Touch

7 The Sound Of Your Death


Notas iniciais
so, finalmente outro cap :3 demorou mas tá ai T.T'

Nico abriu lentamente os olhos, com a luz forte do exterior da tenda sendo reduzida a apenas centelhas fracas e opacas pelo tecido azul da tenda, que brilhava, de alguma forma quente e acolhedora, no rosto pálido e encovado do garoto livre, não mais aprisionado a correntes e algemas frias de aço.

Esticou o corpo dentro do saco quente de dormir, e percebeu, depois de alguns rápidos segundos, que o saco não estava tão quente ou pequeno o quanto ele se lembrava.

Levantou o corpo e se sentou, varrendo o recinto com os olhos embaçados e lacrimejados por um bocejo.

A tenda estava vazia e silenciosa, e não havia, em parte alguma, nenhum sinal sequer de Jason ou de qualquer outra pessoa que fosse. Havia outro saco de dormir ao lado do qual o garoto estava, e ele bem sabia que era o dele mesmo, o qual ele se esgueirou durante a noite tecido afora em direção ao interior quente e acolhedor do saco de dormir de Jason.

Essa lembrança fez um calor estranho e novo invadir o rosto de Nico e seu coração bater um pouco mais aceleradamente.

Nico saiu de dentro do saco de dormir, sentindo os músculos do corpo doloridos e adormecidos; e, parado no centro da tenda, espreguiçou-se, numa tentativa de expulsar o torpor do sono que o dominava.

Enrolou novamente ambos os sacos de dormir e os colocou no canto da tenda, de onde Jason os havia tirado.

– Que bom que acordou – disse uma voz atrás de Nico. O garotou girou o corpo, fitando os olhos azuis de Jason, onde em sua face branca estava um belo e singelo sorriso enraizado em suas belas maçãs avermelhadas. Ele usava a mesma roupa da noite anterior, e trazia nas mãos um prato com a sopa do jantar da noite passada, que Nico especulou ser o seu desjejum de hoje. – É seu café da manhã; coma e vamos iniciar o treino – ele disse, estendendo o prato fundo com a refeição quente e leve, com a colher de alumínio fino pousada cuidadosamente na superfície liquida.

Nico assentiu e tomou o prato das mãos de Jason, saboreando a refeição perfeitamente temperada – tinha um sabor levemente picante e salgado, com as folhas verdes e os legumes flutuando convidativamente na superfície, onde, no fundo onde o sabor forte parecia se concentrar, estavam mergulhados os saborosos pedaços de carne – com colheradas generosas e famintas, enquanto Jason o observava sem se mexer, com aquele idiota sorriso no rosto.

Nico queria poder sentir raiva do loiro a sua frente, mas não conseguia, e talvez nunca pudesse, não importasse o que ele fizesse, pois sempre que aquele sorriso simples e quente surgisse em seus lábios, o garoto esqueceria completamente o motivo da irritação e sua mente seria invadida por uma onda súbita e incontrolável de pura felicidade. O que era esse sentimento estranho? Bom e ruim ao mesmo tempo? Contraditório? É um sentimento bastante similar ao que o garoto sentia por Percy, antes de ele o matar com suas próprias mãos.

Algo em seu interior gritava para que Nico se afastasse de Jason, mas, ao contrário daquela voz lamurienta e resmungona que grasnia na mente do garoto, essa agora não dizia que o loiro poderia fazer mal a ele, e sim ao contrário, como se Nico fosse o verdadeiro mal, não só para Jason, mas sim para todos da Fortaleza. Assim como para ele mesmo.

Nico estendeu novamente o prato agora vazio para Jason, e o loiro fez um movimento com as mãos, insinuando algo como: deixe isso aí em qualquer lugar mesmo. O garoto colocou o prato em cima da cadeira, se sentindo quente e com suas energias revigoradas. Sentia como que sua força perdida há anos atrás – a energia que ele tinha antes de ser preso na Corporação Tártaro – estivesse voltando aos poucos.

– Vamos – disse Jason, atravessando o tecido azul da tenda, onde ficava a pequena e estreita saída e entrada.

Nico olhou para os próprios pés, pernas e corpo, e se auto avaliou numa escala de 0 á 10, onde o 5,5 seria mais adequado para ele; bateu o pó do tecido negro das roupas, e seguiu atrás de Jason.

Eles treinariam num espaço amplo e circular de 15 metros, onde o chão era de terra batida e fofa. Ao redor de todo o perímetro da arena, havia vários tipos de armas e objetos perigosos e feitos especificamente para matar e dilacerar; mas, como Jason o havia dito, Nico iria começar pelo básico, ou seja, o fundamento da luta. Nico iria se especializar inicialmente com a luta com punhos e os outros membros principais do corpo.

– Acho que para você, que tem um Toque tão poderoso, deixá-lo incapacitado de usá-lo enquanto você porta uma arma, seria um grande desperdício – disse Jason, tirando dos pés o sapato esportivo que usava e plantando os pés nus no chão de terra fria e áspera. – Está pronto Nico?

Nico respirou fundo, e olhou ao redor, vendo que algumas poucas pessoas o observavam a distância, com muito pouco interesse. Ainda bem, o garoto refletiu, colocando-se numa posição de luta que não se lembrava de saber. Olhou no fundo dos olhos azuis de Jason, e percebeu que o garoto gentil e meigo que conhecera agora havia desaparecido, e que ali, parado a sua frente, com os punhos erguidos e preparados para uma batalha, estava o mesmo Jason que venceu os dois Homens Brancos com um único ataque. O garoto que estava a sua frente agora não era o Jason amigo, mas sim o Jason Capitão da Fortaleza, um dos líderes dos Hospedeiros e Herdeiros Rebeldes. Nico não podia vacilar ou hesitar na frente daquele Jason.

Nico partiu para o ataque, impulsionando o corpo para frente com velocidade, os punhos cerrados com força e a determinação de se tornar mais forte brilhando como chamas negras no olhar.

***

Sentada na ponta da Mesa Dourada, Reyna era alvejada pelos olhos opacos de Octavian, que pareciam querer explodir a cabeça da capitã. Mas ela não podia vacilar. Tomou uma decisão, e junto de seu pequeno conselho, chegou a uma conclusão.

– Se esse garoto, Nico di Angelo, trazer algum mal à Fortaleza – Reyna disse, olhando no fundo dos olhos raivosos de Octavian. –, eu tomarei toda a responsabilidade e todas as medidas para tal acontecimento, não se preocupe Octavian.

– Não me preocupar, você diz – o garoto rangia os dentes; seus punhos estavam fechados com força na superfície dourada da mesa. Seu murmuro parecia mais um grunhido grave e sufocado de um cão com raiva. – Como eu posso não me preocupar quando alguém desconhecido e visivelmente perturbado entra sem a permissão do conselho dentro da Fortaleza?

– Mas ele agora tem a permissão do Conselho – explicou Reyna, com sua voz calma e controlada, mesmo que em seu interior queimasse um sentimento enorme de raiva em relação à Octavian. E Nico.

– Ele matou Jackson, e você age como se ele fosse inocente! – exclamou ele, ficando de pé num salto, batendo na superfície da mesa com as palmas das mãos.

Durante o conselho, tal ação poderia acarretar uma suspensão ou expulsão do mesmo com qualquer coisa relacionada ao conselho, mas agora, depois de terminada a reunião dos sete – que consistia em Reyna, Jason, Octavian, Annabeth, Thalia e Rachel; também Percy antes fazia parte – Reyna podia fingir que nada tivesse acontecido e aceitar a explosão de raiva, e ouvir tudo que alguém, que no caso era Octavian, tinha a dizer.

– Annabeth, Jason, Thalia, Rachel e eu, todos sabemos muito bem o que o garoto fez com Percy – ela disse, se levantando calmamente de sua cadeira e andando na direção do garoto de cabelos loiros como palha seca. – Mas tomamos nossa decisão não pensando em nós mesmos, mas sim no que este garoto poderá trazer de benefício para a Fortaleza e para todas as pessoas na Fortaleza. O nosso voto foi dado, e não é você que vai mudar isso, não importa o que faça. – ela parou ao lado dele, e sussurrou ao ouvido do garoto irritado: — Ponha-se em seu lugar.

Sem esperar resposta alguma, Reyna passou por um Octavian boquiaberto, de olhos duros e frios, e lábios e rosto contorcidos numa expressão de raiva, e andou a passos rápidos e determinados rumo à saída da sala da Mesa Dourada.

– Reyna – chamou a voz de Octavian atrás de si. Reyna parou de frente para a porta, com a mão em volta da maçaneta e nem se deu ao trabalho de olhar sobre os ombros na direção do garoto. – Esse garoto que vocês tanto estão protegendo ainda vai destruir tudo aquilo que você demorou tanto tempo para construir. É bom que tenha isso em mente, porque quando acontecer, é bom que tenha uma ordem preparada na ponta da língua.

Do que você está falando?, perguntou-se a capitã, confusa e um pouco assustada com o aviso de Octavian.

– Eu pensei que você houvesse perdido os seus poderes, devido ao Efeito Colateral – refletiu ela, sem se virar. – Voltou a ter profecias Octavian?

– Não. Mas eu não preciso de nenhuma Habilidade para saber que esse garoto será a sua ruína. Só preciso saber se quando esse momento chegar, você terá a ordem.

– Eu terei, Octavian – ela respondeu, girando a maçaneta e passando pela soleira alta da porta, fechando-a atrás de si, acrescentando para si mesma enquanto descia o pequeno lance de escadas do Salão dos Grandes, a habitação e local de encontro dos capitães e seus conselheiros: — Eu terei.

***

Um som de estática tirou Percy de seu devaneio, e logo em seguida uma voz metálica soou em seu micro comunicador, posto em seu ouvido direito.

– Aqui é o Praga – identificou-se o agente infiltrado da Corporação, dentro da Fortaleza.

– Prossiga, Praga – disse Percy, ansioso pela noticia que estava a caminho.

– A Capitã foi moldada de acordo com sua vontade, e agora o ataque pode ser iniciado.

– Isso significa que finalmente poderei vê-lo?

– Exatamente isso, Percy. Significa também que finalmente poderemos destruir completamente a Fortaleza.

Percy, de tão eufórico com a notícia e com a possibilidade de total e iminente destruição da Fortaleza, gargalhou alto; gargalhou tão alto e com tanta força que até perdeu o fôlego.

– Muito obrigado pela maravilhosa informação, Praga – agradeceu Percy, olhando para o horizonte, onde o sol da tarde começava a ser engolido pelos picos cinzentos dos prédios.

– Às suas ordens, Capitão – disse a voz metálica, e novamente aquele som de estática soou em seu micro comunicador antes do dispositivo se silenciar por completo.

Percy olhou para o céu através do espesso vidro transparente no último andar do prédio da Corporação Tártaro, notando a enorme e densa nuvem negra que pairava distante, para lá do horizonte... e sorriu.

– Parece que vai chover – ele disse.

***

Horas depois de iniciado o treinamento, Nico estava deitado de costas no chão de terra batida, com a respiração funda e ofegante, e em sua frente, em pé e suado, estava Jason.

– Nada mal para quem passou três anos inteiros sem mal se mexer – ele disse, estendendo a mão para ajudar Nico a se levantar.

O garoto tomou a mão de Jason e se levantou, sentindo as parte onde o loiro o acertou doerem como que se estivessem penetrando sua carne com alfinetes pontudos.

– Eu levei uma completa surra – resmungou Nico, tocando as costelas doloridas. – e você diz nada mal.

Jason riu, e Nico soube que agora quem estava ali em sua frente era o Jason que ele conhecera. O Jason amigável e gentil.

– Me desculpe – ele disse, limpando a testa suada com as costas das mãos. – É que nós seres humanos, só conseguimos lutar pra valer quando nossa vida está em perigo; e eu precisava que você lutasse para valer, para que eu pudesse medir seu nível.

– Então, se eu não tivesse escapado de alguns golpes, eu agora poderia estar morto?

– Exatamente.

– Isso não é nem um pouco legal, sabe?

Jason riu novamente, e Nico esboçou um leve sorriso, que logo desapareceu com um pensamento.

– Por que não usou suas habilidades durante o treinamento? – Perguntou Nico, seguindo-o na direção de sua tenda.

– Porque, como eu disse antes, minhas habilidades me esgotam muito, e eu poderia ter um ataque fulminante ali mesmo e morrer.

– Jason, você o está deixando um pouco confuso não explicando tudo isso direito, não? – perguntou uma garota que saiu subitamente por uma tenda pela qual eles passaram. Ela era bela, e usava roupas simples, que não diminuíam em nada a sua exuberância; usava um cabelo preso de um jeito estranho, porém continuava bela.

– Olá, Piper – saudou Jason, sem parar ou diminuir a velocidade das passadas. – E o que você quer dizer com isso? Eu posso mesmo ter um ataque fulminante, você, mais do que ninguém, sabe muito bem disso: meu coração é fraco.

Nico, não sabendo exatamente o porquê, sentia algo estranho em relação àquela garota, a tal Piper. A forma como ela sorria enquanto falava com Jason; a forma normal e íntima como ambos conversavam.

Eu e a Piper já não temos nada, lembra?; repetiu a voz do loiro na mente de Nico, e, após alguns segundos de reflexão, o garoto finalmente entendeu. Aquela garota bela e simpática, Piper, era a namorada de Jason.

– Mas você não explicou porque seu coração é fraco – ela tornou a dizer, tocando o tórax do loiro com o dedo indicador esquerdo.

– Do que você está falando, Piper? – perguntou ele, visivelmente confuso.

– Ah, cara – ela exclamou, levantando as duas mãos para cima, se dando por vencida. – Estou falando sobre o Efeito Colateral das nossas Habilidades!

Jason interrompeu a caminhada, e olhava para a garota ao seu lado com olhos arregalados.

– É verdade – ele disse, após uns segundo de silêncio. – Eu tinha esquecido.

– Então conte logo, pois o garoto está totalmente perdido – incitou Piper.

– Tenho uma ideia melhor – disse Jason, girando o pescoço até seus olhos encontrarem os de Nico. – Vamos levá-lo ao Filho de Thanatos.

– Tem certeza disso? – perguntou a garota, assustada com a ideia. – Ele é perigoso.

– Não se preocupe – acalmou-a Jason, tocando levemente seus ombros. – A vida dele está em risco para ele ser perigoso.

– Podem abrir a cela – ordenou Jason aos dois homens que guarneciam as portas de vidro da cela, quando chegaram onde o Filho de Thanatos estava confinado. – E saiam daqui.

Um dos homens que portavam armas enormes de design futurístico digitou uma senha no painel digital ao lado das portas espessas de vidro, que se abriu com um silvo alto de pressão, deslizando para lados opostos silenciosamente, e ambos assentiram com a cabeça antes de se afastarem da cela, que Nico notou ser completa e unicamente de vidro.

– Por que essa cela é toda feita de vidro? – perguntou ele, tocando a parede de vidro da cela com a mão enluvada.

– É uma espécie de cela à prova de som – ele explicou, entrando na sala. Nico hesitou em ir, mas logo seguiu Jason, quando percebeu que a garota, Piper, já estava ao lado dele. -, que foi feita por Leo.

– Aquele Leo? – perguntou Nico, surpreso. O garoto havia falado a Nico que construía coisas, mas não sabia que ele também fazia coisas daquela magnitude.

– Sim – respondeu Piper, olhando por cima do ombro para Nico, e sorrindo gentilmente. – Aquele Leo.

– Mas... – começou Nico, mas foi interrompido quando os dois pararam em sua frente e fizeram sinal para que o garoto se aproximasse. Nico hesitou por um momento, mas após uma respiração funda, deu um passo a frente, cheio de coragem.

Quando Nico se pôs ao lado de Jason, estava vendo um garoto jovem e alto como o próprio Jason, parado no canto da sela, sentado no chão com as costas recostadas na parede de vidro da cela. Ele tinha a cabeça colocada entre as pernas que estavam coladas peito, e os braços apoiados nos joelhos, as mãos que pendiam no ar, imóveis e pálidas. Seus cabelos eram brancos como a mais alva neve, e escorriam lisos e longos até suas costelas, um pouco acima de sua cintura.

– Nico, este que você vê, é o Filho de Thanatos – explicou Jason, com o cenho franzido. – Nós o chamamos assim porque é assim que ele se chama.

– Ele não tem um nome? – perguntou Nico, olhando com pena para o garoto encolhido. De alguma forma, aquele garoto parecia com ele: assustado e confuso. Estaria ele de alguma forma preso contra a sua vontade?

– Ele diz não se lembrar do próprio nome – explicou Piper, trocando o peso do corpo de um pé para outro, pela terceira vez desde que entraram ali. Nico notou, olhando para Jason e para Piper, que os dois pareciam inquietos, mas Nico não sabia o porquê.

– Como alguém pode não se lembrar do próprio nome? Você deve estar se perguntando – sussurrou o garoto encolhido em sua frente, e sua voz era áspera como pedra raspando em pedra, e com essa simples frase, Nico sentiu como se um dedo frio estivesse deslizando desde sua nuca, arrepiando o por completo, fazendo seu cérebro gritar para que ele saísse dali o mais rápido possível. Ele ergueu o rosto, e fitava Nico com olhos de íris vermelhas como o mais rubro sangue; suas sobrancelhas, assim como seus cílios, eram brancos. O garoto parecia um fantasma. – Eu vou te explicar, Herdeiro de Hades... Eu já vivi tanto tempo sem ninguém nunca mais pronunciar meu nome por medo e temor, que eu até mesmo esqueci.

– Por quanto tempo? – perguntou Nico, se agachando na frente do albino.

– Mais do que você poderia contar – ele disse, tocando os olhos com os dedos. – Esses olhos já viram cenas que vocês apenas leem em livros – ele deslizou os dedos até tocar os lábios finos e avermelhados. – E esses lábios já roubaram tantas vidas do que eu posso me lembrar.

– Conte a ele sobre sua Habilidade – pediu Jason.

– Minha maldição, você quer dizer – corrigiu o garoto albino.

– Que seja, apenas conte.

– Sim, Capitão – ele assentiu com a cabeça. – Eu sou, como vocês chamariam, de um Herdeiro de Thanatos, o Deus grego da Morte, e tenho a Voz da Morte.

– Voz da Morte – repetiu Nico, se sentindo curioso.

– Exatamente. Assim como você, que pode ceifar a vida de qualquer um com apenas um simples e frio toque, eu posso matar alguém com apenas uma simples palavra, desde que a pessoa esteja olhando em meus olhos.

– E qual seria essa palavra? – perguntou Nico, olhando no fundo dos olhos do albino, que pareciam duas poças escuras de sangue.

– Creio não poder pronunciá-la, para o meu e o seu bem – ele rebateu, afastando uma longa mexa branca que lhe caiu sobre os olhos com os dedos pálidos.

– Eu não entendi...

– É um Efeito Colateral, Nico – explicou Jason, tocando os ombros do garoto, e apertando levemente o tecido de sua camiseta.

Ele está nervoso, refletiu Nico, sentindo a mão de Jason tremer em seu ombro.

– Exatamente isso, Capitão. Se eu pronunciar a palavra que ceifa mais uma única vez, creio que eu mesmo morreria. Assim como você, pequena princesa – ele disse, apontando o indicador na direção de Piper, que recuou um passo instintivamente. – Sua habilidade, se usada em excesso, poderá causar a destruição de suas cordas vocais, e assim você nunca mais poderá falar. E você, Capitão...

– Eu sei – cortou-o Jason com um movimento de mão. – Se eu usar muito minhas habilidades, meu coração irá parar de bater, ou seja, eu morrerei.

– O que? – perguntou Nico, se levantando e encarando Jason com os olhos arregalados. – Você nunca me disse isso.

– Eu tinha esquecido – ele disse, desviando o olhar para o garoto albino. – Desculpe.

– E você, Herdeiro de Hades – dessa vez ele não apontou nenhum dedo para Nico, apenas o olhou sem expressão, e fechou os olhos. – Acho que você já sabe, depois de tudo que ouviu.

Nico assentiu levemente com a cabeça. Pensando pela lógica de sua habilidade, que é algo que faz o coração parar, ele teria uma morte um pouco parecida com a de Jason. E Nico, se esse fosse um destino a se aceitar para que ele pudesse destruir a Corporação Tártaro e a Organização Atlas por completo...

– Eu aceito o meu destino – disse Nico, olhando no fundo dos olhos vermelhos do Filho de Thanatos.

– Você tem determinação garoto, isso eu vejo. Mas será que você tem a força? – ele perguntou, analisando-o com os olhos vermelhos.

Nico não conseguiu responder isso.

Fraco. Sim, era isso que ele era. Um fraco e inútil. Mas ele tinha que se tornar forte, isso não era uma opção. Ou Nico se tornava forte, ou ele morreria nas mãos das pessoas que eram realmente forte.

– Isso é o suficiente – disse Jason, tocando os ombros do garoto. – Vamos, estou cansado; e precisamos de um banho.

Nico assentiu, e olhando para o garoto albino, perguntou uma última coisa.

– Por que você está preso?

– Eu aceitei o meu destino. – foi o que ele respondeu. E depois voltou a afundar o rosto entre as pernas e mergulhar no silêncio.

Nico virou as costas, e com Jason e Piper ao lado, andou até a saída, onde as portas duplas de vidro estavam recolhidas.

– Toda essa conversa sobre destino e Efeito Colateral me deixou cansada – disse Piper, parando na frente de Nico e de Jason. – Foi um prazer te conhecer, Nico – e lhe abraçou gentilmente, beijando de leve sua bochecha. – Até mais, Jason.

Até que ela é legal, pensou Nico, vendo a silhueta de Piper se afastar em direção ao mar de tendas multicoloridas.

– Nico, eu tenho de me encontrar com a Reyna – disse Jason, com tom de voz baixo, fitando as luzes que brilhavam com intensidade no teto. – Por que você não vai visitar a Bianca? Ela fica na tenda da Thalia, é a única tenda cinza daqui, então boa sorte.

Jason começou a andar na direção das tendas, com as mãos nos bolsos, e olhou sobre os ombros na direção de Nico, sorrindo e acenando, e ele retribuiu antes de sair à procura de uma única tenda cinza em meio àquele arco-íris de cores.

– Bianca? – perguntou a garota de roupas de couro. Ela se vestia como uma punk, de cabelos negros espetados e olhos com sombras pretas, que realçavam seus olhos azuis elétricos. Na entrada de sua tenda estava apoiada uma grande lança com a ponta laminada extremamente afiada. – Ela saiu pra superfície agora a pouco, acho que foi tomar um pouco de ar fresco.

– Ah, sim. Obrigado – agradeceu Nico com um aceno de cabeça antes de virar as costas.

A tenda de Thalia era bem próxima do grande portão de aço que era a entrada da Fortaleza, de forma que apenas alguns segundos depois, Nico estava parado em frente ao grande portão de aço escuro e fosco que era a única entrada e saída do esconderijo subterrâneo dos Hospedeiros Rebeldes.

– Como se abre isso? – Nico se perguntou, perdido em meio ao monte de mecanismos que o compunham.

– É simples – disse uma voz atrás de Nico, e quando ele se virou, estava fitando os olhos cinzentos de Annabeth, onde olheiras fundas e escuras davam-lhe uma aparência cadavérica, assim como sua pele que estava um pouco sem cor e vida, como o brilho de seus olhos. – É só apertar esse botão e pedir pro Leo abrir pra você – ela explicou, apertando um botão branco ao lado do portão.

– Quem é agora? – perguntou a voz metálica de Leo através do interfone.

– Sou eu Leo. Annabeth – ela olhou para Nico ao seu lado, e esboçou um leve e forçado sorriso. – E o Nico também.

– Vocês querem sair pra que?

– Eu quero tomar um pouco de ar, e acho que o Nico quer conversar com a Bianca – explicou Annabeth, ainda com o sorriso forçado no rosto.

Ela estava cansada, isso era algo visível; mas não apenas fisicamente. Ela parecia aquelas pessoas que estavam prestes a desistir de tudo.

– Tá, certo. Só não demorem muito lá fora – a porta produziu um silvo longo e grave, se abriu lentamente, revelando a extensa escadaria que subia metros e metros até a superfície. – e voltem antes de anoitecer por completo, se não vou mandar o Jason atrás de vocês.

– Sim, Leo – disse Annabeth, passando pela entrada e parando no primeiro degrau, onde olhou para Nico com os olhos cansados e o chamou com um aceno de mão.

Nico não hesitou em segui-la. Ela estava mal, e era culpa de Nico.

Começaram a subir os degraus lentamente, com os passos de ambos a ecoar no silêncio, e quanto mais se aproximavam, um som era ouvido vindo da superfície, e quando chegaram ao fim da escadaria, Annabeth tocou um botão circular verde e a tampa de concreto deslizou sobre suas cabeças, se encaixando onde era a lareira – a falsa lareira -, e as gotas fortes e frias da chuva que caía lhe molharam o rosto; mas a sensação era boa. Nico e Annabeth subiram para o amplo espaço vazio do salão da antiga mansão que antes existia ali, onde seu perímetro era rodeado de pedaços caídos de paredes, e viu a mancha alaranjada que pintava o céu do horizonte. O sol estava se pondo.

Nico deu um passo para a frente, e um graveto estalou em seus pés, e seus olhos foram atraídos pelo som do graveto se partindo... mas o que ele viu não era um graveto.

Todo o chão de mármore estava coberto por ossos pequenos e finos, amarelados e quebradiços devido à ação do tempo e a exposição natural, e o que Nico antes pensara serem folhas secas de árvores – ele agora percebia que não havia árvore alguma nas proximidades dos restos da mansão – eram folhas brancas e outras amareladas de páginas, com pontas queimadas, cobertas e rodeadas de cinzas. Pareciam ser folhas arrancadas de vários livros, que foram espalhadas pelo chão e queimadas... Mas pelo que? O que houve aqui? Quando o garoto se virou para perguntar exatamente isso para Annabeth, viu em seu olhar uma expressão de repugnância e ódio, e perdeu a fala.

– Eu sempre sinto algo ruim quando venho aqui – ela explicou, e continuou a andar, na direção oposta do grande portão de entrada, na direção da mata cerrada que se erguia de todos os lados, cercando a fortaleza de verde e desconhecido, e Nico a seguiu.

Andaram por alguns minutos floresta adentro, até que quando Nico olhava para trás, não via mais o caminho que por outrora passara.

– Onde estamos indo? – perguntou Nico, se sentindo assustado. A voz em sua mente parecia estar voltando a despertar, mas por hora ainda parecia mais um sussurro distante e inaudível.

– Para o lago em que Bianca gosta de ficar e ver o pôr-do-sol – ela explicou, desviando de um tronco caído. – Ela faz isso sempre, é uma forma de...

Um som distante e cada vez mais alto era ouvido. Era um som de silvo, como quando uma pessoa liga um maçarico...

Não... Isso é o som de uma turbina.

Os picos das árvores ao redor começaram a farfalhar e a se mexer, e um som extremamente alto abafou qualquer outro som ao redor, e quando Nico olhou para cima, viu duas naves enormes passando metros acima dos picos das árvores com grande velocidade; eram enormes e totalmente brancas, de aparência e design futurístico.

Nico pensou em voltar correndo e fazer algo, mas um grito agudo e estridente ecoou pela floresta, vindo não de muito longe, e uma sensação estranha e nunca antes sentida pelo garoto queimava em sua interior, gritante e desesperada. A voz ficava cada vez mais alta, e também desesperada, parecendo gritar coisas sem nexo. Annabeth também gritava:

– É Bianca – ela berrava a plenos pulmões, para ser ouvida acima do som ensurdecedor das naves que voavam acima das árvores. – Ela está em perigo, temos que ajudá-la! Vamos!

E ela correu por entre as árvores e pelos arbustos e matagais, aquela confusão de verde onde a garota se destacava com sua camiseta alaranjada, e saiu por uma abertura entre as árvores, onde o som dos respingos da água da chuva em água parada era ouvido nitidamente, e Nico acelerou a corrida, pulando um tronco que estava caído pelo caminho e quase afundando a perna num buraco, e quando chegou ao outro lado, com Annabeth à alguns metros a sua frente, estática e sem reação, ficou confuso e olhou ao redor, procurando por sua irmã com os olhos desesperados, quando a voz gritou em sua mente: VOCÊ VAI MORRER!

Então seus olhos encontraram o que os olhos de Annabeth também estavam vendo.

Ali, em pé, segurando Bianca fortemente pelo pescoço, com os dedos da mão direita afundados na pele dela, estava Percy Jackson, que olhava para os olhos de Bianca com os seus olhos verde-mar arregalados, e com um sorriso insano nos lábios. Havia uma flecha que trespassava sua barriga, onde o sangue escorria em nódoas vermelhas, e saindo por suas costas a ponta metálica da flecha estava envolta em sangue; e havia outra flecha alojada em seu ombro direito, mas ele parecia não ligar.

Nico abaixou os olhos, vendo o arco de Bianca no chão, afundando na rasa superfície da água daquele lago, e suas pernas suspensas a bons centímetros do chão, balançando e chutando em movimentos vãos.

Percy agarrou a haste de madeira da flecha em sua barriga, e a puxou com força, e a ponta metálica voltou com fragmentos sangrentos da carne dele. Percy soltou a flecha, que afundou na água rasa, manchando-a com sangue, o mesmo sangue escuro que escorria pela ferida provocada pela flecha, onde o líquido rubro e a água da chuva se misturavam.

– Você acha que isso pode me matar? – ele perguntou para Bianca, que lutava para manter os olhos abertos e a mente consciente. – Isso sim pode matar.

Ele fez um movimento com a mão, colocando a para trás e abrindo a palma, e da superfície do lago raso, se ergueu uma forma envolta em água semelhante a uma cobra...

Não. Era a própria água, que tomava a forma cilíndrica e fina, se achatando até tomar a forma de uma grande lâmina; e novamente a mão de Percy se moveu, e dessa vez com velocidade, passando na frente da barriga de Bianca. E Nico conseguiu apenas soltar um grito de desespero e impotência quando viu o borrão transparente que era a água subir em arco e imitar o movimento feito pela mão de Percy, cortando o tecido da roupa, pele e carne como uma lâmina, criando com facilidade e maestria um grande e profundo talho rubro e horizontal centímetros acima da virilha de sua irmã, com um som pressurizado de ar sendo cortado onde o sangue verteu forte e intenso quase no mesmo instante.

Notas finais
Eita... Desculpem-me por isso, sério... Vou agradecer aqui, por todos que estão acompanhado essa fic, principalmente aos leitores que não comentam, não importando o motivo, ainda continuo amando vocês :v Ao Rin Tskiyomi Di Angelo, pela recomendação que me fez chorar, de verdade :3 Também à SomeKilljoy, pela também bela e não menos importante recomendação, e aos comentaristas também >3