Touch
6 Scars
Notas iniciais
Naquela noite, sentados de frente para uma mesa retangular de madeira velha, mas resistente, Nico, Jason e Bianca, comeram um simples caldo quente de carne com rodelas de batata e cebolas, com pedaços de carne de porco e fiapos gordos de carne de frango; mas foi o suficiente. Havia sido a primeira refeição completa que Nico comia em três longos anos, e inicialmente o seu corpo e o estômago rejeitaram completamente o alimento diferente, e o garoto vomitou duas vezes, desperdiçando a comida tão escassa e valiosa no chão poeirento da Fortaleza; mas não desistiu, e pela terceira vez, enfim seu estômago desistiu de rejeitar, de forma que o garoto pôde comer avidamente três tigelas cheias desse caldo forte e quente, se sentindo satisfeito depois, enquanto bebia de um único gole toda a água de seu copo.
Os alimentos ali eram difíceis, Jason havia lhe contado. Uma vez por mês, havia uma seleção onde escolhiam alguns dos campistas que ali moravam, e era a eles entregue a missão de ir até uma cidade próxima e trazer uma grande quantidade de alimentos, assim como remédios e qualquer coisa que lhes fossem úteis. Era uma missão perigosa, pois os homens da Atlas estavam espalhados por todas as cidades, esperando apenas a aparição descuidada de um Hospedeiro, e quando estes eram apanhados e levados para sabe-se lá onde, nunca mais voltavam, e se voltavam, estavam diferentes de alguma forma.
– Viagem nas Sombras? – perguntou Nico quando Bianca lhe explicou um pouco mais sobre o que aconteceu naquela noite. – É disso que você chamou? – ela assentiu com a cabeça, os olhos escuros fitando o rosto impassível de Nico. – Faz sentido, o nome até que se adéqua com a habilidade.
Reyna apareceu, andando pela aglomeração de pessoas nas mesas que estavam comendo e gritando, brincando, cantando, fazendo a maior algazarra que lhe era de direito; mas o olhar da capitã era triste e frio, e suas passadas firmes e longas, vindas na direção da mesa onde os três estavam sentados, enviavam uma mensagem clara para a mente ainda conturbada de Nico: você vai morrer. Ela passou as pernas por cima do banco e se sentou ao lado de Jason, apoiando os braços em cima da superfície mesa.
– Como ela está? – perguntou Jason, e o seu tom de voz exalava preocupação.
– É obvio que nada bem – ela respondeu, ríspida. – Eu levei comida pra ela, mas ela não quer nada. Só fica deitada, com a cara enterrada no travesseiro e chorando.
– Uma hora ela vai se recuperar – disse Bianca, tentando diminuir a tensão do ambiente. – Annabeth é forte, sei que ela vai se reerguer e lutar por ele.
– Sim, eu assim espero – rebateu a capitã, visivelmente irritada. – Pois não dá pra ganhar ou sequer lutar uma guerra, quando o nosso cérebro está danificado – ela lançou um olhar mortífero para Nico, mas o garoto não vacilou, encarando os olhos da capitã sem demonstrar medo. – Espero que o seu resgate tenha valido a pena, Nico Di Angelo, pois, pelo que parece, não tivemos só uma perda, mas sim duas.
Nico não conseguiu responder, e também não mais suportou o olhar penetrante da capitã. Ela estava certa, afinal. Nico havia matado Percy, pois não foi forte o suficiente para abrir a boca e contar a verdade sobre seu Toque, e também agora pode não ser forte o suficiente para lutar uma guerra em que a vida, não só dele, mas a de todos os campistas e de todos os Hospedeiros espalhados pelo mundo estará em jogo.
– E valeu capitã Reyna – respondeu Jason, com voz firme, encarando a capitã com ferocidade. – Se o resgate dele não nos trouxesse nenhum auxilio ou benefício, eu teria sabido disso no mesmo momento em que o vi, e não teria me dado ao trabalho de tê-lo trazido até aqui. Ele nos será de grande utilidade, disso tenho certeza – ela finalizou, olhando para Nico e sorrindo gentilmente, e o garoto desviou rapidamente o olhar das esferas azuis do loiro.
– Tem certeza disso, Jason? – ela rebateu rapidamente, sem hesitar ou pensar. – Pelo que eu soube, ele não tem nenhum treinamento, e, atualmente, é quase que inútil para qualquer fim...
– Precisamos apenas treiná-lo, então – ele disse, e a isso a capitã pareceu ficar sem reação. – Se você quiser, eu mesmo posso fazer isso.
– Isso não é tarefa de alguém em seu cargo, Jason – discordou ela, se levantando da mesa. – Vamos encontrar alguém para treiná-lo...
– Eu vou treiná-lo, eu já decidi.
Reyna suspirou e levantou os braços para cima, se dando por vencida.
– Já que insiste, capitão – ela disse, e olhando para Nico... ela sorriu. Um riso forçado e muito provavelmente frio. – Parece que pelo menos têm algumas pessoas aqui que gostam de você, Nico. Aproveite – ela disse, com voz baixa, se retirando em seguida e deixando atrás de si um Nico em que se mesclava em seu interior a raiva, a tristeza, a culpa e a aceitação.
Ela está certa, disse a voz novamente em seu interior. Ninguém gosta de você, sempre foi assim, está sendo assim e sempre será assim. Aprenda a conviver com isso Di Angelo, e transforme essa recusa das outras pessoas em seu poder. Foi a primeira vez que a voz em seu interior havia dito algo útil e com um pouco de razão, pois ela era geralmente insana e gritante.
– Quando vamos começar Jason? – Nico perguntou, se sentindo ansioso.
– Pode ser amanhã de manhã, se preferir – ele respondeu, arqueando os ombros num gesto de indiferença.
– Sim. Amanhã – quanto mais rápido melhor; completou Nico em pensamento.
– Bom, já está quase na hora do toque de recolher – disse Bianca, apoiando as palmas das mãos no tampo da mesa e se levantando. – Vou procurar a Thalia, porque hoje é nosso dia de vigia. – ela anunciou, se curvando na direção de Nico e lhe beijando suave e gentilmente a testa. – Tenha uma boa noite soldatino. Você também Jason, cuide bem dele.
– Boa noite Bianca – disse Jason, com um sorriso leve no canto dos lábios. – E pode deixar que eu vou cuidar bem dele.
Ela acenou e virou as costas, afastando-se a passos lentos, conversando com vários campistas pelo caminho, distribuindo sorrisos e frases de encorajamento a todos.
Nico e Jason continuaram sentados ali num silêncio total.
– Ela estava certa – disse Nico, enfim, quebrando o silêncio. Ele estava a remoer em sua mente tudo que Reyna havia dito, fitando sem expressão os próprios dedos entrelaçados sobre a mesa. – Ninguém aqui gosta de mim, e pelo que vejo nunca irão gostar, ainda mais quando souberem do meu Toque. Até aqui serei tratado como um monstro.
– Você não é um monstro, Nico – disse Jason calmamente, deslizando a mão pela mesa e tocando o tecido negro da luva de Nico. – Eu gosto de você, e é isso que importa. Sua irmã gosta de você, e se você chegar a conhecer o Leo eu tenho certeza que ele também poderia gostar de você. Mesmo se todos viraram as costas para você, nós ainda estaremos aqui, do seu lado – ele apertou os dedos enluvados de Nico, encarando-o nos olhos, que brilhavam azuis intensos.
Por um momento o garoto ansiou por sentir o toque dele em sua pele, e não no tecido. Ansiava por sentir o calor e a maciez de seu toque, e não a sensação de estar tocando um corpo morto. Queria sentir os batimentos do coração dele em sua palma, mas não podia, pois a sua maldição o mataria, assim como ele havia feito com Percy.
– Se eu parecesse perigoso, sei que até você teria medo de mim – murmurou Nico, abaixando os olhos para a mão branca e grande de Jason a envolver a sua. – Eu sou diferente de todos os outros, eu sei bem disso, mas... – a voz de Nico vacilou, e ele podia sentir algo lhe apertando o coração: pareciam dedos frios e magros que tinham o toque obscuro da morte. -... eu nunca disse que queria isso.
– E você acha que eu quis isso? Essa... maldição que todos insistem em chamar de Don? – ele perguntou, libertando a mão de Nico do toque da dele. Por seu tom de voz e sua feição, ele estava visivelmente irritado. – Por causa disso, minha mãe me abandonou, com medo, a mim e à minha irmã, e nos deixou no primeiro lugar que foi oportuno a ela. Foi uma atitude egoísta, e eu a odeio por isso, mas ao mesmo tempo eu tenho de agradecer a ela por ter feito isso comigo, pois assim aprendi que posso ser diferente, nunca abandonando ninguém.
Se você soubesse pelo menos um pouco dos pensamentos insanos que passam por minha cabeça... Ele pensou, abaixando os olhos novamente para o tecido negro das luvas que envolviam as suas mãos frias e pálidas como a morte.
– Não importa o que você diga ou faça para tentar me afastar de você, Nico, eu não vou – ele se levantou bruscamente de onde estava sentado e contornou a mesa, pondo-se ao lado de Nico. – Vamos dormir, amanhã começaremos cedo.
Nico assentiu e se levantou da mesa e juntos caminharam até a tenda.
O garoto podia sentir todos os olhares postos em si, e os poucos que ouviram sua história de longe, cochichavam com os outros, espalhando como um vírus toda a notícia do assassino de seu capitão, Percy Jackson, andando entre eles, como se fizesse parte de tudo aquilo. Como se fosse um deles. Os olhares eram transbordantes de ódio, e provavelmente só não partiam para cima do garoto indefeso por dois simples motivos: 1) por não saber sobre a habilidade do garoto, ao qual ele usara para ceifar prematuramente e vida de Percy, e temendo assim qualquer possível aproximação e 2) por causa do semblante duro e sério de Jason, que andava com uma postura imponente digna de seu cargo, seus olhos brilhando ameaçadoramente.
Enfim chegaram à tenda, e Jason afastou os panos azuis que cobriam a entrada e fez menção de Nico entrar primeiro, e o garoto assim o fez, e logo em seguida Jason também adentrou com passos lentos e com um olhar sério estampado em seu rosto geralmente dócil e gentil.
– Ah, sim; agora que me lembrei – ele disse, indo até um canto da tenda onde, pendurada num fio preto, estava uma toalha branca e felpuda, agarrando a ponta do tecido com os dedos e puxando-a do fio. – Temos aqui um grande banheiro, e acho que você não consegue mais aguentar o cheiro daquele lugar impregnado em você, então – ele estendeu a toalha para Nico, sorrindo. – o que acha de um banho?
O garoto abaixou os olhos para a toalha, com a mente e repetir o que o loiro havia dito a ele: não importa o que você diga ou faça para tentar me afastar de você, Nico, eu não vou. Depois ergueu os olhos para o rosto visivelmente fatigado de Jason, encontrando suas órbitas azuis brilhantes, e assentiu, apanhando a toalha da mão dele e sorrindo em resposta.
***
Leo estava sentado em frente à sua mesa de trabalho, construindo há algumas horas de pura concentração o seu novo protótipo – ou brinquedo, como gostava de chamar –, e tudo parecia estar indo perfeitamente bem e em seus devidos conformes.
– Agora só preciso fundir esses fios nessa placa – murmurou ele, levantando os braços esticados acima da cabeça, numa forma de expulsar o cansaço que insistia em se abater sobre ele. -, e pronto, estará terminado, enfim.
Leo levou o dedo indicador até o centro da placa de metal onde os fios de cobre seriam inseridos, pressionando-o contra a superfície lisa e fria do metal, e focou sua concentração e seu poder na ponta do dedo, usando sua habilidade para fazer a superfície do seu dedo de tornar tão quente quanto possível, para assim derreter parcialmente o centro da placa e inserir os fios de cobre ali...
... Mas foi interrompido com o som semelhante a uma sirene, agudo e estridente de seu interfone do lado exterior da tenda, que ecoou no crânio do garoto como uma buzina velha de uma motocicleta velha, sobressaltando-o, de modo que desenhou uma espécie L de ponta cabeça na superfície do metal com o dedo fumegante.
– Mas que merda – exclamou ele, levantando-se da cadeira e correndo na direção da entrada, apertando o botão interior do interfone e quase gritando para quem quer que estivesse do outro lado: — Quem é e o que quer há essa hora da noite, droga?
A voz metálica e ruidosa respondeu num tom baixo:
– Sou eu Leo. Jason.
– Ca-capitão? – perguntou o garoto, exasperado. Como pude gritar com ele? Leo amaldiçoou a própria impaciência. – Desculpe capitão, eu não sabia que fosse o senhor...
– Pare de me chamar assim, droga – respondeu a voz metálica de Jason do outro lado. – Acho que somos íntimos o suficiente para chamarmos um ao outro pelo nome, não?
– Certo – concordou Leo, num tom de voz agora mais controlado e calmo. – O que você quer Jason?
– Poderia abrir a porta ou está ocupado de mais?
– Estou abrindo.
Leo apertou um botão circular e vermelho abaixo do interfone, e a porta mecanizada se abriu com um silvo baixo, suas duas placas de metal espessas deslizando para lados opostos num raspar lubrificado com óleo, fazendo a tenda quase sempre escura de Leo ser inundada pelo brilho intenso das lâmpadas brancas e grande que ele mesmo projetara, criara e instalara. Jason estava parado do outro lado, encarando Leo com seu rosto branco e duro, seus lábios finos e sérios sem o menor indício de um leve sorriso.
– Que áurea sombria Jason! – exclamou Leo, dando um passo para fora da tenda e acertando um soco de leve no ombro do loiro à sua frente, sorrindo de orelha a orelha, como sempre. – Quem morreu pra você ficar assim?
Se pudesse ser possível, o olhar e a expressão de Jason se tornaram ambos mais duros e frios; e uma tristeza gritante se abateu como uma penumbra em seus olhos sempre brilhantes, como uma nuvem negra de chuva pairando, negra e assustadora, acima de uma cidade pequena.
– Percy – ele respondeu após alguns segundos de silêncio, acrescentando rapidamente: — Percy morreu.
O sorriso também morreu no rosto brincalhão de Leo, e ele quase se levou a crer que Jason estava caçoando dele, mas, olhando mais profundamente para o rosto triste e fatigado de seu velho amigo, percebeu que não era mentira e nem uma brincadeira feita para fazer Leo sentir o gosto do próprio veneno, e sim a mais pura e simples verdade.
– Mas... – murmurou Leo, tentando encontrar a voz que se perdeu em meio à tempestade de sentimentos confusos em seu interior. – Como? – foi a única coisa que ele conseguiu perguntar.
– Acho que ele pode te explicar melhor e mais detalhadamente – disse ele, apontando com o polegar direito acima do ombro para uma figura de um garoto vestido completamente de negro, parado como uma estatua de Halloween, os braços cruzados sobre o peito, o olhar frio e sombrio parecendo sondar o âmago da alma de Leo. Ele sentiu um arrepio percorrer, frio, sua espinha.
– Quem é ele? – sussurrou Leo ao ouvido de Jason, mandando um olhar de esgueira ao garoto parado à alguns metros atrás do loiro.
– Ele é o Nico – respondeu ele, também sussurrando. – E não precisa ter medo dele, pois acho que ele tem mais medo de você do que parece – ele olhou por sobre os ombros e chamou o garoto com um aceno de mão. – Posso pegar uma toalha? Sei que você tem várias por aí mesmo.
– Toalha? Ah, sim, pode – respondeu ele, abrindo passagem para o interior de sua tenda. – Está no mesmo lugar de sempre.
– Obrigado – Jason adentrou um passo no interior da tenda e parou do lado de Leo, pousando gentilmente a mão no ombro do garoto, apertando-o levemente, mas com uma mensagem clara e nítida: seja gentil; logo em seguida entrou completamente na habitação humilde e desorganizada de Leo.
O garoto de aparência sombria se aproximava a passos lentos e hesitantes, com as mãos dentro do bolso da blusa negra que usava por sobre o corpo franzino.
– E aí? – saudou Leo, acenando com a mão e se aproximando uns passos na direção do garoto. – Nico, certo? É um prazer te conhecer, mesmo não te conhecendo ao todo — droga, não deveria ter dito isso, pensou Leo, amaldiçoando a si mesmo mentalmente.
– Igualmente – ele estendeu a mão para fora do bolso, e Leo percebeu que ela estava enluvada. Leo hesitou um pouco, analisando o rosto pálido de Nico à sua frente. Ambos tinham quase o mesmo tamanho, só que com o cabelo longo e desgrenhado de Nico, ele era apenas alguns poucos centímetros mais alto.
– Então – perguntou Leo, limpando da testa uma mancha de suor com as costas das mãos manchadas de graxa. -, qual é sua história?
– História? – ele rebateu, intrigado e confuso.
– É. História – repetiu Leo. – Todos têm uma história de como chegou aqui, e como era antes daqui. Qual a sua?
O garoto olhou para os próprios pés, colocando novamente a mão dentro do bolso da blusa, visivelmente desconfortável com a pergunta.
Seja gentil, repetiu a voz de Jason em sua mente, e Leo rapidamente tentou mudar de assunto.
– Certo, quando tiver a fim de contar, estarei sempre aqui, no meu QG – disse Leo, apontando a sua tenda alaranjada que se erguia atrás de si, pequena e claustrofobicamente sufocante. – Qual o seu... hmn... Dom? Habilidade?
– Eu diria que é mais uma maldição do que um dom – ele murmurou, seu tom de voz baixo e repleto de uma tristeza profunda. – É uma espécie de Toque, que eu chamo de Toque da Morte – ele continuou, como se fosse algo insignificante, com voz calma e olhos vidrados e rosto sem expressão.
– É por isso que usa uma luva? – perguntou Leo, indicando o bolso da blusa com um maneio leve de cabeça.
– Exato – ele respondeu, tirando lentamente a mão direita de dentro do bolso. – Se eu tocar qualquer coisa que seja viva com essas mãos, ela morre quase que imediatamente.
– O Toque da Morte – refletiu Leo, observando a mão enluvada de Nico com grande interesse, quando um pensamento passou por sua mente rapidamente, como um projétil incandescente de uma HX-T1. – Você é o Herdeiro de Hades, o qual Percy foi resgatar da Corporação Tártaro – ele assentiu com a cabeça, seus olhos negros fitando o rosto de Leo. – E ele realmente morreu? – outro aceno de cabeça, esse mais lento e transbordante em tristeza. – Como? Por quê?
O garoto hesitou, provavelmente pensando em algo, com o rosto contorcido de concentração e o cenho profundamente franzido; mas ele enfim acalmou, e voltou à forma normal de antes: o garoto obscuro e sem expressão, e quando disse, num tom de voz baixo e sussurrante, novamente aquela típica e tão presente tristeza – que era a marca registrada de Nico – estava presente em cada palavra.
– É complicado e longo de se explicar...
– Não tenha pressa.
–... Mas, resumidamente, eu posso dizer que foi tudo culpa minha. Na verdade, chego até a dizer que eu mesmo o matei – ele ergueu as mãos diante do rosto. -, com essas mãos frias.
Leo sentiu a raiva queimar dentro de si, e não só dentro. Cerrou os punhos com força, sentindo suas palmas queimarem com pequenas e fracas labaredas laranja nos dedos. Não queria ser levado pelas emoções e fazer alguma besteira com Nico, pois, pelo que parecia, Jason gostava dele; e se Jason gostasse de alguém, Leo também estava disposto a tentar gostar da pessoa, por mais obscura, estranha que ela fosse. Decidiu se concentrar no relato de Nico.
E quando o garoto terminou, não sabia quem odiava mais: se todos aqueles no poder da Corporação Tártaro, ou ele mesmo, por sentir a raiva desenfreada e descontrolado por Nico, que, por mais que se julgasse culpado e dissesse a si mesmo que foi ele mesmo quem matara Percy, não passa de outra vítima. Ele havia sido a peça – e a mais importante do tabuleiro, pelo que parecia.
Leo não conseguia dizer nada para o garoto cabisbaixo a sua frente. E o que dizer? Sinto muito? Não, não era a melhor coisa a se dizer. Geralmente isso soava mais como uma mentira e pena ao invés do que realmente parecia querer dizer.
– Eu meio que te entendo – foi o que ele conseguiu dizer, mas apenas isso; o resto ficou entalado em sua garganta: uma bola de neve – misturada com sangue e fuligem, ossos carbonizados e cinzas – em sua garganta, que se recusava a descer ou sair por seus lábios. – Bem – ele disse, quando se recompôs do rápido flashback que passou por sua mente. – agora é minha vez. Meu nome é Leo Valdez. Sou um Herdeiro de Hefesto e Hospedeiro do Toque Incandescente, ou seja, isso quer dizer que controlo as chamas.
Leo levantou a mão direita diante do rosto, e fez com que ela se envolvesse em labaredas alaranjadas que dançavam freneticamente, quentes e constantes; e fechou a mão em palma, extinguindo as chamas quando a mão se fechou, deixando apenas uma fagulha voar, solitária e fraca no céu da Fortaleza, antes de perder o calor e se apagar.
– Finalmente achei – disse a voz de Jason atrás de Leo, se aproximando a passos rápidos. – Uma organização nessa sua tenda bagunçada seria bom, Leo. Eu mal consigo me localizar quando entro aí – ele disse, saindo de dentro da tenda, com a toalha branca de Leo jogada sobre o ombro.
– Mas essa é a minha bagunça organizada, entende? – rebateu ele, sorrindo novamente. – Se eu arrumar tudo isso, eu é que vou ficar perdido.
– Aham, tá – murmurou Jason, andando até Nico e estacando ao lado dele. – Bom, parece que já conversaram o suficiente. Vamos Nico? Ainda temos de dormir. Obrigado pela toalha Leo. Até mais.
Ele acenou, virando as costas e andando em direção ao final da rua de tendas coloridas, com Nico Di Angelo ao seu lado, fitando os próprios pés enquanto andava.
Leo voltou para dentro de sua própria tenda, fechando e lacrando a porta de metal atrás de si enquanto se encaminhavam para o seu trabalho não terminado, refletindo sobre a curta e rápida cadeia de acontecimentos que o levou a conhecer Nico, um garoto que era muito diferente dele, e ao mesmo tempo demasiado parecido.
Nico tinha o toque frio da morte, que ceifava vidas com um simples toque.
Leo tinha o toque quente das chamas, que queimava corpos e tudo o mais com um simples toque.
Mas Leo, pelo que parecia, tinha total e absoluto poder sobre sua habilidade, enquanto Nico não poderia, por mais que treinasse com afinco, ter controle e desejo sobre sua... Maldição, como ele dizia.
Leo se sentou em frente a sua mesa de trabalho, onde o seu novo projeto estava quase concluído. Derreteu a superfície da placa de metal e inseriu os fios de cobre; fechou o tampo e apertou o interruptor que ligava seu novo brinquedo, esperando o sinal de vida que indicasse que foi um sucesso – e ele o teve. A tela esférica brilhou, toda quadriculada e de fundo verde.
Leo havia criado uma espécie de sensor, como os de submarinos, só que esse cabia na palma da mão, modificado para apenas mostrar algum dispositivo, por menor que fosse, que estivesse dentro ou muito próximo do perímetro da Fortaleza. Essa ideia caiu sobre ele como um raio quando foi a vez dele ser escolhido para a Vigia Noturna e, como ele não gostou nem um pouco de ficar andando por aí durante a noite e madrugada, desejou criar algo que pudesse de alguma forma, fazer com que esse trabalho não fosse mais necessário.
E agora, com a linha verde clara a varrer toda a superfície quadriculada, ele se sentiu vitorioso e feliz. Sem mais Vigias Noturnas para mim!
O dispositivo emitiu um bip baixo e abafado, e o olhar de Leo foi automaticamente levado a seguir a linha que varria a tela do sensor, quando ela passou por um ponto um pouco acima do centro – que no caso era o próprio dispositivo -, e emitiu outro bip, e uma pequena esfera luminosa e vermelha brilhou junto do som, sumindo logo em seguida. E isso se repetiu por mais quatro vezes, com Leo a observar atentamente o mecanismo.
– Não pode ser – ele murmurou para si mesmo. – Será algum defeito? O que eu fiz de errado será? – ele voltou a observar a linha varrer a tela verde, com o ponto vermelho tremeluzindo seguido do bip abafado. – Isso está dizendo que tem algum mecanismo eletrônico dentro da Fortaleza, mas... Não, não é possível – ele concluiu, apanhando o dispositivo com a mão direita e jogando-o por cima do ombro, juntando-se a pilha de outros mecanismos defeituosos ou inacabados – abandonados.
Leo bocejou, e deitou o rosto sobre os braços cruzados sobre e mesa, e dormiu quase que imediatamente, sua mente e corpo ignorando completamente o insistente bip do mecanismo que ecoava no silêncio da tenda.
Bip
Bip
Bip...
***
Nico estava sentado na cadeira de madeira no centro da tenda de Jason, com as costas nuas banhadas pela luz que emanava da lâmpada acima de si, dando a pele pálida uma coloração levemente amarelada; seus cabelos escuros e molhados pela água do banho brilhando com a luz, escorrendo até um pouco acima de sua cintura em cascata.
– Tem certeza que quer isso, Nico? – perguntou Jason, pela terceira vez consecutiva. – Você fica bonito de cabelo longo.
Nico tentou ignorar o elogio, mesmo com o leve calor nas maçãs pálidas do rosto.
– Sim. Tenho absoluta certeza – respondeu o garoto, convicto de sua escolha e pedido. – Isso foi algo que ganhei devido ao meu confinamento naquela maldita Sala Branca, e não quero nada de lá – a não ser as cicatrizes espalhadas pelo meu corpo, pois elas eu não posso fazer sumir, acrescentou ele em pensamento. – É um sinal da minha vontade, do meu desejo.
– Certo – murmurou Jason, erguendo nos dedos a tesoura metálica.
Seus cabelos foram sendo cortados aos poucos, e conforme o chão ia ficando repleto de tufos cortados de cabelos negros, Nico ia criando em sua mente um novo desejo que ele jurara a si mesmo cumprir, não importando quanto tempo levasse nem o que teria de sacrificar para alcançá-lo. Jason aparou um pouco em cima e na frente, para deixá-los um pouco grandes.
– Acho que terminei – disse o loiro, pousando a tesoura metálica numa velha e surrada escrivaninha ao seu lado esquerdo. – Não tirou a essência de Nico de você, mas fiz o que você pediu.
Nico se levantou e andou até o fundo da tenda, onde um grande pedaço quebrado de um espelho manchado com gotas de ferrugem estava colocado, e viu ali seu reflexo: um garoto de olhar triste, frio e sombrio; de pele pálida e rosto encovado; um cabelo negro e desgrenhado cortado um pouco acima do pescoço, onde mechas desgrenhadas caíam por sua testa; seu peito era pálido — assim como todo o seu corpo – e magro, e a forma de seus muitos ossos eram visíveis pela fina camada de pele que os encobriam. Havia cicatrizes de cortes nas costelas e um extenso corte no tórax; e também muitas outras marcas nas costas. Olhando para o seu reflexo mudado no espelho, Nico se sentia revigorado e novo.
Um novo começo, ele pensou, convicto.
Subitamente, o reflexo de Jason se tornou visível no espelho, parado atrás de Nico com um olhar triste e rosto contorcido numa expressão de raiva. Um toque repentino sobressaltou Nico, mas logo ele assimilou o toque a Jason, e fez com que se acalmasse.
– Oh, Nico – murmurou Jason, com seus dedos quentes de pele macia a percorrer delicada e lentamente as cicatrizes e as feridas recentes nas costas de Nico. – Te machucaram. Te marcaram. Te fizeram sofrer tanto, e você apenas aguentava em silêncio pois não tinha forças para revidar; não tinha ninguém por quem lutar e ninguém para te ajudar nessa luta... – Os braços de Jason envolveram o corpo de Nico, apertando-o gentilmente num abraço quente e apaziguador. O coração de Nico batia aceleradamente em seu peito frágil, mas ele não queria se afastar do aperto do corpo do loiro no seu. – Mas agora é diferente – ele disse, num sussurro rouco de voz trêmula. – Agora você tem uma família que pode não gostar de você ainda, não pelo que você parece ser, mas sim por não te entender e também por não saber o que você já tanto sentiu, mas dê tempo ao tempo, que eles te entenderão e te aceitarão, assim como eu te entendi e te aceitei – ele libertou Nico do abraço, e o garoto se virou na direção do loiro, vendo-o encará-lo com os olhos brilhando. Ele estendeu a mão e tocou o peito de Nico, fazendo seu dedo deslizar lentamente pela cicatriz que cortava, horizontalmente, seu tórax. – Enquanto eu estiver ao seu lado, enquanto eu viver, enquanto meu coração bater nesse corpo, eu irei usá-lo para te proteger, e não vou, nunca mais, deixar que alguém te machuque novamente. Eu prometo – ele disse, fitando os olhos escuros de Nico com os seus azuis e brilhantes.
Nico apenas assentiu, sem saber o que dizer. Sentia-se calmo, ali, envolto pela presença de Jason.
Os dois ficaram em silêncio, apenas observando um ao outro, quando um som desconhecido a Nico ecoou do outro lado da tenda, sobressaltando-o.
– Apagaram as luzes lá de fora – explicou Jason, indo em direção ao canto da tenda, onde os sacos de dormir estavam recostados. – É hora de dormir, Nico.
O garoto novamente assentiu, se aproximando de Jason com passos lentos. Pegou uma camiseta preta que estava pendurada no fio preto que antes também estava a toalha, e a colocou sobre o corpo, enquanto Jason estendia um tecido longo e quadrangular sobre o chão plastificado, colocando os sacos de dormir um ao lado do outro, porém distantes entre si. O loiro fez sinal para um deles, e Nico se aproximou, enfiando-se no interior quente e almofadado do colchão. Logo em seguida Jason apagou a luz da lâmpada acima deles, e se enfiou também dentro de seu saco de dormir.
– Boa Noite, Nico – disse ele. – Amanhã vamos treinar duro.
– Obrigado – disse ele em resposta. -, por tudo Jason.
Nico fechou os olhos, esperando encontrar a paz e o sossego, para assim mergulhar no sono, mas não foi isso que aconteceu; a voz voltou a gritar em sua mente, lamurienta e áspera, como pedra raspando penosamente em pedra.
Ele está te enganando, seu idiota! Não demorará muito até que aqueles soldados brancos voltem e te levem até aquela sala branca novamente! Saía daí. Já! Fuja para bem longe, mas não sem antes ceifar a vida desse loiro com um único toque frio! Acabe com ele! Esse grande oxigenado mentiroso e enganador! Ele está te usando, você não vê?
Nico se sentia prestes a explodir e se entregar de vez à vontade da voz, mas não podia, ainda tinha um desejo a realizar, algo a cumprir...
Nico se arrastou para fora do seu saco, engatinhando lentamente até onde Jason estava deitado em seu quente saco de dormir.
– Nico? – ele perguntou ao ouvir o som do rastejar do garoto. – Está tudo bem?
– Não... – murmurou o garoto, sentindo a mente confusa e conflitante; se sentindo como uma criança novamente, ansiando por abraço para afastar os medos. – Essa voz... Ela não me deixa em paz... Por favor, não me deixe sozinho comigo mesmo, porque essa voz, ela vai me deixar louco...
A mão de Jason tocou a mão enluvada de Nico, e o garoto conseguiu se acalmar, e parecia que a voz ficava distante, cada vez mais distante e inaudível.
– Então fique comigo esta noite – ele disse num tom de voz baixo. – Esta noite e, quem sabe todas as outras.
Nico não respondeu nada. Apenas se arrastou mais para perto de Jason, e entrou no interior quente do saco onde ele dormia, deitando a cabeça em seu braço e colocando o rosto no pescoço dele, com seus dedos enluvados agarrando com força o tecido de sua camiseta, na esperança de nunca o deixar sair de perto de Nico.
Após alguns instantes, com os dedos de Jason a lhe afagar os cabelos, quando Nico estava prestes a mergulhar no sono, a voz do loiro perguntou, num sussurro quase inaudível.
– Qual é o seu desejo, Nico? O que você quer fazer?
E Nico murmurou em resposta, com os olhos fechados e totalmente entregues ao sono:
– Eu quero destruir a Corporação Tártaro e tudo que esteja ligado à ela desde seus alicerces, com as minhas próprias mãos.
E foi a última coisa que Nico disse antes de mergulhar num sono calmo, sem sonho e nem pesadelo, apenas com a sensação de estar sentindo o corpo quente de Jason junto ao seu.
Se ele ao menos soubesse que a voz que lhe fizera tal pergunta não era a de Jason...
Fale com o autor