Touch

3 Feel The Touch


Notas iniciais
Tá, eu queria escrever um grande texto agradecendo, mas o Nyah não deixa... Enfim, obrigado a todos os coments Capítulo graaande :v praaa vcs

Já haviam se passado longas horas desde que o garoto alto e loiro entrou na Sala Branca trazendo a refeição de Nico. Pelo menos ele especulava que havia passado horas, pois acabou dormindo, sucumbindo à exaustão em que seu corpo estava mergulhado há tanto tempo.

Uma luz esbranquiçada mórbida e fraca era vista atrás de vidro da janela retangular, então o garoto acorrentado especulou — com um pouco de certeza — que fosse noite, sendo assim a ultima refeição havia sido o jantar.

O pouco tempo em que dormiu havia revigorado as poucas forças que ele achava ter perdido, porém de nada adiantaria ele ter suas forças e energias recuperadas, se não pudesse nem ao menos se levantar e andar no perímetro da Sala Branca. Talvez a energia que ele tivesse recuperado seria gasta para aguentar a dor excruciante da próxima tortura.

Aguente mais um pouco, ele havia dito, portanto Nico aguentaria pacientemente o que quer que lhe fosse infligido. Havia suportado três longos e angustiantes anos sendo torturado e picado pelas pontas metálicas das agulhas, enquanto as lembranças dolorosas lhe escorriam por seus olhos em formas de lágrimas, poderia aguentar um pouco mais.

Nico não sabia o que doía mais: os hematomas, os cortes feitos pelo açoite de couro, ou as lembranças.

A imagem do rosto do loiro de olhos azuis passou novamente por sua cabeça, juntamente de outra frase que ele havia dito: em breve você saíra desse inferno.

Será que ele sentira tanto ódio – assim como Percy – pela corporação, pelo modo como tratavam o garoto, que tentaria libertá-lo de sua prisão? Percy havia sido guiado pela raiva, pelo ódio e pela humanidade que havia dentro de si da mesma forma, e tivera um fim trágico, porém heróico, dando a vida pela liberdade de Nico; e este não honrou o sacrifício dele, sendo novamente aprisionado. Agora a história aparentemente estava se repetindo, e Nico temia pelo jovem loiro que o alimentou – assim como suas esperanças -, temendo o mesmo fim.

Eu não posso deixar outra pessoa morrer por mim, pensou Nico, deixando a cabeça pender para frente, o queixo tocando o peito ossudo e pálido. Eu não quero ver outra pessoa morrer na minha frente...

Uma lembrança antiga passou por sua mente: estava recordando o dia em que havia sido levado até aquela sala, andando ao lado do homem frio e sem expressão por corredores repletos de sala iguais à qual ele estava.

Será que existem outros?, perguntou-se ele, erguendo levemente o olhar para a janela retangular; e se existem, por quê eu?

Nico não via motivo algum para ser preferência em alguma coisa, ainda mais de uma libertação.

E se realmente fosse liberto? O que o esperaria lá fora senão a solidão em um mundo que sempre fora desconhecido a ele?

Esse pensamento o entristeceu, lembrando-se que não havia ninguém que o esperaria lá fora, lhe aguardando com uma recepção calorosa, à exceção de uma irmã que estava sabe se lá onde; isso se ainda estivesse viva. Por mais frio que isso pareça, Nico não se sentiu triste com essa possibilidade; ao invés disso, parecia que essa possibilidade sempre morou em seu coração.

Ou melhor, no buraco negro e morto onde antes estava seu coração.

A porta deslizou, abrindo-se subitamente, porém ninguém entrou na Sala Branca.

Ao invés de uma pessoa, uma mão espreitou para dentro da sala, posicionada com o indicador e o polegar esticado, enquanto os outros três dedos estavam recolhidos à palma, a ponta do dedo apontado para o canto onde as paredes se encontravam diretamente para os olhos mecânicos da câmera.

Quando Nico era criança, ele costumava brincar de guerra com sua irmã, e fazia essa mesma posição com os dedos, fingindo segurar uma arma, porém o garoto acorrentado não achou que ali fosse um lugar apropriado para brincar de guerra.

Antes que Nico pudesse pensar alguma coisa, seus olhos se arregalaram de estupefação, fitando a ponta do indicador da mão erguida de quem quer que fosse, onde faíscas azuis se formavam em volta de uma pequena e transparente esfera de tênue luz azul, quando um projétil azulado cortou o ar num borrão brilhoso, acertando a câmera que se estilhaçou com um barulho de uma explosão pequena, fagulhas e destroços. Antes que pudesse tentar analisar o que havia acontecido, outros três projéteis azulados envoltos em faíscas azuis acertaram as câmeras restantes, também as explodindo em fagulhas brilhantes e amarelas.

A Sala Branca estava sem seus olhos.

Um rosto espreitou pelo vão da porta: era o loiro de olhos azuis, ao qual ele não sabia o nome.

Ele entrou rapidamente no interior da Sala Branca correndo na direção de Nico, e trazia uma mochila grande e escura nas costas. Não estava vestindo o habitual jaleco branco e longo que todos ali pareciam ser obrigados a usar, ao contrário, vestia uma calça jeans simples escura, um Nike preto com cinza, e uma jaqueta também preta e desbotada.

Sua mente gritava: não, vá embora, não venha aqui, não, de novo não!

– Olá – saudou o loiro, ajoelhando-se na frente de Nico, tirando rapidamente do bolso uma chave dourada e pequena e logo a inserindo no buraco entre seus pulsos.

Mas Nico se sentia revivendo o passado.

Mesmo depois de as algemas terem caído ao chão com um tilintar alto que ecoou pela Sala Branca, Nico não se moveu; mesmo depois dos grilhões que prendia seus tornozelos serem tirados, ele ainda não havia se movido. Mesmo quando peças de roupas foram jogadas em seu colo ele não se moveu; ficou apenas fitando o rosto do jovem loiro à sua frente, e sua feição se distorcia na de Percy, num jogo insano feito por sua mente, fazendo-o hesitar e temer. Nico não queria fazer outra pessoa sofrer. Não... não era isso; era um desejo mais profundo e gritante... e egoísta: ele não queria sofrer.

O loiro olhava por sobre os ombros a todo o momento, como que se esperasse a aparição de uma tropa com armas em punho – o que realmente poderia acontecer -, lançando um olhar assustado para Nico.

– Vamos logo – ele disse, percebendo o medo estampado no rosto do garoto não mais acorrentado. – Não temos muito tempo.

– Por quê? – perguntou Nico, e seu tom de voz era baixo e ecoante, como um sussurro numa gruta; o garoto tinha os olhos vidrados nos pulsos marcados por uma listra vermelha escura, quase negra.

– Por quê? – o loiro repetiu a pergunta, franzindo o cenho. – Você tem a chance de ser libertado desse maldito inferno e ainda perde tempo perguntando o por quê?

Nico continuou em silêncio, sem mover um músculo.

O loiro respirou profundamente e disse numa voz serena e cheia de calma e certeza, que fez os pensamentos de Nico sumirem por um momento:

– Porque você não merece ficar acorrentado que nem um animal enjaulado. Só isso que eu posso te dizer agora – ele se levantou. – Vista essas coisas, rápido, nosso tempo está ficando meio apertado.

Nico hesitou, mas logo colocou as peças de roupas jogadas para ele, com dificuldade e dor; após alguns momentos, Nico se levantou com pernas trêmulas, pálidas e fracas, apoiando a mão na parede branca, analisando o que usava: uma calça preta, um sapato preto, uma camisa preta de mangas longas que iam até o pulso e, por cima desta, uma blusa de couro negro com touca que lhe cobria metade do rosto – havia até mesmo ganhado uma cueca.

A sensação de vestir uma roupa após tanto tempo era boa, e ele já podia se sentir humano novamente, porém ainda havia um problema.

– Vamos. – chamou o loiro, pondo-se ao seu lado no intuito de ampará-lo pelos ombros e ajudar Nico a andar, porém Nico se afastou um passo para trás, perdendo as forças nas pernas por um momento, mas conseguiu apoiar um joelho no chão e se estabilizar.

– Eu não posso... – murmurou Nico.

– Não pode? Como assim? Aaargh! – ele suspirou, e Nico pôde sentir que ele estava perdendo a paciência. – Olha... é... Qual seu nome?

– Nico.

– Certo. Olha Nico. Sei que você passou por muita coisa aqui, mas agora acabou. Você tem finalmente a chance de sair daqui, não a desperdice! – ele estendeu a mão, e Nico afastou as suas, lembrando-se do toque frio que havia matado Percy. – Ah, sim! – ele gritou; bateu os dedos na testa e tirou a mochila das costas, vasculhando em seu interior por algo que Nico não sabia. Tirou de lá um par de luvas negras. – Aqui está. Eu tinha esquecido.

Nico apanhou, hesitante, as luvas negras da mão estendida de seu libertador, olhando-as sem expressão.

– Como você sabia? – e tão logo perguntou, logo a resposta chegou à ele: o loiro havia participado das excursões pelo labirinto de corredores e salas, ouvindo com atenção e surpresa o relato dos guias.

– Alguém me contou – respondeu ele, e essa não era a resposta que Nico esperava ouvir. – Agora coloque isso e vamos.

Nico obedeceu guiado pelo instinto de que algo na voz do loiro dizia que algo ainda iria acontecer, e se não saíssem o mais rápido possível daquela sala ofuscantemente branca, eles também seriam pegos na confusão. O loiro colocou o braço de Nico por sobre seus grandes e fortes ombros, e juntos, cambaleantes e devagar, andavam pelo corredor, que, Nico percebeu, tinha todas as suas câmeras reduzidas a estilhaços e fios queimados.

– A propósito, eu não falei meu nome – disse o loiro, virando uma esquina com Nico amparado nos ombros. – É Jason Grace.

Jason Grace. Nico tentou guardar o nome, caso novamente fosse enjaulado.

Enquanto era guiado por um corredor longo e deserto cheio de portas brancas e janelas retangulares, Nico olhava no interior das salas e vendo todas vazias e com suas luzes brancas apagadas.

– Aquilo que você fez com o dedo – disse Nico, lembrando-se do projétil luminoso e explosivo que Jason emitiu pela ponta do dedo. – Como você fez aquilo?

– Aquilo? – ele perguntou, logo em seguida bufou, como se não dando importância àquilo que havia feito. – Aquilo é fácil, com algumas poucas semanas de prática. Faço algumas outras coisas particularmente mais legais. – ele disse, olhando para Nico e sorrindo, porém o garoto não conseguia retribuir o sorriso, pois estava atento demais às esquinas, esperando não encontrar ninguém que os impedisse.

Por todos esses anos de dor e tristeza, Nico havia pensado que era o único que possuía habilidades estranhas, por isso até mesmo ele começou a pensar que talvez realmente fosse um monstro; mas agora percebia que não estava sozinho.

– Eu pensava que era o único... – devaneou Nico em voz alta.

Jason deu uma risada baixa, e Nico não gostou que o loiro risse dele. Na verdade também não gostava de estar sendo amparado por ele.

– Não – ele respondeu, acrescentando em seguida, quando viraram uma esquina: — Existem muitos outros.

Nico ergueu o olhar para o rosto de Jason ao seu lado, fazendo uma expressão de descrença. Muitos?, tipo, Muitos?, ele quis perguntar, mas a frase ficou presa em sua garganta quando viram duas figuras vestidas com vestimentas estranhas guardando a porta metálica do elevador quando viraram outra esquina: usavam uma espécie de armadura branca, como os soldados daquele filme retro Star Wars, mas ao contrário deles não usavam máscaras, e assim seus rosto eram bem visíveis. Um tinha o rosto branco como leite, e suas feições eram salientes, tinha lábios vermelhos e olhos de um azul escuro, e seu cabelo era cortado baixo no estilo militar; o outro tinha o rosto esculpido bruto, com um queixo quadrado e pele cor de chocolate, uma barba fina e escura no rosto e lábios grossos, e seus olhos eram cor de madeira, porém frios e duros, como aço. Em suas mãos enluvadas seguravam metralhadoras de metal negro e fosco de design futurístico, e essas armas tinha uma aparência assustadora e pareciam poderosas.

Jason se interpôs na frente de Nico com os braços estendidos, enquanto os homens à cerca de sete metros a frente deles erguiam as armas, se aproximando com passadas lentas e curtas.

– Nico, afaste-se – murmurou Jason, com o olhar fixo nos homem armados que se aproximavam. – E, se achar melhor, feche os olhos.

Nico se afastou cerca de dois passos para trás, porém não nem ao menos cogitou a possibilidade de fechar os olhos. Seja lá o que fosse que Jason iria fazer àqueles homens, Nico queria assistir.

Sentia um calor queimar com intensidade em suas entranhas, subindo rapidamente até seu cérebro, fazendo o garoto cerrar com força os dentes. Ele mesmo queria ir até aqueles homens e enterrar a sua mão pálida e fria em seus rostos, querendo vê-los se contorcerem e gritaram ao sentir o Toque de Nico a lhe roubarem a vida. Sim, isso seria bom, pensou Nico, sorrindo para si mesmo, vê-los morrerem.

Os braços estendidos de Jason estavam com punhos fechados com força, de forma que os nós de seus dedos se tornaram brancos, e mesmo sem conseguir ver o rosto dele, Nico percebia que o loiro estava profundamente concentrado.

Os homens de armadura branca se aproximavam mais a cada passo, suas armas futurísticas erguidas e apontadas para o peito desprotegido de Jason, mas pararam subitamente, e Nico olhou para seus rostos, e ali estava estampados a confusão e também o medo; seguindo o olhar deles até Jason, percebeu também espantado, que o ar tremulava e circundava o corpo do loiro com velocidade e força, fazendo seus fios dourados se agitarem como em uma dança frenética, e sua camisa tremular como uma bandeira erguida no alto. Então ele estendeu os braços para frente com as palmas abertas, rugindo com força, e o ar que estava ao seu redor foi arremessado na direção dos guardas brancos numa velocidade estupenda, rasgando a parede e o chão brancos como garras afiadas de um enorme leão, estilhaçando tudo em que as lâminas finas de ar acertavam, até que o ar chegou até os guardas, que tentaram um pouco tarde de mais correr, e as lâminas de ar pressurizado estilhaçaram-lhe as armaduras brancas, abrindo talhos profundos e vermelhos em suas costas e pernas enquanto seus corpos eram arremessados para frente juntamente de fragmentos de piso e nódoas de seus próprios sangues; eles bateram contra a parede branca ao lado das portas metálicas do elevador, caindo com grande estrondo no chão, onde ali ficaram inconscientes.

Jason olhou por sobre o ombro com seus olhos azuis postos diretamente nos olhos negros de Nico, e sorriu, e o garoto percebeu que seu sorriso era fraco, e que gotas de suor se formavam em sua testa, escorrendo pelo canto de seu rosto.

– Viu? – perguntou ele, com voz entrecortada por profundas respirações. – Essa é uma das coisas legais que faço.

Nico estava boquiaberto, com os olhos arregalados de estupefação. Como isso é possível?, perguntou-se ele, mesmo sabendo que tinha uma habilidade que fugia um pouco mais dos parâmetros da realidade.

Jason se aproximou de Nico, e lhe segurou o pulso direito para passar seu braço por sobre seus fortes ombros, e quando o garoto sentiu o toque do loiro, mesmo através das grossas camadas de tecido negro, sentiu como se lhe tivessem tocado com fios elétricos, fazendo uma onda de choque percorrer o lugar do toque e se espalhar por todo o seu corpo. Nico instintivamente se afastou do toque, sentindo o coração bater forte.

– Eu estou bem – Nico conseguiu dizer, fitando os olhos azuis elétricos e confusos de Jason. – Acho que já consigo andar sozinho.

O loiro estudou o rosto magro e pálido de Nico com o cenho franzido, e por um momento Nico achou que ele leria a mentira e inquietação que estavam estampadas em seu rosto, porém, se leu nada disse, pois assentiu e fez sinal para que Nico o seguisse.

Jason parou de frente para a porta metálica no final do corredor e apertou o botão que era uma seta para baixo embutida na soleira da porta.

Nico, enquanto isso, examinava os rostos inconscientes dos homens caídos tortamente no chão, com as costas na parede e a cabeça pendente para baixo. Sentia raiva deles por simplesmente estarem ali, vestindo aquela cor e empunhando aquelas armas estranhas; sentia raiva de si mesmo por não tê-los matado, e ainda por cima, sentia medo de si mesmo por esses pensamentos.

– Nós os chamamos de Vigias Brancos – disse Jason, indicando os homens com a cabeça. – E eles parecem estar por toda parte deste maldito prédio.

Nós?, quis perguntar Nico, porém se conteve. Estava ficando tudo cada vez mais confuso.

– Então como sairemos? – perguntou Nico, sentindo medo se ser aprisionado novamente naquela sala branca.

Jason girou o corpo e pousou as mãos nos ombros de Nico, e olhando no fundo dos olhos negros e fundos do garoto, respondeu num tom de voz tranquilizador:

– Fique tranquilo, Nico. Tenho todo um plano bolado.

– Por favor, não me toque – repreendeu Nico, se livrando do toque das mãos de Jason com um passo para trás. Sentia aversão e medo à toque.

– Desculpe – balbuciou Jason, voltando a encarar a porta de ferro e seu reflexo distorcido no metal.

Nico não queria ser chato ou mesquinho, porém toda vez que sentia o toque de Jason, sua mente era inundada por rápidas imagens do passado: o toque de Bianca quando saíram correndo pela calçada, deixando sua mãe morrer nas mãos dos homens de preto; o toque dela em seus ombros, sacudindo seu corpo e lhe dizendo para pedir ajuda no prédio; o toque do homem de rosto de pedra e lábios vermelhos em sua mão, levando-o para o subsolo da corporação, onde ali foi preso e enganado; o toque dos homens com máscaras e roupas de proteção que lhe rasgaram as vestes e lhe prenderam à algemas; o toque das mãos fechadas em punhos, que desciam com raiva e força na carne de seu rosto; o toque dos médicos que o analisavam a cada longo período de tempo, tocando suas costelas proeminentes devido a fome, abrindo-lhe os lábios e analisando sua garganta seca e ferida; o toque metálico das agulhas a lhe penetrar a carne... O toque gentil e preocupado de Percy, limpando suas feridas... O toque de sua mão na mão fria de Nico, logo desabando no chão. E o toque de seus lábios. As imagens esmagavam o coração de Nico, mesmo sabendo que nunca mais voltaria a senti-las.

A porta metálica se abriu, e um borrão branco atingiu Jason no rosto, fazendo-o despencar para trás com as mãos no nariz, e Nico acompanhou a queda do garoto com o olhar, não vendo a mão fria e grande que lhe agarrava o pescoço, puxando-o para dentro do elevador.

– Aonde você pensa que está indo – disse uma voz vagamente familiar. – Espécime XY?

Nico ergueu os olhos que doíam para o rosto à sua frente, e sentiu o ar de seus pulmões se tornarem pedra. Fitando, com horror e medo o rosto a sua frente, lembrou-se do dono da voz. Usava um jaleco branco e longo, e nele não havia nenhuma identificação sequer; usava um óculos de lente fina e quadrada, e por detrás das lentes olhos frios como o gelo fitavam Nico, e seu rosto era duro e sem expressão como uma rocha, seus lábios vermelhos eram duas linhas pintadas nessa rocha; seu cabelo grisalho com poucos fios castanhos era cortado baixo e rente.

– Pensou que nunca mais fosse me ver, é? – ele perguntou, fazendo pressão no aperto, afundando os dedos finos como galhos na carne do pescoço pálido de Nico. – Desculpe por matar suas esperanças.

Ele gargalhou alto, e Nico sentiu a raiva mesclar-se com o medo dentro de si, fazendo-o bater freneticamente as mãos e chacoalhar o corpo para se libertar do aperto sufocante e também da possível volta à sua prisão, que apenas a sombra densa de possibilidade lhe despertava os pesadelos obscuros. O homem empurrou Nico contra a parede metálica do elevador, apertando ainda mais a pressão em volta do pescoço do garoto, mas seu rosto ainda era uma máscara sem expressão; Nico agarrou com as duas mãos enluvadas o antebraço firme do homem.

A porta metálica começou a deslizar lentamente, fechando-se; porém, quando ela estava prestes a se fechar por completo, um par de mãos a agarrou, forçando-a para impedir que ela se fechasse.

Jason, pensou Nico, olhando para a porta que voltava a se abrir aos poucos pelo canto dos olhos, sentindo a mente ser envolta por uma penumbra, e a respiração se fazer necessária. Droga, estou morrendo, pensou novamente o garoto, voltando a encarar o rosto frio do homem que lhe sufocava.

– Seu Toque é muito especial para que o percamos – ele disse, apertando com a outra mão um botão no painel freneticamente, com os olhos agora duros e sérios. – Pelo menos se você morrer, poderemos passá-lo para outro Hospedeiro. Mas não posso deixá-lo fugir.

– NICO! – Jason berrou do outro lado da porta quase fechada, com voz grave e trêmula devido à força feita para impedir a porta de se fechar. – Não desista! LUTE!

Lutar? Eu estou cansado de lutar, me deixe apenas morrer... Pensou Nico, deixando os braços caírem ao lado do corpo; sua visão estava começando a ficar embaçada, e pontos amarelos dançavam diante de sua vista.

Desculpe Jason, por não aproveitar a chance que você me deu.

Desculpe Percy, por não querer cumprir seu derradeiro desejo.

– Não deixe que a vontade dele morra com você... – murmurou Jason do outro lado, e outro rangido foi-se ouvido. Então ele berrou com todas as forças: — VIVA!

Nico então abriu os olhos. Sentia uma onda de adrenalina percorrendo todo seu corpo. Segurou o pulso do homem com sua mão esquerda, apertando-a com um pouco da força que ainda restava.

– Eu não vou... morrer... – murmurou Nico com a voz rasgada e rouca, deixando o resto do ar escapar de seus pulmões.

O homem o olhava com um sorriso frio nos lábios.

Nico fechou a mão direita num punho, e num movimento rápido acertou o cotovelo estendido do braço do homem à sua frente, e o barulho de osso se quebrando foi ouvido, e ele soltou o pescoço de Nico, gritando e uivando de dor enquanto segurava o cotovelo quebrado numa posição estranha.

Nico caiu de joelhos, com as mãos na garganta, arfando desesperadamente por ar enquanto o homem berrava de dor, mas ainda não havia terminado. Levantou-se tropegamente, apoiando uma mão na parede do elevador, re-estabilizando as forças aos poucos. Levou a ponta do dedo anular enluvado até os dentes, e, mordendo o tecido, puxou-o, libertando a mão da proteção negra que caiu aos seus pés. Deu um passo pesado e cheio de raiva na direção do homem que berrava de dor, sentindo o ódio lhe queimando os pensamentos, e enterrou a palma da mão na face do homem, apertando-a com força contra a sua pele, e imediatamente as veias negras se espalharam pelo rosto do homem, e o grito de dor aumentou para um lamento de morte.

– Sinta o Toque – sussurrou Nico, todo o ódio acumulado durante anos enfim saindo por seus lábios, empurrando o homem contra a parede de frente à porta metálica, enquanto as veias negras se espalhavam por sobre a pele de seu pescoço, deslizando como as finas pernas de uma aranha até chegar ao seu peito, quando enfim seu grito cessou, assim como sua respiração e seus batimentos cardíacos; seus olhos ainda estavam abertos, sem cor, brilho e nem vida, e seu rosto estava contorcido numa expressão horrenda e assustadora, onde havia estampado o desespero da morte. Nico afastou a mão do rosto do homem, e ele caiu de cara no piso do elevador.

A porta voltou a ranger, e Nico recobrou o sentido e o controle. Apertou um botão no painel no canto do elevador, e a porta se abriu rapidamente, revelando Jason do outro lado, ofegante e suado, com o nariz sangrando.

– Você está bem? – perguntou Jason, apanhando a luva negra do chão e a estendendo para Nico.

– Sim – respondeu o garoto num tom de voz baixo, sentindo-se enormemente satisfeito; apanhou a luva e a colocou nos dedos.

– Então vamos sair logo daqui – disse Jason, apertando o último botão branco e brilhoso no painel do elevador.

– Centésimo andar? – observou Nico, olhando confuso para Jason, que limpava o sangue do nariz nas costas das mãos. – Mas...

– Não vamos sair pela porta da frente.

– Então por onde?

– Espera e verá.

Jason era um garoto cheio de mistérios, e isso deixava Nico curioso, porém não queria interrogar o loiro, apenas levantou os braços em derrota enquanto a porta de ferro pesado se fechava, e a sensação estranha no estômago indicasse que estavam subindo.

Alguns minutos longos e silenciosos se passaram e eles ainda não haviam chegado ao destino. O corpo do doutor morto ainda estava no chão aos pés de Nico.

Agora seu corpo ficará para sempre aqui nesse inferno, refletiu Nico consigo mesmo. A sensação que Nico sentia era de tudo, menos culpa. Pode-se dizer que o garoto não mais acorrentado se sentia feliz por tê-lo matado. É isso o que chamam de prazer da vingança? Essa vontade enorme de cair na gargalhada?

– Você o odiava? – perguntou Jason subitamente, arrancando Nico de seus devaneios.

– Ele me enganou, mentiu pra mim, destruiu minhas esperanças e me fez de monstro – disse Nico, com o rosto sério. Olhou para Jason e sorriu fracamente, completando: — é claro que eu o odiava.

Jason assentiu com a cabeça, e as portas se abriram, e Nico viu que estavam no topo do edifício.

– Por quê aqui? – perguntou Nico, seguindo Jason pelo perímetro do topo, com o vento a zunir forte e frio em seus ouvidos, bagunçando-lhe o longo cabelo negro. A luz brilhava forte no céu, lançando sua luz tênue sobre os prédios distantes com suas janelas de vidro.

– Fique quieto e me siga – rebateu o loiro, indo em direção do parapeito de concreto cinza escuro. – É aqui – disse ele, fazendo sinal para o espaço vazio que os levariam em plena queda livre metros e metros até o chão.

– Você é louco? – perguntou Nico, apontando para o nada depois do parapeito, onde os topos dos outros prédios de Nova Iorque se erguiam como árvores gigantes. – A menos que você possa voar isso é suicídio.

Jason sorriu e se aproximou rapidamente de Nico, passando um braço ao redor da cintura dele e o braço do garoto por sobre seus ombros, não dando atenção para os protestos e a luta vã do garoto, e correu com ele em direção do parapeito, pulando em queda livre em direção ao nada.

Mas não estavam caindo.

Nico enfim abriu os olhos, e viu que o chão ainda se mantinha uns bons metros abaixo dele, e que voavam tranquila e rapidamente, com o vento frio e refrescante a lhe açoitar o rosto pálido. Mas ele não acreditava.

– Eu posso voar, Nico di Angelo – disse Jason, fitando a frente com seus olhos azuis e um grande sorriso nos lábios, e seus cabelos chacoalhavam com o vento.

A vista ali em cima era realmente bela, com as ruas em seus movimentos frenéticos de neon, faróis; luzes imóveis; burburinho de vozes distantes e músicas. Olhando para a esquerda, a água era negra e resplandecia como um mar de pedras preciosas quando acertada pelo feixe de luz do luar.

– Só não me deixe cair, Jason – pediu Nico, passando o braço ao redor do pescoço do garoto.

O garoto desceu rapidamente o braço da cintura para as pernas de Nico, enquanto o outro braço o apoiava nas costas, fortes e firmes. Nico se sentia seguro, mesmo estando voando a metros e metros do chão, com a possibilidade de a qualquer momento despencar em queda livre e se transformar numa mancha de gordura e sangue no asfalto.

– Não vou, Nico. – disse ele, apertando com força o corpo esquálido do garoto contra o seu. – Eu nunca vou te deixar cair.

Notas finais
eeeeeeeh' Acho que posso dizer que agora que a FIC começa a ficar legal :3 Posso pedir maaais reviews? u.u' Obrigado por lerem e até a próxima o/