Totentanz

5 Capítulo Quatro


Depósito Wolf, 3:30 AM

Sin estava encarando Sam. Lado a lado, as duas estavam presas com correntes nos pulsos. Uma pilastra maior sustentava todo o ferro e as deixava na ponta dos pés.

Após dizer que era irmã de Josh, as duas irmãs louras se encararam e atacaram Sin. Foi uma questão de tempo até acorrentarem as duas novamente. Dessa vez, Sin estava com um olho roxo e Sam, um lábio cortado que pingava, manchando sua blusa.

Ela deveria ter ficado calada.

Mas de algum modo, Sin não parecia brava.

"Machucaram você?"

Mas Sam preferia que estivesse.

"Não."

A garota a encarava. Seu cabelo estava caindo em pequenas madeixas escuras, curtas o bastante para não cobrir os olhos, apenas a testa. Ela estava suada e sua silhueta, esticada; com os braços pendidos acima do corpo e praticamente na ponta das botas, Sin a olhava minuciosamente. Seu olhar pedia perdão.

Pois era Sam quem estava brava com ela. Toda aquela encrenca era culpa dela e estava abalada pelo assassinato que cometera antes.

"Sam."

Ela nunca havia dito seu nome antes. Sam se arrepiou e gostou de como soou aos seus lábios.

"Eu estou bem."

Sin suspirou e deixou sua cabeça pender para frente.

"Sam, eu sei que isso é culpa minha e…"

"Quem era aquele homem?" Sam cortou, Sin a olhou. "O que você matou mais cedo, era Jockey?"

"Não!"

As garotas passaram a se encarar nos olhos. Sin tinha esses olhos verdes que sempre pareciam brilhantes e sedutores, mas Sam faria casca grossa. Ela estava ali por Josh. Onde, exatamente estava Josh?

Essas perguntas aterrorizavam Sam e ela tentava evitá-las.

"Aquele homem era…" a voz de Sin era amarga e sóbria, ela parecia estar forçando demais os dentes para falar aquilo. O osso de seu maxilar ficava marcado sob a pele quando ela fazia isso. "Ele fez uma coisa muito ruim no passado."

"E você vai me dizer que ele mereceu aquilo? Sin, você explodiu ele!"

Sin parecia fria agora.

"Ele mereceu."

"Me conte o por quê" Sam exigiu.

Sin gaguejou.

"Eu... não posso."

Era típico. Sam era infantil demais para saber dos problemas dela. Mas é claro. Ela se arrependia de ter saído de casa e ter conhecido Sin. Estava presa, sem seu irmão e tudo o que ela queria era retroceder no tempo e trancar a janela de Josh naquela noite.

"A questão é essa, não é..." começou Sam, "você nunca pode. Nunca pode me contar. Nunca pode ser clara comigo. Você me arrastou para esse inferno e o mínimo que eu te pedi foi honestidade."

"Você não entenderia" Sin cortou.

"Você nem tenta me explicar! Se a sua vida é fodida, acredite, a minha também é."

"Você trabalha em uma cafeteria!"

"E você trabalha com uma… mafia doida! Sei lá. Eu não ligo! Eu só sei que estou aqui prestes a morrer e tudo o que eu queria era achar meu irmão, mas nem sobre ele você fala comigo. Não me diz o que sabe."

Sin estava lambendo os lábios e rindo ironicamente, prestes a explodir, pensou Sam.

"O seu irmão era um playboyzinho que sabia um pouco demais sobre computadores e se meteu na maior merda da vida dele", ela estava gritando. "O seu irmão mentiu pra você. O seu irmão fugiu quando a coisa ficou feia. Pro inferno com ele, espero que esteja morto!"

Sam virou o rosto para frente. Sentia as lágrimas queimarem em seus olhos e seu cabelo comprido tampava parte de seu rosto. Ela queria ir embora. Queria vomitar. Fechou os olhos com tanta força que pensou que jamais se abririam novamente. Ela não derramaria uma lágrima sequer na frente daquela garota.

O silêncio não durou por muito tempo entre as duas, pois enquanto as garotas engoliam em seco, outra porta explodiu e a poeira subiu novamente. O cheiro de faíscas e metal fundido, junto com terra e gasolina pura. Sam sentiu sua garganta fechando. Ela estava tão magoada e exausta de Sin que seu peito doía só de pensar.

Em um baque, suas correntes caíram do suporte e elas se soltaram. Sam ajoelhou no chão, esfregando os pulsos marcados e secando as lágrimas. Se fosse sincera, não ligava muito para o que aconteceria a seguir.

Ela ouviu disparos de armas e risadas altas. Ouviu gente cantando e gritos. A fumaça do fogo a fazia tossir.

Sin a tomou pelo braço e começou a puxá-la.

"Não encoste em mim", Sam gritou, soltando-se.

Seus pulmões se enchiam de fumaça e poeira e sua visão estava turva de lágrimas.

"Temos que sair daqui", Sin gritou de volta.

Sam começou a se afastar de Sin quando algo explodiu ao seu lado e a fez cambalear. Sua cabeça se encheu com o som de risadas quando um homem alto a bateu com um ferro, atrás da cabeça. A garota caiu para frente, as costas expostas.

O agressor virou seu corpo, agora deitada de costas, Sam se deparou com o maior sorriso que já vira em sua vida.

"Bem vida ao inferno, querida."

E enquanto sua visão apagava, ele caminhava em direção à Sin, já caída, mas não sem antes deixar um pano no nariz de Sam.

Casa de Fogo, 11:30 AM

Sin acordou envolvida em lençóis. Estava vestida e com fome. Não sabia que horas eram ou onde estava. Estava descalça.

Olhou em volta, era um quarto grande. Papel de parede vermelho cobriam as paredes e a mobília era antiga. Havia um piano próximo à janela e uma enorme penteadeira com espelho. Ao lado do tapete, próxima ao mosqueteiro branco que cobria a cama, estava uma bacia de água, que enchia o quarto de um fino vapor.

Sam não estava ali.

Ela se levantou. Em cima da penteadeira, havia um relógio de pulso que indicava as horas. Estava perto do almoço e Sin estava esfomeada. Antes de sair, porém, seu corpo foi mais forte e a arrastou para dentro daquela água.

Um banho, pensou ela, depois de toda aquela sujeira e cansaço, um banho. A água era quente e Sin desejou que ela lavasse seus problemas. Que os levasse para longe.

Tudo estava completo agora: a ruína de seus dias. A garota estava brava com ela, magoada, e Sin dissera coisas que não devia naquela briga. Hailey não estava com Josh e não sabia onde ele estava, como contou antes de Harley pular em cima de Sin. Estavam, novamente, em um lugar desconhecido e Sin estava nua, na bacia de tal estranho.

Como os bons tempos.

Quando vestida novamente, abriu a porta do quarto e imediatamente reconheceu o lugar.

"Tá de brincadeira…"

"Sinne."

Ela se arrepiou dos pés a cabeça.

Era ele. Após todos aqueles anos.

"M."

Ele sorriu. Estava vestido com seu típico terno azul escuro — Sin não se lembra de tê-lo visto em outras roupas -, e sua cartola puída. E, é claro, os sapatos de dança.

"Minhas boas vindas", ele saudou.

M era um homem pálido com um sorriso enorme. Não no sentido de grande, grandes lábios, grandes dentes; mas aquele tipo de sorriso sedutor, psicótico o bastante para atrair uma multidão e que assustaria qualquer um na luz errada. Ele tinha esse jeito de olhar para as pessoas que deixava a sensação de violação, como se soubesse todos os seus segredos.

"Onde está Sam?"

Sin aprendera a não temer M com o tempo. Aprendera que certos sorrisos não devem ser abertos em algumas ocasiões, e que outros devem ser guardados. Se diz muito de uma pessoa pelo jeito que ela sorri.

M era um anarquista. Tinha afeição pelo inesperado e nunca jogava de acordo com as regras, a não ser que se tratasse de um jogo de verdade — prezava muito sua honra.

"Em outro quarto", ele falava devagar e em tom baixo. Sua voz era doce e veludo, o que facilmente o confundia com um psicopata. "Eu mesmo me certificarei de levar café, junto com meus cumprimentos para ela na cama."

Sin o olhou desconfiada.

"Não vai fazer nada à ela, vai?"

M se aproximou e ofereceu-lhe o braço.

"Nada que não tenha feito à você, querida."

Eles desceram juntos até o salão. Era onde os incendiários treinavam, correndo, queimando e praticando. M tinha superiores entre os outros, mas gostava de observar tudo de cima, analisando, julgando. Também passava muito tempo dançando pelos corredores, apenas vagando seu corpo leve e esguio por ai. Levava tanto jeito que observá-lo era metódico. Sin achava que era seu jeito de hipnotizar as pessoas.

Sin também achava que ele era louco.

"Eu não vou ficar — adiantou ela.

Encostaram perto de uma pilastra lá embaixo, o movimento ao seu redor.

"Eu imaginei", ele respondeu. "Mas, por favor, tome um café primeiro. A primeira refeição é a mais importante."

Ele sorriu daquele jeito novamente. Seus olhos brilhavam toda vez que o fazia.

Ela pegou em suas mãos. M era uma pessoa boa.

"Obrigada por ontem no depósito, e por nos deixar passar a noite."

Ele sorriu e beijou-lhe as mãos.

"Encontramos seu carro", ele disse. "Estava alguns metros atrás do depósito."

"Ótimo. Obrigada."

Ela abraçou-o e disse em seu ouvido:

"Quando ela acordar, diga que precisei sair. Voltarei para buscá-la."

"E onde a senhorita vai?"

Ela sentiu o colar com as sete balas apertando entre seu peito e o de M.

"Resolver um problema."



Casa de Fogo, 17:00 PM

Sam acordou sem ar e suando, estava em uma cama.

Olhou ao redor e não reconheceu o lugar, percebeu apenas que era grande e chique.

Sua cabeça latejava e seus lábios estavam em chamas, ela sentia como se estivesse acordando da pior ressaca de sua vida, e seus pulmões doíam toda vez que ela respirava.

"Ora, vejam quem acordou!"

Ela se virou de prontidão, havia uma pessoa atrás da cama. Acontece que nesse quarto a cama estava literalmente no meio do aposento, coberta por um mosqueteiro e envolta em seda, e ela não havia visto o homem que a observava por trás, com os braços atrás das costas e um sorriso horripilante no rosto.

Ela cobriu o corpo com os lençóis, apesar de estar vestida.

"Quem é você?"

Ele passou andando e sentou-se na poltrona ao lado da cama. Seu andar era rítmico e lembrava passos de um dançarino ou ator teatral. Seu cabelo ia até as orelhas e era louro, mas estava penteado, de modo que parecia muito jovem — ela não sabia sua idade.

Sua boca era o quê chamava atenção nele, além de sua presença, postura e olhos mais penetrantes que qualquer abusador, seu sorriso era lascivo. Sedutor não passava nem perto de uma definição; aquele sorriso era apetitoso, era a luxúria em si e ela estava indecisa entre o pavor e a paixão.

Ele se levantou em um pulo; seu corpo era esguio e relativamente magro. Sem músculos, ela notava, mas suficientemente forte para seu porte. Ela se perguntou se aquilo era real.

"Oh céus, onde estão meus modos?!", Ele sorriu e fez uma reverência de apresentação curvando as costas. "Eu sou Morfeu, mas a senhorita pode me chamar de M."

Morfeu.

Sam lambeu os beiços.

"Onde eu estou?"

Ele voltou a ficar reto. Seu ar era de ofensa e diversão.

"Não me dará o prazer de seu nome?"

Ela piscou. Quem era aquele homem? Onde estava Sin? O que houvera no depósito?

Oh.

"Você me apagou no depósito!", sua voz se aumentou gradativamente enquanto se lembrava dos acontecimentos. "Você me atingiu com aquilo e agora eu estou aqui! Onde está Sin?"

Morfeu tornou a se sentar.

"A senhorita Sin teve que se ausentar por um momento."

Sam se levantou da cama e correu até a porta.

"Samantha Esme, pare onde está."

E Sam parou. Ele sabia seu nome.

De costas para ele e a alguns metros da porta, ela tinha certeza que iria morrer. Ouviu-o levantar e andar pelo quarto.

"Sabe, eu não sou seu inimigo, mas você estragou nossa apresentação."

Sua voz era calma e a cada palavra Sam tinha um arrepio percorrendo-lhe o corpo.

"Onde eu estou?"

Ele se aproximava.

"Em minha casa."

Morfeu passou seu braço esquerdo pelas costas de Sam e, lado a lado, abriu a porta para passarem. Saíram em um corredor comprido e Sam deixou-o para observar o que havia embaixo. O quarto da frente era o de Sin e estavam claramente no segundo andar. No final do corredor, uma escada dava acesso ao primeiro piso e ela ouvia sons diversos vindos lá de baixo.

Quando apoiou-se para olhar, Sam sentiu M falando perto de seu ouvido:

"Bem vinda à Casa de Fogo, senhorita Esme."