Touch
8 No Time To Bleed
Notas iniciais
As entranhas sangrentas de Bianca caíram do profundo corte aberto em sua virilha diretamente na superfície transparente da água rasa abaixo de seu corpo suspenso, manchando a superfície límpida com nuvens tênues em tons de vermelho onde os pés de Percy estavam parcialmente mergulhados.
Nico tinha os olhos arregalados postos no rosto contorcido de dor de sua querida irmã, onde o sangue escapava pelo canto direito de seus lábios num filete solitário e rubro.
– Olá, Nico – disse Percy, desviando o olhar até encontrar os olhos negros de Nico, onde o desespero estava estampado juntamente com a descrença, onde ambos estavam transformando-se rapidamente numa grande confusão de pensamentos e sentimentos. – Estávamos esperando por você.
Nico não acreditava na cena que se desenrolava a sua frente.
Parecia que o mundo havia congelado ao seu redor, e tudo que ele visse fosse Percy alguns metros a sua frente, segurando o corpo semimorto de sua irmã.
Nico queria poder gritar e chorar, mas parecia que ele havia também sido transformado num imenso e maciço bloco de gelo.
– Por quê? – ele balbuciou, fitando os olhos verde-mar de Percy enquanto se aproximava em passos lentos e vagarosos.
– Por quê? – repetiu Percy, parecendo confuso com a pergunta. – Acho que a resposta é um tanto obvia, não?
Percy olhou para Bianca a sua frente e sussurrou algo para ela, e seja lá o que fosse que ele tivesse dito, fez com que seus olhos baços e quase sem brilho e vida se arregalassem, e em seu rosto contorcido de dor, uma expressão de desespero se formasse; mas ela nada conseguiu fazer em relação a isso quando Percy a arremessara com força na direção de uma grande árvore que crescia na margem do raso lago, fazendo-a bater com força no grosso caule com as costas e despencar pesadamente no chão, incapaz de se mover.
– Bianca! – gritou Nico, querendo correr na direção de sua irmã, mas não conseguindo mover um músculo sequer.
Seu coração gritava em altos prantos para socorrer sua querida irmã, não importando o que isso pudesse acarretar... Mas o seu lado racional, o despertado no primeiro dia de treinamento com Jason, gritava totalmente o oposto: ele dizia que se Nico movesse um músculo sem pensar antes, sua cabeça poderia rolar com tanta facilidade quanto o talho fora feito na barriga de Bianca.
A chuva açoitava com força o corpo esquálido de Nico onde sua pele pálida estava exposta, se assemelhando a finos e frios alfinetes que pareciam querer penetrar o tecido fino de sua pele. O sol começava a se pôr no horizonte distante. Uma gota solitária e fria escorreu pelo rosto de Nico, fazendo a água da chuva se misturar com suas lágrimas salgadas e doloridas que vertiam por seus olhos abertos, sem ele se dar conta.
Nico ouviu atrás de si uma respiração áspera e fraca, e se lembrou de que Annabeth estava atrás de si — que o acompanhara até ali. Que estava em perigo assim como ele. Ele virou o pescoço na direção da garota, que tinha o olhar fixo e pasmo em Percy, coberto de sangue e encharcado com a água da chuva.
Ela deve estar tão pasma quanto eu, Nico pensou, se aproximando dela rapidamente e se colocando diante de sua linha de visão, impedindo-a de continuar mergulhada em seu interminável turbilhão de pensamentos confusos.
Assim como os que passavam por sua cabeça.
– Annabeth – gritou Nico, com os olhos fixos nos da garota confusa, tentando retirá-la do transe ao qual ela se submetera mesmo que inconscientemente. -, olha pra mim! Olha pra mim! – insistiu ele com intensidade, atropelando as letras na pronuncia, tomado pelo total desespero. – Nós temos que sair daqui. Agora. – ele disse, quando ela o olhou de relance com o rosto aparentando confusão.
– Sair? – ela repetiu, franzindo o cenho. – Por quê?
– Por quê? – repetiu Nico, e uma voz em sua mente, àquela a qual o garoto buscou conforto no corpo quente e acolhedor de Jason para que ela parasse de infernizar a sua mente, também repetiu, com sua voz esganiçada e repleta de insanidade. – Eu... Eu não sei. Mas temos que sair daqui. Estamos em perigo.
– Nico – disse Percy, ao longe, com o som de seus passos que chapinhavam sobre a água a se aproximar das costas de Nico, fazendo o garoto girar o corpo num reflexo impulsivo, enquanto incitava Annabeth a se afastar, empurrando-a levemente com a mão esquerda. -, você não sabe o quanto me machuca dizendo isso – ele continuou, se aproximando a passos lentos e vagarosos. — Desde quando eu sou um perigo para você?
É Nico, ecoou a voz em sua mente, desde quando? Você não o amava... Ou melhor: você ainda não o ama, em alguma parte no fundo do seu coração? Quando esse amor se transformou em ódio, Nico?
– Cala a boca – murmurou o garoto para si mesmo, pressionando a têmpora direita com a mão enluvada, enquanto seus olhos escuros fitavam Percy à apenas 15 metros a sua frente. – Você... Você não é o Percy. O Percy de verdade está...
–... Morto? – completou o moreno, dando outro passo leve dentro da água, se aproximando cada vez mais da margem, onde um Nico impotente o esperava. – Bem, para dizer a verdade, eu morri, isso é certo; mas eu não continuei morto, como você pode ver.
Nico não entendia o que ele dizia. Como uma pessoa pode morrer e depois voltar a vida? O garoto apenas continuava a observar aquela pessoa que dizia ser Percy falar como o próprio e ter as feições exatamente iguais às dele.
– Vou explicar, porque acho que temos tempo o suficiente para isso – ele disse, notando o olhar confuso no rosto do garoto. – Como você soube, eu sou um Herdeiro de Poseidon, mas não sou como você, que possui um Toque. Tenho apenas as minhas habilidades de Herdeiro, as quais eu treinei com muito afinco quando soube que era uma das poucas pessoas que não foram “abençoadas” com o Toque. E, uma dessas habilidades que eu descobri que tinha, e admito que foi muito recentemente, é um tipo de regeneração que ocorre comigo quando entro em contato com a água. – ele gesticulou com as mãos o lago ao redor e a chuva que caía sobre suas cabeças. – Vou lhe mostrar.
O moreno – que Nico se recusava com todas as suas forças restantes acreditar que fosse aquele Percy – estendeu a mão esquerda na frente do corpo e levantou a palma para cima, em concha, fazendo as constantes gotas tamborilarem em sua pele e se acumular em sua mão; em seguida, ele recolheu a mão e, com o indicador da mão direita, indicou o ferimento em sua barriga, na área do externo, onde o sangue escorria intensamente, encharcando sua roupa com o liquido rubro, e jogou ali a água que acumulara na mão esquerda.
Por um instante, nada acontecera, mas, quando Nico estreitou os olhos para ver mais nitidamente, seus olhos se esbugalharam e sua mente dizia repetitivamente que o que ele via era impossível — que era fruto de sua mente e nada mais. Mas ele bem sabia que não era: ali, onde antes estava uma flecha de ponta de aço afiadíssimo que trespassou por completo seu corpo, deixando para trás um buraco negro de sangue e carne dilacerada, não havia absolutamente nada. Nem sequer uma mancha esbranquiçada que representasse uma antiga cicatriz. Estava tão lisa e intacta quanto uma pele nova.
– Esplêndido, não? – perguntou o moreno, levantando o rosto para a chuva, e soltando um riso insano que ecoou pelas árvores que os cercavam. Ele agarrou a flecha que ainda estava alojada em seu ombro e a arrancou num único movimento, jogando-a para longe enquanto as gotas gordas da chuva lhe curavam o ferimento. – Com isso – prosseguiu ele, se aproximando de Nico com seus olhos verde-mar brilhando de excitação, com um sorriso enorme no rosto e os olhos esbugalhados. – eu sou imortal!
Foi aí que Nico soube, com o coração pesando dentro de si como um bloco de concreto. Se essa pessoa que estava agora em sua frente fosse realmente o Percy que ele conhecera, ele havia perdido a guerra contra si mesmo.
Estava quebrado pela insanidade.
– E também – ele tornou a dizer, estendendo novamente a mão esquerda na frente de si, desta vez com a palma voltada para baixo. – aprendi isso, já faz um tempo.
Nico observava com apreensão a mão estendida de Percy, esperando algum tipo de ataque como os que Jason usava, e não notou que a superfície da água exatamente abaixo da mão do moreno tremulava quase que imperceptivelmente, intensificando suas ondulações numa velocidade consideravelmente rápida, e alguns instantes depois, uma forma esférica envolta em água – esta que respingava novamente na água do lago – se erguia acima da própria água em direção à mão aberta de Percy, com suas formas se tornando mais lisas e esféricas a cada centímetro; mas foi quando enfim a esfera azul envolta em água parou acima da mão do moreno foi que Nico percebeu algo crucial: era a própria água aquilo que pairava acima da palma do moreno. Nico engoliu em seco a saliva que se acumulara em sua garganta.
– Incrível, não? – disse Percy, olhando de forma hipnotizada a esfera de água pairando inofensivamente acima de sua mão. – Posso moldar a água da forma que eu quiser, sem nem precisar tocá-la. Mas, infelizmente, não posso mudar suas propriedades, como por exemplo: deixá-la mais maciça que aço, ou mais pesada que uma rocha – ele explicava, com o olhar e a atenção totalmente voltados para a esfera de água, com seu tom de voz calmo e baixo, e por um momento Nico foi tomado por uma imensa onda de calmaria, com uma leve centelha de esperança de que, afinal, o Percy que ele conhecera — o Percy que o salvara do interior macabro da Corporação Tártaro — ainda pudesse estar vivo ali, em alguma parte inconsciente daquele corpo. – Mas foi só agora – ele continuou, ainda olhando fixamente a esfera de um azul límpido, quase transparente. -, que eu percebi qual a melhor forma de usá-la.
A esfera de água começou a se afunilar e a se estender, se achatando rapidamente acima da mão de Percy, até que uma longa e fina lança de água pairava a frente do moreno, que havia recolhido a mão novamente para junto do corpo, e agora lançava um olhar frio e duro na direção de Nico e Annabeth.
Nico viu um borrão sem cor cortar o ar com um silvo agudo e quase inaudível, e em seguida o sangue jorrou por seus lábios, rubro e denso. O garoto, com os olhos esbugalhados, olhou para baixo, e viu, em seu peito, um grande buraco vermelho que sangrava com absurda intensidade a cascata rubra que era o seu sangue, exatamente onde era o seu coração. Ele podia jurar que poderia ver o que tinha atrás de si através desse buraco, e que, muito provavelmente, Annabeth teria tido o mesmo fim que ele, já que estava parada exatamente atrás de si, tão imóvel quanto uma pedra. Agora ele tinha, literalmente, um buraco negro onde antes estava seu coração.
Novamente, o silvo agudo de ar sendo cortado, foi-se ouvido, e, desta vez, Nico não pensou: empurrou com força Annabeth para o chão, juntamente de si, e o borrão sem cor passou por cima de suas cabeças numa velocidade estupenda, e Nico, com o rosto quase encostado nas pedras úmidas próximas à margem do lado, viu com o canto dos olhos o borrão sem cor cortar o ar e acertar o grosso tronco de um imenso pinheiro a metros de onde os dois estavam, criando um buraco relativamente grande na superfície dura da madeira.
A risada insana de Percy ecoou novamente pelo espaço aberto onde estavam, e Nico se levantou rapidamente quando sentiu que o perigo havia passado. Lembrando-se do buraco feito em seu peito, olhou para baixo, esperando ver a cascata rubra de sangue, mas vendo realmente apenas o tecido escuro de sua camiseta encharcada de água, se espantou.
– O que foi isso? – o garoto se perguntou, tocando o local onde a lança de água o havia trespassado. Uma premonição ou algo do tipo?, ele pensou, apertando com força o tecido da camiseta nos dedos, tentando acalmar o coração que ameaçava quebrar suas costelas.
– Mas que sorte a sua, Nico – o moreno disse, com a lança de água pairando ameaçadoramente ao lado de sua cabeça. -, sentir meu desejo assassino a tempo salvou sua vida. – Annabeth se ajoelhou atrás de Nico, apertando com força as pequenas e úmidas pedras entre os dedos. – Ah, e a dela também. Olá Annabeth, eu não a tinha visto aí.
– Percy – chamou Nico em voz alta, tirando a atenção do moreno de Annabeth. Se ele continuasse a falar com ela, ela seria a próxima a ter a sanidade ceifada tão prematuramente. – Por que você está fazendo isso? Por que você está tentando nos matar?
O moreno hesitou, e seu rosto se transformou numa máscara onde Nico não conseguia ler o que se passava atrás, mas logo em seguida o imenso sorriso insano se formou ali novamente. Percy colocou a mão direita sobre a têmpora, com os cabelos finos apertados entre os dedos, e disse numa voz tão baixa quanto um sussurro:
– Eu disse antes, não? E resposta é obvia. Eu estou fazendo isso porque amo vocês. Eu quero matá-los porque amo vocês! – ele agora gritava, com os olhos esbugalhados e o sorriso insano no rosto. – Não é normal querer fazer a dor de quem amamos parar? E qual é a melhor forma de fazer isso, senão matando esse alguém que tanto amamos?
– Você está louco... – murmurou Annabeth atrás de Nico, se levantando aos poucos, com as pernas tremendo. Nico olhou para ela, vendo seus olhos marejados de lágrimas que escorriam constantes de seus olhos.
– Não. Eu não estou louco – ele sussurrou, deixando a mão que apertava a têmpora cair ao lado do corpo, fitando a superfície semitransparente da água abaixo de si. – Estou simplesmente iluminado. Iluminado pelo entendimento que vocês, cegos pela inocência e pela falsa esperança de que um mundo melhor poderá ser criado, não conseguem ver. Ou melhor: não querem ver. Não existe esperança num mundo como esse, Annabeth, você, melhor do que ninguém deveria saber disso! Não existe final feliz. Só existe dor, sofrimento e morte. Eu só quero ajudá-los; ajudar a todos – ele dizia, com o tom de voz como um grito esganiçado, os olhos arregalados como os de um animal louco, a mão gesticulando freneticamente algo que apenas ele entendia. – Quero privá-los da dor e do sofrimento, e para isso, vocês só precisam abraçar a morte!
A mão esquerda de Percy fez um movimento rápido na diagonal, e Nico, por puro instinto, se jogou para a esquerda, e Annabeth, agora recuperada, se jogou para a direita no exato momento em que a outrora lança de água, agora transformando numa extensa e perigosa lâmina, cortou o chão onde eles antes estavam, criando um talho úmido no solo pedregoso.
Nico levantou tão rápido quanto se jogou, olhando para Annabeth, ao que ela assentiu com um leve maneio de cabeça. Seu rosto molhado de lágrimas agora estava manchado com a poeira da terra. De alguma forma, essa aparência a deixava menos frágil e mais ameaçadora. Isso era bom. Nico gostava mais da Annabeth ameaçadora, pois a frágil era... Bem, frágil.
Ela indicou a direção em que Bianca havia sido arremessada para Nico, e o garoto assentiu feliz por uma brecha para poder socorrer sua irmã, mas ao mesmo tempo preocupado com o que poderia acontecer à loira, e isso o fez hesitar, enquanto Nico fitava os olhos cinzentos dela com medo e confusão, ao que o dela era duro e decidido, como se parecendo dizer: você está duvidando de mim? Eu sou Annabeth, a estrategista da Fortaleza, lembra? Vou ficar bem. Nico então assentiu e correu na direção oposto a onde estava, quase exatamente na direção de Percy, com Annabeth ao seu lado, retirando a adaga da cintura.
– Vocês finalmente correm na direção da morte? – Percy perguntou, deslizando o pé esquerdo para trás, enquanto sua mão direita descrevia uma linha horizontal a sua frente. É isso, Nico pensou, quando entendeu a forma como a habilidade de Percy parecia funcionar. Ele olhou para Annabeth pelo canto dos olhos, e ela novamente assentiu, também aparentando ter captado o sinal. – Já não era sem tempo! – ele gritou, quando do chão se levantou algumas formas que rapidamente se juntaram numa grande e fina lâmina d’água que foi arremessada na direção deles.
– Não, Percy! – Annabeth gritou, passando a adaga de uma mão para outra enquanto se abaixava, assim como Nico fez, e a lâmina passava com um silvo agudo acima de suas cabeças. – Nós não vamos morrer tão cedo!
Nico e Annabeth estavam agora a menos de três metros de Percy, e se aproximando rapidamente, um do lado do outro.
– O quê? – exclamou ele, estupefato. – Argh! MORRAM LOGO!
Mas eles não tinham a intenção de realizar o desejo dele tão cedo. Antes que ele pudesse fazer algum movimento mortal com as mãos, Annabeth se jogou em sua direção, deslizando a lâmina fria com força abaixo da axila do braço esquerdo dele, fazendo um fundo e longo talho, impedindo temporariamente o moreno de mover um dos braços. Mas apenas um não era o suficiente, eles bem sabiam disso. Annabeth jogou a adaga na direção de Nico, que a apanhou em pleno ar enquanto também se jogava na direção de um Percy sem reação, deslizando o metal abaixo da axila do braço direito dele, que estava levantando num impulso de defesa própria, priorizada na defesa do rosto. Ele soltou um grito de dor, que logo se tornou num de raiva.
– Vá! – gritou Annabeth para Nico, quando ele jogou a adaga novamente para a loira. Nico não precisou que ela repetisse. Olhou para trás, vendo Percy com os braços caídos ao lado do corpo, temporariamente inutilizados, urrando de dor e raiva, enquanto avançava na direção de Annabeth com os olhos brilhando de ódio.
Faça o que tenha que fazer Nico, o garoto pensou consigo mesmo, voltando o olhar para frente e avançando sobre a água, avistando de longe o corpo de sua irmã, estirado no chão, com as costas para cima e uma poça de sangue se formando abaixo de si.
– Bianca! – o garoto gritou, aumentando o ritmo das passadas que a água retardava.
***
Annabeth andava para trás a cada passo que Percy dava em sua direção.
Sentia o coração doer a cada corte que sua adaga fazia em sua pele, e lutava contra o impulso de chorar quando via o sangue jorrar por cada ferida que sua lâmina provocava.
– Como você pode ferir alguém que te ama e que você ama? – Percy perguntou, estendendo a mão com velocidade na direção da garganta de Annabeth.
Era realmente uma complicação ter de enfrentar um oponente que tem uma regeneração devido à água no meio da chuva. Quando ela fazia um ataque efetivo, causando um dano considerável ao corpo de Percy, as gotas da chuva caíam sobre o ferimento, curando-o por completo. Mas ela não iria desistir.
– Você não é o Percy que eu amo – Annabeth retrucou, desviando dos dedos grossos da mão do moreno, e cortando a parte superior de seu braço num rápido golpe em arco ascendente. A mão que segurava a adaga já estava manchada com o sangue de Percy, e isso a dilacerava por dentro, e ao mesmo tempo lhe dava as forças que precisava para fazê-lo. – O Percy que eu amo nunca faria uma coisa dessas. Nunca pensaria assim e nunca machucaria as pessoas que lhe são importantes – ela deslizou a lâmina por suas costelas, ajoelhando-se no chão e passando por baixo das pernas do moreno num rápido rolamento, se colocando de pé logo em seguida. – O Percy que eu amo está morto, e você é só algo que está manipulando o corpo dele como se fosse uma marionete. Sendo assim... – ela começou, fechando os olhos enquanto levantava a adaga acima da cabeça, segurando em seu cabo de madeira com as duas mãos, apertando com força os dedos em volta do cabo frio, e logo em seguida descendo num golpe certeiro a ponta da lâmina no topo do crânio de Percy, afundando quase por completo o metal em carne e atravessando o osso. O corpo dele estremeceu, e Annabeth retirou a lâmina envolta em sangue do crânio do moreno enquanto seu corpo sem vida despencava com o rosto na água rasa do lago. Limpando a lâmina no tecido da camiseta, completou, deixando uma lágrima escapar dos olhos: -... Eu só preciso matá-lo de novo.
***
Nico apoiou a cabeça de Bianca em seu colo, enquanto a colava contra si, tentando de alguma forma passar o calor de seu corpo para o da sua irmã, que estava tão frio e pálido como o seu próprio — antes de tudo.
– Bianca, fique comigo – Nico dizia, com as mãos no rosto da irmã e a testa colada na dela, com os olhos fechados, a mente totalmente mergulhada no desespero que era perder uma pessoa querida. Outra. – Não me deixe sozinho, por favor. Não... Não morra.
Ela tossiu, e Nico abriu os olhos, vendo que os dela estavam um pouco abertos — apenas o suficiente para indicar que ela ainda estava viva. Ela tentou dizer algo, mas não conseguiu, e com outra tosse, sangue escapou por seus lábios, e algumas gotículas do liquido rubro espirraram no rosto de Nico, que nada podia fazer para salvar sua irmã. Assim como nada pôde fazer para salvar sua mãe, ou impedir que Percy morresse por suas mãos. Outra vez Nico se sentia impotente. Ele tinha a morte na palma das mãos, mas ao mesmo tempo era algo distante que ele não poderia evitar ou controlar.
– Nico... – ela balbuciou, e Nico, se não estivesse com o rosto colado no dela, não a teria ouvido, o quão baixo havia sido sua voz. Era rouca e áspera, e cada palavra era um segundo a menos do tempo que ela poderia viver.
– Shh... – ele pediu, colocando o dedo na frente dos lábios dela, impedindo-a que falasse. Não queria perdê-la, por mais que soubesse que era inevitável e vão lutar contra isso. Então, poderia ao menos adiar, certo? – Não fale. Não precisa falar. Apenas...
Ele interrompeu a frase quando sentiu que ela usava as suas últimas forças que lhe restava para levantar o rosto, e com os lábios manchados de sangue que era expelido de seu interior destruído, ela beijou ternamente os lábios de Nico, tocando-os levemente, mas o suficiente para que ela sentisse o calor dele.
– Nico... – ela novamente balbuciou, e desta vez o garoto a deixou continuar, apertando com força a mão que estava envolta na dela. – Eu vou... me juntar à... mamãe...
– Bianca – Nico conseguiu dizer, antes de cair em lágrimas, deixando os soluços que expressavam sua dor serem libertos enfim. – Eu não pude te proteger, assim como não consegui proteger a mamãe. Eu não consigo proteger nada nem ninguém... Então por que... Por que eu sou tão importante para todos?
– Porque... – ela tossiu, e o sangue escapou por seus lábios, escuro e denso. – porque você tem... o desejo... de... proteger... e isso... isso... te... deixará mais forte... Nico. – Ela fechou os olhos e respirou fundo, e usou o último suspiro que lhe restava para dizer as seguintes palavras: — Te deixo... o meu legado.
E Bianca se silenciou. Seu rosto antes contorcido pela excruciante dor que sentia, foi tomado por uma serenidade tamanha, que parecia que ela dormia; o que de fato ela estava fazendo, porém, desse sono, ela nunca mais iria acordar.
Nico continuou ali, ao lado da irmã, com a chuva a molhar seu corpo frio, e com os olhos vermelhos onde as lágrimas pareciam se recusar de qualquer forma a sair por um tempo que ele não saberia contar.
Nico sempre alimentara o pensamento que sua irmã já estava morta, sem ao menos nunca ter essa certeza; pois ele tinha medo — esse sentimento egoísta que parecia o dominar por completo. Medo de sentir dor, medo de sofrer, medo de ser enganado... Medo de viver. Mas, quando soube que ela estava viva e bem, se apegou a essa felicidade como uma criança faminta se apega ao seio da mãe. Nico vivia, pois tinha alguém para viver com ele, mas agora que ela estava morta, ele desejava também morrer. Desistira de lutar.
Mas quando o grito alto de Annabeth ecoou pelo ambiente aberto em que se encontrava, ele sabia que tinha de viver de alguma forma.
Não poderia deixar outra pessoa morrer por algo que ele havia começado.
Não havia tempo para sangrar em paz, e simplesmente aguardar a morte. Isso era uma guerra.
Após Nico pousar delicadamente a cabeça de sua irmã no chão molhado de chuva, ele se levantou, olhando na direção onde Percy estava com um olhar decidido, amaldiçoando o que iria fazer a seguir, mesmo sabendo que era a única coisa a se fazer num momento como este.
O garoto correu na direção de onde o grito de Annabeth viera, com seus passos chapinhando na superfície da água do lago, que aumentava devido à constante chuva que os cobria.
Com o auxilio dos dedos hábeis da mão esquerda, retirou a luva negra da mão direita, libertando seu Toque da Morte de sua prisão de tecidos, e em seguida fazendo o mesmo com a luva que cobria a mão esquerda, colocando ambas as luvas no bolso de trás da calça.
Chegando até onde pôde avistar Annabeth e Percy, notou que ela havia conseguido levá-lo até a margem, mas agora ele empunhava uma espécie de espada de água, a qual usava para defender os golpes feitos pela garota ou para efetuar os próprios ataques certeiros e rápidos. Ela tinha um corte fundo no braço esquerdo, de forma que usava apenas o braço direito para empunhar a adaga, e mesmo assim não era uma oponente de menor força, pois conseguia fazer Percy, outrora capitão da Fortaleza, recuar alguns passos.
Nico aumentou a velocidade da corrida, fechando as mãos em punho e avançando na direção de Percy que estava com a guarda aberta e sem alternativa: ou ele se concentrava na luta e era atacado por Nico, ou se concentrava em Nico e era atacado por Annabeth.
Ele estava num beco sem saída.
Nico estava a apenas alguns metros de Percy, quando ouviu a voz dele dizer, num sussurro cheio de raiva:
– Não me subestimem...
Ele pulou para trás, para longe do alcance da adaga de Annabeth e levantou a mão direita, na direção do céu agora escuro e para a chuva que caía constante sobre eles, e por um mísero momento, a esperança novamente brilhou na mente de Nico, quando ele pensou que a chuva houvesse enfim acabado, pois as gotas não mais caíam sobre eles, e, quando ele olhou para cima, para o céu escuro de tempestade, a sua esperança se quebrou como uma taça de cristal arremessada com força ao chão: as gotas de chuva ainda caíam, mas, quando se aproximavam do local onde os três estavam, no amplo local aberto que se localizava o lago de águas rasas, metros acima deles, as gotas simplesmente paravam, como se não mais existisse gravidade, e pairavam no céu sobre suas cabeças. Com um movimento da mão de Percy, todas as gotas que interromperam seu trajeto normal até o chão, ficando estagnadas no ar, se afunilaram e se afiaram até tomarem a forma semelhante a milhares e milhares de agulhas, todas flutuando no ar, apontadas para Nico e Annabeth.
É o fim, foi o último pensamento de Nico, quando viu a mão levantada de Percy se fechar rapidamente num punho, vamos morrer. O garoto fechou os olhos.
Mas, para a sua surpresa, ao invés de sentir a dor de várias lâminas de água a lhe trespassarem penosamente o corpo indefeso, o que ele realmente sentiu foi um calor, como se ele estivesse dentro de um casulo flamejante, e o constante som de vapor, como quando uma quantidade miserável de água é jogada sobre um amontoado de brasas vivas e incandescentes.
Nico lentamente abriu os olhos e viu metros acima de suas cabeças, escondendo por completo o céu do crepúsculo, um véu de chamas vivas que extinguiam por completo todas as gotas de chuva que pairavam como lâminas mortais acima de suas cabeças, dando ao ambiente uma cor de fogo, esta que se refletia com intensidade nas águas límpidas do lago, onde Nico estava, próximo à margem.
– AGORA, NICO! – berrou uma voz ao longe, e Nico sentiu que ela lhe era vagamente familiar, e parecia o mesmo para Annabeth, que procurava ao redor com seus olhos acinzentados. Mas Nico não queria perder essa enorme e única oportunidade procurando o salvador deles. Tinha outras coisas a fazer, notando que Percy olhava para o céu de fogo vivo acima de si, com os olhos arregalados de surpresa e os lábios contorcidos de raiva. – AGORA! – a voz berrou novamente. E Nico correu na direção de Percy, e, quando o garoto estava a cerca de dois metros do moreno e se aproximando, ele se virou para Nico, encontrando os olhos do garoto com suas esferas verdes que brilhavam com uma coloração diferente devido à luz do fogo.
Nico estendeu a mão direita na direção do rosto de Percy enquanto se aproximava, e este, notando o perigo iminente, afastou-se um passo para trás, mordendo com tamanha força os lábios com os caninos que o rasgou, fazendo o sangue escorreu por seu queixo... Mas não pingar até o chão, e sim flutuar diante de seu rosto, e, numa velocidade que Nico jamais poderia ter previsto ou sequer imaginado, se transformar numa lâmina fina e rubra de cerca de trinta centímetros.
Nico sentiu a dor aguda no pulso, onde a lâmina o feriu, mas a ignorou por completo, deixando o braço direito pender ao lado do corpo enquanto estendia a mão esquerda, que agora estava a poucos centímetros do rosto apavorado de Percy — que não tinha tempo para outro ataque. Nico enterrou a mão fria no rosto moreno de Percy, e as veias negras imediatamente afloraram sobre sua pele, alastrando-se rapidamente até o peito, onde o último grito de Percy soou garganta acima, quando enfim foi sufocado pelas veias negras que envolveram seu peito e destruíram seu coração, fazendo-o se calar por completo e seu corpo despencar para trás, sem vida; os olhos verde-mar baços fitando o vazio.
Nico se deixou cair de joelhos no chão pedregoso próximo à margem, sentindo a respiração ofegante subindo com dificuldade pela garganta seca. O céu de fogo vivo se dissipou aos poucos, e a chuva não mais caía sobre suas cabeças. Annabeth correu na direção de Nico, se ajoelhando em sua frente e tomando o rosto do garoto nas mãos.
– Você está bem? – ela perguntava, olhando para a mão direita de Nico, onde o ferimento doía como se agulhas o estivesse cutucando, mas lutava para ignorar o ferimento. A luta ainda não havia acabado por completo. Ele apenas assentiu com a cabeça, vendo Leo correr na direção de ambos com o rosto transbordando preocupação.
– Mas que diabos? – ele perguntou, olhando o corpo inerte de Percy, onde sua bocarra aberta num último e desesperado grito lhe dera uma aparência insana e assustadora. – Ele realmente...
– Leo... – balbuciou Nico, ignorando a dor na mão direita. O ferimento gritava, enviando impulsos nervosos e gritantes ao cérebro de Nico. Parecia ser pior do que o garoto pensara. – Não temos tempo. Ele pode se curar desde que haja água, e estamos rodeados por um lago. Vou te pedir algo absurdo, mas espero que você possa cumprir – ele disse rapidamente, sentindo gotículas de suor se formaram em sua testa. Sua vista estava perdendo o foco aos poucos. Quando Leo assentiu, Nico disse: — Evapore o lago.
O garoto esbugalhou os olhos, mas, notando imediatamente a forma decidida e nem um pouco hesitante com que Annabeth e Nico o olhavam, entenderam que era tudo uma questão de vida ou morte; não só a deles, mas de todos da Fortaleza. Ele assentiu e correu até a margem do lago, onde se ajoelhou e afundou a mão dentro da água.
Pontos negros começavam a dançar diante da vista embaçada de Nico.
Estou perdendo a consciência, ele entendeu, sem encontrar forças para conseguir dizê-lo em voz alta.
O garoto sentiu novamente a pontada de dor não mão direita e sentiu algo quente e úmido a lhe molhar os joelhos, e soube que era o seu ferimento que sangrava, e isto o fez levantar a mão diante do rosto para verificar a veracidade do ferimento na sua mão.
Mas o que ele viu ali, não acreditou que fosse real.
No lugar onde deveria estar sua mão, estava apenas um coto sangrento.
Nico foi dominado pela inconsciência causada pela perda continua de sangue; sua visão escureceu por completo e ele desmaiou.
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