Touch

11 The Frozen Forest


Notas iniciais
Desculpem a imensa demora -qq Agradecimentos especiais à: Rainy day Sunny fall - Rin Tskiyomi Di Angelo - j2rugila - ainindea - DiLua - Devika - Srta Claudia e Fernanda. E um agradecimento não menos importante à todos os outros que comentaram, e todos que acompanham e não comentaram por algum motivo

Nico estava cercado por sombras e rostos familiares, que lhe gritavam através da escuridão frases sem som. E todos os rostos tinham algo em comum.

Todos estavam mortos.

Sua mãe o fitava com olhos sem vida, uma face branca e leitosa, lábios tão pálidos quanto sua pele morta, gritando algo para seu filho.

O homem de olhos azuis e frios como o gelo, de lábios finos e brancos também estava ali, observando com um sorriso sínico em seus lábios sem calor. Refletido nas lentes de vidro de seus óculos, estava o próprio garoto, pálido, magro e fraco.

Bianca também estava ali; seus olhos castanhos e sem vida olhando sem expressão para Nico, enquanto lágrimas de sangue escuro e frio marcavam seu rosto branco, e ela também lhe gritava algo.

Agora Percy se aproximava de Nico, com seus olhos verdes-mar opacos e cobertos de sombra, sua pele bronzeada de sol invadida por uma palidez cadavérica. Seus passos eram lentos e vagarosos, e seus pés estavam descalços, e o garoto andava sobre a superfície negra do lago, caminhando em sua direção como se a água abaixo de si fosse um chão sólido. Ele trazia nas mãos um pequeno cálice de prata, que reluzia com um brilho inexistente, seu conteúdo tão negro quanto a sombra que os rodeava.

O moreno morto parou na frente de Nico e lhe estendeu o cálice de prata sem ornamentações ou adereços, e antes de tomar o recipiente da mão de Percy com seus dedos frios, Nico estudou o belo rosto do garoto, e suas feições solenes se distorciam numa expressão horrenda de pura insanidade. Nico não temia.

Nas mãos pálidas de Nico o cálice parecia pesar mais. Tinha o peso dos mortos. Todos os mortos que morreram por sua causa ou por suas mãos frias. O garoto abaixou os olhos para o líquido rubro e escuro que cintilava no cálice, vendo ali seu próprio reflexo cansado e abatido. As sombras se achegavam mais para perto de Nico, ansiando por envolvê-lo em seu manto de silêncio.

– Beba. – sussurrou Percy, antes de as sombras o cobrirem e ele desaparecer na escuridão completa.

Nico não hesitou, e lentamente levou o cálice aos lábios, mas antes de o líquido molhá-los, o cálice perdeu a estabilidade e despencou no chão sólido do lago, rolando ruidosamente e manchando as águas negras num tom rubro e escuro. Nico levantou as mãos diante do rosto, vendo as duas ali, machadas de um sangue vermelho que pingava e deslizava sobre seus pulsos e braços.

Então a pele de seu pulso direito começou a se abrir, como se uma lâmina afiada e invisível o estivesse cortando, rasgando carne, nervos e ossos, até que o garoto viu sua mão decepada mergulhar nas águas rubras. As mesmas águas que o puxavam, gritando frases incompreensíveis e cheias de desespero. As pernas de Nico afundaram rapidamente, e agora a água rubra chegava a tocar-lhe o pescoço.

Nico levantou a mão direita, na esperança de alguém o salvar, mas o seu coto se balançava no nada, sangue escorrendo por seu braço, e antes de ele ser sugado pela escuridão do lago de sangue, viu o céu cinzento, assim como o teto rochoso de uma caverna.

***

Os primeiros flocos de neve branca e úmida caíam do céu, cobrindo o solo verde com pontos alvos que demoravam alguns instantes antes de começarem a derreter.

O frio ainda estava suportável, Jason sabia. Mas o garoto também sabia que isso não iria prolongar por muito tempo. Logo o frio se tornaria mais intenso, e logo as tempestades de neve e vento chegariam, e se não estivessem num lugar quente e seguro até esse momento, com algum tipo de comida e bebida nas mãos, morreriam de frio.

Leo não iria conseguir manter suas chamas vivas e quentes por muito tempo. Suas forças ainda não estavam totalmente recuperadas, e Jason temia grandemente pela vida de seu amigo.

Um coelho rajado de cinza e marrom pulou do meio do tronco caído e coberto de musgo e uma árvore, olhando para Jason com seus olhos escuros e cheios de confusão.

E ali está o café da manha, pensou o loiro, estendendo o dedo indicador e o apontando para a lebre, criando uma centelha de eletricidade na ponta do dedo e a disparando na direção do animal.

Não fora um projétil potente o suficiente para abrir um buraco no corpo do animal, Jason percebeu quando se aproximou e recolheu a caça do chão, fora apenas forte o suficiente para fazer seu coração parar.

– Daqui a alguns dias – dizia Leo, enquanto tirava a pele do animal com a sua faca, a qual sempre trazia dentro de um dos compartimentos do cinto que sempre trazia ao redor da cintura. – eles nem vão mais sair de dentro de suas tocas. O inverno está chegando, e isso significa muita neve e muito frio.

– Eu sei. – Jason rebateu, colocando mais um monte de gravetos acima das brasas incandescente que Leo criara. Eu sei bem disso, ele completou em pensamento.

Leo não disse mais nada, mesmo Jason sabendo que ele tinha muito que ainda queria dizer.

– Ainda falta muito? – ele perguntou enfim, abrindo a barriga da lebre para retirar o intestino e limpar.

– Não – Jason respondeu, sentando-se no chão em frente à pequena fogueira, de costas para a entrada escura da caverna, fitando as chamas fracas que dançavam, vermelhas e quentes sobre os gravetos finos. – Só mais alguns quilômetros ao leste e vamos chegar até a pequena cidade.

– Mas, você realmente acha que ele vai estar lá? – perguntou Leo, se levantando e andando na direção do fogo. – Quer dizer, todos dizem que ele não existe. Que é apenas uma lenda ou uma grande mentira. Como saber se todo esse esforço pra chegar lá vai realmente dar em alguma coisa?

Jason cerrou as mãos num punho forte, sentindo as unhas fazerem pressão contra a pele. Seu rosto estava duro, mas seu olhar decidido.

– Ele tem que estar lá – o loiro respondeu, num murmuro fraco e baixo. – Isso não é uma mentira. Não pode ser uma mentira... – Jason olhou sobre os ombros, na direção do interior da rocha, onde o corpo inconsciente de Nico descansava febril e cheio de dor, com a morte pairando sobre ele. – A vida dele depende disso. A nossa vida depende disso.

Quando Jason voltou o olhar para frente, para a fogueira e para o coelho que pairava acima das chamas, com a carne gordurosa estalando com o calor, Leo o fitava com olhos pesados e cheios de cansaço, rosto sujo e lábios ressecados.

– Nós vamos conseguir, Leo. – disse Jason, olhando diretamente em seus olhos castanho-escuros. O garoto assentiu e se sentou no chão, em frente às chamas.

Logo o coelho estaria pronto, então eles comeriam, fariam um caldo forte para Nico, e retomariam seu caminho em direção ao leste, à cidade onde a salvação deles esperava. Provavelmente.

***

– Pela milésima vez Piper – dizia Reyna, enquanto andava apressadamente em direção à sala do pequeno conselho, agora ainda menor. – Eu não vou retirar ou sequer amenizar a minha sentença dada aos desertores.

– Mas, Reyna – começou a objetar Piper apressando os passos para alcançar a capitã. – Você não acha que está sendo um pouco radical? Poupe-os, é tudo o que peço! Eles poderiam ficar presos por um tempo, ou qualquer outra coisa, só... não os mate.

– Não, Piper – ela respondeu novamente, com voz firme e decidida. Ela era a capitã. Sua ordem era absoluta, e mesmo assim ela insiste em me contrariar? – Minha ordem já foi dada.

– Reyna. – Piper a chamou, segurando em seu ombro com força. A capitã se virou para encarar a garota de belas feições, e estudando seu rosto, viu ali medo e apreensão fortemente estampados. – Retire a sentença. – Sua voz era suave e doce, e por um momento fez os pensamentos turbulentos da capitã se anuviar. – Deixe-os viver.

Reyna afastou a mão de Piper de seu ombro com um tapa rude, olhando a garota com um olhar furioso e frio.

– Como ousa, Piper? – Reyna vociferou, entre dentes cerrados com força. – Usar sua voz em mim, para me fazer mudar de ideia? Eu poderia te matar também, sabia? É isso o que você quer, afinal? Morrer?

A garota não respondeu, apenas abaixando os olhos para o chão poeirento, e a capitã aproveitou esse momento para continuar seu caminho em direção à sala do pequeno conselho.

A destruição estava em toda parte: os pedaços de concreto maciço que despencaram do teto, as vigas queimas e as tendas e pequenas construções destruídas. E tudo isso fora culpa dela, afinal.

Se eu não tivesse sido tão ingênua... A garota mordeu os lábios com força, apressando os passos quando sentiu os olhares dos campistas sobre si.

A pequena construção do pequeno conselho se ergueu a sua frente, cinza e rachada devido ao recente ataque. A capitã abriu a porta e entrou, fechando-a atrás de si logo em seguida.

Apoiou as costas na superfície lisa da porta, as mãos na cabeça, apertando com força um tufo de cabelo entre os dedos, deslizando o corpo para baixo até se sentar no piso frio. A sala estava mergulhada numa escuridão fraca, mas o suficiente para que pensassem que não havia ninguém ali dentro. Ela não queria ser incomodada.

Seus olhos ardiam, pedindo – quase implorando – para que ela chorasse.

Seu lar fora praticamente destruído. Seus irmãos mortos e feridos e sua esperança despedaçada. Outro ataque poderia assolar sobre suas cabeças à qualquer momento, e Reyna não sabia o que fazer. E isso a irritava.

E ainda por cima havia ordenado a morte dos três desertores, sendo um deles o garoto que ela aprendera a amar. A simples ideia de imaginar a cabeça de Jason numa estaca lhe dava náuseas e quase a fazia despencar em lágrimas, mas a capitã prendia a respiração e controlava os pensamentos. Não podia vacilar na frente de todos, logo ela que precisava ser forte a todo o momento.

Também é difícil pra mim, ela quis gritar, mas se contentou em apenas pensar, deixando as lágrimas deslizarem sobre seu rosto, quentes, salgadas e cheias de arrependimento, mas agora eu não posso voltar atrás.

Lá fora, ela sabia, o sol começava a se por no horizonte que logo se tornaria branco com a neve que caía, e ela temia grandemente que junto com a noite fria e a neve, mais Vigias Brancos aparecessem para terminar o trabalho que haviam começado.

***

A neve caía mais rapidamente agora, começando a se acumular em pequenos montes brancos sobre o chão verde, cobrindo os galhos com uma manta branca e natural.

A cidade estava a apenas alguns quilômetros à frente, seguindo a leste.

Jason carregava Nico inconsciente sobre as costas, o garoto murmurando coisas sem sentido e gemendo de dor, enquanto sua única mão enluvada pendia do ombro do loiro, inofensiva, enquanto Leo caminhava atrás de ambos, o rosto cansado, assim como seu corpo. O garoto provavelmente implorava por uma cama macia e quente, já que o frio começava a se intensificar.

O sol se escondia por detrás do horizonte distante, e suas últimas centelhas de luz fraca e quente eram lançadas sobre o chão.

– Jason – chamou Leo atrás do garoto, com sua voz cansada, entrecortada por respirações ofegantes. – é melhor pararmos pra descansar e continuarmos pela manhã.

– Não podemos. – recusou-se Jason, se negando a parar a caminhada. Estava tão perto, tão perto. Seu corpo tremia, e suas pernas doíam, implorando por um descanso. Mas ele não podia. O tempo que perdiam parados era um tempo ceifado da vida de Nico. E ele não podia perder o garoto.

– Podemos. – rebateu Leo, parando de andar. Jason também parou, mas não se virou para encarar seu amigo. Não queria e não conseguia. – Podemos e vamos – ele continuou, com voz controlada. -, por que se a gente continuar a andar por aí, vamos morrer e você sabe disso.

O peso da verdade parecia ser maior do que o peso de Nico em suas costas, mas Jason o ignorou.

– Se você quer realmente salvar o Nico, vamos parar aqui. Agora.

Jason não se moveu.

Ele estava fazendo tudo àquilo exatamente para salvar Nico, como isso poderia ser um contra? Mas ao mesmo tempo Leo estava certo. A neve iria piorar por noite adentro, e logo os três estariam congelados numa grossa crosta de neve branca.

– E o que você sugere Leo? – perguntou o loiro, se virando lentamente na direção do amigo, encarando o com olhos duros e frios.

– Ah, eu sugiro encontrarmos um lugar quente e aconchegante, com camas macias e fofas e um pouco de chocolate quente pra me aquecer – ele disse, abraçando o próprio corpo com os braços trêmulos de frio. – Seria uma boa, não? – o garoto de cabelos encaracolados forçou um sorriso fraco em seus lábios frios.

– Você só pode estar de brincadeira – o loiro murmurou, irritado. Dentre todos os momentos para se fazer uma brincadeira, Leo havia escolhido logo esse; logo o momento errado. – Olhe ao seu redor, Leo, e me diz o que vê. Só têm troncos, galhos e mato. Só. Nada mais. Só esse maldito verde pra qualquer lado que você olhar, então como você espera encontrar um lugar quente no meio do nada?

Leo não respondeu, apenas encarando os olhos azuis de Jason com uma estranha expressão em seu rosto levemente corado pela brisa gélida que circulava ao seu redor. Sua boca estava aberta, mas nenhum som saía.

A respiração exageradamente quente de Nico batia de encontro à pele fria do pescoço de Jason; os gemidos e os suspiros curtos de dor do garoto o preocupavam.

– Nós podemos encontrar algum lugar, Jason – o garoto exclamava, movendo as mãos de forma histérica. – Mas nós precisamos...

– Não, Leo – Jason o interrompeu, se aproximando dele com passadas pesadas e rápidas, sibilando para o garoto com fúria na voz alguns centímetros na frente de seu rosto: – Nós não precisamos fazer nada, a não ser continuar andando. Eu não vou matar o Nico só porque você não quer andar.

O olhar de Leo estava cheio de indignação, seus lábios fortemente cerrados diziam que ele se segurava para não se entregar à raiva que lhe subia pela garganta.

– Eu quero proteger o Nico tanto quanto você – ele disse, com voz trêmula repleta de insegurança. -, mas eu não posso fazer isso se a gente morrer de frio! Você não entende que isso é suicídio?

– Suicídio seria se parássemos em algum lugar, esperando alguém nos encontrar enquanto dormíssemos. – Jason rebateu, soando mais irritado do que realmente queria. — Isso sim seria suicídio.

Jason deu as costas para Leo, voltando a caminhar pelo caminho incerto e inexistente, passando por entre troncos caídos, grandes rochas cobertas por musgos e por matagais densos e úmidos devido à neve que caía mais intensa por suas cabeças. Leo não voltou mais a tocar no assunto.

O sol já havia sumido do horizonte, e o céu era uma aquarela de cores: o caramelo da luz quase completamente extinta do sol, o róseo conjunto de nuvens no meio que antecede o véu negro que iria encobrir o céu por completo quando a noite chegasse.

O corpo de Nico sobre suas costas estava absurdamente quente, e o garoto respirava pesada e aceleradamente, as nuvens finas e pálidas se formando diante de seus lábios a cada respiração, assim como nos lábios de Jason e de Leo, que acompanhava os passos do loiro um pouco atrás, os olhos baixos e duros, assim como sua expressão. O loiro cansado — mas decidido — olhava a todo o momento por cima dos ombros, para se certificar que Leo ainda estava ali, o seguindo, e se sentia culpado sempre que ainda o via ali, as pernas visivelmente cansadas pisando no chão agora quase completamente coberto pela neve.

Eu fui muito duro com ele, Jason pensou, crispando os lábios; ele estava certo, e mesmo assim eu não dei atenção.

Jason podia imaginar como o garoto se sentia, depois de tudo. Sem um lugar para chamar de lar, ou amigos a quem confiar, a não ser Jason, que o ignorava por completo, mesmo ele estando se mordendo de preocupação e medo, e um garoto inconsciente que não fazia nada a não ser gemer e suspirar de dor.

– Desculpe – Jason murmurou, enquanto caminhava, ajeitando o corpo de Nico sobre suas costas. Suas pernas doloridas e cansadas latejavam.

– Tudo bem – a voz de Leo respondeu atrás de si, baixa e insegura. – Eu que tenho que pedir desculpas.

– Pelo quê? – Jason respondeu, enfim engolindo o orgulho. – Você estava certo, em tudo. Eu estava sendo idiota e ignorante, e peço desculpas por isso. Eu só...

–... Queria levar Nico para um lugar seguro. Salvá-lo de qualquer jeito. Ajudá-lo de qualquer forma, não importa como. – Leo completou, dizendo exatamente o que Jason sentia e pensava. – Eu também quero isso, e você não sabe como me sinto impotente e um grande inútil quando vejo que a única coisa que posso fazer para ajudá-lo é acender a fogueira.

Havia uma grande tristeza em sua voz, Jason percebeu se sentindo decepcionado consigo mesmo. Ele sempre havia lutado para proteger os amigos e todos aqueles que lhe fossem preciosos e queridos; foi para isso que havia se tornado forte e respeitado, mas... Seu lar havia sido reduzido à cinzas e escombros, seus amigos tão queridos tiveram suas vidas ceifadas enquanto ele apenas corria e se lamentava. Jason se sentia, também, um grande inútil.

– Suas fogueiras têm sido de grande ajuda, Leo – Jason disse, tentando de qualquer forma amenizar o clima pesado em que eles estavam.

Leo riu. Um riso fraco e curto, que logo morreu, mas foi um riso doce e espontâneo, que deixou Jason feliz e um pouco mais calmo.

Andaram por mais alguns minutos em silêncio, com os flocos frios de neve a caírem como lágrimas congeladas do céu, que havia adquirido agora um tom escuro. As nuvens densas e pálidas encobriam o céu estrelado, e escondiam por detrás de si a lua minguante e seu tão belo brilho.

Jason andava mais lentamente agora, redobrando o cuidado a cada passo. O ambiente ao redor estava mergulhado num breu quase total, e o loiro tinha de manter os olhos ora no chão, para desviar de buracos ou qualquer outro tipo de obstáculo, e ora em sua frente, para o caminho que se abria diante de si, avaliando com olhos lacrimejantes o caminho para o Leste.

– Jason! – exclamou Leo atrás de si, fazendo o loiro virar por instinto e medo, pensando que algo acontecera com seu amigo. Mas ali estava o garoto magro de cabelos encaracolados, apontando para frente de Jason, à sua esquerda. O loiro demorou a conseguir ver o quer que fosse que Leo estivesse vendo ali, mas quando enfim seus olhos se concentraram, ele pôde ver.

– É uma casa? – Jason perguntou, hesitando antes de andar na direção da pequena construção.

– Parece estar abandonada há muito tempo – observou Leo, sussurrando cada palavra cuidadosamente, como se alguém pudesse ouvi-lo.

Juntos, se aproximaram da construção. Era uma pequena casa de madeira, velha e escura, onde heras escalavam a parede exterior, se infiltrando pelas fendas entre as madeiras. A porta também era de madeira, e sua superfície estava lascada e arranhada, com talhos fundos e longos, como se um urso raivoso houvesse afiado as garras ali.

Eles nem sequer hesitaram antes de entrar na casa. Qualquer teto sobre suas cabeças agora era bem vindo.

A construção era ainda mais destruída em seu interior. As paredes de madeiras internas estavam cheias de rachaduras e buracos, e o teto era fino e frágil, com uma imensa cratera no centro, onde a neve se acumulara num monte de quase trinta centímetros, tornando o ambiente naturalmente frio, com uma névoa pálida e tênue pairando sobre o nível do chão. Não havia mobília alguma ali dentro, apenas um tecido enrolado e jogado num canto.

– Este lugar está bom – Jason disse enquanto avaliava o interior decrépito da casa, girando o corpo em todas as direções. – Vamos passar a noite aqui.

***

O primeiro turno de vigia seria de Jason, concordaram.

O loiro estava sentado no canto escuro da casa, com um Nico encolhido em seu lado direito, com o rosto virado para a parede, os lábios trêmulos e corpo quente, com uma fina manta velha e gasta jogada por cima de seu corpo febril.

Leo estava deitado no chão ao lado esquerdo de Jason, com o rosto virado para a janela onde, através de seu vidro quebrado, era possível ver a floresta escura mergulhada no silêncio da noite.

Leo sabia que precisava dormir, apenas não conseguia. O garoto ficava remoendo em sua mente tudo que acontecera, imaginando todos os mais trágicos cenários em sua mente conturbada, sentindo uma inquietação crescer como uma onda de um devastador tsunami. As imagens do passado se juntavam com flashes rápidos e constantes de alguns dias atrás, quando tudo estava aparentemente normal e, por assim dizer, feliz.

Leo tentava desesperadamente se apegar às lembranças calorosas e felizes, por mais que todas as outras viessem a sua mente como mísseis teleguiados, com o alvo travado em sua sanidade. Era difícil e doloroso se apegar a um passado impossível de se ter novamente, mas isso era agora o seu único refúgio.

O garoto tinha vontade de correr sem parar em direção à fortaleza e ver com seus próprios olhos o resultado do primeiro ataque de outros muitos. Tinha vontade de sentir em ódio enorme e sem precedentes contra a Corporação Tártaro e contra a Organização Atlas, porém não conseguia.

Estamos numa guerra, ele pensou, fechando os olhos e tentando de alguma forma acalmar os pensamentos. Aquele que apertar o gatilho primeiro dá início ao massacre.

Leo colocou a mão por dentro da camiseta, e puxou de lá o exemplar parcialmente carbonizado de Virgin Suicides, o livro que Jason lhe dera de natal, cerca de três anos atrás. A superfície de um vermelho escuro da capa estava derretida como cera em alguns pontos, e chamuscados em outros. As páginas estavam ou com suas pontas apenas ou quase completamente beijadas pelas chamas, de forma que a leitura era quase impossível. Mas não era exatamente o conteúdo que importava. O que realmente importava era o significado desse objeto e as lembranças e promessas que ele lhe traziam novamente à mente e ao coração de Leo.

Eu sempre vou estar aqui... Soou a voz de Jason, distante e fraca, gentil e suave como a brisa de primavera.

– Jason – chamou Leo, sem se mover, fitando a gota branca deformada na capa. – Faz quase três anos que a gente já se conhece – ele prosseguiu num tom de voz baixo e distante, sem conseguir evitar que um sorriso surgisse no canto de seus lábios. – Eu ainda me lembro como se fosse ontem de tudo. Dos momentos bons e dos ruins também. E de tudo que você me disse – o garoto fez uma pausa, folheando as páginas quebradiças com os dedos frios. – Naquele tempo, você sempre me pareceu muito maduro e decidido, e isso não mudou. Você se tornou forte, e sei que ainda quer se tornar ainda mais forte, porque afinal é isso que todos nós queremos: se tornar forte para protegermos aqueles que amamos; amigos, familiares ou pessoas importantes ao seu modo, não importa. Todos nós queremos ser fortes, e eu admiro isso em você.

O garoto deixou suas palavras pairarem no ar juntamente com o vento que circulava frio ao redor deles. Jason estava ao seu lado, decidido e forte, com suas muralhas erguidas ao redor de sua própria fortaleza interior... Mas essas muralhas estavam frágeis, e ameaçavam desabar a qualquer momento.

– Somos amigos, não? – Leo perguntou ao seu amigo, deslizando o corpo para cima e se sentando ao lado de Jason, com as costas recostadas na madeira da parede, encontrando seus olhos azuis hesitantes.

– Claro que somos, Leo – o loiro respondeu, forçando um sorriso fraco e pouco convincente.

– Então você sabe que não precisa esconder nada de mim, não é?

O sorriso do loiro desapareceu aos poucos de seus lábios, e sua expressão se tornou pesada e preocupante. Parece que ele estava sentindo uma dor enorme, mas se segurava com todas as suas forças para não gritar. Ele desviou os olhos dos de Leo, fitando a própria mão que pendia apoiada sobre o joelho.

– Do que você está falando, Leo? – o loiro rebateu, num murmuro irritado.

– Estou falando de você, Jay. Você não precisa ser forte comigo – Leo tocou o ombro do loiro gentilmente com sua mão, e por um momento ele poderia jurar que sentiu a enorme e gritante tristeza que tomava o corpo do seu amigo em sua palma. – Eu te conheço.

O loiro abriu a boca para contrariar Leo, mas hesitou, crispando os lábios. Seus olhos tremeluziam com a luz quase inexistente da noite e o rosto levemente corado de frio.

– Está tudo bem, Jason – Leo continuou, apertando os dedos no tecido da camisa de Jason. – Eu não vou contar pra ninguém.

Os olhos de Jason ficaram rasos de lágrimas, e o loiro soluçou antes de enterrar a cabeça entre os joelhos e despencar em lágrimas, sufocando gritos de desespero.

Leo teve de se segurar para não chorar também, por mais que seus olhos ardessem. Ele não gostava de ver seu melhor amigo chorando, por mais que fosse necessário.

Jason se viu para Leo, abraçando-o forte, enterrando seu rosto no vão entre o pescoço e os ombros do moreno, molhando sua camiseta com suas lágrimas quentes e salgadas, cheias de dor e pesar.

– Está tudo bem – Leo dizia para Jason, enquanto acariciava os fios de cabelo de seu amigo, macios e reluzentes como ouro. – Está tudo bem.

Jason chorou como uma criança desolada e solitária por longos minutos, e Leo permaneceu ali, envolto em seus braços fortes e quentes, e depois ambos deitaram-se para dormir, esquecendo-se da vigia.

***

Jason rolou para o lado, com o corpo agora um pouco mais aquecido, tocando a superfície do chão com a pele branca e corada de sua bochecha, apertando os braços contra o peito e encolhendo os joelhos em busca de calor em seu próprio corpo.

O chão estava úmido e tão frio que fez a pele de Jason queimar com o contato, fazendo o garoto afastar o rosto num impulso e gritar de dor quando um pouco de sua pele ficara congelada no chão. Isso foi o suficiente para fazer o loiro despertar por completo, se pondo de pé num salto assustado e confuso. Seus olhos ainda pesados foram forçadamente postos a trabalhar, perscrutando o ambiente ao redor rapidamente, notando que tanto a parede quanto parte do chão estavam cobertos por uma camada fina e quase transparente de gelo, como se água houvesse invadido a construção e fosse congelada logo em seguida, com os cristais finos brilhando, pálidos com a luz escassa que entrava pela cratera no teto sobre suas cabeças.

Nico estava deitado no chão, encolhido e trêmulo de frio, os lábios levemente arroxeados e a respiração constante e pesada se formando em nuvens de vapor diante de seu rosto encovado. Mas, olhando para o outro lado, o loiro não viu Leo, e por um momento teve medo... De que? Não importava, só tinha medo da possibilidade de perdê-lo.

Jason correu na direção da porta, tomando cuidado para não escorregar no chão extremamente liso, e quando passou pelo umbral da porta, varreu com os olhos a paisagem estarrecedora que se abria diante de si.

O branco estava por todo lado. Pairando sobre o chão e deslizando sobre o ar numa névoa branca e pálida que parecia congelar quase que instantaneamente tudo que tocava com seus dedos frios. Os longos caules das arvores estavam brancos como árvores fantasmas, e as pouquíssimas folhas que teimavam em se agarrar nas pontas dos galhos, estavam tão rígidas e congeladas que mal se moviam com o vento fraco e gélido. O chão que antes era uma relva macia e verde era agora um longo tapete de agulhas brancas e afiadas onde a neve não as enterrou. A neve que caía agora em linhas quase perfeitas num céu sem muito vento.

– Leo – exclamou Jason, numa tentativa falha de gritar. Sua garganta estava dolorida e inchada, e seu corpo tremia involuntariamente.

– Estou aqui – a voz do garoto respondeu, baixa e rouca, ao seu lado. Jason virou o pescoço, vendo seu amigo recostado na parede de madeira ao lado da porta de entrada da casa decrépita. Seus olhos castanhos estavam semicerrados, com um brilho opaco, observando a floresta branca a sua frente.

– O que é isso? – o loiro perguntou, fazendo um sinal com a cabeça na direção da névoa e da paisagem branca, enquanto entrelaçava os braços diante do peito. – Não é algo natural, não?

– Com certeza não.

– Então temos que sair daqui – Jason disse, girando o corpo e correndo novamente para dentro da casa, na direção de Nico. Dessa vez o loiro se esqueceu de evitar os pontos congelados, e seu sapato deslizou numa camada de gelo, fazendo-o perder o equilíbrio e cair pesadamente no chão, e chocando o ombro esquerdo com força no chão. Teve de morder a língua para não gritar. Logo se levantou e voltou a andar na direção do garoto mirrado e pálido, inconsciente e febril.

– Vamos – Jason disse, após colocar Nico sobre as costas, passando a manta para as mãos de Leo, que a jogou sobre o corpo de Nico. – E rápido.

Dessa vez Leo não o contrariou, apenas assentiu enquanto dava passadas rápidas e cautelosas atrás de Jason.

Os minutos passavam como se o tempo também estivesse congelado, e eles pareciam nunca se aproximar da tal cidade.

Jason olhou novamente por sobre os ombros, ansiando com toda sua força que a névoa gélida não os tivesse seguindo, como um assassino frio e mortal, mas ela estava, e se aproximando cada vez mais rapidamente.

Quem quer que seja que está fazendo isso, quer realmente nos matar.

Ele apressou os passos, já que não tinha forças suficientes para correr, e a neve que caía começava a se acumular em montes brancos no caminho.

O corpo de Nico já não estava tão quente quanto antes em suas costas, o que não era tão bom, pois era sinal que ele estava morrendo.

Seus fios loiros estavam incrustados de gelo e neve, e seus lábios arroxeados davam um aspecto preocupante em conjunto com a pele branca de seu rosto, que parecia congelada. Jason apenas sabia que estava correndo porque a paisagem ao seu redor se movia, porque ele já não sentia as próprias pernas. Também não sentia as mãos que seguravam com força o corpo de Nico, e seus dedos pareciam tão rígidos e frios quanto os de um cadáver.

Não soube quando, mas agora era Leo que estava à sua frente, seu corpo brilhando como uma vela, emanando um calor acolhedor e prazeroso que trouxe os sentidos gradativamente de volta à mente de Jason. Mas isso não iria prolongar por mais tempo. Leo estava usando as poucas energias que lhe restavam para criar um pouco de calor e luz, e esse fogo consumiria suas forças por completo.

Temos que chegar logo, o loiro pensou novamente, sentindo suas forças voltarem às pernas.

Novamente acelerou os passos, evitando os obstáculos, sentindo os dedos invisíveis da névoa fria e densa a roçarem no tecido grosso de sua calça.

O calor e a luz sumiram aos poucos do corpo de Leo, e agora Jason estava novamente na dianteira, abrindo o caminho e mostrando onde pisar, mesmo que nem mesmo ele soubesse o que estava fazendo. Só tinha um pensamento, e era de que tinham que chegar lá o mais rápido possível.

Distante.

Uma luz distante a amarelada brilhava por entre os troncos das árvores.

Finalmente.

Mais passos, com o frio a penetrar a carne e congelar os ossos como milhares de agulhas frias e agudas.

O solo sobre seus pés agora era terra batida, e a frente o concreto do asfalto era visível aos olhos baços e quase congelados de Jason. A luz era mais forte agora, e o ar um pouco mais quente.

Uma construção pequena se erguia a sua frente, com a aparência de um templo. Humilde e pequeno, suas paredes marrons-avermelhadas estavam rachadas. A porta dos fundos era o alvo de Jason e seus companheiros, ele soube pelo desenho que estava esculpido belamente em sua superfície de carvalho enegrecido: um sol reluzente que se escondia por detrás dos picos altos e pontudos de uma cordilheira.

Jason se aproximou quase correndo, com a esperança queimando sua última centelha dentro de si, subindo o pequeno lance de três degraus rapidamente e parando em frente da porta, respirando pesada e asperamente. Seus pulmões pareciam queimar a cada inspiração, e suas pernas tremiam descontroladamente.

Jason estendeu a mão direta e bateu três vezes consecutivas e lentas na superfície dura e grossa da porta com os nós dormentes de seus dedos. O som pareceu dez vezes mais alto no interior do pequeno templo.

Leo respirava desesperadamente atrás de Jason, batendo os dentes de frio.

A porta se abriu com um rangido baixo, e pela fresta formada, olhos azuis claros os fitavam, hesitantes e temerosos, com fios loiros e bagunçados caindo sobre a testa.

Está certo em temer um visitante em plena madrugada.

– Will – Jason murmurou com voz fraca e cansada, que soou áspera e seca como pedra raspando em pedra. – Will Solace.

O garoto pareceu confuso por um momento, suas sobrancelhas se arqueando com força, mas logo o entendimento o atingiu, e seus olhos se arregalaram com descrença.

– Jason? Mas o que-

– A Fortaleza caiu. – Jason o interrompeu, olhando de relance para o rosto pálido de Nico. Seus batimentos estavam fracos e seu corpo frio. Ele vai morrer, depois de tudo? Não. Jason se negava com todas as suas forças que algo assim acontecesse. – Eu preciso de ajuda, Will. Preciso de um abrigo e de um esconderijo, e preciso principalmente que você salve esse garoto.

Will fitava ora Jason com olhos azuis hesitantes e preocupados e ora Nico, febril e cheio de dor, seus lábios crispados fortemente. Ele olhou ao redor, para a cidade silenciosa que dormia despreocupadamente antes de voltar a pousar a vista sobre os três visitantes.

– Vamos – ele disse, abrindo totalmente a porta e dando espaço para que eles passassem. – Podem entrar.

– Obrigado Will – disse Jason, passando pelo garoto com rosto pontilhado por pequenas sardas cor de ferrugem, todas concentradas na área do nariz e abaixo dos olhos.

– Disponha Jason Grace.

O interior da construção era quente e acolhedor, se comparado à casa abandonada que encontraram no meio da floresta.

Jason virou o corpo, fitando os olhos castanhos de Leo, e não conseguiu evitar o sorriso automático que se formou no canto de seus lábios antes de dizer:

– Eu disse que ele realmente existia.

Notas finais
So, é isso .__. Novamente peço desculpas pela demora na atualização e desculpas pela nível da escrita e os diálogos merda -qq Obrigado por lerem e por gostar