Touch
12 I Want to Feel Alive
Notas iniciais
As luzes de um brilho fraco e amarelo que eram emitidas pelas diversas lâmpadas espalhadas pelo teto alto e pintado de branco, faziam o chão revestido com grossas e lisas tiras de madeira polida reluzir.
Jason deslizou o corpo esquálido e leve de Nico, envolto em suas camadas de tecido e flocos pálidos de neve, para cima do sofá de couro branco como os flocos gordos da neve úmida e fria que agora alcançara as redondezas da casa em que estavam.
O seu coto envolto em trapos surrados estava empapado com sangue escuro, e veias roxas sobressaltavam pela pele pálida de seu pulso. O garoto murmurava frases ou nomes, sussurrando com sua voz fraca e carregada de dor, gemendo por entre seus lábios entreabertos tomados por uma coloração púrpura – resultado do frio, o sangue deixou seus lábios para proteger os órgãos mais importantes.
Jason olhou por sobre o ombro, com o corpo tremendo incontrolavelmente, vendo o pequeno Leo se sentar numa poltrona simples de estofado branco e macio, abraçando o corpo no intuito desesperado de se esquentar, enquanto Will corria até o corredor, gritando nomes e pedidos com sua voz aparentemente calma.
– Mike, traga alguma bebida quente, rápido! Lee, cobertores grossos e quentes. Muitos deles.
Ele voltou a atenção para Jason e Nico, circundando o sofá em que o garoto moribundo, febril e inconsciente estava esparramado, ajoelhando-se no chão de madeira e tomando o pulso esquerdo de Nico em suas mãos.
– Está muito acelerado – ele murmurou consigo mesmo.
Jason só conseguia observar, sem saber o que fazer. Will levantou os tecidos que cobriam a barriga de Nico, apertando seu abdômen pálido com as pontas dos dedos em busca de algum sinal de ferimento interno.
– O que você quer que eu faça por ele, Jason? – o loiro de cabelos despenteados perguntou, inquirindo a resposta com seus olhos azuis.
– Salve-o. Ajude-o. Qualquer coisa, apenas... faça ele parar de sentir essa dor.
A cada gemido e suspiro agudo de dor que Nico emitia por entre seus lábios febris, era como se uma lança embebida em veneno trespassasse o coração de Jason, afligindo e torturando-o interminavelmente.
– Posso aquecer seu corpo, e dar um jeito nesse pulso – o loiro disse, erguendo o coto diante do rosto, torcendo o nariz para a aparência preocupante que se escondia por baixo dos tecidos. – Alimentá-lo com caldos quentes e fortes, mas é tudo.
– Você é um Herdeiro, não? – Jason perguntou, segurando a mão esquerda de Nico e envolvendo-a em seus dedos dormentes num aperto forte por cima do tecido negro da luva que a encobria.
– Sim, eu sou – ele concordou com um maneio fraco de cabeça. – Um Herdeiro de Apolo, assim como todos os outros dessa casa, mas...
– Então o cure – Jason exigiu, cortando qualquer objeção que ele poderia lançar. – Você tem o Toque, não? Cure-o. Agora.
– Jason, eu não posso... – ele começou a dizer, tentando se desvencilhar do pedido, desviando o olhar hesitante dos olhos frios de Jason. O loiro notou a forma estranha e defensiva com que Will agia, e nem sequer pensou antes de se inclinar sobre as costas macias do sofá, e rapidamente estender a mão direita, agarrando a gola da camiseta branca do loiro, apertando o tecido com força e puxando-o em sua direção, lançando um olhar duro e cheio de raiva para os olhos azuis do outro.
– "Mas" o quê? – Jason sibilou, com o rosto de Will a centímetros do dele, suas orbitas azuis se encarando com fúria. – Eu sei que você pode fazer isso. Seus feitos são conhecidos e murmurados na Fortaleza, mas insistem em dizer que você é apenas um mito. Eu te conheço, Will Solace; você conviveu conosco por pouco tempo, mas foi o suficiente. Não tente me enganar, porque eu realmente não estou num clima bom para brincadeiras.
Passos apressados que ecoavam abafados sobre o piso de madeira fizeram Jason soltar Will do aperto e se afastar rapidamente, ainda fuzilando o outro com seu olhar frio.
– Você não entende Jason – ele disse, se levantando e tomando as mantas e os cobertores dos braços finos do garoto alguns poucos centímetros menor que Will. Ele jogou duas mantas grossas e quentes para Jason e outras duas para Leo. – Não é tão simples assim – ele continuou, colocando um cobertor grosso e escuro por cima do corpo de Nico, cobrindo-o da cintura para baixo. – Eu posso curá-lo, claro. Mas isso seria perigoso... para mim.
– O que você quer dizer? – Jason perguntou, jogando o tecido macio e quente sobre os ombros trêmulos e úmidos.
Os flocos pálidos de neve que haviam caído sobre seus ombros e cabelos já começavam a derreter-se, e as gotas frias escorriam por seu rosto.
– Creio que ele esteja se referindo ao Efeito Colateral, Capitão Grace. – um garoto baixo de corpo franzino, cabelos castanhos baixos e olhos escuros brilhantes respondeu por Will, enquanto estendia uma bandeja de metal fosco, com duas xícaras pequenas de porcelana sem ornamentações ou estampas para Jason, o líquido quente e escuro emanando finas ondas de vapor para cima, espiralando em anéis antes de esvanecer.
Jason o estudou cuidadosamente com seus olhos cansados, apanhando a xícara com o café quente em suas mãos, e a ponta de seus dedos antes dormentes se encheram de um calor extasiante e confortável quando tocou a superfície calorosa.
– Quem é você? – o loiro perguntou para o pequeno Herdeiro, surpreso pelo garoto saber tanto sobre ele. – Como sabe tanto de mim?
– A sua reputação o precede, Herdeiro de Júpiter – Will comentou, enquanto desenrolava com cuidado os trapos em volta do coto de Nico, olhando de sobrancelhas arqueadas os tecidos ensaguentados que se amontoavam em seus pés em tiras rubras. – Seus feitos chegam rapidamente até essa pequena cidade, e os muitos ouvidos ouvem, e as muitas bocas murmuram. Todos o conhecem.
– Isso seria algo bom ou ruim? – Jason perguntou, olhando o garoto chamado de Lee por Will sumir por entre um corredor longo iluminado com uma fraca luz amarelada, a mesma que pairava sobre a sala em que se encontravam reunidos.
– Isso depende do seu ponto de vista – Will rebateu, erguendo um olhar brincalhão para Jason.
– Deixa de falação, droga – Leo exclamou ao longe, sentado em sua cadeira com a grossa manta cor de caramelo sobre os ombros, segurando a xícara com o café fumegante diante do rosto. – Você pode ou não pode fazer algo quanto ao Nico?
Will suspirou pesadamente, erguendo os braços e arqueando os ombros em sinal de derrota.
– Como eu disse, o risco é grande. – o loiro respondeu num tom de voz distante. — Eu usei minhas habilidades de cura muito deliberadamente quando cheguei aqui, e parece-me que agora os Efeitos se abatem sobre mim cada vez mais árduos e difíceis; dolorosos e lentos. Ainda não sei quais serão as consequências que isso irá me trazer, mas não quero testar para saber.
– E isso quer dizer... – Jason resmungou, os olhos distantes e cansados pousados na superfície escura do café, vendo refletida ali sua própria imagem.
Estou acabado.
– Eu posso tentar, Jason – Will respondeu, e por um momento Jason não acreditou no que ouviu, e a esperança tomou conta de si, o medo e a apreensão sumindo quase por completo das sombras de seus pensamentos. – Afinal, tenho uma dívida imensurável com você e com a Fortaleza.
– Obrigado, Will – Jason agradeceu, deixando as pálpebras se fecharem ao peso do cansaço, esboçando um sorriso leve em seus lábios. Era como se um enorme peso fosse tirado de seu peito, e por um momento ele voltasse a se sentir leve.
Não. Isso não acabou. Repreendeu-se ele em seu pensamento, apertando com força seus dedos agora quentes ao redor da xícara de porcelana. Isso apenas começou, e coisas muito piores podem acontecer a partir de agora.
– Bom, então – disse Will, ao que Jason voltou a abrir os olhos, vendo-o se levantar e juntar as mãos e estralar todos os dedos, se preparando. – Vamos começar. Mike, Fletcher: tragam os instrumentos.
Instrumentos?
– O que você vai fazer, Will? – Jason perguntou, ficando com o corpo ereto num salto instintivo. Uma gota quente deslizou pela borda de porcelana da caneca e queimou a pele de seus dedos.
– Isso vai ser preciso, Jason – o garoto explicou, lançando um olhar preocupado para o coto de Nico, torcendo o nariz para a aparência de embrulhar o estomago do ferimento. – Não posso curar algo... assim.
Novamente o sentimento forte e quente de raiva subiu pela cabeça de Jason, seu sangue fervendo em cada centímetro de seu corpo alto e forte, já quente pelas camadas espessas de tecidos postos sobre si. Seus olhos azuis pareciam faiscar e seus lábios finos e avermelhados estavam fortemente prensados um contra o outro. A xícara de porcelana frágil ameaçava quebrar a qualquer momento devido à pressão que os dedos de Jason faziam sobre ela.
As frases saíram por seus lábios com muita dificuldade, e cada palavra um uma agulha penetrando o cérebro de Jason:
– Se isso for salvá-lo, faça o que for preciso.
Will olhou com seus olhos azuis claros como o céu da manhã para os olhos azuis elétricos e intensos de Jason, e forçou um leve sorriso, assentindo de leve com a cabeça.
O garoto baixinho e de madeixas rebeldes voltou com uma bacia de água quente nos braços, os passos firmes e suaves, não deixando uma gota sequer de água respingar em parte alguma. As fumaças finas de vapor espiralavam diretamente para cima, sumindo diante do rosto de feições duras de Michael Yew. Ele pousou a bacia na pequena mesa na frente do sofá onde Nico estava deitado, e se afastou com passos apressados e nervosos.
– Não quer se afastar, Jason? – Will perguntou, alisando seus cabelos loiros e despenteados para trás com as mãos, limpando as gotículas quentes de suor que se formavam em sua testa. – A visão do que vai acontecer aqui não é nada boa.
– Já vi coisas piores – Jason resmungou em resposta.
Will riu fracamente, olhando para Jason pelo canto de seus olhos claros e brilhantes.
– Ele é realmente muito importante para você, não? – ele perguntou num sussurro quase inaudível, não esperando por resposta.
Não que Jason conseguisse responder. A frase — por mais simples que parecesse ser — ainda ecoava na mente do loiro com intensidade, fazendo seu coração dar uma leve guinada.
Sim, talvez ele seja realmente especial para mim. Jason refletiu, fitando a feição distorcida de dor de Nico, o suor escorrendo em linhas brilhantes por sua pele pálida e encovada, os ossos salientados através da fina camada de pele que encobria seu rosto. As mexas negras e desgrenhadas de seu cabelo espesso, com fios empapados e grudados na testa devido ao suor.
O outro garoto — Lee Fletcher — retornou com os “instrumentos” os quais Will pedira: uma maleta metálica e fosca com uma alça preta onde seus dedos a seguravam. Em seus olhos havia medo, e sua língua contornava os lábios a todo o momento, engolindo asperamente a saliva garganta abaixo ruidosamente. Todos pareciam estar nervosos. O garoto pousou a maleta de instrumentos ao lado de Will, que agradeceu com um aceno.
– Já fez algo assim antes, Solace? – perguntou Leo, sentado na cadeira macia e distante; seguro de qualquer visão.
– Já – ele respondeu tranquilamente, erguendo os olhos. – Várias outras vezes. Mas sempre parece ser a primeira vez.
Ele abriu a tampa da maleta antiga e surrada, e de lá tirou um bisturi, com a ponta de metal afiadíssimo brilhando perigosamente com uma luz azulada e tênue das lâmpadas que brilhavam amareladas no teto, lançando seus feixes pálidos de luz por todo o ambiente.
Uma luz amarelada e mórbida.
Ele ergueu a ferramenta delicada e perigosa diante do rosto, analisando o metal com olhos distantes e pensativos. E voltou a guardar o bisturi dentro da maleta, murmurando algo consigo mesmo.
O lugar onde antes era a continuação do pulso de Nico, dando em sua mão — na maioria das vezes enluvada e pálida — estava apenas um coto quase que perfeitamente plano, o sangue escuro e espesso coagulado em sua superfície, pontos de tom amarelado de pus ocre pululando em diversas partes da ferida, a pele de seu pulso avermelhada e com veias fundas e escuras serpenteando sobre sua pele. O amarelado de seu osso era visível através do amontoado de carne dilacerada e sangue negro coagulado. Jason teve de controlar a ânsia, por mais que seu estômago se embrulhasse com o simples relance.
Will murmurava algumas palavras para consigo mesmo enquanto observava de perto o ferimento de Nico, lançando um olhar de sobrancelhas arqueadas e lábios crispados com força para o coto. Ele mergulhou um pano branco e fino na água quente – um quadrado perfeito do tamanho de sua palma -, e levou o tecido quente e encharcado para cima do ferimento de Nico, pressionando a superfície molhada do pano contra a carne dilacerada e sobre as crostas de sangue seco e duro, esfregando o pano e limpando a ferida com movimentos firmes e repetitivos.
Jason não sabia o que era pior: ver o sangue de Nico voltar a escorrer pelo coto, ou os seus urros descontrolados de pura e simples dor. Seus olhos negros agora estavam abertos, arregalados ao extremo, enquanto ele chacoalhava a cabeça de um lado a outro como um animal sendo torturado, lágrimas e mais lágrimas quentes manchando seu rosto vermelho de dor.
– Jason – o loiro de olhos claros chamou, empurrando o torso de Nico contra o sofá. O garoto se contorcia e se debatia como um louco, urrando de dor. – Me ajude a segurá-lo.
Jason não reagiu. A voz de Will parecia distante, agora que os olhos de Nico estavam cravados em suas esferas azuis elétricas. Seus lábios pareciam implorar numa prece muda e úmida: me mate, me mate, me mate.
– JASON! – Will gritou, lhe enviando um olhar desesperado. Vergões vermelhos enfeitavam seu rosto onde os dedos de Nico lhe arranharam o rosto, mesmo através do tecido da luva que encobria sua pele fria.
Jason não percebeu que soltou a xícara de suas mãos quando correu, dando a volta no sofá e empurrando com força o torso de Nico com uma mão enquanto segurava o pulso de sua outra mão – ele nem sequer ouviu o som da porcelana fina se estilhaçando sobre o chão de madeira de lei.
O pano – antes branco – manchado de sangue rubro e pus amarelado, manchou a superfície límpida da água no exato momento em que a tocou, afundando na bacia metálica enquanto nuvens escuras de sangue escuro se alongavam na água como dedos.
Will tocou o coto de Nico com a mão direita, a palma apertada contra o ferimento e os dedos em volta de seus pulsos avermelhados, enquanto o garoto urrava e se debatia com a dor excruciante. Uma luz forte e cegante era emanada pela palma aberta de Will, enquanto seus olhos fechados lhe davam uma expressão de profunda concentração. Seus lábios murmuravam palavras rápidas e inteligíveis a Jason. Mas os gritos de Nico eram mais altos, ecoando pelas paredes da casa, e sufocavam as palavras do loiro.
Leo estava ainda sentado na cadeira, os olhos fechados e a xícara tremendo em seus dedos, a manta sobre seu corpo, esquentando-o.
A mão de Will pairava acima do coto de Nico, a luz obstruindo parcialmente a visão, mas mesmo assim, Jason viu. Viu o osso cortado crescer milímetro por milímetro, cristais amarelos se amontoando no topo aos poucos e formando a antiga construção de ossos; ao redor, nervos rígidos e brilhantes de sangue cresciam e envolviam os ossos, a carne os encobrindo enquanto os ossos dos dedos eram preenchidos com suas respectivas matérias-primas, sendo cobertos por suas camadas de músculos, carnes e as tantas de peles. Os urros que escapavam pelos lábios de Nico pareciam ser mais doloridos e fortes, como se seus gritos estivessem rasgando sua garganta, o sangue escorrendo em forma de lágrimas constantes por seus olhos de pupilas dilatadas.
Jason rangia os dentes diante da visão e do som, mas se recusava de toda a forma fechar os olhos para a dor e o sofrimento de Nico.
O sangue parecia correr por correntes sanguíneas invisíveis, circulando os músculos, passando por entre as camadas de peles, até finalmente ser encoberto totalmente por uma camada de pele pálida e de aparência frágil. Os dedos de Nico se moveram, e se fecharam num punho sem forças.
– Jason – ele sussurrou por entre seus lábios úmidos e com cortes, onde seus próprios dentes o rasgaram. Seus olhos estavam distantes e cansados, marejados de lágrimas e semicerrados. Jason afastou Will do caminho com mais dureza do que pretendia, e se sentou na beirada do sofá, ao lado de Nico, deixando sua manta quente cair de seus ombros.
– Estou aqui, Nico – ele murmurou em resposta, limpando as linhas úmidas e brilhantes das lágrimas que molharam o rosto pálido de Nico com os dedos. O garoto deslizou a mão com lentidão até a mão de Jason que acariciava delicadamente seu rosto, e colocou a superfície enluvada por cima da de Jason. Suas pálpebras deslizaram lentamente, escondendo os olhos escuros de Nico e envolvendo o garoto num sono sereno e calmo, livre de dores.
– Agora ele vai ficar bem – Will usou as mãos para se apoiar na beirada de mesa de madeira no centro da sala, impedindo por pouco que não caísse no chão. Sua testa e rosto estavam brilhando com as gotículas de suor formadas ali, e as linhas úmidas marcavam seu rosto, brilhando e cintilando à luz artificial das lâmpadas.
Jason apertou a mão enluvada de Nico, agradecendo a qualquer tipo de entidade que os tivesse olhando – se houvesse alguma, afinal.
– Obrigado, Will – sussurrou Jason em agradecimento, sentindo o coração mais leve no peito, vendo que Nico não corria mais tanto perigo. Will sorriu fracamente para Jason em retribuição, a respiração áspera saindo por seus lábios.
– Não tem de quê, Jason – ele murmurou, a frase entrecortada por respirações fundas. – É para isso que a Morada do Sol existe.
Jason se levantou bruscamente, e nesse movimento rápido, seu ombro ardeu numa enorme explosão de dor aguda, e não conseguiu reprimir o guincho de dor que escapou por seus lábios.
– Você está bem? – Will perguntou, olhando para o ombro de Jason, onde sua mão estava pressionada, e para a expressão de dor que estava em seu rosto. – Quer que eu...
– Não, não precisa. – Jason respondeu rapidamente, ignorando a dor. – Estou bem.
E, com o Nico aninhado em seus braços como uma criança mergulhada num sono calmo e aparentemente feliz, ele seguiu Lee Fletcher pelas escadas até o segundo andar.
***
O ar soprava fraco e frio sobre as grossas camadas de tecido macio e quente que cobriam o corpo de Ethan. A lua brilhava no céu escuro da madrugada, coberta parcialmente por nuvens tênues cinzas, mas os feixes de luz pálida ainda eram lançados por toda a cidade de Nova Iorque, que mesmo durante a madrugada ainda tinha um movimento considerável de pessoas andando pelas calçadas e de carros transitando pelas ruas.
As solas rígidas de seus coturnos negros ressoavam a cada passo que o asiático dava, e abaixo do capuz que cobria sua cabeça, seu olho castanho escuro perscrutava cada pessoa que passava ao seu lado, como se cada um delas fosse uma ameaça em potencial.
O que de fato, para Ethan, pareciam ser.
Os humanos eram uma espécie inferior, pensava o asiático, e ele, assim como todos os outros iguais a ele, poderiam ser considerados superiores a todos eles. Não em números, mas em poder. Mas ele insistia em viver entre eles, respirar o mesmo ar que os pulmões putrefatos dos humanos respiravam, se passando por um deles.
Logo isso não será mais necessário. O asiático pensou, se deliciando com o futuro que brilhava a sua frente. Logo eu caminharei por uma estrada de corpos de humanos mortos, rindo e apontando para cada rosto sem vida.
Ele não conseguia se aguentar em si de tanta ansiedade. Havia momentos em que ele queria rir histericamente, principalmente por causa dos humanos.
Tão ingênuos. Não percebem que caminhamos entre eles desde há muito, apenas planejando e esperando o momento certo para nos reerguermos.
Uma rajada súbita de vento forte arrancou o capuz que cobria sua cabeça, e os fios negros e brilhosos de seu cabelo chacoalharam e bateram contra sua testa. O vento frio arrancou o calor de suas orelhas sem misericórdia. O garoto levantou novamente o capuz sobre a cabeça, e continuou andando.
Está por aqui. Muito próximo. Ethan sentia dentro de si, como um GPS natural.
Um beco se tornou visível um pouco a sua frente, a direta, no meio de dois edifícios cinza que se erguiam do solo até metros acima – um era um Hotel, e o outro um grande e renomado restaurante – suas janelas e sacadas brilhando com uma luz forte e branca, enquanto um burburinho de vozes e risadas eram emitidos de ambos.
Riam enquanto podem, humanos miseráveis. O asiático os amaldiçoou, retirando do bolso de seu casaco de couro negro um maço de cigarros, e colocando um entre os lábios, retirando em seguida seu isqueiro de madeira clara com linhas negras e finas do outro bolso. Acendeu o cigarro, fazendo sua ponta brilhar, vermelho-alaranjada e viva, e sugou a fumaça para dentro de si, se extasiando com a sensação de sentir aquela névoa forte descer e revolver dentro de si como dedos, e a soprou para fora, vendo-a subir para o céu diante de seu único olho e desvanecer contra o fundo negro do céu em anéis pálidos. Logo não terão mais fôlego para qualquer coisa.
Ethan voltou a andar na direção do beco, o sinal natural dentro de si aumentando a cada passo, até que um som foi se tornando mais claro aos seus ouvidos, se tornando mais alto a cada passo:
–... Morra... Não... Isso é... – o som era abafado pelo som dos carros e das vozes.
O beco envolto em sombras estava a sua frente, e Ethan sequer hesitou antes de adentrar nele, o cigarro aceso brilhando entre os lábios, a única luz naquele ambiente mórbido. Suspiros roucos eram emitidos por alguma garganta à frente.
Mais próximo agora, Ethan conseguiu distinguir alguém ajoelhado no chão cinza e frio, com água molhando seus joelhos e o chão a sua volta, suas costas delineadas contra o tecido grosso de sua camisa branca.
O asiático parou, inflando o peito com a fumaça e a mantendo ali por uns segundos antes de exalá-la por seus lábios finos.
– Então você estava aqui, não? – Ethan disse, trocando o peso do corpo de uma perna para outra.
O garoto não respondeu. Apenas sua respiração constante sendo ouvida. Ele começou a se levantar lentamente, e suas mãos estavam manchadas com um líquido escuro e espesso que pingava por seus dedos. Foi só depois que Ethan percebeu que era sangue, e que o líquido que vira sobre o chão não era água, e sim uma imensa poça de sangue.
– Não morra. Não morra. Não morra. – murmurava a figura, um silvo sendo ouvido a cada palavra. – Ah! Isso é muito bom! Não morra...
– Se divertindo na cidade grande, Percy? – ele perguntou, levando o cigarro aos lábios.
O moreno olhou por sobre os ombros na direção de Ethan, encarando-o com seus olhos verde-mar que brilhavam como esferas polidas de esmeralda com a luz pálida da lua. Seu rosto branco curtido de sol estava salpicado de gotas rubras de sangue, e um sorriso grande de dentes brancos enfeitava seu rosto.
– Olá, Ethan – ele disse, se virando na direção do asiático. Abaixo do sangue e em outras partes de seu rosto, riscos fundos e vermelhos estavam estampados. – Eu acabei me esquecendo do compromisso, desculpe.
Esse cara vai se encaixar perfeitamente naquele lugar.
– Apenas dê um jeito... nisso aí – Ethan disse, se referindo aos ferimentos no rosto dele e o sangue por toda a parte, exalando a fumaça cinza tênue por entre os lábios.
Percy se aproximava com passos lentos agora, com o sorriso insano nos lábios, os olhos brilhando, assim como o sangue em seu rosto. O mesmo sangue que deslizava por sua pele, entrando por seus ferimentos abertos — o mesmo sangue que subia por suas mãos, escalava seus braços e pescoço, entrando pelos seus ferimentos e por seus lábios.
– Está melhor agora? – Percy perguntou, sorrindo agora um sorriso de deboche. Suas roupas ainda estavam quase completamente manchadas de sangue, mas nada que importasse. Estava escuro, e as poucas pessoas que os vissem não dariam importância ou nem sequer perceberiam.
– Vamos logo.
– Sim, chefe.
Percy deu inicio a caminhada, andando na frente com passos rápidos e despreocupados, com as mãos no bolso e a mente distante.
Ele não tira aquelas pessoas da mente. As pessoas da Fortaleza pareciam ter uma força imensa nos pensamentos e ações de Percy. Ele havia demorado horas para finalmente conseguir sair de dentro do seu quarto antes do ataque à fortaleza, e quando finalmente o fez, tinha os lábios mordidos e o rosto arranhando. Isso é um perigo. Vou ter de aumentar a dose.
Ethan olhou para o canto escuro onde Percy estava ajoelhado outrora, e estreitando bem os olhos, viu um corpo deitado no chão, coberto de sangue, o rosto totalmente estraçalhado, os dedos totalmente fatiados e os braços repletos de cortes fundos e vermelhos, a boca aberta num último grito, e dos olhos vertendo lágrimas que se misturaram com seu sangue escuro; o resto do corpo estava em situação bem parecida.
Ethan não conseguiu reprimir um sorriso de prazer. Girou o corpo e, antes de andar, deu uma funda tragada no cigarro, exalando a enorme e disforme nuvem de fumaça pálida diante do rosto.
Alguns minutos depois, ambos desciam a escadaria escura abaixo de um armazém nas proximidades de Manhattan. O ar estava pesado e úmido, e cada passo ecoava pelas paredes.
– Que lugar é esse? – Percy perguntou, atrás de Ethan.
– Espere, Percy. Tenha calma.
Chegando ao final do curto lance de escadas de concreto cinza escuro, havia uma pequena porta de metal com uma maçaneta redonda e de metal frio.
Abrindo a porta, um enorme e vazio salão amplo e deserto de paredes, teto e chão acinzentados se abriu diante de seus olhos. O lugar estava completamente vazio, à exceção de duas pessoas que estavam sentados no canto à direita, em caixotes de madeira e pedaços alaranjados de tijolos.
Então eles realmente vieram. Um sorriso se formou nos lábios finos de Ethan sem a permissão do mesmo.
Entraram. Percy na frente, olhando para o lugar deserto ao redor e cravando os olhos nas figuras à frente.
– Boa noite a todos – disse Ethan quando chegou à frente dos novatos contratados. Ninguém o respondeu, lhe enviando apenas olhares duros.
Eram apenas dois, por serem os primeiros. Uma garota alta e forte, de cabelos castanhos e olhos castanhos-escuros beirando o completo negro, duros e frios, assim como seu rosto. O garoto era alto, de cabelos loiros como fios longos de ouro, cortado e despenteado, e olhos azuis e frios como um bloco de gelo. Uma cicatriz funda e espessa se estendia desde a parte inferior de seu olho esquerdo numa linha irregular e pálida. Ele tinha uma espada de metal cintilante pousado sobre um joelho, deslizando um pano branco sobre o metal frio.
– Você deve ser Clarisse La Rue, a Herdeira de Ares – Ethan disse, olhando para a garota forte. Ela assentiu em resposta. – E você deve ser Luke Castellan, O Espadachim, e sua famosa espada. – dessa vez para o garoto, que também assentiu em resposta. Ninguém sorria. Todos tinham um olhar frio e duro estampado em seus rostos.
Eles alimentam um grande ódio em comum. Isso é bom. Ethan refletiu, o pensamento esquentando seu coração. Muito bom.
– E esse é Percy Jackson – Ethan disse para eles, dando dois passos para o lado, permitindo a todos a visão do moreno de olhos verdes. – Herdeiro de Poseidon.
Percy olhou para eles, sem esboçar reação alguma, a não ser a sua típica de confusão.
– O que é tudo isso? – ele perguntou, indicando os novatos com um maneio de cabeça.
– Isso, meu amigo, são seus novos parceiros – explicou ele, andando na direção de Percy com um sorriso nos lábios. – E isso – ele continuou, apontando para Luke e Clarisse, e para todo o ambiente ao redor. – Somos nós. Seja bem-vindo aos Profanos.
***
Nico abriu os olhos lentamente com um gosto forte inundando sua boca, e um emaranhado de fios amarelos estava diante de seus olhos. Confuso, o garoto lutou para se sentar, esfregando os olhos para afastar o torpor do sono e o cansaço que se abatia sobre ele, e olhou ao redor.
Estava num quarto, amplo e espaçoso. Paredes brancas e lisas, com quadros retratando paisagens inóspitas e belas, uma escrivaninha de mogno, um simples e pequeno guarda roupa com maçanetas redondas e douradas, duas janelas grandes e a cama, macia e quente em que estava deitado.
Não sabia como fora parar ali, e parecia que suas memórias estavam mais bagunçadas que seus próprios cabelos negros, mergulhados num vazio e jogadas aos sete ventos. Lembrava-se de verde, água e vermelho... muito vermelho. De uma tristeza enorme e gritante que parecia dilacerar seu coração, de uma dor e de um sentimento sendo estilhaçado como vidro.
Subitamente uma lembrança lhe atingiu. Uma lembrança rápida e extremamente dolorosa. Ficou sem ar por um momento, tentando seriamente associar a lembrança com a realidade calma em que acordara.
Olhou para suas próprias mãos, pensando que iria sentir falta de uma, mas ali estavam as duas, pálidas e com uma fina camada de pele. Na lembrança ele havia perdido uma mão, mas, no final, as duas estavam ali.
Foi só um sonho. Nico pensou, aliviado, respirando profundamente.
– Nico? – uma voz murmurou ao seu lado, fraca e embargada. – Já acordou?
O garoto olhou para o lado, para a beirada da cama, e viu Jason, com o rosto amassado e marcado com linhas vermelhas onde estava pressionado contra o lençol alvo da cama. Seu cabelo estava bagunçado e torto, e seus olhos lacrimejados por um bocejo. Vendo-o ali, ao seu lado, Nico não conseguiu evitar esboçar um sorriso.
O garoto não sorria, e seu rosto esboçava confusão. Seus olhos azuis observavam Nico com apreensão e pesar, e seus lábios tremiam quase que imperceptivelmente. Nico sentiu um medo desconhecido e um peso estranho no peito.
– O que foi Jason?
– Nico... – ele começou, hesitante antes de continuar, com o tom de voz baixo e calmo. Parecia um homem tentando conversar com uma criança chorona um assunto delicado. – Você está... bem?
– Claro que estou bem, Jason.
– E sua mão está... boa?
– Como assim minha mão está boa, Jason? – ele perguntou, sorrindo da forma que o loiro agia. – Claro que ela está? Até parece que alguém arrancou minha mão fora.
Um flash rápido do sonho que tivera passou por sua mente.
– Bem, é que – Jason começou, desviando os olhos azuis dos de Nico, fitando o tecido branco abaixo de seu queixo. – você realmente perdeu a mão, Nico. Não se lembra?
O sorriso morreu dos lábios de Nico, e o peso aumentou em seu peito. Cada batida parecia uma alfinetada funda.
– Do que você está falando, Jason? Onde estamos? Que lugar é esse?
– Nico, calma – O loiro disse, se sentando na beirada da cama e segurando os ombros de Nico com força. Seu olhar cintilava de uma forma estranha, e suas feições não estavam alegres ou felizes, cheias de esperança e determinação: estavam distorcidas numa máscara de pesar e extrema tristeza. Será que esse sempre foi o rosto dele?– Está tudo bem. Estamos num lugar chamado A Morada do Sol, que é onde Will mora.
Will? Quem é esse cara? Nico quis perguntar, mas as palavras não saíram por seus lábios. Ficaram presas em sua garganta junto com a enorme vontade de chorar que lhe subia o peito. Chorar pelo que?
– Nós fugimos para cá depois do ataque à Fortaleza – ele continuou, soltando as mãos dos ombros de Nico e as recolhendo ao lado do corpo. – e foi esse Will quem curou sua mão.
– Curou minha... mão? – Nico resmungou, sentindo os olhos arderem e se encherem de lágrimas. – Quer dizer que tudo isso – ele disse, com voz trêmula, colocando uma mão enluvada sobre a cabeça e apertando os fios negros e emaranhados entre os dedos. – realmente aconteceu?
As lágrimas venceram, e o peso no peito de Nico se tornou mais forte do que ele poderia aguentar. O chão sobre si desabou, e ele se sentia sem vida, com as lágrimas deslizando sobre seu rosto pálido e pingando sobre as camadas de cobertor que cobriam suas pernas, os gritos descontrolados escapando de sua garganta descontroladamente. Mas ele não sentia nada. Não conseguia fazer nada. Parecia que ele não estava ali, chorando e gritando, mas sim que observava tudo como outra pessoa. Ele de fato queria ser outra pessoa. Não queria sentir aquela enorme dor. Não queria ter pedido Bianca, sua tão amada irmã, depois de finalmente a reencontrá-la. Não queria ter perdido a mãe, e não queria que todos ao seu redor se preocupassem e se importassem com ele. Não queria mais nada.
Não queria nem viver. Um mundo sem sua irmã não tinha sentido.
– My Bianca. Non può essere vero. Come mai? Non! Bianca... Sorella... – Nico murmurou entre as lágrimas e os soluços.
Os braços de Jason envolveram Nico num abraço apertado, silencioso e quente. Ele não pronunciou palavra alguma, e Nico ficou estarrecido por alguns segundos, com os o rosto encharcado de lágrimas quentes e salgadas. Seu peito ainda doía e as lágrimas ainda escorriam dolorosamente, mas o choro desesperador se transformou num soluço constante. Nico retribuiu o abraço, envolvendo o torso robusto de Jason com seus braços, apertando com força os tecidos de roupa das costas de Jason, fechando os olhos, querendo que esse ato, essa ação sem significado se tornasse algo a mais — algo que pudesse deixá-lo feliz e quente; queria sentir mais disso. Queria se sentir vivo.
– Nico – Jason começou a dizer ainda abraçado com Nico, sussurrando as palavras ternamente em seus ouvidos. – Sei que tudo isso dói, e não tenho palavras para fazer essa dor sumir. Mas eu não gosto de te ver assim, desse jeito. Eu não consigo ver você chorar, sem que eu sinta meu peito rasgando de dor.
Nico sentiu gotas úmidas pingarem em seu ombro e costas, e a dor em seu peito aumentou consideravelmente. Seus olhos abertos fitavam a parede branca, os ouvidos aprumados para o desabafo sincero de Jason.
– Quando estávamos a caminho daqui, tudo em que eu conseguia pensar era em te salvar – ele continuou, a voz soando mais firme e controlada. – Eu só não queria te perder de jeito algum. Eu te conheci num momento tão difícil; tão complicado. E você é desse seu jeito. Parece alguém frio e insensível, mas você realmente se importa com todos ao seu redor e tem os seus pontos fracos. Aprecio a forma como você consegue ser sincero mesmo que isso possa ferrar com você, e a forma forte e convicta que você luta quando quer proteger alguém. Isso me conquistou.
Nico se afastou do abraço, e fitava agora os olhos azuis elétricos de Jason e a forma como brilhavam quando estavam cheios de lágrimas, as mesmas que insistiam a escorrer por seu rosto e queixo. Mas também era doloroso o ver chorar, ali, em sua frente. Por ele.
Nico levou uma mão enluvada até o rosto de Jason, e usou o indicador para limpar as lágrimas que manchavam seu rosto com movimentos delicados. Sua palma pousou sobre as bochechas de Jason, ansiando por sentir a pele do loiro de encontro a sua, sentir sua textura e seu calor.
– Sei que você pensa que não tem mais motivo algum para continuar vivendo, mas eu quero mudar esse seu pensamento, porque você tem uma infinidade de pessoas que gostam muito de você, e que te querem bem. Assim como eu.
Nico ficou em silêncio, absorvendo a quantidade de informações derramadas sobre ele, acariciando o rosto de Jason através do tecido negro de sua luva.
– Obrigado, Jason – Nico conseguiu murmurar enfim, sentindo o peso no peito mais leve. – Por se preocupar tanto comigo e pensar em mim dessa forma. Está tudo sendo muito difícil, é verdade, mas eu tenho você comigo nesse momento.
– E o Leo – ele disse, esboçando um leve sorriso.
– E o Leo. – Nico concordou, sorrindo fracamente, mas não forçadamente. Estava prestes a dizer outra coisa quando Jason agarrou o pulso da mão que o tocava no rosto, e cravou os olhos em Nico.
– Você não precisa carregar todo esse peso sozinho, certo? – ele sussurrou para Nico, sua voz soando tão macia e suave quanto a brisa da primavera. – Eu também estou aqui do seu lado, e sempre vou estar.
– Jason – Nico disse, sem conseguir olhar nos olhos intensos do loiro. Nico sempre fora imensamente grato por Jason o ter tirado daquele lugar, e por sempre ter sido tão gentil e atencioso com ele. – Eu me sinto tão bem quando estou com você. Não consigo nem explicar tudo isso, mas... Eu sou frio, assim como meu toque. Não consigo sentir as pessoas; não consigo sentir o calor da vida em seus corpos. Tenho o poder da morte nas mãos, mas não consigo evitar que minha própria irmã morra! – o garoto exclamou, fechando as mãos num punho apertado, a inconformidade gritando dentro de sua mente, procurando uma razão para tudo isso. Mas tudo em vão.
Amaldiçoado, você foi amaldiçoado. Está destinado a sofrer e matar todas as pessoas que você ama pelo resto da sua vida!
– Nico – Jason chamou seu nome, arrancando Nico dos pensamentos que gritavam lamuriosamente em sua cabeça. A voz estava mais forte e intensa agora, parecendo se aproximar cada vez mais de Nico, erguendo dedos frios e mortos em sua direção. Mas a voz de Jason tinha um poder muito maior na mente do garoto. – há outras formas de sentir as pessoas que gostamos muito.
Nico não o entendeu, mas antes sequer de o garoto conseguir perguntar o que ele estava se referindo, Jason se inclinou, pousando seus lábios sobre os de Nico num beijo afetuoso e rápido, logo se afastando, encarando Nico com olhos azuis apreensivos enquanto o próprio estava sem reação, sentindo os lábios formigarem e o peito bater mais rápido.
– É tão... Quente – ele murmurou após um segundos de silêncio, sentindo os olhos se encherem de lágrimas involuntárias. Era macio também, úmido e acolhedor. Um choque inexplicável de sensações e emoções novas. Seu peito batia descontroladamente, enquanto um calor intenso invadia as maçãs pálidas de seu rosto. Jason olhava ora para os olhos negros de Nico e ora para o lençol entre eles, totalmente inquieto e apreensivo. Nico se inclinou lentamente para outro toque de seus lábios, se extasiando com a sensação dos lábios quentes e macios do loiro contra os seus. Nico não queria mais se afastar do loiro; queria continuar a sentir a sensação boa que era beijá-lo.
Mas foi Jason quem se afastou, se colocando em pé num pulo, de costas para Nico.
– N-Nós temos que descer lá para baixo – disse Jason, gaguejando e com voz ligeiramente estridente. – O Will quer conversar conosco.
Nico não respondeu, tamanha era a felicidade que sentia queimar dentro de si. Lembrou-se das últimas palavras de sua irmã, com os lábios envoltos em sangue e a respiração rarefeita.
Te deixo meu maior legado. Será que ela estava se referindo à vida?
Se for assim, irmã, eu viverei por nós. Nico pensou, deslizando o corpo para baixo das cobertas e se levantando cama. Olhando através do tecido que cobria a janela, era possível ver os flocos de neve caindo lá fora, cobrindo o chão e tudo ao redor com seu manto branco. E o vento ali, fora das camadas quentes e macias de cobertas, estava frio; um frio que arrepiou completamente Nico das cabeças aos pés.
Ele ficou aqui, dormindo de joelhos ao pé da minha cama com esse frio. Nico compreendeu, com uma expressão que misturava a felicidade e a tristeza em seu rosto.
Um casaco lhe fora preparado, e Nico o colocou antes de sair do quarto, dando num correndo pequeno onde mais um quarto estava do lado oposto. Jason o esperava ali, os braços cruzados sobre o peito na frente da porta, e quando viu Nico, sorriu, e em resposta Nico forçou um sorriso fraco que fez com que o loiro desviasse o olhar.
– Vamos – ele disse, indo em direção às escadas e as descendo lentamente, cada passo ecoando na madeira. Nico o seguiu degrau a baixo.
Um cheiro agradável que fez a barriga de Nico roncar se tornou mais intenso quando chegaram ao pé da escada, olhando à frente e vendo Leo sentado num sofá grande, e um garoto de belos cabelos loiros e despenteados sentado numa poltrona à sua frente. Todos os olhos estavam postos em si.
– Eles finalmente chegaram – Leo exclamou, erguendo os braços para cima num agradecimento silencioso, olhando na direção deles com um sorriso enorme nos lábios. – Como foi a noite de vocês, hein? – ele perguntou, com um olhar malicioso que fez Nico corar profundamente. Isso arrancou um riso dele, que voltou a se sentar.
– Nico – o loiro de olhos azuis claros e de pequenas sardas salpicando seu rosto chamou, com dureza na voz. – É melhor se sentar. Temos muito que conversar.
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