Touch

10 The Ashes Of Your Home


Notas iniciais
Capítulo Especial de Natal, voltado totalmente para a história de Leo e Jason, no passado :3 Espero que gostem e que consigam ler até o final, porque é beeem extenso :v

Leo estava sentando sozinho no banco de madeira, num canto afastado de todas as outras crianças que corriam e se divertiam por ali, como se nada em suas vidas tivesse acontecido. Como se nada as tivessem levado até aquele lugar lúgubre.

Mas Leo não conseguia esquecer o que havia acontecido, e tinha raiva das outras crianças que riam e brincavam. Será que a mente delas não pesavam, igual à dele? Será que os corações delas não doíam, igual o dele?

O rosto de sua mãe se formou em sua mente, feliz e sorridente como ela sempre parecia ser. Nada a abalava; nada fazia o sorriso que estava sempre estampado em seu belo rosto vacilar... Nem mesmo em seus últimos momentos, deitada em seu leito hospitalar no meio do corredor de um hospital que pouco se importava com as condições de seus pacientes.

O câncer a destruíra completamente por dentro, mas o sorriso puro e gentil ainda estava sempre estampado em seu rosto cansado quando o pequeno e inocente Leo se aproximava dela.

– Mãe, quando a gente vai voltar pra casa? – o garoto perguntou, puxando uma cadeira e se sentando ao lado da mãe, bem no meio do corredor. – Eu não gosto daqui.

Ela afagou carinhosamente os cabelos levemente encaracolados do garoto, descendo a mão pelo seu rosto, e um dedo frio por suas maçãs salientes.

– Eu também não gosto daqui, querido – ela respondeu, com a sua voz rouca e fraca; frágil e leve como a folha seca de uma árvore que morria aos poucos. – Mas eu prometo que iremos voltar para casa logo.

O pequeno garoto assentiu, com um leve sorriso de poucos dentes faltando. A ideia de voltar para casa o deixava feliz e eufórico, e ele mal podia se aguentar de ansiedade. Mesmo que fosse tudo apenas um sonho, afinal.

– A mamãe está cansada, filho – ela anunciou, deslizando a mão sobre o braço do garoto até encontrar sua mão e a apertar com pouca força. – Que tal um beijo de boa noite?

– Mas ainda está de dia, mamãe – o garoto observou, devolvendo o aperto nas mãos dele, fitando com seus olhos curiosos e confusos os olhos cansados e baços de sua mãe.

– Mas logo ficará escuro, filho – ela disse, fechando os olhos com lentidão.

– Está bem – o garoto murmurou, se inclinando sobre a maca e pousando leve e gentilmente os lábios na bochecha pálida de sua mãe. – Durma bem, mamãe. Eu te amo.

Ela assentiu quase que imperceptivelmente, e após uma longa inspiração, disse, com a voz mais firme e forte que conseguiu emitir por entre seus lábios ressecados:

– A mamãe também te ama filho.

E em seguida emitiu um suspiro longo antes de mergulhar no sono. Um sono calmo que ninguém poderia a perturbar. Enfim.

Leo tinha apenas 12 anos, e se sentiu imensamente sozinho quando percebeu que aquilo que sua mãe havia lhe dito era um adeus, e que ela havia também dado o seu último suspiro, antes de mergulhar no sono infido da morte.

O garoto se debruçou sobre o corpo de sua mãe, deitando a cabeça em seu peito, e chorou silenciosamente por vários minutos antes de dormir.

– Então você é o garoto novo, não? – perguntou uma voz, retirando o garoto cabisbaixo de suas doloridas lembranças, que sempre insistiam em voltar a sua mente. Leo levantou os olhos, vendo o dono da voz: um garoto pouco maior que ele, de belos cabelos loiros como ouro, que pareciam resplandecer com a luz do ambiente, e uma pele branca pouco curtida de sol; ele tinha olhos tão azuis quanto o céu que flutuava acima de suas cabeças, e o que mais chamou a atenção no garoto: uma peculiar cicatriz em seu lábio superior. Ele se aproximou de Leo e parou poucos centímetros à sua frente, se agachando no chão, com os braços pousados acima dos joelhos. – Você estava chorando, não? – ele perguntou, encarando os olhos de Leo com uma profunda expressão de pesar no rosto.

Leo se sobressaltou, sentindo uma lágrima solitária e quente escorrer por seu rosto. Ele rapidamente a limpou com as costas das mãos, enxugando os olhos marejados freneticamente, não querendo parecer fraco frente a esse desconhecido.

– Eu... não estava chorando – ele rebateu, se endireitando na cadeira, forçando uma expressão dura a se formar em seu rosto.

O garoto loiro não disse nada, apenas se levantou e se sentou ao seu lado, abrindo os braços sobre o apoio de costas, fitando o céu cheio de nuvens com seus olhos azuis.

– Sabe... ehr?

– Leo – o garoto disse depois de uns segundos rápidos de confusão.

– Leo. – ele repetiu, assentindo para si mesmo. – Sabe, Leo, todos nós choramos. Cada um por seu próprio motivo, e cada um com sua própria intensidade. Uns gritam enquanto choram, outros esperneiam e outros enterram o rosto entre as pernas, mãos, lençóis ou qualquer coisa que possa esconder as lágrimas – ela olhou para Leo, que o escutava com silenciosa atenção, e sorriu. – que nem eu. – Leo desviou os olhos, sentindo um calor estranho nas bochechas. Aquele sorriso puro, gentil e espontâneo que havia despontado em seus lábios havia feito o garoto lembrar-se de sua mãe, que havia falecido uma semana atrás.

– Mas as pessoas não choram por ser fracas – ele continuou, com seu tom de voz baixo e calmo; distante e... apaziguador. -, eu diria que as pessoas choram por serem simplesmente humanas. Então, Leo – ele começou, se levantando num pulo da cadeira e ficando novamente na frente do garoto, só que em pé dessa vez. – não precisa ter medo de chorar. Eu não sei o que você passou pra ter que vir para cá, mas creio que não foi nada muito legal, e se você chora, é porque perdeu algo muito importante para você, mas não perdeu totalmente a sua humanidade. Porque se você não chorasse, eu diria que aí sim você não seria um humano, e sim um monstro.

Leo apenas olhava para o garoto, admirado com a força dele e com a forma que ele conseguia tão bem manusear as palavras.

– Ah, sim. Esqueci de me apresentar, me desculpe – ele disse, sem jeito. O loiro estendeu a mão direita para um aperto e anunciou com um sorriso no rosto: — Meu nome é Jason Grace.

Leo hesitou, mas enfim também estendeu a mão, apertando a do garoto com força, fitando seus olhos azuis que brilhavam com intensidade.

– Leo Valdez – o garoto murmurou, se apresentando.

Sua mãe uma vez disse para Leo que quando apertamos a mão de uma pessoa que acabamos de conhecer, podemos sentir, se nos concentrarmos, o coração dessa pessoa.

E o coração de Jason era quente.

Nos cinco meses que se seguiram, a relação de Leo com todas as pessoas ali não eram nada boas.

Eles, os outros garotos órfãos que conviviam com Leo ali, no imenso orfanato que o garoto não fazia a mínima intenção de decorar o nome, pareciam nutrir por ele uma inimizade nata, que eles se recusavam a abandonar, não importava o que ele ou o que Jason falasse.

Mas, ao mesmo tempo, Leo não se importava nem um pouco com o que as outras crianças pensavam dele. Jason era o primeiro e único amigo que precisava, e isso era o suficiente.

No mesmo dia que se conheceram, Jason fizera questão de falar com a diretora do orfanato, conhecida por seu extremo mau humor, e a convencera de que Leo dividisse o mesmo quarto que ele, já que todos os garotos eram obrigados a dormir em pares em quartos separados. E isso foi um imenso alívio para Leo.

O prédio do orfanato era imenso.

Dividido em duas alas: feminino e masculino, cada qual localizado num extremo oposto a outro, e tendo ambos três andares, e cada andar com cinquenta quartos, Leo às vezes chegava a se perder naquele labirinto de corredores e portas.

E foi numa dessas peregrinações por entre a ala masculina do prédio, que Leo encontrou a enorme biblioteca, com diversos tipos de livros, todos cuidadosamente arrumados em ordem alfabética de títulos.

O garoto nunca gostara de ler, mas para conseguir escapar dos sermões e das pregações insistentes da Tia Martha, Leo se enfurnava numa pilha de livros, sendo seu tema favorito a ficção. Ele se maravilhava com a forma que as letras, arrumadas em linhas e juntas a outras, formava palavras tão belas e tão perfeitamente encaixadas num enredo que o arrebatava para outro mundo, fazendo-o perder completamente a noção de tempo.

E num dia como esse, o qual ele descobriu o seu refúgio para todas as horas, que ele novamente perdeu a noção do tempo e se afagou no mar de palavras, sendo sugado pelas intermináveis linhas e pela fantástica história.

– Ei, Leo – alguém disse sobre o seu ombro, interrompendo a sua leitura e o assustando com a mão que havia pousado sobre seu ombro. Enfim o descobriram, e ele agora não teria mais chance de visitar o seu refúgio. O garoto girou lentamente o pescoço, temendo o rosto que iria encontrar. – Até quando você pretende ficar aqui? – Jason perguntou, fitando o garoto com olhos cansados. Leo estava tão assustado e distante que nem havia notado como a voz lhe era familiar. – A irmã Rossie já bateu o toque, e eu tive que vir te achar antes dela. Vamos para o quarto antes que ela chegue lá para fazer a verificação.

– Jason, sério, me desculpe – Leo disse, fechando o livro e se levantando rapidamente da cadeira. – Eu não vi o tempo passando.

– Já é a segunda vez, Leo – ele o repreendeu, puxando-o pelo pulso em direção a porta. – Será que tenho sempre que vir te buscar aqui? Você não tem cérebro não, garoto?

– Eu já pedi desculpas, Jason – o garoto reclamou, seguindo atrás de Jason, que ainda puxava seu pulso em direção às escadas que levavam ao segundo andar. – Tenho que pedir um relógio de pulso para a Tia Martha de presente de natal, já que ele está tão próximo.

– É. Dois meses – Jason disse, subindo as escadas com passos rápidos. – Muito próximo.

Leo sorriu, ainda seguindo atrás de Jason, que o mantinha fortemente preso pelo pulso.

– É sarcasmo isso que senti em sua voz, Jason?

– Sarcasmo? – ele perguntou, com a voz mais aguda que o normal. – Não. Jamais. Por que eu falaria com sarcasmo?

Leo riu alto, quase tropeçando no último degrau do lance em caracol.

– Você ainda tem muito que melhorar para poder me enganar, Jason.

E essa era, geralmente, a rotina que os dois viviam, levando em exceção os dias nada agradáveis que Leo decidia fazer as atividades recreativas com todos os outros, já que todas as outras atividades eram obrigatórias. Durante as atividades recreativas, Jason sempre estava por perto, e assim Leo ignorava os olhares raivosos e os olharem debochadores que lhe eram enviados; mas quando o loiro não estava por perto, era outra história.

Por Jason ser um ano mais velho que Leo, as atividades educativas que ele tinha era em um local diferente do que Leo era forçado a ficar, por ser mais novo; e esse local onde o garoto ficava era junto das crianças que pareciam o odiar. E ele não via a hora de terminar e ir para o quarto, onde Jason estaria, e onde eles iriam conversar e fazer algazarra durante todo o resto da noite, antes de dormirem.

Um mês restando para o natal, e para Leo pareciam apenas alguns dias. Mesmo o garoto sabendo que seria uma data repleta de lembranças quentes de um passado que não poderia ter novamente, ele queria que a data chegasse, pois ele tinha uma surpresa em mente preparada para o seu único e melhor amigo, e queria vê-lo feliz e espantar toda e qualquer lembrança de seu passado de seu rosto sempre feliz. Jason nunca havia contado a Leo sobre o seu passado, e o garoto por sua vez não sentia a mínima vontade de perguntar.

Leo estava novamente na biblioteca, e havia acabado de terminar um livro, e agora procurava outro para ler, andando lentamente pelo corredor de estantes altas e cheias de livros, percorrendo com o dedo os títulos empoeirados, com o olhar atento aos dizeres, às cores das capas, às cores das letras do título, às cores das páginas e o tamanho do livro; quando um livro diferente dos demais e com um título peculiar chamou a sua atenção:

Os Hospedeiros Entre nós – Aurélio Scottini.

O livro tinha uma capa grossa e totalmente preta, e suas folhas eram amarelas e ásperas ao toque. As letras do título eram gravadas num fundo relevo em branco, numa fonte neutra, e o livro era de tamanho médio. O garoto o abriu na primeira página, e logo notou que era uma espécie de livro informativo.

Interessante, ele pensou, fechando o livro e caminhando com ele em mãos em direção à mesa que sempre se sentava para ler. Era um local especial e estratégico: ficava de frente para um grande relógio analógico e de costas para a porta.

Leo se sentou e iniciou a leitura, e logo no início um aviso:

Aqui estão gravados dados de uma corporação secreta, tomados sem o conhecimento prévio de seus autores ou a sua conscientização. Todos os fatos e relatos detalhados nessas páginas são reais, porém foram por muito tempo escondidos pela mídia e por figuras de alto poderio entre a sociedade.

Leo engoliu em seco. Ele não costumava ler esse tipo de livro, mas ali parecia ser fatos reais, como o próprio autor enfatizava, e isso o deixava intrigado para saber mais.

Ele começou a leitura, inicialmente confuso e desacreditado; porém conforme ia lendo linha por linha, página por página e capítulo por capítulo, o garoto se sentia cada vez mais intrigado:

Os Hospedeiros ao qual tanto falamos têm geralmente a característica peculiar de um de seus pais (mãe ou pai), não serem presentes. Eles não possuem fotos e nem sequer os nomes reais de seus pais/mães, e, em alguns casos, apenas pseudônimos são deixados para trás, e todos eles, sem exceção, são os nomes de deuses gregos ou romanos, como por exemplo, um exemplar peculiar ao qual visitei pessoalmente na Corporação: O Herdeiro de Hades (o deus grego do Mundo Inferior) — o qual o nome não será citado -, que é um Hospedeiro do Toque da Morte...

... Seus poderes geralmente são despertados aos cinco ou seis anos de idade, na maioria dos casos; porém podem continuar inativos por tempo indefinido...

... Estão espalhados por toda a parte, infiltrados entre nós nos mais diversos cargos e lugares...

... Uns são tão pacíficos e dóceis, já outros maléficos e insanos...

... Rebeldes ...

... Assassinos...

... Crianças sem seus pais, que portam sem saber um poder enorme em seus corpos...

... Sem sinal em parte alguma de seus pais. Desconhecidos por todos e por tudo, porém responsáveis pela criação misteriosa de seres superiores...

Leo tinha os olhos arregalados, enquanto lia as linhas com o conteúdo extremamente curioso e estranho tão rápido quanto achara que fosse capaz, com um pensamento estranho e assustador na mente: ele se encaixava perfeitamente em alguma das descrições feitas ali.

Ele nunca conhecera seu pai. Sua mãe insistia em nunca dizer o seu nome.

Está bem que muitas crianças também poderiam se encaixar nas descrições, como ele, mas algo em seu íntimo dizia que ele era um desses “seres superiores” ao qual o autor se referia.

Leo fechou o livro com estrondo, mas não o deixou sobre a mesa: colocou-o nas calças para levá-lo escondido para o quarto. Ele tinha de compartilhar de sua descoberta com Jason, e ouvir da boca dele o que ele achava de tudo isso. Ele precisava de uma opinião amiga.

Ele correu corredor afora, e quase se caiu diversa vezes pelas escadas, mas quando finalmente chegou à frente da porta de seu quarto, não hesitou em a abrir, correndo com estardalhaço para dentro do quarto, brandindo o exemplar em mãos, com olhos arregalados e corpo suado.

– Jason – ele disse, olhando para o seu amigo, que tinha uma toalha em volta da cintura, o cabelo e corpo ainda molhados pela água do banho. O loiro o olhava com um olhar torto e assustado. – eu tenho que te mostrar isso.

– Isso é realmente intrigante, Leo – Jason disse enfim, fechando o livro após ler com aparente interesse todos os trechos que Leo apontara. – E acho que eu chego a me encaixar também em algumas características.

– Não é? Eu também! – Leo exclamou, pensando em como seria interessante e incrível ter poderes como poder voar ou soltar raio laser pelos olhos. – Isso não é incrível? Que tipo de pai eu teria? Acho que eu iria querer ter um poder tipo o de Zeus, de solta raios pela mão e coisas do tipo. Isso seria demais, você...

Leo interrompeu-se quando notou que seu amigo fitava o céu escuro da madrugada pelo vidro da janela fechada. Seu olhar estava petrificado em algum ponto inexistente, e seu pensamento parecia estar longe, em algum lugar no passado.

– Jason – Leo chamou, tocando de leve a sua mão direita, e a recolheu num impulso de auto proteção quanto sentiu um choque percorrer seu dedo a partir do onde tocou a pele de Jason, e percorrer rapidamente todo o seu corpo. Jason agora o olhava assustado; com medo. – O que foi isso? Estática?

– Leo, me desculpe – o loiro começou, estendendo a mão para tocar a de Leo, mas o garoto a afastou rapidamente, com o coração ainda pulando no peito. – Eu queria ter te contado antes, mas eu não consegui. Tinha medo de sua reação; tinha medo que você também fosse embora e que eu pudesse ficar sozinho novamente.

– Do que você está falando, Jason? – Leo perguntou, forçando um sorriso no rosto.

Jason não respondeu, apenas estreitou os olhos e endureceu o rosto. Apontou o dedo indicador para a janela e disse entre dentes:

– Estou falando disso.

E, tão rápido quanto os olhos de Leo foram capazes de ver, um projétil disforme e azulado rasgou o ar num burrão e estilhaçou o vidro da janela, fazendo o silêncio sepulcral da noite morrer junto com a centelha que voava longe no céu, vinda diretamente do dedo de Jason.

– Você...

– Sim – ele respondeu antes que Leo pudesse terminar de formular a sua pergunta. – Creio que eu seja isso que chamam de “hospedeiros”. E eu não gosto de lembrar, mas foi por causa disso que minha mãe me abandonou e me mandou para esse orfanato; à mim e à minha irmã, sem sequer pensar na gente, mas sim nela mesma. Meu pai insistia em ser chamado de Júpiter, segundo ela dizia, e agora acho que sei porque eu tenho essa afinidade com as coisas elétricas e os ventos.

Um silêncio constrangedor recaiu sobre os dois enquanto Leo absorvia a declaração.

– Isso é... – Leo começou a dizer, se levantando da cama e se afastando alguns passos para trás. – DEMAIS! – ele gritou, correndo na direção de Jason e se jogando em cima do amigo.

– Para com isso, Leo – o garoto dizia, tentando se levantar do aperto de Leo. – Minha toalha vai cair, pare – ele dizia, rindo como a criança que era.

Leo saiu de cima dele, e andou até a sua própria cama, no lado oposto da de Jason, e se sentou na beirada, com o livro ao lado.

– Eu queria também saber pelo menos o falso nome do meu pai – ele pensou em voz alta. – Seria legal se eu também tivesse uma habilidade assim.

– Acredite, Leo – Jason disse, pegando um par de cuecas e um short de praia para dormir. – Você realmente não gostaria de ter essa... maldição.

– E por que eu não gostaria? – o garoto rebateu, se deitando na cama, cruzando os dedos em baixo da cabeça, fitando o teto com olhos e pensamentos fantasiosos. – Eu poderia ser um herói e ajudar pessoas.

– É, poderia – Jason concordou, jogando um grosso edredom para cima de Leo. A noite provavelmente seria muito fria, e agora eles tinham um enorme buraco na janela, que era a única coisa que os separavam do frio agudo que fazia durante a madrugada. – Mas também – Jason continuou, com a voz baixa e distante, como que se dando voz a um pensamento. – poderia machucar as pessoas que ama se não soubesse como controlar isso.

E Leo não conseguiu encontrar resposta alguma a isso, se não o silêncio.

O garoto se enrolou no edredom, e pensou em tantas coisas antes de dormir.

E a véspera do natal enfim chegou, e a ansiedade de Leo para a noite estava tão intensa quanto a nevasca que caía lá fora, cobrindo a relva verde com uma camada espessa de neve branca.

Era algo vergonhoso, mas Leo tinha que admitir que não fazia a mínima ideia do que dar de presente para Jason.

Isso é patético, Leo. Você é patético; ele se repreendeu enquanto andava em direção à biblioteca, com passos lentos e sem pressa, mergulhando em possibilidades. Uma lista imensa de coisas que poderia escolher dar ao seu amigo, mas sabendo que praticamente nenhum deles seria algo que iria o agradar.

Ele abriu a imensa porta da biblioteca e a primeira coisa que avistou foi uma figura sentada na mesa central de leitura, de costas para a entrada. O meu lugar, ele pensou, avançando na direção da pessoa que se vestia com grossas camadas de tecido, e um gorro preto na cabeça; afinal, fazia muito frio.

E quando se aproximou, a pessoa se virou para encará-lo ao ouvir o som de seus passos.

– Olá, Leo – Jason o saudou, levantando os olhos do livro que estava lendo tão atenciosamente. – Pensei que você não iria aparecer hoje.

– Mas é claro que eu iria aparecer aqui hoje – ele disse, contornando a mesa e se sentando na frente de Jason, os braços apoiados acima da mesa. – Tenho que bater cartão, não?

O loiro riu, fechando o livro a sua frente o colocando de lado.

– Eu queria te dar isso – ele começou, puxando do chão sua mochila marrom-escura e desbotada, abrindo o zíper e retirando um embrulho colorido o qual estendeu para Leo, sorrindo. – é o seu presente de natal. Adiantado, eu sei, mas é que a Tia Martha me chamou juntamente de outros garotos e garotas para fazermos uma ação solidária na cidade, e acho que voltaremos um pouco tarde, e provavelmente eu iria esquecer.

Leo estendeu a mão e tomou o embrulho das mãos do garoto, fitando o papel multicolorido com um calor estranho e bom no coração. Ele estava prestes a rasgar o embrulho quando Jason o impediu, pousando a mão sobre a dele.

– Abra quando eu sair – ele disse, sorrindo novamente. – De preferência à noite, quando todos os outros estiverem fazendo o mesmo.

Leo assentiu e pousou o embrulho sobre a mesa, a sua frente, olhando como um bobo alegre a estampa de flocos de neve do papel.

– Obrigado. – ele murmurou, sem querer e nem conseguir levantar os olhos para encarar o rosto de Jason.

– Bom, é isso – ele anunciou, se levantando da mesa, usando as palmas da mão como ponto de apoio. – Eu só queria te dar isso, antes de ir.

Leo assentiu, enfim conseguindo encarar os olhos azuis brilhantes de Jason. Havia um brilho diferente em seus olhos; uma centelha de preocupação.

– Você vai ficar bem? – ele perguntou, e Leo soube exatamente ao que ele estava se referindo.

– Mas é claro que vou – o garoto respondeu, cruzando os braços na frente do peito e erguendo o queixo. – Se aqueles garotos mexerem comigo, eles vão sentir a força dos meus punhos.

– Mas eu não estou preocupado com eles... – ele murmurou para si mesmo, num sussurro quase inaudível. Quase. – Bom, estou indo Leo. – ele virou as costas, acenando com a mão direita enquanto andava na direção da saída. – Até mais.

Leo o viu se afastar, e não conseguiu dizer nada, e o mais estranho era não saber o porquê disso.

– Até mais – ele finalmente disse, quando as portas da biblioteca se fecharam, deixando-o sozinho.

Leo olhou de relance o livro o qual Jason estava lendo quando ele havia chegado, observando longamente o título.

O Resto Eterno.

O resto do dia realmente lhe pareceu eterno, mas quando enfim a noite chegou, Leo não esperava o momento de Jason voltar. Ele ainda tinha o embrulho intacto em mãos, sentando solitário na frente da lareira de mármore acinzentado, com o crepitar das chamas e seu fulgor a lhe esquentar o corpo envolto em tecidos quentes e macios.

E Leo então rasgou o papel que envolvia o seu presente, com uma crescente ansiedade, mesmo sabendo no exato momento em que vira seu amigo o retirando da mochila, que era um livro. Mas, de alguma forma, era diferente. Não parecia ser apenas um livro, mas sim algo mais importante, como uma preciosa e imensurável relíquia, dada a ele por seu único e melhor amigo.

A capa era grossa e dura, de uma coloração de um vermelho carmesim, intenso e quente, e exatamente no meio da capa, uma gota branca e de aparência profundamente depressiva estava gravada entre o título e o nome do autor.

Virgin Suicides – L. R. Tsurugi.

Leo foi invadido por um impulso automático de começar a ler, mas se conteve, e se satisfez abraçando o livro contra o corpo com força, imaginando que também estivesse abraçando o corpo quente de seu amigo.

– Mas o que é isso? – uma voz rouca perguntou atrás de Leo, e quando o garoto se virou para ver quem falava, viu apenas uma mão descer rapidamente sobre ele e tomar o livro de sua mão com agilidade. – Então a aberração também ganhou um presente? – perguntou Abellard, analisando o exemplar com seus olhos verdes brilhando de forma ameaçadora com o brilho do fogo. Ele estava acompanhado de seus dois “capachos”, como Leo os chamava: Justin e Oliver.

Esses eram os principais garotos desprezíveis que tratavam Leo como se ele fosse um monstro. O garoto sentia uma estranha repulsa quando olhava para o rosto redondo e rechonchudo do maior, Abellard. A forma perfeita e impecável que ele se vestia era um forte indício de que sempre fora um garoto mimado, que usava a violência e a humilhação para afastar os fantasmas do passado. Ele tinha cabelos ruivos como o fogo, penteados perfeitamente para o lado esquerdo; tinha manchas pequenas e de cor de ferrugem em quase todo o rosto, e dentes perfeitamente alinhados e esbranquiçados. Seus pais, antes de ele ter sido mandado para cá, deveriam ter sido pessoas ricas, Leo sempre refletia. Mas agora, como todos os outros, estavam mortos. E esse era o fantasma que assombrava a mente desse garoto brigão.

– Me devolva. – Leo exclamou, se levantando e pulando em cima do garoto para tomar o livro à força. Não queria que seus dedos gordurosos e sujos tocassem o presente de Jason.

– Opa! – o garoto exclamou, virando o corpo para o lado enquanto o de Leo despencava no chão, segurando o ar entre os dedos estendidos. – Você quer isso tanto assim? Foi um presente do seu namoradinho, é? – ele se virou para os garotos que o seguiam, chacoalhando o livro pela ponta dura da capa. – Qual é mesmo o nome daquele idiota?

– Acho que é Jace. – Oliver arriscou, cutucando o amigo com o cotovelo magro e sufocando um riso.

– Não, não – o outro negou, balançando fervorosamente a cabeça de um lado para outro. – Acho que é Jasmine! – e isso fez os três explodirem em gargalhadas.

Leo ainda estava deitado de bruços no chão, com as mãos cerradas com força num punho fechado. Os as unhas de seus dedos se enterraram com força em sua pele, e a raiva fazia o sangue em sua cabeça ferver.

– Eu acho que é... – Abellard tinha começado, apertando a barriga, que parecia doer devido ao ataque de riso.

– O nome dele é Jason. – Leo o interrompeu dizendo com a voz soando como um murmúrio abafado e raivoso. Ele mordia o canto dos lábios com força com o canino, tentando acalmar a sua raiva com a dor.

– Oh, ele realmente sabe o nome do namoradinho dele – caçoou Abellard, apertando o rosto de Leo contra o chão com o pé esquerdo. – Incrível como os monstros têm boa memória. – e novamente gargalhou alto. – Então você quer realmente isso, não? Um presente valioso do seu namoradinho.

Leo via apenas os pés de seus subjugadores, com a raiva a sair em forma de lágrimas quentes por seus olhos.

– Então é só pegar – Abellard disse, retirando o pé de cima da cabeça de Leo, e o garoto se levantou a tempo de ver o seu tão precioso presente sendo arremessado em direção ao fogo que crepitava forte na lareira.

E Leo nem sequer hesitou, jogando o corpo na direção da abertura da lareira, com os braços estendidos por cima do fogo quando o livro caiu de sua mão nas brasas incandescentes abaixo. Mas o garoto não sentia a dor de ter sua pele queimando; estava preocupado demais com o livro que Jason lhe dera para sentir dor. Enfiou as mãos nas brasas, e retirou o livro das chamas, soprando-o e batendo nas partes onde chamas lambiam, tentando de todo e qualquer jeito fazer com que o fogo não o destruísse; e quando enfim percebeu que ele ainda estava em boas condições, o apertou contra o peito com força, sentindo o corpo todo sendo tomado por enorme e incontrolável calor. Mas ele não ligava, pois a sua relíquia estava a salvo.

– Ele é realmente um monstro – Abellard murmurou entre dentes, com a voz aparentemente assustada e trêmula. -, como eu sempre disse que era! Vocês viram aquilo? – ele perguntou, provavelmente para os seus capachos.

Mas não. Uma multidão de crianças havia se formado ao redor deles, e todos pareciam olhar para Leo com um misto de terror e repugnância em seus rostos.

Por que estão me olhando assim? Leo pensou, não conseguindo perguntar em voz alta. Os olhares o assustavam, por mais acostumado que estivesse com olhares estranhos e tortos.

– Ele é um monstro – murmurou um garoto pequeno.

– Não cheguem perto dele – outro sussurrou, se afastando de Leo com passos trêmulos.

– Aberração... – Abellard disse, tomando Leo pelos cabelos e o puxando para cima, forçando-o a se colocar em pé. O garoto fechou os olhos, com a dor lancinante o invadindo por completo. Os olhos estavam marejados, mas ele se recusava a gritar ou a pedir ajuda para as irmãs, que estavam muito ocupadas separando e arrumando os presentes de todas as crianças do orfanato. – O que você é? – ele perguntou, colocando o rosto de Leo frente ao seu e encarando-o com repugnância.

– Me solte. – Leo pediu, lutando para tocar o chão com os pés suspensos; afinal, Abellard era maior que ele uns bons dez centímetros. – Eu não sei do que você está falando. Sou um garoto normal, só isso. Sou como todos vocês.

– Não. Você não é – Abellard exclamou, jogando-o com força no chão e enviando um olhar mortífero para Leo, caído encolhido no chão, com o livro ainda apertado contra o peito. – Você é um monstro. Nós vimos seu braço no fogo e não queimando. Vimos você tocando as brasas e quando retirou a mão do fogo não havia nem sequer marcas!

– Ma... Mate ele! – uma voz aguda e estridente gritou vinda do fundo da muralha de crianças. Ninguém concordou ou sequer objetou, mas o olhar de Abellard sobre Leo se tornou mais frio, e o garoto encolhido teve apenas tempo o suficiente para fechar os olhos antes de sentir o bico do tênis duro do garoto maior acertar seus lábios e fazer sua boca ser invadida pelo gosto adocicado de sangue, e a dor aguda nos lábios ensanguentados encherem seus olhos de lágrimas quentes.

Por que estão fazendo isso? Leo se perguntava, quando sentiu o outro golpe, desta vez nas suas costelas, fazendo seu corpo se contorcer de dor e um grito alto escapar por seus lábios.

– Parem, por favor – ele pedia, sentindo simultâneos golpes em seu corpo, mas ninguém o dava ouvidos. Provavelmente seus gritos e gemidos de dor eram mais altos e assim sufocavam seus pedidos vãos de ajuda e misericórdia.

Parem, por favor. Isso dói, ele pensava, fechando os olhos e esperando por algo ou alguém que o salvasse. Jason me ajude. Me ajude.

Mas o tempo parecia nunca passar, e os golpes ainda continuavam, juntamente de insultos e humilhações, e Leo finalmente soube que ninguém o viria ajudar.

Eu queria que todos vocês morressem, ele pensou, sentindo um calor enorme invadir seu corpo. Provavelmente era o calor da dor. O garoto apertou ainda mais o livro quente contra o corpo quente, e conseguiu berrar por entre os lábios cortados, usando toda a força de seus pulmões e deixando toda a raiva sair de si:

– MORRAM!

E Leo abriu os olhos para ver os olhos e rostos de seus agressores, esperando ver apenas medo em seus rostos, e pensando que logo eles iriam iniciar a sessão de espancamento novamente... Mas não foi o que ele realmente viu.

Ondas constantes, quentes e intensas eram emanadas por seu corpo, que estava envolvido numa camada de labaredas incandescentes de fogo vivo, e queimava tudo ao seu redor com fulgor e velocidade. Os rostos de seus agressores pareciam derreter como ceras de uma vela quando os dedos fumegantes das chamas lhe beijavam a carne, fazendo-os urrarem de dor, enquanto as lágrimas que escorriam por seus olhos eram evaporadas pelo calor das chamas.

E Leo se sentiu com medo, e apertou o livro contra o corpo, na esperança de privá-lo da destruição das chamas. Ele se ajoelhou ao chão, com a testa tocando o piso quente e os braços envoltos no corpo, chorando e gritando desesperadamente enquanto o fogo queimava tudo ao redor: corpos, móveis, parede, teto e janelas. Os vidros se estilhaçaram e agora o fogo escalava as paredes velhas como dedos alaranjados e raivosos numa velocidade monstruosa.

As crianças que rodeavam Leo, agredindo-o e o insultando com temor e nojo, agora não mais sequer se mexiam. Provavelmente foram reduzidas a um monte de carne carbonizada e ossos que queimavam.

Uma explosão quando o fogo atingiu a cozinha, e, poucos minutos depois, o fogo se expandiu por todo o prédio do orfanato, já que os pisos de seus andares superiores eram de madeira de lei.

Até mesmo o corpo de Leo queimava, enquanto o garoto implorava para que Jason aparecesse e o salvasse daquela tortura. Mas nada de o garoto aparecer depois de longos minutos, enquanto o fogo era a única companhia que ele tinha direito. Leo ainda chorava, mas não mais implorava por ajuda. Tinha enfim aceitado qualquer coisa que viesse a acontecer com ele, afinal, ele havia desejado a morte de todos ali naquele lugar.

– LEO! – uma voz berrou ao longe, tão distante que Leo quase não a ouviu entre o crepitar alto das chamas, que consumiam a madeira dos móveis com ferocidade. O fogo era uma fera indomável, Leo havia pensado, inconscientemente. – LEO! – a voz continuou a gritar se aproximando mais de onde o garoto estava encolhido, com as paredes gigantes de chamas a queimar tudo ao redor. Uma parte do teto exatamente acima de onde Leo estava começou a rachar, e um enorme pedaço do teto de concreto desabou em cima do garoto, e se tornou pó quando se aproximou dele.

A voz que ainda gritava por Leo lembrava vagamente a voz de Jason, porém havia desespero nesse tom de voz, e Leo hesitava em acreditar que era o seu tão amado amigo por nunca antes tê-lo visto tomado pelo desespero. Ele sempre fora tão alegre e vivo que isso parecia quase impossível de se imaginar. Era sempre ele que fazia o cabisbaixo e tristonho Leo sorrir, e agora era o próprio garoto que o fizera entrar em desespero, enfrentando as chamas fortes e violentas na esperança de encontrar Leo.

– LEO! – a voz de Jason berrou quando a madeira carbonizada que era a porta de entrada foi afastada pelas mãos em carne viva de Jason, e o loiro entrou no enorme salão de piso de mármore branco que estava extremamente quente.

As solas dos sapatos de Jason estavam começando a derreter enquanto ele avançava desesperadamente na direção de Leo, mas isso não o fazia para e nem sequer retardar a corrida.

Leo estava bem ali, na sua frente, atrás de uma cortina de fogo vivo, apenas esperando por ele. Eu não vou abandoná-lo, o loiro pensou, pulando através da cortina de fogo, sentindo o corpo arder e a roupa queimar, enquanto um grito gutural subia por sua garganta.

Ele via o garoto, encolhido no chão como uma criança indefesa e sozinha, enquanto o fogo rugia ao seu redor como uma tempestade intensa, abraçando o próprio corpo para espantar os pesadelos.

– LEO! – Jason gritou novamente, e isso atraiu a atenção de seu amigo, que levantou os olhos encharcados de lágrimas no exato momento em que Jason o puxava para cima e o abraçava. Seu corpo estava tão quente quanto o fogo ao redor, de forma que queimou a roupa de Jason e várias partes de seu corpo. Mas isso não era nada comparado a dor que ele poderia estar sentindo, e suportou, abraçando com força o corpo de Leo contra o seu, que soluçava e se agarrava desesperadamente em Jason, se aninhando em seu pescoço e derramando lágrimas ferventes sobre sua pele. – Está tudo bem Leo. Se acalme – ele dizia, com sua voz como seda, e leve como as nuvens. – Já passou. Eu estou aqui, do seu lado; com você.

As chamas ao redor se contorciam, e pareciam gritar, como se estivessem morrendo, e aos poucos iam diminuindo e se afastando de Leo. Seu corpo não estava mais envolto em chamas, e suas roupas estavam quase completamente queimadas e reduzidas a cinzas.

– Se acalme, Leo – Jason pediu, fechando os olhos, tentando afastar da mente a dor excruciante que sentia em todo o corpo. Ele tomou o rosto de Leo em suas mãos e olhou no fundo dos olhos dele, confusos e cheios de medo. – Eu estou aqui, se controle. Não deixe isso tomar conta de você. Controle isso, Leo.

Aos poucos, as chamas foram se extinguindo, até que Leo e Jason estavam cercados por cinzas e labaredas fracas de pouco calor.

– Eu estou aqui, Leo – ele disse, novamente enterrando o rosto no pescoço do garoto. E Jason não conseguiu segurar, e chorou silenciosamente. – Eu vou sempre estar aqui, do seu lado. – ele jurou, apertando o corpo trêmulo do garoto contra o seu. — Eu sempre vou te proteger. Eu prometo.

E o garoto maior desmaiou devido a extrema dor que sentia em todo o corpo, e, olhando ao redor, para as cinzas de seu lar, Leo se levantou e arrastou o corpo inconsciente e fustigado de Jason para um lugar seguro com muita dificuldade.

Leo tinha o olhar fixo nas costas manchadas de Jason, onde as cicatrizes daquele trágico dia cobriam quase completamente o seu corpo. O loiro lavava a sua camisa manchada de sangue na água da margem rochosa do lago, que ficava exatamente na frente da abertura entre duas imensas rochas, onde os três: Nico, Jason e ele passaram a noite, escondidos de qualquer um que os procurassem.

Agora eram desertores, Leo se recordou.

– Me passa a casca, Leo – Jason pediu, olhando para Leo com seus olhos azuis enquanto estava ajoelhado na margem.

O garoto assentiu e pegou a casca lascada grossa e resistente que Jason encontrara, e desde então usava como uma espécie de copo improvisado para momentos de extrema urgência. O CIMEU, como ele gostava de chamar.

– Aqui está o CIMEU – Leo disse, estendendo a casca para Jason, que a tomou da mão do velho amigo e a encheu de água, se levantando em seguida com a camisa úmida sobre o ombro.

Jason usou o tecido umedecido para secar as gotas de suor que brotavam da testa febril de Nico, enxugando com delicadeza e extremo cuidado o seu rosto ruborizado. Em seguida pousou a ponta côncava da casca nos lábios de Nico e despejou a água pura e limpa pelos lábios entreabertos e suspirantes do garoto.

Já fazia dois dias que eles haviam fugidos durante o ataque à Fortaleza, e também fazia dois dias que Nico estava totalmente inconsciente, apenas murmurando coisas sem sentindo e gemendo de dor devido à febre que seu corpo estava mergulhado. Tudo isso devido ao coto gangrenado onde antes estava a mão direita do garoto. O sangramento havia diminuído consideravelmente, mas não parado por completo, e para piorar completamente a situação, agora estava gangrenado. E Leo se sentia completamente inútil por não poder fazer nada para ajudar Nico ou sequer aliviar sua dor.

Jason o havia proibido de queimar o coto, pois tinha medo. E Leo, mesmo sabendo que isso poderia ser o melhor para Nico no inicio, havia acatado o pedido de seu amigo. Mas agora era tarde demais. A única coisa que iria salvar Nico era a amputação completa de seu braço, antes que a infecção se alastrasse por todo o seu corpo frágil e magro.

– O que vamos fazer agora, Jason? – Leo perguntou, pela centésima vez. – Para onde vamos?

Jason não respondeu. Como sempre fazia.

– Eu não queria te dizer, Leo – Jason disse, depois de alguns segundos de silêncio completo. – Mas eu tenho uma ideia do que fazer.

– E o que seria isso, Jason? – o garoto retrucou, impaciente. Não havia nada o que se fazer, a não ser fugir e encontrar um lugar seguro para passar a noite, e acordar no dia seguinte e fugir para outro lugar, e assim repetir a rotina, diariamente até alguém encontrá-los. – Você agora sabe de um lugar milagroso onde eles podem restaurar membros decepados e curar cotos gangrenados? E melhor ainda, um lugar seguro e desconhecido pelos outros, onde estaríamos seguros para sempre?

Mesmo àquilo sendo uma pergunta retórica, Jason olhou para ele e respondeu:

– Sim, Leo. Nós vamos ir até onde o Sol se esconde.

Notas finais
Sim, você conseguiu, e é um vencedor! Obrigado por ler, sério :3 agora é so comentar e ser feliz, aguardando pacientemente a proxima atualização :3 Obrigado a todos :3