... um monstro?
– Obrigado – ele agradeceu num sussurro tímido quando o garoto enrolou o pano rosado pelo sangue de Will e o colocou no bolso.
– Uma lembrança – ele explicou-se, quando notou o olhar torto que o outro enviava a si. – Ninguém sabe quando vai ser a sua hora de ser chamado, sabe? Então é sempre bom manter lembranças quando se gosta de alguém.
Will estava prestes a protestar. Ele havia acabado de chegar, como aquele garoto já podia dizer assim, abertamente e sem um pingo de hesitação ou bom-senso, que já gostava do garoto loiro e joelho ralado ao ponto de manter um pano com o sangue dele no bolso? Estranho.
– Eu sei que pareço ser estranho – ele disse pensativamente quando Will desviou o olhar, quase como se lesse seus pensamentos. Ou estaria escrito em sua testa tamanha a obviedade? – mas gosto de criar laços rápidos.
– Que lugar é esse?
Will queria fugir do assunto laços; nunca fora muito bom nessa parte da vida, e as decepções pareciam se acumular como uma montanha de pedras em suas lembranças – a mais recente era o pico congelado do Everest.
– Eu realmente não sei – ele ressoou, exasperado. – E olha que já estou aqui há um bom tempo. Mas me parece que é algum tipo de bunker subterrâneo e secreto. E gigantesco.
– Quantas... pessoas há aqui?
O garoto olhou para Will com seus olhos de cores diferentes, e ali havia, claro como cristal – ou negro e denso como uma sombra -, o pesar de ver várias pessoas amadas irem e virem como os dias.
– Mais do que podemos contar. E todos são crianças. Não sei por quê.
Antes que Will pudesse perguntar mais alguma coisa que fosse, a porta se abriu com um som metálico que fez um arrepio percorrer sua nuca, e uma figura alta era emoldurada pela sombra das fortes luzes que irradiavam lá fora, ergueu-se atrás da soleira daquela porta. Os olhos cobertos por sombras perscrutavam cada rosto ali, avaliando, pensando e cogitando. E quando aqueles olhos frios que irradiavam desprezo passaram sobre o rosto atônito de Will, ele instintivamente agarrou as mãos do garoto ao seu lado e apertou com força e medo.
E o dedo foi apontado.
Homens entraram. Dois apenas. Mas eles foram o suficiente. Com seus braços fortes e dedos precisos e firmes como as garras de um gavião de aço, agarraram os braços, e por mais que a garota lutasse com todas as suas forças, aqueles homens eram infinitamente mais fortes que ela. Era uma luta fútil pela vida. Ou o resto do que dela restava. Arrastaram-na para fora daquele espaço, e seus gritos agudos que pareciam rasgar sua garganta pelo desespero fustigaram os ouvidos de Will e, até anos depois continuariam a aterrorizar seus pesadelos.
A porta se fechou, e a luz forte sumiu juntamente da garota desconhecida. Outra pessoa que Will não fora capaz de ajudar.
– Ei – o garoto chamou sua atenção, e notara que havia novamente aquelas lágrimas persistentes no rosto. Will as limpou com um misto de raiva e pesar. – Qual o seu nome? – ele perguntou, encarando-o com aqueles olhos bicolores.
– Will Solace.
O garoto envolto em trapos poeirentos estendeu uma mão ossuda, porém firme na direção do recém-chegado, e disse, estampando em seu rosto marcado por sujeira e antigas cicatriz um belo sorriso singelo que conseguiu, por um mísero momento, acalmar a mente do garoto.
– Meu nome é Dylan Wolfstadt. É um prazer te conhecer, Will.
Will estendeu lentamente a mão até a do garoto que se apresentara, e a apertou fracamente, mas mesmo assim não conseguiu sorrir.
Alguns dias haviam se passado. Ou semanas – meses talvez. Tudo era incerto ali embaixo, onde o sol não brilhava nem as nuvens deslizavam. Tempo suficiente havia passado.
Os cabelos de Will ainda eram curtos, mas um abatido dourado de seus fios tentavam brilhar. Já os fios de Dylan, que eram de um peculiar cinza-prateado – não um acinzentado como os cabelos ralos e grisalhos de idosos, mas sim um acinzentado com um marcante brilho prateado, como o próprio metal, porém maltrapilho e descuidado.
Nesse estranho período de tempo que se arrastou ali naquele cubículo, figuras novas foram arremessadas para dentro, e figuras antigas, que aos poucos se tornavam mais conhecidas e menos hesitantes entre si eram pescadas para fora – os braços eram impiedosos, às vezes deixando respingos de sangue escuro naquele piso áspero.
Dylan às vezes sussurrava canções quando Will se sentia inquieto, e isso costumava o acalmar. Sua voz era doce e melodiosa, e seu sotaque era belo naquela entoação.
O loiro debatia-se enquanto dormia, chegava até a berrar quando algum pesadelo o atormentava. Os sonhos ruins eram um estranho emaranhado de fios de memórias, todos mergulhados dentro de um liquidificador cheio de loucura e solidão. Mas Dylan o acalmava da melhor forma que podia, chegando mesmo a arriscar a si mesmo durante tais ataques do outro.
Em algum momento, Will foi acordado com o atormentador rangido que indicava a porta sendo aberta, e o pensamento frio de quem alguém seria jogado ou pescado, e nada podiam fazer, a não ser esperar e rezar – não que Will conseguisse mais fazer isso. Carmine estava morta, então a fé de Will morrera com ela.
Um borrão foi arremessado violentamente para dentro daquela jaula de garotos e garotas em trapos esfarrapados e corpos debilitados, e se chocou com violência no solo sujo. E a porta novamente se fechou, mergulhando-os na escuridão.
Will manteve os olhos sobre a figura que continuava encolhida no ponto onde fora arremessada, e sentiu alívio ao ver que, ele ou ela, ainda respirava.
– Nós temos que ajudar. – Dylan sussurrou ao ouvido de Will, com certa urgência. O loiro virou o pescoço para o amigo de cabelos prateados, e viu aquele solidário brilho em seus olhos de cores diferentes. Apenas assentiu ao garoto. Não conseguia dizer não à Dylan.
Will decidiu então ousar. Queria, estranhamente, impressionar Dylan, o garoto que o acolhera como um amigo de verdade.
Ergueu o dedo indicador no ar, e pensou em um momento feliz, em que ele sentiu que tinha o poder em si – o poder de ajudar e restaurar -, e logo de imediato, da ponta de seu dedo, começou a irradiar um brilho dourado. Foi difícil para ele se manter naquele momento feliz, sendo que lhe lembrava o porquê de ter parado ali, naquele lugar desconhecido e repleto de miséria. O esforço chegava a doer. Desenhou no ar logo diante do próprio rosto um halo de luz dourada.
– Como você...? – Dylan sufocava a surpresa. O olhar dele sobre o rosto focado de Will fazia um calor estranho se instalar em suas maçãs sem cor.
Will soprou suavemente o centro do halo, e o círculo brilhante de luz se distanciou de si, movendo-se em direção à figura caída no chão, abraçando o próprio corpo. Todos olhavam para aquele anel dourado de pura luz voando em direção ao trapo, e seus olhos arregalados enviavam um claro aviso para Will: cuidado. Mas ele ignorou os olhares.
O halo parou em frente à figura no chão, ainda imóvel. Lentamente, olhos vacilantes e escuros se erguerem e fitaram o halo que brilhava como um anel de néon.
Quando o anel começou a se distanciar de volta para as mãos de Will, a figura hesitou por um tempo razoavelmente longo antes de engatinhar como uma criança atrás do brilho, até Will e Dylan.
Era uma garota. Estava com o rosto coberto por marcas de luta, e havia em seus olhos escuros e lábios cortados uma impressão forte que Will só conseguiu definir com a expressão “quid pro quo”.
Seu nome era Reyna – apenas Reyna, nada mais, ela enfatizou -, e não quis dizer o porquê de estar ali ou o que fazia antes. Will não podia forçá-la, afinal ele mesmo não contara a Dylan. Não se sentia bem. Era como reabrir uma antiga ferida ou cutucar uma cicatriz. Incômodo.
Com o tempo, a garota permitira que os garotos se aproximassem mais dela. E Will notou que ela possuía muita determinação e incontáveis desejos; e sonhos eruditos que nutriam sua sanidade firme.
Rostos saíam. Novos entravam. Mas eles permaneciam intocados.
Os três começavam a se perguntar o porquê, e o que poderia estar acontecendo lá fora. Eles estavam famintos por informações. E sedentos por liberdade.
Começaram a bolar um plano de fuga – um plano defeituoso, arquitetado por dois garotos sem ninguém importante em suas vidas a não ser um ao outro, e uma garota cheia de determinação que deixou explicito que daria a vida pelos dois únicos amigos que criara nesse inferno claustrofóbico.
Quando aquela porta rangeu e novamente se abriu em busca de um novo rosto para apagar, Will criou um brilho ofuscante nas mãos, erguendo diante do rosto como uma lanterna, cegando quem quer que fosse que estivesse do outro lado da porta – ou quantos -, e rapidamente esgueirou-se entre as pernas da figura emoldurada em sombras, e enfim sentiu um ar diferente lhe beijar o rosto sem cor. O sopro da liberdade, talvez?
Havia luzes em todos os lados, e isso o deixou cego por um tempo. Tinha de olhar para o chão, guiando-se sobre um piso claro e cheio de riscos, com partes escuras que pareciam pedra abaixo de vidro. Não sabia se seus dois amigos o acompanhavam. Não podia olhar para trás. Não podia se dar ao luxo e arriscar todo um plano que bolaram em algumas horas.
Algumas longas passadas desesperadas depois, sentiu um aperto no pulso que o desequilibrou, e uma mão lhe puxou para o lado. Quando foi gritar, uma mão fria lhe cobriu os lábios enquanto arrastava um Will que se debatia para um canto desprovido de luz.
– Fique quieto, maldição – a voz familiar de Dylan rosnou ao ouvido de Will, e assim o garoto conseguiu se acalmar. Aquela voz sempre o acalmava. Era como se ela estivesse recheada de poder que flutuava juntamente de suas palavras e lhe enchia de tanta calma que Will poderia até dormir. – Fica quieto ou vamos ser descobertos.
Will assentiu e Dylan lhe libertou. Ambos estavam numa fresta estreita no canto esquerdo da parede de um corredor estranhamente mal iluminado se comparado com o resto de todo o local.
– Cadê a Reyna? – Dylan perguntou a Will no exato momento em que o garoto notou a falta da garota e estava prestes a fazer a mesma pergunta.
– Eu achei que ela...
– Shhhhhh! – novamente a mão fria de Dylan lhe cobriu os lábios com urgência. – Tem alguém vindo.
Will e Dylan se espremeram naquela fresta escura, com os corpos quase prensados um no do outro, observando a única parte do corredor que era visível aos seus olhos. Os passos eram lentos e ecoavam no silêncio daquele corredor branco – branco até demais para os olhos acostumados com tanto tempo de escuridão.
Will Solace podia sentir o coração de Dylan batendo contra as suas omoplatas, rápido de nervosismo, e a respiração do garoto sendo sufocada quase de encontro a seus ouvidos.
Reyna passou correndo pelo corredor, sem sequer notar a presença dos dois amigos numa pequena brecha à sua esquerda. Seu rosto parecia contorcido numa expressão de pavor e horror. Um desgosto palpável, e uma ânsia que lhe manchava o rosto.
Quando ela sumiu de vista – apenas o som de sua corrida desenfreada pelo corredor alcançando os ouvidos dos dois garotos -, Dylan livrou Will de seu quente aperto, e com apenas uma palavra – “vem” – se lançou para fora daquele esconderijo encontrado no momento mais oportuno, e se lançou na direção que Reyna correra. Não demoraram muito a alcançá-la num ponto onde aquele corredor branco se dividia numa bifurcação de cinco caminhos idênticos.
– Qual caminho dá na saída? – Reyna perguntava para ninguém em especifico. Apenas erguia sua voz numa suplica desesperada. Seus olhos ainda arregalados olhavam para todos os possíveis caminhos a sua frente com uma indecisão latente. – Temos que sair daqui. Temos que sair desse lugar amaldiçoado o mais rápido possível.
– Ei, ei – Dylan começou a dizer em sua clássica voz calma enquanto caminhava na direção de Reyna. Will notou apenas agora que se encontravam livres, que o garoto de cabelos ralos e prateados era menor que a garota de olhos escuros e determinação de ferro. – Você está bem?
– Não. Nem um pouco. Temos que sair daqui.
– Fique calma e diga o que você viu. – ele sussurrou para Reyna, fitando-a nos olhos com uma calma surpreendente.
A garota devolveu o olhar, com a respiração descontrolada saindo por seus lábios se tornando mais lenta e controlada em apenas alguns segundos. Ela fechou os olhos, e, rapidamente, contou o que viu. Pouco a pouco, quanto mais ela detalhava, Wil não conseguia mais ouvir. Não queria. Era horrível e cruel. Sentia uma ânsia azeda subindo por sua garganta juntamente da bílis.
Experimento com crianças. Poderes. Crianças com habilidades. Herdeiros. Caos. Nascimento e Renascimento. O que era tudo aquilo? Muita coisa para digerir quando o que Will mais queria era se curvar e colocar tudo do pouco que comeram para fora.
– T-temos que sair daqui agora mesmo – foi Will que disse agora, tendo de se recostar na parede ao lado para se manter estável. Sentia as pernas moles como gelatina e a cabeça a girar como se estivesse dentro da cápsula de uma nave em queda. – Eu acho que... sei o caminho... de alguma forma.
Ambos o olharam agora com expressões confusas. Olhares tortos e desconfiados. Por que aquele tipo de olhar nas duas pessoas que Will mais confiava parecia doer tanto? Era injusto.
Will não sabia explicar, e não sabia se sequer tinham tempo. Apenas sentia que a luz o iria guiar. Era como se uma voz, que era a sua mesmo, mais corajosa e convicta de suas habilidades escondidas, ressoasse no fundo de sua mente que, onde estava a saída, a luz os guiaria ao encontro dela mesmo.
– Eu não entendi nada, mas ok – Dylan disse, enquanto olhava para Will com a testa enrugada de confusão. Foi só então que o garoto percebeu que disse em voz alta tudo que corria em sua mente como uma corrente de água levando diretamente para uma cachoeira.
Levantou a mão e sugou a luz acima de sua cabeça, e a deixou flutuando no ar acima dos três, girando como um disco confuso e sem propósito. Até que esse disco se afunilou até tomar a forma de uma lança – era para ser uma seta; estou muito fraco – e deslizou no ar até um dos corredores. O segundo à direita deles e continuou, lentamente alguns centímetros acima do solo e cerca de três metros à frente dos garotos que buscavam a liberdade, mas se detinham parados em frente aquela bifurcação.
– Agora... é só seguir a luz – Will disse, andando arrastado e fraco na direção da luz que criara.
Dylan e Reyna hesitaram, mas depositavam grande confiança em Will, ele sabia, e logo seguiram atrás dele. Dylan amparou um Will trêmulo e que suava frio em seus ombros, e andaram rapidamente e juntos pelo corredor, com a luz brilhando e guiando o caminho.
Mas estava tudo muito calmo para uma instalação dessa estirpe, que acabara de perder três espécimes únicos.
Até agora.
Um alarme soou, e todas as luzes que antes eram brancas, explodiram numa coloração vermelho gritante que agredia os olhos e acelerava o coração. Vermelho significava perigo, não importava o momento. Passos ecoavam atrás deles, e murmúrios de vozes cheias de raiva e urgência.
Os três amigos em fuga aceleravam sua corrida, mas os passos daqueles que o procuravam e perseguiam pareciam ser mais rápidos e longos.
– Nós vamos ser pegos – Will murmurou, atropelando as palavras com seus lábios dormentes. Sua visão estava começando a ficar embaçada. Tudo parecia estar sendo visto por detrás de um vidro sujo.
– Cale a boca – a voz de Dylan o repreendeu com um sacolejo. – Leve-o você. Eu vou... segurá-los por um tempo.
O que você está falando? O que você vai fazer?, Will pensou, mas nada conseguiu dizer. Virou a cabeça que pesava como chumbo na direção da voz de Dylan, buscando por aqueles olhos de duas cores diferentes que tanto amava secretamente, e aqueles cabelos prateados que eram tão agradáveis ao toque, e o encontrou parado, de costas, o olhar voltado para o corredor – para o ponto de onde se afastavam.
– O que você... Dylan... Não...
– Continue, Reyna – Dylan disse com uma voz firme, porém Will sentiu que ela estava um pouco trêmula. Ele sentia as diferenças em Dylan. Will sempre sentia, porque mesmo sabendo pouco daquele garoto, de alguma forma o conhecia mais do que conhecia a si mesmo. Ele estava com medo, mas ainda assim queria ser corajoso e proteger uma última vez seus amigos queridos. – Apenas continue seguindo a luz. Uma luz sempre encontra outra luz, mesmo nos momentos mais obscuros. Vão logo, antes que eles cheguem.
Reyna murmurou algo, mas jogou Will, pequeno e magro, fraco e impossibilitado de reagir, em suas costas, agarrando-o firme contra o seu corpo de garota forte, e correu atrás do que agora era apenas um fio de luz fraco rodeado de vermelho.
Will queria ter forças para gritar ou se soltar do aperto das mãos de Reyna, mas estava fraco demais. Não sabia que seus poderes sugavam tanto assim de sua energia. Não sabia que seus poderes o trariam para esse lugar que agora fugia, deixando para trás de si um garoto que estava se sacrificando para dar mais tempo para que fugissem.
Mas como? Dylan não tinha habilidades. Era apenas um humano normal. Um garoto nascido em outro país e que de alguma forma parou aqui, nessa ilha maldita e que esconde mais coisa do que mostra em sua superfície metropolizada, sugado para baixo da terra para ser morto por mãos desconhecidas.
– Obrigado – a voz de Dylan cantou já à distância. Doce e melodiosa, e já encheu Will de saudade e fez as lágrimas começarem a deslizar por seu rosto. – Por tudo.
Will queria apenas ter um vislumbre daqueles olhos uma última vez, e também queria que não tivesse de ser a última vez.
A voz do garoto Wolfstadt ergueu-se num sonoro cântico em outra língua, que ecoava pela formação do corredor, e se distanciava enquanto Reyna corria com um rugido de dor quente na garganta seca.
Lá longe, há alguns metros à frente, uma luz ofuscante brilhava. Irônico. Literalmente uma luz no fim do túnel.
Will acordou com o nome de Dylan saindo de sua garganta num chamado cheio de lágrimas no meio da escuridão do sono. Sua respiração descontrolada lhe cortava a garganta, e o suor frio molhava o tecido de suas roupas, que pareciam, com uma melhor inspeção, novas e recém-colocadas.
Depois de secar os olhos, Will se situou.
Era um lugar desconhecido, mas não emanava uma aura de desespero como em seu outro cativeiro. Era uma espécie de tenda de tecido amarelo-escuro, como mostarda. Encontrava-se deitado dentro de um colchão, daqueles de acampamento, verde-escuro como a grama durante a noite. De uma pequena lâmpada colocada no centro daquela tenda, uma luz amarelada era lançada em todas as direções, iluminando fracamente o recinto.
Will se levantou, expulsando do corpo o torpor e o cansaço. Parecia que ele havia dormindo por dias a fio, e assim seu corpo também recuperara um pouco das antigas energias. Tinha de agradecer a Reyna, seja lá o que tenha acontecido.
Quando aventurou-se para fora da tenda, estava em um local totalmente diferente de tudo que já tinha visto antes. Parecia um acampamento de guerra, com tendas enfileiradas e soldados transitando entre estas tendas, segurando armas e mantimentos. Mas eram todos jovens e algumas crianças, com armas rústicas e mantimentos escassos. Visivelmente inexperientes e cansados.
Sobreviventes de uma guerra que ainda estava por vir.
Will viveu ali por um tempo, fazendo tudo que podia. Descobriu, quando Reyna o procurou, que ela, juntamente de outros dois garotos desconhecidos para Will, eram como espécies de capitães daquele lugar. Reyna chamava esse lugar de Fortaleza, o que era um pouco reconfortante. Ela prometeu ao garoto que ninguém os poderia atingir ali. Ninguém os poderia fazer mal, e enquanto ela acalmava o amigo com palavras gentis, promessas firmes que viam dos lábios da corajosa capitã, Will mergulhava na saudade imensa que sentia de Dylan. Também ficou sabendo que ficara desacordado por quatro dias inteiros.
O jovem Will concordou em ficar ali, e ajudar no que pudesse. Mas nem sequer uma vez usou seu poder novamente. Tinha medo, e parecia não mais haver memórias felizes em sua mente a que pudesse recorrer. Sentia-se fraco e inútil, o que talvez fosse bom. Não queria sentir novamente o sentimento de ter o poder de ajudar, e não conseguir.
Pouco tempo se passou, até que Will fora colocado no grupo de caça com outros dois garotos. Não os conhecia, como ainda não conhecia grande parte das pessoas com quem vivia naquela fortaleza. Apenas nomes importantes, como Jason Grace, capitão, e Percy Jackson, também capitão. Nada mais. Se conformava em viver no limbo das informações, sozinho com seu passado e suas dores que aos poucos tentava superar, mas não esquecer. Jamais esquecer.
O garoto mais jovem do grupo avistou um javali, grande e gordo, fuçando um ponto enlameado entre o mato, depois de algum tempo de procura. O sol estava se pondo, ao longe. Ele sorria, orgulhoso. Mas Will não. Não estavam prontos para um javali selvagem daquele porte. Mas os outros dois aparentemente pensavam de forma diferente, e avançaram, com a pouca experiência em caça que tinham, em direção ao javali. Impotente, Will apenas assentiu enquanto tudo dava errado, e o javali atacava o garoto mais novo que errara o ataque com sua lança.
Minutos depois, Will estava ajoelhado na lama, com as mãos cheias de sangue e banhadas em luz, tentando com todas as suas energias fazer aquele enorme talho diagonal que fora aberto na barriga do garoto se curasse, porém sem muito sucesso. Ele já havia morrido há alguns minutos, e suas entranhas sangrentas misturavam-se com a lama. Era tarde demais, seu outro companheiro dizia, mas o peso da culpa se abateu em Will novamente, juntamente daquela sensação azeda de não pode ajudar ninguém.
– Temos que voltar a avisar o que aconteceu aqui – o garoto mais velho dizia, com seu porte de quase 1,87 metros de altura e pele escura. Seus olhos castanhos estavam cheios de dor, mas ele não conseguia chorar. Não eram apegados. Não eram amigos, mas Will chorava a morte de outra pessoa bem a sua frente, e chorava por lembrar todas as pobres almas que não pode ajudar. E lembrava de sua fraqueza. Eram muitas lembranças.
Will colapsou, e com um grito de dor, iniciou uma caminhada a esmo por aquelas árvores úmidas pela última chuva. Chegou a cair várias vezes, ainda em lágrimas e com mãos sujas de sangue e terra.
Algum tempo depois, encontrou uma estranha caverna que mal fora vista por ele mesmo na primeira vez. Estava tão bem escondida que quase passava despercebida. Will adentrou, estranhamente pisando em neve. O frio se intensificando a cada passo dado. As lágrimas pareciam se congelar em seu rosto, e sua respiração, branca e fria, subia diante de seus lábios como em filmes de fantasmas.
Ali dentro era tudo branco e frio, e havia gelo em todas as partes. E uma figura. Em tecidos brancos, rodeada de gelo. Will não conseguiu dizer sequer uma palavra. As palavras congelaram em sua garganta dolorida quando a avistou.
– Um pequeno e fraco raio de luz então adentra a alva morada depois de éons – a figura possuía uma voz feminina. Com movimentos lentos e fluidos, ela se virou na direção de Will, fitando-o com olhos totalmente azuis, como gelo, e pele com uma profunda tonalidade de branco. Não pálido, mas literalmente branco. – parecendo desejar algo que ele não consegue dar, ter ou mostrar.
A garota tinha uma aparência jovem e bela, com sua pele branca e lábios azulados. Seus olhos frios eram como esferas de gelo azuis e belas, e seus cílios, sobrancelhas e cabelos eram todos brancos, e pareciam salpicados de flocos gordos de neve. Era uma beleza aterradoramente sobrenatural, que emanava de si um poder arcaico.
– Diga, jovem portador da luz, o que você deseja. Com suas palavras.
Will hesitou, com aquela bola fria de sentimentos entalada em sua garganta. Sua boca parecia cheia de neve, e Will queria apenas cuspir tudo para fora. E começou.
– Eu quero conseguir proteger quem me é importante – ele disse caindo de joelhos naquele solo frio e coberto com uma fina camada de neve. – Não importa o preço.
A figura se moveu como um sopro frio, e logo estava diante de Will, tomando em seus dedos frios e palma gélida o rosto claro e radiante do garoto quebrado interiormente. Ela tinha um sorriso no rosto, e a inexistência de calor em tudo que a compunha congelava os pensamentos de Will.
– O preço é baixo, mas você vai ter tudo o que quer. Á alguns quilômetros ao leste daqui, seguindo a trilha fraca abaixo do pinheiro quebrado, há uma modesta cidade que vive sua vida longe de tudo o que é novo. É um bom lugar. Você pode viver lá. Ninguém será ferido por pessoa que temem, e nenhum mal nunca chegará às portas dos moradores. Ao vir até mim, você os está protegendo. Repito novamente: o preço é baixo. A única coisa que você tem de fazer, ou melhor, a única coisa que você não pode fazer é usar sua habilidade. Nunca. Enquanto viver naquele lugar que estou te provendo, se algum dia você curar alguém, nosso acordo acaba. E eu irei atrás de você, e de tudo que lhe é precioso. Entendeu?
Will engoliu em seco, confuso. Pensando na possibilidade. Poderia, enfim, dizer que estava protegendo as pessoas, mesmo que não fosse exatamente ele que estivesse fazendo isso. Podia ajudar, desde que não usasse seu poder. Era um sacrifício que estava disposto a fazer. Não iria voltar de forma alguma para a fortaleza e para todos os rostos acusadores que ali habitam.
Vou fazer isso por você, Dylan. Vou provar para você, onde quer que esteja agora, que eu ainda posso proteger as pessoas que me são importantes, Will pensou, agarrando um punhado de neve nas mãos sujas e apertando com força, sentindo a dor da frieza da neve em sua pele. Ergueu os olhos azuis e confiantes num futuro melhor para a figura em branco e gelo, e sibilou com um pouco de raiva – raiva de si mesmo -:
– Entendi. Perfeitamente. E aceito.
Ela sorriu, mostrando seus dentes perfeitamente alinhados e brancos.
– Ótimo – ela disse, se levantando e voltando para um canto, de costas para Will. – Foi um enorme prazer fazer um acordo sincero com você, Will Solace.
Will nada respondeu, apenas se levantou e rumou à saída. Antes, porém, a curiosidade o tomou subitamente; girando rapidamente nos calcanhares, virou-se na direção onde a figura branca detinha-se abaixada, e perguntou com um pouco de hesitação:
– Qual é o seu nome?
Um longo silêncio tomou o local, frio como o gelo em toda a parte. O garoto pensou por um momento que não obteria tal resposta, até que a voz da figura respondeu, com talvez um pouco de prazer em seu tom de voz.
– Nomes são importantes, mas não o meu. Pode se referir a mim como Feiticeira Branca. Agora vá.
Will obedeceu, e com passos lentos, depois de algumas horas que correram mais rapidamente do que ele esperava, o garoto se encontrou em tal cidade. Era pequena e um tanto quanto simples, mas confortável.
O Herdeiro de Apolo sorriu para si mesmo. Talvez ele realmente conseguisse formar uma vida nesse lugar, feliz e seguro – nem que tudo fosse falso.
Às vezes é melhor uma ilusão do que uma verdade que possa doer como lâminas em brasas.
Will continuou a caminhar rumo às casas pequenas que se erguiam do solo como belas construções do mundo Disney, prometendo a si mesmo cumprir o acordo que o faria ser forte e útil, protegendo assim quem ele amava.
Mas, quem eu amo? Eu não tenho ninguém. Will então sorriu, febril com a conquista recentemente recebida. Ainda. É só uma questão de tempo até eu me apegar a alguém novamente.
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