Touch
5 Dear Insanity
Notas iniciais
Inicialmente, após ouvir a impactante revelação de Nico, a garota loira de nome Annabeth se encheu de fúria, esta que brilhava mortalmente em seus olhos tempestuosos; mas também ali havia incredulidade em acreditar na suposta verdade que o garoto dizia. Ela até mesmo chegou a se precipitar furiosamente na direção dele, com a mão descendo até o cabo da adaga na cintura, porém a Capitã Reyna agiu mais rapidamente, pondo-se entre a garota e Nico, empurrando-a para trás com mãos fortes, enquanto Jason o colocava protetoramente ao seu lado.
– Por quê? – perguntou a loira antes de as pernas perderem a estabilidade e ela cair de joelhos sobre o chão, as mãos em volta da cabeça e as lágrimas vertendo dolorosas e constantes de seus olhos. – Só me diga o porquê...
Nico não conseguiu responder. Estava agora a se lembrar do momento em que tocou a mão de Percy, remoendo aquele aflito momento com a mente a gritar, lhe impondo toda a culpa.
Os olhos ao redor se entreolhavam, confusos e assustados, sussurrando entre si coisas sem nexo.
O porquê? Essa era uma pergunta que até mesmo Nico se fazia por horas e horas a fio; dia após dia, sem nunca chegar a uma resposta plausível que amenizasse a sua dor. Porém a dor que Annabeth deveria estar sentindo agora era com certeza muito maior e mais intensa do que a dor e a tristeza que Nico havia sentindo naquele momento. Afinal, ela o amava...
– Ele só queria te salvar. Fazia parte da missão... – dizia Annabeth, as frases entrecortadas por fungadas ásperas, e a voz embargada e trêmula. – Então por que fez isso com ele? POR QUÊ?
Nico agora se forçava a fitar o chão arenoso, com o peso da culpa a lhe esmagar dolorosamente as costas frágeis e machucadas. Agora que começou, pequeno idiota, termine de uma vez; lhe incitou a voz lamurienta e desconhecida no interior de sua mente. E ela estava certa. O antigo e frágil Nico ficou para trás no momento em que havia pulado do parapeito do último andar do prédio da corporação com Jason.
Jason.
Nico olhou para o seu lado, onde o loiro olhava para Annabeth com seus olhos azuis elétricos cheios de tristeza, quando ele os desviou para o garoto ao seu lado, fitando-lhe longamente seus olhos negros como ônix polido. O loiro assentiu levemente com a cabeça, e Nico leu em seu olhar: você deve isso a ela. A nós. A mim.
Respirou fundo, enfim encontrando um pouco da força que precisava.
– Eu devo a vocês uma melhor e mais detalhada explicação, eu sei, e é isso que farei agora – disse Nico, aprumando o rosto e erguendo o olhar para o rosto duro e sem expressão de Reyna, a capitã da Fortaleza, e começou. – Por três longos e angustiantes anos, eu fiquei confinado em uma sala branca e sufocante na Corporação Tártaro...
Contou sobre tudo. Desde seu passado – a morte de sua mãe -, até o alguns meses atrás – a aparição de Percy e o motivo de sua morte, deixando de lado o detalhe do beijo -, contou seus pensamentos depressivos e nem um pouco esperançosos, as torturas e os exames que pareciam dar em nada, e contou sobre a aparição de Jason, e a partir desse ponto o loiro tomou a narrativa, contando como conseguiram escapar dos soldados que guarneciam todo o perímetro da corporação. Conforme Nico havia falado, a tristeza nos olhos de Annabeth haviam se tornado mais intensa, porém a raiva se desvanecia aos poucos.
– O Toque da Morte – refletiu Reyna quando Jason terminou o relato resumidamente, fitando Nico com seus olhos penetrantes e firmes. – O Herdeiro de Hades que possuí o Toque da Morte, foi o que ela disse, juntará seu poder ao exército, porém uma perda será necessária.
– Rachel disse isso? – perguntou a loira, erguendo-se do chão com a ajuda de Reyna, limpando dos joelhos a sujeira que lhe manchou a calça jeans. – Por que não me disseram? Quando ela disse isso?
– Quando eu, Reyna e Percy, fomos visitá-la – respondeu Jason calmamente. – Alguns dias antes de mandarmos Percy.
– E mesmo após esse aviso, vocês o deixaram ir da mesma forma? – ela perguntou num tom de voz furioso, com as lágrimas ainda a deslizarem penosamente por sua pele branca. – Vocês o enviaram para a morte certa, percebem!? Vocês o mataram!
– Annabeth, calma – tentou acalmá-la Reyna, pousando delicadamente a mão em seu ombro, mas a garota a afastou com um movimento brusco, e seu rosto estava contorcido numa expressão de raiva e nojo quando olhou para o rosto de Jason e o de Reyna; mas ela nada conseguiu dizer, apenas virou as costas e andou a passos rápidos e meio cambaleantes em direção às tendas.
Reyna suspirou, colocando uma mão sobre o rosto, exasperada e cansada. A capitã parecia estar suportando nos ombros um grande e pesado fardo, mas se recusava a tirá-lo das costas.
– Está quase na hora do jantar – ela disse, olhando Jason com olhos confusos. – Prepare uma tenda pra ele e se preparem.
– Ele vai ficar comigo, na minha tenda – anunciou Jason, olhando para o pequeno e cabisbaixo Nico ao seu lado.
– Tem certeza? – perguntou a capitã, com o cenho franzido. – Acho que a Piper...
– Eu e a Piper já não temos nada, lembra? – rebateu o loiro, puxando levemente o pulso de Nico, incitando o garoto a segui-lo em direção ao mar colorido de tendas. – Até mais, Reyna.
– Certo – ela murmurou, sorrindo levemente. – Até daqui a pouco, Jason.
Nico foi puxado sem lutar, pois não encontrava forças para tal. Andava fitando o chão poeirento e batido, e não se deu conta do tempo que passou ou como este passou, mas quando ergueu os olhos novamente, estava dentro de uma tenda modestamente grande, onde o teto azul como o céu da noite se elevava a apenas alguns centímetros de sua cabeça. Era uma habitação pequena, onde duas pessoas podiam dormir tranquilamente, e o chão era coberto por uma espécie de plástico fino também azul, onde dois sacos de dormir brancos com listras horizontais azuis, aparentemente quentes e macios, estavam enrolados no canto da tenda.
– Não é uma mansão – disse Jason, andando até o meio da tenda, com a cabeça um pouco abaixada para não tocar no teto. Nico não havia reparado antes, mas o loiro era alto. – mas é suficientemente aconchegante para pessoas esgotadas como nós.
Nico assentiu. Não era necessário nem que fosse confortável ou aconchegante, desde que pudesse deitar-se por sobre uma superfície quente, já que, por três anos inteiros, havia sido obrigado a repousar sentando no piso frio da Sala Branca, com os braços estendidos acima da cabeça e os pulsos presos a algemas de aço que lhe machucavam a carne. Andou até o meio da tenda, parando ao lado de Jason, fitando seus olhos azuis elétricos e acolhedores.
– Obrigado — murmurou Nico. – por me ajudar a explicar... tudo. Eu achei que não fosse conseguir dizer nem uma palavra.
– Mas conseguiu – disse ele, pousando a mão direita docilmente no ombro de Nico, e dessa vez o garoto não afastou o toque quente dele, ao contrário, foi um toque bem vindo, e no momento certo. – E foi forte o suficiente para contar tudo, por mais dolorido e sofrido que tenha sido se lembrar.
– Será que ela vai ficar bem? – perguntou Nico, lembrando-se da garota loira, de seu olhar triste e da forma como saiu inconformada, andando sem rumo.
– Annabeth? Mas é claro que vai! – disse ele, num tom de voz alto, mas falso, Nico pôde perceber. – Pode demorar um pouco para superar, mas ela vai conseguir seguir em frente. Ela é forte.
Eu também gostaria de ser forte, pensou Nico, abaixando os olhos para o chão de plástico azul.
– Quando eu soube que Percy havia sido morto por você, senti muita raiva, e por muito pouco eu mesmo não entrei naquela sala e acabei com sua vida – disse Jason, andando até um canto coberto por um fino véu de sombra, e trazendo de lá duas cadeiras de aparência rústica e antiga, que parecia que poderiam se quebrar com o mais fraco dos sopros, e colocou-as uma frente à outra, se sentando numa delas que rangeu ameaçadoramente e indicando a outra em seguida, e Nico se sentou, apreensivo. – mas – continuou ele. – eu tentei me colocar em seu lugar; sentir o que talvez você pudesse estar sentindo, por ter sido torturado e também por ter sido feito de cobaia de teste. E senti muita raiva daquele lugar; um ódio enorme e pulsante que se entalou na minha garganta e por muito pouco não estragou todo e meu disfarce e, por conseguinte, minha missão.
E isso nem é nem um pouco perto do que eu realmente sinto, quis dizer Nico, cerrando os punhos com força.
– Eles chamaram aquilo de Teste do Desespero – disse Jason, depois de algum tempo de silêncio total.
– O quê? – perguntou Nico, ansiando por saber porque faziam tudo aquilo com ele, para que, futuramente, pudesse pagar na mesma moeda, dando-lhes um pouco do gosto do próprio desespero.
– O que aconteceu com Percy – ele respondeu com voz baixa, juntando as mãos e entrelaçando os dedos, nervoso. Nico arregalou os olhos, com a respiração presa na garganta.
Não foi nada disso, quis dizer o garoto, confuso. Ele tentou me salvar, me libertar, mas... mas... Não conseguiu completar a frase no pensamento.
Percy havia dito que sabia sobre a habilidade do Toque que Nico possuía; então, por que ele não tentou evitar o toque? Tudo ficava cada vez mais confuso na mente de Nico, e quanto mais o garoto tentava pensar, mais os pensamentos e fatos se colidiam, contraditórios, e se tornavam confusos e sem sentidos. E agora ele me diz, pra piorar tudo, que o sacrifício que ele fez por mim, não passou de um teste?
– Vejo que você está confuso – disse Jason, num tom de voz sombrio e sussurrante. – Irei explicar melhor, então é bom que preste um pouco de atenção. Quando se passaram dois meses após a ida de Percy à Corporação, e nada de ele voltar com o Herdeiro de Hades, Reyna e eu decidimos enviar alguém até lá, para verificar a situação e relatar. Apenas isso. Mas ninguém nem sequer queria se aproximar daquele lugar sombrio e assustador — você, mais do que ninguém o sabe -, então, vendo que estávamos sem escolha, eu mesmo decidi ir.
“Fiquei por quase mais de um mês ali, infiltrado como um estudante, participando das excursões e conhecendo sobre cada um dos ‘espécimes’ que haviam por detrás de cada janela de vidro. Até que conheci o espécime XY, que no caso era você, e soube de sua história contada por eles, e os testes feitos. Mas o que mais me chamou a atenção foi o chamado Teste do Desespero. Eles escolheram um estudante, depois de uma análise minuciosa, e este estudante, no caso, foi o Percy; e manipularam algumas das informações suas, e esconderam outras, como por exemplo, o seu Toque.” Nessa parte, a mente de Nico fez uma ligação com as últimas frases ditas por Percy em seus últimos momentos: Eu já sabia. Sempre soube.
Então quer dizer que esconderam a informação do meu Toque de Percy, e foi por isso que ele pegou tão avidamente em minha mão para me tirar dali? Mas tudo ainda era confuso, mesmo depois dessa ligação.
– Eles também acrescentaram algumas coisas que diziam ter feito com você, para assim fazer com que esse estudante sentisse um imenso ódio pela corporação, e um forte e incontrolável desejo de te libertar – continuou o loiro, fitando o rosto confuso de Nico com seu olhar concentrado e duro de cenho franzido. – E Percy era a pessoa perfeita para esse experimento, pois ele é fácil de ser levado pelos sentimentos. Acho que ele também sempre soube que era você o Herdeiro de Hades, de forma que essa vontade só aumentou.
“Eles então preparam tudo, com um homem frio e calculista no comando de toda a elaboração. Preparam um dia em que a maioria dos funcionários não estariam em seus turnos, e escalaram Percy para lhe cuidar os ferimentos e também para lhe levar o jantar, de forma que ele adquiriu a senha para abrir sua porta, como eles queriam que assim fosse. Também deram a ele a informação de que a chave que abria as algemas estava na gaveta da mesa do Coordenador Geral, e, durante a noite, que eles chamaram de Noite D., deixaram propositalmente a porta da sala do Coordenador Geral destrancada, e você já pode imaginar o que Percy fez. Ah, sim, esqueci de comentar o que Percy sabia: ele tinha conhecimento de sua habilidade, mas contaram a ele que ela não tinha efeito em outros Hospedeiros.”
Um peso, maciço e esmagador, pareceu cair sobre as costas de Nico, esmagando-lhe o coração e a mente.
– O resto você já sabe, afinal, vivenciou tudo – ele disse, finalizando o relato. Nico assentiu levemente com a cabeça, a mão ainda cerrada fortemente sobre as pernas. O ódio que ele tanto nutrira por si mesmo por ter dado fim na vida do moreno, agora se convertia num imenso ódio pela corporação e por todos que tivessem ligação com aquele lugar. – Eles também disseram que pegaram o corpo de Percy para outros experimentos, e acho que foi por isso que eu não o encontrei em lugar algum – acrescentou ele, metódico.
– Você disse que manipularam as informações, dizendo que minha maldição não tinha efeitos em outros Hospedeiros – lembrou-lhe o garoto, finalmente erguendo o rosto para Jason. – Isso quer dizer que Percy é um Hospedeiro, assim como eu e você, certo?
– Exato. Você é o Herdeiro de Hades, hospedeiro do Toque da Morte. Chamam de Herdeiro aquela pessoa que, como você, tem alguma habilidade e seu pai ou mãe é uma figura desconhecida, que usa um pseudônimo de um deus Grego ou Romano – explicou Jason calmamente. – Uma pessoa pode hospedar mais de uma habilidade, se treinar com afinco, como eu, por exemplo – o loiro se levantou da cadeira, afastando-a para trás e erguendo as mãos diante do rosto. – Sou um Herdeiro de Júpiter, ou Herdeiro do Vento e, assim como você, também sou um Hospedeiro do Toque, só que o meu é o Toque de Energia – e criou uma centelha esférica de brilho azulado em sua palma aberta, onde fagulhas piscavam brancas e rápidas, ao redor. Fechou a palma rapidamente, e a centelha se extinguiu tão rápido quando surgiu. – Entendeu tudo até aqui?
– Por mais confuso que tenha sido a sua explicação, eu entendi – brincou Nico. – E sobre a tal guerra?
– É nesse ponto que eu queria chegar – ele disse, se sentando novamente na cadeira. – Nós somos um grupo de resistência, e temos o codinome de Olimpo. A Corporação Tártaro é apenas uma construção enorme de uma grande organização, que antigamente era secreta, mas hoje age como uma espécie de polícia especializada em conter qualquer Hospedeiro que encontrem por aí. Ainda não temos muitas informações sobre essa organização, a não ser por seu nome: Atlas. Os homens que... mataram sua mãe, eram dessa organização, e eles queriam te levar para a Corporação Tártaro, vivo ou morto, mas sua irmã os poupou deste trabalho, pelo que eu soube.
Bianca. Nico sentiu saudade de sua tão querida irmã, do seu abraço e de sua voz gentil; mas seu rosto era uma forma indistinta, encoberta por uma fina camada de penumbra, que insistia em não sair. Nico se sentiu confuso, após alguns segundos de rápido raciocínio.
– Como você sabe sobre minha irmã? – perguntou ele, olhando no fundo dos olhos azuis de Jason. – Eu não me lembro de ter contado à eles, sobre ela.
Jason hesitou, desviou o olhar para as próprias mãos, e depois voltou a encarar Nico.
– Você nunca se perguntou como eu sabia que seu toque era anulado por uma luva? – rebateu o loiro.
– Você estava na excursão, de forma que isso era uma das informações que eles cedem – especulou Nico, tendo quase certeza disso.
– Em parte isso é verdade – ele disse, curvando-se para trás e recostando-se no apoio da cadeira. – Mas eu já sabia do seu Toque e sobre as luvas antes mesmo de ir para a Corporação. Como eu te disse antes, lá na Corporação: alguém me contou.
– Para de enrolar e vá direto ao ponto, droga – exclamou Nico, sentindo-se confuso e ansioso.
– Já que insiste – ele disse. Levantou-se e andou na direção da entrada da tenda, afastando o tecido azul com uma mão, abrindo um pequeno espaço para o exterior movimentado da tenda. – Espere aqui, eu já volto.
Nico esperou, andando em círculos pelo perímetro da tenda, onde uma pequena lâmpada de brilho forte e amarelado iluminava o interior da habitação, posta no centro, onde o teto se afunilava.
Ele está te enganando, idiota, gritou novamente aquela voz lamurienta em sua mente, e havia pressa em sua voz. Ele vai trazer aqueles homens de máscaras, que vão arrancar sua roupa e te prender a algemas novamente! Saía daí agora! Vamos! Rápido!
– Ele está aqui? – murmurou uma voz do lado de fora da tenda, e a voz era familiar à Nico. Não. Não pode ser. O garoto sentia seu coração bater violentamente contra suas costelas frágeis.
Estava parado no centro da tenda, com o capuz da blusa negra abaixado, fitando com apreensão a entrada, e a luz da lâmpada brilhava em seu rosto pálido e magro — quando uma mão afastou o tecido da entrada, e um rosto espreitou o interior do recinto. O rosto era muito parecido com o da sua mãe: os olhos, os cabelos cor de chocolate escuro, o rosto.
Nico sorriu não acreditando no que via, e ao mesmo tempo não se importando se era real ou apenas uma peça pregada por Jason e por todos ali. Bianca estava ali, correndo em sua direção com os braços abertos, nada mais importava. Nem a guerra, nem seu pai, nem a Corporação Tártaro ou a Organização Atlas. Envolto no abraço dela, o mundo havia parado de girar, e uma grande felicidade inundou o garoto por completo, e ele chorou lágrimas quentes e salgadas de pura felicidade, que rolavam pela pele de seu rosto e caía nos ombros de sua irmã.
– Nico – ela sussurrava, com as falas entrecortadas por suspiros e fungadas de choro. – Oh, Nico, eu pensava que você... – e chorava mais, apertando o abraço ao redor do corpo frágil do garoto.
Que eu estava morto? Bem, até eu mesmo cheguei a pensar nisso, ele pensou, apertando o corpo dela contra o seu, sentindo a sensação apaziguadora de seu abraço apertado. Eu pensei que você estivesse morta, ele pensou novamente, com mais lágrimas de felicidade vertendo de seus olhos. Depois de alguns minutos entrelaçados num feliz abraço, Jason finalmente entrou novamente na tenda, sorrindo para Nico, e o garoto e a irmã se afastaram, sentando-se ambos nas cadeiras de madeira.
– Foi ela quem me disse, Nico – falou o loiro, em pé ao lado do garoto, com o sorriso simples e espontâneo despontando de seus lábios levemente avermelhados. – Ela me contou tudo sobre você.
Nico limpou o rosto manchado de lágrimas com as costas das mãos enluvadas, engolindo o que deveria ser o último dos soluços, e ergueu os olhos para Jason, aquiescendo levemente com a cabeça, e um leve sorriso no canto de seus lábios surgiu, espontâneo e feliz, seus olhos azuis brilhando intensamente com uma nova luminosidade.
O coração de Nico falhou uma batida, assim como sua respiração. O garoto sentiu um calor no rosto e instintivamente desviou o olhar do rosto branco de Jason, fitando agora o tão belo rosto de Bianca, que se assemelhava, três anos depois, muito com o de sua mãe.
– Você realmente conseguiu escapar – disse Nico, lembrando-se do último vislumbre de sua irmã, penetrando na densa penumbra da madrugada em Nova Iorque. – Mas, como chegou aqui?
– Eu ainda insisto em dizer que foi tudo uma grande coincidência – ela respondeu, olhando para Jason e sorrindo. – Depois que eu falei pra você entrar naquele prédio...
– Que, coincidentemente, era o prédio da Corporação Tártaro. – disse Nico, levemente irritado. A voz esganiçada e lamurienta gritava em sua mente, num misto de desespero e pressa: Foi culpa dela! Tudo foi culpa dela! Se ela não tivesse te mandado entrar naquele lugar, você não teria passado por tudo isso! É culpa dela! Mate-a! Mate-a! MATE-A! E Nico se curvou à voz pela primeira vez, concordando mentalmente com ela que Bianca o havia feito sofrer, que ela o fez matar Percy, que ela... O garoto chacoalhou violentamente a cabeça de um lado para o outro, afastando esses pensamentos assustadores de sua mente. Como ele pôde pensar em matar a própria irmã? – Desculpe, continue...
–... que eu não tinha nem sequer ideia do que era – ela continuou, ignorando a interrupção de Nico. – Eu fugi, sem rumo, com aqueles malditos vestidos de ternos e roupas pretas me seguindo pelas sombras da cidade. Eu corri durante muito tempo, e já sentia o cansaço gritar em mim em cada músculo do meu corpo, quando senti me agarrarem pelos braços, puxando o tecido da jaqueta que você me havia dado, e eu só me lembro de ficar me debatendo e gritando para me soltaram enquanto eles me empurravam contra uma parede e colocavam um cano de arma na minha cabeça, gritando para eu ficar quieta se não me matavam “assim como matamos sua mãe”, eles disseram; e nesse momento fechei os olhos e fiquei desesperada. Eu só queria sair dali, me afastar daqueles homens, e parece que esse desejo foi atendido, pois eu não mais sentia os apertos na jaqueta – na verdade eu nem mais a sentia no meu corpo. Eu abri os olhos e vi que meu corpo despencava como se estivesse flutuando num abismo escuro e sem vida, e acima de mim os rostos dos homens de preto me olhavam, atônitos e confusos, segurando em suas mãos a jaqueta.
– O que? – perguntou Nico, se inclinando para frente, também confuso. – Como você fez isso?
– Na época eu nem sabia o que eu tinha feito, mas agora eu sei; depois que eu terminar a história de como eu cheguei até aqui eu te conto – ela respondeu, fazendo sinal com a mão para que Nico aguardasse. O garoto se recostou novamente na cadeira, a atenção voltada para Bianca. – Quando eu finalmente parei de cair, me vi num lugar desolado e deserto, onde paredes de uma mansão caída davam um aspecto assustador para o lugar, ainda mais este banhado pela luz da noite...
– Então eu a encontrei – disse Jason, colocando a mão no ombro de Bianca e sorrindo para Nico. Mais uma coisa que tenho de agradecer à ele, pensou o garoto, sorrindo fracamente. – Na verdade, eu e Thalia a encontramos, já que estava em nosso turno de vigia, mas isso não vem ao caso, o que importa é que agora vocês estão juntos novamente – ele finalizou, e no instante seguinte uma espécie de sirene de som abafado e estridente ecoou pelas paredes da Fortaleza, penetrando na tenda e nos ouvidos sensíveis de Nico.
– Hora do Jantar – disse Bianca, levantando-se da cadeira e estendo a mão na direção do Nico. – Vamos?
O garoto hesitou, olhando para o rosto de sua irmã, onde o sorriso estava belamente estampado, e depois olhando para Jason, que simplesmente assentiu; tomou a mão estendida de sua irmã e juntos eles saíram da tenda, caminhando entre as esquinas do acampamento, até onde o jantar seria servido.
Jason caminhava ao seu lado, e Nico teve de conter a enorme e gritante vontade de envolver sua mão pequena, pálida e ossuda na mão forte e quente do loiro.
***
O garoto abriu os olhos lentamente, e seus olhos embaçados varreram o ambiente ao redor.
Ainda estava na Sala Branca, sentado na cadeira e com os pulsos e tornozelos ainda presos.
Abaixou os olhos, vendo sua camiseta coberta de sangue escuro e encharcada de água, assim como o piso branco, onde uma poça do líquido rubro misturado com água brilhava com a luz branca da sala.
– Acordou? – perguntou uma voz rouca e sussurrante alguns metros à sua frente. O garoto ergueu os olhos para a figura que se aproximava a passos lentos e despreocupados, envergando um jaleco branco até os tornozelos, que esvoaçava como uma capa atrás de si conforme ele andava. Tinha um ar impotente e uma áurea sombria. Tinha nas mãos uma seringa, e no interior um líquido vermelho se remexia. – Hora de ver se isso vai funcionar...
Faça o que quiser, o garoto pensou novamente. Não vou dizer nada. Minha missão já foi completa e meu fim profetizado. Nem a possibilidade de morrer pela sexta vez o assustava mais, já que depois de algum tempo o ressuscitariam novamente, apenas para testar novas coisas e lhe aplicar um pouco de tortura.
A agulha da seringa penetrou na pele de seu pescoço, onde antes a bisturi lhe abrira carne e nervos e o matara, mas que agora não havia um mínimo vestígio de que isso acontecera, a não ser a sensação que seu cérebro havia gritado. O líquido foi ejetado dentro de sua circulação sanguínea, e ele parecia queimar.
– Agora vamos começar – disse a figura, se abaixando na frente do garoto e ficando frente e frente à ele. – Isso que eu ejetei em você, é o sangue de um Herdeiro de Nêmesis, e ele tem um efeito bem peculiar em outros Hospedeiros: apenas um pouco da quantidade desse sangue, pode criar outra personalidade em seu subconsciente. Uma personalidade que apenas pensa em vingança e em matar; uma personalidade insana, que, com o tempo, vai tomando conta de você, de seus pensamentos e depois de todo o seu corpo. Como irá ser o efeito em você, que salvou o Espécime XY, e foi deixado para trás, como se não fosse nada nem ninguém para ele?
Eu não me importo com isso, pensou ele, fitando os próprios pés pálidos e magros.
Sera?, perguntou uma voz distante e fraca em sua mente. Você o salvou, sacrificou a sua vida para libertá-lo, e ele nem sequer volta para pegar o seu corpo e lhe dar um enterro digno para as pessoas que você tanto ama...
Ele pensou que eu estivesse morto, e voltar também seria perigoso. Um suicídio!
Mas foi isso o que você fez, não é? Mesmo sabendo que morreria se viesse o salvar, você veio do mesmo jeito... E agora está fadado a morrer no mínimo três vezes por dia, e tudo por causa desse seu egocentrismo e sua impulsividade idiota! Ele o matou! Nico Di Angelo o matou... E agora você quer pagar... Você quer vingança...
– Não... Eu não quero nada. Ele está livre e eu sabia que isso iria acontecer – ele murmurou em voz baixa. A voz sussurrante preenchia toda a sua cabeça, e sua mente agora era confusa e sem sentido.
Não minta para você mesmo... Ele o enganou, assim como todos na Fortaleza. Você era um inútil para eles, apenas um empecilho; uma peça que poderia ser facilmente descartada. E agora ele, o Herdeiro de Hades, vai te substituir e tomar tudo que te pertencia. Mate-o, mate-o, mate-o, mate-o, mate-o, mate-o, mate-o, mate-o, mate-o, mate-o, mate-o, mate-o, mate-o, mate-o, mate-o, mate-o...
– Não... Pare com isso... Pare... PARE! Eu o amo... Não posso...
– Ho-ho, acho que teve um efeito mais rápido e melhor do que esperava – refletiu a figura em sua frente, impulsionando o corpo para cima. – E agora, o que você deseja fazer, Percy Jackson?
Alguns longos minutos, onde a mente de Percy labutava para controlar aquela voz insana em sua mente, passaram-se — rápidos como se fosse apenas segundos -, e logo, o moreno se sentia exausto e inclinado a desistir.
– Eu... Eu... – gaguejou o garoto, cerrando com força o punho preso, enterrando as unhas na carne das palmas. A voz sussurrava em sua mente: você quer matar, você quer matar todos os Hospedeiros da Fortaleza, você quer criar a guerra com as próprias mãos, você quer sangue, vingança, você quer... O garoto ergueu os olhos verdes opacos e sem brilho para o rosto frio e duro do homem em sua frente, fitando profundamente sua íris vermelha como sangue e disse num tom de voz sussurrante e rouco como a voz em sua mente: – Eu quero matar Nico Di Angelo.
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