Touch

9 If You Broke


Notas iniciais
So, outro cap enorme pra vocês, seus lindos e pftos que acompanham e comentam essa fic :3 Não escrevo algo melhor porq não dá :v

Leo se levantou da margem de onde antes havia um lago, com o braço fumegando quase por inteiro, onde finas ondas de vapor exalavam de sua pele. Do fundo pedregoso e totalmente seco da depressão do lago também subiam constantes nuvens densas de vapor que espiralavam até o céu, onde as últimas centelhas da luz do sol eram sugadas pelo horizonte, e o véu negro da noite dominava por completo o céu sem estrelas.

O garoto se sentia totalmente esgotado. Nunca antes havia feito tal coisa, como evaporar um lago por completo, e sua respiração ofegante, a visão cansada, e o suor que escorria por todo o seu corpo, indicava que suas energias estavam escassas, e que talvez não pudesse voltar a usar suas habilidades novamente tão cedo quanto esperava.

Leo girou o corpo na direção de Annabeth, que, ajoelhada no chão, sustentava a cabeça de Nico em seu colo. Havia um talho fundo em seu antebraço esquerdo, onde uma tala feita com tiras rasgadas de sua camisa laranja impedia o sangue de fluir sem empecilhos.

– O que... – Leo começou a dizer, preocupado com a forma súbita que o garoto desmaiara, e também devido à expressão de intensa e extrema dor que estava estampada em seu rosto desacordado; mas se interrompeu quando percebeu uma grande quantidade de sangue que se espalhava irregularmente pelo chão de pequenas pedras, seguindo seu fluxo até encontrar um coto sangrento onde deveria estar a mão direita de Nico. – Mas o que...

– Não temos tempo para explicações, Leo – interrompeu Annabeth, olhando para ele com seus olhos tempestuosos cheios de medo. Mas, de que? – Você tem que pegar o Nico e fugir para bem longe daqui.

– Por quê? – o garoto finalmente encontrou uma abertura para perguntar. Não entendia praticamente nada do que estava acontecendo ali, e merecia... Não, ele precisava desesperadamente de uma explicação. – O que está acontecendo, Annie?

– A Guerra, Leo – ela respondeu depois de um momento de silêncio, olhando aflita na direção da Fortaleza, e Leo seguiu seu olhar, e engoliu em seco quando viu, ao longe, um filete solitário e escuro de fumaça subindo quase que imperceptivelmente em contraste ao céu negro do anoitecer. – É a guerra o que está acontecendo.

***

Jason corria por entre as tendas ainda intactas no interior subterrâneo da Fortaleza, com seus passos rápidos e apressados chapinhando no chão lamacento devido à água da chuva que entrou na cratera formada no teto acima de suas cabeças.

Fora tudo tão repentino.

Num momento, estava tudo calmo e normal; e no outro, o chão, as paredes e o teto, tudo começou a tremer como num terremoto, e várias partes do teto de terra, concreto e vigas de ferro da Fortaleza despencaram em direção a terra... Ou melhor, em direção às tendas dos campistas. E em seguida cordas e mais cordas foram jogadas por essas aberturas, e juntamente com a chuva forte e intensa, Vigias Brancos desceram até o chão, e quando tocaram o solo da Fortaleza — que passara seus longos e pacíficos três anos sem nenhum ataque ou infiltração — com seus sapatos brancos, começaram a atirar com suas armas à lasers tudo aquilo e aqueles que se moviam desesperados, sem distinção alguma. E o pânico se instalou por completo.

Um pandemônio.

Alguns campistas pegaram em armas e partiram para defender o único lugar que eles poderiam chamar de lar após a época da Expulsão, e Jason foi um deles.

Bem que ele gostaria de acreditar nisso, porém não era a verdade. O que realmente aconteceu foi algo mais confuso e inesperado do que isso. Jason apanhou uma espada que estava jogada no chão e, com um urro profundo de raiva e instinto protetor, correu na direção onde outros campistas lutavam desesperados contra os Vigias Brancos... Mas alguém o puxou com força pelo ombro, fazendo o loiro perder o equilíbrio e cair no chão lamacento. Ele virou o rosto manchado de lama para fitar o rosto do desgraçado que impedira sua corrida até a batalha. Estava prestes a gritar com quem quer que fosse, incitando por um motivo plausível para tê-lo derrubado, quando tudo que ele queria ter dito desceu novamente pela sua garganta a seco, quando Jason se viu fitando os belos olhos de Piper.

– Jason – ela começou a dizer, sem tirar os olhos dos dele. – Você vai sair daqui agora – ela ordenou, e Jason assentiu sem nem pensar antes. – Você vai correr para a superfície e procurar o Nico e a Annabeth, e vai fugir com eles para o mais longe que você puder, entendeu? – e novamente o loiro assentiu, sem conseguir desviar os olhos das esferas castanhas e brilhantes de Piper. – Ótimo. Agora vá.

Ele novamente assentiu, enquanto ela se levantava de cima da barriga de Jason, arrumava o cabelo num rabo de cavalo e lhe enviava um sorriso gentil e cheio de medo antes de correr na direção do exército branco. Jason também se levantou, e não pensou: correu diretamente na direção das grandes e impenetráveis portas de aço negro da Fortaleza, encontrando-as abertas, e subiu correndo, de três em três degraus o íngreme e longo lance de escadas que levava até a superfície.

A brisa gélida da noite fez sua mente finalmente se clarear.

Ela me controlou, ele pensou consigo mesmo. Ela se jogou para a morte enquanto me fazia fugir da batalha. E outro pensamento, este ainda mais grave e imperdoável infligiu sua mente. Eu fugi da guerra. Eu sou um desertor. Desertores era provavelmente a única coisa imperdoável nas regras da Fortaleza, e um dos códigos de conduta dos Herdeiros Rebeldes. Ali, no meio de irmãos de sangue e convivência, abandoná-los quando se era mais necessário, ou seja, desertar no meio de uma batalha, era a mesma coisa do que ser responsável por todas as mortes ocorridas durante tal batalha.

Jason já podia sentir o peso de cada vida que seria perdida naquela batalha a lhe esmagar as costas com o seu imensurável e castigável peso. Mas agora que estava ali fora, não tinha como voltar atrás. Pelo menos poderia levar Nico, Annabeth e Bianca com ele para bem longe dali.

Jason deu um passo a frente para iniciar a busca por seus companheiros, quando o familiar som estalou sobre seus pés, e olhando para baixo, viu um único osso, fino e amarelado e parcialmente carbonizado da costela de alguma criança morta ali se quebrar debaixo da sola de seu sapato.

Leo, ele pensou automaticamente no melhor amigo, pensando que também seria bom tê-lo por perto. Nessa batalha, muitos seriam perdidos, e isso iria fazer Leo sofrer muito, e Jason não queria que ele sofresse mais. O pobre garoto já sofrera o suficiente para toda uma vida.

Jason deu outro passo, e mais um osso estalou sobre seus pés. O som era abafado, e fazia o coração de Jason apertar. Outro passo, outro osso estalou sobre seus pés; as lembranças começaram a invadir incontrolavelmente a mente de Jason.

Fogo em toda parte. Crianças gritando desesperadas por suas vidas; gritando devido à excruciante dor de ter a pele e carne queimadas; as paredes rachando devido à enorme temperatura; o cheiro de cinza, o cheiro de queimado. A sensação das lágrimas. A imponência de ver tudo queimando diante de seus olhos e não poder fazer absolutamente nada. A dor de ver a esperança se transformar em cinzas e destroços.

– Jason! – gritou uma voz ao longe, tirando completamente o loiro de seu turbilhão de lembranças, todas elas mais intensas, fortes e desesperadas que as anteriores. Jason então, percebendo que corria com os olhos fechados em direção ao grande portão de aço que era a primeira entrada para a fortaleza, não querendo ver e nem ouvir os sons e as imagens que estavam ali, espalhadas por toda a parte, parou ao som da voz. – Jason! – a voz tornou a gritar, vinda do lado oposto ao qual Jason corria tão desesperadamente; mas o garoto não se moveu, esperando que o dono da voz chegasse até ele.

A silhueta envolta nas sombras da noite se aproximava correndo, mas seus passos eram cambaleantes e fracos, e quando a luz pálida da lua alvejou parte do rosto de Annabeth, o qual estava sujo de terra e sangue, Jason correu em sua direção.

– Annabeth, o que houve? – ele perguntou desesperado, sentindo o coração doer com a aparência de sua amiga. Ela tinha o antebraço apressadamente enfaixado acima de um ferimento pouco grave, mas fora a sua expressão que o deixara inquieto.

– É o Nico... – ela disse, colocando a mão sobre o peito, tentando controlar a respiração pesada e os batimentos acelerados do coração.

– O que tem ele? – Jason perguntou, e sentiu o coração falhar quando um pensamento atingiu sua mente como uma flecha. – Ele...

– Não, ele está bem – ela conseguiu responder, acalmando-o com um olhar. – Bem, não está exatamente bem, mas está o suficiente, depois do que passamos – ela acrescentou logo em seguida.

– O que aconteceu, Annabeth? – Jason tornou a perguntar, cerrando a mão direita num punho extremamente apertado, e envolvendo com mais pressão os dedos no cabo da espada que ainda segurava nos dedos, fazendo-os ficaram brancos devido à força exercida. – Me diga de uma vez.

Ela olhou ao redor, notando que, ao longe, as árvores por detrás dos restos da mansão queimavam com intensidade. Ela arregalou os olhos, mas logo eles se tornaram duros e decididos, e ela olhou para Jason com suas esferas tempestuosas.

– Leo poderá te explicar melhor as coisas, porque agora eu tenho outras coisas a fazer – ela disse, virando as costas para Jason e correndo rapidamente na direção da entrada secreta da Fortaleza.

– Leo? – ele repetiu, pensando o que o amigo tinha haver com tudo àquilo. – Annabeth, espere! O que você quis dizer com isso? Onde está o Nico? – ele gritou de volta para ela, seguindo-a com suas passadas longas e rápidas.

Ela parou e voltou a andar na direção de Jason, e novamente seu olhar estava duro como uma rocha, e brilhava de determinação.

– Ele está na lagoa, junto com o Leo – ela disse, acrescentando rapidamente, sem nem sequer dar chance para o loiro objetar. – Você tem de pegar os dois e fugir para bem longe daqui, entendeu? Vocês serão dados como desertores e serão caçados, mas vai ser necessário. Eu vou voltar lá e fingir que não sei de nada... – ela avançou na direção do loiro e agarrou com força o colarinho de sua camiseta, apertando-o com força entre os dedos, e sibilou entre dentes: — Você tem que proteger aquele garoto Jason. Ele precisa de você. Eu não sei o que poderá acontecer com ele se ele olhar em volta e perceber que está sozinho... Mas não deixe isso acontecer de jeito nenhum – ela soltou o tecido e virou as costas para Jason, respirou fundo e murmurou: — Vocês agora são a nossa única esperança.

E assim Annabeth desceu o íngreme e escuro lance de escadas em direção ao campo de batalha que se desenrolava no interior da Fortaleza.

Jason assentiu para si mesmo e correu na direção do lago, ainda com as palavras de Annabeth e ecoarem em sua mente.

Ele precisa de você, ela havia dito, e era a mesma coisa que Jason concluíra na noite passada, quando o garoto havia se esgueirado para fora de seu saco de dormir e se aninhado em seus braços. Sentindo o corpo mirrado e pequeno do garoto contra o seu, Jason percebera como ele era imensamente frágil e sensível, e parecia que ele estava quebrando aos poucos por dentro.

– Eu não vou deixá-lo quebrar, Nico – Jason disse para si mesmo, esperando que suas palavras sinceras pudessem ser ouvidas pelo garoto. Jason queria poder lembrá-lo que ele não estava mais aprisionado. E se você quebrar, acrescentou ele em pensamento, nem que os meus dedos fiquem completamente cortados e sangrando, eu vou juntar todos os cacos.

O loiro correu pelo que pareceu uma eternidade, até encontrar, depois de uma árvore com um grande buraco que parecia um tiro feito por uma arma de grosso calibre, um amplo espaço vazio e, alguns metros à frente, em pé na margem, andando de um lado para outro, visivelmente inquieto, estava Leo. Havia também alguém no chão aos seus pés, envolto nas brumas da noite, e Jason, mesmo estreitando os olhos para melhor ver, não conseguia distinguir quem era. Não queria sequer pensar que era Nico. Acelerou a velocidade da corrida.

– Ah, Jason! – exclamou Leo quando viu o loiro se aproximar correndo, levantando as mãos para o alto num agradecimento silencioso. – Finalmente você chegou!

Jason não precisou responder. Na verdade, ele não conseguiu. Quando se aproximou de Leo, também se aproximou o suficiente da silhueta deitada no chão para distingui-la por completo e ver que era realmente Nico.

O loiro caiu sobre os joelhos ao lado do corpo inconsciente de Nico, o que foi um alívio, ver que ele estava apenas inconsciente. Mas quando se ajoelhou, seus joelhos pousaram numa poça de sangue que, seguindo-a com olhos apreensivos, notou que vertia do pulso do garoto, que teve a mão decepada cirurgicamente.

– O que aconteceu aqui, Leo? – ele perguntou, pousando o olhar no rosto confuso do amigo. Ele parecia, verdadeiramente, muito mais confuso que o próprio Jason.

– Eu também não sei – ele respondeu, balançando a cabeça de um lado para outro freneticamente.

– Quem fez isso? – Jason insistiu, dizendo na voz mais calma e controlada que conseguiu emitir sem parecer demasiada forçada.

Leo não respondeu à pergunta com palavras, mas apenas com um sinal de mão, apontando para algum lugar próximo na direção das costas de Jason. O loiro se levantou, girando o pescoço e encontrando outro corpo estirado no chão pedregoso do antigo lago, mas dessa vez ele conseguiu identificar o rosto mesmo ele estando ainda distante, mesmo que sua mente e todos os fatos contados até ali insistissem que tudo fosse impossível. Jason andou na direção do corpo sem vida de Percy, e se ajoelhou ao seu lado.

A aparência era macabra. Não lembrava nada o Percy amigável, gentil, atencioso e brincalhão que ele conhecera. Seu rosto bronzeado de sol estava repleto de bifurcações de veias negras que cobriam sua face quase por completo, e seus olhos arregalados fitavam o céu negro sem estrelas, mas as esferas verde-mar que pareciam sempre ter um brilho próprio e um fulgor intenso de determinação não mais brilhavam, e mal refletiam o brilho da lua; e para piorar, sua boca estava arreganhada num grito desesperado de morte.

Jason não precisava perguntar para saber quem teria feito aquilo com Percy. Os indícios eram tão claros e visíveis quanto a luz do sol, a pergunta mais urgente era: por quê?

– Jason – Leo chamou, tocando gentilmente o ombro do loiro. Havia pressa e inquietação em sua voz. – Nós temos que sair daqui.

Você tem que pegar os dois e fugir para bem longe daqui, a voz de Annabeth repetiu em sua mente. Vocês agora são a nossa única esperança.

Jason assentiu para Leo, murmurando um Adeus silencioso ao seu velho amigo, que esperava nunca mais ter de encontrar de novo.

– Vamos – Jason disse, se levantando e andando na direção do corpo inconsciente de Nico. O coto ainda sangrava, e o garoto notou também que a pele sempre pálida de Nico, agora tomava aos poucos uma coloração próxima ao branco papel, e isso era um mal sinal. O loiro rasgou um pedaço de sua camisa, formando uma tira com os trapos, e os usou para tentar de alguma forma diminuir o sangramento e impedir que ele morresse.

Ele matou o Percy, sua mente lhe disse; duas vezes. E você ainda quer o salvar?

– Mas é claro – ele murmurou para si mesmo em resposta enquanto enrolava a tira de trapos ao redor do coto. -, afinal, eu fiz uma promessa.

O loiro podia sentir o olhar confuso de Leo posto em si, e também já podia até imaginar o que ele estaria pensando: ele já ta ficando louco, viu? Tá até falando sozinho.

Terminado o “curativo” improvisado, Jason colocou Nico sobre as costas, jogando os braços do garoto sobre os ombros e a cabeça dele encostada-se ao vão entre seu ombro direito e o pescoço, onde a respiração fraca e demasiada quente de Nico batia de encontro em sua pele.

– Vamos – ele disse a Leo, incitando-o a o seguir, dando o primeiro passo e esperando que ele o seguisse.

– Para onde? – a voz dele retrucou, abafada e trêmula.

Jason parou antes de dar o segundo passo. Em seu interior conturbado por pensamentos e acontecimentos, Jason queria poder apenas desabar e gritar por tudo aquilo que perdeu, por tudo aquilo que estava perdendo, e por tudo aquilo que também poderia perder. Mas ele tinha de se manter forte. Não por ele, claro. Ele bem sabia que não era forte por dentro. Mas por todos aqueles que estavam ao seu redor, e por todos aqueles que depositaram a sua fé e confiança nele.

– Não temos para onde ir, Jason – Leo disse, exasperado e cansado. – Nossa casa é aqui. Nosso lar é aqui. Por mais que eu saiba que temos que sair daqui o mais rápido possível e para o mais longe que pudermos, eu não sei se conseguirei andar sem rumo; sem o pensamento que o lugar onde eu fui temporariamente feliz foi destruído, e pior, que eu o deixei ser destruído e não fiz nada para impedir. Isso...

– Eu sei bem o que você está sentindo, Leo. Acredite. – Jason o interrompeu, pronunciando cada palavra com um controle mental absurdo. Ele queria gritar e berrar com Leo, mas se controlou, pois sabia que isso em nada ajudaria. – Esse pensamento também me machuca muito, mas eu tenho em mente um objetivo; um alvo que me faz seguir em frente, e sei que se eu hesitar por um minuto sequer, eu serei destruído. Mesmo eu não estando no meu lar, e mesmo eu sabendo no meu pensamento que ele esta sendo destruído enquanto eu fujo, e que meus amigos que sempre se importaram comigo e tinham confiança e estima em mim estão agora morrendo, eu vou continuar seguindo em frente, honrando as promessas e os desejos que foram postos em mim – a imagem de Piper brilhou em sua mente, seguidas das de Annabeth e Reyna. – Sei que é difícil, Leo, mas temos que seguir em frente, e buscar futuramente uma forma de vingar todos os nossos amigos que morrerão nessa batalha, porque alimentar as falsas esperanças que todos sairão ilesos é o mesmo que mentir para nós mesmos.

Jason deixou por um momento suas palavras pairarem no ar, sendo absorvidas aos poucos por um Leo visivelmente instável.

– Leo – ele chamou, virando o corpo e encontrando os olhos trêmulos de Leo. O garoto usava todas as suas forças restantes para não desabar em lágrimas. -, eu sei que isso não é o suficiente se comparado a antes, mas você ainda tem a mim e ao Nico, e nós três juntos podemos ainda ser um lar, não?

O garoto não respondeu, ficou apenas a fitar os olhos azuis de Jason com uma expressão funda e marcante de dor em seu rosto por um momento, quando enfim assentiu levemente e, esboçando um leve e quase forçado sorriso, passou ao lado de Jason com passos vagos e lentos.

– Vamos logo – ele disse, com voz embargada que Jason notou quase de imediato. – Eu conheço um lugar ótimo que poderíamos passar a noite a uns 5 quilômetros daqui.

Esse é o Leo que eu conheço, Jason refletiu em pensamento, esboçando um leve sorriso que ele não pôde evitar, seguindo atrás de Leo com o corpo mirrado e quente de Nico em suas costas; ele sofre, mas ainda assim insiste em fazer as pessoas que estão ao seu redor sofrendo, sorrirem, enquanto ele tenta parecer feliz.

Mas o som distante e alto de uma explosão fez o momentâneo sorriso desaparecer do rosto de Jason, mas isso não o fez parar, assim como Leo não parou.

Eles sabiam que, se parecem e ouvissem com atenção e com todo o pensamento voltado para a origem do som, que era a Fortaleza, seu lar sendo novamente reduzido a cinzas e montes de fogo, eles quebrariam e iriam voltar correndo e sem sequer pensar para defender sua casa e sua família, sendo tragados pelo abraço generoso e indistinto da morte.

O loiro sentiu o toque frio da mão de Nico roçar levemente no tecido de sua camiseta, tocando de leve seu ombro, e o toque, mesmo que inofensível, fez um medo frio percorrer a espinha de Jason.

– Leo — ele chamou, aumentando a velocidade dos passos na direção do amigo. — Por favor, coloque a luva na mão do Nico.

***

Reyna andava pelas fileiras de corpos que foram postos lado a lado no chão do que restou da Fortaleza, com a espada em mãos, a ponta da lâmina virada ao chão, e a sua metralhadora à laser presa às costas, avaliando com olhos cansados de tanta morte as baixas que sofreram.

A batalha havia enfim terminado, depois de angustiantes e desesperadas duas horas; mas mais parecia que tudo havia ocorrido num rápido piscar de olhos.

Um piscar de olhos e tudo que ela, a única capitã da Fortaleza e uma das criadoras do refúgio dos Herdeiros Rebeldes, tanto batalhou para construir, foi destruído diante de seus olhos. E ela agora estava a olhar as cinzas de seu lar.

– 324 mortes, capitã – disse Annabeth, que seguiu todo o angustiante percurso ao seu lado, sem sequer hesitar em desviar os olhos. -, e 89 feridos, sendo 50 deles graves.

Reyna apenas assentiu, olhando ao redor, para as tendas que ainda estavam em pé, procurando um rosto único e apaziguador em meio ao mar de expressões diversas, mas não o encontrando em parte alguma.

Em algumas partes ao redor, o fogo ainda queimava, e o seu cheiro se misturava ao cheiro doce e pungente do sangue. Fogo e sangue, juntos, sinais de destruição.

– Onde está Jason? – a capitã perguntou a Annabeth, que a olhou com o rosto pálido, sem conseguir abrir os lábios para responder. A loira, estrategista da Fortaleza, engoliu em seco antes de responder:

– Capitã... Jason e Nico, ambos desertaram quando a batalha se iniciou.

Aquela notícia foi como um soco revestido com armadura na boca do estomago da capitã, e ela lutava para se recuperar, com a esperança que fosse uma noticia falsa e equivocada vindo de alguma boca mentirosa.

– Besteira, Annabeth – Reyna rebateu, fazendo um maneio de mão para a garota. – Jason não faria isso. Eu o conheço bem. Agora me diga quem te disse essa mentira.

A garota hesitou e, colocando a mão esquerda em cima do ferimento feito em seu antebraço direito, desviou o olhar para o chão de lama e sangue.

– Ninguém me disse, capitã – ela respondeu, num sussurro repleto de dor e pesar. Afinal, a verdade pode pesar tanto quanto qualquer coisa. – Eu vi com meus próprios olhos, e senti na própria carne quando tentei os impedir. Eu tentei o convencer a voltar e lutar, mas aquele garoto, Nico, ficava fazendo a cabeça dele e quanto tentei tocá-lo nos ombros e dizer com mais calma para que ele voltasse, aquele garoto correu para cima de mim com uma lâmina em punhos... – ela contou o acontecimento ainda fitando o chão sob seus pés, sem levantar os olhos ou controlar a voz. – Desculpe capitã. Eu não pude fazer nada. Eu era apenas uma, e eles estavam em três.

– Três? – a capitã repetiu, pensando em quem mais seria irresponsável ao ponto de desertar de uma batalha tão importante. – Quem mais desertou Annabeth? Além de Jason e Nico?

A garota afundou os dedos com força na pele ao redor de ferimento, e, lentamente ergueu os olhos cansados e cheios de medo e dor na direção da capitã, e sibilou outro nome por entre os dentes:

– Leo.

Um silêncio sepulcral caiu sobre todos que presenciavam a cena, e a capitã lutava para manter o controle sobre os pensamentos e sobre os impulsos.

Leo? Como ele pôde, depois de tudo que fizemos por ele? Depois de tudo que ele fez por nós?

Logo o silêncio foi quebrado, quando o burburinho de vozes começou a se reerguer aos poucos, cada boca espalhando o que Annabeth havia dito. As vozes faziam sua cabeça latejar, e seus olhos pareciam querer saltar para fora das órbitas.

– Eu te avisei, capitã – ressoou uma voz vinda por detrás das costas de Annabeth. Seus passos rápidos e pesados chapinhavam sobre o chão, enquanto seus olhos frios fitavam os olhos distantes de Reyna. – Eu lhe preveni sobre os perigos de deixar alguém como ele pisar os pés aqui dentro. Eu lhe preveni do que tudo isso poderia acarretar – ele parou na frente da capitã, ao lado de Annabeth, com uma expressão de vitória estampada em seu rosto branco. – mas você não quis me dar ouvidos, e disse que estava tudo bem.

– Eu sei bem o que eu disse, Octavian – rebateu a capitã, mantendo a postura firme e austera que era esperada dela. – Eu não preciso que você me relembre nada.

– Oh, sério? – ele exibiu um sorriso frio no canto de seus lábios finos. Seus olhos pareciam brilhar com algo que ele maquinava em sua mente. – Então você também deve se lembrar da última coisa que me disse, não? – ele se aproximou dela, ficando a apenas alguns passos de distância, e sussurrou de forma fria e provocante: — Ou já se esqueceu?

A capitã olhava no fundo de seus olhos, querendo avançar e estrangular aquele garoto bem ali, e extinguir de uma vez por todas esse tipo de pessoa, que saí por aí sibilando seu veneno em todos os rostos. E tudo por almejar o posto que ela tinha.

– Não, Octavian, eu não me esqueci – ela respondeu calmamente. Estava pensando exatamente nisso quando ele aparecera, e logo isso fez com que juntasse o útil com o agradável. A capitã respirou fundo, apertando os dedos trêmulos ao redor do cabo de madeira de sua espada longa, erguendo a lâmina para cima e apontando a ponta para o teto sobre suas cabeças. – Todos vocês, sobreviventes desta batalha. Vitoriosos! – ela exclamou, olhando de rosto em rosto. — Saibam que hoje, tentaram nos destruir, pensando que nós somos um grupo fraco; mas perceberam de frente que somos exatamente o oposto: somos fortes! A guerra que tanto esperávamos finalmente teve inicio, e o tiro de início veio do inimigo. Mas nós iremos responder, no nosso tempo. Pois uma batalha não se vence do dia para a noite, mas se leva tempo. E todos vocês que permaneceram aqui, defendendo seu tão precioso lar ao lado de seus irmãos de sangue, são os verdadeiros heróis – ela fez uma pausa, olhando para o rosto resplandecente de alegria de Octavian, e prosseguiu: — Mas, infelizmente, como vocês já devem saber, tivemos algumas pessoas que não tiveram estômago para tal batalha, e então fugiram. E esses desertores pagarão caro por tal ato. Por isso eu digo com total convicção... – a capitã respirou profundamente antes de continuar, tentando engolir o sentimento que lhe subiu pesarosamente pela garganta. Um sentimento que agora teria de morrer. E então vociferou a pleno pulmões, alto o suficiente para ser ouvido por todos que a cercavam: — NÓS TOMAREMOS A CABEÇA DE LEO, NICO E JASON, E AS COLOCAREMOS NUMA LANÇA AO LADO DA PIRA FUNERÁRIA DE TODOS QUE HOJE MORRERAM AQUI!

A capitã sentia que todos se esquentavam ao redor com o peso de seu discurso. Então, como os ânimos de todos pareciam queimar com intensidade e por sede de sangue e justiça, ela acrescentou com vontade:

– MORTE AOS DESERTORES!

E as vozes ecoaram ao seu redor:

– MORTE AOS DESERTORES! MORTE AOS DESERTORES! MORTE AOS DESERTORES...

Reyna abaixou a espada, avaliando os rostos ao seu redor: o de Octavian era de felicidade e satisfação; Annabeth tinha um olhar confuso e cheio de medo, o que era compreensível; e em meio ao mar de rostos, que havia surgido aos poucos, estava Piper, de rosto pálido e expressão desesperada. E seguindo o olhar ao longe, na direção de onde a garota havia vindo, viu a imensa e retangular cela de vidro, onde o campista/prisioneiro conhecido como Filho de Thanatos habitava pacificamente por sua própria vontade, esmagada completamente por um imenso e maciço bloco de concreto que caiu do teto com a explosão, espalhando por todo o perímetro ao redor estilhaços de vidro transparente e grandes pedregulhos.

Outra baixa, ela refletiu, com a imagem assustadora do albino a marcar a sua mente; 325 mortes.

***

Percy abriu os olhos assustado, não se lembrando de tê-los fechados. Estava fitando uma luz branca e circular. A respiração que subia por sua garganta era áspera e rouca.

Ele se levantou da superfície dura e fria que estava deitado, com a visão ainda desfocada e embaçada.

– Onde estou? – ele perguntou ao nada, colocando a mão na cabeça. O moreno tossiu, incomodado com algo que estava em sua garganta, e nódoas de um sangue escuro e espesso saiu por seus lábios, manchando sua mão.

Então ele se recordou.

Eu morri, novamente. E novamente foi por ele.

Percy fechou a mão num punho fraco, sentindo a espessura do próprio sangue na palma, levantando o rosto para cima e fechando os olhos, enquanto sua mente era invadida pelos momentos antes de sua morte e em seguida da sensação extasiante que era sentir o toque frio da morte em sua pele, percorrendo como dedos frios e mortos o seu corpo até envolver seu coração. Cada segundo era como um prazer, e morrer pelas mãos de Nico era um prazer tão grande que chegava a excitar o corpo de Percy.

– Eu havia me esquecido como é bom morrer pelas mãos dele – Percy murmurou para si mesmo, no exato instante em que uma porta se abria, e um garoto de sua idade entrava. Ele conhecia aquele garoto que, mesmo sendo um garoto aparentemente fraco, era uma das figuras mais importantes de toda a Organização Atlas.

– Você matou a saudade de morrer nas mãos do Herdeiro de Hades, Percy? – ele perguntou, andando até um canto da sala e se sentando numa poltrona de veludo negro como o céu daquela noite.

Agora que a visão de Percy estava melhor, ele notou que não estava numa sala médica na Corporação Tártaro ou numa Sala Branca em seus subterrâneos, mas em algum lugar de extrema importância num dos bairros mais famosos de Nova Iorque, onde ficava situada uma das filias da Organização Atlas — isso ele podia saber devido às paredes de madeira de lei que o rodeava, o piso de pinho e os moveis de mogno perfeitamente polido. E o que ele pensara ser uma espécie de lâmpada de luz branca e forte, era na verdade um enorme lustre, adornado com cristais que resplandeciam com a luz. Ao lado da cama onde estava deitado, havia uma imensa janela que se abria para dentro, e por detrás dessa janela, e cidade de Nova Iorque se erguia, como sempre, agitada e movimentada em plena madrugada. Ao longe, o sol do amanhecer se levantava do horizonte.

– Por quanto tempo eu fiquei morto dessa vez? – Percy perguntou, observando a mão de seu anfitrião servir numa taça delicada um pouco de vinho tinto.

– Você morreu às 19h e 11m e permaneceu morto até às 23h, quando enfim conseguiram te abrir, tirar seu coração e mergulhá-lo em água e depois colocá-lo dentro de você novamente; costurá-lo, jogar água em seus órgãos mortos, fechá-lo e jogar mais água em você, fazendo você ficar em plenas condições como se estivesse novinho em folha – ele explicou, estendendo a taça para Percy, que não hesitou em pegar. – Mas creio que você não chegou a valer o esforço. Se dependesse de mim, você ainda estaria jogado na margem daquele lago seco, afinal, você falhou em matá-lo.

O líquido desceu desconfortavelmente pela garganta de Percy, assim como a notícia foi recebida por ele.

– Eu consegui apenas matar a irmã dele e lhe decepar uma mão – ele tentou explicar. Não queria maiores complicações para si. A batalha havia sido um total fracasso por ele ter subestimado o garoto. – Mas creio que a invasão tenha sido um sucesso?

– Bem, a invasão não foi um sucesso – ele respondeu, sorvendo um gole do líquido rubro por entre os lábios. -, mas o objetivo do ataque foi alcançado com sucesso, segundo os relatos de Praga. Agora os Herdeiros Rebeldes também estão caçando o Herdeiro de Hades e seus dois companheiros.

– Se me permite perguntar, quem são seus dois companheiros?

– Você saberia mais cedo ou mais tarde – ele disse, pousando a taça de cristal na mesa ao seu lado. – Jason e Leo.

Novamente, à simples menção do nome de seu antigo companheiro, o sangue ferveu no corpo de Percy, fazendo seus instintos assassinos gritarem pela cabeça do loiro.

Tenha que matar Nico antes que ele seja corrompido por Jason, ele pensou, fitando a superfície escura da bebida em sua taça.

– Percy – chamou a voz de seu anfitrião. Ele levantou os olhos claros para fitar o de seu superior. – Você disse que decepou uma das mãos do garoto, certo?

– Sim, está certo.

– E como você fez isso? Normalmente, com a lâmina de água?

– Na verdade, não – Percy respondeu, lembrando da forma deplorável que teve que fazer para decepar a mão do garoto. – Eu usei meu sangue como lâmina, poois houve uns contratempos.

O anfitrião sorriu, e logo seu sorriso se alargou numa risada espontânea, e depois numa gargalhada que morreu pouco tempo depois.

– Bom trabalho, Percy – ele o parabenizou, se levantando da cadeira e ficando de frente para o moreno. – Um brinde à nossa conquista.

Percy não entendeu, mas mesmo assim brindou, forçando-se um sorriso, e sorveu um generoso gole da bebida fraca, mas quente.

– Se me permite perguntar, chefe – começou Percy após o líquido descer em sua garganta, olhando com o cenho franzido o rosto marcado de seu superior e anfitrião. – eu não entendi à qual conquista tenha se referido, afinal foram tantas.

– Aí é que se engana, novato – ele disse, andando até a janela e fitando ao longe o sol que se erguia. – Houve apenas uma conquista, os outros foram apenas objetivos alcançados com sucessos.

– E a conquista a qual se refere seria...? – Percy tornou a perguntar, agora ainda mais confuso que antes.

– De você ter compartilhado do meu sangue com o Herdeiro de Hades – ele respondeu, rindo consigo mesmo. – Essa foi uma conquista esplêndida, devo admitir.

– Senhor, mas eu o cortei com o meu sangue – Percy rebateu, fitando a correia de couro negro que passava por trás da cabeça de seu anfitrião. – Então como...

– Você sabe que você tem outro tipo de sangue misturado com o seu, não é Percy Jackson? – ele perguntou antes que Percy pudesse completar a sua própria.

– Mas é claro que sei – ele respondeu. Era obvio que ele sabia o que tinha em seu corpo. Seria tolo se não. – Eu tenho um pouco do sangue de um Herdeiro de Nêmesis, mas o que isso tem haver?

– E quem você acha que lhe cedeu esse sangue, Perseu? – ele retrucou, usando o nome verdadeiro do garoto que apenas poucos sabiam. – Eu sou um Herdeiro de Nêmesis, e o sangue que corre em suas veias é meu.

Ele se virou da janela, encontrado os olhos verde-mar de Percy e a sua expressão de confusão, e aos poucos o entendimento que se espalhava por sua mente.

Não pode ser ele, pensou Percy, fitando o olho do garoto a sua frente, onde o tapa-olho do asiático lhe dava uma aparência de superioridade e poder.

– Sim, sou eu – ele disse, como se tivesse lido os pensamentos de Percy. – Acho que você ainda não me conhece, embora eu te conheça muito bem. Meu nome é Ethan Nakamura, e quero que você trabalhe comigo.

Notas finais
Obrigado a todos que conseguiram ler isso até o final, vocês são os verdadeiros vitoriosos. Um agradecimento a todos que estão lendo isso e comentando sempre positivamente, me fazendo continuar e me dando as inspirações que preciso para continuar escrevendo. Nos vemos no próximo capítulo, gente bonita :3