Totentanz

4 Capítulo Três


Estação Gasolina, 23:00 PM

Quando Sin acordou, a primeira coisa que fez foi vomitar. Sangue e terra; ela sentia que estava desmoronando por dentro e sua única vontade era morrer. Sua garganta queimava. A Estação inteira queimava.

Deixaram seu corpo longe o bastante, na terra, para que não queimasse junto. Secaram a gasolina de suas roupas rolando-a na terra, o que a fazia parecer uma carne empanada, já que estava molhada em sangue também.

A noite já havia caído e foi então que Sin percebeu que o carro não estava ali.

Sam não estava ali.

Seu corpo inteiro estava doendo, a sensação era de que seus ossos haviam sido moídos. Ela estava tonta e tinha quase certeza que havia sangue em seus pulmões. Ela se colocou de quatro e tossiu, sangue saía violentamente enquanto ela pescava golfadas desesperadas de ar.

Em seu braço, um corte ardia. Fora feito com uma faca serrada, como uma de pão, ela podia sentir, e não havia sangue. Haviam tido o cuidado de limpar após cortar sua carne.

Seu coração apertou quando engoliu em seco e sentiu o silêncio pairar ao seu redor, o barulho do crepitar das chamas e o cheiro de cinzas a intoxicou completamente, corpo e mente, e ela se arrependeu profundamente de ter vindo. De ter trazido Sam.

Sam.

A lembrança do corpo inconsciente de Sam em seus braços a deixava louca, imaginando o que fora feito da garota. Sua pele alva e seus olhos fechados, o cabelo vermelho misturado com terra e seu torso sem controle, Sin estava chorando. Estava engasgando em lágrimas e tossindo, cuspindo dor.

Ela jurava por tudo o que lhe era sagrado, se algo acontecesse à Sam...

Quando ela olhou o machucado no braço, reconheceu imediatamente o desenho. Logo abaixo da dobra de seu braço, havia um H. A letra H. Mas não era simples assim, nele, haviam dois corações: um na primeira ponta em cima e o outro na última embaixo.

Era a assinatura de Hailey.

Depósito Wolf, 11:59 PM

Sam acordou atordoada. Sua cabeça latejava e o corte estava coberto de sangue seco, que fazia com que seus cabelos estivessem sujos e grudados na testa.

Seus olhos estavam lacrimejando e havia fumaça escura em toda a parte; ela não sabia onde estava, tudo era escuro. Ela não estava amarrada, a não ser por suas mãos laçadas nas costas. Se encontrava no chão, molhada com gasolina até os ossos, as roupas grudadas à pele.

Gasolina. Bastaria uma faísca para acabar com sua vida.

Ela pensou em Sin e sentiu uma dor no peito. Sin havia matado aquele homem e explodido aquela plataforma.

Sin estava com seis balas em seu colar quando foi e sete quando voltou. Ela se perguntava o que as balas significavam. Fora Jockey que ela matara? Não podia ser. Sin e Jockey eram amigos. E ela disse que teriam que parar ali antes de ir até ele, então devia ser algum outro homem, mas o interesse de Sin em matá-lo era o que atormentava Sam.

Quantos outros segredos aquela garota escondia?

E o jeito com que ela o havia seduzido antes de matá-lo, aquilo fora desumano. Ela sequer hesitara em mentir, em enganá-lo. O horror nos rostos dos outros homens pairavam na mente de Sam e ela se sentia enjoada.

O cheiro da fumaça só a fazia lembrar de Sin saindo da loja pela porta dos fundos, limpando seu bastão como quem acaba de jogar uma partida de baseball num dia qualquer, o jeito como ela não se importou com a perda dos outros três senhores, com a vida que acabara de tirar. Ela parecia mais preocupada em ter manchas de sangue em seu brinquedo do que nas próprias mãos.

Sam se jogou de quatro e vomitou no chão. O cheiro de cabelo queimado e sal entupindo sua garganta; ela não conseguia se manter firme nas próprias pernas. Seus braços cambaleavam. Sin correndo até ela. As manchas na camiseta branca. As sete balas no peito. Os olhos de horror quando viram Sam. Sam vomita e chora. Sangue escorre de seu nariz com a imagem de Sin ninando-a no colo e pedindo que abrisse os olhos. Suas mãos tremem quando ela esconde o rosto. O terror de estar sozinha e ter sido sequestrada, a vergonha de ter deixado sua mãe pra trás, do mesmo jeito que Josh fizera com ela, o medo, a repulsa da imagem de Sin correndo até ela. A sensação do peito de Sin subindo e descendo conforme a respiração. A água pingando de seus cabelos e nenhuma gota de sangue sequer daquele homem. Nenhuma gota de remorso.

Ela deita no chão de terra, se contorce de dor, sua cabeça está latejando e seu corpo inteiro dolorido, mas o que a mais machuca são seus pensamentos. É saber o quanto fora idiota ao sair daquele carro. O quanto fora idiota ao sair de seu quarto, naquela noite. Ela chora e soluça.

Havia vômito e sangue em seu cabelo e roupas e, nesse momento, presa em um lugar que não sabia onde ficava, com pessoas que poderiam matá-la, Sam imaginou se a faísca que acabaria com sua vida era, na verdade, Sin.



Estrada Para Lugar Nenhum, 1:00 AM

Sin jamais deveria ter parado naquela estação. Não com a garota no carro.

Ela poderia ter pêgo Adam uma outra hora, e se o tivesse feito, não teriam esses problemas agora. Não teria que se meter com outros membros do Cartel e não teria que envolver Sam nisso. Não nisso . Ela queria que Sam estivesse bem. Segura.

Seu carro já era. Ela estava no meio da Estrada Pra Lugar Nenhum, esperando que alguém passasse. Sin, porém, ainda tinha suas coisas: pelo visto, quem levou Sam teve a enorme bondade de deixar sua mochila e seu taco na terra com a menina. Beatrice estava na mochila, quebrada em duas partes e Sin estava trocando de roupa. Realmente, uma generosidade. Sin estava tocada.

Ela não via a hora de encontrar o filho da puta que fizera isso.

Pensando bem, vestida de jeans e camiseta, nunca conseguiria carona. Ela precisava chamar atenção de homens atoa para tomar-lhe os carros, e daquele jeito, vestida igual um menino rebelde, ela não conseguiria nada.

As missões “Apagar os Nomes na Lista do Papai” e “Achar o Responsável Pelo Vírus J Para Carmine” haviam sido substituídas por conseguir um carro e achar Sam por motivos de urgência. Por desespero.

Sin não queria pensar no assunto mas, se Sam realmente estivesse com Hailey, ela não teria muito tempo. Enquanto se vestia, pensava no inevitável. Pensava na garota morta, Hailey sorrindo no topo da pilhagem da semana, com sangue correndo por entre o ouro e zombando no espelho o que falaria a Josh. E a culpa era toda de Sin.

Com roupas curtas e pele mais à mostra do que ela se sentia confortável, Sin caminha pelo acostamento da estrada. Ela cantarola uma antiga canção do código que M lhe ensinou e pensa nele. Sente falta dele. Sente os olhos dele sobre ela enquanto anda.

Com M a vida era mais fácil. Era só fogo e cinzas. Era instável e perigosa, mas Sin sente falta de cada momento que passou com aquele grupo. O grupo dos incendiários. Sua verdadeira família.

É verdade, havia passado por poucas e boas ali, como quando lhe encontraram, com quatorze anos, chorando nas sarjetas.

“É apenas uma garota M, vamos embora antes que os vermelhos apareçam.”

Jogada nas ruas, em meio à sujeira e ao cheiro de gasolina, Sin estava chorando. Ela sentia falta do pai, sentia muita falta dele. Sentia medo por ele, medo de que não seria solto e não voltaria para ela após o problema nas docas. Ela sabia que estava por contra própria a partir dali e não queria tomar a responsabilidade.

“Não existem apenas garotas, Jinx. Existem faíscas que precisam de um rumo até a fogueira. Mas, definitivamente, não existem apenas garotas.”

E quando aquele homem estendeu a mão em direção a Sin, olhando em seus olhos, e, mesmo quando ela demonstrou repulsa, ele sorriu e a levou com ele, ela soube que ali era sua casa.

Ele era sua casa.”

A Estrada Para Lugar Nenhum tinha esse nome por que, ao final dela, ficava um enorme depósito de ferro velho. O Depósito era propriedade dos Wolf antes do incidente. Antes do incêndio forjado que M armara para matar os velhos e para Sin provar seu valor no grupo. Ela não sentia orgulho daquilo.

Era uma noite quente de verão, e ele estava entediado. Sin se lembra de seus sapatos de dança gastos batendo no chão, impacientes. Os sapatos de M eram algo interessante para se pensar. Gastos na sola, os sapatos de dança eram a marca dele. Seu charme era infalível e o garantia tudo o que queria.

M era um homem alto, que tinha cabelos compridos e louros, tão dourados que pareciam ouro. Seus olhos, o castanho mais misterioso que Sin já vira. Vestia-se, sempre, como se acabasse de sair de um baile. Usava um terno azul escuro com gravata borboleta, com sapatos de dança e sempre de cartola. M era atraentemente estranho. Inquestionável e talentoso.

Sin tinha uma afeição enorme por ele. Seus sapatos, como dizia, estavam gastos embaixo de tanto dançar. Mas não era uma simples dança em um salão de baile; M sentia enorme necessidade de dançar nas cinzas, literalmente.

Sempre que causava um incêndio, voltava no dia seguinte, quando o fogo já se acalmara para dançar sobre as cinzas, e sempre levava seu ajudante para provar de sua loucura também.

Naquela noite, a ajudante fora Sin.

Repentinamente, ele se levantou da cadeira e pegou os galões de gasolina. Pegou a menina pelo braço e foram até o Depósito Wolf, enquanto a família dormia.

A família Wolf adquirira aquele lugar na Estrada Para Lugar Nenhum num golpe de sorte. O Sr. Wolf apreciava apostas altas em dinheiro, e quando contou a Sra. Wolf (que estava grávida) que ganhara um enorme ferro velho, a moça não pôde fazer muito, se não aceitar o que o destino lhe trouxera.

É claro que Sin não sabia que os dois estavam dentro do Depósito naquela noite. E, enquanto via as pilastras do lugar serem lambidas pelas chamas, bêbada com a gargalhada de M e vinho tinto, a única coisa com que ela se preocupava era se estava dançando direito, sob as cinzas da Família Wolf.

Hailey Wolf nunca teve motivos para prejudicar o Cartel 68 com um vírus como aquele, e nunca soube do envolvimento de Sin na morte de seus pais, mas isso era o que Sin achava. Talvez a garota soubesse mais do que se estimava.

E talvez, sua irmã gêmea ainda estivesse desaparecida.

Para a sorte de Sin, era melhor estar.



Depósito Wolf, 1:20 AM

Quando abriram a porta do quarto escuro, Sam achou que ficaria cega. A claridade que entrou foi um choque e dois homens fortes a colocaram de pé, segurando-a pelos braços. Ela se debatia e gritava.

"Onde eu estou? Onde estamos indo?"

Eles eram enormes e seus braços, cobertos com tatuagens. Ela reparou, no pescoço de um deles, logo abaixo da orelha, um H jeitoso, mas não era tatuagem. Aquela letra havia sido queimada na pele, como uma marca em um cavalo.

Conforme era arrastada, Sam percebeu que estava em um corredor. Seus pés deixavam uma marca em meio a toda aquela fuligem e cinzas. As paredes eram igualmente escuras e aquele corredor não parecia ter fim. As mãos fortes apertando seus braços estavam fazendo seus ombros e costas doerem e ela estava recobrando os sentidos somente naquele momento. As coisas estavam parando de girar e ela estava retomando noção da situação em que estava.

Sam estava no corredor da morte.

Quando a luz de outra sala foi se aproximando, o coração da menina disparou. Ela havia parado de se debater e agora só rezava para ficar bem. Rezava para Sin — ou até mesmo Josh — estar ali para salvá-la.

Ela odiava se sentir tão inútil a ponto de alguém ter que salvá-la. Ela queria ser forte o suficiente para si mesma mas não tinha forças. Ela havia perdido tanto sangue e não botava os olhos em comida há praticamente dois dias. Ela estava exausta e preocupada com Sin, com Josh e até mesmo com sua mãe; o remorso de deixá-la finalmente caiu.

Eles entraram em uma sala maior, uma sala central sustentada por pilastras enormes e roliças. A sala inteira estava banhada em uma luz amarela e haviam espelhos por toda a parte, moedas e ouro refletiam e tudo o que Sam podia ver eram objetos de valor, pilhas deles.

Em cada pilar estava um homem similar aos que levavam Sam; fortes, vestidos em preto e com o H no lado direito do pescoço, bem visível. Os espelhos aumentavam ainda mais o número e quando Sam viu seu próprio reflexo, sentiu que iria vomitar.

Sua blusa azul estava chamuscada de fogo e alguns pedaços haviam sido queimados, deixando à mostra sua pele machucada pelas queimaduras. Sua jaqueta, provavelmente havia sido perdida. Estava imunda dos pés a cabeça e seu cabelo estava cheio de fuligem e cinzas. As lágrimas deixavam marcas no seu rosto sujo de terra e pólvora e seus olhos, vermelhos. Ela estava horrível.

Ali, em meio ao ouro, Sam se sentiu enjoada. Todo aquele dinheiro e fortuna era sufocante e ela não via a hora de sair dali. Seus pés se arrastavam por entre as moedas, deixando rastros. Seus braços estavam formigando e ela queria chorar.

Em meio às outras, havia uma pilha em especial, bem maior e repleta de coisas absurdas. Coroas, joias, dentaduras, até mesmo roupas feitas de ouro formavam uma montanha e, quando Sam deu a volta, viu duas poltronas no meio da pilha.

Duas garotas parecidas ocupavam os lugares. Ambas com cabelos louros, uma os tinha curto enquanto a outra, absurdamente comprido. A semelhança entre as duas era notável, eram obviamente irmãs, e Sam não havia gostado de nenhuma das duas.

A de cabelo curto lixava as unhas, com uma perna sob um braço da poltrona e a outra balançando na pilhagem, fazendo moedas rolarem montanha à baixo. A de cabelo comprido estava com um espelho de mão, sorrindo para o próprio reflexo e, quando esta pôs os olhos em Sam e cutucou a irmã, Sam viu a maldade nos olhos azuis das irmãs louras.

Estrada Para Lugar Nenhum, 1:30 AM

O primeiro automóvel que se aproximou na estrada foi um caminhão. O motorista passou direto por Sin, nem virou o rosto. Ela continuava andando em direção ao Depósito mas estava seriamente exausta. Seu corpo inteiro doía e seus pensamentos não a deixavam em paz.

Pensava na voz do telefone, mandando-a ir atrás de Jockey. Pensava no fogo no bunker, e se fora realmente ele ou se era um motivo para ela se preocupar. Talvez M estivesse alertando-a — talvez estivesse provocando-a. Andar por aquela estrada lhe trazia memórias de tempos no Castelo e ela não se sentia totalmente confortável com as lembranças. A marca em seu pescoço se arrepia com o pensamento; a única queimadura em seu corpo, feita pelo próprio M, anos atrás.

Ela não pensava na marca. Não pensava nessa noite. M era perigoso, e ela temia que estivesse querendo reaparecer.

Ela ouviu um barulho, finalmente, alguma carona. Era uma moto, e nela, um rapaz.

Sin fez sinal para que ele parasse. Ela se sentia desconfortável com aquelas roupas; elas mostravam demais, eram vulgares. Sensualidade, para Sin, era sinônimo de sublime e quente, como fogo. Ela se sentia fria como um fósforo apagado usando roupas curtas.

O homem aparentemente discordava. Encostou a moto e tirou o capacete para olhar para o corpo dela de cima à baixo.

"Oi boneca", ele sorriu.

Ela percebeu que ele tinha um dente de ouro — ela poderia apreciar isso. Seu cabelo era grande e penteado inteiramente para trás; dividido ao meio, uma metade era preta e a outra branca. Ele se vestia em couro e Sin se sentiu ligeiramente interessada. Ele parecia um garoto malvado dos anos oitenta. Era cômico.

Ela, porém, apenas sorriu.

"Eu estava indo com meu pai ao zoológico, mas ficamos sem gasolina."

Ele entendeu imediatamente do que se tratava.

"Oh, que trágico. E você deixou o papai lá atrás com o carro?"

Ela sorriu.

"Talvez o papai tenha acabado de me encontrar."

Ela puxou o bastão para a frente do corpo e o passou pelas pernas expostas. A camiseta amarrada na altura do umbigo a deixava com aspecto despojado e indecente, mas ela tinha certeza que se estivesse com botas e laços na cabeça, ele se sentiria bem mais a vontade.

Sin riu sozinha com a comparação.

Ele indicou que ela deveria subir na moto e cedeu-lhe o capacete. Sin o recusou. Mandou-o dar para que precisasse.

"Para onde vamos amor?"

"Depósito Wolf", ela sussurrou ao pé de seu ouvido. Sin poderia muito bem passar algumas horas com esse motoqueiro entre quatro paredes. Ela sentiu-o sorrir e antes de ligar a moto novamente ele fez uma última pergunta:

"E a princesa tem nome?"

Sin sorriu. Não foi um sorriso de satisfação ou de alegria, e sim de prazer. Foi o tipo de sorriso que a fazia ganhar entradas grátis em eventos e festas, que faziam os homens — e as mulheres — encararem por mais alguns segundos, e mesmo que ninguém estivesse vendo, Sin abriu esse sorriso. Ela se segurou no torso do motoqueiro e disse rente à seu pescoço:

"Você pode me chamar de Pecado."



Depósito Wolf, 2:00 AM

Sam caiu no chão; seu rosto sendo prensado contra moedas de ouro. A irmã de cabelos compridos pisava em sua cabeça e ela gritava e se debatia, tentando golpea-la. Ela não aguentava mais. Estava esgotada. Estava sangrando.

Estava pensando em como sairia dali. É claro, ela nunca admitiria nem mesmo para si mesma, mas uma parte de si desejava que Sin estivesse ali com toda a força. Mas então ela lembrava a si mesma, constantemente, de que todo aquele problema era culpa de Sin, e deixava o pensamento de lado.

Puxaram-na para trás pelos longos cabelos e a seguraram, jogando-a sentada em seguida. Sem ter tempo para levantar, com o impacto de seu cóccix batendo na solidez dos objetos da pilha, a irmã de cabelo curto sentou em seu colo, desconfortavelmente próxima, e cortou sua bochecha com uma navalha de barbear. O sangue escorreu em gotas gordas.

Sam a empurrou para trás enquanto gritava. Pôs-se de pé e pegou o primeiro objeto que alcançou da pilha, sem tirar os olhos das irmãs. Era um suporte; candelabro ou castiçal — ela não queria saber. Quando a irmã de cabelo curto se levantou, Sam a golpeou na cabeça e ela caiu sobre a pilha, moedas rolaram por todo o salão. A garota se perguntava de onde vinha toda essa pilhagem.

O cheiro de ouro fundido e metais era maciço. Sam podia sentir o mormaço e começava a pensar que aquele depósito era mais do que um ferro velho — que inclusive, pelo que ela vira — não tinha nada de velho.

Vendo que a irmã de cabelo comprido fora ajudar a outra, Sam correu. Correu até seus pulmões doerem e tentou encontrar uma saída daquele lugar. Era enorme, as pilastras ficavam em seu caminho e ela fazia barulho enquanto andava. Estava correndo sob moedas.

Ela se escondeu atrás de uma das pilhas; seria vista, com certeza. Cada fibra de seu corpo dizia que ela seria pega e morta. E um castiçal não a salvaria disso.

Uma das irmãs, ela não sabia qual, estava arrastando algo por entre o ouro. Seus passos eram leves e o tilintar que faziam ao tocar ao chão aterrorizavam Sam. Ela tapou a boca com as mãos e rezou para que não a vissem ali. Ela pensou na noite em que deixou a mãe em casa. Pensou em Sin, saindo do posto após ter matado aquele homem, pensou em Josh, no dia em que fora para a faculdade.

"Aqui, porquinho!", a loura chamou. "Porquinho, porquinho, porquinho."

Sam estava aterrorizada. Em silêncio, encostando no mínimo de coisas que podia, ela andou até a próxima pilha. Estava abaixada e segurando a respiração, pisando apenas em pequenas porções de moedas e desviando de tudo que era maior. O problema era que: a partir dali, ela ficava visível aos homens nos pilares.

Passou por trás do primeiro; uma das irmãs ainda arrastava algo, convidando Sam a fazer qualquer som reconhecível. A outra deveria estar procurando em outra direção. Ela precisava sair dali.

Quando ia desviar do segundo homem, algo explodiu. Era, provavelmente a entrada central. Sam se levantou e começou a correr. Novamente, um erro fatal.

Assim que disparou em direção à explosão, agora cheia de poeira, um dos homens a pegou pela blusa e a ergueu, batendo-a contra o próprio pilar. Nesse momento, todo o ar do corpo de Sam se esvaiu e ela sentiu as costas estalando. Ele pegou e jogou-a no chão. Quando ele subiu em cima do corpo de Sam, seu cheiro de suor e pele coberta por tatuagens, ela sentiu que era o fim. Chegou próximo de seu rosto e a socou na face. Sangue escorria violentamente de seu nariz agora, e o peso do corpo dele contra o dela a estava machucando.

Ele pegou o castiçal que ela segurava e tentava erguer para atingi-lo, e golpeou-a na cabeça, reabrindo o corte antes feito e ela pôde sentir o metal dentro de sua carne. Sam gritou como nunca na vida, e sem ter controle das palavras, ela chamou por um nome.

Pelo nome dela.

Depósito Wolf, 2:00 AM

Sin entrou. Aquilo estava uma algazarra. Havia ouro por toda a parte e dinheiro cobrindo o chão. Hailey estava sentada aos pés de uma pilha, com as mãos na cabeça. Ela sangrava. Sua moto estava logo na entrada do prédio.

A explosão fora fácil, ela só precisou jogar um isqueiro na moto do garoto e boom , entrada livre. O coitado esperava por ela, atrás do depósito, amarrado e surrado.

Beatrice estava quebrada, mas não era inútil.

Enquanto entra, ela repara, aquele lugar havia mudado bastante desde a última vez que Sin fora, na noite do incêndio. Antes, haviam grandes espaços vazios e carros quebrados por toda a parte. Peças, máquinas, o cheiro de óleo fervente. E agora havia toda esta fortuna.

É claro, Hailey era assassina de aluguel e ladra, mas levariam anos para juntar toda essa pilhagem, e não fazia mais de um mês desde a última vez que a vira. A não ser que…

Ela estava ali. A irmã gêmea havia voltado. Harley estava de volta.

Isso explicaria todo o dinheiro e o silêncio de Hailey após o fechamento do Cartel. Se a irmã resolveu reaparecer e retomar o poder dos pais no Caís dos Pobres, elas poderiam controlar toda a via férrea da Cidade Alta com apenas um mapa. A verdade era que Sr. e Sra. Wolf sabiam controlar o fluxo, eram boas pessoas, bom sangue, mas suas filhas não. Hailey perderia o controle com facilidade e explodiria qualquer coisa que a irritasse.

Inclusive, enquanto Sin se movia por entre as pilastras, ela se levantava da pilhagem, a cauda de seu vestido fazendo o movimento de uma cobra em meio ao ouro. E por mais que Sin procurasse, ela não via Sam em lugar algum.

As moedas se apertavam no chão embaixo das botas de Sin, ela andava cautelosamente e aproveitando-se as áreas inundadas pela poeira que ainda não abaixara. Andava abaixada mas reta o bastante para manter o passo firme e rápido, em seu interior, se remoía de culpa e medo por Sam.

A vontade de escalpelar Hailey a consumia.

Cada fibra de seu corpo estremeceu com o pensamento da garota nas mãos de uma das irmãs. Sin nem sabia se ela conseguia se defender em uma briga, quanto mais uma briga injusta e cheia de trapaça como Harley armava.

Quando finalmente a viu, estatelada no chão, com um brutamontes em cima de seu corpo e sangue colorindo o ouro ao redor de sua cabeça, os olhos esbugalhados e os lábios roxos, Sin sentiu como se estivesse em chamas. Um desespero avassalador tomou conta de seu interior e quando percebeu, já estava correndo para perto dela.

Seu coração estava sendo esmagado pela culpa e remorso e tudo o que ela mais queria era ajoelhar ao lado da garota e a pegar no colo, protegê-la do mundo e dizer como sentia muito. Era culpa dela. A dor de Sam doía duplamente em Sin.

"Sintriss. Quanto tempo, não é mesmo?"

Sin parou. Sua garganta estava fechada e não sentia o sangue circular nos dedos, graças aos punhos cerrados. Dizer que seus olhos estavam marejados de tristeza ou culpa seria mentira, o ódio era sólido e ela sentia seu corpo em combustão.

Ela odiava demais aquela garota. Odiava como ela puxava a letra “S” como se fosse uma cobra, como se passasse a língua por entre os dentes. Queria atear fogo nela enquanto dormia, para vê-la agonizando como se estivesse sonhando.

Mas Sam parou. Sam olhou para ela. Sam estava chorando, e Sin viu o desespero em seus olhos. Fez silêncio por alguns segundos, só para ouvir claramente seu coração se partindo.

Ela olhou nos olhos da garota, viu a si mesma ali, com quatorze anos, com medo nas ruas. Ela virou o pescoço para onde a chamaram e sentiu Harley arranhando a pele de seu pescoço com as unhas. Seu cheiro de perfume e especiarias era predominante e Sin achava que impregnaria em sua pele assim que a tocasse.

Assim que arrancasse sua pele.

"Harley."

A loura sorriu.

"Mas que bela surpresa. Você está...", ela respirou fundo e a examinou por inteiro. Seu olhar era leve e chiste. Sin odiava.

"Não se preocupe em terminar", Sin interrompeu. "Eu pretendo pegar a garota e… humm … atear fogo nessa merda de novo."

O sorriso de Harley se fechou; o de Sin se abriu.

"Você…"

Sin cortou novamente:

"Onde está a baranga da sua irmãzinha?"

A loura a estapeou. Uma mão aberta no meio do rosto. Sin sentiu o sangue de suas bochechas correr por baixo de sua pele e começar a formigar.

"Qual é Hail, você adorou a última vez em que brincamos", ela aumentou o tom, ainda encarando Harley. A garota avançou para cima de Sin e esta a empurrou para a pilastra mais próxima. Mais baixa, porém mais forte e rápida.

Sacou a primeira faca do cinto e pressionou contra a garganta da irmã. Gotas cheias deslizaram, manchando a superfície da faca. Quando uma encontrou o dedo de Sin, a garota levou-o a boca e lambeu o sangue. Olho a olho com Harley, ela abaixou o tom e foi tão sóbrio e vil que ela sentiu a loura estremecer.

Quando os guardas ameaçaram movimento, Sin indicou que parassem. Um olhar baixo bastou para mantê-los imóveis.

"Você sabe, não deveria brincar com pessoas marcadas."

"Eu não faço ideia do que você está falando", a garota cuspiu.

"Você me queria aqui, não tem problema algum. Um simples convite bastaria para me trazer até está espelunca pra chutar a sua bunda, mas você não mexa com aquela garota."

Sin socou-a e bateu sua cabeça contra o pilar. Sua pele contra o concreto. Sem sinal de Hailey.

"VOCÊ NÃO ENCOSTE UM DEDO NELA", ela gritou.

Harley se encolheu contra a pilastra. Ela sabia que Sin havia matado seus pais e provavelmente aguardava a hora certa para se vingar, só não o havia feito ainda pois sabia que Hailey seria a próxima na mira da garota.

O silêncio estabilizou o ar e tudo o que se ouvia eram respirações.

Sin estava impassiva, seus olhos, porém, famulentos como um mar em tempestade, marejados e completamente cheios de ódio.

"Não queremos você aqui, Sin."

Era Hailey. Seu tom era receoso, ela estava medindo as palavras.

Sin olhou para o homem que estava em cima de Sam, ambos estavam estáticos, encarando-a. Sam não chorava mais. Estava atônita.

"Saia", Sin ordenou. Hailey confirmou a ordem com a cabeça e o homem se deslocou. Sam sentou-se, com cuidado e dolorosamente.

Sin olhou nos olhos de Harley antes de virar para encarar sua irmã. Ela puxou a manga da jaqueta e mostrou a marca no braço.

"Eu estou na dúvida, agora que está em mim, é seu ou meu?", perguntou ironicamente.

Hailey, diferente de sua irmã, não sabia do envolvimento de Sin na morte dos pais. Ela culpava M inteiramente pelo feitio.

"Sin, eu não deixei isso em você."

Ela se aproximou.

Sin fez o mesmo.

"Um de seus homens deixou. E ainda me deixou alguns ossos quebrados, vários hematomas, hemorragias e raptou minha amiga."

Ela se aproximou mais. Sin via o que ela estava fazendo. M a ensinara aquilo. Ela virou o torso e permaneceu andando na direção contrária de Hailey, como se as duas estivessem desenhando um círculo no perímetro, procurando o melhor lugar para atacar.

"Não mandamos fazer isso" a loura insistiu.

"Não mandou meu rabo; é a sua assinatura!"

"Sin… eu te dou minha palavra…"

"E quanto à Josh?", Sam interferiu.

Sin não tirou os olhos de Hailey, por que seus instintos diziam para manter a atenção, mas o que ela realmente queria era ir até Sam. Hailey voltou sua atenção para Sin e perguntou baixo:

"Quem é essa?"

"Não te interessa…"

Sam interrompeu limpidamente:

"Eu sou a irmã dele."