Touch
4 A Place to Call Home
Notas iniciais
– Já estamos chegando – gritou Jason para ser ouvido acima do vento forte que zunia em seus ouvidos, ainda segurando o corpo leve de Nico em seus braços, enquanto seus corpos levitavam no ar a metros do chão, que agora era uma densa e longa floresta de pinheiros marciais, que se estendia até onde a vista alcançava. – E eu estou cansado.
Jason começou a descer lentamente, quase que imperceptivelmente.
– Você ainda não me disse para onde está me levando – disse Nico ao ouvido do garoto.
– Você é irritantemente insistente, Nico – murmurou ele, revirando os olhos azuis. – Eu já disse. Estamos indo para um lugar seguro.
Seguro, pensou Nico. Será que realmente existiam ainda lugares seguros em qualquer parte do mundo numa época conturbada como a que estavam? Era difícil de saber, e quase improvável de se acreditar. Porém Nico se obrigou a acreditar.
Eles desciam mais rapidamente agora, e as copas verdes das árvores se aproximavam a cada instante, e o interior escuro da floresta era quase que fantasmagórico com a luz brilhosa e intensa da lua acima deles. Ao longe, próximo da linha do horizonte, uma costa montanhosa se erguiam como dentes da terra.
As copas verdes das árvores agora passaram, e ambos se viram numa confusão de troncos e galhos escuros que lhe açoitavam levemente o corpo e rosto, e o chão marrom escuro repleto de folhas, galhos e relva lhes puxava, e Nico sentia uma grande e incontrolável vontade de tocar com os pés nus a superfície úmida e gelada do chão.
Por três longos e angustiantes anos, Nico ficou confinado naquela Sala Branca, rodeado por paredes brancas e por câmeras que o olhavam 24 horas por dia, acorrentado e desprovido de roupas, sendo torturado e passando por experiências, não podendo vislumbrar nem um resquício da luz do amanhecer, ou a última centelha da calorosa luz do sol antes do crepúsculo, ou ser banhado pelo lençol fino de luz da lua. Mas agora era diferente.
Jason pousou levemente os pés no chão nodoso, deixando Nico deslizar o corpo, pondo-se em pé em frente a ele; por um momento Nico não se deu conta que ainda tinha os braços ao redor do pescoço de Jason ou sequer que fitava longamente seus olhos azuis, até que ele sorriu, fazendo a cicatriz em seu lábio se contorcer. Nico recolheu rapidamente os braços, sentindo um calor lhe inundar as maçãs pálidas do rosto, e nada disse.
Na verdade, Nico não conseguiu dizer uma palavra sequer.
O garoto olhava o local ao redor com olhos que brilhavam. Os grossos e longos caules das árvores que subiam até metros acima, onde seus galhos se engalfinhavam e se entrelaçavam, formando uma enorme e natural abóboda verde de galhos e folhas, onde de um pequeno semicírculo a luz azulada da lua nova penetrava na floresta, banhando tudo com sua tênue luz azul; os grandes pedregulhos de pedras cinzentas cobertos de musgos e heras pareciam que foram colocados ali, formando um circulo perfeito no meio daquele espaço amplo e vazio.
– É lindo, não? – perguntou Jason, e Nico olhou para o lado, surpreendo-se por ele ter se mantido em silêncio e imóvel por tanto tempo, vendo que o loiro também apreciava a bela paisagem que os cercavam.
– Sim. Muito. – teve de concordar Nico. Nunca antes tinha visto algo tão belo e natural. Viveu toda a sua infância cercado de prédios altos e negros com seus olhos de vidros, e muito raramente se via uma árvore, assim, em seu local de direito, e o resto de sua vida foi fechado em um cubículo branco.
– É aqui que você queria me levar? – perguntou Nico, erguendo os olhos para Jason ao seu lado.
O loiro olhou para ele e sorriu levemente.
– Tenha calma, pequeno gafanhoto – ele disse, bagunçando os cabelos longos e sujos de Nico com a mão direita. – É por aqui – ele disse, apontando para uma espécie de arco entre duas arvores, que penetrava mais na densidade escura e silenciosa da floresta, e caminhando lenta e cambaleante na direção apontada.
Nico seguiu-o, e percebeu que o loiro respirava pesadamente e com dificuldade, e cada inspiração era como unhas raspando na superfície porosa de um quadro negro.
– Você está bem? – perguntou Nico, preocupado. Suor escorria pelo rosto do loiro, deslizando por seu pescoço.
– Sim... – ele murmurou, após um suspiro profundo de dor.
Nico se interpôs no caminho dele, com uma mão estendida tocando seu tórax que subia e descia a cada pesada respiração, e sentiu o coração do loiro bater forte e rápido contra o seu peito, martelando com força suas costelas.
– Não. Você não está bem – observou Nico, sentindo o palpitar do coração dele rápido e forte contra sua palma enluvada, a respiração pesada e ofegante, e a feição distorcida de dor do loiro. – Me diga o que você tem. Agora.
– Não é nada. Sério.
– Se realmente não é nada, então diga.
O loiro hesitou por alguns momentos, olhando para todos os lados, tentando de qualquer forma evitar fitar o rosto sério e determinado de Nico à sua frente.
– É que – começou ele, num tom de voz baixo e ainda repleto de hesitação. – Essas minhas habilidades, principalmente a do vôo, me esgotam muito e eu, bem, tenho um pequeno e quase insignificante problema de saúde que pode me matar a qualquer momento.
– E você chama isso de "insignificante problema de saúde"? – retrucou Nico, suspirando profundamente, enquanto balançava a cabeça de um lado a outro. Afastou a mão do tórax do loiro, e se pôs a caminhar com ele em seu encalço. – Por que não disse antes? – perguntou Nico após alguns passos. -Poderíamos ter procurado algum outro jeito de sair daquele lugar sem que você corresse risco de morte.
– Não havia outro jeito, segundo as táticas e análises da Annabeth – ele respondeu, desviando de um tronco quebrado com dificuldade.
– Annabeth? – perguntou Nico. O garoto desconhecia completamente o nome. – Análises? – então uma sombra de possibilidade passou por sua mente. Ele parou novamente, se interpondo no caminho do loiro, sobressaltando-o. – Táticas? Por um acaso está acontecendo alguma guerra?
O loiro o observava atentamente, com seus olhos azuis brilhando intensamente. Seu rosto estava sério e duro como uma rocha, e ele cerrava os punhos com força absurda.
– Jason – chamou Nico, se sentindo assustado com a forma que o loiro agia. – O que está acontecendo?
– Ainda não está acontecendo nenhuma guerra...
– Ainda não? – interrompeu-o Nico, esbugalhando os olhos escuros.
–... mas nós já estamos nos preparando para uma, que parece estar bem próxima. – ele finalizou, sem dar atenção à interrupção de Nico.
Nico demorou alguns instantes para compreender — por mais simples que tivesse sido — o que Jason havia lhe dito.
Uma guerra? Preparações? Nós? Sua mente tentava ligar os pontos, porém ainda faltavam muitos deles, e assim apenas fazia sua incompreensão aumentar, e turbilhonar mais ferozmente seus pensamentos já um pouco confusos.
O loiro provavelmente percebeu sua expressão de extrema confusão, pois, tocando levemente o ombro de Nico com a grande, macia e quente palma direita, lhe disse num tom de voz baixo e sussurrante, porém doce e leve como a brisa de primavera:
– Está tudo bem, Nico. Eu sei que você está confuso, e que eu te devo incontáveis explicações... – ele parou, olhando nervosamente para todos os lados, como que esperando um ataque surpresa, e diminuiu ainda mais o tom de voz. – porém essa não é a hora certa, e aqui não é o lugar.
Nico também olhou para os lados, acompanhando o olhar nervoso do loiro, e depois encontrando seus olhos e encontrando neles a calma que ele necessitava para conseguir dizer qualquer coisa que fosse.
– E quando será a hora e o lugar certo? – ele perguntou. Eu não aguento mais tanta confusão e mistério, completou ele em pensamento.
Jason olhou para Nico, com o rosto sério e deu um passo na direção em que andavam. Um passo pesado e decidido.
– Em breve. Quando chegarmos à Fortaleza.
Nico ainda continuou parado por alguns rápidos segundos, vendo as costas de Jason se embrenhar na floresta escura com passos cambaleantes, porém decididos e convictos.
Fortaleza? Realmente não me parece um nome a se dar a um lugar “seguro”; ele pensou, acompanhando Jason com passos rápidos até alcançá-lo.
Após alguns longos e exaustivos minutos andando pelo interior da floresta escura e deserta – à exceção dos animais selvagens que ali faziam moradas – encontraram uma grande abertura numa rocha cinzenta. Nico sentiu o cansaço gritar dentro de si quando adentraram no interior da pequena e escura caverna. A luz da lua nova penetrava em filetes brilhosos e azulados pela abertura na rocha, e nesse puro breu, apenas os olhos azuis de Jason eram distinguíveis em meio à escuridão completa. Ambos se sentaram no solo áspero, frio e duro da caverna escura, apoiando a costas nas paredes rochosas e úmidas.
– Vamos passar a noite aqui, e retomar a caminhada pela manhã – anunciou Jason, deslizando as costas e deitando-se no chão. – É melhor você descansar Nico, pois amanhã não terá nenhum vôo, já que faltam apenas alguns quilômetros até a Fortaleza – o loiro colocou os braços embaixo da cabeça, fitando o teto cavernoso repleto de pequenas estalactites, e não disse mais nenhuma palavra.
Nico apenas assentiu na escuridão.
Deitou lentamente as costas ossudas cobertas por uma fina camada de pele maltratada no solo frio da caverna, sentindo no solo gelado uma sensação de êxtase total que há muito não sabia mais o que era. Deixou os olhos fecharam sob o peso das pálpebras.
O garoto realmente se sentia mais livre e muito mais confortável envolto na escuridão natural, sem o medo de a qualquer momento alguém entrar e lhe infligir outra tortura.
Ou pelo menos ele assim esperava que fosse.
Embora o garoto confiasse no loiro o qual o salvou, havia algo no âmago de seu ser que gritava para não confiar, dizendo que todos eram iguais: mentirosos e astutos, e que Nico mal veria a luz do dia quando novamente percebesse que estava enjaulado e atado às algemas de aço.
Ainda há tempo, gritava uma voz estranha em sua mente, quando esse medo o assombrava. Tire esse tecido grosso das mãos, e crave a palma fria da morte no rosto mentiroso desse loiro, e desfrute de sua liberdade apenas você... e eu, andando como dois amantes durante a madrugada solitária entre prédios e casa; florestas e lagos; desertos e cemitérios, ela dizia, numa voz lamurienta e sussurrante que ecoava com estrondo na mente do garoto. Mas Nico a ignorava, e por vezes até mesmo a repreendia; porém era sem efeito, pois a voz apenas ria dele.
Nico dormiu.
***
O garoto tinha os pulsos atados com um par de algemas de aço escuro que lhe machucavam a carne, mas há muito havia deixado de sentir a dor que elas lhe enviavam, agudas e gritantes, ao seu cérebro; ele estava sentando numa simples e aparentemente frágil cadeira de madeira, e os pulsos estavam atrás de suas costas magras. Seus tornozelos também estavam no mesmo estado: castigado por feridas provocadas pelas algemas pesadas de aço, presos à cadeira de madeira de modo que o garoto não podia se libertar.
Não que realmente quisesse.
Ele havia pensado que tinha morrido, mas estava ali, vivo, rodeado por paredes brancas no interior da chamada Sala Branca (como todas as outras ali também eram chamadas), mas ao mesmo tempo não se sentia nem um pouco vivo.
A porta branca deslizou, abrindo-se com um silvo baixo, e dois homens entraram com passadas longas e raivosas, e pareciam discutir um com o outro, pois suas feições se contorciam, suas bocas se arreganhavam e as veias de suas gargantas tremulavam negras e grossas, enquanto caminhavam na direção do garoto na cadeira.
Seus passos ecoavam pelo piso branco. O garoto podia imaginar o som abafado que eles produziam.
Mas apenas imaginar.
Seus tímpanos haviam sido perfurados e dilacerados há algum tempo atrás.
Sua percepção de tempo era incerta, desde que acordara preso nessa sala branca, a alguns... Meses? Ele não sabia, porém apenas sabia que era um tempo longo, mas que não passava do que mais que um ano.
Os homens pararam em sua frente, e ainda pareciam gritar, só que dessa vez... é comigo, ele pensou quando uma mão grande e forte lhe acertou o rosto, fazendo seu corpo pender para o lado e desabar no chão juntamente com a cadeira. Sua cabeça bateu ruidosamente no chão, e o sangue que ainda escorria de seus ouvidos inutilizados, de um tom de rubro negro, manchou o chão branco em respingos e nódoas irregulares.
Ele não podia revidar, bem sabia; mas também não queria. No fundo, se sentia satisfeito.
Eu cumpri minha missão, ele pensou consigo mesmo, quando sentiu o toque frio da lamina do bisturi em sua garganta. Podem fazer o que quiserem.
E lâmina penetrou em sua carne com um beijo sedento por sangue, deslizando por pele e carne, criando uma grande e fina linha sem cor de ponta a ponta do pescoço, e logo em seguida os filetes grossos e constantes de sangue fluíram pelo ferimento, se assemelhando a um grande e macabro sorriso vermelho, e o liquido rubro deslizou sobre seu pescoço até o chão, formando uma poça grande e aumentativa enquanto o garoto tentava em vão respirar, sentindo o sangue lhe inundar os lábios. Após alguns instantes de pavor, desespero e dor, uma onda de calmaria o abraçou, e ele desistiu de lutar, se entregando totalmente ao abraço reconfortante da morte.
Novamente, pela quinta vez.
***
Nico acordou com um sobressalto, pondo-se imediatamente sentado, sentindo o corpo suar e a respiração estar ofegante; seu coração batia violentamente em seu peito retumbante. Em sua frente, na entrada iluminada pelos raios solares do sol nascente, Jason estava sentando, apreciando o nascer do sol numa calmaria inesperada para um jovem em fuga. Ele olhou por cima do ombro até encontrar o rosto pálido e suado de Nico com seus olhos azuis elétricos.
– Acordou? – ele perguntou, voltando a olhar para o sol que nascia no horizonte, com apenas a sua metade alaranjada surgindo por entre as montanhas e as copas verdes das árvores e pinheiros. Nico não respondeu, quando ele novamente perguntou: — Um pesadelo, não?
O garoto se levantou e caminhou lentamente até a entrada rochosa da caverna, sentando-se ao lado do loiro no solo gelado de pedra.
– Sim – ele respondeu, fitando o céu repleto de nuvens brancas e finas que se abriam num azul límpido. – E dos ruins.
O loiro nada perguntou sobre o sonho (pesadelo), e Nico agradeceu mentalmente por isso.
Ficaram ali sentados, lado a lado, na entrada da grande rocha oca, observando a esfera deslizar um pouco mais para cima, enquanto seu fulgor se intensificava, quando Jason levantou e chamou Nico para o interior da caverna, onde a mochila preta e suja estava jogada. De lá tirou um grande pão macio, e com isso contentaram-se com um humilde e fraco desjejum.
– Está na hora de partir – Jason anunciou quando terminou seu pedaço te pão, e limpava as migalhas dos lábios com as costas das mãos. Nico também se levantou, aquiescendo com a cabeça, e saíram rapidamente do interior da caverna, andando pelo matagal floresta adentro num ritmo de passadas constante.
Andaram por horas, parando de vez em quando para um breve descanso, para beber água de uma garrafa de dois litros que Jason trazia na mochila, massagear os músculos cansados do corpo, e logo em seguida retomar a cansativa caminhada, rumo à tal Fortaleza.
Já se passavam do meio-dia, era possível saber quando se olhava para cima e se via que o sol não estava sobre a cabeça; e ainda não haviam chegado.
Novamente a voz gritava em seu ouvido, dizendo que o loiro o estava enganando e o levaria novamente para a corporação mais cedo ou mais tarde, e que era melhor matá-lo agora e ser livre do que ser torturado novamente, preso e ter as esperanças estraçalhadas. Mas Nico sentia que Jason era diferente, e que fazia isso por uma boa causa – que parecia ser uma guerra -, e via-se ignorando a voz em sua mente, como sempre fazia.
Embrenharam por um estreito caminho rodeado de arvores com caules finos e longos, onde um mais estreito e longo caminho serpenteava pela floresta, onde o mato e o solo estavam bem batidos e mortos, como se uma grande procissão de fieis houvesse por ali passado.
– Estamos próximos – anunciou Jason, apontando para um caule marcado com dois riscos paralelos e fundos. – Significa que faltam dois quilômetros – ele explicou.
– Isto não é nada reconfortante – brincou Nico, passando pelo caule extenso atrás de Jason.
Algum tempo depois, encontraram uma grande rocha cinzenta, onde havia um extenso e profundo corte horizontal exatamente no meio da mesma, e essa significava que faltava apenas um quilometro, explicou Jason quando a avistaram.
Nico sentia a inquietação aumentar dentro de si a cada passo dado. Não sabia o que esperava encontrar quando chegasse ao local que Jason tanto falava como seguro, e nem quem encontrar. Nico estava totalmente submerso em seus devaneios, e nem chegou a percebeu que agora estavam parados em frente a um grande portão de aço negro, grosso e enferrujado, onde havia um pégaso negro de asas abertas e estendidas para o céu moldado em aço por cima das barras.
– O que é isso? – perguntou o garoto, se aproximando do portão e tocando a mão enluvada por sobre o molde do ser mitológico.
– Essa é a primeira entrada para a Fortaleza – respondeu Jason calmamente, como se fosse um guia turístico de alguma excursão idiota em algum museu idiota. Ele se aproximou e empurrou o portão de aço, que se abriu para dentro com um rangido estridente e agudo, e fez menção com os braços para que Nico entrasse, e o garoto assim o fez.
O perímetro era cercado por muros baixos e lugares quebrados onde antes provavelmente jaziam outras partes do muro de tijolos avermelhados – que agora se tornaram escuros e cobertos de heras e musgos -, e algumas árvores secas de galhos atrofiados se erguiam do chão como dedos mortos, agarrando o ar acima como se quisessem voltar à vida. O lugar todo estava envolto numa névoa fantasmagórica branca e densa, de forma que Nico não conseguia ver mais do que alguns metros à frente. E no centro desse enorme... quintal?, havia um forma alta e negra por detrás da névoa, e era para lá que eles agora rumavam, andando a passos lentos pelo chão coberto de folhas mortas e negras, e galhos finos, negros e quebradiços que estalavam e farfalhavam a cada passo.
Nico chutou uma cabeça de mármore de um cupido de fonte, que rolou com estardalhaço pela névoa, desaparecendo nela.
Então a forma se tornou visível em sua frente.
Eram os destroços caídos da parede – ou uma das que restou – de uma construção outrora estupenda e magnífica, mas que agora nada mais era do que restos; estilhaços e fragmentos espalhados pelo chão de mármore branco rachado, onde ervas daninhas espreitavam pelas fendas escuras do chão.
Nico e Jason andaram pelo antigo pátio da outrora mansão, erguendo os olhos para o teto em abóbada, que na verdade não existia, e este era apenas o céu azul e os feixes de luz do sol. As paredes haviam desmoronado desde seus alicerces, de modo que era praticamente impossível de se fazer ali uma morada digna, quanto mais uma...
– Aqui é a Fortaleza? – Perguntou Nico, abrindo os braços e girando o corpo em 360 graus. – Isso é o lugar seguro que você mencionou?
Jason sorriu, balançou a cabeça em negativa e passou por Nico, andando na direção do que sobrou de uma lareira rústica de pedra, e ali parou, de costas para o garoto.
– Isto lhe parece uma fortaleza, Nico? – ele rebateu, sem dar um relance para o garoto confuso. – Isto lhe parece seguro? – tornou a perguntar.
– Não, mas...
– Shhhhh – cortou-o Jason, virando na direção do garoto com o dedo indicador diante dos lábios. – Contemple novato: a verdadeira entrada para a Fortaleza.
Dito isso, Jason retirou do bolso de sua calça uma espécie de moeda antiga e dourada e a jogou para o ar, fazendo-a rodopiar antes de voltar a cair em sua palma estendida. Girou-a entre os dedos e se agachou diante da lareira em cacos. Nico se aproximou. O loiro colocou a moeda num fundo-relevo circular no chão em frente à lareira, e de início nada aconteceu, mas quando o loiro pressionou a moeda como se esta fosse um botão ou interruptor, foi-se ouvido um bip e em seguida a lareira se afastou ruidosamente, deslizando sobre o concreto num raspar de pedra em pedra, e um lance de escadas, íngreme e longo descia para o subsolo escuro e úmido que havia por debaixo da mansão.
Nico não acreditava em seus próprios olhos, e Jason parecia gostar da expressão de surpresa que estava estampada no rosto do garoto.
Jason iniciou a descida, e Nico hesitou por um momento antes de, por fim, também o seguir. Os passos de ambos sobre os degraus reverberavam e ecoavam pelo corredor estreito até o nada, e logo a luz do sol que lhes iluminava o caminho foi desaparecendo, e Nico sentiu um fraco desespero ao pensar que teria de descer os degraus no completo breu; porém, para a sua surpresa e felicidade, quando o loiro desceu um degrau onde a luz natural já não mais alcançava, o corredor se iluminou com uma luz branca e intensa que quase o cegou, vinda de várias lâmpadas esféricas colocadas no teto até o final da escadaria, onde uma espécie de porta o aguardava. Uma porta negra de aparência assustadora. Nico engoliu em seco.
Jason chegou ao final da escadaria, e Nico logo em seguida, e ambos ficaram parados, estáticos, encarando a porta de aço negro com olhos negros/azuis, com um misto de surpresa e admiração.
– Quem sois vós que perturbais o infindável descanso do Senhor das chamas fulgentes?! – ecoou uma voz de algum lugar próximo a porta, e sua voz era grave e assustadora e fez com que Nico sentisse o coração gelar. A voz vinha de algum lugar e de lugar nenhum; e isso era o mais assustador de tudo.
Jason não parecia assustado como Nico; na verdade, ele aparentava estar mais... irritado. O loiro olhou para Nico e, vendo o garoto se encolhendo ao seu lado, agarrando o tecido de sua camisa com as mãos enluvadas, olhou para algum ponto acima da porta de aço, com o olhar duro e frio.
– É melhor você parar com isso Leo – ele disse, num tom de voz grave e rosto duro. – Não é sempre que suas brincadeiras serão toleradas.
– Do que estais falando, mero mortal – a voz tornou a rugir, mas estava levemente diferente dessa vez, parecia que ela tentava suprimir um riso sem muito sucesso. – Eu sou o grande...
– O grande inútil e idiota Leo Valdez, com suas brincadeiras fora de hora e senso de humor inabalável – cortou-o Jason, e dessa vez um leve sorriso se formou no canto de seus lábios. – Vai logo Velinha, eu tenho que conversar com a capitã.
– Velinha? – repetiu a voz esganiçada, e Nico olhava para todos os lados procurando o local de onde ela era emitida. – Está bem, por hoje eu vou te deixar em paz; mas só por hoje – disse a voz novamente, e logo em seguida a porta rangeu e se abriu com um silvo baixo. Jason andou na direção da abertura da porta, mas se deteve, olhando para trás e vendo Nico, que hesitava em seguir. O loiro sorriu e estendeu a mão para o garoto.
– Venha – ele disse num tom de voz baixo como um sussurro. – É um lugar seguro, lembra?
Nico assentiu, estendendo a mão e envolvendo-a na palma quente da mão direita de Jason, que o puxou na direção da porta aberta.
– Seja bem-vindo ao seu novo lar – ele disse, soltando a mão de Nico e andando em sua frente, com um sorriso eufórico em seu rosto alegre, abrindo os braços para o campo atrás de si. – Bem vindo à Fortaleza.
E era de fato uma fortaleza, Nico tinha de admitir.
As paredes do subsolo eram monstruosamente grandes e maciças, e ao longo do extenso campo, tendas e mais tendas de diversas cores e tamanhos se estendiam sobre o chão como num acampamento de férias escolares de verão; pessoas de várias idades e tamanhos, cores e raças, andavam despreocupadamente, cercadas de outras pessoas pelo labirinto de ruas e esquinas entre as tendas, empunhando armas medievais e algumas mais modernas, vergando cotas de malha, armaduras completas ou simples roupas do dia-a-dia; do teto muito metros acima, fileiras e mais fileiras de lâmpadas de luz branca estavam postas, paralelas umas às outras, iluminando tanto quanto a luz do dia o ambiente abaixo.
– Venha – disse Jason, tirando o garoto de sua longa admiração, puxando-o pelo pulso em direção às tendas.
Passaram por um campo onde garotos e garotas treinavam tiros com arco e flecha, outro que treinavam tiros com armas clássicas, outro com as armas modernas e futurísticas; passou por um campo de terra batida onde os que usavam cota de malha e armadura completa ou não, treinavam com espadas de ferro sem gume, assim como lanças de ponta chata, espigões sem espinhos e etc.; em outro canto, um grande grupo escalava uma parede de desafio assustador, de metros e metros de altura. Era muita coisa, e Nico sabia que ainda tinha muito mais ainda para se ver. Porém não era a hora.
Jason o puxava pelo pulso, e seu rosto era sério; seus olhos estavam estreitos como duas linhas azuis, e seus passos eram pesados.
De súbito Jason parou, e quando Nico ergueu os olhos, não sentindo o aperto no pulso mais, viu que uma garota estava parada de frente a Jason, e ela também tinha o rosto sério e duro, porém também havia um resquício de alívio. Ela tinha uma postura imponente, olhar forte e convicto, e seu cabelo era longo e castanho, caindo-lhe sobre os ombros. Envergava uma placa de peito reluzente e polida, e um manto roxo lhe escorria pelos ombros, dando-lhe um ar de mais autoridade e poder.
– Capitã Reyna – balbuciou Jason.
– Jason – disse a garota de nome Reyna. – Eu estava te procurando.
– Eu também.
– Teve sucesso em sua missão? – ela perguntou, trocando o peso de um pé para o outro, inquieta.
– Não exatamente... – murmurou Jason, abaixando os olhos para os sapatos de bico de ferro da capitã.
– Como assim “não exatamente”? – perguntou uma voz furiosa atrás de Reyna. A dona da voz saiu de detrás da capitã, pondo-se ao seu lado, com as mãos na cintura. Seus olhos eram como prata derretida e seu cabelo loiro estava trançado num rabo de cavalo. Ela, ao invés da outra, não envergava nenhuma cota de malha ou placa de peito, mas sim uma simples camiseta alaranjada. Tinha uma adaga presa ao lado da cintura, a tiracolo. – Onde está ele?
– Annabeth, me desculpe – disse Jason com voz trêmula, fitando o rosto da garota loira à sua frente, aparentemente desesperado. Então ela é a Annabeth; pensou Nico. – Eu não consegui encontrá-lo. Eu tentei, mas eu simplesmente não o achei em lugar algum!
Encontrar quem? O que está acontecendo aqui? Nico se sentia confuso, porém poderia suportar sua confusão, e esperar aquela confusão terminar.
– Ele foi até lá para resgatar o Herdeiro de Hades, mas não voltou – disse Reyna, mais para si mesmo do que para qualquer um ali. Uma pequena aglomeração de pessoas se formava ao redor deles, olhando confusos e interessados para o quer que esteja acontecendo ali. – Então te mandei para você o encontrar e ajudá-lo a dar continuidade à sua missão se possível... mas ele não foi encontrado... Será possível que ele...
– Não! – exclamou Annabeth, afastando-se um passo para longe da capitã. – Não diga isso, por favor. Ele não pode ter morrido. Percy não pode ter morrido...
Percy? Por um momento Nico pensou ter ouvido o nome dele; mas depois entendeu que não pensou, mas realmente ouviu. Conforme iam discutindo, tentando chegar a um entendimento, Nico fazia as peças se encaixarem aos poucos.
Percy foi mandado em uma missão, que era me resgatar – o Herdeiro de Hades – e me trazer para a Fortaleza, como um auxilio para a guerra iminente. E essa Annabeth é... a namorada dele. E eu... Eu... Ele não conseguiu terminar o pensamento.
– Annabeth, eu não o encontrei em lugar algum – continuou Jason, balança freneticamente a mão enquanto falava. – Eu não sei o que aconteceu com Percy, mas eu tenho quase certeza que ele nem chegou à corporação.
– Na verdade, ele chegou – Nico ouviu a própria voz dizer, fitando o chão de cascalho acinzentado.
– O quê? – perguntou Annabeth. – Como você sabe?
– Eu o vi.
– Como podemos acreditar em você? – disse Reyna, dando um passo pesado na direção de Nico, e seus olhos se encontraram: os dela brilhando de ódio e raiva, assim como medo e apreensão; os de Nico vazios, sem cor e vida, sentindo o peso e a dor da culpa. – Nem ao menos sabemos quem é você.
– Reyna – começou Jason, tocando-a gentilmente no ombro. – Ele é o...
Mas Nico o interrompeu. Colocou-se na frente de Jason, sentindo o olhar penetrante de Reyna, Annabeth, e dezenas de outros dos campistas que observavam tudo. Tinha de fazer aquilo, já que era todo o culpado. Respirou fundo.
– Meu nome é Nico Di Angelo – começou o garoto, num tom de voz controlado e firme. – Eu sou o Herdeiro de Hades – ele lançou um olhar triste e transbordante de culpa e dor ao rosto de olhos cinzentos como tempestade de Annabeth, e pronunciou a frase lenta e dolorosamente. – E Percy Jackson está morto. Eu o matei.
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