Totentanz

6 Capítulo Cinco


Bar Pônei Saltitante, 17:00 PM

Sin foi jogada através das portas do bar, sentiu um puxão e uma dor devastadora quando suas costas bateram no chão, ela caíra sobre uma das garrafas que atirou nele, quando estavam dentro do boteco. Sentiu seus tecidos rasgarem e sua pele pender. Ela deu um grito arfante e virou de lado, mas não conseguiu remover o vidro. Cuidaria disso mais tarde.

Hank era um transportador ilegal de drogas pelo cais. Ele permitia a entrada e saída de mercadoria proibida nas docas e era ele quem manejava os containers. Fora ele quem armara a armadilha para seu pai naquela noite. Era ele quem pagaria com a vida nessa.

A garota passou o peso do corpo para um joelho enquanto se apoiou no outro e apanhou a pistola em seu cinto. Ela sentiu as sete balas entre seus seios e o sangue escorrendo pela blusa nas costas. Estava suada e fraca, mas forte o bastante para puxar o gatilho que fez com que Hank tombasse, sem vida e com os olhos furiosos vidrados.

Ela não aguentava mais essa luta. O dono do bar estava gritando dentro da taberna, mas cada palavra mal dita em coreano só a fazia mais cansada. Ele não argumentaria contra uma arma e manteve sua cabeça baixa quando Sin voltou para pegar uma garrafa de licor gratuitamente. Ela merecia.

Com um olho inchado e roxo, vários hematomas e roxos pela pele e boca sangrando — isso sem falar da fenda nas costas — Sin voltou para o carro. Adicionou a bala gasta em Hank ao colar e bebeu goles generosos da bebida. Deixou que o ardor em sua garganta fosse maior que o em suas costas e, em silêncio e com o gosto de vingança nos lábios, ela dirigiu de volta à casa de M.

No meio do caminho, a tela do painel de seu carro se ascende e mapas aparecem.

Junto aos mapas, Sin engole em seco, a voz.

"Olá Sin."

Sin resmungou e tirou o cabelo da testa.

"Humpf, o que você quer?"

"Vi que encontrou o perfil no bunker. Ele foi de bom uso?"

Estava falando do perfil de Jockey. Sin sentiu uma pontada de raiva.

"Não. Na verdade, ele me levou até uma emboscada e eu derramei sangue demais lá."

A voz deu uma risada curta.

"Sinto muitíssimo em ouvir isso, mas tenho outra coisa pra você."

Era só o que faltava, outra coisa? Sin riu com sarcasmo. Ela já estava exausta desse babaca por trás dessa voz mandando-a em missões fraudes.

"Perfeito", ela rosnou.

"Você vai até a Cidade Alta. Lar doce lar, não é mesmo?"

A garota sentiu um arrepio descer-lhe o pescoço, a Cidade Alta era coisa dos velhos tempos. Era onde ela encontrou com os incendiários e onde iam atacar. Era onde seu pai estava preso. E Sin não sabia se Carmine ainda chantageava a polícia para deixá-la impune ou se era uma procurada nas ruas. Não poderia voltar.

"É muito arriscado."

"Mas eu prometo que vale a pena! Veja bem, o que é um pequeno risco perto de um grande amigo?"

"Que amigo?" Sin perguntou.

A voz riu novamente e a garota percebeu que sorria enquanto falava.

"Estopim? O nome lhe é familiar?"

Sin trincou os dentes.

"O que você fez com ele?"

"Vá até ele. Eu vou enviar a localização de Estopim para o seu carro e você estará lá pela manhã. Não me desaponte."

E com isso, a voz desligou e no painel permaneceu o mapa, enquanto Sin socou o volante e conteve as lágrimas, sentindo o sangue escorrer por sua blusa.



Casa de Fogo, 17:30 PM

"O que quer dizer com isso?", Sam perguntou.

Eles caminhavam pelo jardim da Casa, que era realmente grande. M contara que aquele era uma antiga casa presidencial, que fora destruída e tomada pelos rebeldes incendiários e pelos ciganos, e fora onde M nasceu. Ele era incendiário e cigano. Expulsaram as pessoas que ali moravam e dominaram o lugar para si, e assim se formou a Casa de Fogo.

"Quero dizer que ela não tem família próxima", ele respondeu casualmente. "A mãe de Sin foi morta quando ela tinha quatro e o pai está na cadeia. Sem irmãos. Sem tios. Pobre alma."

Sam estava abismada; a garota não lhe contara que era sozinha no mundo. A garota não lhe contara nada. E o que o pai deve ter feito de tão ruim para que fosse preso?

Isso explicava todo aquele rancor.

"E como você sabe de tudo isso?", indagou, curiosa.

O jardim de Morfeu era deslumbrante, havia todos os tipos de flores ali e, misturadas formavam uma bagunça maravilhosa. Era como se um pintor tivesse espirrado e todas aquelas cores de repente surgissem juntas. No meio, havia uma fonte tão velha que não corria mais água, repleta de moedas no fundo, e caminhos de pedra que percorriam todo o jardim.

Ela se perguntava se o céu era algo similar.

"Sin é uma garota difícil", ele suspirou.

"Nem me diga."

Não haviam borboletas por perto, mas o ar estava recheado de mariposas. De pretas ao cinza, passando pelo marrom e pelo tom de ferrugem, elas pousavam nas flores e rodeavam Morfeu, como se ele fosse uma força superior. E talvez fosse mesmo. Sam agora via que ele era, na verdade, um homem curioso, no mínimo; perigoso, sem dúvidas, mas suas intenções ali não eram feri-la. E ele era lindo. A parte de Sam que clamava por romance explodia dentro dela toda vez que ele abria um sorriso e ela sentia seu rosto corar. Seu sorriso parecia encantar até as mariposas.

Uma pousou no topo da cabeça de Sam, e a menina não se incomodou em perceber até que M riu e a espantou.

"Criaturas adoráveis" ele comentou. Seu andar era tão espontâneo que o deixava leve nos próprios pés.

Continuaram caminhando por entre as flores até que chegaram à fonte. Seu topo, onde seria o chafariz, estava quebrada e crescia uma roseira do buraco, que se desenrolava por todo o monumento rachado até o poço com as moedas. Sam e M sentaram-se ali. Ela queria perguntar sobre as moedas secas mas não queria interrompê-lo.

Morfeu tinha uma mariposa pousada entre os dedos e observava e brincava com o inseto.

"Quando encontrei Sin, ela tinha apenas quatorze anos", começou. "Seu pai havia sumido e ela estava embaixo de um papelão nas docas. Já era arisca nessa época. Eu a trouxe comigo e a criei do mesmo jeito que fui criado aqui. Ela passou quatro anos comigo."

Sam assentiu, incentivando-o a continuar.

"Sin sempre teve um olho para a chama e sabe escolher um vinho como ninguém", ele sorriu. Um sorriso paterno. "Eu a criei como minha irmã e ela se apegou muito a mim. Contou-me sua história. Seus medos. E eu…"

Ele parou assim que a mariposa voou. Ele a observou ir para longe até desaparecer.

"Eu a ensinei a não ter medo", ele terminou. Quando o fez, olhou para Sam. "Tenha paciência com ela, só parece ser insensível até se apegar. Ela tem um bom coração e nunca esquece um amigo."

"Ela também não confia em um para ajudá-la", Sam bufou.

Ele riu.

"Não espere que ela peça ajuda, não vai acontecer", M pôs o braço pelos ombros da garota, como se fossem íntimos. "E com o tempo ela vai ser sua confidente. Quem sabe até mais. Quer chá?"

Sam se perguntou se M dizia isso por conhecer Sin. Queria dizer que ela capturava garotas aleatórias e as amava até se cansar e ir atrás de outra? Ela sorriu para ele e, ao fundo, atrás de M, viu o carro de Sin estacionando. Viu a garota sair dele e vacilar ao andar, como se seu corpo fosse pesado demais para se sustentar. Um braço segurava um ombro e o outro pendia, e ela se arrastou para dentro da Casa.

"Por falar no diabo…", M comentou.

Sam entrou em alerta.

"Ela está ferida?"

Ela estava preocupada sem perceber, seus instintos a diziam para levantar e correr atrás dela, mas quando se pôs de pé, Morfeu segurou seu braço.

"Lembre-se do que eu lhe disse. Dê espaço à ela e tudo ficará bem."

Ela pôs sua mão sobre a dele.

"Obrigada."

Ele sorriu. Não o mesmo sorriso paternal de antes e nem um sorriso Sin. Foi o sorriso que também poderia ser usado como sinônimo de caos. O sorriso Morfeu. O sorriso de quem sabia de algo que ela não sabia, ou que poderia prever o futuro; Sam não duvidava. Anos depois, ela percebeu que os sorrisos das pessoas, as vezes, falam muito mais do que palavras.

E ela partiu para dentro da Casa, passando pelo jardim e pelas portas onde Sin se adentrara. No banco do motorista do carro, ela reparou, havia sangue escorrendo no couro, e fez com que seu coração se apertasse. Onde ela havia ido? O quê acontecera?

Ela correu para dentro e seu primeiro palpite foi o quarto de Sin, que, como M lhe dissera antes, era o quarto em frente ao de Sam.

Quando entrou, não a viu. Sua blusa, porém, estava jogada no chão, encharcada em sangue, e ela ouvia gemidos vindos do banheiro.

Sam estava receosa, Sin havia claramente se machucado e a coisa havia sido feia.

"Sin?" ela chamou.

Os gemidos pararam, a respiração de Sin estava alta no banheiro e a porta estava encostada. Ela soava como um animal ferido.

"Não entre aqui."

Sam se aproximou em silêncio do banheiro, os passos leves, o cabelo preso em um rabo de cavalo e ela estava suando um pouco. Pela fresta da porta ela viu Sin sentada em cima da pia, vestida apenas em seu jeans, suas botas e um sutiã preto.

Nas costas da garota havia um corte enorme, que passava de perto do ombro até a metade das costas. Sin havia tentando limpar e começado a costurar, mas não estava dando certo. Ela mal alcançava o ferimento.

Sam, boquiaberta, abriu a porta e entrou. Descalça, a menina pisou em sangue e hesitou ao ver a poça. Sin a encarava pelo espelho. Seus olhos verdes estavam brilhando e lacrimejando de dor, lágrimas se recusavam a cair mas suas bochechas estavam coradas.

Elas não disseram nada por um tempo. Sam estava embasbacada com a cena e Sin estava constrangida. A ruiva se aproximou e pegou a agulha e linha da mão da garota sem dizer uma palavra.

Sin a olhou nos olhos pelo espelho antes de descer da pia e, dolorosamente, por-se de pé no chão. Ela era pouco mais baixa que Sam e seus cabelos pretos estavam bagunçados e ligeiramente molhados.

Sam ergueu um canto da boca em sinal de compadecimento e Sin se debruçou sobre a pia lentamente. Sam pôs-se atrás de seu corpo, seu quadril em contado com o dela e reparou nos músculos e cicatrizes que suas roupas escondiam ao longo da pele. Ela desabotoou o sutiã da garota devagar e observou o corte. Limpou-o. A tensão no ar era massiva.

Ela tinha cheiro de menta, colônia e cobre. Sam sorriu; moedas, perfume e chiclete, Sin tem cheiro de bolso de jeans.

O banheiro de piso de granito escuro agora estava manchado de vermelho e o ar, cheio de gemidos de dor; a lamuria de Sin fazia o coração de Sam se apertar. Ela não queria causar nenhum tipo de dor a ela.

"Me desculpe", ela pediu em um ponto que a menina se retesou de dor.

Sin suspirou e se virou, ficando de frente com Sam.

A primeira coisa que a garota reparou foi nos seios segurados pelo sutiã que estava nas mãos dela, praticamente caindo, voluptuosos e próximos, e logo abaixo, cicatrizes ao longo da barriga da garota. Subindo seu olhar ela passou pelos ombros e pelo pescoço e uma ânsia subiu-lhe à garganta. Sua pele era coberta por marcas de luta e cicatrizes antigas, e, entre seus seios estava ele. O colar. Sam engoliu em seco. Quando seus olhos chegaram aos de Sin, ela teve a sensação de arrebatamento.

"Me perdoe", ela pediu.

Sin tinha uma porção de pintas castanhas espalhadas ao longo do pescoço e no peito, deixavam-na charmosa e Sam chegou a desejá-la. Desejar seu corpo que parecia tão quente e fresco, com o sangue fervendo.

Ela fez uma reza silenciosa à todos os deuses que aquele sutiã caísse.

Sam se aproximou dela.

Talvez à alguns super-heróis também, só para ter certeza.

"Eu não terminei ainda", respondeu.

Sin manteve seu olhar fixo. Ela não sorria daquele jeito marrento, e nem fazia comentários irônicos, ela estava exausta. Sam via cansaço e arrependimento escorrer por seus olhos.

"Sam? Me responda."

Sam estava observando a linha de seu pescoço. O jeito como os músculos se esticavam quando ela falava e seu peito se elevava quando respirava. Via a linha dos ombros e forma dos braços, e como os ossos do quadril marcavam levemente sobre a pele. Ela sentia o calor que sua pele exalava da adrenalina e sangue quente correndo, o calor de seu corpo, seu cabelo molhado, os olhos verdes úmidos.

Sin aproximou-se e beijou-lhe os lábios. Fora tão rápido que Sam não teve tempo para respirar. A garota desceu por seu pescoço traçando trilhas de beijos e lamuriando. As marcas de dedos que apertaram seu pescoço enquanto a enforcavam no depósito, Sin cobriu em beijos.

"Eles machucaram você. A culpa é minha. Me perdoe."

Sam ficou estatizada. Cada fibra de seu corpo pedia afeto e queria deleitar do momento mas a única coisa que ela pensava era que aquilo estava errado. Ela não queria beijar Sin. Não naquelas circunstâncias. Não daquele jeito.

Ela não queria um beijo de perdão, ela queria um beijo de amor!

Espantada, segurou a garota pelos ombros e olhou em seus olhos molhados, Sam disse alto e tentando reprimir a repulsa instantânea que aquilo lhe gerou:

"Eu perdoo você. Eu desculpo você. Eu redimo sua culpa e acolho seu erro. Está tudo bem."

Ela sentia-se vazia por dentro, e pisando na poça de sangue que continuava a crescer com o ferimento ainda aberto, as duas se abraçaram e Sam pôs a mão sobre a cabeça de Sin, aproveitando-se dos centimentos que tinha a mais de altura para protegê-la de tudo dentro de um único abraço. Seus olhos caíram para algum ponto do chão e ela sentiu-se de repente morta. Todos aqueles sentimentos que surgiram de repente, todo aquele desejo bobo era platônico, era sem sentido. Ela riu de si mesma e percebeu que não aconteceria. Sin soltou uma única risada como se estivesse entalada na garganta.

"Você citou poesia ou algo do tipo?"

Mas Sam estava enevoada em seus próprios olhos, sentia-se bêbada em lucidez, como se a realidade a tivesse atordoado.

"Deixe-me terminar esse curativo."

Elas se separaram e Sin, cabisbaixa, voltou a se debruçar sob a pia, enquanto Sam suturava o final do corte.

"Teremos que ir embora ainda hoje", Sin disse.

Sam tentou esconder o quão magoada estava.

"Onde vamos?"

Sin rosnou quando a agulha entrou em sua pele.

"Ugh, Cidade Alta. Vamos atrás de Estopim."